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Ambiente & Sociedade

versão impressa ISSN 1414-753X

Ambient. soc. vol.13 no.1 Campinas jan./jun. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2010000100007 

ARTIGOS

 

Estética marítima pesqueira: perfeição, resistência e humanização do mar

 

Maritime fishing aesthetics: perfection, humanization and resistance of sea

 

 

Cristiano Wellington Noberto Ramalho

Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP e Professor Adjunto I de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal de Sergipe - UFS

Autor para correspondência

 

 


RESUMO

Este escrito analisa a definição que os pescadores artesanais do mar-alto da praia de Suape (PE) realizam sobre seu trabalho, ao categorizá-lo de belo. O belo é associado ao trabalho pesqueiro feito com perfeição, de maneira autônoma e aprazível. O que se traduz em formas de humanização do mar e do modo de vida dos próprios pescadores, produzindo, assim, uma estética marítima pesqueira.

Palavras-chave: Estética marítima. Pesca artesanal. Sociologia da pesca.


ABSTRACT

This paper examines the definition that the craft fishermen of Suape beach (PE) carry on their work, categorizing it as beautiful. Beauty is associated with the fishing work done with perfection, autonomously and pleasantly. That is reflected in the ways of the sea humanization and in the livelihoods of the fishermen themselves, thereby producing a maritime fishing aesthetics.

Keywords: Maritime aesthetics. Fishing. Fishing sociology.


 

 

1 Introdução

A beleza salvará o mundo! (Dostoiévski, O idiota)

Em um de seus livros, afirmou Roger Bastide (1971, p. 15, grifo do autor): "[...] com efeito, donde vêm nossas idéias sobre o belo? Elas não podem ser inatas, pois mudam com os lugares e os tempos." Tal assertiva coloca ingredientes provocantes para se analisar a categoria do belo como eterno e móvel, resultado da construção humana, dependendo de épocas, grupos, culturas e sociedades.

Outra análise interessante partiu de Agnes Heller, quando observou que "[...] a beleza constitui uma categoria muito mais ampla que o belo artístico." (HELLER, 1994, p. 204), ou seja, a beleza não está restrita a determinados eleitos, pessoas portadoras de um "refinamento espiritual", que seriam as únicas capazes de produzir, viver, sentir ou definir o universo estético1. Assim, o belo não se prenderia às belas-artes, embora encontre aí uma esfera importante, por apresentar-se em vastos campos societários dia a dia (religião, política, economia, ciência).

Para Wolfgang Haug (1997), projetos hegemônicos voltados ao estético irmanam-se - numa forte simbiose - aos marcos econômicos dominantes, e buscam impor (a moda é um exemplo disso) unidades societárias entre nações, culturas, classes e grupos, com vistas à reprodução do capitalismo. Segundo Ramalho (2007), isso não conseguiu apagar noções de beleza oriundas de vozes dissonantes repletas de irredentismos socioculturais, nascidas e mantidas por alguns sujeitos sociais que afirmam olhares e práticas existenciais distintas das hegemônicas, em vários casos.

Sendo fruto de pesquisa etnográfica desenvolvida ao longo de 2 anos (2004-2006)2 para minha tese de doutorado (RAMALHO, 2007), este artigo focaliza uma dessas vozes dissonantes acerca do belo: a dos pescadores artesanais do mar-alto da praia de Suape, litoral sul de Pernambuco; localidade essa distante cerca de 50 km de Recife e que é marcada historicamente pela exploração da produção canavieira e, recentemente, por agudas transformações ambientais negativas provocadas pelas instalações de um complexo portuário (o de Suape) em fins de 1970 e de um resort em meados da década de 19903.

Apesar de se situarem nesse contexto adverso, um fato me chamou atenção: os pescadores do mar-alto categorizaram seu saber-fazer pesqueiro de belo, reunindo nele atributos como resistência, perfeição, aprazível e humanização da natureza, enquanto um sentir compartilhado. Aqui, nessa definição êmica, modo de vida, trabalho pesqueiro e belo alimentam-se e expressam um processo particular e rico na relação ser social e meio ambiente.

Vale lembrar que a questão da busca ou manutenção da autonomia é comum a vários grupos de pescadores (DIEGUES, 1995; VALÊNCIO, 2007) e campesinos (BRANDÃO, 1995; GARCIA Jr., 1983) no Brasil. Todavia, em Suape, isso recebe características peculiares por associar-se a um projeto estético de vida e trabalho.

E é sobre essa estética pesqueira que discutirei de agora em diante, articulando teoria sociológica aos depoimentos dos pescadores.

 

2 O belo: perfeição, aprazível e resistência

Para os pescadores da praia de Suape, a estética marítima é a perfeição em manejar os instrumentos de trabalho da pesca e o próprio corpo em pleno ato da pescaria. A beleza inexistiria se não se traduzisse em perícia técnica, no uso preciso dos sentidos humanos, na compreensão do tempo certo de pôr a rede e ferrar4 o peixe. Qualidades essas que compõem o patrimônio da cultura produtiva pesqueira local e que se avivam diariamente na concretização do saber-fazer marítimo, afirmando a estetização do existir da pesca.

Assim como é empregada pelos pescadores no intuito de caracterizar o que vem a ser arte5, a noção de perfeição define a própria representação de beleza, cuja razão de ser apresenta-se no trabalho, segundo as transcrições das entrevistas feitas abaixo:

"Conseguir pescar com qualidade, com perfeição e... é aí que tá o belo. O artista com seu talento, com a perfeição mesmo é aí onde mora a beleza na pesca da gente. Acredito que é isso.

Entrevistador: Me explica mais sobre essa coisa da beleza ser talento e perfeição ao mesmo tempo, na pesca de vocês?

Acho que talento e perfeição são a mesma coisa, é uma coisa somente, vivem ajuntados, pra mim, porque é arte, e se é arte, coisa de artista, então é também perfeição e é em tudo bonito, né. Aqui, por exemplo... assim... a beleza é utilizar direitinho a rede pra capturar os peixes, saber aproveitar a força do vento e da maré, trabalhar bem com o corpo quando vai tirar a rede ou quando vai pôr ela lá dentro [em alto-mar], aí estão as capacidades do artista, de sua perfeição naquilo que se empenhou e da beleza de seu trabalho, no talento do cara, do caboclo" (Joaquim, proeiro6, 25 anos).

"O bonito é saber pescar bem, dominando tudo que tem na pescaria: saber qual é o vento quando ele bate na gente; ver a cor da água e a batida no mar pra saber que peixe vem; dar o lanço com a rede certa; ter o traquejo. Por isso que eu digo que o trabalho do mestre é a beleza maior da pesca, porque ele é perfeito. O cara sabe fazer de tudo" (seu Ulisses, proeiro, 66 anos).

"Beleza é o cabra, que é pescador, fazer tudo na base da perfeição no barco" (Marco, mestre7, 32 anos).

Se a pesca é perfeição do método e a perfeição é sinônimo de arte, o trabalho do pescador, no entender do jovem proeiro Joaquim, "é em tudo bonito", porque é na perfeição "onde mora a beleza na pesca da gente". Por isso, a objetivação da estética marítima encontra-se em "fazer tudo na base da perfeição no barco" (Marco), em "trabalhar bem com o corpo" (Joaquim), tendo por finalidade realizar boas pescarias. Diante disso, pode-se concluir "que o trabalho do mestre é a beleza maior da pesca, porque ele é perfeito" (seu Ulisses), é o talento maior do mundo aquático, o pescador mais sábio na lida com o mar.

Assim, o valor moral da perfeição contida na arte do trabalho é componente de forte peso na esfera do ato produtivo da pesca artesanal suapense. Todavia, tal categorização não é algo que se restrinja ao mundo dos pescadores, visto que inúmeros artesãos a levam em sua arte, na qualidade de um critério valioso, como foi revelado pelo estudo de Alegre (1994, p. 110, grifo do autor).

"A ética do trabalho, quando orientada pelo "espírito da arte", envolve três aspectos particularmente importantes. Em primeiro lugar, o trabalho torna-se o centro de toda a vida do indivíduo [...] Em segundo lugar, o artista sente orgulho da profissão e da sua condição de autonomia. Finalmente, os diferentes valores convergem para uma síntese de relação com o trabalho e a obra produzida, que se expressa na reputação do mestre" (ALEGRE, 1994, p. 110, grifo do autor).

"O aprendizado pode ser longo, a feitura do objeto pode requerer um domínio de técnicas e linguagem de materiais impossíveis de ser adquirido por meio de um conhecimento rápido e superficial. No domínio progressivo da arte está embutida toda habilidade e toda a criatividade do artista. O reconhecimento desse difícil processo por parte dos outros se reveste por isso de fundamental importância para o artista, pois do que o valor de troca, mais do que valor de uso, o objeto encerra e contém um valor moral do trabalho realizado" (Ibid., p. 112, grifo do autor).

Acredito que, além desse significativo valor moral da perfeição no trabalho pesqueiro, há outro ingrediente valorativo que se soma à definição do que é o belo, livre e artístico para os marítimos suapenses: a estetização do existir como valor de vida não cativa do trabalho pesqueiro.

Isso é uma mediação social prioritária para justificar o trabalho como território da arte e construtor do sentimento de homens libertos, opondo-se aos espaços esterilizadores de uma estética da existência que inibem o caráter do aprazível, do belo e da autonomia irmanados à esfera produtiva, como acontece, para os pescadores, no corte da cana, por exemplo.

O valor moral explicita que, em muitas situações, "[...] no ser social - o econômico e o extra-econômico convertem-se continuamente um no outro, estão numa ineliminável relação recíproca." (LUKÁCS, 1979, p. 44), cuja riqueza de componentes clarifica a íntima e insuperável vinculação entre simbologias e materialidades em nosso cotidiano.

Por exemplo:

"Para os pescadores artesanais, as águas não são linhas de montagem, meros lugares de produção mercantil. São territórios fundados em laços de pertencimento, nos quais circula a força da sociabilidade do trabalho, elos familiares, mitos, maneiras de humanização das águas e dos pescados, tempos e ritmos próprios, costumes tradicionais, lógicas econômicas que não se apartam de outros vínculos societários pesqueiros" (RAMALHO; NEGREIROS, 2009, p. 278).

Entre trabalhadores do mar de Suape, a coisa bonita [o estético] não é mero instrumento das vontades do capital, de suas restrições totalitárias e domínio direto, que são antíteses, para os marítimos, da vida estetizada e aprazível inerente à condição de artista do mar.

"A gente no trabalho de pescaria não faz o que os outros querem e tal, no nosso fazer profissional. Eu já trabalhei em outro lugar e não tinha liberdade, era cativo, obrigado, manobrado, porque trabalhava pros outros e tinha lá meu salário. Já o pescador é dono dele mesmo, de sua arte. A coisa bonita é isso: é ser liberto, é ter sua arte. Tá preso a outros não é bonito, não" (Jorge, proeiro, 23 anos).

"O pescador ele é cabra liberto, com seu saber de pescaria, seu jeito de viver no mar. Ter beleza é isso, e isso é muito gostoso" (seu Milton, mestre, 67 anos).

O produtivo, então, confunde-se com o imaterial e o imaterial faz-se material na orquestração de uma sociabilidade que se projeta tendo como característica o aspecto inegociável do controle direto do trabalho pesqueiro, da força de trabalho, da coisa bonita, do valor da arte de fazer-se pescador e do dever-ser que busca sempre a autonomia. Perder isso "não é bonito, não", porque a experiência mostrou, para o pescador Jorge, que quando ele vendeu sua força de trabalho "não tinha liberdade, era cativo, obrigado, manobrado". Ser cativo é oposto ao estético, ao sentimento do belo e à estetização moral do ofício.

Em síntese, "a coisa bonita é isso: é ser liberto, é ter sua arte" (Jorge), é ter opções maiores de escolhas, de efetivar alternativas em horizontes mais amplos, de criar em termos produtivos e estéticos, de dispor do "seu saber de pescaria" e de "seu jeito de viver no mar" (seu Milton), clarificando que o belo atua objetivamente na qualidade de barreira maior ao avanço pleno do capital e da sua razão instrumental sobre o mundo do trabalho pesqueiro (homens e mar).

Na realidade, em Suape, a medida da beleza está associada ao fato de não se estar sujeito a outrem; é ter uma economia moral da pesca que não permite a seu modo de vida ser sufocado pela instrumentalidade utilitarista do capital, ao explicitar-se cotidianamente enquanto "cabra liberto", portador de uma estética que é a resistência societária pela arte de viver da pescaria, "e isso é muito gostoso" (seu Milton).

Definir seu trabalho como algo "muito gostoso" o coloca em um patamar de também realização existencial, no qual o aprazível assume característica de insurgência, funcionando, de um lado, enquanto linha que jamais poderá retroceder em prejuízo da coisa bonita e, de outro, na qualidade de território para avanços mais concretos em direção às possibilidades tão sonhadas de emancipações futuras.

O aprazível, aqui, não se confunde, em momento algum, com o gozo despretensioso ou individualista desabonadores de sentimentos e sentidos comunitários, de um código moral, bem como não é o resultado de alienações que subverteriam processos humanizantes e, com isso, a riqueza do trabalho e sua contribuição essencial para o fazer-se livre.

Embora o dia a dia dos pescadores não passe incólume às influências do valor de troca, o ato valorativo estético tem a capacidade de externar (sempre que possível) alguns critérios de inserção dessa fração de classe na ordem societária totalizante.

Assim, a estética marítima pesqueira não deixa de ter em si a necessidade do comércio, situação que permite a subalternidade social dos trabalhadores do mar frente ao lucro e ao acúmulo capitalista efetivado por atravessadores e empresas de pescados. Porém, isso não representa que os pescadores suapenses coloquem-se apenas passivamente nesse processo sem quaisquer resistências, sucumbindo totalmente aos imperativos do capital. Na realidade, os marítimos integram o capitalismo construindo sua inserção balizada em práticas sociais próprias de valorização do trabalho, que se apóiam em suas tradições, na sua cultura do trabalho, nas mediações societárias específicas e nos projetos particulares de vida. Tudo isso se relaciona e se confronta com o capital, perde e também se afirma, integrando-se ao processo sociometabólico capitalista, porém sem negar a linha fronteiriça que, se ultrapassada, colocaria em xeque a coisa bonita e/ou aquilo que é muito gostoso.

Sahlins (1997), ao estudar a capacidade adaptativa e a força na defesa das tradições em populações locais (Nova Guiné e áfrica do Sul) que integram a sociedade plenamente globalizada, identificou que "[...] eles vêm tentando incorporar o sistema mundial a uma ordem ainda mais abrangente: seu próprio sistema mundo." (Ibid., p. 52).

Décadas antes, ao pesquisar camponeses e pescadores, Firth (1974, p. 109) externou:

"Pode não ser inteiramente verdadeiro dizer que o efeito do contato com o sistema industrial é a criação de situações irreversíveis. [...] Alguns desses novos bens materiais são incorporados na organização tecnológica e econômica existente. Outros podem provocar mudanças radicais no sistema econômico e social."

As acomodações e tensões encontradas no intercâmbio do pescador com empresas e/ou atravessadores de pesca detêm a mediação estética como espaço de resistência e termômetro que indica até onde essa situação pode ser levada, tendo em vista que se houver a ultrapassagem dessa fronteira ela se fará em prejuízo da própria beleza, quando o pescador torna-se cativo e abdica do atributo de ser artista do mar.

O depoimento abaixo é ilustrativo nesse sentido:

"Eu pego e ele [atravessador de uma empresa] desconta o valor do gelo na venda do pescado. O gelo eu topo porque é difícil de comprar em Suape e com ele fica mais facilitado. Vendo a ele lagosta, porque ele me paga legal, direitinho mesmo. Ele já insistiu muito pra pegar mais coisa fora o gelo, dizendo assim: "quer rede? quer combustível? tá necessitando de grana? Eu passo essas coisas sem bronca e depois a gente se acerta". Aí eu falo: "Não, obrigado". Não quero perder minha liberdade, minha arte, pra minha vida não ser mais de mim, porque aí a coisa fica feia pra mim, fica feio pra eu viver. A beleza, rapaz, é não ser dos outros" (Genildo, mestre, 35 anos).

O estético ganha utilidade humana de resistência, de irredentismo, de insurgência cotidiana frente à vida aprisionada ao utilitarismo do capital, que tenta impor a todo tempo uma situação que, no entender do pescador Genildo, ficaria "feio pra eu viver", principalmente pelo fato de que "a beleza, rapaz, é não ser dos outros", é de ser sujeito socio-histórico capaz de forjar liberdades possíveis que permitam o encantamento no mundo com o belo sobrevivendo e referendando passos de insubmissões diretas ou não.

A presença da feiúra situa-se no ditame direto do capital, na impossibilidade do pescador em ser portador da estética moral pesqueira inscrita na arte marítima e no uso não tolhido dos desejos desses trabalhadores, pois o êxito pleno das empresas de pesca no local faria soçobrar o belo e a arte da pesca.

Tomando como inspiração o estudo de Gilroy (2001) sobre a cultura negra norte-americana, a vida dos pescadores pode ser entendida também em oposição à "[...] separação fundamental entre arte e vida, essas formas expressivas reiteram a continuidade entre a arte e a vida. Elas celebram o enraizamento do estético em outras dimensões da vida social." (Ibid., p. 128-129). Este enraizamento do estético, no caso dos pescadores, insere-se no seu processo produtivo e, portanto, na constituição de sua arte de pesca fundada em pequenas e contundentes rebeldias diárias frente à jaula de ferro da razão instrumental mercantilista.

O estético é "[...] o fato de experimentar emoções, sentimentos, paixões comuns." (MAFFESOLI, 1997, p. 243), experienciando coletivamente algo que é essencial à vida e ao estar junto em grupo, e - subvertendo a noção de pós-modernidade e suas sociabilidades defendidas por Maffesoli -, constituindo um sólido projeto existencial entre pescadores que, se condenado, exilaria o belo e o aprazível de suas vidas8.

Embora tenha atributo político, a economia moral (THOMPSON, 1998), que serviu de base para inúmeras resistências populares na Inglaterra do século XVIII, oferece elementos valiosos que podem ser relacionados à estética marítima observada em Suape, visto que como esta, propicia as ações de resistência populares a partir das tradições e costumes de classe, irradiando seu calor sobre os valores econômicos de vida contra a pura racionalização monetária, como frisado por Thompson.

"Nenhum outro termo parece se oferecer na hora de descrever como muitas relações 'econômicas' são reguladas segundo normas não monetárias nas comunidades industriais e camponesas. Essas normas existem como um tecido de costumes e usos, até serem ameaçadas pelas racionalizações monetárias e adquirirem uma consciência de ser uma 'economia moral'. Nesse sentido, economia moral é invocada como resistência à economia do 'livre mercado.' "(Ibid., p. 258, grifo do autor).

No caso da estetização da pesca artesanal, o belo é a obra do existir apoiada na economia moral e nos sentimentos compartilhados, resultantes da arte de fazer-se pescador, onde sociabilidades não assalariadas, laços familiares e de amizades são centrais na constituição e funcionamento desta sociedade do trabalho.

De fato, o que chama atenção, por ser o elemento mais expressivo nisso tudo, é a importância conferida ao universo produtivo, esteio e base essencial justificadora do estético, como se explicita nos depoimentos a seguir.

"Belo é o cabra cercar um peixe e ver ele [o peixe] dentro... dentro da armadilha. Você passa aqui e vê um cardume de peixe. Você vai cercar aquele peixe todinho e aí diz: "que coisa bonita vai ali". Aí o cabra cercou ali. Aí depende dele saber pegar aquele peixe e ele pega o peixe. Esse acontecido é belo e não é pra todos, não. Quando ele chega na praia, trazendo aquele peixe, todo mundo fica olhando o que você fez" (seu Neneu, mestre, 67 anos).

"Coisa bonita é entender de capturar peixe, e capturar muito peixe. Um peixão também é muito bonito" (seu Gidinha, mestre, 70 anos).

Saber viver do trabalho pesqueiro é estar investido do belo por possuir os ingredientes que o abonariam, de acordo com os marítimos. Assim, nas representações e sentimentos de mundo dos homens pesqueiros, "coisa bonita é entender de capturar peixe" (seu Gidinha), de externar uma singularidade incomum e de aguda exigência humana, visto que "esse acontecido é belo e não é pra todos, não" (seu Neneu), restringindo-se somente àqueles que se dedicaram com maestria ao fazer pesqueiro em suas vidas e que sabem sentir e ter o "espírito da arte" consigo: a beleza de decifrar as potencialidades da natureza marinha, dando rico sentido sociocultural e econômico à mesma, a partir de habilidades e técnicas refinadas que humanizam o mar.

O trabalho como coisa bonita dialoga também com a forte beleza que é própria do corpo inorgânico das águas oceânicas, dos cardumes e dos peixes ardis e/ou de portes avantajados. Dessa maneira, as características da natureza do mar emitem sua luz sobre a arte de ser pescador, conferindo uma estética ainda maior ao trabalho dos embarcados (proeiros e mestres), pela capacidade de conseguir lidar com o mundo aquático, na engenhosidade de lançar a rede, equilibrar-se no barco, saber sentir o peixe e os ventos.

Segundo o pescador Neneu, "você vai cercar aquele peixe todinho e aí diz: "que coisa bonita vai ali", desnudando o belo que não deixa, ao mesmo instante, de ser contemplação pela força da vida inorgânica e de ser o objeto onde se externalizará a ação humana do trabalho, através da hábil arte pesqueira de atribuir ao cardume outra e contundente forma cheia de humanização, respondendo às necessidades objetivas de sobrevivência humana. Ademais, se "um peixão também é muito bonito", a tradução dessa beleza verifica-se no ato de saber "capturar muito peixe" (seu Gidinha), os muitos peixões criados nos caminhos do mar e que impõem - por seus tamanhos - dificuldades mais intensas aos artistas da pesca num duelo que é puro sinônimo de vivificação do saber-fazer pesqueiro, isto é, o estético "aí depende dele saber pegar aquele peixe e ele pega o peixe" (seu Neneu), confirmando-o em seu existir como trabalhador marítimo, dotado de beleza. Tudo isso banhado pelo orgulho e pelo reconhecimento expresso nos olhares daqueles que ficam na praia, quando da chegada dos pescadores em um dia de êxito, porque o pescador "quando ele chega na praia, trazendo aquele peixe todo mundo fica olhando o que você fez" (seu Neneu), admirando a beleza revelada na confirmação de seu pôr teleológico produtivo9: no gesto de captura dos pescados.

Alegrar-se é ver sua arte objetivada com perfeição, vendo nela a suprema realização do belo na vida dos pescadores, sem a qual se negaria a presença do contentamento no existir. Por isso,

"Belo é você ir pra maré e voltar satisfeito, com alegria, porque trouxe peixe, né. Agora o cara ir pra maré e voltar sem nada... o cara fica meio tristonho, cabeça baixa" (Marco, mestre, 32 anos).

"Belo é quando a gente puxa a rede e o peixe vem. A rede quando vem com peixe a gente se alegra e fica contente. Quando você põe uma isca e pega um peixe você fica contente. Isso é bonito e isso é arte" (seu Milton, mestre, 67 anos).

"Sabe, quando eu tava começando a pescar e... o bom é quando a gente tava ancorado - eu mais pai - na pedra e encontrava muito peixe, porque arriar a linha e pegar dois peixes grande numa ferrada só aí a gente achava bonito e ficava animado, né. Aí eu dizia: 'é bom demais uma coisa dessa!' ".

Entrevistador: E por que você achava bonito?

"Por que viam três, quatro peixes arengando no anzol, querendo soltar um e sem poder. O náilon corria da mão e você segura e corria da mão de novo. Queimava as mãos e os dedos: 'Virgem Maria'. Aí papai dizia: 'Segura, segura, heim!'. E a gente ficava animado nesse negócio. às vezes, quando a gente tava menos pensando na vida, o samburazinho já estava meio, mais de meio de peixe, e a gente ficava contente e vinha contente pra praia. Era bonito e gostoso, como o pessoal diz aqui: 'muito gostoso' " (Gildo, proeiro, 45 anos).

O trabalho gerador do aprazível acompanha a vida não cativa do pescador. O belo é a satisfação pela arte, que é a própria realização das objetivações concretas que permitem ao pescador reproduzir-se. Ser artífice é saber que o "belo é você ir pra maré e voltar satisfeito, com alegria, porque trouxe peixe" (Marco, pescador), porque respondeu também às condições imediatas e práticas de sobrevivência.

De fato, "isso é bonito e isso é arte" (seu Milton), sendo também, "como o pessoal diz aqui: "muito gostoso" (Gildo, pescador): eis uma esfera de efetivação aprazível do sentir compartilhado, do estar junto e ver cumprida sua destreza de artista, compreendendo a esfera produtiva como momento criativo e positivo de realização da vida e da sua autonomia possível, de reinvenção de resistências.

Ademais, o bonito é poder desenvolver um trabalho que, segundo o olhar e a interpretação relacional efetivadas pelos pescadores acerca das demais profissões conhecidas na região (trabalhadores do corte da cana, caseiros, ambulantes, pedreiros), seja antônimo da intensa exploração capitalista e das injustiças daí decorrentes praticadas sobre aqueles que não podem dispor dos seus meios diretos de vida e que, por isso, não contam com uma margem maior de escolhas na zona da mata pernambucana.

As falas citadas guardam semelhanças com o trecho escrito por Overing sobre os índios Piaroa na América do Sul acerca da categoria conhecimento estético:

"Pelo contrário, a criação da comunidade e sua socialidade poderia ser apenas realizada por meio das capacidades e da autonomia pessoal dos indivíduos. Este trabalho cotidiano de criação da ação da comunidade torna-se possível através do que referi anteriormente por 'conhecimento estético', uma área de conhecimento que, para os Piaroa, compreendia: 1) as capacidades criativas de produção (ou seja, aqueles poderes que possibilitavam transformar os recursos de terra para uso); e 2) as capacidades que levavam à criação de relações tranqüilas com aqueles com que se vivia e trabalhava" (OVERING, 1989, p. 20, grifo nosso).

Pode-se dizer, de acordo com os marítimos, que o estético pesqueiro conjuga os aspectos do aprazível, criação e o fato de ser liberto, transformando-os em manifestações ontológicas do ser, em categorias da efetividade humana.

Para o pescador seu Gidinha:

"A coisa bonita da gente é... artista da pesca não tá obrigado a ninguém e nem pode tá, não. Tem que tá liberto e querer sair mais pra fora ainda de ser cativo" (seu Gidinha, mestre, 70 anos).

Como se percebe, segundo o depoimento acima, o pescador "tem que tá liberto e querer" sempre alcançar o território da autonomia plena, vale salientar, o chão emancipatório que é o próprio "sair mais pra fora ainda de ser cativo" (seu Gidinha) na busca das utopias existenciais que colocam em processo (ou em movimento) a vida, e cuja força serve também para responder e negar, no tempo presente, o silenciar do estético pelas práticas utilitárias da razão instrumental e limitantes da sociedade do consumo e do controle do capital em relação ao cotidiano dos marítimos em sua plenitude, numa inesgotável dialética que é pura reinvenção de resistências.

Quando um pescador torna inegociável seu controle direto sobre o trabalho, constrói suas estratégias de reprodução social, edifica alternativas de sobrevivência e tenta manter condições não cativas de trabalho, ele está elaborando seu projeto de existência busca sustentar uma autonomia possível, sem perder como horizonte a concretização da coisa bonita e daquilo que é muito gostoso: a liberdade possível pela realização da sociedade do trabalho e, com isso, a feitura do trabalho pesqueiro como engenhosidade, uma arte.

Mais uma vez, o estudo de Overing oferta semelhanças com os resultados obtidos neste artigo, particularmente quando a antropóloga escreveu:

"Penso que é, provavelmente, caso geral que índios tenham tal categoria de conhecimento, que se articula a uma teoria do trabalho e da criatividade: em seu entendimento, é produtivo ou estético o conhecimento que permite a manutenção da comunidade e provê a força criativa para sua continuidade." (Ibid., p. 11, grifo nosso).

Então, o belo é um projeto de resistência e criação pelo trabalho, que clarifica como o ser humano busca também moldar seu mundo socioambiental "[...] segundo as leis da beleza" (MARX, 2004, p. 85), conferindo-lhe sua condição existencial.

 

3 Rotas sustentáveis do belo: negação da especialização e humanização do mar

A arte é oposta ao trabalho especializado no mar na medida em que este representa o trabalho como condição extrínseca, quebra da diversidade de captura de espécies e empobrecimento do ato criativo das técnicas pesqueiras, com vistas a extrair do mar um único tipo de pescado na direção prioritária do lucro.

A engenhosidade do marítimo artista tem que espelhar a pluralidade de conhecimentos pesqueiros, vários fazeres, para que possa receber o atributo de estético, tendo em vista que "é bonito de ver" (Joaquim, proeiro) alguém que dispõe de um acervo amplo de ações produtivas. Atributo estético que é negado, pelos pescadores, aos homens pesqueiros que assalariam seu trabalho nas embarcações de empresas do setor ou àqueles que mesmo detendo seus meios de produção encontram-se aprisionados pelas demandas dos atravessadores e empresas por específicos tipos de pescados.

A transcrição do colóquio abaixo anuncia e sintetiza o exposto:

"O cara que é artista é o cara que pesca de linha, de rede, de tarrafa, de covo. Ele pesca com todas as pescarias, todinha as armadilhas, tudo. O cara sabido disso é bom e é bonito ver ele trabalhar. é aí que vê se o cabra é desenrolado, sabe das coisas, do riscado, se entende, né. Não é com conversa fiada que ele... que o cabra mostra que é artista mesmo. Um cabra que é pescador, que é da arte é diferente do que vai lá, no barco de uma empresa ou no barco que é até é seu mesmo, mas ele... ele tá na mão do pombeiro, da empresa. O cativo não precisa saber das coisas sortidas, não, e ele fica recebendo ordem: 'ô fulano, é ali e pega peixe tal'. E tem que fazer, porque aí é bronca" (Joaquim, proeiro, 25 anos).

A autonomia também se reflete no manejo plural dos diversos pescados pelo fato de que o mesmo acaba dando aos pescadores margem maior de manobra diante do capital e, com isso, uma situação de menor fragilidade e dependência. Por exemplo, em Pernambuco, a pesca da lagosta praticada pelos pescadores é repassada, em sua grande maioria, para empresas como a Qualimar e Netuno, que exportam esse pescado. Tal questão, a total dependência frente à especialização do trabalho e ao mercado é entendida como cativeiro, como algo que sufoca a arte e, por isso, elimina sua riqueza e seu papel ético de conduzir os marítimos a situações de não aprisionamento e beleza.

A engenhosidade presente no trabalho artístico pesqueiro deve ser uma ação que conjugue domínio complexo de inúmeras pescarias e, acima de tudo, perfeição em desenvolvê-las. Para o pescador Joaquim, aquele que detém a arte pesqueira "pesca com todas as pescarias, todinha as armadilhas, tudo. O cara sabido disso é bom e é bonito ver ele trabalhar", observá-lo em plena externação criativa no seu trabalho, no uso plural e sofisticado das técnicas e de seus próprios sentidos corporais.

O controle da técnica é fundamental para os desafios que estão sempre presentes em alto-mar e cuja legitimidade apresenta-se na batalha a ser travada com os peixes em condições justas, tendo em vista que, por existir chances do pescado escapar diante das armadilhas, o talento do marítimo em vencer o peixe vivifica-se ainda mais. Na pesca artesanal - diferentemente da industrial que diminui as margens do peixe escapar e não ressalta a riqueza do trabalho vivo -, há o jogo, o improviso do saber-fazer, o manejo complexo dos sentidos humanos e, acima de tudo, a luta entre o homem e o peixe pela sobrevivência, que enobrece a arte de ser pescador graças ao estado equitativo e ético em que se opera e ocorre tal desafio marinho, recheando-o de beleza, maestria e orgulho, e, assim, de humanidades o mar.

"Uma coisa bonita é você ferrando um peixe e trabalhando com ele. é saber levar. Quando ele puxa, você solta um pouquinho de linha. Quando ele folga um pouco, só é puxar. Não pode é deixar ele levar de vez. Se ele levar.... é essa luta entre o peixe com o ser humano. Se não tiver o jogo, se puxar demais, se o anzol tiver no setor que rasgue, aí ele vai embora. é ele puxando e a pessoa devagarzinho. Tem que saber trabalhar. Isso tem a ver com arte. Tem gente quando pesca um peixe quer puxar como se o peixe fosse um touro brabo. Eu me dediquei mesmo à pesca. Tem que ter habilidade. Isso é bonito" (Conrado, mestre, 39 anos).

"O pescador do barco grande ele tem seu GPS, tem seu sonar, usa bússola, usa as modernagens pra indicar as rotas e onde tão os peixes. O caso da gente é na cabeça, é na capacidade. Além de ser bonito, de fazer e de saber, eu sinto um orgulho danado" (Marco, mestre, 32 anos).

"Um peixe dificultoso de pegar exige muito do pescador, e se não for artista mesmo o peixe dá um nó na gente" (seu Ulisses, proeiro, 66 anos).

A arte é a virtuosidade de quem a pratica e a expressão das habilidades efetivadas por quem a desenvolve com agudo esmero metodológico durante a pescaria.

Nunca é demais lembrar que os pescados e o mar são matérias vivas, o que exige muito mais da arte e do artista pesqueiro. Por isso, na visão dos marítimos, pescar é confrontar habilidades humanas com as dos animais, no intuito de subjugar o peixe em pleno campo de batalha que é o mar. Na compreensão do pescador Conrado, "é essa luta entre o peixe com o ser humano", dentro do enfrentamento justo, o referendador da arte, porque "se não tiver o jogo, se puxar demais, se o anzol tiver no setor que rasgue, aí ele vai embora. é ele puxando e a pessoa devagarzinho. Tem que saber trabalhar. Isso tem a ver com arte" (Conrado), com perfeição metodológica, destreza e construção de um trabalho esculpido ao longo dos anos dentro da oficina marítima, que é o barco, e nas conversas socializadoras existentes na praia, e sem nunca deixar de estar junto aos ventos, ao sabor das ondas, das rotas, dos pesqueiros e sob o sol e a chuva, sob as intempéries naturais e sociais, desnudando capacidades de enfrentamento e de superação das adversidades. Por isso, "tem que ter habilidade" no trabalho e "isso é bonito" (Conrado), pelo fato disso ser a humanização dos mares, dos ventos, dos sons e das cores das águas, dos pescados.

Entre os pescadores, ter seu trabalho exigido, ao extremo, por um peixe lutador molda seu talento e o confirma aos olhos dos outros, pois "um peixe dificultoso de pegar exige muito do pescador, e se não for artista mesmo o peixe dá um nó na gente" (seu Ulisses, pescador).

A justeza da luta e do jogo entre o pescador e o peixe não deve ter como mediador o maquinário, as tecnologias, já que isso transforma o homem embarcado em apenas um apêndice e faz com que os pescados tenham diminuídas suas chances de luta, ao excluir-se a existência do jogo, que é puro controle refinado dos sentidos e da consciência humana que se defronta e confronta com os ardis movimentos dos peixes, das águas, dos ventos, do imprevisível.

No livro O velho e o mar, de 1952, Hemingway retratou bem isso na luta estabelecida entre o personagem Santiago, um velho pescador cubano, com um peixe espadarte, a partir de uma profunda humanização desse confronto. Em um dos momentos do duelo, após ter em sua linha o grande espadarte, Santiago expressa: "Peixe, disse o velho, eu gosto muito de você e o respeito muito. Mas vou matá-lo antes do fim do dia." (HEMINGWAY, 1982, p. 57). Mais adiante prossegue Santiago, quando tenta repor suas energias durante a disputa: "Trabalhe você agora, meu peixe. Eu trabalho depois." (Ibid., p. 93). Ou, em seguida ao encerramento da luta, quando Santiago diz: "[...] matei este peixe que era meu irmão [...]" (Ibid., p. 99-100).

Na contramão da engenhosidade do saber-fazer artesanal, "o pescador do barco grande ele tem seu GPS, tem seu sonar, usa bússola, usa as modernagens pra indicar as rotas e onde tão os peixes" (Marco, pescador) e, assim, trabalha sem a mesma riqueza de conhecimentos náuticos e pesqueiros. Nesse sentido, a beleza é viver o jogo, é o estabelecer da luta, são condições corretas da disputa, cujas objetivações anunciam o fazer-se artista, porque, "além de ser bonito, de fazer e de saber, eu sinto um orgulho danado" (Marco, pescador), por compreender-se como portador da coisa bonita e da verdadeira arte dos mares.

O trabalho pesqueiro, nesses termos, é moldado pelo fundamento estético, que é a medida da ética na vida e no trabalho, ao mesmo tempo em que funda e recria cotidianamente seu existir num eterno fazer-se homem, trabalhador, conhecedor dos pescados, pai, filho, esposo, companheiro de embarcação e de sonhos, que é puro processo em busca do dever-ser e manutenção do belo.

No entendimento dos artesãos do mar, a ausência do estético, que haveria na atividade pesqueira patronal, pode ser encontrada também em ações desfechadas por pescadores artesanais em relação ao seu meio ambiente de trabalho, principalmente quando tal ato não reflete o talento de pescar, burlando-o ao dissimular o próprio jogo e a luta a ser enfrentada na tentativa de vencer os peixes. Com isso, algumas técnicas tidas como espúrias para capturar os pescados, são consideradas antagônicas ao estético e à própria definição do que vem a ser qualificado de arte pelos artistas do mar. Nesse sentido, a pesca praticada com bomba, a utilização do compressor na captura de lagostas, as redes de malha fina e de arrastos negam, na representação classificatória dos homens marítimos, a própria essência do trabalho pesqueiro artesanal e do seu saber-fazer refinado, ao se desenvolver artifícios e manobras ilegítimas durante a luta e o jogo a ser travado frente aos peixes, lagosta, camarão e outros.

Para os pescadores de Suape, a engenhosidade na arte de fazer-se pescador deve ser o modus operandi central da objetivação do trabalho humanizado e que, por isso, se encontra a serviço do belo e da honraria do talento, que tem seu esteio no primado da genuína criação edificada na batalha e nos desafios colocados pelos pescados.

Assim, humanizar o mar é torná-lo lugar de vida, trabalho, território de uma identidade social; é conhecer seus caminhos, potencialidades, seus seres e cada canto das águas em que pesca. Aqui, o mar e o pescador celebram aproximações, indissolubilidades, resguardando suas distinções ontológicas. A relação com o mar deve expressar o belo, porque a inexistência dessa categoria desumanizaria esse metabolismo, instaurando formas socioambientais insustentáveis.

Os relatos abaixo são extremamente ricos nestes aspectos:

"A rede de arrasto, as armadilhas ruins acabam com toda criação. Quem faz isso não pode ser um bom pescador e ter o seu serviço chamado de bonito não, né. Não é pescador pra mim, não. Ele tá acabando com a criação" (Gildo, proeiro, 45 anos).

"O bom pescador, rapaz, aquele que é o verdadeiro pescador, é o cara que pesca de rede; pesca de linha; pesca de tarrafa; pesca de todas as pescas; indo pescar sempre direitinho" (seu Luiz Augusto, mestre, 66 anos).

"Se a gente tiver pescando lagosta de maneira certa e vem um mergulhador com compressor e mergulha em cima, não é certo e da até briga, barulho e se deixar morte. é feio fazer isso. Não é a beleza da arte. Veja só, o cara tá pegando a lagosta apulso [...]" (Genildo, mestre, 35 anos).

A defesa feita pelos pescadores da sua arte e, com isso, da justeza do princípio da luta (o jogo) a ser travada junto aos pescados é, diretamente, uma defesa das práticas sustentáveis de pescaria, porque a condição de artífice das águas não pode violentar, além das regras do convívio comunitário saudáveis, o "direito" do seu oponente (lagosta ou peixes) de ter alternativa de batalhar pela sobrevivência, tentando fugir do pôr teleológico dos pescadores.

Desrespeitar o espírito da arte de fazer-se pescador também soará como um ataque ao meio ambiente. Neste sentido, a coisa bonita é não "tá pegando a lagosta apulso", porque isso "não é a beleza da arte" (Genildo, pescador); beleza essa que é o "pescar sempre direitinho" (seu Luiz Augusto, pescador), apoiando-se em princípios éticos balizadores do estético. Quem utiliza artifícios arbitrários na pesca, "ele tá acabando com a criação" (Gildo, pescador), com a vida marinha e com as possibilidades de reprodução da própria arte de ser pescador, da comunidade pesqueira continuar existindo em Suape. Por isso, um trabalhador das águas que faz isso "não é pescador pra mim" (Gildo, pescador), por não responder aos critérios ético-estéticos da arte pesqueira artesanal, de não permitir que o belo possa reverberar sempre ao longo dos anos, em legítima inventividade.

A presença das práticas predatórias, além de mostrar que a pesca artesanal não é corpo monolítico, explícita estranhamentos impostos pelo capital aos pescadores, fundamentalmente na relação deste com o seu mundo aquático.

O que se afirma - assentando-se para isso na pesquisa de campo - é que quando o saber-fazer resulta do puro valor instrumental capitalista a coisa bonita e o muito gostoso cedem lugar, na simbologia e nos sentimentos desses homens, para iniciativas condenatórias de existências forjadas em autonomias possíveis, em atos criativos, de valores estéticos e aprazíveis do trabalho pesqueiro.

Definir que a pesca é o experienciar do aprazível não exclui, mecanicamente, a idéia de que o trabalho no mar também tenha sua dureza para os pescadores. Aliás, a dureza clarifica que não existe qualquer facilidade em ser e fazer-se pescador por cobrar grandes exigências cognitivas e físicas dos homens pesqueiros, ao mesmo tempo em que representa várias situações desfavoráveis de vida, no plano socioeconômico que precisam ser enfrentadas cotidianamente por esta fração de classe social. Contudo, essas dificuldades - incrustadas na dureza de ser trabalhador marítimo - também servem de contraponto e momento de superação indispensável para aqueles que se tornam (ou tornar-se-ão) artistas das águas, como ponto de chegada à condição de artífices marinhos, instante de confirmação de alternativas, do pôr teleológico, do existir sem ser trabalhador cativo, que se traduz na satisfação de viver no (e do) mar.

Assim, é a própria humanização do mar que se explicita por meio de concretizações existenciais para aqueles que o buscaram enquanto local de existência, onde trabalho e vida formam um único elemento e excluem falsas dicotomias que antagonizariam a ambos. Isto é, a vida faz-se resplandecer na riqueza do ato produtivo e o trabalho, por outro lado, congrega em si um modo de ser, estar e sentir o mundo.

Segundo o pescador seu Gidinha,

"O trabalhar no mar representa a minha vida, sabe. O mar é minha vida. Minha vida foi toda no mar. é meu paraíso. Eu vivi dele. Dele eu tirei meu sustento todinho. O mar me dá prazer e alegria.

Entrevistador: Mas o trabalho no mar não é dureza, dificuldade? E como é isso?

Tem trabalho que é dureza e só. Eu mesmo tenho dureza nas minhas pescas, nas pescarias que eu faço. O meu trabalho tem dureza sim, mas eu gosto, porque ele tem mais coisa bonita. Por isso, eu gosto. O mar é meu paraíso e é minha confiança" (seu Gidinha, mestre, 70 anos).

Assim como o seu próprio trabalho, o mar, para o pescador, não se resume ao universo puramente econômico, porque ele é, acima de tudo, espaço de vida, fonte de sólidos laços afetivos, irmão de projetos não cativos e, antes de qualquer coisa, segundo seu Gidinha, lugar em que o trabalhar tem "dureza sim, mas eu gosto porque ele tem mais coisa bonita", mais arte, mais engenhosidade, ao permitir aos marítimos não submeter a sua força de trabalho aos desígnios alheios, à "dureza e só".

O mar recebe feição de companheiro, que "dá prazer e alegria", visto que "trabalhar no mar representa a minha vida", parte insofismável de uma identidade cultural, de um sentimento corporativo, de uma situação não cativa. Por isso, "o mar é meu paraíso e é a minha confiança" (seu Gidinha), espaço onde o pescador encontra e se realiza na qualidade de homem liberto, resistindo e reinventando micro e perspicazes sublevações cotidianamente, que são o tempo todo o próprio modo de vida do pescador.

Micro sublevações que, se não têm a capacidade de colocar em xeque o capitalismo, reinventam existências pautadas em valores de estetização da vida, que se projetam e se legitimam no encantamento no mundo pelo saber-fazer da pesca, no método engenhoso de pescar, em sua autonomia possível e na insubordinação da sociedade do trabalho pesqueiro à possibilidade de reduzi-la aos plenos desejos do valor de troca, fato que levaria ao fim o sentimento do belo.

 

4 Conclusões

Ao longo deste escrito, percorreram-se os caminhos que justificam o belo para os pescadores artesanais da praia de Suape, em seus desdobramentos simbólicos e práticos no mundo do trabalho e na sua insuprimível relação com a natureza.

O estético, além de trabalho inventivo e intrínseco, é regido por valores éticos que constrói critérios de autonomias possíveis de vida, seja em termos de humanização do território aquático, seja de domínio direto da organização social do trabalho e da arte de fazer-se pescador.

Estética essa que impõe limites práticos e representacionais no diálogo dos pescadores com os valores do mercado, sendo uma forma de economia moral. Para eles, sucumbir à plenitude do capital é exilar-se do belo, do aprazível, transformando seu trabalho em desprazer, prisão, feiúra, uma não arte.

Portanto, a estética marítima é engenhosidade produtiva, perfeição, trabalho como liberdade, resistência, um modo de ser mais humanizado dentro de uma região canavieira marcada historicamente pela opressão e desumanização do trabalho e da vida. De fato, o belo tornou-se um projeto existencial de uma fração de classe, se apresenta no fazer cotidiano dos trabalhadores do mar, no seu espírito de arte, em seu irredentismo contra valores instrumentais da existência capitalista. é um ato de insubmissão pelo prazer de criar no trabalho, e da vida vivida como obra de arte, na busca pela manutenção do belo, que se desnuda em diálogos ricos com o ambiente aquático.

 

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Notas

1 Utilizar-se-á, neste texto, enquanto sinônimo, as categorias belo e estética.

2 Ao todo foram entrevistados 13 pescadores com gravador (alguns mais de duas vezes), realizadas outras inúmeras conversas sem gravador e vasta observação direta (no continente e quando embarquei). A pesquisa contou com o apoio do CNPq, através de uma bolsa de doutorado.

3 Tais transformações socioambientais foram abordadas em escrito anterior (RAMALHO, 2006).

4 Momento em que o peixe é fisgado na pesca de linha.

5 Ramalho (Ibidem; 2007, 2008).

6 Pescador que atua na proa do barco, pescando sob a orientação do mestre.

7 Pescador mais hábil no mar e o que comanda a embarcação.

8 A estética pesqueira distingue-se também da comunidade estética, já que esta tem uma "[...] natureza superficial, perfunctória e transitória dos laços que surgem entre seus participantes." (BAUMAN, 2003, p. 67).

9 O pôr teleológico (pensar e fazer) é o trabalho concretizado (LUKÁCS, 1981a, b).

 

 

Autor para correspondência:
Cristiano Wellington Noberto Ramalho
Departamento de Ciências Sociais, Universidade Federal de Sergipe - UFS
CEP 49100-000, São Cristóvão, SE, Brasil
E-mail: cristianownramalho@gmail.com

Recebido em 16/11/2009.
Aceito em 20/1/2010.

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