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Ambiente & Sociedade

On-line version ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.15 no.2 São Paulo May/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2012000200001 

Editorial

 

 

Reafirmando seu propósito de contribuir com a produção do conhecimento na interface das questões do Ambiente e Ciências Sociais, o segundo volume de 2012 da Revista Ambiente e Sociedade traz um conjunto de artigos que enfrentam com rigor e criatividade os desafios de uma investigação interdisciplinar.

Organizada em torno de temas como modernização ecológica, gestão ambiental, mudança climática, desmatamento na Amazônia, saúde e meio ambiente, e degradação ambiental urbana, esta edição proporciona elementos para um instigante debate acerca da problemática socioambiental atual. Ademais, a presença de artigos internacionais reflete um esforço permanente da Revista Ambiente & Sociedade em ampliar os laços intelectuais e acadêmicos com pesquisadores de outros países. Ainda resta destacar o trabalho de refinamento do projeto editorial, com a formulação de uma agenda que busca garantir a edição de três números da Revista a cada ano.

Os quatro primeiros artigos que abrem esta edição abordam a Amazônia e seus dilemas contemporâneos sob diferentes perspectivas. Em "O arco de desflorestamento na Amazônia: da pecuária à soja", Mariana Soares Domingues e Celio Bermann atualizam o tema do avanço da soja e sua relação com o desmatamento. Os autores discutem os impactos socioambientais decorrentes da expansão dessa cultura, que levou o Brasil a ocupar a posição de principal exportador e segundo maior produtor de soja no mundo. Por meio de imagens de satélite, recuperam o avanço territorial da soja ao longo de mais de duas décadas, verificando que seu plantio tem ocupado áreas de antigos pastos degradados sem estabelecer uma relação direta com o desmatamento da floresta.

O segundo artigo, "Mudanças sociais e gestão ecológica em questão: a experiência de Mamirauá", de autoria de Edila Arnaud Moura e Edna Ramos de Castro, analisa a implantação de modelos alternativos de desenvolvimento junto às populações tradicionais da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, considerada a maior área de conservação de várzea do planeta. O estudo discute os processos de mudanças desencadeados por um conjunto de inovações sociais, associados ao ideário da modernização ecológica, que visam a promover o desenvolvimento sustentável e a participação dos produtores locais no chamado mercado ecológico. As autoras chamam a atenção para a necessidade de valorizar os saberes locais na produção de soluções aos problemas ambientais.

Também abordando o tema da modernização ecológica, Thais Brianezi e Marcos Sorrentino, no artigo "A modernização ecológica: conquistando hegemonia nos discursos ambientais: o caso da Zona Franca de Manaus", utilizam a análise crítica do discurso para demonstrar como se constituiu o argumento de que as empresas localizadas na Zona Franca de Manaus contribuem para a preservação da floresta. Os autores salientam que o discurso da modernização ecológica excluiu do debate questões éticas relativas ao modelo de desenvolvimento e às relações de poder, como a baixa qualidade de vida da população da região, a degradação ambiental urbana e a dependência de um modelo econômico que, em última análise, não agrega valor à biodiversidade local.

Completa o conjunto de artigos com foco na Amazônia, o texto "Pescarias artesanais em comunidades ribeirinhas na Amazônia brasileira: perfil socioeconômico, conflitos e cenário da atividade", de autoria de Maria Alice Leite Lima, Carolina Rodrigues da Costa Doria e Carlos Edwar de Carvalho Freitas. Os autores analisam o perfil socioeconômico de pescadores tradicionais em um cenário de profundas mudanças decorrentes da construção das barragens para implantação das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, demonstrando como a nova dinâmica econômica da região tem tornado vulneráveis essas comunidades e seu conhecimento ecológico local.

O tema do conhecimento das comunidades tradicionais também é desenvolvido em "Conhecimento tradicional das marisqueiras de Barra Grande, área de proteção ambiental do Delta do rio Parnaíba, Piauí, Brasil". Os autores Simone Tupinambá Freitas, Paulo Augusto Zaitune Pamplin, Jefferson Legat, Fabíola Helena dos Santos Fogaça e Roseli Farias de Melo discutem como a associação entre o conhecimento tradicional de comunidades extrativistas e dados científicos pode auxiliar a elaboração de planos de manejo e de programas de apoio à pesca artesanal, visando à manutenção do modo de vida dessas populações.

No artigo "Novos espaços de participação social no contexto do Desenvolvimento Sustentável - as contribuições da Educomunicação", Mariann Toth, Frederic Mertens e Maria de Fátima Rodrigues Makiushi analisam como a Educomunicação pode contribuir para promover a participação social nas questões relacionadas à sustentabilidade, ampliando o potencial de expressão dos interesses dos atores sociais. São analisados quatro projetos educomunicativos realizados no Brasil, que promoveram a formação de novos espaços de participação social, com uso de novas tecnologias e práticas pedagógicas colaborativas.

A relação entre saúde e meio ambiente é abordada por Ana Flávia Quintão Fonseca, no artigo "Ambiente e saúde: visão de profissionais da Saúde da Família". A autora lança uma reflexão sobre a necessidade da inclusão de uma discussão mais ampliada acerca dos aspectos ambientais relacionados à saúde humana e ecossistêmica, no contexto do serviço em saúde. Analisando as percepções, ideias e imagens de profissionais do programa Saúde da Família, a autora observou que interações complexas entre as comunidades e seu meio são muitas vezes desconsideradas nessa prática profissional.

"'Verdes e competitivas?' A influência da gestão ambiental no desempenho operacional de empresas brasileiras" é o artigo de Charbel José Chiapetta Jabbour, Adriano Alves Teixeira, Ana Beatriz Lopes de Sousa Jabbour e Wesley Ricardo de Souza Freitas. Com base nos resultados de um survey, realizado com empresas do setor automotivo brasileiro, os autores discutem como a adoção de práticas de gestão ambiental se relaciona positivamente com o desempenho operacional das empresas analisadas.

Os dois artigos que encerram esta edição da Revista Ambiente & Sociedade são de autoria de pesquisadores internacionais. O primeiro deles intitula-se "Degradación ambiental y periferia urbana: un estudio transdiciplinario sobre la contaminación en la Región Metropolitana de Buenos Aires". Os pesquisadores Gustavo Curutchet, Silvia Grinberg e Ricardo A. Gutiérrez, da Universidade Nacional de San Martín, analisam a participação da população na elaboração do diagnóstico e remediação de problemas de degradação urbana. Os autores discutem a possibilidade de produzir conhecimento acerca das dinâmicas socioambientais em contextos de pobreza urbana, combinando o conhecimento local com os saberes das Ciências Sociais e Naturais.

Em "Elites universitarias y cambio climático", Cristian Parker Gumucio e Juan Muñoz Rau, do Instituto de Estudios Avanzados da Universidad de Santiago de Chile, analisam as representações sociais de estudantes chilenos, mostrando que a elite universitária tende a assumir uma postura mais conservadora sobre a questão da mudança climática. Os autores ressaltam a importância de a universidade assumir seu papel de formação de consciência crítica, de modo a transformar os estudantes em agentes ativos de mudança em direção a uma sociedade sustentável.

Completa este volume a resenha de Simone Athayde sobre o livro "Plantas e Pecadores: Percepções da Natureza em África", de autoria da pesquisadora portuguesa Amélia Frazão-Moreira. Com uma perspectiva interdisciplinar, o livro explora os processos complexos de relação entre natureza e cultura em sociedades indígenas contemporâneas. Como comenta Athayde, trata-se de uma contribuição inédita para a etnografia e etnobotânica do povo nalu, da Guiné-Bissau.

A todos, a equipe editorial da Revista Ambiente & Sociedade deseja uma boa leitura!