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Ambiente & Sociedade

On-line version ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.16 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2013000100002 

Sustentabilidade na era das conferências sobre meio ambiente e desenvolvimento – um olhar para ecologia e economia1

 

 

Roberto Donato Silva JuniorI; Leila da Costa FerreiraII

INúcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). E-mail: robertodnt@yahoo.com.br
IINúcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais (NEPAM), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). E-mail: leilacf@unicamp.br

 

 


RESUMO

O objetivo é oferecer uma análise da produção científica sobre sustentabilidade em ecologia e economia, nas décadas marcadas pelo intervalo entre Rio92 e Rio+20. Pretende-se observar as transformações conceituais do termo nas ciências que alimentam, de forma hegemônica, o debate sobre meio ambiente e desenvolvimento. O foco está na tensão entre disciplinaridade e interdisciplinaridade no contexto de estabelecimento da relação entre artefato científico e propositividade política. Assim, foram analisados quinze dentre os vinte e cinco artigos mais citados no sítio web of science em cada ciência, sobre os temas "sustainability" e "sustainable", entre 1990 e 2009. A análise fundamentou-se na teoria da modernização reflexiva e nos estudos sociais da ciência. Como resultado geral, sugere-se a existência de uma "interdisciplinaridade disciplinar" entre economia e ecologia, o que facilita suas conexões e operacionalidades, mas dificulta a inserção de elementos socioculturais no debate.

Palavras-chave: ecologia; economia; estudos sociais das ciências; sustentabilidade; teoria social.


RESUMEN

El objetivo es ofrecer un análisis de producción científica sobre sustentabilidad en ecología y economía, entre Rio92 y Rio+20. El propósito es observar su transmutación conceptual en las ciencias que alimentan, hegemónicamente, el debate público sobre medio ambiente y desarrollo. El enfoque está en la tensión entre disciplinariedad e interdisciplinariedad en el contexto de establecimiento de la relación entre artefacto científico y propositividad política. Por lo tanto, se analizaron quince de los veinticinco artículos más citados en la página web "web of science" tanto en ecología como en economía, sobre los temas "sustainability" y "sustainable" entre 1990 y 2009. El análisis fue fundamentado en la teoría de la modernización reflexiva y en los estudios sociales de la ciencia. Como resultado, se sugiere que existe una "interdisciplinariedad disciplinar" entre economía y ecología, que facilita sus conexiones y operaciones, sin embargo, también dificulta la inserción de elemento socioculturales al debate.

Palabras clave: ecología; economía; estudios sociales de las ciencias; sustentabilidad; teoría social.


 

 

Introdução

Muito já se debateu sobre o caráter polissêmico do termo "sustentabilidade". Seria um conceito tão amplo que se torna vazio? Ou um termo interessante justamente porque está aberto às disputas políticas de significação? Do ponto de vista do presente artigo, analisar as diferentes propostas de sustentabilidade, significa assumir uma perspectiva privilegiada para a compreensão dos processos de dissolução das fronteiras entre as diversas dimensões da sociedade contemporânea. A impossibilidade, evidente na passagem dos séculos XX e XXI, de um tratamento distanciado entre "meio ambiente" e "desenvolvimento" se configura como uma derivação possível daquilo que tem sido concebido como o fim das fronteiras entre "sociedade" e "natureza" (BECK, 2010; LATOUR, 1994 e 2004; INGOLD, 2000; DESCOLA, 2003). Sustentabilidade se apresenta, nesse contexto, como o conjunto de propostas que responde à proliferação dos riscos que emergem na modernidade tardia. A condição híbrida dos dilemas ambientais e das propostas de sustentabilidade escapa, portanto, de todas as esferas tradicionalmente concebidas pela modernidade projetada a partir do século XVIII.

Sociedade e natureza, ciência e política, nacionalidade e internacionalidade se confundem diante dos fenômenos que compõem a problemática ambiental contemporânea. Dentro desse espectro, a encruzilhada entre sociologia ambiental, estudos sociais das ciências e teoria social (BECK, 2010; LATOUR, 1994 e 2004, YEARLEY, 2005, 2008 e 2010) têm enfatizado o caráter ambivalente da racionalidade tecnocientífica em relação aos problemas ambientais, seja como produtora, seja como possível fonte de resolução.

Nessa tensão, as diferentes perspectivas científicas desempenham importante papel na estruturação do campo de possibilidades, no qual as questões ambientais são incorporadas e reconfiguradas pelas amálgamas societárias que caracterizam o mundo contemporâneo. Se as ciências tem grande relevância na produção dos artefatos que compõem a problemática ambiental, quais são as suas contribuições para o amplo campo polissêmico da sustentabilidade, em um momento em que as formulações políticas se estruturam a partir da disputa pela apropriação dos seus termos? Como ecologia e economia, perspectivas centrais da discussão entre "meio ambiente" e "desenvolvimento", enfrentam o caráter híbrido das propostas de sustentabilidade?

Assim, o objetivo é promover uma análise sociológica sobre as estratégias de sustentabilidade presentes na produção científica da ecologia e economia, a partir dos artigos possivelmente mais influentes em cada área, como forma de apreender o dinamismo conceitual e propositivo do termo em um momento interessante do debate sobre meio ambiente e desenvolvimento: as duas décadas que permeiam a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio92) e a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). A intenção é compreender como ecologia e economia contribuem para a formulação do repertório contemporâneo sobre sustentabilidade. Dentro dessa orientação, atenção especial será dada às relações disciplinaridade e interdisciplinaridade e suas responsabilidades nos processos de transição entre artefato científico e propositividade política.

Para isso, o artigo realiza os seguintes passos: na primeira parte, apresenta-se o recorte analítico proposto. Na segunda parte, elaboram-se as condições teóricometodológicas para uma sociologia da produção científica sobre sustentabilidade. Beneficiando-se das recentes discussões entre sociologia ambiental, teoria social e estudos sociais das ciências, pretende-se observar três aspectos de cada cientificidade em análise: (1) a construção das (ir)regularidades entre humanidades e naturezas; (2) definição de riscos e vulnerabilidades; e (3) a busca de soluções para os dilemas socioambientais. De modo a garantir uma fundamentação teórica adequada ao empreendimento, utilizam-se dos conceitos de culturas epistêmicas e simetria epistêmica. Na terceira parte, realiza-se a análise dos artigos selecionados. Finalmente, é demonstrado o trânsito interdisciplinar entre elas além de serem dimensionados os limites e potencialidades sobre a maneira pela qual ecologia e economia abordam a miríade de elementos que envolvem o tema sustentabilidade.

 

O recorte analítico

A análise foi realizada com base em quinze dos vinte e cinco artigos mais citados no sítio web of science, no período entre 1990 e 2009 de cada cientificidade analisada. Os critérios de pesquisa foram: (1) título: "sustainab*" (de forma a abranger "sustainability" e "sustainable"); (2) categoria: "ecology" e "economy"; (3) tipo de documento: "article", com extensão de pesquisa nas bases de dados "Science Citation Index Expanded" (SCI Expanded), "Social Sciences Citation Index" (SSCI) e "Arts e Humanities Citation Index" (AeHCI). Além desses critérios, algumas diretrizes qualitativas foram priorizadas para a definição dos artigos. Em primeiro lugar, a perspectiva temporal buscou oferecer um ponto de vista do processo de transformação dos elementos conceituais e metodológicos que permeiam as propostas de sustentabilidade, e um período que cobre grande parte do intervalo entre a Rio92 e a Rio+20. A decorrência foi "buscar" os artigos mais citados a cada ano do período de abrangência. Assim, evitou-se o risco de uma pesquisa geral 1990-2009 privilegiar os textos mais antigos em detrimento daqueles publicados em anos mais recentes, notadamente, entre 2005 e 2009, o que não possibilitaria ter um entendimento, ainda que provisório, das tendências de pesquisa mais recentes sobre o tema. Os anos 2010, 2011 e 2012 não fizeram parte da seleção, pois a proximidade temporal entre a pesquisa e a publicação dos artigos analisados comprometeria a fidelidade da relevância por citação. Em segundo lugar, a opção de escolher quinze textos entre os vinte e cinco mais citados atende a uma demanda qualitativa, no sentido de priorizar artigos que dispõem de aportes teórico-metodológicos em preferência aos estudos localizados. Parte-se do princípio de que os primeiros têm uma abrangência maior na capacidade de influenciar estudos acadêmicos e políticas ambientais. Por fim, a preocupação é construir uma interpretação sobre orientações que compõem o mainstream da produção científica. Por isso, houve um desprezo por áreas como "environmental sciences". A deficiência é que artigos de grande impacto no interior da ecologia e da economia não foram considerados na presente pesquisa. No entanto, a opção aqui realizada possibilita um olhar do endógeno ao exógeno, ou seja, da estruturação interna das propostas nos seus próprios nichos para a interdisciplinaridade e intervenção política. Este caminho busca a apreensão da especificidade semântica e conceitual, assim como, das formas de articulação epistêmica entre os diferentes elementos que compõem as propostas de sustentabilidade presentes nas diferentes ciências. A partir daí, abrem-se as condições para o entendimento dos possíveis trânsitos teórico-metodológicos, bem como, a possibilidade de confrontar as diferentes visões sobre o tema.

 

Para uma análise sociológica dos discursos científicos de sustentabilidade

O desafio de uma análise sobre o caráter híbrido das propostas de sustentabilidade requer a capacidade de, ao mesmo tempo, garantir as condições de uma simetria valorativa entre elas e evitar um nivelamento simplificador de artefatos científicos, produzidos em diferentes ciências. Parte-se do princípio que existe, nas diferentes narrativas sobre sustentabilidade, três elementos conceituais básicos: uma concepção acerca dos padrões de (ir)regularidade entre humanidades e naturezas; a caracterização de riscos e situações de vulnerabilidade à dinâmica de interação previamente estabelecida; e, por fim, a busca de soluções para os dilemas socioambientais. A emergência desta tríade pode ser vislumbrada nos debates sobre a responsabilidade ambivalente dos eventos tecnocientíficos junto aos problemas ambientais contemporâneos, presente em autores que transitam entre a sociologia ambiental, a teoria social e os estudos sociais das ciências. (YEARLEY, 2005 e 2008; BECK, 2010). Ela se constitui por duas considerações básicas.

Em primeiro lugar, a atenção para os padrões de (ir)regularidade entre humanidades e naturezas implícitos ou explícitos nas propostas de sustentabilidade segue a sugestão de Yearley (2008). Para o autor, a contribuição dos estudos sociais da ciência aos temas ambientais consiste em apreender os modos de se "conhecer a natureza", a partir do reconhecimento de que eles têm grande responsabilidade sobre os artefatos produzidos, assim como nas suas orientações políticas. Essa situação, ainda segundo o autor, é evidente tanto nas atividades de restauração florestal e ecológica, quanto nos estudos de avaliação de impacto ambiental, nos quais os discursos científicos são determinantes para a validação. Faz-se necessário uma narrativa sobre uma "condição original", seja para recuperá-la, seja para avaliar processos potenciais ou efetivos de degradação. Encontrar um "estado original de natureza" não implica em assumir uma posição ingênua diante do termo, que o toma como dimensão ontológica autônoma aos eventos sociais, já que a proposta de Yearley nasce justamente do debate acerca de dimensão sociocultural de formulação do que é "natureza", mas de identificar padrões/dinâmicas de regularidade entre sociedades e naturezas anterior à produção e definição dos riscos (LATOUR, 1994 e 2004; INGOLD, 2000; YEARLEY, 2008; BECK, 2010; Descola, 2003).

Em segundo lugar, o olhar para os processos de definição dos riscos e ameaças e, também, as propostas de solução segue a disposição teórica de Beck (2010), que tem enfatizado a centralidade das concepções de risco na sociedade contemporânea, concebendo o processo de modernização reflexiva como orientado pela relação de incompatibilidade e concorrência entre produção/distribuição das riquezas e dos riscos. Tal dinâmica de identificação/ocultamento dos riscos torna-se, assim, uma das molas propulsoras da vida sociopolítica. Se riscos e vulnerabilidades têm tamanha centralidade na dinâmica da contemporaneidade e são sociais em origens e resultados, é, portanto, no papel das ciências em que se deve buscar a articulação do conjunto de elementos que compõem a produção dos riscos. Isso demonstra uma tripla responsabilidade da produção científica: ela é, ao mesmo tempo, produtora, instrumento de definição e possível fonte de solução dos riscos (BECK, 2010). Essa perspectiva permite entrever uma trama de relações entre politização, cientifização e debate público.

A ambivalência das discursividades científicas, expostas à crítica interna e externa, tem papel fundamental na definição e apresentação de soluções frente às autoameaças. A esfera política, por sua vez, permeada pelos processos de hibridização das decisões – ou seja, uma subpolítica (BECK, 2010) – recorre cada vez mais à autoridade científica como fonte de produção das linhas de ação. Esfera científica e política, no entanto, estão profundamente impregnadas pelo debate público em torno da questão ambiental.

Essas duas referências permitem, portanto, construir um caminho de análise da condição híbrida das propostas de sustentabilidade, por meio da observação, como vimos, das padrões de (ir)regularidade, definição dos riscos e a formulação de estratégias de solução presentes em cada especialidade. No entanto, não seria temerário utilizar o mesmo procedimento para abordar ciências tão diferentes como as ciências naturais e ciências humanas? Quais seriam as condições que permitiriam tal empreendimento?

Um primeiro fundamento refere-se ao princípio de que não somente a produção científica está impregnada por processos socioculturais e políticos, mas, também, que as ciências se configuram como espaços privilegiados da dinâmica de produção de artefatos socioculturais. (LATOUR, 1994; KNORR-CETINA, 1999; COLLINS, 1985; YEARLEY, 2005; PICKERING,1992). Ancorado nessa perspectiva adota-se, aqui, a conceituação proposta por Knorr-Cetina (1999), na qual as diferentes ciências podem ser compreendidas como "culturas epistêmicas". Compreende-se aqui, o conceito de "cultura" como o "conjunto de estruturações potenciais da experiência, capaz de suportar conteúdos tradicionais variados e de absorver novos" (VIVEIROS DE CASTRO, 2002: 209). Essa perspectiva possibilita abordar uma dada ciência pela forma particular na qual ela constrói os arranjos entre os seus conteúdos internos e os elementos exógenos, sejam eles científicos ou não. O que torna especialmente relevante o entendimento sobre como cada cultura epistêmica vive as tensões entre disciplinaridade e interdisciplinaridade.

Uma segunda condição à análise proposta nesse artigo é o princípio da simetria, como ponto de vista privilegiado para análise concomitante entre ecologia e economia. A perspectiva simétrica adotada nessa pesquisa transita entre a simetria "restrita" (BLOOR, 2009; 1999) e a "generalizada" (LATOUR, 1994). A primeira pretende a equalização de "erros" e "verdades" no interior das especialidades científicas, postura que restringe a análise entre discursos e enunciados oriundos de ciências diferentes sobre o mesmo tema. A segunda, por outro lado, estende a análise etnográfica à relação entre sociabilidade, técnicas e objetos "naturais", algo que transcende as necessidades metodológicas que alimentam a presente proposta de análise. Interessa aqui uma condição valorativa equânime entre configurações científicas tratadas tradicionalmente como incompatíveis ou qualitativamente excludentes, como é o caso das relações entre as "ciências da natureza" e "ciências da sociedade". Assim, torna-se adequado uma simetria epistêmica, que possibilite a compreensão das diferentes cientificidades como obviamente distintas em seus processos de construção dos artefatos científicos, mas simétricas na condição de postulados de compreensão dos fenômenos a que se dedicam, já que considerou-se a perspectiva de que as diferentes ciências são produtos e produtoras da dinâmica sociocultural da modernidade reflexiva.

Tendo como princípio o posicionamento simétrico entre diferentes culturas epistêmicas, a análise partiu da forma pela qual a tríade "padrões de (ir)regularidade, riscos e estratégias de solução" se apresenta na ecologia e economia. Ela prossegue ao confrontar discrepâncias e similaridades entre as duas dimensões e, por fim, busca as possíveis formas de interdisciplinaridade entre elas.

 

Ecologia e sustentabilidade

Os artigos em ecologia são um material rico para a compreensão dos elementos que permeiam os debates sobre sustentabilidade. Não se trata aqui de realizar um inventário das principais vertentes, muito menos de uma avaliação sobre a pertinência ou potencial de efetividade de cada uma delas. Uma sociologia da sustentabilidade não seria o caminho adequado para essas abordagens. Antes, procura-se evidenciar como as narrativas e objetos de interface entre elementos humanos e não humanos são tratados por uma ciência que se constituiu para explicar o polo "natureza" dessa relação.

Dos quinze textos escolhidos (tópico "Bibliografia analisada"), parecem existir dois tipos básicos de produção: um de tipo normativo e outro, propositivo. Por "normativos" entenda-se os artigos elaborados para a orientação de diretrizes de pesquisa e práticas de manejo. Geralmente, são "petições de princípios", como é caso de Lubchenco et. al. (1991), propostas pela Ecological Society of America (ESA) ou por órgãos governamentais (KESSLER et al., 1992). Por "propositivos" compreende-se

o conjunto de artigos que se responsabilizam por apresentar orientações teóricometodológicas como resultados diretos ou indiretos de experiência de pesquisa (HOLLING, 1993; MITCHELL et al. 1995; BROWN e Ulgiati, 1997; Ulgiati e Brown, 1998; Ness et al. 2007; van den Bergh e Verbruggen, 1999) ou programas de pesquisa (COSTANZA e DALY, 1992; GOODLAND e DALY, 1996; LINDENMAYER et al., 2000; RICHTER et al.2003; CHOI et al., 2008; TERMORSHUIZEN e OPDAM, 2009). Vale destacar uma grande preocupação em definir o termo "sustentabilidade" e também estabelecer índices e indicadores como forma de torná-la um instrumento de operacionalização de pesquisas e políticas (BROWN e ULGIATI, 1997; ULGIATI e BROWN, 1998; LINDENMAYER et al., 2000; NESS et al.2007).

Foi possível identificar três fases bem definidas entre os artigos: entre 1990 e 1996 observou-se uma forte tendência em se destacar a fundamentação teóricometodólogica do tema sustentabilidade, assim como a definição de diretrizes para pesquisa e políticas ambientais; entre 1996 e 2003 proliferam-se os artigos que se dedicam à determinação de índices e indicadores de sustentabilidade; por fim, entre 2003 e 2009 os artigos selecionados tendem a produzir tanto de uma revisão dos pressupostos teóricos da primeira fase, como uma análise crítica dos métodos de avaliação de sustentabilidade propostos na segunda fase.

Os padrões de (ir)regularidade em ecologia apresentam, pelo menos, três grandes características. Primeiro, existe uma forte tendência, nos primeiros anos de análise, a uma divisão ontológica entre "sistemas naturais" e "sistemas sociais" (LUBCHENCO et al., 1991; KESSLER et al., 1992; BROWN e ULGIATI, 1997; ULGIATI e BROWN, 1998; LINDENMAYER et al., 2000). Nesses artigos, as noções de integridade e complexidade estão diretamente relacionadas aos sistemas ecológicos. Segundo, em artigos mais recentes (2000-2009), proliferam-se tentativas de extensão dos adjetivos "complexidade", "diversidade" e "integridade", dos eventos naturais aos eventos sociais, tornando, assim, a distinção ontológica menos evidente (RICHTER et al., 2003; DE GROOT, 2006; CHOI et al., 2008; TERMORSHUIZEN e OPDAM, 2009). Terceiro, acompanhando esse processo de integração entre elementos ecológicos e sociais, o conceito de "ecossistema" perde a centralidade dos primeiros anos (LUBCHENCO et al.,1991; KESSLER et al., 1992; HOLLING, 1993; BROWN e ULGIATI, 1997; ULGIATI e BROWN, 1998;) em relação ao conceito de "comunidade" (CHOI et al., 2008) e principalmente ao conceito de "paisagem" nos artigos mais recentes (DE GROOT, 2006; TERMORSHUIZEN e OPDAM, 2009).

Todavia, esses três aspectos não estão isolados. Entre os artigos fundamentados no conceito de ecossistema existe uma maior propensão à distinção entre aspectos "naturais" e "sociais", tanto nos textos mais puramente ecológicos, quanto naqueles mais propensos a uma abordagem econômico-ecológica. Nesses últimos a estreita relação entre "ecossistema" e "capital natural" deixar transparecer a tendência de se incorporar as várias dimensões dos eventos humanos aos ecossistemas pela perspectiva econômica. Quando o conceito de paisagem torna-se preponderante, a distinção natureza-sociedade deixa de compor o pano de fundo conceitual. A emergência do conceito de paisagem está intimamente relacionada à tentativa de incorporação da dimensão "social" ao predomínio do discurso econômico-ecológico. Sob a égide do conceito de paisagem evidencia-se, também, uma passagem entre a compreensão dos problemas de "fluxo" para a questão das motivações socioculturais dos processos de interação entre elementos humanos e não humanos.

Com relação aos riscos e ameaças, destacam-se cinco características fundamentais. Primeiro, enquanto elementos importantes de interação entre campos ontológicos distintos, os riscos ambientais são compreendidos como desarticuladores de uma regularidade pregressa, que deve ser, se não resgatada, de alguma forma reproduzida. Nessa perspectiva, o crescimento populacional humano é, muitas vezes, a instância motivadora das ameaças aos ecossistemas (LUBCHENCO et al.,1991; KESSLER et al., 1992). Segundo, o conceito de capacidade de suporte é comumente utilizado para expressar os limites nos quais os riscos tornam-se os portadores da tragédia potencial ou manifestada. No entanto, pode ser compreendido como "fixo" ou "variável", sendo este último condicionado pela própria dinâmica ecossistêmica ou por contextos geográficos específicos (MITCHELL et al., 1995; VAN DEN BERGH e VERBRUGGEN, 1999; COSTANZA e DALY, 1992; GOODLAND e DALY, 1996). Terceiro, de forma tangencial, o próprio conhecimento científico, mesmo comprometido com propostas de sustentabilidade, pode ser considerado promotor de riscos, principalmente se sua inserção se faz de forma parcial e não atenta ao caráter integrativo das questões ambientais (NESS et al., 2007; VAN DEN BERGH e VERBRUGGEN, 1999; LINDENMAYER et al., 2000). Quarto, as situações de risco podem ser traduzidas como processos de "competição" entre "humanos" e "ecossistemas", caso o foco sejam elementos como água e biodiversidade (LINDENMAYER et al., 2000; RICHTER et al., 2003). E, quinto, as mudanças ambientais globais se apresentam como um campo de possibilidades, no qual o próprio "risco" e "(ir)regularidade" não são distinguíveis (CHOI et al., 2008).

Essas duas últimas características demonstram um olhar mais atento ao que se refere às consequências não previstas dos processos de interação. Há, portanto, entre os anos 2003 e 2009, uma tendência de se compreender risco e ameaça como inerentes aos processos que compõem as complexas relações entre elementos sociais e ecológicos, em detrimento de uma perspectiva unilateral de ameaça da "sociedade" para a "natureza", como causa da problemática ambiental nos primeiros anos da pesquisa.

Por fim, as propostas de solução apresentadas podem ser tipificadas em sete características.

Primeiro, como práticas de manejo (conservação/restauração) adaptativo (LUBCHENCO et al.,1991; KESSLER et al., 1992), compreendidas por um ponto de vista essencialmente técnico, o que pressupõe, obviamente, uma preponderância dos aspectos ecológicos em relação aos sociais no desenho das estratégias de sustentabilidade.

Segundo, surge uma tendência de fortalecimento de pesquisa interdisciplinar e transescalar integrada aos processos de gestão adaptativa (HOLLING, 1993), e terceiro, como manutenção da produtividade/renda dos ecossistemas em conjugação aos processos econômicos (BROWN e ULGIATi, 1997; ULGIATI e BROWN, 1998). Esta visão, atrelada às perspectivas de contabilidade ambiental, recorre ao entendimento dos fluxos de energia no interior de sistemas nacionais.

Quarto, como processos de compatibilização das necessidades humanas e ecossistêmicas (Mitchell et al., 1995; Lindenmayer et al., 2000; RICHTER et al., 2003) em torno de elementos vitais tanto para sistemas "sociais" quanto "ecológicos", tais como água e biodiversidade e quinto, a emergência de processos de extensão das análises de custo/benefício aos ecossistemas e paisagens, assim como do manejo adaptativo às relações econômicas (COSTANZA e DALY, 1992; GOODLAND e DALY, 1996).

Sexto, como manutenção dos "serviços da paisagem" a partir da amálgama de aspectos ecológicos, econômicos, sociais e culturais (De Groot, 2006; Termorshuizen e Opdam, 2009), por fim, o sétimo ponto, como manutenção das funções ecológicas em um contexto de mudanças ambientais globais antrópicas (CHOI et al., 2008), sem, contudo, construir processos de restauração ecológica por uma perspectiva, diga-se, purista.

De maneira geral, a tríade "ciência para complexidade, análise econômico-ecológica e manejo adaptativo" perpassa as propostas encontradas nos artigos analisados. No entanto, pode-se perceber que, nos anos mais recentes (2003-2009), há uma tentativa de incorporação de aspectos sociológicos e antropológicos à forte tendência de se encarar sustentabilidade através de procedimentos técnicos, combinada com análises econômicas.

 

Economia e sustentabilidade

Existem, nos artigos de economia analisados, dois tipos básicos de discursividade: os "críticos" e os "propositivos". Os primeiros (HOWARTH e NORGAARD, 1992; ASHEIM, 1994; STERN et al., 1996; BINSWANGER, 2001) concentram-se em problematizar conceitos e concepções bem estabelecidos no debate econômico. Os segundos (TOMAN, 1994; COSTANZA et al., 1998, KAY et al., 1999; ROTMANS et al., 2000; FARBER et al., 2002; EKINS et al., 2003; ROBINSON, 2004; REED et al., 2006; CIEGIS et al., 2009; BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009) se preocupam em apresentar visões de sustentabilidade e, em boa medida, oferecer instrumentos para a sua operacionalização. Os textos "críticos" são interessantes pelo embate teórico que oferecem. Mesmo com o olhar focado em conceitos específicos, eles deixam transparecer a problemática entre as perspectivas econômicas envolvidas com o tema sustentabilidade.

Os "propositivos" estão preocupados em estabelecer os parâmetros do que "é" ou "pode ser" sustentabilidade dentro de um quadro conceitual analítico julgado consistente do ponto de vista teórico e "viável" politicamente. Esses polos de idealização conceitual – no sentido weberiano – obviamente não se excluem, levando-se em consideração que os "propositivos" só adquirem força dentro de condições de legitimidade crítica em relação a outras propostas. Uma amálgama entre criticidade e propositividade pode ser constatada com mais facilidade em Hinterberger et al. (1997).

De forma geral, é possível perceber que os artigos da década de 1990 são marcados por dois tipos de interlocução: a relação entre "economia ambiental" e "economia ecológica", de um lado, e os processos de aproximação e distanciamento com a perspectiva de sustentabilidade institucionalizada pelo Relatório Bruntland (1988), de outro. A partir dos anos 2000, inicia-se um debate mais circunscrito à economia ecológica, tendo como foco principal o conceito de "capital natural". Como uma sintética caracterização geral – e sem a pretensão de antecipar os resultados –, pode-se observar um movimento de centralização e, posteriormente, de relativa descentralização do conceito.

Sobre os padrões de (ir)regularidade, podem ser encontradas quatros características fundamentais. A primeira emerge de um debate crítico da economia ecológica sobre temas caros à economia ambiental. Subjacente a essa tensão, encontra-se uma crítica a padrões explicativos "lineares" e "monocausais", que cedem espaços à explicação pela "multiplicidade" e "complexidade" (HOWARTH e Norgaard, 1992; ASHEIM, 1994; STERN et al., 1996). Nesse sentido, existe uma tendência crítica do entendimento da ação econômica como ato restrito a uma pretensa racionalidade destituída de contexto e a defesa da incorporação de processos sistêmicos mais amplos, sejam econômicos, sejam ecológicos. Na segunda característica, evidencia-se, também, um esforço de integração das perspectivas neoclássicas e ecológicas a partir da tentativa de se conciliar imperativos de mercado à escala de sustentabilidade (TOMAN, 1994). Entre 1997-2003, intensifica-se uma terceira característica que intensifica o debate no interior na economia ecológica, a partir do uso bifurcado da noção de complexidade (uma "sistêmica" e outra, próxima à ideia de "miríade") e pela preponderância de uso do conceito de "capital natural" (COSTANZA et al., 1998, KAY et al., 1999; ROTMANS et al., 2000; BINSWANGER, 2001; FARBER et al., 2002; EKINS et al., 2003). Nos últimos anos analisados pela pesquisa, emerge uma quarta característica, na qual o conceito de "cenário" aparece como opção ao uso hegemônico da relação entre capital natural e capital manufaturado (CIEGIS et al., 2009; BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009). As tentativas de inserção da dimensão social no debate bem estabelecido entre ecologia e economia geram o enfraquecimento da relação entre capital natural e capital manufaturado (HINTERBERGER et al., 1997) e, consequentemente, o fortalecimento do conceito de cenário (EKINS et al., 2003; Robinson, 2004; REED et al., 2006; CIEGIS et al., 2009; BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009) no problema econômico de alocação intertemporal sustentável. Nesse sentido, os artigos que se valem do conceito capital natural tendem a se fundamentar em uma concepção de complexidade "sistêmica", enquanto o uso do conceito "cenário" tende a uma concepção de complexidade constituída por miríade, apesar de em Ciegis et al. (2009) o conceito de cenário ter como pano de fundo uma visão sistêmica de complexidade. Por fim, uma tendência à espacialização relativamente atrelada à construção de cenários econômicos é bastante acentuada nos artigos mais recentes do período analisado (CIEGIS et al., 2009, BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009).

Quanto à definição de riscos e ameaças, emergem quatro características. Primeiro, uma interpretação genérica que liga "ação humana" como ameaça ontológica à natureza, ecossistema ou capital natural, que vem acompanhada da caracterização econômico-ecológica dos "impactos humanos" (como por exemplo, "custos prospectivos", "irreversibilidades" ou "déficit de sustentabilidade) (ASHEIM, 1994; STERN et al., 1996; TOMAN, 1994; HINTERBERGER et al., 1997; COSTANZA et al., 1998,). Segundo, como "feedback" ambiental negativo sobre a qualidade de vida e produção econômica, gerado pelo crescimento econômico (HOWARTH e NORGAARD, 1992; STERN et al., 1996; FARBER et al., 2002; EKINS et al., 2003). Terceiro, a responsabilidade tecnocientífica sobre a problemática ambiental, tanto em termos de insuficiência "técnica" e "conceitual" diante da complexidade das questões de sustentabilidade (HINTERBERGER et al., 1997), quanto dos efeitos não previstos de adoção de modelos tecnológicos, sejam eles "nocivos" ou "ajustados" (como o "efeito rebote", ou seja, o aumento não planejado de gasto energético pela otimização tecnológica que visa, justamente, a eficiência energética) (BINSWANGER, 2001). E, finalmente, quarto, o entendimento da emergência de "catástrofes" como propriedade inerente dos processos de relação complexa e sistêmica entre dimensões econômicas e ecológicas (KAY et al., 1999; ROBINSON, 2004; REED et al., 2006; CIEGIS et al., 2009; BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009).

Por fim, as propostas de solução, que podem ser caracterizadas como: (1) busca da equidade intergeracional através de um processo de valoração ecológico-econômico e também "social" (HOWARTH e NORGAARD, 1992); (2) políticas de "ajustamentos à sustentabilidade" através da combinação entre econometria e da análise histórica qualitativa (STERN et al., 1996); (3) adequação entre imperativos socioeconômicos e ecológicos, através da construção de um "padrão mínimo de segurança" (ROTMANS et al., 2000); (4) deslocamento da manutenção do estoque (capital natural) para a manutenção dos fluxos (entrada de material por unidade de serviço) (HINTERBERGER et al., 1997); (5) articulação de princípios "operacionais" como responsabilidade, definição de escala, precaução, manejo adaptativo, incorporação dos custos ambientais e participação (Costanza et al., 1998); (6) governança sistêmica e planejamento transescalar/ transdiciplinar (KAY et al., 1999); (7) controle político-financeiro da relação entre os processos de inovação tecnológica e consumo (BINSWANGER, 2001, FARBER et al., 2002); (8) manutenção do "capital natural crítico" (EKINS et al., 2003); (9) processo de aprendizagem adaptativa transescalar (EKINS et al., 2003); (10) sustentabilidade como planejamento territorial que abarca aspectos ecológicos econômicos e sociais (Reed et al., 2006; CIEGIS et al., 2009; BURINSKIENE e RUDZKIENE, 2009).

Dessas perspectivas, três elementos fundamentais podem ser destacados: a noção "manutenção" em uma perspectiva intergeracional; a noção de "escala"; e a noção de "planejamento". As duas primeiras estão mais próximas ao conceito de "capital natural", enquanto a última vem atrelada ao conceito de "cenário".

 

Conclusões

De forma geral, paira entre os artigos de ecologia uma articulação bem estabelecida entre complexidade, análise econômico-ecológica e manejo adaptativo. Essa tríade parte do conceito de ecossistema e está amparada na distinção ontológica entre natureza e sociedade. Nos últimos anos, no entanto, surge uma demanda incipiente de incorporação das questões socioculturais nos processos de planejamento da sustentabilidade. Ela vem acompanhada pela perda de centralidade do conceito de "ecossistema" em prol da valorização dos conceitos de "paisagem", assim como da desconfiguração das fronteiras entre natureza e sociedade. As políticas públicas aparecem como espaço de experimentação das estratégias de conservação/restauração ecológica, articuladas à pesquisa científica e valoração econômico-ecológica, através do conceito de manejo adaptativo.

Da perspectiva econômica, percebe-se, a princípio, a predominância do tema "manutenção do capital natural". No entanto, há uma tendência crítica que relativiza a coerência e operacionalidade desse conceito e advoga uma concepção mais territorializada dos elementos que compõem contextos de sustentabilidade. Nesse sentido, é de se destacar o conceito de "cenários" sustentáveis. Outro tema importante é a preocupação com as mudanças tecnológicas que contribuem ou não com os objetivos ambientalmente corretos. Por fim, uma característica dominante é o reconhecimento tácito da necessidade de incorporação das "questões sociais" aos esquemas analíticos e propositivos de sustentabilidade. A tendência à territorialização, apresentada nos artigos mais recentes, parece ser uma tentativa de inserção dessas questões, ainda que mais anunciadas do que efetivamente incorporadas.

Desse modo, decorrem-se algumas conclusões sobre as estratégias elaboradas pela ecologia e economia como forma de enfrentamento dos elementos híbridos que compõem as propostas de sustentabilidade. Primeiro, a interdisciplinaridade exercida nos artigos analisados tem um caráter de continuidade: economia e ecologia operam no mesmo "registro" epistemológico, no sentido de que suas categorias analíticas se relacionam sem maiores disparidades conceituais e sem grandes campos de conflituosidade semântica. Um exemplo dessa característica é a relação entre "estrutura" e "função" ecológica, respectivamente relacionada com os conceitos de "bens" e "serviços" econômicos. A articulação entre "ecossistema" e "capital natural", assim como entre "paisagem" e "cenário", também torna evidente essa continuidade. Segundo, as políticas públicas aparecem na teorização ecológica e econômica sobre sustentabilidade como espaço de experimentação das estratégias de conservação/ restauração ecológica, articuladas às estratégias de pesquisa científica e valoração econômico-ecológica. Terceiro, os padrões de (ir)regularidade aparecem como mais importantes do que a definição de riscos e ameaças para a definição das estratégias de sustentabilidade, assim como para as suas aberturas à interdisciplinaridade. Nesse sentido, é válido afirmar a íntima relação entre o arcabouço teórico-metodológico e a definição das estratégias de "governança" de sustentabilidade. Nos artigos analisados, a definição específica da problemática ambiental não se apresenta como uma variável decisiva para a formulação de políticas, dado o aspecto genérico e especulativo no qual as mesmas são reformuladas. Isso porque sua caracterização se apresenta quase sempre em uma dimensão abstrata, com pouca propensão à validação empírica.

Por fim, a crescente importância do conceito de "paisagem" em ecologia e, concomitantemente, o conceito de "cenário" em economia, que, pretensamente, permitiriam o envolvimento entre eventos humanos e ecológicos de forma não tão assimétrica, como, por exemplo, através das tentativas de incorporação das atividades sociais no "interior" dos ecossistemas. Essa tendência se aproxima de esquemas explicativos mais "fenomenológicos", em detrimento de perspectivas mais "heurísticas", como aquelas fundamentadas pela Teoria dos Sistemas (KAY et al., 1999). No entanto, a incorporação das "questões sociais" é constantemente anunciada, mas o diálogo com as ciências sociais é minoritário nos artigos analisados.

Como compreender a ausência ou, no limite, a incipiência de diálogo entre a perspectiva econômico-ecológica e a perspectiva sociológica, apesar da concordância, por parte da primeira, quanto à necessidade de incorporação das "questões sociais" na problemática da sustentabilidade? De forma sugestiva, a intensa relação entre ecologia e economia parece apontar para a existência de uma "interdisciplinaridade disciplinar". Ou seja, a partir do compartilhamento de pressupostos epistemológicos, as duas perspectivas encontram amplas possibilidades de "diálogo" sem necessariamente mergulhar em processos de superação de estranhamentos discursivos, temáticos e teórico-metodológicos. O caráter de continuidade entre ecologia e economia operacionaliza um modelo de análise possível às interações entre humanos e não humanos, sem abrir mão, contudo, de certa homogeneidade de apreensão empírica, formulação conceitual e destilação teórico-metodológica. Promove-se, assim, um processo interdisciplinar sem romper a dinâmica disciplinar que as constituem. Isso parece estar um passo aquém ao desejo de uma perspectiva econômico-ecoIógica como uma experiência transdisciplinar, conforme sugerem autores importantes no tema (DALY e FARLEY, 2010). Esse modelo de interdisciplinaridade, contudo, não acontece de forma simétrica, mas a partir do transbordamento ecológico sobre os elementos que compõem a análise econômica, configurando-se em um procedimento metonímico (SANTOS, 2002) de incorporação interdisciplinar. Seja sob a perspectiva ecossistêmica ou pela ótica da paisagem, a discursividade ecológica estrutura as possibilidades de interação entre as duas disciplinas, incorporando-se os elementos econômicos aos ecológicos. Compreendidas aqui como culturas epistêmicas (KNORR-CETINA, 1999), que se constituem em processos de estruturação a partir de dinâmicas particulares e indissociáveis entre o endógeno e o exógeno (VIVEIROS DE CASTRO, 2002), a produção da interdisciplinaridade entre ecologia e economia parece, a partir dos artigos analisados, emergir de um processo "epistemofágico" da primeira sobre a segunda.

Esse processo viabiliza conexões e operacionalidades, mas dificulta a inserção de elementos socioculturais no debate, já que o desejo pelo diálogo com temas sociais não se converte em interação com temas sociológicos.

Levando-se em consideração as diferenças qualitativas entre as discursividades econômico-ecológica e sociológica (SILVA JUNIOR, 2012), um "diálogo" não metonímico apresenta grandes desafios. Como sugerem os artigos analisados, dinâmicas de interdisciplinaridade dificilmente se efetivam entre cientificidades que apresentam grandes disparidades discursivas. Desse modo, a metáfora do "diálogo" carrega em si tanto a imagem do tipo de interdisciplinaridade que tem sido comumente exercida, quanto a representação dos limites que esse modelo de colaboração enfrenta para a formulação de problemas e ordenação de propostas de solução junto às questões ambientais. Como, então, realizar interdisciplinaridade sem recorrer a processos "epistemofágicos" de uma disciplinaridade sobre outra? Como promover "diálogo" sem desconsiderar disparidades e descontinuidades discursivas e, assim, não desperdiçar o aprofundamento teórico-metodológico historicamente constituído por cada uma delas? Será possível uma interdisciplinaridade de "confronto" e "estranhamento" entre culturas epistêmicas diferenciadas? A diversidade de temas sociais e sociológicos relacionados à sustentabilidade atende a esses requisitos para o estabelecimento de "diálogos" interdisciplinares ou suas especificidades exigiriam modelos de interação epistemológica que extravasariam uma "interdisciplinaridade disciplinar"?

 

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Submetido em: 17/08/2012
Aceito em: 22/02/2013

 

 

1 Agradecemos a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) ao apoio à pesquisa apresentada nesse artigo.

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