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Ambiente & Sociedade

versão On-line ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.17 no.3 São Paulo jul./set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-753X2014000300005 

Preferências locais quanto às árvores do sistema cacau-cabruca no sudeste da Bahia1

 

 

Flora Bonazzi PiasentinI; Carlos Hiroo SaitoII; Regina Helena Rosa SambuichiIII

IProfessora Adjunta do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Graduada em Agronomia pela Universidade de Pádua (Itália), mestre em Administração pela Universidade de Wageningen (Holanda) e doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília. E-mail: fpiasentin@ufrb.edu.br
IIProfessor Associado do Departamento de Ecologia, Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formação complementar em Análise de Sistemas pela PUC/RJ, mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Geografia (UFRJ). E-mail: carlos.h.saito@hotmail.com
IIITécnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB) e doutora em Ecologia pela Universidade de Brasília (UnB). E-mail: regina.sambuichi@ipea.gov.br

 

 


RESUMO

As áreas ocupadas pelo cultivo de cacau sombreado com espécies nativas (cabruca) desempenham uma importante função ambiental. No entanto, estudos mostram que a diversidade em espécies arbóreas nativas nessas áreas vem sendo reduzida gradualmente. Este estudo teve como objetivo identificar as percepções e preferências dos agricultores em relação às espécies arbóreas que compõem o sombreamento nas cabrucas assim como os usos locais dessas espécies e o seu manejo. As espécies de maior preferência dos agricultores foram compostas majoritariamente por espécies nativas madeireiras de elevado valor econômico, seguidas de espécies frutíferas, principalmente formada por exóticas. Essas espécies se destacaram entre as espécies dominantes nas cabrucas da região, conforme os resultados de um levantamento de espécies realizado em 2008. Isso se deve em grande parte ao manejo da sombra adotado pelos agricultores, que tende a favorecer o plantio e a regeneração natural das espécies preferidas em detrimento daquelas pouco apreciadas.

Palavras-chave: Espécies arbóreas; Mata Atlântica; Região cacaueira do Sul da Bahia; Percepção.


 

 

Introdução

A biodiversidade é essencial à vida humana no planeta. A destruição de florestas tropicais é uma das principais causas da perda de biodiversidade no mundo (AYRES, 2005). No Brasil, o grau de conversão de ecossistemas florestais para outros usos é preocupante (AYRES, 2005; IRIGARAY, 2007). O ecossistema Mata Atlântica, um dos mais ricos e ameaçados do planeta (GALINDO LEAL e CÂMARA, 2003), por exemplo, encontra-se restrito a uma pequena porção de sua extensão original (8%). Apesar disso, estima-se que seus remanescentes abriguem de 1% a 8% da biodiversidade mundial (SILVA e CASTELETI, 2003).

O Sudeste da Bahia possui uma das maiores concentrações de remanescentes da Mata Atlântica do Nordeste do Brasil (LANDAU, 2003; SAMBUICHI e HARIDASAN, 2007). Grande parte desses encontra-se em plantações de cacau (Theobroma cacao) no sistema agroflorestal (SAF) denominado cacau-cabruca ou cabruca (AGUIAR et al., 2003). Na implantação desse sistema, as árvores nativas da Mata Atlântica foram mantidas para fornecer a sombra necessária ao bom desenvolvimento dos cacauais (CASSANO et al., 2009). Estudos demonstraram que esses SAFs servem como habitat e corredor para diversas espécies endêmicas, aumentando suas chances de sobrevivência por um maior tempo (CI e IESB, 2000; RABOY et al., 2004; SAMBUICHI e HARIDASAN, 2007; CASSANO et al., 2009). Levantamentos de campo revelaram a existência de cabrucas com densidades variando de 35 a até 355 árvores de sombra por hectare e uma riqueza de 16 a até 60 espécies arbóreas diferentes em um hectare estudado (SAMBUICHI, 2006; SAMBUICHI et al., 2012).

Nos últimos anos, com a queda drástica de produção de cacau associada principalmente à infestação das plantações pela doença vassoura-de-bruxa (Moniliophthora perniciosa), as cabrucas vêm sendo submetidas a um processo gradual de simplificação (ROLIM e CHIARELLO, 2004; SAMBUICHI e HARIDASAN, 2007). A perda de diversidade em espécies arbóreas nas cabrucas é atribuída ao manejo adotado pelos agricultores (ROLIM e CHIARELLO, 2004). Nesse processo, os agricultores tendem a substituir árvores de sombra nativas por um número reduzido de espécies exóticas de elevado valor econômico (CASSANO et al., 2009). Outra ameaça às áreas de cabrucas é representada pela sua substituição por cultivos mais rentáveis, porém menos sustentáveis do ponto de vista socioambiental (AGUIAR et al., 2003).

Apesar de sua maior produtividade, os cultivos de cacau a pleno sol ou com pouca sombra são menos sustentáveis, envolvem maiores riscos e custos de produção, uma vez que demandam uma maior quantidade de água, nutrientes e inseticidas (ARÉVALO et al., 2007). Além disso, estudos mostram que a vantagem produtiva de sistemas de cultivo de cacau a pleno sol reduz-se ao longo do tempo, chegando a se equiparar a sistemas sombreados em um prazo longo (AHENKORAH et al., 1974). Isso ocorre porque o estado de esgotamento do solo e de estresse das plantas em sistemas a pleno sol é maior (ALVIM, 1976; KNIGHT, 1976; AHENKORAH et al., 1974).

Apesar do reconhecido papel das preferências dos agricultores sobre a composição do sombreamento em SAFs, que, consequentemente, afeta a conservação da biodiversidade (SAMBUICHI e HARIDASAN, 2007; SOTO-PINTO et al., 2007; MOURA, 2008; CASSANO et al., 2009), tem-se dado pouca atenção ao seu estudo em áreas de cabruca no Sudeste da Bahia. Esse conhecimento pode constituir um valioso recurso na orientação de um manejo que seja compatível não apenas com critérios ambientais, mas também com as prioridades locais (SOTO-PINTO et al., 2007). Além disso, a identificação das preferências individuais quanto às espécies arbóreas pode nos auxiliar na compreensão da propensão dos agricultores em adotar determinadas práticas de manejo e suas possíveis implicações para a conservação da biodiversidade.

O estudo das preferências individuais dos agricultores em relação às árvores presentes nas cabrucas enfatiza os valores utilitários, antropocêntricos e instrumentalistas associados à biodiversidade (RANDALL, 1997). Isso porque, em geral, as espécies passam a ter importância enquanto são desejadas pelas pessoas, possuem valores econômicos e de utilidade e são vistas como um meio para a satisfação humana. Ao contrário dos valores utilitários, o valor de existência da biodiversidade independe do seu uso para os seres humanos (NOGUEIRA e MEDEIROS, 1999). O valor de existência atribuído a um bem ambiental tem origem em uma disposição do indivíduo em garantir a sobrevivência de plantas e animais por simpatia pelos mesmos e não devido à sua atual ou futura utilidade (Ibid.). Dessa forma, esse tipo de valor reconhece o "direito que os seres não humanos e as coisas têm de existir", independente do uso presente ou futuro que possam oferecer aos seres humanos (NOGUEIRA e MEDEIROS, 1999: 64).

Esse estudo objetivou identificar as preferências dos agricultores quanto às árvores sombreadoras nas cabrucas, seus principais usos e o manejo adotado em relação às mesmas. Para tal, foram aplicados questionários aos responsáveis de 160 estabelecimentos rurais que possuíam áreas de cabruca na região cacaueira tradicional do Sudeste da Bahia. Os dados coletados por meio da aplicação de questionários foram analisados e comparados com os resultados de um levantamento de espécies arbóreas realizado em estabelecimentos da região Sudeste da Bahia.

Após esse texto introdutório, descrevemos primeiramente a metodologia utilizada na pesquisa. Posteriormente, foi feita a apresentação dos resultados e sua discussão. Por fim, foram delineadas considerações sobre as implicações desses resultados para a conservação da diversidade arbórea nas cabrucas e algumas recomendações.

 

Metodologia

Durante a pesquisa, 160 estabelecimentos rurais localizados em 14 municípios da Região Econômica Litoral Sul no Sudeste da Bahia foram visitados. Essa região foi escolhida por possuir a maior área ocupada pelo sistema cabruca no Estado, conforme dados de um levantamento realizado em 2007 pelo Centro de Extensão da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), principal instituição governamental dedicada à pesquisa e extensão em cacauicultura na região. Um questionário foi aplicado ao responsável pelo estabelecimento no momento da visita com questões relacionadas ao seu perfil socioeconômico (idade, anos de experiência no cultivo de cacau, nível educacional, renda), à percepção sobre o cultivo (intensidade de sombra, fatores que influenciam a produtividade, distância ideal entre as árvores de sombra e fatores que influenciam essa distância, malefícios e benefícios do sombreamento, árvores de sombra em aumento e em diminuição no cultivo), aos usos locais das espécies arbóreas, às práticas de manejo dessas espécies e à comercialização de produtos alternativos ao cacau. Os entrevistados foram classificados de acordo com a sua função no estabelecimento como proprietário, assentado, administrador, parceiro e empregado.

Esse estudo teve como base a análise das preferências individuais dos entrevistados quanto às espécies arbóreas, tanto nativas quanto exóticas, presentes em suas áreas de cabruca. A preferência dos entrevistados em relação às espécies arbóreas foi avaliada pedindo para que esses enumerassem em ordem de preferência decrescente três espécies que gostariam de manter na plantação de cacau no caso hipotético em que todas as árvores tivessem que ser eliminadas de suas áreas. Para a identificação das espécies que possuíam os maiores níveis de rejeição, pediu-se aos entrevistados para que enumerassem em ordem de importância decrescente as três espécies que gostariam de eliminar de sua plantação de cacau num caso hipotético para as espécies nativas, uma vez que a legislação ambiental brasileira proíbe a supressão da vegetação nativa. Procurou-se identificar os critérios utilizados pelos agricultores para a escolha das espécies nos dois casos. Foram também examinados os principais usos dessas espécies (alimentação humana, alimentação de animais de criação e silvestres, madeira, lenha e medicamento) e o manejo dessas espécies, mais especificamente as práticas de corte seletivo de plântulas durante a roçagem (roçagem seletiva), raleamento da sombra e plantio de árvores. A aplicação dos questionários ocorreu no período entre dezembro de 2007 e março de 2009.

Os dados coletados foram codificados e analisados qualitativamente e quantitativamente. Esses dados foram comparados com os resultados de um levantamento de espécies arbóreas realizado em 2008 em 16 estabelecimentos localizados em 13 municípios da Região Econômica Litoral Sul do Sudeste da Bahia (SAMBUICHI et al., 2012). Em cada estabelecimento foi amostrado um hectare de cabruca. Nesse levantamento, foram calculados os seguintes parâmetros para cada espécie: densidade, área basal e frequência. O valor de importância de cada espécie foi obtido através da soma dos valores relativos de densidade, área basal e frequência. Utilizou-se também informações de um levantamento realizado por Alvim e Pereira em 1965 reportado por Sambuichi et al. (2012). Os dados desse levantamento, que envolveu 61 hectares em diferentes plantações de cacau-cabruca da região, foram utilizados para comparar as densidades de algumas espécies identificadas no levantamento realizado em 2008 por Sambuichi et al. (2012).

Fez-se uma comparação dos critérios locais de escolha de espécies arbóreas com os requerimentos de composição de um sombreamento compatível com a conservação da biodiversidade. Na composição desse sombreamento recomenda-se priorizar uma diversidade de espécies nativas, que de preferência possuam folhagem perene e que proporcionem alimento e abrigo para espécies animais nativas e endêmicas (PARRISH et al., 1999).

 

Resultados e discussão

Perfil dos entrevistados

Foram identificadas cinco categorias de entrevistados de acordo com a função no estabelecimento. Dentre esses, 61 (38%) eram administradores, 48 (30%) proprietários, 35 (22%) parceiros, 9 (5,6%) empregados e 7 (4,4%) assentados. Pouco mais da metade dos entrevistados (52%) tinha entre 26 e 50 anos Aproximadamente 53% dos entrevistados possuía mais de trinta anos de experiência com o cultivo de cacau. Em relação ao nível educacional, 26% dos entrevistados eram analfabetos e 39% não havia concluído o Ensino Fundamental. Dos 69 entrevistados que informaram a renda, 71% possuía uma renda mensal entre um a dois salários mínimos e 20% inferior ao salário mínimo.

Percepções acerca do sombreamento

Apesar da maioria dos entrevistados (54%) ter julgado o nível de sombra em sua plantação como bom, um percentual significativo (46%) o considerou elevado. O sombreamento excessivo é visto pelos entrevistados como sendo responsável por uma maior incidência de doenças como a podridão parda (Phytophthora palmivora) e vassoura-de-bruxa e por causar uma significativa redução da produção. Os entrevistados também associaram o excesso de sombra à promoção de um maior desenvolvimento longitudinal das plantas, o que faz com que essas se tornem muito altas, dificultando a colheita.

Na literatura, a redução da produtividade dos cacaueiros em áreas muito sombreadas é explicada pela menor atividade fotossintética da planta devido à intensidade de radiação solar mais baixa, ao aumento da incidência de doenças e à competição das árvores de sombra com os cacaueiros por água, luz e nutrientes (BEER et al., 1998; ZUIDEMA et al., 2005). Além do elevado nível de sombreamento, a baixa produtividade de cacau foi atribuída a outros fatores como material genético deficiente (clones autoincompatíveis e pouco produtivos e variedades suscetíveis a doenças), baixa fertilidade do solo, déficit hídrico e falta de aplicação de tratos culturais em geral.

Por outro lado, os entrevistados citaram como benefícios associados ao sombreamento na plantação de cacau: proteção contra ventos fortes, redução da emergência de ervas daninhas, menor incidência da doença fúngica "murcha de verticílio" causada pelo fungo Verticillium dahliae que prolifera em condições de deficiência hídrica (PEREIRA et al., 2008) mais comumente encontradas em áreas pouco sombreadas, menor ataque de pragas e proteção dos cacaueiros contra o ressecamento do solo. Outro importante benefício do sombreamento mencionado foi a proteção dada aos cacaueiros contra a intensidade da luz solar.

De acordo com um assentado entrevistado:

"se (você) tira a sombra ele (o cacaueiro) sente... sem sombra, (o) sol forte vai matar uma boa parte... o cacau ponteira, até morre, fica seco nas folhas... é que nem a gente quando vai pro sertão".

Além disso, foi relatado que a manutenção de um maior número de árvores de sombra contribui para uma maior disponibilidade de água no estabelecimento, reconhecendo-se a função do sombreamento para a conservação do regime hídrico. Como relatado por um agricultor, "antes tinha mais sombreamento e tinha mais água, com o desmatamento diminuiu a água".

Outros benefícios do sombreamento relatados na literatura incluem: proteção do solo contra erosão, melhoria da polinização (YOUNG, 1982), manutenção da umidade do ar, regulação da temperatura do ar e do solo, melhor ciclagem de nutrientes, produção de matéria orgânica (BONDAR, 1938), preservação da fertilidade natural do solo, diminuição da incidência de epífitas, maior estabilidade da produção, maior longevidade das plantações (AHENKORAH et al., 1974), obtenção de produtos agroflorestais de interesse econômico e de subsistência (madeira, lenha, frutas, etc) [DIAS, 2001; BEER et al., 1998]. Além disso, esses SAFs produzem serviços ambientais como o sequestro de carbono atmosférico e a conservação da biodiversidade (RICE e GREENBERG, 2003; SOMARRIBA e BEER, 2010).

Não existe um consenso entre os entrevistados sobre qual a distância ótima entre árvores de sombra nas cabrucas. No entanto, a maioria dos entrevistados (59% ou 80 de 136) considerou ideal um espaçamento entre árvores de sombra no intervalo de 20 a 40 metros. Nesse espaçamento, obtém-se de 25 a 6 árvores de sombra por hectare (ALVIM, 1976; MANDARINO, 1979). Esse intervalo engloba e supera o intervalo de distância recomendado nos manuais de cultivo de cacau da CEPLAC, que é de 24 metros (MANDARINO, 1979; GRAMACHO et al., 1992). No passado, o espaçamento entre árvores de sombra recomendado por agrônomos era menor; de 8 a 16 metros, a depender da espécie considerada (MIRANDA, 1938). Um espaçamento menor que 20 metros foi avaliado como ideal por 29% (39 de 136) dos agricultores entrevistados. Por outro lado, uma minoria (13% ou 17 de 136) afirmou que esse espaçamento deveria ser maior que 40 metros, correspondendo a uma densidade menor que 6 árvores por hectare.

A densidade média de árvores de sombra encontrada no levantamento realizado em 2008 por Sambuichi et al. (2012) foi de 121 indivíduos por hectare. Isso indica que o espaçamento entre árvores de sombra praticado nas cabrucas da região gira em torno de nove metros, valor inferior ao considerado ideal pela maioria dos entrevistados. Essa defasagem entre a densidade média praticada e a densidade considerada ideal pela maioria dos agricultores pode explicar porque quase 50% dos entrevistados possuía a percepção que suas lavouras estavam muito sombreadas.

Os entrevistados indicaram que a distância entre árvores de sombra deve variar de acordo com fatores como fertilidade e profundidade do solo (solos menos férteis e rasos demandam maior sombreamento), topografia (topo de morro exigem mais sombreamento do que áreas baixas), idade dos cacaueiros (plantas mais velhas exigem menos sombra), densidade de plantio (plantações mais densas requerem menos sombreamento) e tipo de copa das árvores utilizadas (copas com muitas ramificações ou não).

Em áreas mais baixas do relevo próximas a cursos d'água, áreas geralmente mais férteis e úmidas, vários entrevistados relataram perdas de produção devido à vassoura-de-bruxa maiores do que em áreas mais altas de encostas e topos de morro. De fato, condições elevadas de umidade relativa do ar em combinação com temperaturas entre 20 e 25ºC são conhecidas por favorecer a disseminação do patógeno (RUDGARD et al., 1993; LUZ et al., 2006). Consequentemente, muitos entrevistados relataram estar cortando árvores de sombra nessas áreas a fim de aumentar a incidência de luz e uma maior aeração. Essa prática vai de encontro às recomendações de um manejo favorável à conservação da biodiversidade, que, como reportado em Parrish et al. (1999), aconselha preservar a vegetação nativa em pelo menos dez metros de cada margem de riachos a fim de proteger os recursos hídricos, a biodiversidade aquática e contribuir para formar corredores florestais ribeirinhos. O corte da mata ciliar é um ponto de conflito entre ambientalistas e produtores de cacau, haja vista que muitos cacauais foram historicamente implantados e encontram-se atualmente localizados nas áreas férteis dos vales ao longo dos rios, que pela legislação brasileira deveriam ser destinadas à composição de áreas de preservação permanente (APP) com vegetação nativa. No entanto, com as recentes alterações feitas ao Código Florestal passou a ser incluída nas APPs, apenas no caso de pequenas propriedades familiares, a presença de agroflorestas.

 

Preferências dos entrevistados

Espécies de maior preferência

Os entrevistados indicaram ao todo 45 espécies como sendo as de sua maior preferência. Dentre essas, a maior parte foi composta por espécies nativas (31 ou 69%). No levantamento realizado em 2008 (SAMBUICHI et al., 2012) identificou-se que as árvores nativas representavam a maioria dos indivíduos (74%) e das espécies (93%), superando, assim, as árvores exóticas na composição do sombreamento das cabrucas.

O principal uso citado para a maior parte dessas espécies foi como madeira, seguido do uso na alimentação humana. As 16 espécies mais citadas entre aquelas de maior preferência e seus usos estão apresentados na Tabela 1. Dentre as 16 espécies citadas como de maior preferência dos entrevistados, sete foram citadas como sendo atrativas da fauna silvestre e seis como medicinal.

As três espécies de maior preferência indicadas pelos entrevistados foram compostas por espécies nativas madeireiras. Essas foram em ordem decrescente: jequitibá (Cariniana legalis) (40% dos entrevistados ou 58 de 146), cedro (Cedrela odorata) (36% dos entrevistados ou 53 de 146) e vinhático (Plathymenia foliolosa) (26% dos entrevistados ou 38 de 146). Em seguida, as espécies mais citadas foram as espécies exóticas cajazeira (Spondias mombin), espécies do gênero eritrina (Erythrina spp.) e jaqueira (Artocarpus heterophyllus).

A razão empregada pela maior parte dos entrevistados para justificar a escolha dessas três espécies eram que estas possuíam madeira de boa qualidade (duras e resistentes também denominadas de "madeira de lei"), empregadas na fabricação de móveis e no ramo da construção civil. Outros acrescentaram que essas espécies eram "as de maior valor econômico", "as mais procuradas para compra" e que valorizavam a propriedade. Identificou-se que uma sombra considerada "boa" pelos entrevistados é, em geral, aquela fornecida por árvores que apresentam grande porte, copa alta, ampla e pouco densa. A copa alta é desejável segundo Bondar (1956:14), pois "quanto mais alta é a sombra, tanto mais espessa é a camada de ar estável úmido, favorável ao cacaueiro".

É interessante notar que apesar do louro-sabão (Nectandra sp.) ter sido indicado pelos entrevistados junto com o vinhático como a espécie mais utilizada para madeira nos estabelecimentos rurais, este foi classificado em sétimo lugar na preferência dos entrevistados (Tabela 1). Isso indica que os agricultores tendem a preferir as espécies madeireiras que possuem maior valor de mercado em relação aquelas com maior valor de uso.

As três espécies de maior preferência foram também aquelas que os entrevistados mais perceberam como estando em diminuição nas plantações de cacau, respectivamente jequitibá (17% das citações ou 16 de 95 entrevistados), cedro (14% ou 13 de 95) e vinhático (13% ou 12 de 95). Isso parece estar relacionado ao fato dessas espécies terem sido as mais cortadas para venda ilegal no passado, assim como serem as mais requisitadas para compra no presente. Os relatos dos agricultores confirmaram que a exploração dessas espécies, principalmente a do vinhático, foi intensificada em decorrência da crise da lavoura cacaueira.

No entanto, uma proporção menor dos entrevistados afirmou ter a percepção que essas mesmas espécies estão aumentando de número nas cabrucas (cedro, 11% ou 11 de 98 das citações; jequitibá e vinhático, ambos com 9% ou 9 de 98). Essa percepção pode estar relacionada ao fato da maioria desses agricultores (78% ou 120 de 154) estarem priorizando a regeneração natural das plântulas dessas três espécies no corte seletivo durante a roçagem. Nota-se, portanto, que apesar de haver um favorecimento de espécies nativas, há uma concentração generalizada da regeneração em apenas três espécies nativas, o que pode não ser suficiente para assegurar a continuidade da diversidade do dossel de sombra a longo prazo.

No levantamento de espécies realizado em 16 estabelecimentos da região (SAMBUICHI et al., 2012) essas três espécies estão entre as 13 mais importantes, sendo que o vinhático e o cedro foram respectivamente a segunda e a quarta espécies mais importantes. A comparação entre as densidades dessas espécies encontradas no levantamento realizado por Alvim e Pereira em 1965 e no levantamento realizado em 2008 (SAMBUICHI et al., 2012) indicou que a densidade do vinhático aumentou em 7,7 vezes nesse período, enquanto jequitibá e cedro, espécies madeireiras também valorizadas pelos entrevistados, exibiram aumentos menores, respectivamente de 2,7 e 2,5 vezes.

A quarta espécie citada como de maior preferência foi a cajazeira, que apareceu como sendo a terceira com o maior valor de importância no levantamento das áreas amostradas. Sua elevada densidade pode estar associada ao fato de ser a espécie mais escolhida para o plantio nas cabrucas pelos entrevistados. O principal benefício atribuído à cajazeira foi a produção de frutos, que em muitos casos são vendidos à agroindústrias de polpa da região, gerando uma renda adicional ao proprietário e/ou trabalhadores rurais. Outros atributos dessa espécie apreciados pelos entrevistados foram fornecer uma "sombra boa", possuir folhas finas e madeira resistente ao vento.

Em quinto lugar foram citadas as espécies do gênero eritrina. O único uso relatado para essas espécies, além do fornecimento de sombra aos cacaueiros, foi como lenha, um uso, em geral, pouco apreciado pelos entrevistados. Essas espécies foram citadas em segundo lugar entre aquelas escolhidas para o plantio, seguida da seringueira (Hevea brasiliensis) e do pau-brasil (Caeslapinia echinata). A preferência por essas espécies pode ser compreendida pelo fato dessas terem sido promovidas desde a década de 1930 pelas instituições de pesquisa e extensão agrícolas locais como a melhor árvore de sombra (MIRANDA, 1938). Sua disseminação foi intensificada a partir da década de 1960 por meio dos incentivos à implantação de cacauais no método derruba total, que empregava essas espécies como únicas árvores de sombra (JOHNS, 1999). Os agrônomos valorizavam essas espécies por serem leguminosas fixadoras de nitrogênio e apresentarem rápido crescimento, troca de folhas no inverno, sombra pouco densa, porte alto, fácil multiplicação por sementes e estaca e boa adaptação em terrenos úmidos e secos (BONDAR, 1938; GRAMACHO et al., 1992). No entanto, essas espécies também estiveram entre aquelas de menor preferência.

A jaqueira, uma árvore frutífera exótica, também esteve entre as espécies preferidas dos entrevistados. Seu principal benefício foi a produção de frutos, consistindo em uma importante fonte de alimentos para os trabalhadores rurais. Dentre as espécies sombreadoras, essa foi a mais importante como fonte de alimento (frutos), seguida da cajazeira e genipapeiro. Resultou também ser uma das espécies com a maior quantidade de usos citados (alimento, madeira e lenha).

Segundo os entrevistados, a jaqueira é a espécie que mais tem aumentado em densidade nos estabelecimentos. É interessante notar que justamente essa espécie foi a mais importante no levantamento, apresentando o maior número de indivíduos (269), a maior frequência de ocorrência, 72% das parcelas), e a maior área basal, 26,5 m2 (SAMBUICHI et al., 2012). O número de jaqueiras encontrado foi mais de três vezes superior ao número da segunda espécie mais numerosa nas áreas estudadas, o vinhático. Deve-se ressaltar, contudo, que essa espécie também foi classificada entre aquelas de maior rejeição, obtendo uma maior proporção de citações nesse caso.

A análise dos dados revelou que os critérios mais empregados pelos entrevistados para a escolha das espécies de sua maior preferência foram: qualidade da madeira (36,9% ou 87 das 236 citações), produção de frutas e/ou nozes para o autoconsumo (18,2%), qualidade da sombra (15,3%) e fornecimento de produtos para venda (12,7%) (Tabela 2). Dentre os critérios citados, a maioria se enquadra como utilitários, apenas 4,7% (origem e densidade/valor estético), pode ser compreendido como valores de existência ou não utilitários (NOGUEIRA e MEDEIROS, 1999).

Se combinarmos os dois critérios relacionados à capacidade das árvores em fornecer renda adicional ao produtor por meio de produtos como madeira, frutos, entre outros, obtêm-se aproximadamente a metade das citações (49,6%). Isso indica que os critérios associados à geração de renda são importantes para a seleção de espécies arbóreas nas cabrucas, predominando sobre critérios relacionados ao seu efeito sobre o desenvolvimento dos cacaueiros e à provisão de produtos de subsistência. Podemos relacionar esse resultado à crise da lavoura cacaueira, que fez com que a geração de alternativas econômicas se tornasse crucial para a recuperação da viabilidade econômica dos estabelecimentos contendo o SAF cabruca. Apesar disso, é ainda baixa a diversificação agrícola nos estabelecimentos rurais analisados.

De acordo com os dados obtidos, apenas 29% dos agricultores comercializa algum outro produto do estabelecimento rural, além do cacau. O produto mais vendido foi a banana. Das árvores sombreadoras, foram indicados produtos de 14 espécies, todas exóticas, sendo a maioria frutífera. Nesse caso, os produtos mais vendidos foram respectivamente cajá (42%) e jaca (16%).

Espécies de maior rejeição

Ao todo foram citadas 44 espécies como sendo aquelas de maior rejeição dos entrevistados (Tabela 3). As mais citadas em ordem decrescente foram as espécies embaúba (Cecropia spp.) (41% dos agricultores ou 57 de 138), gameleira (Ficus spp.) (38% dos agricultores ou 52 de 138), espécies do gênero eritrina (29% dos agricultores ou 40 de 138 agricultores) e jaqueira (15% dos agricultores ou 21 de 138). Essas espécies estiveram entre as principais espécies que eram removidas da plantação durante o raleamento da sombra [jaqueira (20%), espécies do gênero eritrina (13%), gameleira (13%), fidalgo (Aegiphila sellowiana) (9%) e embaúba (8,5%)] e cujas plântulas eram cortadas durante a roçagem manual seletiva [gameleira (42%), jaqueira (35%), espécies do gênero eritrina (26%) e embaúba (21%)].

O principal uso reportado pelos entrevistados para a maioria dessas espécies foi como lenha. As primeiras duas espécies citadas também foram reportadas como tendo uso medicinal. Pode-se observar, portanto, que houve, em geral, uma valorização pelos entrevistados de espécies que possuem uso principal madeireiro ou alimentar em detrimento daquelas que têm uso principal como lenha.

A principal razão para a rejeição da embaúba foi atribuída à queda frequente sobre os cacaueiros de suas folhas grandes, ásperas e resistentes à decomposição, que "sujam o cacau", formando camadas sobre suas copas que interceptam luz e ar, prejudicando, assim, o seu desenvolvimento. Outros atributos negativos mencionados foram a elevada densidade, o fornecimento de uma sombra muito densa e sua baixa utilidade. Essa última característica está relacionada ao fato dessa árvore não fornecer madeira de qualidade ou frutos comestíveis para os seres humanos, apenas podendo ser utilizada como lenha ou medicamento, usos menos valorizados. As principais espécies de sombra citadas como tendo uso medicinal foram as espécies nativas jatobá (Hymenaea oblongifolia) (23%), buranhém (Pradosia glaziovii (14%) e pau-d'alho (Gallesia integrifolia) (8%).

O elevado número de indivíduos da embaúba percebido pelos entrevistados foi confirmado no levantamento de espécies (SAMBUICHI et al., 2012), onde essas espécies em conjunto obtiveram o sétimo lugar em densidade. Ademais, as embaúbas foram as espécies que demonstraram a maior expansão em número nas cabrucas entre os anos de 1964 e 2008, equivalente a 8,5 vezes. Uma explicação para esse aumento de densidade das embaúbas, apesar da rejeição dos agricultores por essas espécies, é que elas apresentam facilidade de dispersão e crescimento rápido, regenerando com facilidade no ambiente das cabrucas. Com a redução da frequência de roçagem nas plantações de cacau no período, em decorrência da crise econômica, essas espécies foram favorecidas.

Apesar dos agricultores entrevistados não terem associado valores positivos à embaúba, além do seu uso medicinal, a literatura indica que essa espécie possui características que cumprem importantes funções em SAFs como potencial de crescimento inicial elevado (MACIEL et al., 2012) e uma arquitetura da copa que permite a passagem de luz no sub-bosque, favorecendo a fotossíntese das espécies localizadas abaixo das copas (OLIVEIRA e CARVALHO, 2008). Essas características a tornam desejável em SAFs como o sistema cacau-cabruca, entretanto os dados deste levantamento indicam que os agricultores da região não reconhecem os benefícios dessas espécies ao sistema por desconhecimento dos mesmos ou por não valorizarem esses benefícios.

A rejeição dos entrevistados pela gameleira esteve associada à qualidade de sua sombra, considerada muito densa, seguida de sua ação estranguladora sobre outras árvores de sombra, que podem conduzi-las à morte, e, por fim, à sua elevada densidade nas cabrucas.

O atributo menos apreciado das espécies do gênero eritrina pelos entrevistados foi a frequente queda de galhos sobre os cacaueiros, que podem causar sérios danos aos mesmos. Além disso, essas espécies possuem espinhos, competem com os cacaueiros por água, nutrientes e luz e não geram nenhum produto de valor econômico (MARQUES et al., 2007). Os agrônomos atuantes na CEPLAC, reconhecendo esses inconvenientes, têm incentivado a substituição das eritrinas nas plantações de cacau por espécies que geram produtos econômicos como a seringueira (Ibid.).

Dentre as espécies de maior rejeição, a jaqueira foi a única espécie reportada como sendo utilizada principalmente como alimento humano. Segundo os entrevistados, é também a espécie mais utilizada como alimento por animais silvestres. Dentre os principais atributos negativos citados, estavam a formação de um sombreamento muito denso que reduz a produção dos cacaueiros e sua elevada densidade. Essa foi a espécie citada como sendo a mais removida das plantações de cacau durante a prática de raleamento da sombra.

A jaqueira também foi indicada como sendo a segunda espécie mais cortada durante a roçagem seletiva. Observou-se que há mais ações voltadas à contenção (raleamento e corte seletivo) dessa espécie do que voltadas à sua promoção (regeneração natural e plantio) nas cabrucas. Nesse sentido, a elevada densidade dessa espécie nas cabrucas, detectada no levantamento realizado em 2008, pode estar mais associada à sua capacidade de fácil multiplicação e de seu efeito inibitório sobre a germinação de espécies nativas por ação alelopática (CEPAN, 2009), favorecida também pela dispersão feita pelos empregados rurais e animais silvestres que comem os seus frutos, do que resultante de uma intenção consciente dos agricultores em favorecê-la. Observou-se também que há uma maior preferência por essa espécie entre empregados (30%) do que entre proprietários (11%), provavelmente pelo fato dos primeiros valorizarem mais o seu uso como alimento em relação aos seus efeitos negativos sobre a produção de cacau do que esses últimos.

Os principais critérios adotados pelos agricultores para a escolha das espécies de maior rejeição foram: frequência da queda de galhos (17% ou 34 das 200 das citações), qualidade da sombra (13%), competição com cacaueiros por água (12%), perda de folhas (10%), relação parasitária com outras árvores (8%), resistência da madeira (7,5%), densidade (7%) e utilidade (5,5%) [Tabela 4]. A frequente queda de galhos, associada às espécies que possuem madeira "mole" ou "branca", geralmente pouco resistentes ao vento, foi reportada na década de 1960 como um dos principais problemas identificados no manejo nas cabrucas (MANDARINO, 1979). De fato, a maioria das espécies rejeitadas possuem madeira "branca", ao contrário das espécies citadas como preferidas que, em geral, possuem madeira de lei. De certa forma, portanto, o critério qualidade da madeira foi determinante para a escolha das espécies nos dois casos, ainda que por motivos distintos.

Nota-se que os critérios associados ao efeito das espécies sobre o desenvolvimento e a produção de cacau tiveram prioridade sobre o critério utilidade para os seres humanos (produção de madeira, frutos, etc.) na escolha das espécies de maior rejeição em relação à escolha daquelas de maior preferência.

Apesar de serem rejeitadas pelos agricultores, verificou-se no levantamento de espécies uma elevada densidade e frequência de espécies nativas pioneiras como embaúba, pau-frieira, fidalgo e pau-pombo. Isso indica que os agricultores as toleram na plantação de cacau, especialmente quando se considera que a regeneração da sombra com o plantio e crescimento de outra espécie de sua preferência, em geral de crescimento mais lento, requer tempo. Inclusive em locais da plantação onde é necessária sombra com urgência, essas espécies podem ser priorizadas, pois apresentam um crescimento rápido sem a necessidade de serem plantadas no local, pois se regeneram com facilidade. A elevada densidade dessas espécies pode estar também associada à redução da frequência da roçagem em muitos estabelecimentos rurais da região em decorrência da crise.

Os entrevistados demonstraram conhecer várias características das árvores de sombra e seu efeito sobre o desenvolvimento e a produção de cacau. As características atribuídas às 12 espécies mais citadas entre aquelas de maior preferência e maior rejeição foram organizadas na Tabela 5. As espécies foram classificadas também de acordo com sua frequência revelada no levantamento de 2008 e sua variação em densidade nas áreas de cabruca. Essa variação foi calculada com base na comparação entre as densidades encontradas nos levantamentos realizados em 1964 por Alvim e Pereira (1965) e em 2008 por Sambuichi et al. (2012).

 

Considerações finais

A análise das percepções e preferências dos agricultores quanto às espécies arbóreas que sombreiam os cacaueiros, seus usos locais e manejo e a comparação com os dados de levantamentos nas cabrucas indicaram que:

- Há uma propensão por parte dos agricultores em reduzir a densidade de sombra nas cabrucas, uma vez que a proporção de entrevistados que considerou que suas plantações estavam excessivamente sombreadas foi alta.

- Nota-se pelos critérios de seleção das árvores adotados, que há preferência por espécies agregadoras de renda, seja pelo aproveitamento madeireiro ou alimentar, independente de sua origem (nativa ou exótica). Portanto, há uma predominância de critérios utilitários para seleção das espécies e pouco interesse na conservação de espécies que não tenham uso conhecido, mesmo que sejam raras e ameaçadas.

- A maioria das espécies preferidas pelos agricultores esteve entre as mais importantes no levantamento da vegetação arbórea realizado em cabrucas da região. Isso parece indicar que há, para certas espécies, uma forte relação entre as preferências dos agricultores, as práticas de manejo adotadas e a composição de espécies dominantes nas cabrucas. Nesse sentido, os agricultores tendem a favorecer a regeneração natural e promover o plantio de espécies de elevada preferência em detrimento de espécies rejeitadas. No caso da jaqueira e outras espécies pouco apreciadas pelos entrevistados, percebe-se que sua predominância no sombreamento está mais relacionada a fatores como fácil multiplicação por semente, rápido crescimento e a baixa frequência de roçagem do que por uma ação propositalmente favorável dos agricultores.

A partir desses resultados, pode-se concluir que, para promover a manutenção das espécies arbóreas nativas nas cabrucas, e a consequente conservação da diversidade biológica, é importante aumentar e difundir entre os agricultores o conhecimento sobre os usos potenciais dessas espécies, seu manejo e o seu valor intríseco. Nesse sentido, destacam-se algumas recomendações:

- Realizar pesquisas visando compreender melhor quais são os maiores níveis de sombreamento compatíveis com a produção sustentável de cacau, entendendo que a produtividade de longo prazo e estabilidade da cultura é favorecida por um aumento dos níveis de biodiversidade do sistema (SOMARRIBA e HARVEY, 2004; CASSANO et al., 2009).

- Investir em pesquisa sobre os usos locais medicinais de espécies nativas citadas nesse estudo e principalmente daquelas pouco apreciadas pelos entrevistados, que podem apresentar potencial fitoterápico;

- Promover estudos e divulgação sobre a adequabilidade de um maior número de espécies nativas para o sombreamento dos cacaueiros que respondam aos critérios locais dos agricultores a fim de substituir as espécies do gênero eritrina;

- São oportunas intervenções de educação ambiental para promover a conscientização sobre os valores intrínsecos da biodiversidade com foco nas espécies nativas endêmicas que favorecem a fauna silvestre e a compreensão dos impactos das espécies exóticas invasoras no agroecossistema;

- Aponta-se a necessidade de realização de pesquisas sobre a dinâmica de expansão das espécies exóticas invasoras nas cabrucas e seu monitoramento;

- A implantação de um sistema de manejo de madeira certificada poderia agregar valor à madeira proveniente das árvores de sombra das cabrucas da região, desestimulando seu comércio ilegal e garantindo sua conservação no futuro.

 

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Submetido em: 27/11/12
Aceito em: 15/04/14

 

 

1. Os autores agradecem ao Instituto Cabruca pelo apoio logístico e pela disponibilidade de pessoal necessário para a realização do trabalho de campo. Mais especificamente, agradecimentos a Thiago Guedes Viana do Instituto Cabruca pela assistência na pesquisa de campo. A primeira autora agradece ao Ministério da Agricultura Holandês e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão de bolsa de estudo em diferentes períodos dessa pesquisa.

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