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Ambiente & Sociedade

Print version ISSN 1414-753XOn-line version ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.20 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2017

http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc20150034r2v2012017 

Articles

PLANTAS MEDICINAIS NOS ASSENTAMENTOS RURAIS EM UMA ÁREA DE PROTEÇÃO NO LITORAL DO NORDESTE BRASILEIRO.

MICHELE FERNANDA MARQUES DE BRITO 1  

EDNA ARÉVALO MARÍN 2  

DENISE DIAS DA CRUZ 3  

1Bióloga, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA - Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil. Endereço: Universidade Federal da Paraíba, 58051-900 João Pessoa-PB. e-mail: micheleg7@gmail.com;

2Bióloga, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA - Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil. e-mail: dafine_li@hotmail.com;

3Doutora em Ciências Biológicas, Ecologia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil. Professora, Departamento de Sistemática e Ecologia DSE/CCEN/Universidade Federal da Paraíba, Campus I, João Pessoa, PB. E-mail: denidcruz@dse.ufpb.br

Resumo

O objetivo do presente estudo foi realizar um levantamento etnobotânico sobre o conhecimento e uso de plantas medicinais em cinco comunidades rurais localizadas dentro da Área de Proteção Ambiental Tambaba, litoral sul paraibano. Os dados foram coletados através de entrevista semiestruturada com 58 informantes-chave com idade entre 28 a 83 anos. Foram registradas 71 espécies distribuídas em 47 famílias, sendo Leguminosae a mais citada. As folhas foram as partes mais citadas e o chá foi o modo de preparo mais comum. O índice de Valor de Uso revelou um grupo de nove espécies mais utilizadas pelas comunidades. O Fator de Consenso do Informante indicou as doenças do sistema respiratório como as mais tratadas. O teste de permutação ANOSIM-oneway mostrou a semelhança entre as comunidades ao comparar as relações entre as espécies e seus usos terapêuticos. Essas comunidades usam as plantas medicinais como uma alternativa eficiente e imediata para o tratamento de doenças cotidianas.

Palavras-chave: Etnobotânica; Mata Atlântica; Unidades de Conservação; Conhecimento tradicional; Comunidade rural

Introdução

A rápida ocupação humana com a consequente urbanização de áreas de importância ecológica tem acelerado os processos de mudança no modo de vida de diversas comunidades que, de certa forma, estavam isoladas e preservavam antigos costumes, a exemplo de pescadores e agricultores (GANDOLFO; HANAZAKI, 2011). Estudos etnobiológicos são alguns dos melhores meios para resgatar e registrar os saberes locais. Em novos ambientes, o conhecimento ecológico construído via práticas diárias de trabalho no campo e através da relação direta com os elementos naturais estão sendo facilmente substituídos por novas tecnologias e correndo o risco de se perder no tempo (GANDOLFO; HANAZAKI, 2011). Nesse sentido, a etnobiologia permite o registro do conhecimento humano a respeito do mundo natural (BORGES; PEIXOTO, 2009).

A etnobotânica - ciência que aborda a forma como diferentes grupos humanos interagem com a vegetação, seu uso, manejo e percepção dos recursos naturais - é utilizada quando a investigação científica procura o saber fundamentado nos usos e aplicações de espécies vegetais (GUARIM NETO, 2000).

O saber tradicional pode ser útil na elaboração de um planejamento ambiental, na preservação de espécies e no desenvolvimento sustentável em Unidades de Conservação que permitem a presença e influência humanas. O conhecimento tradicional é uma poderosa ferramenta para o planejamento e manutenção desses ambientes, pois complementa o conhecimento científico ao fornecer experiências práticas resultantes de vivências em ecossistemas e ao colaborar com a busca por respostas para as mudanças ocorridas nesses ambientes (BORGES; PEIXOTO, 2009).

Mesmo estando entre os principais hotspots mundiais de biodiversidade (MYERS et al., 2000) e tendo perdido grande parte de sua cobertura vegetal original devido aos impactos causados pela ação humana, a Mata Atlântica abriga inúmeras comunidades humanas, que exploram os recursos naturais para a sua sobrevivência de formas diferentes. Muitos trabalhos focados em descobrir informações relevantes sobre os modos de uso das plantas medicinais e em sistematizar o conhecimento sobre esses fitoterápicos já foram realizados nesse bioma (BEGOSSI; HANAZAKI; TAMASHIRO, 2002; PINTO; AMOROZO; FURLAN, 2006). As comunidades rurais também têm recebido atenção nos levantamentos etnobotânicos (AMOROZO, 2004; SILVA; ANDRADE, 2005; CUNHA; BORTOLOTTO, 2011); suas características são um misto de conhecimentos trazidos por agricultores vindos de vários ambientes e da prática agrícola.

Os assentamentos rurais que se espalham por todo país como novos espaços sociais estão incluídos nas comunidades rurais. Os estudos etnobotânicos nessas comunidades permitem avaliar como os moradores unem as informações trazidas de seus locais de origem àquelas adquiridas no novo ambiente onde se instalam, uma vez que, dada a necessidade de adaptação ao novo local, precisam conhecer outras espécies úteis às suas demandas (CUNHA; BORTOLOTTO, 2011).

O litoral Sul paraibano possui inúmeros assentamentos rurais, cinco deles estão inseridos em uma Unidade de Conservação Estadual, a Área de Proteção Ambiental Tambaba (APA). A APA é um remanescente de Mata Atlântica distribuído entre três municípios: Conde, Alhandra e Pitimbu. A agricultura é a fonte de renda predominante, além de ser a grande responsável pela diminuição da cobertura vegetal na área. Cinco desses assentamentos ocupam duas cidades (Conde e Pitimbu) e sobrevivem da agricultura familiar e do cultivo de subsistência.

O presente estudo teve como objetivo investigar o conhecimento etnoecológico tradicional acerca do uso de plantas medicinais por moradores dos cinco assentamentos localizados na APA Tambaba, Paraíba. Procuramos realizar um levantamento das espécies com potencial medicinal segundo o conhecimento local e definir para quais doenças elas seriam indicadas, assim como identificar o grau de diversidade de espécies com fins medicinais, avaliar a similaridade do conhecimento entre as comunidades, conhecer o valor de uso das espécies, definir o fator de consenso do informante quanto aos sistemas corporais mais citados, e avaliar como se dá a transmissão de conhecimento dentro de cada comunidade.

Materias e Métodos

Área de estudo

Todos os assentamentos visitados estão inseridos na Área de Proteção Ambiental de Tambaba (APA), uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável criada em 25 de março de 2002 (11.500 ha), que abrange os Municípios do Conde, Pitimbu e Alhandra. O clima dominante na área é do tipo As' (tropical quente-úmido, segundo Köppen) e sua cobertura vegetal está estabelecida sobre uma unidade geomorfológica (Tabuleiros Costeiros) constituída por formações florestais e savanas de flora e solo característicos (PEDROSA, 2006).

Cada família legalmente assentada nas comunidades pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) recebeu uma casa e um lote de aproximadamente 5 ha. Os assentamentos são compostos de uma agrovila com escola, igreja e o centro da cooperativa local; além de serem gerenciados por uma associação local composta por uma diretoria. As parcelas, como são chamados os lotes, são utilizadas para agropecuária em regime de economia familiar.

Os assentamentos Nova Vida e APASA encontram-se no município de Pitimbu. Nova Vida foi criado em 1993 e possui atualmente 135 famílias; já APASA foi criado em 1995 e ocupa uma área de 1.110ha, onde funcionava a antiga Fazenda APASA. Cento e cinquenta (150) famílias estão assentadas na APASA e, aproximadamente, outras 56 famílias vivem na agrovila.

Os outros três assentamentos estudados estão localizados no município de Conde. O assentamento Dona Antônia foi criado em 1996 e atualmente possui 110 famílias ocupando uma área de aproximadamente 1.200ha. O assentamento Frei Anastácio foi regularizado em 1999 e possui 21 famílias instaladas em uma área com aproximadamente 220 ha. Já o assentamento Tambaba foi criado em 1989 e é o menor dos assentamentos estudados, atualmente conta com 18 famílias assentadas em uma área de 90 ha.

Coleta de dados

Os dados foram coletados entre Julho de 2012 e Maio de 2013. O trabalho teve início nas comunidades através da apresentação do projeto e obtenção do consentimento dos moradores para a realização da pesquisa. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, solicitado pelo Conselho Nacional de Saúde por meio do Comitê de Ética em Pesquisa (Resolução 196/96). O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, registrado sob o protocolo CAAE 03611812.6.0000.5188.

Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com 59 informantes-chave (43 mulheres; 16 homens) distribuídos da seguinte forma: Dona Antônia (13), Nova Vida (20), APASA (12), Frei Anastácio (06) e Tambaba (08). Todos os participantes foram selecionados por meio do método "Bola de Neve" (BERNARD, 1995). As entrevistas tiveram como objetivo traçar o perfil socioeconômico dos moradores e saber quais espécies locais eram utilizadas para fins medicinais e, especificamente, para tratar quais doenças. As entrevistas foram presenciais para evitar que as respostas fossem influenciadas e alteradas.

Com relação ao aspecto botânico, considerou-se o porte das plantas (arbóreo, arbustivo, herbáceo e lianas) e as partes utilizadas (planta inteira, folha, flor, raiz, casca, látex, flores, frutos e sementes). O material botânico citado pelos entrevistados foi coletado ainda durante as entrevistas, ou em outros momentos, por meio da técnica "Turnê Guiada" (ALBUQUERQUE; LUCENA; ALENCAR, 2010). As amostras coletadas foram devidamente herborizadas e incorporadas ao Herbário Lauro Pires Xavier - JPB (Universidade Federal da Paraíba - UFPB). As identificações botânicas foram realizadas por comparação, através do material depositado no herbário, por consulta à literatura ou por meio de especialistas. As espécies que não puderam ser coletadas foram identificadas a partir da literatura existente, por meio de comparações entre o nome popular e a citação para uso. A grafia dos nomes científicos foi conferida na base de dados The International Plant Name Indexi. O hábito foi determinado a partir do banco de dados da Lista de Espécies da Flora do Brasilii.

Análise dos dados

Os dados obtidos foram analisados de forma qualitativa e quantitativa. As doenças listadas foram enquadradas em categorias de acordo com o CID-10 - Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (OMS, 2008).

Para cada espécie citada foi estimado o Valor de Uso (VU), no qual a importância de uma espécie é dada pelo número de usos que ela apresenta, segundo Rossato et al. (1999). O VU foi obtido através da fórmula: UV = ∑Uis/nis, na qual, UV = valor de uso da espécie s pelo informante i, Uis = número de usos das espécies mencionadas pelo informante i, nis = número de eventos em que o informante i citou a espécie s.

O Fator de Consenso do Informante (FCI) foi estimado para identificar os sistemas corporais com maior importância local (as doenças mais frequentes em consenso) (ALMEIDA et al., 2006; ALVES, POVH, 2013). O valor máximo do FCI é 1, resultado que garante total consenso entre os informantes sobre as plantas medicinais para uma categoria específica. O FCI é dado pela fórmula: FCI = Nur-Nt/Nur-1, na qual, FCI = fator de consenso dos informantes, Nur = soma dos usos registrados por cada informante para uma categoria, e Nt = número de espécies indicadas para cada categoria.

A diversidade do conhecimento etnobotânico (considerando o número de espécies citadas) foi calculada através do índice de Shannon-Wiener; quanto maior o valor de H', maior a diversidade florística da área estudada. O teste de permutação ANOSIM-one way, usando a distância de Bray-Curtis e permutação de 9,999, foi empregado a fim de avaliar a existência de diferenças entre as espécies citadas entre as comunidades. Esse teste produz um resultado R, que varia em uma amplitude de -1 a +1, podendo indicar nenhuma diferença significativa entre os grupos (R < 0,25), alguma diferença com um certo grau de sobreposição dos dados (0,25 < R < 0,5), clara distinção entre os grupos quando R > 0,75, e distinção total quando R = 1. O procedimento de porcentagem de similaridades (SIMPER) definiu o percentual de contribuição das espécies dentro e entre os sistemas corporais utilizados. Uma análise de coordenadas principais (PCO), usando a distância de Bray-Curtis, também foi realizada para gerar dois gráficos que representassem as diferenças entre os sistemas corporais e as espécies citadas. O programa utilizado nas análises foi o Past 2.17.

Resultados e Discussão

Conhecimento tradicional sobre plantas medicinais

A idade dos entrevistados variou entre 28 e 83 anos. A maioria (51%) era composta de aposentados, mas muitos ainda continuam trabalhando no campo para complementar sua renda. A maior parte dos entrevistados (70%) recebe um salário mínimo. Apenas uma das casas visitadas não era de alvenaria, as demais tinham entre cinco e sete cômodos, banheiro, sistema rudimentar de esgoto; acesso a água potável, rede elétrica e coleta de lixo. O catolicismo é a religião predominante (72%), o protestantismo corresponde a 27% da amostra, e 5,1% dos participantes não declararam religião.

As entrevistas permitiram identificar a utilização de 71 espécies locais distribuídas em 63 gêneros e 44 famílias botânicas (Tabela 1). O número de espécies variou por assentamento, sendo 53 em Nova Vida; 44, em APASA; 48, em Dona Antônia; 47, em Frei Anastácio; e 25, no assentamento Tambaba. A família Leguminosae (9 espécies) foi a mais citada, seguida pelas famílias Lamiaceae (8 espécies) e pelas famílias Myrtaceae, Apocynaceae, Rubiaceae, Annacardeaceae e Amaranthaceae (3 espécies cada). Outros trabalhos também citam as famílias Leguminosae e Lamiaceae como bastante representativas no uso medicinal (BOTREL, et al., 2006; GANDOLFO; HANAZAKI, 2011; PINTO; AMOROZO; FURLAN, 2006). Guarim Neto e Moraes (2003) sugerem que muitas espécies de uma mesma família são utilizadas em algum momento para diferentes fins terapêuticos em comunidades humanas que façam uso dos recursos da flora nativa.

Tabela 1 Lista de espécies e morfoespécies, hábito e número de citações nos cinco assentamentos rurais da APA Tambaba, litoral sul, Paraíba. Abreviações: Ar: arbóreo; Sh: arbusto; He: ervas; Tr: árvores. 

Família/Espécies Nome comum Hábito Número de citações Voucher
ACANTHACEAE Justicia pectoralis Jacq. Justicia sp. Chachambá Anador He He 11 9 52455 52464
ADOXACEAE Sambucus australis Cham. & Schltdl. Sabugo Sh 45 52461
AMARANTHACEAE Chenopodium ambrosioides L. Gomphrena sp. Mastruz Pepeta branca He He 77 3 51083 53249
ANACARDEACEAE Anacardium occidentale L. Mangifera indica L. Schinus terebinthifolia Raddi Cajú roxo Manga espada Aroeira Ar Ar Ar 25 3 41 51082 51877 51089
APIACEAE Eryngium foetidum L. Pimpinella anisum L Coentro maranhão Erva doce He He 2 22 53247 52460
APOCYNACEAE Hancornia speciosa Gomes Nerium oleander L. Apocynaceae sp1 Mangaba Espirradeira Vapor Ar Ar Ar 14 1 1 51093 52453 52468
ARACEAE Araceae sp1 Imbé Tr 1 53232
ASTERACEAE Acanthospermum hispidum DC. Vernonia condensata Baker Espinho de cigano Alcachofra He Sh 16 10 53237 53245
BORAGINACEAE Boraginaceae sp1 Malva ferro He 1 53246
CAPPARACEAE Tarenaya spinosa (Jacq.) Raf. Muçambê Sh 4 52467
CHRYSOBALANACEAE Chrysobalanus icaco L. Guajiru Sh 4 41324
CONVOLVULACEAE Ipomoea sp. Salsa Tr 1 53239
CRASSULACEAE Kalanchoe pinnata (Lam.) Pers. Saião He 15 53248
CUCURBITACEAE Momordica charantia L. Melão de São Caetano Tr 4 42223
CYPERACEAE Scleria bracteara Cav. Tiririca He 1 53230
EUPHORBIACEAE Jatropha gossypiifolia L. Ricinus sp. Pinhão roxo Carrapateira Sh Sh 3 1 51091 53244
FABACEAE - CAES Apuleia leiocarpa (Vogel) J.F.Macbr. Hymenaea courbaril L. Senna occidentalis (L.) Link Senna sp. Tamarindus indica L. Jitaí Jatobá Mangirioba Mata pasto Tamarindo Ar Ar Sh He Ar 5 15 13 2 2 51880 51876 53235 52235 52462
FABACEAE - FAB Bowdichia virgiliodes Kunth Periandra mediterranea(Vell.) Taub. Sucupira Alcançu Ar He 2 5 52449 51081
FABACEAE - MIM Abarema cochliacarpos (Gomes) Barneby & J.W.Grimes Mimosasp. Babatenon Malícia Ar He 45 5 51090 42944
IRIDACEAE Cipura sp. Alho do mato He 1 42928
LAMIACEAE Aeollanthus suaveolens Mart. ex Spreng. Mentha sp1. Mentha sp2. Ocimum basilicum L. Ocimum gratissimum L. Plectranthus sp. Plectranthus amboinicus (Lour.) Spreng. Rosmarinus officinalis L. Macassá Hortelã miúdo Vick Manjericão Alfavaca Hortelã de homem Hortelã grande Alecrim He He He He He He He He 22 62 4 17 11 12 58 32 52459 51086 52469 52458 52459 52458 53242 42941
LECYTHYDACEAE Eschweilera ovata (Cambess.) Miers Embiriba Ar 4 51094
LYTHRACEAE Punica granatum L. Romã Ar 51 51087
MALPIGHIACEAE Malpighia emarginata DC. Acerola Ar 8 42215
MALVACEAE Gossypium sp. Urena lobata L. Algodão preto Malva rosa Ar Sh 1 8 53238 42873
MORACEAE Morus sp. Amora Sh 2 53243
MYRTACEAE Eucalyptus globulus Labill. Psidium cattleianum Sabine Psidium guajava L. Eucalipto Araçá Goiaba Ar Ar Ar 34 3 18 51085 53387 51875
NYCTAGINACEAE Boerhavia sp Pega-pinto He 9 53236
OLEACEAE Ximenia americana L. Ameixa Sh 7 53240
OXALIDACEAE Averrhoa carambola L Carambola Ar 8 51081
PHYLLANTHACEAE Phyllanthus amarus Schumach. & Thonn. Quebra-pedra He 10 53241
PHYTOLACACEAE Petiveria alliacea L. Tipi He 5 52465
POACEAE Cymbopogon citratus (DC.) Stapf Imperata brasiliensis Trin. Capim santo Sapé He He 41 2 53233 42955
POLYGALACEAE Polygala sp. Esquentai He 1 53234
RUBIACEAE Borreria verticillata (L.) G.Mey. Guettarda angélica Mart. ex Müll. Arg. Tocoyena formosa (Cham. & Schltdl.) K. Schum. Vassoura de botão Angélica Jenipapo bravo He Sh Ar 13 3 4 42954 41405 51092
RUTACEAE Ruta graveolens L. Arruda He 22 53385
SAPINDACEAE Cupania revoluta Radlk. Cabatã de rego Ar 6 41319
SMILACACEAE Smilax japicanga Griseb. Japeganga branca Ar 3 41305
SOLANACEAE Solanum paniculatum L. Jurubeba Sh 3 52454
TURNERACEAE Turnera subulata Chanana He 5 51078
URTICACEAE Cecropia palmata Willd. Embaúba Ar 4 53390
VERBENACEAE Lippia alba (Mill.) N.E.Br. Cidreira Sh 35 52452
ZINGIBERACAEA Alpinia zerumbet (Pers.) B.L.Burtt &R.M.Sm. Colônia Sh 68 51079

De modo geral, as espécies identificadas possuem hábito predominantemente herbáceo (41%), seguido pelos hábitos arbóreo (35%), subarbustivo (13,2%), arbustivo (8,4%) e trepadeiras (2,4%). Outros estudos também realizados em áreas de Mata Atlântica destacam o uso medicinal da flora herbácea, com o predomínio do uso das folhas (SILVA; ANDRADE, 2005; PINTO; AMOROZO; FURLAN, 2006). A grande utilização de ervas na medicina popular pode estar relacionada ao fato de elas serem facilmente cultivadas em jardins e quintais, como observado no presente estudo com algumas das espécies mais citadas: Mentha sp., Cymbopogon citratus, Punica granatum, Alloe vera, Plectranthus amboinicus e Chenopodium ambrosioides. Amorozo (2002a) sugere que o conhecimento e uso de uma espécie é diretamente influenciado por sua disponibilidade na região ou mesmo por seu cultivo, como observado no presente estudo (Tabela 1).

Todas as partes vegetais foram indicadas para o preparo de remédios, as folhas foram a parte mais utilizada no preparo medicinal (45,7%), seguidas pela planta inteira (19,2%), casca e látex (8,4% cada), raízes (7,2%), frutos e sementes (6%) e flores (4,8%). A preferência pela folha no preparo dos remédios caseiros é um bom indicativo da conservação do recurso vegetal. Esse tipo de coleta não mata ou causa grandes danos à planta se não for feita de forma excessiva, pois não compromete o desenvolvimento e reprodução da planta. Essa prática pode estar ligada à abundância e à facilidade de uso das folhas em comparação às demais partes da planta, além da confiança na eficácia da sua aplicação (SANTOS; AMOROZO; MING, 2008).

Todas as residências visitadas possuem plantas em seus jardins e quintais cultivadas pelos moradores para alimentação, ornamentação e uso medicinal. O cuidado e a afinidade com plantas é uma das características marcantes dos informantes, que além do cultivo em seus jardins e quintais, também utilizam espécies nativas encontradas em seus lotes. O cultivo não é restrito às espécies nativas, tanto as naturalizadas quanto as exóticas são encontradas em seus jardins. Amoroso (2002) destaca o papel dos quintais nas comunidades tradicionais, enfatizando que por serem um local de acesso imediato, é para onde se transplantam elementos úteis da vegetação nativa, que ficam sempre disponíveis. Os jardins também guardam mudas de plantas trazidas das roças e formam um mosaico dos diferentes ambientes - criação de animais, cultivo de plantas medicinais, frutíferas e ornamentais. Além disso, os quintais também são locais onde se estreitam laços do convívio social, uma vez que são ambientes abertos, sem muros ou divisões, que permitem o contato direto entre as famílias. Uma das moradoras do Assentamento Dona Antônia mantém o hábito de cultivar espécies medicinais em seu quintal e de distribuir suas mudas entre seus vizinhos. Ela dedica seu tempo a essa prática por acreditar no poder curativo das plantas e pelo cuidado que demonstra ter com aqueles que precisam de atenção. Essas práticas trazem novas informações e complementam o conhecimento local (EYSSARTTIER; LADIO; LOZADA, 2008).

As plantas medicinais são usadas no preparo simples de chás para tratar enfermidades do cotidiano, ou em compostos mais complexos como "Lambedores". O modo de administração mais comum foi por via oral (87,1%), e uso externo (12,8%). As formas de preparo mais citadas foram os chás (58%), lambedor (12,4%), molho em álcool (4,7%), natural (8,5%), triturada (4,6%) e molho em água (5,8%). Outras formas como garrafadas, banho, inalação e sucos correspondem a 6,1% dos preparos. O chá também se destaca como a forma de preparo mais comum em outros trabalhos (AMOROZO, 2002; PINTO et al. 2006; CUNHA; BORTOLOTTO, 2011; CARVALHO, et al., 2013)

Ainda considerando um total de 1.072 indicações terapêuticas, temos que 26,5% delas corresponderam a indicações para o tratamento de enfermidades diversas como inflamações, infecções, cicatrização e sintomas como febre; resultado semelhante foi observado por Silva e colaboradores (2009) em uma comunidade rural na Serra do Itajaí. O sistema corporal que mais se destacou entre os cinco assentamentos, com 24,8% das citações, foi o sistema respiratório e seus transtornos (gripe, tosse, resfriado), que também aparecem como a categoria com maior número de indicações em outros trabalhos (AMOROZO, 2002; BEGOSSI; HANAZAKI; TAMASHIRO, 2002; CUNHA; BORTOLOTTO, 2011). Transtornos do sistema gastrointestinal (11,1%), dores não definidas (8,3%), doenças infecciosas e parasitárias (7,2%) e doenças do sistema nervoso (6,1%) também se destacaram nessa categoria (Tabela 2).

Tabela 2 Sistemas corporais, indicações terapêuticas e Fator de Consenso do Informante nos cinco assentamentos da APA Tambaba. Abreviações para os métodos de utilização: CT: chá; Cs: xarope; B: banho; Cb: garrafada; I: infusão; N: in natura ; J: suco; M: macerada em água; Ma: macerada em álcool; Mw: macerada em vinho; G: moída; To: tostada. Assentamentos: NV: Nova Vida; AP: APASA; DA: Dona Antônia; FA: Frei Anastácio; TB: Tambaba. 

Sistemas corporais (Citações) Forma de uso Doenças Assentamentos
NV AP DA FA TB
Distúrbios do Sistema gastrointestinal (119) T, Cs, G, J, M, N, To refluxo, diarreia, má digestão, gastrite, fígado, úlcera, náusea,vômito, vesícula, gases, cólica 0.57 0.68 0.44 0.58 0.25
Outras indicações (285) T, N, M, To, Ma, B, Cb, Cs, I, Mw, J Inflamações, dor, dores de ouvido, dor de dente, dor de cabeça, cólica. 0.75 0.69 0.55 0.52 0.6
Distúrbios do Sistema respiratório (266) T, I, Cs, TR, M, Ma, N, J, B, Cansaço, catarro, gripe, pneumonia, tosse, tuberculose, coqueluche, garganta. 0.77 0.92 0.6 0.5 0.74
Dores nao definidas (89) T, N, B, M Dor, dores de ouvido, dor de dente, dor de cabeça, cólica 0.59 0.41 0.5 0.26 0.22
Infecções e doenças parasitórias (78) T, M, B, N, Cs Sarampo, vermes, ameba, sarna, catapora, micose, coceira. 0.82 0.72 0.56 0.5 0.66
Distúrbios do Sistema nervoso (66) T, M, N, J, To Calmante, AVC, convulsão, trombose, insônia, epilepsia. 0.65 0.57 0.14 0.55 0.5
Distúrbios do Sistema circulatório (49) T, M, TR, J, Hipertensão, doenças do coração, problemas de circulação, sangramentos. 0.58 0.69 0.5 0 0
Distúbios do Sistema genitourinário (45) T, Cb, M, N, To Infecção urinária, pedra nos rins, menopausa, doença venérea, cólica menstrual, incontinência urinária, impotência sexual, candidíase, próstata. 0.53 0.12 0.22 0.33 0
Distúrbios endócrinos, nutricionais e metabólicos (31) T, M, J, G Colesterol, diabetes, hiperglicemia, perda de peso, icterícia. 0.5 0.28 0 0 0
Distúrbios do Sistema osteomuscular (18) Ma, N, T, G, Cb, Cs Esporão, dor nas articulações, fratura, artrite, artrose, distensão, câimbra, contusão, dor na coluna, hérnia. 0.33 0 0.75 0 0.5
Distúrbios de pele (10) N, To, T, B, Furúnculos, verrugas. 0 0 0.66 0.5 0
Machucados, envenenamento e outras consequências externas T, N, G Machucados, picadas de cobra. 0 0.8 0 0 0

A vida fora da cidade e a precariedade no acesso ao atendimento básico de saúde podem justificar o maior número de indicações para as enfermidades comuns do cotidiano como febre, inflamações e cicatrização de ferimentos. A Abarema cochliacarpus (babatenom ou babatimão) é bastante conhecida e utilizada em todos os assentamentos devido às suas propriedades anti-inflamatórias, antissépticas e cicatrizantes (SILVA, N. et al., 2009; SILVA, M. et al., 2010). É uma árvore nativa e endêmica da Mata Atlântica, facilmente encontrada nas matas do entorno das comunidades. Além das indicações para tratamento de inflamações e cicatrização de ferimentos, a espécie recebeu indicações para tratamento de diarreia, gripe e câncer. Todos os entrevistados que citaram o babatenom fazem uso dessa espécie na forma de 'garrafada': uma combinação de cascas dessa espécie com outras duas espécies (Schinus terebinthifolia Raddi e Anacardium occidentale L.) imersas em álcool ou água. Depois do preparado, o líquido de cor avermelhada é armazenado e usado para lavar ferimentos.

A falta de saneamento básico também pode justificar a grande quantidade de citações para as categorias de transtornos dos sistemas respiratório e digestório, uma vez que nenhum dos assentamentos possui posto médico ou saneamento básico. Em grande parte das residências visitadas, o esgoto corria a céu aberto entre os quintais, o que facilita a proliferação de doenças. A falta de acesso ao atendimento básico de saúde permite que pequenas enfermidades possam evoluir para casos mais graves, o que debilita ainda mais a saúde pública nessas comunidades.

O Sistema Único de Saúde criou, em 2008, o Programa Nacional de Plantas Medicinal e Fitoterápico como forma de ampliar as opções terapêuticas ofertadas aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O programa foi criado para inserir um sistema de atendimento na atenção básica que seja seguro e de qualidade. O programa de plantas medicinais e fitoterápicos na atenção básica foi adotado para promover e reconhecer as práticas populares e tradicionais de uso das espécies medicinais (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009). Junto com o programa, foi divulgada a Relação Nacional de Plantas Medicinais de interesse do SUS - o Renisus (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009) -, que lista 71 espécies medicinais liberadas para uso como medicamento fitoterápico no Sistema Único de Saúde. O presente trabalho lista 16 espécies dessa lista que foram citadas pelos entrevistados. A pesquisa etnobotânica pode contribuir com estudos e ações, à medida que lista plantas medicinais já conhecidas e utilizadas em determinada região. Portanto, essas plantas têm grande potencial para serem inseridas nos tratamentos do sistema público de saúde (GIRALDI; HANAZAKI, 2010).

Transmissão do conhecimento

O conhecimento ecológico tradicional está contido no saber fazer do mundo natural e sobrenatural, esse conhecimento é transmitido oralmente de uma geração para outra (SILVA, M. et al., 2006). Esse saber é obtido e repassado ao longo de toda a vida, nos momentos mais variados. A transmissão oral é a principal diferença entre esse saber e o conhecimento científico, assim o conhecimento tradicional é melhor interpretado quando visto sob o contexto cultural das comunidades onde foi gerado. As comunidades estudadas na presente pesquisa deixaram bastante claro que o conhecimento sobre o mundo natural, além de ser conservado através dos ensinamentos que passam entre as gerações, possui um fluxo contínuo entre as localidades. O contato constante entre os agricultores, seja no campo, em visitas aos amigos e parentes, ou durante o comércio de suas mercadorias, leva ao compartilhamento do saber e, por conseguinte, à assimilação de novas técnicas de uso e utilidades das espécies.

Assim, o aprendizado e a transmissão de conhecimentos podem acontecer através da socialização entre membros da família, amigos e vizinhos. Esses relacionamentos sociais permitem o enriquecimento do conhecimento pessoal a respeito dos usos e aplicações dos recursos naturais (CUNHA; BORTOLOTTO, 2011). Quando perguntados sobre a origem dos seus conhecimentos sobre usos e aplicações das espécies medicinais, a maioria dos informantes disse ter recebido essas informações dentro de suas próprias famílias. Dentre os 59 entrevistados, 53,4% afirmaram que seus conhecimentos sobre os usos medicinais das plantas foram adquiridos através dos pais ou parentes próximos, o que caracteriza uma transmissão horizontal de conhecimentos. Os saberes podem fluir nas conversas informais que se desenrolam entre os membros da família, eles se propagam oralmente. As informações sobre cuidados com a saúde e, no presente caso, com as plantas, têm contribuído para a melhoria da qualidade de vida ao longo da história familiar. Gradativamente, essa herança cultural vem se perdendo diante da influência da cultura moderna e da devastação dos ambientes naturais.

Outra parte dos entrevistados, 27,6%, disse que além do conhecimento herdado da família e daquele construído entre amigos e vizinhos, também aprenderam sobre plantas medicinais participando de cursos oferecidos por entidades que atuam diretamente nos assentamentos, como o INCRA e a EMBRAPA, as quais atuam na melhoria da qualidade de vida dessas comunidades. Um grupo menor, 19% dos participantes, afirma ter aprendido sobre o uso e as aplicações das espécies medicinais com vizinhos e amigos.

É fácil encontrar homens e mulheres que conhecem bem os usos das plantas locais em todos os assentamentos, sejam elas cultivadas em seus jardins e quintais, ou nascidas espontaneamente nas matas do entorno. O ato de cultivar e cuidar das plantas nas comunidades agrícolas é aprendido desde cedo no trabalho nas roças e nas tarefas cotidianas; ou seja, esses homens e mulheres, agricultores, donas de casa, parteiras e rezadeiras passam a conhecer mais da flora local, pois passam a maior parte de seu dia em contato direto em essas espécies (AMOROZO, 2002). São saberes distintos, mas que reconhecem nas plantas a ajuda imediata para a solução de problemas de saúde. Encontramos um desses exemplos no assentamento APASA: um senhor de 74 anos que, ao longo da vida, aprendeu sobre os usos das ervas medicinais para cuidar apenas de seus animais, mas que por situações diversas, precisou aplicá-las no cuidado com pessoas ao tornar-se o parteiro da comunidade.

Ao considerar o tempo de ocupação dos assentamentos, pouco mais de 10 anos, e o fato de que muitos moradores vieram de outras áreas rurais, pudemos entender que, além da transmissão horizontal dos conhecimentos, houve muitas oportunidades de aprendizagem e de ensino através de transmissão oblíqua, seja no convívio social, na participação em palestras e cursos, ou por outros meios de comunicação como os cursos periodicamente oferecidos às comunidades por órgãos públicos (INCRA, EMEPA, SEBRAE). Para Amorozo (2002), a composição de uma farmacopeia popular é um processo dinâmico, e em sua construção podem ocorrer perdas e aquisições. Logo, as pesquisas etnobotânicas mais aprofundadas aparecem como colaboradoras do entendimento desses processos de transformação e da manutenção do saber tradicional.

Valor de Uso, Fator de Consenso do Informante

As espécies identificadas nesta pesquisa apresentaram Valor de Uso (VU) variando entre 0,05 e 2,5. A maioria das espécies registradas apresentou um valor baixo para esse índice, sendo que apenas nove espécies (10,8%) obtiveram valor do índice superior a 1,0 (Tabela 3). Esse resultado indica que as espécies não são utilizadas de forma específica.

Tabela 3 Espécies com alto Valor e Uso nos assentamentos estudados: DA: Dona Antônia; FA: Frei Anastácio; TB: Tambaba; NV: Nova Vida; AP: APASA. 

Espécies Nome popular Valor de Uso
DA FA TB NV AP
Alpinia zerumbet Colônia 1,07 1,33 0,87 1,15 1,3
Plectranthus amboinicus Hortelã grande 0,39 1,0 1,62 1,05 1,0
Menthasp. Hortelã miúdo 0,54 1,0 0,87 1,25 1,4
Chenopodium ambrosioides Mastruz 0,9 0,67 2,50 1,3 1,2
Punica granatum Romã 0,9 1,1 1 0,9 0,5
Eucalyptus globulus Eucalipto 0,54 1 0,75 0,5 0,41
Cymbopogon citratus Capim santo 0,54 0,33 1,12 0,95 0,33
Abarema cochliacarpos Babatenon 0,54 0,83 1 0.85 0,67
Sambucus australis Sabugo 0,7 0,83 0,25 1 0,75

É possível encontrar grandes diferenças entre o Valor de Uso para uma mesma espécie entre os cinco assentamentos, como foi observado com o mastruz (Chenopodium ambrosioides), que apresentou valor alto em Tambaba (VU=2,50) e um valor menor em Frei Anastácio (VU=0,67). O mesmo se repete com a hortelã grande (Plectranthus amboinicus) em Tambaba (VU=1,62) e Dona Antônia (VU=0,39). A colônia (Alpinia zerumbet), por sua vez, se manteve com um valor de uso mais equilibrado entre as comunidades. Essa diferença está diretamente relacionada aos sistemas corporais mais citados nessas comunidades, e aos quais essas espécies estão ligadas. Mastruz e hortelã grande são amplamente indicados para tratar doenças do sistema respiratório, e no assentamento Tambaba, receberam juntas 30% das 110 citações.

A categoria Transtornos do sistema respiratório aparece como a primeira em número de citações nos assentamentos Frei Anastácio e Tambaba; nos demais, ela é a segunda categoria mais representativa. Esse resultado é corroborado pelos Valores de Consenso do Informante obtidos entre as comunidades para a categoria de transtornos do sistema respiratório (Tabela 2). Esse sistema corporal, de forma geral, esteve sempre entre os primeiros, com valor máximo chegando a 0,92. Para o assentamento Tambaba, ele aparece apenas como o índice de maior valor (FCL=0,74). Esse resultado é justificado, pois essa categoria teve o maior número de citações e de espécies, além de se destacar no assentamento APASA (FCL=0,92).

Um baixo número de plantas com Valor de Uso elevado também foi observado em outros trabalhos (GALEANO, 2000; ALBUQUERQUE; ANDRADE; BORGES; PEIXOTO, 2009) que registraram menos de cinco espécies com valores superiores a 1,0 para esse índice. Isso reforça a ideia de que cada informante carrega consigo a sua bagagem de experiências sobre plantas úteis à manutenção do bem-estar. Assim, podemos entender que as espécies mais citadas pelas comunidades são aquelas mais conhecidas pelas pessoas. Entretanto, essas espécies não são necessariamente reconhecidas como importantes para a comunidade, mas como as mais abundantes ou importantes do ponto de vista ecológico para a região (ALBUQUERQUE; ANDRADE, 2002).

As seguintes espécies da lista reconhecida pelo Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos foram citadas nesta pesquisa: Alpinia zerumbet (colônia), A. occidentale (cajú), C. ambrosioides (mastruz), P. granatum (romã), P. guajava (goiaba), Phyllanthus spp. (quebra-pedra), Passiflora spp (maracujá), O. gratissimum (manjericão), M. charantia (melão de são Caetano), Mentha spp. (hortelã pequeno), S. paniculatum (jurubeba), E. globulus (eucalipto), J. gossypiifolia (pinhão roxo), J. pectoralis (chachambá), V. condensata (alcachofra) e K. pinnata (saião). Destas, 8 espécies se destacam (A. vera, A. zerumbet, A. occidentale, C. ambrosioides, P. granatum, O. gratissimum, Mentha sp. e E. globulus) por apresentarem altos índices de valor de uso.

A família Myrtaceae, apesar de não ter obtido altos valores para VU, se destaca no preparo de chás contra diarreia. Psidium guajava e P. cattleianum são citados com esse propósito no presente e em outros estudos conduzidos no litoral brasileiro (MARTINS et al., 2005; SILVA, M. et al., 2006).

Apesar da aplicação do índice de Valor de uso, os resultados não nos levam a concluir que as comunidades locais, de fato, tenham causado impactado nos recursos vegetais da APA Tambaba, uma vez que o Valor de Uso não distinguiu o potencial de uso e o uso atual. Entretanto, os dados obtidos sugerem que todas as comunidades fazem uso intenso e de um alto número de espécies nativas da área. Ao longo dos anos, fatores como percepção do ambiente, acesso restrito aos serviços de saúde, dificuldades passadas ao longo da construção dos assentamentos e a própria bagagem cultural contribuíram para o enriquecimento do conhecimento dos assentados, e permitiram que tal conhecimento incorporasse novas informações e técnicas sobre espécies medicinais locais, o que melhorou o aproveitamento do uso das espécies na região. Foi observado que algumas categorias apresentaram valores de consenso bastante próximos (Tabela 2), bem como espécies com Valor de Uso comum ou bem aproximados, fato que pode indicar maior consenso entre as respostas dadas pelos informantes. Dessa forma, essas espécies, culturalmente mais importantes para as comunidades, merecem mais atenção do ponto de vista de estudos farmacológicos.

As espécies P. amboinicus, Mentha sp. e C. ambrosioides aparecem como fortemente reconhecidas e utilizadas entre os assentamentos Nova Vida e APASA. Essas três espécies se destacam no tratamento de sintomas e doenças da categoria Transtornos do Sistema respiratório. Essa categoria foi a que mais recebeu citações de uso e que apresentou maior valor de Fator de Consenso do Informante para o assentamento APASA (FCL = 0.82) e o segundo maior valor no Nova Vida (FCL = 0.82). Esses dois assentamentos estão no mesmo município e são os mais próximos geograficamente dentro da área de estudo. Talvez esse seja o fator que mais tenha contribuído para o compartilhamento dos saberes locais nessas comunidades.

Diversidade e Similaridade

Todos os assentamentos apresentaram altos valores de diversidade e equitabilidade, mas os assentamentos Nova Vida (H'=4,31; J'=0,89) e Dona Antônia (H'=4,21; J'=0,93) se destacaram; os valores para os demais assentamentos foram APASA (H'=4,04; J'=0,91), Frei Anastácio (H'=4,00; J'=0,94) e Tambaba (H'=3,21; J'=0,87). Altos índices de diversidade podem sugerir que a população tem utilizado grande parte da diversidade local. Logo, espera-se que quanto maior a diversidade florística, maior a diversidade de espécies utilizadas (BEGOSSI, 1996; BOTREL et al., 2006). Nesse caso, a proximidade dos assentamentos faz com que eles utilizem as mesmas espécies, e os fatores que podem interferir nesses usos são o tamanho da comunidade e a bagagem de conhecimentos trazidos pelos moradores. Esses resultados também podem refletir três características: a grande disponibilidade dos recursos na região, a familiaridade dos moradores com a identificação e uso dos recursos e a facilidade em cultivá-los.

Esse resultado mostra o quanto os informantes do assentamento Nova Vida contribuíram com o maior número de citações e usos variados para as espécies medicinais. O assentamento Tambaba, a menor das comunidades estudadas, por sua vez, foi a que menos contribuiu em citações de diversidade de espécies. Isso pode ser justificado pelo pequeno número de famílias que ocupam o assentamento Tambaba e por sua história de vida, pois o trabalho no campo não é a principal atividade financeira de seus moradores. Muitos possuem empregos formais em indústrias e comércios locais, ou já tiveram essa experiência. Tal cenário pode exercer influência sobre o conhecimento e a prática da medicina natural naquela comunidade.

Quando esses valores de diversidade são comparados com valores encontrados em outros trabalhos realizados em áreas de Mata Atlântica ou em assentamentos rurais, é possível observar que os valores do índice de diversidade de Shannon-Wiener são bastante altos, com valores similares aos de outros estudos (PINTO; AMOROZO; FURLAN, 2006; BORGES; PEIXOTO, 2009). Valores mais altos de um índice podem relacionar áreas a populações com conhecimento etnobotânico significativo (LIMA et al., 2000), o que pode ser observado entre as comunidades estudadas, uma vez que o índice de Shannon permite verificar o quanto da diversidade local é utilizada pela população. É provável que o número de participantes nesta pesquisa tenha, de certa forma, influenciado os altos valores de diversidade e equitabilidade, já que outros fatores são bastante semelhantes aos de outros trabalhos (tabela 4).

Tabela 4 Tabela comparativa para índice de diversidade em alguns assentamentos brasileiros.  

Informantes APA Tambaba, PB Santo Antonio do Levenger, MT Itacaré, BA Paraty, RJ
Autores Este trabalho Amorozo, 2002 Pinto et al., 2006 Borges e Peixoto, 2009
Bioma Mata Atlântica Cerrado Mata Atlântica Mata Atlântica
Shannon-Winier H' = 3,95 H' = 2,21 H' = 1,83 H' = 1,81
Equitabilidade J' = 0,90 J' = 0,94 J' = 0,92 Nao informado
Número de informantes 54 24 26 10
Fonte de renda Agricultura Agricultura, pesca, turismo Agricultura Pesca e agricultura
Comunidade Assentamento rural Assentamento rural Comunidade rural Comunidade Caiçara

Apesar de possuir tamanha riqueza florística, a área da APA Tambaba sofre com os impactos ambientais aos quais está exposta, mas o que chama a atenção é o fato de suas comunidades conhecerem um número muito alto de plantas utilizadas para fins medicinais. As cinco comunidades apresentam 66 espécies em comum. A análise multivariada ANOSIM mostrou que as comunidades, quando comparadas em relação às espécies e seus usos terapêuticos, são bastante semelhantes (R = 0,038; p<0,0001), sendo o assentamento Tambaba aquele que apresentou um menor compartilhamento de espécies. Resultados semelhantes são obtidos quando os grupos de espécies são comparados por comunidade por meio do ANOSIM par a par (Tabela 5).

Tabela 5 Resultados para a análise do ANOSIM par a par, comparando os grupos de espécies entre assentamentos. 

Nova Vida Apasa Dona Antônia Frei Anastácio
Apasa R=0,037 p<0,0001
Dona Antônia R=0,019 p<0,011 R=0,0004 p<1
Frei Anastácio R=0,064 p<0,001 R=0,003 p<0,686 R=0,010 p<0,071
Tambaba R=0,143 p<0,001 R=0,036 p<0,001 R=0,054 p<0,001 R=0,013 p<0,01

Os resultados obtidos a partir do SIMPER mostram que os sistemas corporais que mais estão contribuindo com a semelhança entre as comunidades são o de transtornos do sistema respiratório e doenças diversas. Os assentamentos Nova Vida e Dona Antônia aparecem como os mais similares (81,4%) em oposição ao APASA e Tambaba (57,7%). Esses altos índices de similaridade podem estar relacionados à proximidade geográfica entre as comunidades. A atividade local na agricultura, na venda de produtos em feiras livres, assim como as próprias relações familiares e amizades, contribuem para a troca de conhecimento e para a sua homogeneização.

A partir da presente pesquisa, foi possível, pela primeira vez, documentar as formas de uso para fins terapêuticos nas comunidades rurais do litoral sul paraibano. Os resultados revelam que os moradores utilizam, em sua maioria, espécies herbáceas, as quais são muitas vezes cultivadas nas proximidades de suas casas, como em jardins e quintais. A população não deixou de lado as práticas de suas tradições e a sabedoria de seus antepassados, pois além de usar espécies locais, também cultivam espécies de ambientes diferentes ou de suas regiões de origem. Os resultados também revelam o quanto as espécies medicinais são valorizadas em sua eficácia e que o conhecimento vem sendo repassado ao longo das gerações ou sendo melhorado com as experiências do cotidiano.

Por estarem inseridas em uma mesma região e compartilharem os recursos do mesmo ecossistema, as cinco comunidades são bastante semelhantes quanto ao uso dos recursos e suas aplicações. A falta de estrutura no atendimento básico de saúde pode justificar as semelhanças entre as aplicações das espécies e os sistemas corporais para os quais são indicadas. Os dados a respeito do uso e aplicações dos recursos vegetais medicinais obtidos nas cinco comunidades estudadas nos fornecem informações que podem ser utilizadas em programas de conservação que sejam baseados no conhecimento tradicional para preservação da flora.

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Recebido: 17 de Fevereiro de 2015; Aceito: 04 de Julho de 2016

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