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Ambiente & Sociedade

versão impressa ISSN 1414-753Xversão On-line ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.21  São Paulo  2018  Epub 29-Nov-2018

http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc0097r1vu18l3ao 

Artigo Original

PERCEPÇÕES AMBIENTAIS DE CRIANÇAS QUE VIVEM EM ESPAÇOS DEGRADADOS NA AMAZÔNIA

GRACY KELLY MONTEIRO DUTRA1 

MARIA INÊS GASPARETTO HIGUCHI2 

1. Mestra em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia (UFAM). Docente do Centro de Estudos Superiores de Parintins, Universidade do Estado do Amazonas (CESP / UEA). E-mail: gracydutra@hotmail.com

2. Doutora em Antropologia Social (Brunel University of London). Pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). E-mail: higuchi.mig@gmail.com

Resumo

Este estudo problematiza uma realidade da degradação dos cursos d’água urbanos. Nesse estudo, a Lagoa da Francesa (LF), em Parintins/AM, é um destaque geográfico e social, tanto pelo seu passado preservado quanto pelo estado poluído em que se apresenta. As crianças vivem esse lugar ou no entretenimento ou nas agruras do cotidiano. Essa pesquisa de abordagem qualitativa, investigou a percepção ambiental de crianças, a partir do uso da representação gráfica (desenho) e de argumentos elucidativos feitos sobre ele. Participaram da pesquisa 120 meninas e meninos, entre 7 e 13 anos de idade. Os resultados evidenciaram cinco categorias de percepção ambiental da LF: a) Poluição; b) Inundação; c) Comércio; d) Trânsito; e) Moradia; e f) Recreação. Tais percepções refletem sentimentos de apego ou distanciamento, de possibilidades ou vulnerabilidades que as crianças vivenciam a partir do mundo que recebem dos adultos.

Palavras-chave : Percepção Ambiental; Lagoa da Francesa; Crianças e Meio ambiente

Introdução

A Amazônia do século XXI desconstrói o mito da natureza preservada, da homogeneidade ambiental e social que antes predominava (BRUNO; MENEZES, 2012; SANTOS et al., 2012). A Amazônia é rural (floresta, interior) e urbana (cidade) e se configura como um cenário cheio de vulnerabilidades, muito similar às outras regiões brasileiras, mesmo que nela sobressaia a imensidão da flora, fauna e rios. Se as transformações são intensas na floresta, elas são também, ou mais, intensas nas cidades, as quais são fruto de embates sociais e territoriais que manifestam uma história de desequilíbrio nas demandas sociais e na capacidade de suporte do ecossistema.

Diversos estudos apontam para o necessário enfrentamento da degradação dos recursos ambientais na constituição das cidades (HERCULANO, 2000; MARTINE, 2007; JACOBI, 2008; GONDIM, 2012). Entre tantas mazelas, os recursos hídricos antes tradicionalmente úteis como vias de circulação de bens e serviços, hoje, infelizmente, servem como canais de esgoto por onde circulam rejeitos domésticos, comerciais e industriais. Logo, os elementos fluviais que contornam, cruzam ou embelezam a área urbana têm sua função e características biológicas alteradas ao longo da formação de uma cidade sem planejamento urbanístico (MUCELIN; BELLINI, 2008; OLIVEIRA, 2011).

Nesse espaço fragilizado, pessoas vivem e moram, constroem sonhos, expectativas, casas e famílias, cuja escolha é imposta pela forma como a sociedade se organiza na atualidade (HERCULANO, 2000; CARTIER et al., 2009). Esta espacialidade tem implícita uma socialidade excludente e pouco solidária que finda por distinguir e valorizar ou desvalorizar as pessoas em função do lugar que habitam (FISCHER, 1994), de tal forma que, ao analisar o lugar, se compreende o seu ocupante e, em última instância, o caráter socio-histórico da sociedade. Os lugares não são apenas externos, são internos também. As pessoas carregam em seus corpos os lugares (MARANDOLA JR; MODESTO, 2012), pois o processo de construção do espaço habitado reflete e armazena no indivíduo o seu posicionamento no mundo, suas vivências e sentimentos (CAVALCANTE; NÓBREGA, 2011).

Na construção do lugar, seus ocupantes acabam por se identificar com ele, apropriando-se dele e lhe dando um sentido de sobrevivência e pertencimento (WIESENFELD, 2001). Desse modo, a cidade e seus lugares, tornam-se palco de produções históricas dos inúmeros grupos sociais, de símbolos, manifestações e identidades (LEFEBVRE, 2001; CARNEIRO; SANT’ANNA, 2009), além de incorporar vivências espaciais e temporais na memória pessoal e social. A construção social de significações e simbolizações reconhecidas pelos grupos pode ser comum ou contraditória sobre um ambiente específico (ARANGO; RENDON, 2008). A necessidade de ter um lugar corresponde aos sentimentos de propriedade, de poder e status social, mas também de abertura ou fechamento de comunicação com o outro (LEMOS, 2010; TUAN, 2013).

O que se percebe nas cidades contemporâneas, é que há uma sobrecarga de problemas socioambientais, que se agravam continuamente. Nas cidades da Amazônia, como noutras cidades brasileiras, onde os problemas sociais e ambientais tornam-se crescentes, os moradores vivenciam esse processo interagindo e convivendo com essa realidade de fragilidade ambiental e ecológica, modelando e sendo por ela modelado. Geralmente, as populações que mais sofrem são aquelas com baixo poder aquisitivo, excluídas dos benefícios e bens de cidadania.

A alteração socioambiental é o ponto de análise sobre uma lagoa, outrora limpa e objeto de orgulho do povo parintinense, porém, atualmente é um cenário que padece pela ação antrópica. A cidade de Parintins/AM (distante 369 km da capital Manaus), denominada Ilha de Tupinambarana, tem na água um traço de sua identidade social. É uma ilha fluvial inserida no sistema fluvial da Bacia Amazônica, se localiza à margem direita do rio Amazonas, envolta pelas águas deste rio, o qual forma os lagos do Macurany, Parananema, Aninga e a Lagoa da Francesa. Aliás, na Amazônia, não seria errôneo assegurar, que a água se infiltra em meandros intermináveis nesta terra central, fazendo uma rede hídrica que dá identidade à cidade e aos seus habitantes.

Com a migração de outras áreas, especialmente da zona rural, Parintins teve um impulso forte no crescimento demográfico, hoje com 112.716 habitantes (IBGE, 2016). Como toda cidade, não estava planejada para atender uma grande demanda e inúmeros problemas sociais surgiram e sobrecarregaram o ambiente físico, que cedeu lugar para as moradias, ruas e aterros. Isso aconteceu pela disposição dos novos habitantes nas áreas periféricas e no entorno dos cursos de água, iniciando o processo de degradação dos recursos ambientais.

Em Parintins, a Lagoa da Francesa se torna um exemplo concreto da ação humana contra a natureza. Antes uma paisagem prazerosa e admirada, hoje a vida aquática perece e agoniza na esperança de uma mudança desta realidade. A Lagoa da Francesa se situa na região leste da cidade e recebe diariamente transeuntes e rejeitos domésticos, comerciais, industriais e das embarcações que trafegam nos rios, cujo processo vem modificando as características naturais da água (KIMURA, 2011). Entretanto, às suas margens moram milhares de pessoas que usam desse ambiente para viver como se nela a melhor qualidade existisse, inclusive aumentando sua poluição.

Pode-se dizer que os adultos que lá vivem ainda lembram da paisagem orgulho do passado, mas, para as crianças, que lugar é esse? Como as crianças percebem esse ambiente e a vida que nela se desenrola? Estariam alheias a esse cenário de degradação ambiental? Perceberiam os riscos advindos desse ambiente inóspito, mesmo sendo permitidas a usufruir dos (falsos) benefícios de uma lagoa para suas brincadeiras? Neste estudo, busca-se, portanto, investigar a percepção ambiental das crianças sobre as significações, através do uso social e características ecológicas da Lagoa da Francesa.

Percepção Ambiental constituída pelas Crianças

A Percepção Ambiental evidencia a relação entre comportamento social e realidade física, ou seja, as inter-relações entre ser humano e o ambiente natural ou construído, suas expectativas, julgamentos e condutas diante do uso cotidiano do espaço. Del Rio e Oliveira (1999) definem a Percepção Ambiental como um processo mental de interação do indivíduo com o meio, que acontece através de mecanismos perceptivos e cognitivos. Os primeiros são dirigidos pelos estímulos externos, captados através dos cinco sentidos, enquanto que os segundos compreendem uma elaboração mental que não funciona apenas a partir dos sentidos, mas a transforma e ressignifica a partir de suas características e vivências socioculturais.

Por ser um processo gradativo e construído a partir de elementos internos (psicológicos e genéticos) e externos (ambientais e sociais), desde criança se constitui as percepções ambientais, as quais não são estáticas, mas dinâmicas. Se uma criança, em seus primeiros anos, demora para perceber o ambiente ao seu redor, ela o amplia gradativamente com ajuda dos adultos e na experimentação espontânea com o mundo (PIAGET, 1967, 1973; TUAN, 1980; VIGOTSKY, 2007).

As crianças vivem num ambiente estruturado pelos adultos e recebem um mundo aos pedaços e, aos poucos, o reconstroem a partir de tais referências, mesmo que transformadas a partir de suas próprias condições (CRUZ, 2011). Em outras palavras, a criança é um ser ativo no mundo e as percepções ambientais que possui são unicamente dela, mas estas são fruto de um processo de intersubjetividade a partir de significados que outros criaram e estão criando (TOREN, 2010). Dessa forma, incluir a criança neste estudo não é mera preferência, mas se dá por ser este grupo vulnerável às mais diversas mazelas socioambientais a que são expostas. Além disso, pesquisar as crianças, verificando como estas se constituem subjetivamente diante de um ambiente em particular, mostra também um caminho para entender a própria sociedade na relação pessoa-ambiente, nas formas de agir e pensar sobre e no ambiente.

Vários estudos apontam que o contato da criança com a natureza contribui para o desenvolvimento de interesse e preocupação com o meio ambiente, além de favorecer para um alerta físico e mental, para o desenvolvimento da autonomia, oferecendo oportunidades para aprendizagens e brincadeiras mais ricas e complexas, estimulando a curiosidade da criança (CARVALHO; SOUZA, 2008; CHENG; MONROE, 2012; PERES, 2013). A importância das crianças na aprendizagem ambiental tem sido reconhecida como um elemento chave no desenvolvimento de uma disposição, potencialmente ao longo da vida, de cuidado com o meio ambiente (DUHN, 2011; WILSON, 2011; ENGELMAN, 2016). Reflexões e envolvimento com o lugar e espaço vividos representam os aspectos de como as pessoas pensam sobre si mesmas, sobre as outras e sobre o mundo (APPLEYARD, s/d).

Com os impactos ambientais, esta relação se torna restrita, uma vez que viver no entorno de ambientes naturais degradados, como lagos poluídos, pode proporcionar à criança conceitos distorcidos sobre a disposição dos recursos ambientais e suas características biológicas. Mas, infelizmente, grande parcela de famílias em situação de vulnerabilidade social e ambiental são submetidas a uma realidade de degradação e as crianças tornam-se os grupos mais penalizados.

Ao buscar uma análise da percepção do ambiente urbano vivido por crianças amazônicas, a discussão se torna relevante ao ponderar os impactos da degradação da natureza, aqui representado pela água, a partir dos pequenos moradores residentes do entorno de uma paisagem específica da Região Amazônica, que tem por nome Lagoa da Francesa, internalizada e entendida por todos aqueles que habitam suas margens, mas que fere com mais intensidade a esses pequenos. As percepções ambientais mostram como a criança se apropria, faz uso e constrói as significações num ecossistema amazônico urbano que está longe de suas características nativas restauradoras e estéticas.

Método e Técnicas

Para investigar as percepções ambientais das crianças, foi utilizada a técnica do desenho, por ser uma linguagem gráfica que permite acessar o imaginário infantil sobre o seu universo socioambiental (PROFICE, 2010). O desenho da criança é a materialização do inconsciente infantil expressado de modo simbólico e é também contexto dependente, isto é, abrange uma relação de identidade com aquilo que simboliza (PEDRINI et al., 2010). O desenho propicia uma forma de comunicação das crianças para mostrar como se posicionam sobre o mundo, o que nos leva a entendê-lo como um sistema de representação (COX, 2007; ALMEIDA, 2011; RABELLO, 2013). O desenho representa o espaço físico e social em que a criança se insere, mesmo que este tenha a obviedade da reduzida capacidade motora infantil, mas que pode ser minimizada com os comentários elucidativos complementares a partir da representação gráfica elaborada.

A pesquisa foi feita durante o segundo semestre de 2014 (CAAE 36936514.0.0000.5020 - Parecer 824.497). Participaram 120 crianças (60=F; 60=M), entre 07 e 13 anos de idade, residentes no entorno da Lagoa da Francesa e estudantes do 1º ao 8º ano do Ensino Fundamental de duas escolas circunvizinhas. Cada criança recebeu uma folha A4 e um lápis preto 2B, onde foram solicitadas a desenhar “a Lagoa da Francesa com o que tem lá e o que as crianças podem fazer lá”. Os desenhos foram feitos numa sala de forma individual, mas simultaneamente, onde os alunos tiveram suas carteiras devidamente separadas para evitar cópia. A duração foi de, aproximadamente, 30 minutos. Após feito o desenho, cada criança foi chamada individualmente noutra sala para comentar o desenho feito e os argumentos usados para expressar suas percepções e entendimentos, o que teve duração de aproximadamente 10 minutos.

A análise dos dados teve tratamento qualitativo associado do desenho em si, das respostas e dos comentários feitos pelas crianças durante a entrevista. A partir dessa ação, utilizou-se a Análise de Conteúdo para tratar as informações obtidas (BAUER, 2010; BARDIN, 2011).

Resultados e Discussão

Constatou-se que essas crianças percebem, reagem e representam de forma distinta o seu entorno. Um mesmo lugar é percebido com aspectos diferentes que, constituídos a partir do uso social, formam significados singulares sobre a Lagoa da Francesa e sua condição socioambiental, seja de forma positiva ou negativa (Figura 1 e 2). Nesse sentido, Lima (1989) argumenta que um mesmo espaço pode resultar em ambientes diferentes, assim como ambientes similares não significam espaços iguais.

Figura 1: Desenho da Lagoa da Francesa como lugar de poluição (Menina, 13 anos). 

Figura 2: Desenho da Lagoa da Francesa como lugar de recreação (Menina, 8 anos). 

As análises de conteúdo permitiram constatar seis diferentes categorias representativas que estão subjacentes aos tipos de usos e significações dadas pelas crianças à Lagoa da Francesa: a) Lugar de Poluição (22,5%); b) Lugar de Trânsito (19%); c) Lugar de Inundação (17,5%); d) Lugar de Recreação (14,2%); e) Lugar de Comércio (13,4%); f) Lugar de Moradia (13,4%).

Lugar de Poluição

A Lagoa da Francesa (LF) como Lugar de Poluição aponta para uma realidade preocupante em diversas cidades brasileiras: o despejo de objetos em ambientes fluviais. Para 22,5% das crianças, a degradação presente na lagoa é sua característica, as quais percebem que as características ecológicas foram alteradas pelo uso indevido do lugar, que afeta a todos que nela circundam. Aqui, há evidência dos rejeitos sólidos (orgânicos e inorgânicos) expostos naquele espaço. Para elas, tal realidade fragiliza o ambiente e as possibilidades de uso que podem ter neste lago. Assim, as significações se ancoram em aspectos negativos sobre o lugar.

Nesta categoria, a lagoa é um lugar repleto de objetos e que salta aos olhos do observador, que assim o é condicionado a partir de ações externas: “A água da lagoa nasceu limpa, mas quando eles comem bombons, eles jogam o lixo. Mamãe ajunta tudinho, depois vai gente lá e joga de novo” (F, 9 anos). Aqui, o ambiente é constatado em sua dimensão degradada e que traz sensações desagradáveis para a criança: “Na lagoa tem muitas sacolas, muito lixo e é muito fedido” (M, 7 anos). Sobre isso, Giatti (2009) argumenta que, a partir do momento em que os resíduos são gerados pelos indivíduos após satisfeitas suas necessidades, os problemas se iniciam e se multiplicam, na medida que são jogados materiais de difícil decomposição.

Nesta percepção, a característica negativa se assevera pela atuação dos próprios moradores. A LF passa a ser, devido aos dejetos ali depositados, um lugar de restrição ao acesso das pessoas, e por isso “Não sinto vontade de entrar nessa água porque ela é suja. Uma vez um adulto caiu nessa água, pegaram ele na casa dele e ele ficou internado” (M, 11 anos). O menino associa que a lagoa é imprópria para o uso direto do corpo, passando a negar tal contato e os seus possíveis riscos. Os sujeitos que lá moram encontram-se não apenas vulneráveis diante da degradação, mas confinados e distanciados do ambiente natural.

A LF poluída rompe, ainda, com uma característica cultural amazônica: por não poder entrar na água, a criança não sabe nadar. Por não terem a LF limpa o bastante para aprenderem a nadar, os pais os alertam como um cenário perigoso: “Minha mãe não deixa eu entrar na lagoa. Ela fala que as águas são poluídas, tem bactérias e vai me fazer mal!” (F, 11 anos). Nos termos cunhados por Tuan (1980; 2005), o sujeito tem por este lugar uma topofobia, que representa a noção de paisagem do medo, as quais dizem respeito tanto aos estados psicológicos quanto ao meio ambiente real. Deste modo, a LF torna-se, para a criança, uma paisagem que manifesta uma sensação hostil: “Eu tenho medo dessa água, tenho medo que tenha alguma coisa lá” (M, 10 anos). Tuan (2005) fala que a morte é um medo novo, as crianças estão mais conscientes dela do que muitos adultos podem imaginar.

Estar na Amazônia, viver no entorno de uma lagoa e esta ser um elemento restrito para sua vivência, traz uma transformação no comportamento sociocultural das pessoas que aqui vivem. Fischer (1994) discute que o espaço como sistema cultural exprime os sistemas de valores da sociedade. Se a água “não presta”, o indivíduo criado nessa perspectiva terá aversão a este elemento e novas condições serão postuladas a partir disso.

Lugar de Trânsito

A Lagoa da Francesa como Lugar de Trânsito foi expressada por 19,2% das crianças. Esse entendimento se refere às possibilidades de mobilidade que a via fluvial proporciona. Assim, o significado agregado é de um espaço de passagem, essencial para ligar um lugar a outro, que é usado por conhecidos, ou não, porque “vem as pessoas de todos os lugares pra aí” (F, 12 anos).

A LF é um lugar de movimento, de ir e vir, de entrar e sair, seja por terra seja pela água. Esse fluxo intenso é favorecido pelo meio fluvial disposto pelo lugar e esse movimento distingue-se aos olhos da criança: “Eu sei como ela é porque todo domingo a gente vai para a Vila Amazônia e vai pela lagoa da Francesa” (F, 12 anos). A distinção da lagoa como deslocamento insere-se na tipologia dos espaços sociais paralelos, na representação dos espaços intersticiais, quando o espaço tem uma função de passagem. É a ideia de limiar que assegura a passagem ritual de lugar a outro (FISCHER, 1994). O espaço intersticial exprime uma função que articula um dentro e um fora, na qual há uma parte da vida social: “Aqui é um homem numa voadeira indo viajar de barco” (F, 11 anos).

Vivendo num ambiente amazônico, os rios, lagos e lagoas tornam-se essenciais para o deslocamento porque navegar é preciso e possível (TOCANTINS, 2000). Este cenário da LF é corroborado quando “Eu sempre viajo de barco pela lagoa” (12 anos). Todavia, esse tráfego já não é só cultural e inofensivo, esse meio de transporte é preocupante, pois, tanto “a descarga do barco polui o rio” (M, 7 anos) quanto “a água do rio é poluída pela fumaça do barco” (M, 11 anos). Ambos percebem que há uma relação deste meio de transporte com a poluição do lugar. As péssimas condições da maior parte dos barcos, associada à irresponsabilidade ambiental dos transeuntes, é percebida pelas crianças.

A LF é um cenário de intensa circulação, tanto nas ruas quanto nas águas, por isso, controlar tal situação parece difícil para a criança: “Eu já presenciei muitas vezes as pessoas dos próprios barcos, pessoas que passam muitas vezes de moto, elas pegam e jogam garrafas” (M, 13 anos). Nesta percepção, as crianças emanam juízos: “Isso daqui é um lixo, que eu vi um dia, um homem de um barco jogar no rio” (F, 10 anos).

Tal realidade provoca nas crianças uma preocupação latente com as consequências desse comportamento: “É capaz dos peixinhos que moram lá morrerem por causa do homem que fez isso” (F, 10 anos). Do mesmo modo, altera os sentimentos de apego ao lugar: “Acho muito triste porque estão jogando na natureza, mas um dia, sei que a natureza não pode ter pena deles, igual essa enchente que veio e destruiu várias casas” (F, 13 anos). Para Fischer (1994), esse elemento de trânsito possibilita aos indivíduos, ou grupos, que se apropriam do lugar, o tornarem um ambiente de reivindicação potencial: “Nós temos um dia, que arranjar panfletos, coisas que nós possamos dizer sobre os riscos e benefícios que podem ocorrer com o lixo” (M, 13 anos).

Como se nota, o rio é um prolongamento da vida cabocla, território de movimento que já é presente na criança que vive esse espaço e que já se preocupa com a fragilização ecológica que as pessoas fomentam. Constata-se aspectos de preocupação que fazem com que emerja em algumas crianças o desejo de transformar essa realidade. Sementes de mudança comportamental parecem estar sendo cultivadas, de tal forma que se vê, nas crianças, o início de uma transformação da ordem econômica, política e cultural, que, por sua vez, é impensável sem uma alteração das consciências e dos comportamentos das pessoas (LEFF, 2008).

Lugar de Inundação

A LF é um Lugar de Inundação para 17,5% das crianças. O ciclo das águas (cheia e seca) é um fenômeno amazônico e faz parte de um ecossistema esperado pelos amazônidas. Tocantins (2000) argumenta que o rio enche a vida do amazônida de motivações psicológicas e que este vai imprimindo à sociedade rumos e tendências, criando tipos característicos da vida regional.

Convém ponderar, no entanto, que cheia e inundação são fenômenos distintos. A cheia é esperada em certa época do ano (MIGUEIS, 2011) e, por isso, as atividades são programadas para seu enfrentamento. No entanto, a inundação é inesperada e acontece tendo em vista chuvas fortes, não raro trazendo prejuízos e sofrimentos. A inundação é presenciada com maior intensidade na área urbana devido às ocupações irregulares que alteram o curso dos igarapés. O assoreamento provocado pela perda da mata ciliar e o acúmulo de lixo nos ambientes fluviais também são condições de agravo, que trazem sérias consequências aos moradores próximos dessas áreas. Essa realidade está presente na LF e é percebida pelas crianças.

A água invade sem dó e de repente, é quando “nossa casa está indo pro fundo e ele (o pai) tá ajeitando a ponte de lá. A parte da frente tá bom, só atrás tá indo pro fundo” (F, 7 anos). Não é só a água que invade e os retira de suas casas, mas também há visitantes indesejados porque “tá enchendo a nossa casa, eu já matei um monte de cobra, de noite, cobra cega” (M, 7 anos), e a criança se assusta com “o barco que tá bem perto, tá quase entrando a água em casa” (F, 8 anos). Quando as chuvas se vão, outro cenário emerge, mas traz pouco alívio “porque quando a água vai, os ratos ficam lá, e o rato fica na rua, e a rua fica alagada” (M, 9 anos). O que pesa para a criança é a dificuldade de acesso, mobilidade e segurança dentro e fora de casa proporcionada pelo humor das águas, pois isso o faz “ter que pisar na água para poder chegar em casa” (M, 7 anos). Tuan (2005) argumenta que os seres humanos não suportam viver em permanente estado de ansiedade, necessitando manter uma sensação de controle, não importa quão ilusória possa ser, por isso, algumas crianças dizem resignadamente: “Eu prefiro a lagoa seca” (F, 10 anos).

Observa-se, neste grupo, que os fatores limitantes e falta de controle do ambiente proporcionam estados de estresse permanente e, por isso, “eu não gosto de água. Na água deve ter cobra, jacaré, aqueles peixes, piranha, aí é arriscado isso” (F, 12 anos). Para Günther e Fragelli (2011), o estresse ambiental refere-se a uma condição do mundo objetivo, o qual interfere nas diferentes esferas da pessoa. A cheia ou a inundação incontrolável passam a ser um elemento estressor visto como inevitável pela criança: “Minha casa está alagada, todo ano é assim” (M, 10 anos).

Nesta categoria, a criança se vê limitada pela restrição do espaço físico e por ameaças ocasionadas pelas inundações no lugar onde mora. O ambiente inundado projeta, no sujeito que lá habita, estados psicossociais latentes de estresse, que afetam suas condições subjetivas e objetivas. Aqui, a criança percebe a água e seu lugar de moradia como algo negativo, visto que esta causa um desequilíbrio na harmonia do seu dia a dia.

Lugar de Recreação

As percepções da Lagoa da Francesa como Lugar de Recreação foram apresentadas por 14,2% das crianças. Sobressai aqui o entretenimento, as brincadeiras que este espaço propicia. A recreação compreende atividades espontâneas, prazerosas e criadoras, que os sujeitos buscam em seu tempo livre (CAVALLARI; ZACHARIAS, 2007), mesmo em situações impróprias.

A água para os amazônidas em especial propicia um palco de alegria e identidade cultural. Andar de canoa, nadar, mergulhar, brincar de barquinho são atividades que ocorrem na lagoa, por isso, “eu vejo crianças aos montes. Elas ficam com barquinho lá para eles brincarem naquela água, às vezes, o barquinho afunda, eles afundam brincando naquela água lá, eles ficam nadando com o barco lá” (F, 10 anos). Constata-se que lagoa e criança se complementam com laços firmes de tal forma que é difícil separar o ser criança fora e dentro da lagoa, uma vez que “tá na água, tá nadando, tá na bóia, tá dormindo, esse tá segurando na boia, e tá chovendo” (F, 7 anos). Além disso, crianças brincam e aprendem uma com as outras, mesmo em momentos, ou em lugares, não propícios.

Cada lugar estabelece um significado de uso social e subjetividades inerentes. Utilizar a água como o lugar de recreação é um traço marcante que dá contornos significativos aos laços de parentesco, à identidade cultural da região, que chega a cegar as condições de qualidade ambiental. “Tem esse curumim, tem eu, tem o Vinícius, tem meus primos lá do interior, a gente tá nadando lá na Francesa” (M, 7 anos), isto é uma percepção ambiental recheada de possibilidades para brincar e investir a afetividade, mesmo que em um meio poluído.

O que importa é a água, cujas affordances (GIBSON, 1986) permitem fazer tudo: “Elas ficam pescando, pulando na água e pegando papagaio” (F, 7 anos) porque “essa água da lagoa é boa para as crianças brincarem” (M, 13 anos). As brincadeiras na água refletem, assim, um mundo de fantasias e a criança mergulha nele, atraída pela beleza, pelos mecanismos inerentes à sua propriedade física (PERES, 2013) e pelo insólito (ALTMAN, 2010).

Para Brouger è (2001), brincar não é uma dinâmica interna do indivíduo, mas uma atividade dotada de significação social que, como outras, necessita de aprendizagem ou adequações. Dessa forma, a cultura tem papel indispensável nesta aprendizagem, pois nas relações socioculturais se estabelecem interações entre os indivíduos e, desta forma, novas aprendizagens podem surgir, novos modos de ser, pensar, sentir e brincar. No caso amazônico, a água de uma lagoa, de um igarapé ou rio é o palco inevitável de grandes brincadeiras, onde, desde muito pequena, a criança se constitui como parte destes espaços hídricos, os quais se tornam um prolongamento do seu corpo.

Diante desse cenário, a relação dinâmica com o recurso dá a noção de pertencimento e apego ao lugar, assim como as atividades em grupo são também potencializadas pela região. É por meio do brincar que a criança desenvolve sua imaginação, sua capacidade de fazer amigos, de socializar, obedecer a regras, aceitar o outro, de ser amigo: “Às vezes, chamo uns meninos pra ir lá brincar comigo, não gosto de ir sozinho” (M, 7 anos). Por intermédio das atividades recreativas, a criança manifesta suas emoções, estabelece suas ligações sociais, descobre sua capacidade de escolher, decidir e participar (ALTMAN, 2010).

Nesta percepção, a criança preza o espaço físico para se constituir como criança e não dá importância para os problemas que esse lugar tem em si. O importante é a valência positiva sobre a região. Fatalmente, a vulnerabilidade se instala gradualmente a ponto de naturalizar as condições pelas quais essas crianças são levadas a vivenciar e chegam a admitir que “Essa é uma água limpa da lagoa, lá tem muitas crianças brincando” (M, 8 anos). Pelo óbvios riscos sanitários e ambientais, essa situação carece de melhorias para que isto não coloque ainda mais riscos a essas crianças que lá moram e vivem.

Lugar de Comércio

Para 13,4% das crianças, a LF é um lugar de comércio. O comércio é uma atividade econômica que consiste na compra e venda de mercadorias, tanto de produtos quanto de serviços profissionais. No local, há inúmeros estabelecimentos comerciais, um palco da produtividade dos habitantes, seja da população rural que traz suas mercadorias para vender na cidade (farinha, peixes, frutas, etc.), seja dos citadinos, que alocam pontos na região por ter um fluxo constante de pessoas (bares, mercados, entre outros) e que são notados pelas crianças ao verem que “lá existem aquelas casinhas que ficam perto da escadaria ali, que vendem aqueles negócios lá” (F, 12 anos). A cultura comercial de Parintins tem esta região como elemento significativo de comércio aos parintinenses, tanto dos bairros do entorno quanto dos bairros mais distantes, e isso já faz parte das percepções das crianças, pois “tem a feira, tem o bar que vende cerveja, tem o Casarão, teve uma vez que eu fui lá comprar bife” (M, 7 anos) ou “aqui é a Casa Góes, aqui é a Agroverde. Eu ia comprar as coisas lá na Casa Góes” (F, 12 anos).

Nesse tipo de entendimento, a percepção se dá não sobre o lugar em si, mas ao mundo das mercadorias que estão ao dispor dos habitantes, independente ou à revelia da poluição. Para Huberman (1979), esse aspecto engloba uma teia fundada no ato de produzir e adquirir mercadorias e, na Amazônia, o recurso fluvial potencializa o espaço urbano onde está inserido para atividades de compra e venda de vários produtos.

Ao manifestarem a qualidade comercial da região, as crianças deixam em segundo plano o recurso hídrico e se apegam à área geográfica. Mostram que na região há um dinamismo espacial, onde a característica do local está na compra e venda de bens e serviços, refletindo a importância econômica que o lugar tem para quem consome e os reflexos que acontecem neste ambiente a partir dessa atividade. Essa produção urbana reafirma as ideias de Gottdiener (1997) e Lefebvre (2001), de que a cidade capitalista criou o centro de consumo, tornando os lugares de comércio, o ambiente de encontro, a partir do aglomerado das coisas. Para as crianças que percebem a saliência do comércio, a LF se insere nesse mundo do consumo, dos consumidores e nas consequências do tipo desse uso, tanto das mercadorias quanto do espaço onde isso ocorre.

Lugar de Moradia

Para 13,4% das crianças, a LF é lugar de moradia. Para este grupo, a LF é entendida como um território de habitação que determina um modo de vida específico, onde a água no quintal ou debaixo da casa é parte de um cenário urbano, mas de sua apropriação. A LF não é somente um recurso fluvial, mas um território onde se forma uma vida urbana. Aqui, a região da lagoa faz parte de sua afirmação como sujeito urbano, apropriando-se desse espaço para realização de diversas atividades cotidianas, que lhes dão a ideia de pertencimento, mesmo na cidade, a um grupo em especial: “Meu pai pesca na lagoa. A lagoa é muito boa para pescar” (M, 7 anos). O espaço de moradia é onde se desenrola a vida privada, ou seja, é a organização social na qual o indivíduo se inscreve (FISCHER, 1994; NEVES, 2013).

Cruz (2011) comenta que, ao habitar um espaço, o ocupante investe nele intenções, atos e marcas que permitem aos sujeitos sobreviver às banalidades do cotidiano, dando a si uma identidade, criando condições que possam constituir a moradia como um refúgio ou abrigo. O espaço de moradia passa a ser o centro da existência humana, com significações físicas, psicológicas e culturais, com conteúdo de familiaridades do mundo vivido, uma expressão da identidade sociocultural que reflete um status social e pertencimento (LEMOS, 2010).

A percepção da LF como ambiente de moradia significa estar num lugar chamado de “seu”, onde se faz tarefas simples, as quais encontram suporte no ambiente físico da lagoa: “A lagoa é importante para mim, porque lá a gente toma banho e lava roupa” (M, 8 anos). A moradia é o espaço de intimidade e de uma conjugação de valores e fatores, tornando o lugar como espaço do seu lar. Assim, nas tarefas diárias se processa a apropriação desse espaço que representa o solo onde a casa está fixada.

Os espaços construídos engendram subjetividades que envolvem a produção de fragmentos espaciais, de tal forma que a relação das pessoas com o ambiente ocorre a partir da internalização de signos presentes no entorno e organizados em um sistema simbólico. O apego ao lugar se torna visível: “Eu moro perto da lagoa, meus primos estão aqui. Eu vejo muita coisa lá de casa” (M, 7 anos). Nesse entendimento, a lagoa é sinônimo de chegada e partida, conforto e segurança, afirmação de vínculos afetivos e políticos. A lagoa é, com suas adversidades e bonanças, uma rede de socialização: “É a minha casa, as casas dos vizinhos, a igreja evangélica, a árvore, o posto de gasolina e a lagoa da Francesa” (M, 13 anos). É um lugar onde elas moram e vivem com todas as suas vicissitudes.Tal situação abarca as nuances de uma cidade amazônica.

Considerações Finais

Ao se destacar as percepções ambientais sobre a LF, as crianças manifestaram entendimento da “Lagoa da Francesa” ora sendo um recurso hídrico, isto é, como lagoa em si, e ora sendo uma área geográfica circunscrita no espaço da cidade. Constatou-se que a lagoa, quando trazida como aspecto saliente de uso do recurso hídrico, torna evidente aspectos negativos presentes naquele espaço. Quando a Lagoa da Francesa é a lagoa, e percebida como um Lugar de Poluição e Inundação, aos olhos da criança sobressaem os problemas ambientais e a forma predatória do uso do lugar pelas pessoas que lá vivem ou transitam. A criança com esse tipo de percepção fala dos aspectos do cotidiano e avalia essa realidade permeada tanto pelo sofrimento resignado quanto pela vontade de transformar esse ambiente. Há um rio no quintal ou dentro de casa, mas o contato digno com ele lhe é negado.

Não há dúvida de que a precariedade do ambiente afeta sobremaneira na formação dessa criança, restringindo direitos básicos de cidadania na redução de oportunidades e no enfrentamento de riscos, cujas consequências pouco se pode medir. Chama atenção que 40% das crianças expressaram essas categorias de entendimento do mundo em que vivem. Vários autores falam sobre a necessidade de apego ao lugar a partir das experiências positivas vividas naquele espaço, que nesse caso pouco se pode esperar. Essas crianças crescem vendo as águas da lagoa serem poluídas ou inundando suas casas, de tal modo que se observa uma naturalização dessa situação, onde tal estado “sempre foi assim e que não pode ser diferente”. Ficam evidentes aqui aspectos de uma amnésia ambiental geracional (KAHN et al., 2009). Para esses autores, é a infância que dá o parâmetro de normalidade ao cotidiano. Se a cada geração o mundo vivenciado na infância é mais degradado, cada geração tende a achar normal o índice de degradação ambiental. Esta naturalização é característica da amnésia ambiental geracional.

Nesse estudo, constata-se que, ao perceber esse espaço como algo negativo, as crianças podem estar construindo menos possibilidades de afeição do que capacidade de mudar para melhorar. Sem uma efetiva intervenção de gestão pública e educacional, podemos estar assistindo não apenas à depredação ambiental, mas também à depreciação social das pessoas que estão submetidas a esse espaço.

Outras crianças mostraram que seu entendimento sobre a Lagoa da Francesa transcende os aspectos específicos da lagoa como recurso hídrico e focam na região geográfica, mesmo que essa não congregue um sentimento de pertença. Um grupo de 32,5% percebe a LF como um Lugar de Trânsito e Comércio. O espaço físico ganha proporções de uso coletivo, porém de pouca permanência afetiva. A região é o lugar das compras, a lagoa passa a ser um complemento do cenário comercial. De igual modo, é apenas um caminho de ir e vir, de passagem para os outros espaços. É o lugar que liga o aqui e lá e vice-versa, lugar de movimento, de gente que passa por lá. Se viu que em tais situações alguns estudos evidenciaram o sentimento de indiferença nesses casos, e que esse distanciamento afetivo pode afetar possibilidades de formação da própria pessoa que lá vive, de forma que o lugar que deveria ser seu, é um lugar de todos, um lugar de passagem para muitos. Mais uma vez a criança pode estar envolvida nessa rede de vulnerabilidade, que remete a ambientes cuja apropriação é pouco possível.

Finalmente, este estudo encontra um grupo que percebe a Lagoa da Francesa como um lugar de apropriação, que é vivido com intensidade e intimidade. São 27,5% das crianças que manifestam percepção da LF como um Lugar de Recreação e Moradia. Nessa forma de entendimento, as crianças têm um elo afetivo evidente com o local, pois é lá que moram com os pais e brincam com os amigos. Lá a vida segue com esses acontecimentos que permitem uma identidade de lugar, onde a água lhe oportuniza esses momentos. É a partir desse envolvimento que a criança evidencia aspectos importantes para sua formação. O ambiente é vivido com intensidade, mesmo que as condições do ambiente físico não sejam salubres, pois este é o único possível.

A ausência de espaços públicos que atendam a criança na cidade de Parintins é notória. Estes pequenos moradores sofrem com a falta de parques naturais ou de ambientes naturais preservados que recebam a sua ânsia por diversão e socialização, não tendo isso, os ambientes naturais degradados se tornam o meio possível.

As brincadeiras na água são necessárias para viver a infância na região amazônica, porém, o estado das águas urbanas está qualitativamente modificado, tornando-a prejudicial, direta ou indiretamente, à vida e bem-estar humanos. Portanto, ousa-se dizer que a criança é um público ainda não valorizado nas políticas de lazer e entretenimento do município. Logo, é preciso que se efetivem políticas públicas direcionadas para esse segmento no sentido de transformar a realidade social e ambiental em que vive.

Por fim, este estudo, embora limitado em alguns aspectos, permite verificar a potencialidade de as crianças mostrarem aos adultos o mundo pouco estruturado para sua plena capacidade de cidadania. Algumas crianças mostram ainda, a partir de suas percepções, que querem ser protagonistas de uma nova forma de estruturar ambientes para os que as sucederem, mesmo com tão poucos recursos que lhe são ofertados. Basta os adultos de hoje auxiliarem nesse desejo e proporcionarem oportunidades efetivas e eficazes.

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Recebido: 20 de Abril de 2017; Aceito: 20 de Junho de 2018

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