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Ambiente & Sociedade

versão impressa ISSN 1414-753Xversão On-line ISSN 1809-4422

Ambient. soc. vol.21  São Paulo  2018  Epub 31-Jan-2019

http://dx.doi.org/10.1590/1809-4422asoc0019r2vu18l4ao 

Artigo Original

ATIVIDADES DE CAÇA NO SEMIÁRIDO POTIGUAR SOB A PERSPECTIVA DE ESTUDANTES

ROBSON JÚNIO PEREIRA DE LIMA 1  

EDJA DAISE OLIVEIRA BARBOSA 2  

MARCIO FRAZÃO CHAVES 3  

1. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). E-mail: robsonlimabio@gmail.com

2. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). E-mail: oliveirabarbosabio@gmail.com

3. Doutor em Ciência Animal Tropical pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Professor Assistente da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). E-mail: marciochaves@ufcg.edu.br

Resumo

Em áreas de Caatinga, a caça é considerada uma ameaça à fauna e ao equilíbrio ecológico, sendo o estudo da atividade cinegética relativamente importante para elaboração de estratégias de conservação. Baseado nesta premissa, esta pesquisa visa identificar os animais silvestres capturados, suas formas de uso e técnicas de caça em dois municípios do Estado do Rio Grande do Norte, Brasil. Para tanto, foram realizadas entrevistas com 80 estudantes residentes da zona rural. Foram registradas 84 espécies, que se enquadram nas seguintes categorias de uso: alimentação (73), estimação (43), medicinal (14) e comércio (45). Os animais são capturados através de 15 técnicas, sendo a espingarda a técnica mais impactante para fauna local. As espécies com maior valor de uso foram tatu peba (Euphractus sexcinctus) e rolinha vermelha (Columbina talpacoti). A utilização dos recursos faunísticos e a realização das atividades cinegéticas nas áreas estudadas estão intimamente relacionadas a fatores culturais e socioeconômicos.

Palavras-chave : Caatinga; Uso da Fauna; Conservação; Técnicas de captura

1 Introdução

A conexão homem/natureza/animal é milenar e vem se perpetuando ao longo do tempo em uma relação predatória e de simbiose (ALVES; SOUTO, 2010a). O homem apesar de não apresentar a morfologia típica de um carnívoro, se tornou um dos predadores mais eficientes do mundo (OJASTI; DALLMEIER, 2000), capturando animais para a alimentação, proteção, estimação, atividades culturais, fins medicinais, mágico-religiosos, vestimentas e produção de ferramentas (e.g., OJASTI; DALLMEIER, 2000; JEROZOLIMSKI; PERES, 2003; NARANJO et al., 2004; ALVES et al., 2010).

O Brasil é considerado o país com a maior diversidade biológica do planeta. Estima-se que ocorrem cerca de 713 espécies de mamíferos, 1901 de aves e 721 de répteis (CBRO, 2014; MMA, 2014), contudo, sua biodiversidade encontra-se seriamente ameaçada. Atualmente, as principais causas de extinção faunística no país são a modificação de habitat, sobre-exploração dos recursos, invasões biológicas, poluição, contaminação e mudanças climáticas (SCARIOT, 2010).

Mesmo apresentando uma longa e notável história, a caça de animais silvestres é ainda pouco explorada cientificamente no país (ALVES; SOUTO, 2010b), e os poucos estudos existentes estão concentrados principalmente em áreas de Floresta Atlântica e Amazônica (e.g., CULLEN JR. et al., 2000, 2001; TRINCA; FERRARI, 2006). No ecossistema caatinga, há poucos estudos abordando a temática, apesar de ser considerado um dos principais fatores de ameaça à fauna do semiárido nordestino (LEAL et al., 2005). Com relação ao Estado do Rio Grande do Norte, estudos abordando as atividades cinegéticas e o uso da fauna ainda apresentam-se incipientes (BEZERRA; ARAUJO; ALVES, 2011, 2012; LUCENA; FREIRE, 2012; BARBOSA et al., 2014).

Por outro lado, a captura de animais silvestres desempenha um importante papel socioeconômico para as populações do semiárido do Brasil, principalmente por fornecer carne de alto valor nutritivo às famílias locais (ALVES; GONÇALVES; VIEIRA, 2012).

As atividades cinegéticas têm evidentes implicações conservacionistas que necessitam ser melhor investigadas e estudadas, auxiliando na produção de planos de manejo sustentável (ALVES et al., 2009, 2010). E, no caso particular da Caatinga, haja vista que a população local é estreitamente dependente da fauna silvestre para sua sobrevivência, se faz necessário o delineamento de estratégias de conservação em consonância com as populações usuárias, e que considere o contexto sociocultural das pessoas envolvidas com a caça silvestre (ALVES; GONÇALVES; VIEIRA, 2012).

Diante desta perspectiva, o presente trabalho analisou as atividades cinegéticas (técnicas de caça, animais capturados e formas de uso), e o contexto socioeconômico da população usuária dos recursos faunísticos em dois municípios do Estado do Rio Grande do Norte, Nordeste do Brasil. Fornecendo dados relevantes para o delineamento de medidas de conservação e utilização sustentável da fauna cinegética no semiárido brasileiro.

2 Material e Método

2.1 Área de estudo

A presente pesquisa foi realizada em duas instituições escolares da rede pública do Estado do Rio Grande do Norte, Nordeste do Brasil: a Escola Estadual Professora Terezinha Carolino de Souza, Município de Jaçanã (06º25’33’’S; 36º12’18”W), e a Escola Estadual José Joaquim, Município de Coronel Ezequiel (06°22’58’’S; 36°12’54”W). Ambas as instituições são as únicas dos seus respectivos municípios a oferecer o ensino em nível médio e atendem alunos da zona urbana e rural.

O Município de Jaçanã abrange uma área de 58 km², possui uma altitude de 724m acima do nível do mar, sendo, portanto, a quarta cidade mais alta do Rio Grande do Norte (CPRM, 2005b, MARIO 2016). Sua população é estimada em 8.949 habitantes (IBGE, 2016). Coronel Ezequiel ocupa em torno de 203 km² (CPRM, 2005a) e sua população é estimada em 5.590 habitantes (IBGE, 2016). São cidades pequenas, com densidade demográfica de 145,25 hab/km² e 29,10 hab/km², respectivamente (IBGE, 2010). O clima é quente, com temperaturas médias anuais em torno de 25,6 °C. A vegetação é formada pela Caatinga Hipoxerófila com aspecto menos agressivo, apresentando árvores e arbustos com espinhos, ervas rasteiras e cactos. Não há unidades de conservação ou reservas naturais nas localidades estudadas. Como relatado por Mario (2016), com o processo de evolução da região e a grande acentuação de famílias nas comunidades rurais ao longo dos anos, a vegetação nativa foi sendo devastada e substituída por árvores frutíferas ou roçados para cultivo de gêneros agrícolas. A base econômica dos municípios está centrada principalmente na agricultura de subsistência, pecuária, extrativismo e comércio (MARIO, 2016; CPRM, 2005a, 2005b).

2.2 Coleta de dados

A pesquisa foi realizada entre agosto de 2014 e janeiro de 2015. Para a realização da pesquisa, foram contatados todos os estudantes do ensino médio da E. E. Prof.ª Terezinha Carolino de Souza (Jaçanã) e da E. E. José Joaquim (Coronel Ezequiel) residentes na zona rural, pois tem maior vivência em relação às atividades de caça. Um total de 100 estudantes rurais frequentavam as instituições no período amostrado. Destes, 80 aceitaram participar da pesquisa, sendo 32 alunos da E. E. Prof.ª Terezinha Carolino de Souza e 48 alunos da E. E. José Joaquim.

Para a coleta de dados, foram utilizadas entrevistas semiestruturadas, complementadas por observação participante (ALBUQUERQUE; LUCENA; ALENCAR, 2010; AMOROZO; VIERTLER, 2010). As entrevistas foram individuais, duraram entre 30 e 90 minutos e ocorreram na biblioteca ou nas salas de aula das referidas instituições, de acordo com a disponibilidade dos estudantes. O roteiro semiestruturado elaborado para as entrevistas continha questões sobre os aspectos socioeconômicos, usos da fauna silvestre, técnicas de caça e percepção ambiental, obtendo assim informações sobre: Município - Sexo - Idade - Local onde reside - Estado civil - Número de filhos - Número de residentes na casa - Renda mensal familiar - Profissão - Tempo de residência na área rural - Percepção dos estudantes sobre a disponibilidade de animais silvestres na região - Espécies utilizadas e seus respectivos fins - Formas de obtenção dos animas (captura/aquisição) - Quem são os indivíduos familiares praticantes da captura dos animais - Espécies alvo para a comercialização - Época do ano em que esses animais aparecem mais na região.

Os alunos foram convidados a assinar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) quando estes apresentavam idade acima ou equivalente a 18 anos, ou solicitava-se a assinatura de seus pais ou responsáveis, sendo agendado o dia para recebimento do documento impresso em duas vias, conforme estabelecido pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Ministério da Saúde, 2002).

A fauna citada foi identificada da seguinte forma: 1) através da técnica checklist-entrevista, com a utilização de pranchas contendo imagens dos possíveis animais caçados; 2) durante o acompanhamento das atividades de caça (técnica turnê-guiada), com a visualização direta das espécies in situ (ALBUQUERQUE; LUCENA; ALENCAR, 2010), nessa etapa realizava-se registros fotográficos sempre que possível; 3) com base em estudos realizados previamente na região (BARBOSA et al., 2014; BARBOSA; MARIANO; CHAVES, 2014).

O ordenamento taxonômico e a nomenclatura utilizada seguem as determinações do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos para a avifauna (CBRO, 2014). Para os répteis, as diretrizes da Sociedade Brasileira de Herpetologia (BÉRNILS; COSTA, 2012). Para os mamíferos de médio e grande porte, foi consultado Feijó e Langguth (2013), e para os de menor porte, Paglia et al. (2012). A avaliação dos status de conservação das espécies ocorreu por meio de consulta à Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção (MMA, 2014), e à base de dados da International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2013).

Os dados foram analisados de forma qualitativa, seguindo o modelo de união das diversas competências individuais e tabulados em planilhas eletrônicas (HAYS, 1976). Foi utilizada estatística descritiva, onde a frequência absoluta das respostas foi calculada e transformada em porcentagem. Para os dados referentes à percepção ambiental sobre a população faunística, foi aplicado o teste do qui-quadrado para verificar se havia diferenças significativas quanto ao gênero e à faixa etária dos entrevistados. E, para determinar a importância cinegética relativa das espécies citadas em cada categoria de uso, foi calculado o Valor de Uso (VU) de cada uma delas, seguindo a proposta apresentada por Phillips et al. (1994), através da seguinte fórmula: VU = ΣU/n; onde: VU = valor de uso da espécie; U = número de citações por espécie; n = número de informantes.

3 Resultados e Discussão

3.1 Caracterização socioeconômica da amostra

Dos 80 estudantes entrevistados, 54 eram homens e 26 mulheres, com idades que variaram entre 14 e 30 anos, com maior concentração no intervalo de 14 a 17 anos (71% - n = 57), sendo 51% (n = 41) do sexo masculino e 20% (n = 16) do sexo feminino. Uma parcela significativa dos estudantes reside a mais de 10 anos (81% - n = 65) na zona rural, alguns moram desde que nasceram (76% - n = 61) e mais da metade da população amostrada (52% - n = 42) é natural das localidades estudadas. Quanto ao estado civil, a maior parte dos estudantes declarara ser solteiro (86% - n = 69). A maior parte dos grupos familiares é formada por 3 - 4 pessoas (49% - n = 39) e apenas 14% (n = 11) dos estudantes possuem filhos. No que diz respeito à renda familiar mensal, apenas 2% (n = 2) tem renda de três salários mínimos, 17% (n = 14) dois salários mínimos, 35% (n = 28) um salário mínimo e a maioria tem renda menor que um salário mínimo, compreendo cerca de 45% (n = 36) dos entrevistados. Com relação à atividade ocupacional, uma parcela significativa (80% - n = 64) apenas estuda e o restante, além das atividades acadêmicas, desenvolvem trabalhos relacionados à agricultura (17% - n = 14), em obras como pedreiro (1% - n = 1), e como vendedor (1% - n = 1).

3.2 Atividades cinegéticas

Um total de 70 (87%) estudantes afirmou utilizar ou já ter utilizado animais silvestres. As atividades de caça começam na infância, quando os animais (principalmente as aves) são caçados para o consumo com uso de baladeiras (BARBOSA et al., 2014) ou capturados em armadilhas. Quando perguntado aos estudantes como eles conseguem os animais silvestres, alguns citaram mais de uma opção, contudo, a maioria (67% - n = 54) relatou ser através da caça, prática é realizada por eles próprios ou por familiares, 46% (n = 37) afirmou obter através da compra, 26% (n = 21) afirmaram ganhar de conhecidos.

A fauna cinegética registrada foi representada por um total de 84 espécies, distribuídas em 22 ordens, 44 famílias e 73 gêneros (Tabela 1). As aves destacam-se com maior diversidade de espécies (n = 57), seguido pelos mamíferos (n = 16), e répteis (n = 11). Para a avifauna, as famílias mais representativas quanto ao número de espécies foram: Thraupidae (n = 11) e Columbidae (n = 8). Entre os mamíferos: Dasypodidae (n = 3), Myrmecophagidae, Felidae e Caviidae (2 espécies cada). E entre os répteis: Chelidae, Tropiduridae e Teiidae (2 espécies cada). No Município de Jaçanã, se registrou uma maior diversidade de animais capturados (55 ssp. aves, 15 ssp. mamíferos e 11 ssp. répteis) que o Município de Coronel Ezequiel (28 ssp. aves, 14 ssp. mamíferos e 5 ssp. répteis), fato que pode estar relacionado à maior diversidade de técnicas de caça empregada pelos caçadores do Município de Jaçanã (n = 12), quando comparado aos de Coronel Ezequiel, que se utilizam de menos técnicas (n = 9).

Tabela 1 Identificação da fauna silvestre citada como alvo de caça por estudantes rurais do Município de Jaçanã e Coronel Ezequiel, Rio Grande do Norte; seus respectivos nomes locais, método de coleta de dados, categorias de uso e respectivos valores de uso e status de conservação. Legenda: E - Entrevista; T - Turnê guiada; A - Alimentação; E - Estimação; M - Medicinal; C - Comércio; VU - Valor de Uso; LC - Pouco Preocupante; NT - Quase Ameaçada; VU - Vulnerável.* Espécie indicada pelos estudantes com ocorrência esporádica ou rara na região. 

Táxon Nome popular Coleta de dados Citações por categorias de uso IUCN status
E T A VU E VU M VU C VU
AVES
TINAMIFORMES
Tinamidae
Crypturellus parvirostris (Wagler, 1827) Lambú espanta boiada, lambú do pé vermelho X - 28 0,40 - - - - 6 0,09 LC
Crypturellus tataupa (Temminck, 1815) Lambú, lambú do pé roxo X - 10 0,14 - - - - 4 0,06 LC
Nothura boraquira (Spix, 1825) Cordoniz X - 3 0,04 - - - - 2 0,03 LC
Nothura maculosa (Temminck, 1815) Lambú pedrês, lambú espanta boiada X - 6 0,09 - - - - 3 0,04 LC
ANSERIFORMES
Anatidae
Dendrocygna viduata (Linnaeus, 1766) Pato d'água, galinha d'água X - 4 0,06 - - - - - - LC
Nomonyx dominica (Linnaeus,1766) Paturi X - 2 0,03 - - - - - - LC
PELECANIFORMES
Ardeidae
Butorides striata* (Linnaeus, 1758) Socó X - 1 0,01 - - - - - - LC
ACCIPITRIFORMES
Accipitridae
Urubitinga urubitinga (Gmelin, 1788) Gavião X - 2 0,03 1 0,01 - - - - LC
GRUIFORMES
Rallidae
Gallinula galeata (Lichtenstein, 1818) Galinha d'água, pato d'água X - 10 0,14 - - - LC
COLUMBIFORMES
Columbidae
Columbina minuta (Linnaeus, 1766) Rolinha cabocla, rolinha pé de anjo, rolinha azul X - 24 0,34 3 0,04 - - 7 0,10 LC
Columbina talpacoti (Temminck, 1811) Rolinha roxa, rolinha cafuta, rolinha vermelha X X 33 0,47 3 0,04 - - 8 0,11 LC
Columbina squammata* (Lesson,1831) Rolinha cascavel X - 3 0,04 - - - - 1 0,01 LC
Columbina picui (Temminck, 1813) Rolinha branca X - 25 0,36 5 0,07 - - 5 0,07 LC
Claravi spretiosa* (Ferrari-Perez, 1886) Rolinha azul X - 3 0,04 - - - - - - LC
Patagioenas picazuro (Temminck, 1813) Asa branca X - 3 0,04 2 0,03 - - 2 0,03 LC
Zenaida auriculata* (Des Murs, 1847) Arribaçã, ribaçã X X 17 0,24 - - - - 6 0,09 LC
Leptotila verreauxi(Bonaparte, 1855) Juriti X - 5 0,07 - - - - 3 0,04 LC
CUCULIFORMES
Cuculidae
Coccyzus melacoryphus (Vieillot, 1817) Papa lagarta, lagarteiro X - 6 0,09 - - - - - - LC
Crotophaga ani (Linnaeus, 1758) Anu preto X - 1 0,01 - - - - - - LC
STRIGIFORMES
Strigidae
Glaucidium brasilianum (Gmelin, 1788) Coruja, caboré X - 2 0,03 2 0,03 - - - - LC
CAPRIMULGIFORMES
Caprimulgidae
Nyctiphrynus ocellatus (Tschudi, 1844) Bacurau X - 3 0,04 - - - - - - LC
GALBULIFORMES
Bucconidae
Nystalus maculatus (Gmelin, 1788) Fura barreira X - 6 0,09 - - - - - - LC
CARIAMIFORMES
Cariamidae
Cariama cristata* (Linnaeus, 1766) Siriema X - 1 0,01 1 0,01 - - - - LC
PSITTACIFORMES
Pisittacidae
Primolius maracana* (Vieillot, 1816) Maracanã X - - - 2 0,03 - - - - NT
Eupsittula cactorum (Kuhl, 1820) Maritaca, maracanã, periquito rico X - - - 4 0,06 - - 3 0,04 LC
Forpus xanthopterygius (Spix, 1824) Periquito X - 5 0.07 9 0,13 - - 5 0,07 LC
Amazona aestiva* (Linnaeus,1758) Papagaio X - 1 0,01 1 0,01 - - - - LC
PASSERIFORMES
Furnariidae
Furnariu sleucopus (Swainson, 1838) João-de-barro X - 1 0,01 - - - - - - LC
Synallaxis frontalis (Pelzeln, 1859) Tio Antônio X - 1 0,01 - - - - - - LC
Tyrannidae
Phyllomyias fasciatus (Thunberg, 1822) Ceguim, ceguinho X - 1 0,01 - - - - - - LC
Pitangus sulphuratus (Linnaeus, 1766) Bem-te-vi X X 3 0,04 - - - - - - LC
Tyrannus melancholicus (Vieillot, 1819) Bem-te-vi X - 2 0.03 - - - - - - LC
Corvidae
Cyanocorax cyanopogon (Wied, 1821) Canção X X 1 0,01 3 0,04 - - 2 0.03 LC
Hirundinidae
Progne tapera (Vieillot, 1817) Andorinha X - 1 0,01 - - - - - - LC
Troglodytidae
Troglodytes musculus (Naumann, 1823) Rouxinol X X 1 0,01 - - - - - - LC
Turdidae
Turdus rufiventris (Vieillot, 1818) Sabiá, sabiá laranjeira X - 3 0,04 7 0,10 - - 4 0,06 LC
Mimidae
Mimus saturninus (Lichtenstein, 1823) Papa sebo X - 1 0,01 - - - - - - LC
Passerellidae
Zonotrichia capensis (Statius M., 1776) Tico-tico, salta caminho X X 3 0,04 4 0,06 - - 3 0,04 LC
Icteridae
Icterus cayanensis (Vigors, 1825) Pêga X - 2 0.03 4 0,06 - - 3 0,04 LC
Icterus jamacaii (Gmelin, 1788) Concriz X X 1 0,01 7 0,10 - - 4 0,06 LC
Gnorimopsar chopi (Vieillot, 1819) Craúna X - - - 1 0,01 - - 2 0,03 LC
Molothrus bonariensis (Gmelin, 1789) Anumará X - 1 0,01 1 0,01 - - 3 0,04 LC
Thraupidae
Coereba flaveola (Linnaeus, 1758) Chupa mel, cibito X X 5 0,07 4 0,06 - - 3 0,04 LC
Lanio pileatus (Wied, 1821) Maria fita X X 7 0,10 4 0,06 - - 3 0,04 LC
Tangara sayaca (Linnaeus, 1766) Sonhaçu, sonhaçu azul X X 4 0,06 6 0,09 - - 8 0,11 LC
Tangara cayana (Linnaeus, 1766) Sonhaçu pega X - 1 0,01 1 0,01 - - 3 0,04 LC
Paroaria dominicana (Linnaeus, 1758) Galo de campina X X 7 0,10 14 0,20 - - 10 0,14 LC
Sicalis flaveola (Linnaeus, 1766) Canário da terra X X 1 0,01 7 0,10 - - 9 0,13 LC
Volatinia jacarina (Linnaeus, 1766) Tiziu X - 1 0,01 4 0,06 - - 2 0.03 LC
Sporophila lineola (Linnaeus, 1758) Bigode X - - - 9 0,13 - - 8 0,24 LC
Sporophila nigricollis (Vieillot, 1823) Papa capim, cabeça preta X X 1 0,01 6 0,09 - - 5 0,07 LC
Sporophila albogularis (Spix, 1825) Golinha X X 7 0,10 26 0,37 - - 16 0,23 LC
Sporophila bouvreuil (Statius M., 1776) Caboclinho, caboclo lindo X - - - 2 0.03 - - 8 0,11 LC
Cardinalidae
Cyanoloxia brissonii* (Lichtenstein, 1823) Azulão X - 2 0.03 19 0,27 - - 12 0,17 LC
Fringilidae
Sporagra yarrellii* (Audubon, 1839) Pintassilva X - - - 2 0.03 - - 2 0.03 VU
Euphonia chlorotica (Linnaeus, 1766) Vêm-vêm X - - - 2 0.03 - - - - LC
Estrildidae
Estrilda astrild (Linnaeus, 1758) Bico de lacre X - - - 1 0,01 - - 1 0,01 LC
MAMÍFEROS
DIDELPHIMORPHIA
Didelphidae
Didelphis albiventris (Lund, 1840) Tacaca, timbu, gambá X - 6 0,09 - - 1 0,01 - - LC
CINGULATA
Dasypodidae
Dasypus novemcinctus* (Linnaeus, 1758) Tatu verdadeiro, peba verdadeiro X - 13 0,19 1 0,01 - - 5 0,07 LC
Euphractus sexcinctus (Linnaeus, 1758) Tatu peba, peba X X 34 0,49 7 0,10 - - 8 0,11 LC
Tolypeutes tricinctus* (Linnaeus, 1758) Tatu bola X - 2 0.03 2 0.03 - - 1 0,01 VU
PILOSA
Myrmecophagidae
Myrmecophaga tridactyla* (Linnaeus,1758) Tamanduá X - 5 0,07 - - - - - - VU
Tamanduate tetradactyla* (Linnaeus, 1758) Tamanduá X - 4 0,06 - - - - - - LC
PRIMATES
Callitrichidae
Callithrix jacchus (Linnaeus, 1758) Soinho, sagui X - 1 0,01 5 0,07 - - 4 0,06 LC
CARNIVORA
Felidae
Leopardus sp. Gato do mato X - 5 0,07 - - - - - - VU
Puma yagouaroundi (É. Geoffroy, 1803) Gato do mato X - 1 0,01 - - - - - - LC
Canidae
Cerdocyon thous (Linnaeus, 1766) Raposa X - 4 0,06 - - 15 0,21 - - LC
Mustelidae
Galictis cuja (Molina, 1782) Furão X - 1 0,01 - - - - - - LC
Mephitidae
Conepatus semistriatus (Boddaert, 1785) Tacaca X - 1 0,01 - - 1 0,01 1 0,01 LC
Procyonidae
Procyon cancrivorus (Cuvier, 1798) Gachite, guaxinim X - 2 0.03 - - - - - - LC
ARTIODACTYLA
Cervidae
Mazama sp.* Veado X - 13 0,19 - - 1 0,01 4 0,06 LC
RODENTIA
Caviidae
Galea spixii (Wagler, 1831) Preá X X 22 0,31 7 0,10 - - 10 0,14 LC
Kerodon rupestris (Wied, 1820) Mocó X - 2 0.03 - - 1 0,01 2 0.03 LC
RÉPTEIS
TESTUDINES
Chelidae
Mesoclemmys tuberculata (Lüderwaldt, 1926) Cágado X - 2 0.03 4 0,06 1 0,01 - - -
Phrynops tuberosus (Peters, 1870) Cágado, tartaruga X - 1 0,01 6 0,09 5 0,07 4 0,06 -
SQUAMATA
Gekkonidae
Hemidactylus mabouia (Moreau Jonnès 1818) Briba, lagartixa X - - - - - 2 0.03 - - -
Phyllodactylidae
Phyllopezus pollicaris (Spix, 1825) Briba, lagartixa X - 1 0,01 1 0,01 1 0,01 - - -
Iguanidae
Iguana iguana (Linnaeus, 1758) Camaleão, iguana X - 22 0,31 5 0,07 3 0,04 6 0,09 -
Polychrotidae
Polychrus acutirostris (Spix, 1825) Calango cego X - - - - - 1 0,01 - - -
Tropiduridae
Tropidurus hispidus (Spix, 1825) Lagartixa X X 1 0,01 1 0,01 4 0,06 - - LC
Tropidurus semitaeniatus (Spix, 1825) Lagartixa X - - - - - 2 0.03 - - LC
Teiidae
Ameiva ameiva (Linnaeus, 1758) Bico doce X - 5 0,07 - - - - - - -
Salvator merianae (Duméril & Bibron, 1839) Teju, tivaçu X X 23 0,33 4 0,06 9 0,13 9 0,13 LC
Boidae
Boa constrictor (Linneaus, 1758) Jibóia X - 2 0.03 - - - - - - -

Dentre os animais cinegéticos registrados, alguns táxons apresentam uma situação mais delicada em relação ao status, estando presentes na base de dados da International Union for Conservation of Nature (IUCN, 2013). Sendo maracanã (Primolius maracanã) na categoria quase ameaçada; e pintassilva (Sporagra yarrellii), tatu bola (Tolypeutes tricinctus), tamanduá (Myrmecophaga tridactyla) e o gato do mato (Leopardus sp.), na categoria vulnerável. Essas espécies também estão presentes na Lista Nacional das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção (MMA, 2014). Adicionalmente, o mocó (Kerodon rupestres) foi também categorizado como vulnerável no Brasil, declínio populacional possivelmente ocasionado pela caça e destruição de afloramentos rochosos (MMA, 2014).

3.3 Utilização da fauna

Foram quatro as categorias de uso descritas para os animais capturados: consumo alimentar, estimação/criação, zooterapia e comercialização. Os valores de uso (VU) variaram entre 0,01 e 0,49 (Tabela 1), e as espécies com maior valor de uso foram: tatu peba (Euphractus sexcinctus) com VU=0,49 e rolinha vermelha (Columbina talpacoti) com VU=0,47. Valores de uso menores que 0,20 representam as espécies com menor grau de ameaça antrópica. Contudo, as espécies com os valores de uso altos (considerado aqui maior que 0,45) são as mais capturadas e utilizadas nas comunidades rurais e a caça excessiva a esses espécimes pode acarretar uma série de fatores negativos, ocasionando, por exemplo, um declínio populacional local.

Três espécies foram indicadas nas quatro categorias de uso, o cágado (Phrynops tuberosus), o camaleão (Iguana iguana) e o teju (Salvator merianae). Destacando-se, portanto, entre os espécimes mais capturados.

Dos estudantes que afirmaram utilizar ou já ter utilizado de animais silvestres (n = 70), tanto os homens como as mulheres fazem uso dos silvestres como alimento, companhia, zooterapia e no comércio.

Em relação à faixa etária, registrou-se que os indivíduos entre 14 a 21 anos utilizam da fauna silvestre nas quatro categorias de uso. Os estudantes mais velhos, entre 26 a 30 anos, também fazem uso dos animais, no entanto, não mencionaram a venda de espécimes, possivelmente por terem conhecimento a respeito da legislação e serem susceptíveis a penalidades legais, considerando que a venda é proibida e a caça para alimentação não é caracterizada como crime de acordo com as condições sociais do caçador. Os entrevistados entre 22 a 25 anos afirmaram utilizar animais silvestres apenas para a alimentação e fins medicinais.

Verificou-se também que os estudantes com renda mensal familiar entre menos que um ou até dois salários mínimos utilizam os animais silvestres nas quatro categorias de uso supracitadas. Aqueles que se enquadram na renda mensal de três salários mínimos, também fazem uso da fauna, contudo, declararam que não comercializam animais silvestres.

Uma parcela significativa dos estudantes (67% - n = 54) afirmou consumir ou já ter consumido carne de animal silvestre. Um total de 73 espécies animais são capturadas pelos estudantes para o consumo. Aves e mamíferos destacam-se como os grupos animais cinegéticos de maior importância alimentar na região estudada. Constatação similar foi observada em diferentes localidades do semiárido brasileiro (ALVES et al., 2009; BARBOSA; NOBREGA; ALVES, 2011; DANTAS-AGUIAR et al., 2011; PESSOA; WAGNER; LANGGUTH, 2014) e do mundo (FUSARI; CARPANETO, 2006; SANTOS-FITA; NARANJO; RANGEL-SALAZAR, 2012). Os mamíferos são os prediletos para o consumo humano, principalmente por possuírem maior massa corpórea e, consequentemente, um maior retorno energético (ZAPATA RÍOS et al., 2011; ALVES; GONÇALVES; VIEIRA, 2012). Dentre as aves, a família Columbidae foi a mais citada para o consumo. É nítido a preferência e a importância alimentar dessa família (BEZERRA; ARAUJO; ALVES, 2011; 2012; FERNANDES-FERREIRA et al., 2012; BARBOSA et al., 2014). De acordo com os estudantes, a carne das espécies pertencentes a esta família são muito saborosas, sendo, por este motivo, preferível para o consumo. Dentre as aves, C. talpacoti (VU=0,47) foi a principal espécie relacionada ao consumo alimentar. Contudo, o animal mais utilizado é um mamífero, o tatu peba (E. sexcinctus - VU = 0,49).

Quanto à mastofauna, os mais citados e com maior valor de uso para o consumo foram: tatu peba (E. sexcinctus - VU=0,49), preá (Galea spixii - VU=0,31), tatu verdadeiro (Dasypus novemcinctus - VU=0,19) e veado (Mazama sp). Diversos estudos, tais como Vasconcelos Neto et al. (2012), Feijó e Langguth (2013) e Pessoa, Wagner e Langguth (2014) registraram a forte pressão da caça sobre tatus (D. novemcinctus ou E. sexcinctus).

Quanto aos répteis de uso alimentar, as espécies mais relatadas e com maior valor de uso foram: teju (S. merianae - VU=0,33) e camaleão/iguana (I. iguana - VU= 0,31). Essas espécies representam os principais répteis de uso alimentício no Nordeste do Brasil (ALVES et al., 2012; FERNANDES-FERREIRA et al., 2013).

A caça é uma alternativa para obtenção de proteína animal para a maioria da população amostrada (67% - n = 54), possivelmente, esta é a principal motivação para a realização dessas atividades na região. Embora, em alguns casos, a atividade cinegética seja praticada como uma forma de lazer.

Em relação ao uso dos animais silvestres como companhia/estimação, 56% (n = 45) da população amostrada relatou criar ou já criado pelo menos uma espécie. Os exemplares são obtidos de uma ou mais formas, 80% (n = 36) obtém através da caça, 33% (n = 15) compra e 29% (n = 13) afirmaram ganhar de familiares ou amigos. Foi indicado um total de 43 espécies de vertebrados selvagens capturados para a criação em cativeiro, sendo a avifauna o grupo mais representativo. As aves destacam-se como pets, devido principalmente à riqueza desse grupo no ambiente natural, às suas belezas físicas (cores e plumagem) e habilidades de canto (BEZERRA; ARAUJO; ALVES, 2011; ALVES; LIMA; ARAUJO, 2013; BARBOSA et al., 2014). Entre as espécies registradas, o golinha (Sporophila albogularis - VU=0,37) obteve maior valor de uso, seguido do azulão (Cyanoloxia brissonii - VU=0,27) e galo-de-campina (Paroaria dominicana - VU=0,20). A avifauna silvestre utilizada como estimação é geralmente mantida em gaiolas ou em viveiros. Esta atividade é tradicional e ocorre em todo o Brasil, desde pequenas cidades até grandes centros urbanos (SICK, 2001; ALVES; LIMA; ARAUJO, 2013).

Para a mastofauna, cinco espécies foram indicadas para fins de criação. Destas, preá (G. spixii - VU= 0,10) e tatu peba (E. sexcinctus - VU= 0,10) foram as mais citadas, elas, juntamente com tatu verdadeiro (D. novemcinctus), são mantidas em cativeiro para fins de engorda e posteriormente consumo ou comércio, atitude comum no semiárido nordestino (ALVES et al., 2009, 2010; BARBOSA; NOBREGA; ALVES, 2011). Segundo os estudantes, o soinho/sagui (Callithrix jacchus) é normalmente capturado para estimação e sem fins alimentícios.

Um total de seis espécies de répteis foi citado pelo seu uso como animal de estimação. Destacando-se: duas espécies de cágados (P. tuberosus - VU=0,09 e Mesoclemmys tuberculata - VU=0,09), o camaleão/iguana (I. iguana - VU=0,07), e o teju (S. merianae - VU=0,06). Esses animais também são normalmente mantidos em tanques de cimento ou em gaiolas para fins de engorda e posteriormente consumo humano. De maneira distinta, a lagartixa (Tropidurus hispidus), a lagartixa (Phyllopezus pollicaris) e em alguns casos I. iguana, M. tuberculata e P. tuberosus são criados livres e sem fins alimentícios.

Cerca de 36% (n = 29) dos informantes fazem uso de animais para a cura de enfermidades humanas. Foi registrado um total de 14 espécies com finalidades terapêuticas, ou seja, para tratamento de doenças, sendo nove répteis e cinco mamíferos. Todas as espécies com potenciais medicamentosos listadas estão registradas em outros estudos (COSTA-NETO; ALVES, 2010; ALVES et al., 2012; ALVES; GONÇALVES; VIEIRA, 2012; LUCENA; FREIRE, 2012). Verificou-se que os répteis representam o principal grupo cinegético de uso zooterapêutico pelos estudantes das áreas amostradas. Todavia, um mamífero, a raposa (Cerdocyon thous - VU=0,21), foi a principal espécie relacionada a feitos medicinais, na qual a banha (gordura) é utilizada para o tratamento de reumatismos e dores de garganta. Resultado semelhante foi observado em uma comunidade do entorno de uma Unidade de Conservação no Estado do Rio Grande do Norte, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Stoessel de Britto (LUCENA; FREIRE, 2012).

Constatamos que 34% (n = 27) dos estudantes entrevistados já adquiriram algum animal silvestre. Destes, 48% (n = 13) afirmam realizar a compra através de parentes e amigos, 37% (n = 10) através de pequenos comerciantes e 15% (n = 4) diretamente com o caçador. Refletindo um pequeno comércio de animais silvestres na região. Verificou-se que pelo menos 45 espécies de animais silvestres são comercializadas nas áreas pesquisadas, sendo 34 aves, oito mamíferos e três répteis. Destes, a mais comercializada é o golinha (S. albogularis - VU= 0,23). Observou-se que a ordem com maior diversidade de espécies de preferência comercial foi Passeriformes, com 30 ssp. representantes, a preferência por este grupo para o comércio é frequente em diferentes localidades (ALVES; GONÇALVES; VIEIRA, 2012; FERNANDES-FERREIRA et al., 2012; BARBOSA et al., 2014; PESSOA; WAGNER; LANGGUTH, 2014).

3.4 Técnicas de caça

Verificou-se que cerca de 49% (n = 39) dos estudantes realizam ou já realizaram atividades de caça. A maioria é do sexo masculino (90% - n = 35), sendo apenas 10% (n = 4) do sexo feminino. Com relação à renda familiar mensal, 33% (n = 13) tem renda menor que um salário mínimo, 46% (n = 18) um salário e 21% (n = 8) dois salários. Esse grupo amostral foi distribuído nas seguintes faixas etárias: 14 a 17 anos (69% - n = 27), 18 a 21 anos (28% - n = 11) e 22 a 25 anos (5% - n = 2). Os dados referentes às técnicas de caça foram obtidos destes entrevistados.

Os entrevistados relataram a captura de 47 espécies. A maioria (n = 11) captura de 1 a 4 espécies (Figura 1), e se utilizam de 1 a 3 técnicas (n = 30 - Figura 2). Percebe-se, portanto, que existe uma tendência para a prática de poucas técnicas de caça, o que, certamente, é proporcional à quantidade de espécies capturadas.

Figura 1 Número de espécies de animais silvestres capturadas pelos entrevistados. Fonte: elaboração própria.  

Figura 2 Quantidade de técnicas de caça utilizadas pelos entrevistados. Fonte: elaboração própria.  

Os caçadores que utilizam várias técnicas, consequentemente, capturaram um número maior de animais. Os estudantes na faixa etária entre 18 a 21 anos são os que utilizam um número maior de técnicas de caça (1 a 12 técnicas), seguido dos entrevistados entre 14 a 17 anos (1 a 6 técnicas) e entre 22 a 25 anos (1 a 3 técnicas), este fato pode estar relacionado à tendência do ser humano em se especializar à medida que vai ganhando maturidade

Em relação ao gênero, os homens utilizam mais técnicas de caça (1 a 12 técnicas) quando comparados com as mulheres, as quais se utilizam de 1 a 3 técnicas.

No contexto econômico, os entrevistados na faixa de renda de um salário mínimo são os que utilizam um número maior e diverso de técnicas para a captura de animais silvestres, fazendo uso de 1 a 12 técnicas, seguidos dos entrevistados de renda menor que um salário mínimo (1 a 9 técnicas) e dois salários (1 a 6 técnicas).

Segundo os entrevistados, os locais preferenciais para a caça são: o mato fechado (61%), ambientes próximos a fontes de água (28%), e embaixo de árvores frutíferas (20%). Em relação ao período para a captura dos animais, a maioria dos estudantes (87%) indicou o período do dia (turno diurno), e cerca de 56% afirmaram também caçar no período noturno.

Foi registrado um total de 15 técnicas de caça praticadas pelos estudantes locais: arremedo (apitos, Figura 3A-C), gaiola de peba (Figura 3D), caça com baladeira (Figura 3E), caça com espingarda (Figura 3F), assaprão (Figura 3G), fojo de peba (Figura 3H), gaiola de tejú (Figura 3I), arapuca (Figura 3J), visgo (Figura 3N, Q), fojo (Figura 3O-P), tocaia, caça com cachorros, facheado, rastreamento e preaca. A caça com espingarda (64% - n = 25), a caça com baladeira (56% - n = 22) e o assaprão (28% - n = 11) destacam-se entre as técnicas mais utilizadas.

Figura 3 Fotografias de alguns instrumentos e armadilhas de caça utilizados na captura de animais silvestres pelos estudantes dos municípios de Jaçanã e Coronel Ezequiel (Rio Grande do Norte, Brasil). A-C- Arremedo; D- Gaiola de Peba; E- Baladeira; F- Espingarda; G- Assaprão; H- Fojo de Peba; I- Gaiola de Teju; J- Arapuca; L- Assaprão acoplado a gaiola; M- Pá à esquerda e enxadeque à direita; N- Visgo; O- Fojo armado; P- Fojo com a tampa aberta; Q- Visgo aplicado em um galho (Fotos: A-L, N-Q- Robson Júnio; M- Douglas Pereira). 

A caça com espingarda (Figura 3F) é realizada para o abate instantâneo do animal. Também conhecida como cartucheira, a espingarda é o instrumento básico dos caçadores, utilizada não apenas para abater suas presas, mas também para servir como defesa a potenciais ameaças durante a caçada (ALVES et al., 2009). A arma de fogo é predominante em toda região Neotropical (JEROZOLIMSKI; PERES, 2003). Segundo Trinca e Ferrari (2006), a espingarda torna a atividade cinegética muito mais eficaz.

A baladeira (Figura 3E), também conhecida como balinheira ou estilingue, é formada por uma forquilha de madeira, borracha de soro e couro. Através deste instrumento são lançadas pedras para abater aves e pequenos lagartos. Quando criança, a caça com este instrumento é realizada como lazer e praticada entre amigos.

O assaprão (Figura 3G) é um tipo de gaiola pequena que possui um sistema de desarme, utilizado para captura de exemplares vivos de pássaros. Essa armadilha é comumente associada ou agregada a uma gaiola maior (Figura 3L) com uma ave “chama”, que, com suas altas habilidades de vocalização, atrai outros pássaros machos.

A técnica denominada tocaia baseia-se na prática em que o caçador se esconde em meio à folhagem ou em esconderijos feitos de galhos de árvores. No interior do esconderijo, o caçador fica camuflado, à espreita de qualquer animal que se aproxime, para assim abatê-lo com o uso da arma de fogo (espingarda). Normalmente, a tocaia ocorre próximo de uma fonte de água ou locais onde os animais costumam se alimentar.

A caça com cachorros ocorre no mato fechado, realizada principalmente no período noturno e em grupo de dois ou três caçadores, e baseia-se no uso de cachorros treinados para auxiliar na captura dos animais e guiar o caçador até o encontro da presa. Durante o dia, os cães são utilizados para auxiliar a caça de tejus (S. merianae), mas, durante a noite, os principais alvos são mamíferos de pequeno e médio porte, como preás (G. spixii) e tatus (Dasypodidae). Segundo Vasconcelos Neto et al. (2012), no Brasil, principalmente na região amazônica, a caça com cães é amplamente utilizada, pois resulta em um número maior de animais capturados.

O facheado é uma técnica exclusivamente noturna, realizada com o auxílio de lanternas/fachiletes para a captura ou abate de aves durante a “dormida”. A luz emitida por estes instrumentos ofusca a visualização dos animais, impedindo-os de alçar voo, tornando-se presas fáceis de serem capturadas manualmente, ou abatidas com o uso da baladeira.

A arapuca (Figura 3J) é uma estrutura piramidal formada por gravetos amarrados com arames finos ou barbantes, suspensa por uma vareta em um sistema de desarme. Quando o animal adentra na armadilha, a pirâmide cai sobre ele. Normalmente, dentro dessa estrutura coloca-se atrativos (milho/frutas). Esta técnica destina-se a captura de aves de médio porte, como: lambús (Tinamidae), rolinhas (Columbina sp.) e arribaçãs (Zenaida auriculata).

O fojo (Figura 3O-P) consiste em uma armadilha confeccionada com madeira e latas. Para a sua construção, primeiramente, cava-se um buraco e coloca-se uma lata grande no fundo, em seguida, cobre-se com tábuas de madeira. Uma das tampas é suspensa e quando pressionada se abre para o interior do buraco. Sobre as tampas são colocadas iscas (milho/frutas) para atrair os animais. Esta técnica é comumente utilizada para captura de preás (G. spixii), mocós (K. rupestris), lambús (Tinamidae) e arribaçãs (Z. auriculata).

Outro método citado, o arremedo, consiste na utilização de apitos que imitem sons semelhantes aos cantos das aves (Figura 3A-C). Esta técnica é utilizada para atrair a presa o mais próximo possível do caçador para o abate. O arremedo é frequentemente utilizado no período chuvoso, que, de acordo com os estudantes, corresponde à época de acasalamento.

O rastreamento se baseia em seguir os rastros dos animais, como pegadas, direcionando o caçador até o local de captura. De acordo com Alves et al. (2009, 2010), no Estado da Paraíba, os caçadores relataram que, quando uma plantação de milho é destruída, ou quando animais domésticos, tais como frangos ou ovelhas são mortos por animais silvestres, os pequenos proprietários rurais os contratam para rastrear e matar ou capturar os animais responsáveis.

O visgo (Figura 3N) é uma técnica específica para a captura de aves, principalmente espécies canoras. Consistindo em um material adesivo produzido a partir da seiva da jaqueira (Artocarpus heterophyllus) e cinzas de carvão. O visgo é normalmente colocado em locais de pouso das aves (Figura 3Q), de modo que, ao pousar, a ave fica presa.

A gaiola de peba (Figura 3D) é uma armadilha de ferro em formato cilíndrico com uma das extremidades abertas e utilizada para a captura de tatus (Dasypodidae). Técnica semelhante foi descrita por Alves et al. (2009, 2010) na Paraíba. A gaiola de teju (Figura 3I) é semelhante à gaiola do peba, porém com tamanho menor e específica para a captura do teju (S. merianae). Na literatura pesquisada, não há menção desta técnica. Em ambas armadilhas, quando o animal adentra, a gaiola é desarmada e uma tampa de madeira se fecha, prendendo-o em seu interior. As gaiolas são colocadas fora ou dentro da toca do animal, e geralmente os caçadores colocam ovo podre de galinha (Gallus gallus domesticus) em seu interior para servir como isca.

A captura do teju (S. merianae) também ocorre quando o caçador avista o animal escondendo-se em sua toca. Para captura-lo o caçador tampa o esconderijo (toca) do animal com uma pedra e depois com o uso do “enxadeque” e da pá (Figura 3M) cava o buraco para retirada do réptil. Esse tipo de captura foi igualmente descrito para os tatus (Dasypodidae).

A preaca é um tipo de anzol de ferro com um cabo comprido, utilizado para puxar/capturar o preá (G. spixii), quando este se encontra dentro de sua toca. Alves et al. (2009, 2010) registrou um instrumento similar, um ferro em forma de gancho para puxar os animais para fora de seus esconderijos (tocas).

O fojo de peba (Figura 3H) é uma armadilha semelhante ao fojo, porém com tamanho maior. Para sua confecção, é necessário fazer um grande buraco no qual será colocado uma caixa de madeira com uma tampa suspensa. A tampa é camuflada com areia e ao seu redor são colocados facheiros (Cereus squamosus) para impedir que o animal tente escapar. Sobre a tampa coloca-se a isca (geralmente ovo podre). Essa técnica é utilizada para a captura do tatu peba (E. sexcinctus) e, em alguns casos, do teju (S. merianae). Na literatura pesquisada, não foi encontrado o registro desta armadilha.

Dentre as técnicas de caça utilizadas, as que capturam uma ampla variedade de animais independente da ação ativa do caçador são o assaprão, a arapuca, o fojo e o visgo. Os homens (n = 13) fazem uso das quatro armadilhas: assaprão (n = 9), arapuca (n = 6), fojo (n = 5) e visgo (n = 3), no entanto, as mulheres relataram (n = 2) utilizar apenas o assaprão (n = 2). São técnicas utilizadas principalmente pelos estudantes adolescentes, com idades entre 14 a 17 anos (n = 10), seguido dos de faixa etária entre 18 e 21 anos (n = 5).

Foi constatado que os estudantes empregam, em alguns casos, mais de uma técnica, dependo do animal que se pretende caçar, corroborando com o observado na Paraíba (ALVES et al. 2009, 2010), Ceará (FERNANDES-FERREIRA et al., 2012) e no Rio Grande do Norte (BEZERRA; ARAUJO; ALVES, 2012; BARBOSA et al. 2014). O conhecimento sobre qual técnica ou estratégia utilizar para a captura de uma determinada espécie revela a percepção que os praticantes da caça possuem sobre a ecologia dos animais.

A maioria dos métodos de caça descritos foram registrados em outros estados do nordeste (ALVES et al., 2009; BEZERRA; ARAUJO; ALVES, 2012; FERNANDES-FERREIRA et al. 2012) e na Amazônia (TRINCA; FERRARI 2006), embora algumas técnicas apresentem certas peculiaridades. Todas as técnicas de captura de aves relatadas apresentam semelhanças com as estratégias de captura descritas por Barbosa et al. (2014), em uma pesquisa anteriormente realizada com caçadores rurais do Município de Jaçanã, uma das localidades investigadas neste estudo.

3.5 Percepção ambiental

Os estudantes apresentaram uma diversidade de percepções sobre o ambiente em que vivem. Os dados sobre o estado de conservação do ambiente foram extraídos dos depoimentos de todos os informantes (n = 80). Cerca de 91% (n = 73) dos estudantes afirmaram que há uma época do ano em que os animais cinegéticos são mais frequentes, destes, 79% (n = 55) afirmaram ser no período do inverno, coincidindo com o período de reprodução de várias espécies de aves, além de ser o período de chegada de espécies migratórias como, por exemplo, arribaçãs - Z. auriculata (OLMOS; SILVA; ALBANO, 2005). De acordo com Alves et al. (2010), muitas espécies da fauna da Caatinga possuem hábitos definidos pela sazonalidade local, sendo mais abundantes nos períodos de chuva.

Em relação à disponibilidade de animais no ambiente ao longo dos anos, 91% (n = 73) dos estudantes afirmaram que a frequência de avistamentos vem diminuindo. Quando questionados sobre o porquê desta diminuição, relataram diversos motivos, dentre eles o principal fator seria a caça (78%). Em seguida, foram citados os seguintes fatores: desmatamento - 11% (n = 8), seca - 10% (n = 7), comércio ilegal - 7% (n = 5) e as queimadas - 3% (n = 2).

Verificou-se que a maioria dos homens e mulheres mencionou a caça como principal motivo pela diminuição da fauna local (Tabela 2), segundo o teste qui-quadrado, com exceção da atividade de caça (X² = 5,75, p < 0,05), não houve relação significativa entre gênero na percepção dos demais fatores relatados como aqueles responsáveis pela diminuição da fauna silvestre.

Tabela 2 Possíveis fatores que desencadearam a diminuição da fauna silvestre de acordo com entrevistados, juntamente com o valor do teste qui-quadrado, segundo o gênero. *valor de P (significativo para X 2 ) menor que 0,05. 

Homens Mulheres X 2
Caça 44 13 5,75*
Desmatamento 6 2 0,3
Seca 4 3 0,5
Comércio Ilegal 2 3 0,4
Queimadas 1 1 0,2

Fonte. Elaboração Própria

Observou-se também que a caça foi indicada por boa parte dos estudantes mais jovens como principal fator de declínio da fauna, contudo, os indivíduos relativamente mais velhos (22 a 25 anos) enfatizaram que seria o desmatamento o único fator responsável pela diminuição populacional dos animais na região (Tabela 3). Segundo o teste qui-quadrado, houve relação estatisticamente significativa entre as respostas dos estudantes da faixa etária de 22 a 25 anos com as dos jovens de 14 e 17 anos (X² = 18.621231, p = 0.00093291) e 18 a 21 anos (X² = 10.578, p = 0.014242). Dessa forma, fica evidente que a atividade cinegética é percebida como a principal responsável pelo declínio da fauna silvestre, mesmo não sendo considerada a única responsável, mais o conjunto de pressões antrópicas.

Tabela 3 Possíveis fatores que desencadearam a diminuição da fauna silvestre de acordo com entrevistados, segundo a faixa etária. 

Faixa etária Fatores que contribuem com a diminuição da fauna
Caça Desmatamento Seca Comércio Ilegal Queimadas
14 a 17 anos 44 4 5 3 2
18 a 21anos 12 1 1 1 0
22 a 25 anos 0 2 0 0 0
26 a 30 anos 1 1 1 1 0
Total 57 8 7 5 2

Fonte. Elaboração Própria

Implicações conservacionistas

Como podemos constatar neste estudo, os mais ávidos caçadores/perseguidores da fauna silvestre nas localidades pesquisadas são os homens que possuem entre 18 e 21 anos. Estes utilizam variadas técnicas/estratégias de caça e, consequentemente, capturam uma diversidade maior de animais, e, portanto, estão propensos a causar impactos ambientais mais elevados.

Analisando os métodos de caça, verifica-se que a espingarda é um instrumento fundamental para grande parte dos caçadores da região, possivelmente por ser um método eficiente para abate das presas, sendo comum o seu uso aliado a outras estratégias de caça como: arremedo, tocaia e caça com cachorros. Podendo, assim, ser considerada a técnica mais impactante para a fauna local, devido à amplitude e intensidade de uso.

É importante pontuar que métodos de captura específicos, como gaiola de peba e a gaiola de teju, empregados para captura do tatu peba (E. sexcinctu) e teju (S. merianae), respectivamente, mostram a busca incessante por esses espécimes. A maioria das técnicas (n = 11) pode ser utilizada para a caça de aves, havendo cinco técnicas específicas para a captura desse grupo animal: assaprão, facheado, arapuca, arremedo e visgo. Dessa forma, é nítida a preferência pela caça de espécies avifaunísticas, o que certamente está associado à diversidade e abundância dessas espécies localmente e em território Nacional, podendo ainda ser considerado o grupo cinegético mais ameaçado na região.

Adicionalmente, foi verificado que algumas técnicas de caça (assaprão, arapuca, fojo e visgo) utilizadas principalmente por homens entre 14 e 17 anos podem capturar os animais na ausência do caçador, não havendo assim, seletividade no momento da captura. Do ponto de vista conservacionista, tais técnicas devem ser evitadas, uma vez que são consideradas armadilhas eficientes e que capturam uma ampla variedade de espécies.

As espécies mais caçadas e, portanto, sofrendo intensas ameaças, foram: golinha (S. albogularis), capturado principalmente para estimação, tatu peba (E. sexcinctu) e rolinha cafuta (Columbina talpacoti), caçados geralmente para o consumo humano, e repteis, tais como cágado (P. tuberosus), camaleão (I. iguana) e teju (S. merianae), capturados para o consumo humano, uso medicinal e comercialização.

A utilização dos recursos faunísticos e a realização das atividades cinegéticas nas áreas estudadas estão, possivelmente, ligadas a fatores culturais e socioeconômicos. Os entrevistados relatam que algumas espécies estão entrando em declínio populacional, esse fato, aliado à caça de animais ameaçados de extinção em âmbito nacional e global, reflete a necessidade da aplicação de medidas sustentáveis sobre as espécies exploradas na região, uma vez que os animais silvestres desempenham um importante papel para a população local e ao ecossistema.

Os estudantes demonstraram ter um relevante conhecimento acerca das atividades cinegéticas, portanto, os dados apresentados neste trabalho podem ser úteis para a implantação de estratégias de conservação, incluindo: (1) Desenvolvimento de programas de educação ambiental, considerando que a caça tem início geralmente na infância; (2) Monitoramento participativo da atividade cinegética, envolvendo a prefeitura (Secretaria do Meio Ambiente ou de Agricultura), a comunidade e os praticantes da caça (os estudantes), as escolas, a universidade e/ou órgão ambiental. Sendo as universidades e órgãos ambientais os elementos que farão a pesquisa, o monitoramento e a adequação das técnicas às épocas do ano e às áreas restritas e liberadas para determinadas práticas de caça, para que esta atividade seja praticada de forma que as populações das espécies sejam mantidas em níveis adequados de sustentabilidade, para que a exploração não exceda a taxa de fecundidade e sobrevivência de cada grupo específico, e que possa ser viável para manter o mínimo de recurso para as populações humanas mais carentes; (3) Incentivo ao plantio e manejo de espécies frutíferas, considerando que muitas espécies alvo se alimentam de frutas e que algumas técnicas de caça são realizadas próximas a pomares, promovendo técnicas menos invasivas e mais seletivas em relação à espécie/espécime escolhido, além de fornecer alimento que pode ser consumido pela população rural; (4) Incentivos à criação legalizada de algumas espécies cinegéticas em cativeiro; (5) Promover o turismo rural, com atividades de ecoturismo, caminhadas ao ar livre e observação da flora e fauna nativa. Além de preservar o ecossistema, esse tipo de atividade possivelmente sensibilizaria a comunidade rural e criaria uma fonte de renda para a população.

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Recebido: 05 de Junho de 2016; Aceito: 19 de Setembro de 2018

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