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Escola Anna Nery

Print version ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.10 no.2 Rio de Janeiro Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452006000200011 

ARTIGOS DE PESQUISA

 

A escolha profissional no imaginário social - enfermeiras brasileiras e peruanas

 

Professional choice and the social imaginary - brazilian and peruvian nurses

 

La elección profesional en el imaginario social - enfermeras brasileras y peruanas

 

 

Anesilda Alves de Almeida RibeiroI; Gladys Santos FalconII; Miriam Süsskind BorensteinIII; Maria Itayra Coelho de Souza PadilhaIV

IEnfermeira. Associação Brasileira de Enfermagem - Regional Itajubá - MG
IIDoutoranda em Enfermagem - Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Universidad San Marcos. Lima - Peru
IIIProfessora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina
IVProfessora do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis (SC)

 

 


RESUMO

Trata-se de uma pesquisa qualitativa cujo objetivo foi conhecer e compreender as imagens e o imaginário social que permeiam a escolha profissional das enfermeiras brasileiras e peruanas. O estudo foi realizado com vinte enfermeiras dos países relacionados, em 2003, utilizando-se do Referencial Imaginário Social de Michel Maffesoli. Na análise, traçamos as categorias: imagem servil; imagem vocacional e imagem profissional, que influenciam sobremaneira a opção pela Enfermagem. Ao refletir sobre as imagens e o imaginário que permeiam a escolha profissional, percebe-se que, em sua maioria, as enfermeiras escolhem a Enfermagem munidas pelo desejo pessoal, e não familiar, de ajudar e cuidar do próximo. Finalizando, neste caminhar pelo mundo imaginal da latinidade, podemos inferir que, na escolha da Enfermagem, vêem-se projetados os arquétipos e mitos da Enfermagem historicamente construídos, divulgados e cristalizados no ideário social, e a conjunção de algumas características que compõem a Identidade Profissional da enfermeira.

Palavras-chave: História da Enfermagem. Enfermagem. Auto-Imagem.


ABSTRACT

This is a qualitative research whose objective was to understand and gain knowledge on the images and the social imaginary that permeates the professional choice of brazilian and peruvian nurses. The study was carried out with twenty nurses, in 2003 and used the Michel Maffesoli's Social Imaginary theoretical framework. In the analysis, the following categories were created: servile image; vocational image and professional image. Those categories have a great influence on their choice to become a Nurse. When contemplating on the images and the imaginary that permeate their professional choice, it can be noticed that most nurses choose nursing due to a personal aspiration to help and care for people, and not beacuse of any family orientation. Finally, in this exploration through the latin imaginal world, it was possible to infer that the choice to become a nurse reflects the archetypes and myths historically built, made known and crystallized in the social imaginary, and the conjunction of some characteristics that compose the nurse's professional Identity.

Keywords: History of Nursing. Nursing. Self Concept.


RESUMEN

Trata de una investigación cualitativa cuyo objetivo fue conocer y comprender las imágenes y el imaginario social que intervienen en la elección profesional de las enfermeras brasileras y peruanas. El estudio fue realizado con veinte enfermeras de los paises citados, en 2003, utilizándose el Referencial Imaginario Social de Michel Maffesoli. En el análisis identificamos las categorías: imagen servil; imagen vocacional e imagen profesional, que influyen en la opción por la profesión de Enfermería. Al reflexionar sobre las imágenes y el imaginario que intervienen en la elección profesional se percibe que, la gran mayoría de enfermeras, eligen la profesión, llevadas por el deseo personal, y no familiar, de ayudar y cuidar del prójimo. Finalizando, en este caminar por el mundo imaginario de la latinidad, podemos inferir que en la elección de Enfermería se ven proyectados los arquetipos y mitos de enfermería históricamente construidos, divulgados y cristalizados en el ideario social y la conjunción de algunas características que componen la identidad profesional de la enfermera.

Palabras clave: Historia de la Enfermería. Enfermería. Autoimagen.


 

 

INTRODUÇÃO

No mundo ocidental, tanto no meio urbano quanto no rural, o ser humano é incitado a buscar uma profissão desde cedo. Alguns, desde a mais tenra idade, já sabem o caminho a percorrer. Outros, no entanto, vão adiando a escolha profissional e, no último momento, optam por um curso menos concorrido, mais acessível, levando em conta as chances de emprego no mercado de trabalho, muitas vezes motivadas mais pelo fator econômico do que pela realização pessoal.

É geralmente na adolescência que a candidata ao curso de Enfermagem faz sua escolha. Ao concluir o ensino médio, depara-se com uma "encruzilhada", onde vários "caminhos"1 colocam-se aos seus olhos, à disposição de sua escolha. Porém, somente um deles poderá ser percorrido. Saber qual a melhor opção chega a ser uma tarefa difícil, um desafio. Na opção profissional a adolescente não está escolhendo somente uma carreira, segundo Takahashi2:33:

Está escolhendo com o que irá trabalhar, está definindo para que fazê-lo, está pensando no sentido para a sua vida, está escolhendo o como, delimitando quando e onde, isto é, está escolhendo o inserir-se em uma área específica da realidade ocupacional.

Na escolha por uma profissão, acredita-se que a futura profissional inspira-se em imagens e estereótipos historicamente construídos sobre determinada profissão ou nas representações construídas em seu imaginário sobre as profissões existentes. Curiosas para saber quais os fatores motivadores e imagens que influenciam a escolha pela Enfermagem, em contextos diferentes, desenvolvemos um estudo pautado pelo seguinte objetivo: compreender as imagens e o imaginário social que permeiam a escolha profissional de um grupo de enfermeiras brasileiras e peruanas.

O estudo justifica-se por proporcionar um exercício de autoconhecimento para as enfermeiras no Brasil e no Peru, sobre as imagens que vêm refletindo ao longo do tempo e que, possivelmente, têm influenciado na escolha da Enfermagem pelas futuras profissionais. Além disso, após um mergulho na literatura, percebeu-se que, dentre as referências consultadas, nenhuma revela estudo idêntico a esse, ou seja, de um levantamento com profissionais brasileiras e peruanas sobre a escolha pela Enfermagem como profissão; portanto trata-se de um estudo inédito e original. Ressalta-se, porém, que outros aspectos análogos já mereceram o olhar de algumas enfermeiras brasileiras2-4.

Para melhor compreender o contexto do estudo, vale resgatar um pouco da história da Enfermagem desencadeada nestes dois países. A Enfermagem no Peru tem sua origem remota, como na maioria dos países do mundo. Os rituais do cuidado inicialmente se baseavam em conceitos mágico-religiosos. A partir de 1532, com a colonização espanhola, surgiram os primeiros praticantes na arte de curar, denominados barbeiros e cirurgiões. Além destes, havia as Irmãs de Caridade, que se dedicavam ao cuidado e atenção dos doentes mediante conhecimentos empíricos. A imagem da enfermeira pré-profissional era de "uma mulher que estava subordinada à ordem de uma religiosa ou matrona" a quem devia obedecer. O tipo de trabalho era voluntário, conhecido como "barchilón", que significa "pessoa encarregada de servir os doentes"5.

No Brasil, a Enfermagem colonial era exercida por índios, escravos e jesuítas. A partir do século XIX, com a vinda das Irmãs de Caridade da Europa, a imagem da Enfermagem brasileira sofreu mudanças devidas ao estilo de cuidado desenvolvido por estas religiosas. Nesta época, foram incorporados os exercentes de Enfermagem, que eram pessoas treinadas para o cuidado direto ao doente, sob o comando destas religiosas6.

O surgimento da Enfermagem moderna nestes países, a exemplo dos demais da América Latina, deu-se de diferentes formas e em diversas épocas. No Peru, o ensino da Enfermagem surgiu nos hospitais. A primeira escola de Enfermagem foi criada em 1907, sendo um anexo da Casa de Saúde de Bellavista. Para sua fundação, foi contratada uma enfermeira inglesa, Miss Little, egressa da Escola de Enfermagem do Hospital São Tomás, de Londres. A criação da citada escola deve-se ao fato de que os residentes estrangeiros não encontravam nos serviços existentes a segurança para a sua vida e saúde, como a que haviam tido nos seus países de origem, principalmente na Inglaterra. Assim sendo, a Enfermagem Peruana, segue o modelo nightingaleano ou anglicano, e sofreu a influência direta da Escola Nightingale, cujo foco é o cuidado institucionalizado5-7.

No Brasil, a Enfermagem profissional surgiu na década de 1920, quando a Missão Parsons, a convite do Dr. Carlos Chagas, iniciou o processo de formação das visitadoras sanitárias e criou, em 1923, a primeira escola de Enfermagem do país, a Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública. De acordo com o Decreto nº 17.268/1926, a Escola passou a denominar-se Escola de Enfermeiras D. Ana Neri (atualmente Escola de Enfermagem Anna Nery-EEAN). A primeira diretora, Clara Louise Kieninger contribuiu para a disseminação da Enfermagem científica brasileira segundo o modelo anglo-americano, cujo foco era a atenção primária à saúde7-8.

Tanto no Brasil como no Peru, a divisão técnica do trabalho é operacionalizada em várias categorias. No Brasil, temos legalmente amparados Enfermeiros (as), Técnicos de Enfermagem e Auxiliares de Enfermagem. A categoria de Atendentes de Enfermagem está extinta desde 1986 com a promulgação da Lei do Exercício Profissional (Lei nº 7498, de 25 de junho de 1986). Porém, ainda existe um pequeno número de pessoas atuando nesta categoria, autorizados apenas a executar atividades elementares de Enfermagem que não envolvam o cuidado direto com o paciente. Ressalta-se que os Auxiliares de Enfermagem têm prazo para cursar o Técnico de Enfermagem, considerando também a futura extinção desta categoria. No Peru, a divisão do trabalho se faz pelas categorias: Enfermeiro (a), Técnicos, Auxiliares de Enfermagem e artesãos. Nos dois países, o quantitativo de Enfermeiros (as) é menor que as demais categorias, e ainda subsistem ocupacionais sem preparo ou formação9.

Ao longo da história da profissão no país, a Enfermagem e a enfermeira foram percebidas a partir de inúmeras imagens e símbolos, presentes no ideário coletivo. As imagens no ideário coletivo são conjuntos de estereótipos que se contrapõem e se completam para compor um espectro de atuação da figura imaginada no cenário mais comumente habitado pelo personagem em questão. Isto mostra que a imagem de qualquer categoria profissional corresponde à imagem que a sociedade cria, compartilha e reafirma ao longo do tempo. No caso da enfermeira, o cenário é quase sempre o hospital, e os estereótipos variam desde o dedicado e submisso anjo de branco ou anjo de piedade (silenciosa, discreta, gentil, atenciosa, competente, vigilante, objetiva e determinada), até a malvada e vulgar sargento de saias 10:171.

A Enfermagem pré-profissional no Brasil e Peru teve grande influência da Igreja Católica na sua colonização, e, por esse motivo, as religiosas leigas ou habilitadas passaram a assumir o cuidado com os pacientes internados nos hospitais. As ações de Enfermagem tinham conotação caridosa, atendendo, em geral, aos miseráveis, de modo que estes não ficassem expostos ao tempo nas ruas, e tivessem um abrigo onde se refugiar nas cidades. O espelho da Enfermagem refletia a imagem distinta da enfermeira religiosa de caridade da Associação das Irmãs de Caridade (criada por São Vicente de Paulo e Luiza de Marillac). A prática da Enfermagem estava ligada a mística do serviço – a imagem servil, pela forte ideologia da Igreja7-11.

O modelo vocacional de Enfermagem, instituído por Florence Nightingale e difundido no Brasil e Peru, agregou a imagem vocacional da profissão. Florence, buscando dar outro significado à palavra nurse, investiu na conduta moral das aspirantes, estabelecendo a imagem de enfermeira como anjo de branco, abnegada, submissa, dócil, terna, zelosa, delicada e intocável. Optando pelo viés cristão, pela imagem de uma profissão sagrada, Florence Nightingale afastou a imagem desfavorável da profissão, exercida até então pela enfermeira bêbada, profana e cruel – a dama de negro7. A construção da ideologia da Enfermagem no início do século XX, tanto no Brasil como no Peru, foi fruto de um entrelaçamento dos princípios mais relevantes, respectivamente, da Escola inglesa criada por Florence Nightingale e, posteriormente, da americana associadas aos elementos próprios da cultura brasileira e peruana, principalmente no que refere ao discurso cristão8.

Em meados do século XX, a crescente industrialização nestes dois países,interferiu diretamente na imagem da Enfermagem. O desenvolvimento da tecnologia hospitalar e da indústria farmacêutica resultou numa Medicina curativa, tornando-se o paradigma do sistema de saúde, e o hospital passou a ser o centro de referência para o cuidado de Enfermagem. É neste contexto que as enfermeiras brasileiras e peruanas se concentraram. Neste cenário, destacam-se as enfermeiras assistenciais e as educadoras, cujo papel é prestar a assistência e formar novos profissionais de Enfermagem. O somatório destas dimensões fez surgir uma outra imagem, que é refletida pelas enfermeiras contemporâneas – a Enfermagem profissional7.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo sócio-histórica, pois é a que melhor permite compreender processos que possuem dimensões concretas, históricas e, em especial, simbólicas12:371. A finalidade deste estudo não foi a de fazer uma investigação exaustiva e conclusiva. Assim, optou-se por obter uma amostra pequena e diversificada de depoentes que foi constituída por vinte (20) participantes: doze (12) enfermeiras brasileiras e oito (08) peruanas, profissionais que atuam na área educativa e/ou assistencial, graduadas no período entre 1974 e 1994.

Na escolha intencional das participantes, levou-se em consideração o vínculo afetivo existente entre elas e as pesquisadoras, o que favoreceu a adesão ao estudo e a exposição das questões pessoais que o envolve. Em conformidade com a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, as participantes foram informadas dos objetivos do estudo, da livre participação e do uso de codinome para resguardar suas identidades, o que foi feito pelas pesquisadoras. Ressalta-se que o estudo, realizado em 2003, obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina.

Para a coleta de dados, foi utilizado um questionário contendo uma única pergunta simples e objetiva relativa ao objeto de estudo: Por que escolheu a Enfermagem como profissão? A opção por um questionamento direto e pessoal justifica-se pelo fato de longe, de ressaltar o discurso formal e acabado, desejar dar voz ao silêncio interior, aos pensamentos contidos no discurso individual de cada enfermeira sobre a temática escolhida. Na implementação do estudo, enviou-se o questionário via e-mail às enfermeiras peruanas residentes em Lima, Peru, e para as brasileiras, residentes nas regiões sul e sudeste.

De posse dos dados iniciou-se o processo de análise. Considerando os objetivos do estudo, optou-se pela abordagem do mundo imaginal de Michel Maffesoli, como referencial para a interpretação das imagens e símbolos que povoam o imaginário da futura enfermeira no momento da escolha profissional. O mundo imaginal ou simbólico corresponde a:

Todo este conjunto feito de imagens, símbolos do imaginário e de imaginações, no qual a vida social é moldada. Neste aspecto, a sociedade contemporânea vive mergulhada num mundo de imagens, pois vivemos numa sociedade de imagens13:32.

A partir da leitura e releitura dos discursos expressos pelas participantes, chegou-se a três categorias, que compõem a identidade profissional da enfermeira, a saber: imagem servil; imagem vocacional; imagem profissional.

 

APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Imagem servil

Algumas das participantes do estudo mostraram que o desejo de servir ao próximo e doar-se em prol do cuidado foi o motivador da escolha profissional. O interesse, o desejo de servir ao próximo, por meio da assistência de Enfermagem, assinala que a escolha profissional é movida por algo representativo na vida das participantes. O interesse profissional relaciona-se às atitudes e predisposições físicas ou psíquicas2:32. Sendo assim, as enfermeiras escolhem a Enfermagem por se identificarem física ou psiquicamente com este saber-fazer, com a mística do servir.

O espírito de servir e de cuidar delineia-se desde a infância na relação familiar e social dos atores sociais, coincidindo com o próprio conceito de enfermeira12:29, pois Ser-Enfermeira é gente que cuida de gente14:3. Neste sentido, a Enfermagem é um doar-se, e a enfermeira, uma doadora por natureza. Isto tem levado as candidatas que se percebem com uma grande capacidade de doar a optarem por esta profissão. O ideário de servir reflete a imagem da Enfermagem pré-profissional, quando o modelo religioso imperava. Isto pode ser observado a partir das seguintes falas:

Eu senti a necessidade de me entregar ao outro, de ajudá-lo, ou seja de doar-me ao outro (Alda).

Escolhi a Enfermagem motivada pela atuação de uma enfermeira conhecida. Meu pai estava doente e ela verificava pressão, aplicava injeções, conversava com ele. Achei aquilo tudo formidável e, naquele mesmo ano, fui aprovada no vestibular (Tuca).

O prestígio e o respeito deferido a uma profissional, assim como o desejo de ser útil e dar assistência ao próximo compõem também a imagem do ser-enfermeira, que povoa o imaginário das entrevistadas, fatores que despertaram nelas a vontade de abraçarem esta profissão. As falas destacam que:

Escolhi a Enfermagem por acreditar que poderia, através deste curso, auxiliar as pessoas doentes e logicamente oferecer uma assistência adequada. Nunca tinha trabalhado em hospital, mas eu achava este serviço superimportante (Ilka).

Estudié enfermería, por que es una profesión de servicio que permite brindar atención a la persona que mas lo necesita y a través del cual se puede contribuir al bienestar físico, mental, social y espiritual. Toda personalidad, puede presentar problemas o alteraciones en su salud, por ello, nuestra profesión va ser el eje integrador de todas las acciones. Además, la Enfermera por excelencia es la educadora en los temas de salud, lo que permite llegar a la comunidad en general, promoviendo la salud y evitando riesgos en la salud (Nanda).

O simbolismo na Enfermagem é marcante. As imagens, os estereótipos e as expressões relativas à boa enfermeira acompanham a história da Enfermagem da era pré-profissional à profissional. Estas imagens refletidas influenciam a identificação e escolha desta profissão.

Creio que um dos fatores que tenha influído talvez fosse porque tinha uma cunhada que todos diziam ser uma 'grande enfermeira', uma tia que era enfermeira e muito querida e respeitada pela família, e uma professora de Enfermagem que gostava muito de mim. Existia um imaginário em torno do serviço de hospital e isto me fascinava. Por tudo isso, creio que criei um imaginário em torno da enfermeira e não da Enfermagem. Hoje eu me sinto enfermeira muito mais do que profissional da Enfermagem (Bia).

O discurso supracitado encontra ecos em outros estudos4:187-188, quando mostra que a ideologia de servir e de cuidar do outro se delineia também mediante a:

Interiorização de valores e exteriorização de hábitos de vida, através do contato com a doença, com os afetos familiares, com os estereótipos das profissões femininas e com a idéia romântica do que seja a Enfermagem uma profissão de mulheres dóceis e abnegadas.

As interessadas no curso de enfermagem vêem a profissão não somente como meio de vida, mas, por motivos e ideais mais elevados de se prepararem para um grande serviço patriótico e humanitário15:18, demonstrado um espírito de devoção e de idealismo. Acredita-se que estes fatores constituem uma resposta direta ao chamamento, propaganda e divulgação da Enfermagem nos meios de comunicação, estratégia que se prolongou ao longo da história de criação dos cursos de Enfermagem nos dois países.

O tratamento humanizado e o valor do aluno foram outros fatores que contribuíram para a escolha pela Enfermagem(Tuca).

Era final dos anos 70, eu tinha então 17 anos e estava "às portas da Universidade". Entretanto havia uma dúvida: qual caminho seguir? Qual profissão escolher? A área de saúde me atraia, entre Medicina e Enfermagem. Sabendo que no quotidiano de trabalho é a Enfermagem que fica próxima das pessoas foi o que me fez decidir por abraçar esta profissão! (Sara).

Indubitavelmente, estes discursos revelam o aspecto religioso, romântico e nobre da escolha profissional. A Enfermagem é vista como um desejo, um ideal para servir o ser humano em sofrimento e de educar para a saúde através do cuidado. Analisando estas palavras, percebemos que a Enfermagem, como executora de serviços de saúde, ainda hoje é vista com uma atividade caritativa guiada pelo espírito de serviço, conotação que recebeu das Irmãs de Caridade, com seu lado humanístico perpetuado através dos tempos. O altruísmo, a abnegação e o soberano respeito à dignidade da pessoa humana, imagem e semelhança de Deus, são princípios do cristianismo que acompanham a história da Enfermagem. O sentido cristão de servir na Enfermagem significa estar a serviço do outro para atender as necessidades básicas afetadas, sendo assim uma atitude louvável. Esta virtude é a verdadeira caridade, o amor e o desejo pelo bem-estar do próximo6. A fala diz que:

A imagem mais significativa de minha infância foi ver o meu pai enquanto prático do cuidado no processo saúde-doença da família e comunidade. Rememoro com carinho o ritual das injeções que fazia. Com muita simplicidade fervia a seringa de vidro e a agulha de metal. Depois quebrava a ampola e aspirava a medicação. Em seguida, retirava o ar do êmbolo e assoprava a gota de remédio que ficava retida no bizel da agulha. E, finalmente, aplicava a injeção e dava alguns conselhos de saúde e cuidados com o local da injeção. Recordo que ficava fascinada com todo aquele ritual (Ana Paula).

O depoimento supracitado traz à tona a imagem do homem enquanto cuidador. Isto nos leva a revisitar a galeria de retratos da Enfermagem pré-profissional e trazer para a discussão os arquétipos reconhecidos nos dois países. A imagem brasileira do cuidado masculino é refletida pelo Padre José de Anchieta, e, no Peru, por Pedro Berchilón. Estes e outros arquétipos, como o de Florence Nightingale e Anna Nery, perpetuados pela História da Enfermagem contribuíram para elevar o status social e moral da Enfermagem, identificar a profissão e nos lembrar do sentido cristão do sofrimento e do servir. Do mesmo modo, eles servem de modelo para as candidatas à enfermeira, de doação em prol do cuidado ao próximo e de convicção por terem sido chamadas por Deus para o cumprimento da mística do servir5-7.

Imagem vocacional

A palavra vocação origina-se do latim vocatione que significa "chamamento". Trata-se de um chamado da vida para que o ser humano encontre a auto-realização e seja feliz, ocupando um lugar na sociedade e no mundo do trabalho.

Quando se fala em escolha profissional na área de Enfermagem, a idéia de vocação está sempre presente no discurso dos profissionais. A imagem de vocação reflete a era de criação da Enfermagem, quando Florence instituiu o modelo vocacional do cuidado de Enfermagem. O sistema nightingale de ensino da Enfermagem, desde então disseminou a profissão como sendo um fazer feminino, ancorado pela vocação de cuidar do próximo. A literatura2:32 revela que:

A vocação é marcada por características que não deixam dúvidas quando realmente ela existe; o indivíduo mobiliza todos os seus recursos na direção desejada; é evidente por si mesma, pois o indivíduo a manifesta sem dificuldade ou esforço; é precoce, já que surge cedo na vida; é espontânea, pois não depende de acentuada estimulação; é persistente, pois mantém um nível constante de ação e de interesse; é extremamente agradável e prazerosa ao indivíduo. Sua ocorrência de maneira clara e marcante é rara, tornando vocação-aptidão-interesse um misto que ocorre por conta das diferenças individuais, oportunidades que surgem na vida e necessidades de desenvolvê-las.

Quando Florence criou a Enfermagem moderna, a situou num patamar acima de uma simples profissão, um doar-se e um contínuo imolar-se pelo doente, fato que levou a profissão a adquirir a conotação de uma vocação. As enfermeiras Nightingale deviam atuar sob impulso, uma espécie de "chamado vocacional". A imagem vocacional instituída por Florence favoreceu a formação de uma ideologia em torno da prática da Enfermagem, como sendo uma vocação, um chamado, um trabalho que requer auto-sacrifício16. Florence resgatou o aspecto nobre do cuidado ao doente, proveniente do modelo religioso de assistência e o adaptou num modelo vocacional que defendia a Enfermagem como arte e doação. Esta vertente, ou modelo vocacional, foi firmada pelas enfermeiras inglesas, americanas e canadenses e, posteriormente, trazida para a América Latina. Ainda hoje a imagem do modelo vocacional permanece no imaginário individual e coletivo no que se refere à escolha pela Enfermagem10-11,17, como mostram os discursos das participantes deste estudo:

O meu interesse em ser uma profissional da área de saúde iniciou-se a partir do momento em que uma prima a qual estava fazendo graduação em Enfermagem começou a falar de suas experiências durante o estágio em um hospital psiquiátrico. Durante a sua colocação, foi "crescendo" em mim um desejo enorme de também fazer Enfermagem. Como no ano seguinte iria passar para o 2º Grau e estava decidida, fiz o técnico em Enfermagem, já com a intenção de futuramente ser enfermeira (Alda).

Recordo bem quando minha mãe chegou da maternidade, após ter dado à luz o filho caçula, e disse a todos que quem havia cortado o cordão umbilical do meu irmão era uma enfermeira conhecida da família. Ouvindo sua declaração, desejei imensamente ser enfermeira também, só para cortar os cordões umbilicais dos bebês. Hoje, percebo que foi atendendo a uma sensibilidade intuitiva, construída ao longo da infância, que optei por trilhar os caminhos da Enfermagem (Ana Paula).

As enfermeiras ainda percebem a Enfermagem como um chamado, a mística vocacional, conforme mostraram os discursos supracitados. Este fato corrobora outro estudo quando aponta que a Enfermagem é uma vocação nata 4:33, pelo fato de ser em sua maioria composta por mulheres. Outro estudo relativo a este assunto revela que, antropologicamente, a mulher tem as características necessárias para o exercício da Enfermagem, como nutrir e ajudar. Nutrir, neste caso, tem como sinônimo proteger, fortalecer, manter; significa ainda alertar, avivar. É a raiz de nurse18:77. A tarefa de cuidar configura-se como uma atividade feminina, pois o cuidado é uma tarefa que implica na necessidade de qualidades percebidas como naturais às mulheres, intrínsecas à natureza feminina. Neste aspecto, a mulher tem inclinação natural para ajudar ao próximo, o que a qualifica para o desenvolvimento de trabalhos na área da saúde ou educação.

Os discursos das participantes confirmam a Enfermagem como uma prática social comprometida com uma imagem do fazer vocacional. A convicção de terem sido chamadas por Deus para exercerem a Enfermagem é firme na opinião de algumas enfermeiras:

Porque busquei realizar o meu instinto vocacional – ser Enfermeira. Pela sensibilização e motivação da profissão, levando à realização do meu ideal em seu aspecto qualitativo e quantitativo, que veio atender minha necessidade pessoal ao relacionar com pessoas. Iniciei a carreira foi com o Curso Técnico em Enfermagem, fiz a graduação e depois a pós-graduação (Mara).

Para mim a Enfermagem é uma missão, uma forma de ajudar as pessoas, sendo uma área onde estou mais próxima delas; com a oportunidade de promover a saúde e a vida (Luka).

Porque foi um dom de Deus, permitindo o meu crescimento espiritual fazendo com que, com este crescimento, eu possa promover em primeiro lugar a saúde do ser humano, acompanhá-lo em seu desenvolvimento, enfim dar assistência de Enfermagem quando necessitar (Rubi).

A vocação em Enfermagem é vista como uma qualidade integrante do heroísmo da enfermeira. Identificando-se com a história de vida de Florence Nightingale, algumas entrevistadas decidiram fazer Enfermagem porque receberam o 'chamado' e decidiram desempenhar sua missão em prol do cuidado ao próximo. Acreditamos que a verdadeira vocação da enfermeira reside no sacrifício que ela faz ao exercer a profissão 19:310. Isto pode ser confirmado através de dados obtidos em outro estudo. De acordo com Padilha e Borenstein20:312:

A enfermeira faz a vigília do enfermo. Não dorme, não descansa. Da mesma forma que a mãe vela o seu filho doente, noites a fio, sem reclamar. [...] são obedientes, dedicadas, humildes e servis, se colocando sempre a serviço do outro e sem exigir nada em troca, inclusive um salário decente e condições de trabalho que possibilitem o exercício da Enfermagem prazeroso e feliz.

Além do aspecto vocacional, existe outro que permeia a escolha pela Enfermagem, o aspecto profissional, pois a Enfermagem é percebida tanto como uma vocação quanto como uma profissão4:34.

Imagem profissional

A opção pela Enfermagem dentre as inúmeras carreiras justifica-se pela necessidade das mulheres contemporâneas de terem de se engajar em um trabalho para ajudar no sustento de suas famílias. Sendo a Enfermagem uma profissão de acesso fácil e garantido no mercado de trabalho, ela se mostrou uma opção para a grande maioria das candidatas. De acordo com o período em que se graduaram, a Enfermagem significou a única perspectiva de vida profissional, pois, em muitos locais onde viviam, a profissão representava quase que a única oportunidade de acesso da mulher à educação e ocupação, após o curso normal21, como se pode verificar nas falas a seguir:

Estava saturada de lecionar; aí pensei em mudar de profissão. A idéia de fazer Enfermagem agradou-me porque era na minha cidade e poderia continuar trabalhando (à noite) para custear os estudos. E foi isto que fiz (Valda).

Yo, estudié Enfermería por que en mi Universidad no había otra carrera que se catalogara como la mejor. La enfermeria hasta el año 95 era la profesión mas aspirada en mi Universidad, como se dice era la profesión mejor considerada (Yara).

Estudié enfermería, tambíén, por que la Enfermería como profesión, permite entrar en un nuevo horizonte para ir descubriendo a través de la investigación alternativas de solución en los cuidados de enfermerìa. Ocupar cargos jerárquicos para conducir y lograr bienestar en general" (Nanda).

Algumas participantes entendem a Enfermagem como uma oportunidade de desempenharem um trabalho no espaço público, além do privado, realizado no lar, e uma profissão que poderia dar autonomia financeira. O tom dos discursos assinala que o desejo de ser enfermeira encontra-se acoplado à necessidade de melhoria salarial, ascensão profissional, aquisição de status e forma de sair do jugo familiar4:187. Apresentava também uma oportunidade para atuarem em uma profissão com uma demanda elevada de profissionais. Para algumas enfermeiras, a Enfermagem significou ainda, uma saída pelo fato de não terem sido aprovadas em outros vestibulares.

Escolhi a profissão de enfermeira por acaso, e não por opção ou desejo. Na época, gostaria de fazer algum curso na área de saúde, mas não tinha claro qual seria o mais adequado para mim. Tentei medicina três vezes e fui reprovada. Então, desisti e fiz o vestibular para Enfermagem, sendo aprovada" (Rosa).

Al inicio no era lo que yo quería. Postule a Medicina, pero no lo logré en el 1er intento, se me ofrecía la posibilidad de escoger una segunda opción y escogí Enfermería con la idea de hacer un traslado interno pero ya dentro la idea de continuar Enfermería me fue cada vez entusiasmando, mucho influyeron los nuestras docentes en quien vi modelos dignos de imitar. Me olvidé de la idea de intentarlo nuevamente, la satisfacción de ayudar al otro y hacer un servicio a los demás me llenaba completamente (Josélia).

Nesta mesma linha de pensamento, um estudo sobre as Irmãs da Divina Providência mostra que nem sempre estas religiosas desejavam realizar o curso de Enfermagem. Entretanto, mais tarde, perceberam que o curso valeu a pena, pois se encontraram na Enfermagem2:55, identificaram-se com o papel e com a imagem/identidade profissional. Isto mostra que, ao pleitear o ingresso no mercado de trabalho, precisamos investir na realização profissional, apesar da profissão exercida muitas vezes não ter sido a primeira escolha no momento do vestibular.

Ainda com relação à identidade profissional, em estudo realizado a partir de 22 produções de enfermagem relativas ao tema, a autora23: 97 identifica que a identidade profissional da enfermeira constitui-se a partir do processo pelo qual estas estabelecem e integram significados, tomando como base suas experiências pessoais, familiares, socioculturais e profissionais, que perpassam toda a trajetória de suas vidas.

Estes resultados corroboram com o discurso das participantes quando apontam que a representação romântica sobre a profissão vai sendo desconstruída ao longo da vida profissional, sendo substituída por uma visão mais coerente e mais próxima da realidade, ou seja, da Enfermagem como uma profissão que vive alguns dilemas e tem certas peculiaridades. Como mostra o discurso a seguir.

Gosto de muitos aspectos da profissão, mas percebo que precisamos conquistar nossa autonomia, melhores condições de trabalho e trabalharmos em equipe (Rosa).

Diante das evidências não contempladas neste estudo, recomendamos outras reflexões com enfermeiras do ensino e da prática sobre a formação, construção e percepção da imagem que as enfermeiras se auto-atribuem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao buscar conhecer e compreender as razões da escolha por esta profissão ímpar, singular e complexa que é a Enfermagem, mergulhou-se num mundo de imagens e significados que fazem parte do cotidiano das enfermeiras brasileiras e peruanas. Neste navegar, percebemos que algumas enfermeiras sentiram a chamada divina para ajudar o próximo. Outras ingressaram no curso, motivadas pela percepção da vocação para trabalhar com os doentes no hospital, pois sentiram que deviam respeitar sua própria vocação24:168. Ainda, houve as que procuraram a Enfermagem por ser uma das poucas opções de curso em suas cidades, pela possibilidade de conseguirem emprego com brevidade e por não terem sido aprovadas em outros vestibulares.

Os discursos deixam claro que o contato prévio com o cotidiano da Enfermagem, através de atividades realizadas diretamente nesta área ou ao presenciar o cuidado de um familiar, favorece a identificação, serve como direcionamento na escolha da profissão e encoraja as candidatas para se tornarem enfermeiras. A pluralidade de fatores percebida neste estudo encontra respaldo na literatura, pois a escolha pela Enfermagem se dá por inúmeros caminhos, que em algum momento se cruzaram e tornaram a Enfermagem parte da vida destas enfermeiras4:134.

Neste caminhar pelo mundo imaginal da latinidade, podemos inferir que, na escolha da Enfermagem, vêem-se projetados os arquétipos e mitos da Enfermagem historicamente construídos, divulgados e cristalizados no ideário social, e a conjunção de algumas virtudes e imagens que compõem a Identidade Profissional da enfermeira: a imagem servil, a imagem vocacional e a imagem profissional.

Acredita-se que as imagens trazidas pelo discurso da escolha profissional foram criadas no imaginário social a partir da divulgação dos cursos de Enfermagem, pois o esforço em divulgar o valor do trabalho da enfermeira, de modo a formar uma opinião pública favorável à profissão, era constante19:169. A divulgação da nova profissão, na mídia, formou uma nova mentalidade, criou a ideologia segundo a mística do servir vocacional e cristalizou uma nova imagem e identidade para a Enfermagem nas primeiras décadas do século XX, no Brasil e no Peru14-19. Estas imagens enalteciam o valor da Enfermagem como oportunidade de serviço à Pátria, dedicação ao próximo e satisfação espiritual, pelo alívio do sofrimento e salvação de vidas. Apontava o sacrifício voluntário da enfermeira no cuidado ao próximo, como forma de mostrar o espírito da Enfermagem e os altos desígnios morais e espirituais da primeira profissão liberal, essencialmente feminina, a ingressar no campo da saúde.

Ao refletir sobre as imagens e o imaginário que permeiam a escolha profissional percebe-se que, em sua maioria, as enfermeiras escolhem a Enfermagem munidas pelo desejo pessoal, e não familiar, de ajudar e cuidar do próximo. A invocação pela decisão própria, como fator preponderante na escolha profissional, confirma outros estudos sobre o tema2-16;23.

Algumas participantes demonstraram uma identificação pessoal com a profissão ocorrida a partir do conhecimento e da reflexão sobre as atribuições e competências da enfermeira ou visualização do seu cotidiano. Estas profissionais perceberam desde cedo que tinham aptidão para o desenvolvimento da Enfermagem, o que corrobora outro estudo quando mostra que o gosto e o interesse pelas atividades de Enfermagem e a experiência de trabalho na área anterior à realização do vestibular influencia [...] na escolha vocacional2:31. Neste sentido, de uma forma ou de outra, a escolha profissional é influenciada pela história familiar e social4.

No estudo das falas das enfermeiras brasileiras, emergiram com maior freqüência as imagens servil e vocacional, enquanto que, nas falas das enfermeiras peruanas, a imagem profissional foi ressaltada. Como visto, a opção profissional dificilmente se dá aleatoriamente, pelo contrário, muitas são as motivações. Na escolha por uma carreira, a futura profissional procura basear-se em algum motivo, num valor atribuído, ou em uma justificativa pessoal considerada significante, essencial e até mesmo vocacional, uma vez que envolve o seu cotidiano pessoal e profissional e, conseqüentemente, a sua realização como pessoa. O fato de algumas enfermeiras, ainda que não identificadas previamente com a profissão, terem se encontrado no cotidiano da Enfermagem, mostra que, em qualquer profissão escolhida, o profissional terá êxito quando: compromete-se com o trabalho e as questões sociais que o envolvem; é responsável, dedicado, crítico e reflexivo; busca a competência técnica e se debruça continuamente em leituras, visando ser melhor profissional a cada dia25.

O desafio que a Enfermagem moderna enfrenta neste limiar de século, e que merece questionamento por parte das enfermeiras tanto brasileiras quanto peruanas, é o de contribuir para a construção de uma nova imagem para as enfermeiras e para a Enfermagem. A mulher profissional busca a cada dia conquistar novos espaços sociais, e isto demanda a compreensão desse novo papel. Com suas investidas no mercado de trabalho, ocupando muitos espaços de liderança e decisões historicamente ligados ao sexo masculino, a mulher cuidadora poderá construir uma imagem da enfermeira muito mais confiante de suas potencialidades e possibilidades, abrindo novos caminhos para uma Enfermagem mais construtiva, rica e reconhecida socialmente26, sem deixar de lado as características, qualidades e virtudes historicamente construídas e transmitidas pelas escolas de enfermagem, a cada nova geração de enfermeiras disponibilizadas ao mercado de trabalho27.

 

Referências

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Recebido em 22/11/2005
Reapresentado em 26/05/2006
Aprovado em 02/06/2006

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