SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 issue4Contraceptive methods: the practice of adolescents from Agrarian Schools of Federal University of PiauíCorrelation between blood pressure and weight in children and teenagers from a municipal school in the northwestern region of São Paulo author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

  • Portuguese (pdf)
  • Article in xml format
  • How to cite this article
  • SciELO Analytics
  • Curriculum ScienTI
  • Automatic translation

Indicators

Related links

Share


Escola Anna Nery

Print version ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.13 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452009000400025 

PESQUISA

 

O significado atribuído ao papel masculino e feminino por adolescentes de periferiaa

 

Meanings attributed to the masculine and feminine roles by socially-excluded adolescents

 

El significado que los adolescentes de la periferia le atribuyen al rol masculino y femenino

 

 

Maria Aparecida Baggio I; Jacira Nunes Carvalho II; Marli Terezinha Stein Backes III; Dirce Stein Backes IV Betina Hörner Schlindwein Meirelles V; Alacoque Lorenzini Erdmann VI

I Enfermeira. Doutoranda do PEN/UFSC. Professora do Departamento de Enfermagem da UFSC. Membro do GEPADES. Brasil. E-mail: mariabaggio@yahoo.com.br
II Enfermeira. Doutoranda do PEN/UFSC. Professora do Departamento de Enfermagem da UFPA. Membro do GEPADES. Brasil. E-mail: jacira@ufpa.br
III Enfermeira. Doutoranda do PEN/UFSC. Membro do GEPADES. Brasil. E-mail: marli.backes@bol.com.br.
IV
Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem. Docente do Programa de Graduação de Enfermagem UNIFRA, Santa Maria/RS. Membro do GEPADES. Brasil. E-mail: backesdirce@ig.com.br.,
V Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem. Professora do Departamento e Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Membro do GEPADES. Brasil. E-mail: betinahsm@ig.com.br.,
VI Enfermeira. Doutora em Filosofia de Enfermagem. Professora Titular do Departamento e Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFSC. Coordenadora do GEPADES. PQ 1A do CNPq. Coordenadora da Área da Enfermagem na Capes. Brasil. E-mail: alacoque@newsite.com.br.

 

 


RESUMO

Trata-se de pesquisa-ação cujo objetivo foi compreender os significados atribuídos ao papel masculino e feminino pelos adolescentes/jovens integrantes de um projeto de inclusão social. Participaram 27 sujeitos vinculados aos grupos da Gastronomia, Estética e Nova Descoberta. Os dados derivam da oficina "conhecimento do corpo humano", desenvolvida nos três grupos em momentos distintos, por meio da construção de cartazes, atividades de recorte, colagem, desenho, escrita; utilização de manequim e abordagem dialógica do tema. Os dados foram analisados conforme o método de análise temática de conteúdo. Os resultados apontam duas categorias: "a fortaleza e o poder masculino" e "o papel contraditório do gênero feminino". Conclui-se que as diferenças dos papéis masculino e feminino, relacionadas ao contexto sócio-político-cultural no qual os adolescentes/jovens estão inseridos, tem repercussões importantes na forma que vivem a sua sexualidade, e, acima de tudo, na construção do seu viver saudável e de sua cidadania.

Palavras-chave: Enfermagem. Cuidados de Enfermagem. Promoção da Saúde. Educação em Saúde. Adolescente.


ABSTRACT

The objective of this research-action was to better comprehend the meanings attributed to the masculine and feminine roles by socially-excluded adolescents/youth that are integrated to a social-inclusion project. Twenty-seven subjects who are linked to the Gastronomy, Aesthetics, and New Discovery Groups. The data were derived from the "human body knowledge" workshop, developed separately in 3 groups through the construction of poster boards, collage activities, drawing, writing, the utilization of mannequins, and a dialectic approach to the theme. The data was analyzed according to thematic content analysis, producing two categories: "masculine strength and power", and "the contradictory role of the feminine gender." We conclude that the differences in masculine and feminine roles related to the social-political-cultural context of which these adolescents/youth are inserted, have important repercussions in the form in which they live their sexuality and more importantly their construction of healthy living and citizenship

Keywords: Nursing. Nursing Care. Health Promotion. Health Education. Adolescent.


RESUMEN

Se trata de investigación -acción cuyo objetivo fue comprender los significados que los adolescentes de un grupo de inclusión social le atribuyen al papel masculino y femenino Participaron 27 sujetos vinculados a los grupos da Gastronomía, Estética y Nueva Descubierta. Los datos derivan del taller "conocimiento del cuerpo humano", desarrollado en los 3 grupos, en momentos distintos, a través de la creación de carteles , actividades para hacer collagede recorte , diseño, escritura; utilización de maniquí y abordaje dialógica del tema. Los datos fueron analizados con el método de análisis temático de contenido. Los resultados evidencian dos categorías: "la fortaleza y el poder masculino" y "el papel contradictorio del género femenino". Se concluye que las diferencias de papeles masculino y femenino, relacionadas al contexto socio-político-cultural en el cual los adolescentes/jóvenes están inseridos, tiene repercusiones importantes en la forma en la que viven su sexualidad y en la construcción de una vida sana y en la formación de su ciudadanía.

Palabras-clave: Enfermería. Atención de Enfermería. Promoción de la salud. Educación en salud. Adolescente


 

 

INTRODUÇÃO

Ao longo dos últimos séculos, o imaginário de corpo foi construído a partir do olhar masculino que privilegiou o feminino. Há, no entanto, algumas diferenças nas representações desses papéis, estando o masculino representado pela força e o feminino, pela beleza. Hoje, entretanto, esses aspectos são percebidos por óticas diferentes e em diferentes matizes.1

Partindo-se das diferenças biológicas sexuais do masculino e feminino, as atribuições relativas a cada sexo variam conforme nos deslocamos no tempo, no espaço e nas diversas situações que, na atual sociedade de consumo, parecem diluídas no que se refere às noções de identidade, gênero e sexualidade.2

A cultura incorpora nas pessoas, desde crianças, a diferença entre o masculino e o feminino. A família e a escola desde cedo marcam as diferenças entre os meninos e as meninas, entre os homens e as mulheres.3 Dessa forma, percebe-se que os papéis, tanto masculino como feminino, "começam a ser construídos desde que o bebê está na barriga da mãe, quando a família na expectativa começa a preparar o enxoval de acordo ao sexo"4:142.

Desta forma, a aquisição da identidade de gênero e o processo global da socialização do masculino ou do feminino estão intimamente ligados às primeiras vivências com as pessoas, que desempenham as tarefas do cuidar do bebê e da criança.5 Após o nascimento, a primeira coisa a ser identificado é o sexo, e a partir desse momento o ser começa a receber mensagens sobre o que a sociedade espera desta menina ou menino.4

Destarte, os papéis do feminino e masculino são construídos, interpretados, internalizados e personalizados, dependendo das características específicas de cada sociedade, do ciclo de suas vidas e de suas vivências subjetivas como homens e mulheres.6

Assim, ao alcançar a fase da adolescência, o ser que já personificou as imagens do masculino e feminino começa a idealizar o aspecto `desejante' da imagem corporal que a sociedade naquele contexto constrói. Os meninos ficam desejosos de corpos musculosos, atléticos e, as meninas procuram modelar seus corpos de acordo com o ideal masculino, pois é a eles que desejam mobilizar.

A mulher torna-se adulta e assume novos papéis na sociedade contemporânea. No entanto, verifica-se que ao mesmo tempo em que há um grande número de transformações, como resultado de novas crenças, valores tradicionais permanecem estruturando a relação de homens e mulheres na sociedade e na família, e continuam sendo transmitidos de pais para filhos.7

Estudos culturais colaboram para a compreensão da construção das identidades, sendo que a(s) identidade(s) se desenvolve(m), nos espaços onde as pessoas moram, dentro e fora da comunidade.8 Os espaços e os contextos "existem como campos de cultura que produzem significados específicos para aqueles que criam, transformam e neles vivem"9:133.

Como pesquisadoras integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado em Enfermagem e Saúde (GEPADES), do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no transcorrer do ano de 2008, desenvolvemos o Projeto de Pesquisa: "Significando o viver saudável para os jovens integrantes dos projetos do Centro Cultural Escrava Anastácia", com duas etapas sistematizadas e interligadas. A proposta inicialmente visou compreender o significado do viver saudável na perspectiva dos adolescentes/jovens do Centro Cultural Escrava Anastácia (CCEA) e, em um segundo momento, promover oficinas educativas com base nos significados que emergiram do processo de viver saudável para estes mesmos jovens. Neste momento, um questionamento nos inquietou: qual o significado dos papéis masculino e feminino para os adolescentes de uma região periférica?

Assim, nos propomos a apresentar, neste artigo, o resultado de uma das oficinas educativas, do segundo momento de desenvolvimento do estudo, realizada com três grupos diferentes, que objetivou compreender os significados atribuídos ao papel masculino e feminino pelos adolescentes/jovens integrantes do CCEA, pertencentes ao projeto Aroeira, um projeto de inclusão social. Nessa perspectiva, procuramos incorporar alguns conhecimentos já elaborados sobre esse tema, presente na história e no imaginário popular sobre esses papéis.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa-ação, caracterizada como um tipo de pesquisa interpretativa que abarca um processo metodológico empírico. Compreende a identificação do problema, a necessidade ou lacuna dentro de um contexto social, o levantamento de dados ou significados relativos ao problema, a análise e significação dos dados levantados pelos participantes, a identificação da necessidade de mudança, o levantamento de possíveis soluções e, por fim, a intervenção ou ação propriamente dita, no sentido de aliar pesquisa e ação, simultaneamente.10,11

O estudo foi realizado no CCEA, que é uma entidade não governamental nascida dos esforços de membros da comunidade de um morro de Florianópolis (SC), em 1994, com a finalidade de abrigar projetos e atividades educativas para os moradores. Desta iniciativa desencadearam-se outros projetos articulados, e um deles é o Aroeira - Consórcio Social da Juventude da Região da Grande Florianópolis (SC), consolidado a partir do convênio Governo Federal - Ministério do Trabalho, como forma de atuação do Programa Nacional de Estímulo ao Primeiro Emprego (PNPE), tendo como entidade âncora local o CCEA.12

Na sistematização de suas práticas, o Aroeira, desde 2006, objetiva a educação popular e inclusão social de adolescentes e jovens com idade entre 16 e 24 anos, oriundos de 56 comunidades empobrecidas de Florianópolis e região, tendo como objetivo principal a promoção de oportunidades de trabalho, emprego e renda para jovens, de ambos os sexos, em situação de vulnerabilidade social, por meio dos esforços da sociedade civil e do Estado.12

São critérios de inclusão no Aroeira: possuir baixa renda familiar, estar desempregado, frequentar alguma instituição de ensino ou ter concluído o ensino médio. A preferência de participação é para jovens afro-descendentes, indígenas, portadores de deficiência, trabalhadores rurais e jovens em conflito com a lei.12

Os integrantes do Aroeira, sujeitos do presente estudo, compreendiam o Grupo da Gastronomia, com 13 participantes (7 do sexo feminino e 6 do masculino), o Grupo da Estética, com 8 participantes (7 do sexo feminino e 1 do masculino) e o Grupo Nova Descoberta, com 6 participantes (5 do sexo masculino e 1 do feminino), em um total de 27 sujeitos. Os grupos da Gastronomia e da Estética são formados por jovens adolescentes, moradores do morro/bairro em estudo e de outras localidades. Já o Grupo Nova Descoberta é formado apenas por integrantes da comunidade local, também denominada Nova Descoberta, delimitada ao meio do morro/bairro.

Foram desenvolvidas de forma dinâmica e criativa 15 oficinas educativas com os três grupos ao longo do processo de coleta de dados, cujos temas abordados, sugeridos pelos próprios adolescentes/jovens, foram: conhecimento do corpo humano, DST, sexualidade e métodos contraceptivos. Todavia, neste artigo serão apresentados os resultados das oficinas referentes ao conhecimento do corpo humano, com a participação de 27 adolescentes, pertencentes aos três grupos citados acima, durante o primeiro semestre de 2008.

Durante as oficinas, foi realizada a construção de cartazes, com atividades de recorte, colagem, desenho, escrita e pintura. Também foi utilizado um manequim, desmontável, para demonstração das partes do corpo A dialogicidade foi estabelecida durante as oficinas, e o tema foi abordado na forma expositivo-dialogada, possibilitando a compreensão dos significados do papel masculino e feminino na visão dos adolescentes/jovens.

Os dados deste estudo foram constituídos pelo registro das oficinas em gravador digital de voz, autorizado pelos participantes e responsáveis; pelos registros de campo obtidos por meio das percepções das pesquisadoras; e pelos cartazes desenvolvidos pelos jovens nas oficinas.

Para a análise e interpretação dos dados do estudo, foi utilizado o método de análise temática de conteúdo que "consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o objetivo analítico visado"13:209.

Para o tratamento dos dados, seguiram-se três momentos distintos: pré-análise (leitura flutuante dos dados), exploração do material (seleção do conteúdo a ser analisado e organização das categorias) e tratamento dos resultados (interpretação). Conforme preconiza o método, após leitura e releitura exaustiva dos dados brutos, foram selecionados os conteúdos de significado que contemplavam significativa importância para a formação das unidades temáticas que constituem o estudo.13

O projeto de pesquisa seguiu todas as recomendações da Resolução No 196 do Ministério da Saúde14, sendo submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob o número 350/07.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Considerando a sociedade contemporânea e a perspectiva do olhar dos adolescentes/jovens participantes desse estudo, percebe-se que apesar do que se parece com um distanciamento deste mundo, considerado pós-moderno, eles convivem com as controvérsias relacionadas ao papel representado pelo masculino e feminino.

As categorias temáticas derivadas a partir do desenvolvimento desta segunda oficina foram assim intituladas: "A fortaleza e o poder masculino" e "O papel contraditório do gênero feminino", que são apresentadas a seguir.

A fortaleza e o poder masculino

Nos desenhos e imagens apresentadas nos cartazes confeccionados pelos adolescentes/jovens, identifica-se a representação do "militarismo" e da "fortaleza e identidade masculina", que expressam força, virilidade, rigidez, controle e posse.

A análise dos cartazes remete à representação do "militarismo" a partir da expressão da face e seus detalhes (cabelo raspado e barba aparada), da postura e uso de roupa formal como uniforme (sugerindo ser militar), de apresentação impecável (Figura 1).

A convivência e a proximidade com o efetivo da polícia militar no cotidiano dos adolescentes podem influenciar a percepção destes, pois, além de visar a manutenção da ordem pública por meio da ronda, seja de moto ou carro, a Polícia Militar possui um dos seus quartéis no "pé" do morro (como usualmente se referem os participantes ao início da rua, na base do morro) e o heliporto no alto do morro. Dessa forma, a convivência com a polícia, que usa uniformes militares e é representada, em sua maioria, pelo gênero masculino, conota força, rigidez, controle e posse masculina, condições estas que significam a "fortaleza" do gênero, evidenciadas no entorno desses jovens. De modo semelhante, esta fortaleza masculina representada pelos desenhos dos adolescentes/jovens nos faz pensar no "poder" e na "força" dos envolvidos no tráfico, em grupos rivais diferentes, também predominantemente masculinos.

Devido à presença do tráfico e outros crimes usualmente praticados no morro, os adolescentes/jovens já viram um corpo morto ou têm conhecimento de que a morte pode ocorrer de forma precoce para alguns, envolvidos direta ou indiretamente com o tráfico, ou mesmo por habitarem um local tão perigoso. Talvez, essas ideias preliminares poderiam justificar a imagem do corpo morto (intitulado pelos jovens como "cadáver"), em um dos desenhos, sugerindo certa identificação. Além disso, durante a primeira oficina realizada com estes mesmos três grupos sobre "o significado do viver saudável", surgiram falas relacionadas à morte, tais como:

Aí, já cai na questão do emprego... Aí não tem dinheiro, aí tem essa vida e acaba morrendo (P.1)

E morre matada! (P.2)

Durante a construção dos cartazes, em especial na oficina para o conhecimento do corpo humano, na interação para a confecção do material, alguns jovens do gênero masculino expressaram no grupo que:

O pênis não pode faltar! (P.3)

Quem desenhar o homem, não esquece do pênis! (P.4)

No contexto erótico masculino, além das falas, os desenhos também conotam a "fortaleza" e a "identidade" do gênero, representados pelo órgão sexual (pênis). Em um dos desenhos, o órgão apresenta-se bem desenvolvido, salientado e com riqueza de detalhes, como os aspectos anatômicos externos e sua vasculatura (Figura 2).

A valorização do órgão genital masculino pelos adolescentes/jovens sugere que, quanto maior e mais visível, maior o seu poder, inclusive de penetração e, talvez, de dominação. Os jovens simbolizam, dessa forma, o poder, a força e a virilidade do órgão sexual masculino, em sua expressão.

O desenho do órgão genital masculino pode estar relacionado à atividade sexual ou ao seu desejo, pois alguns sujeitos deste estudo são adolescentes/jovens que iniciaram recentemente sua vida sexual e outros que estão por iniciar e, portanto, se encontram em fase de desvelar-se sexualmente e descobrir a sexualidade enquanto gênero. Pois, a heterossexualidade, marca identitária da masculinidade, faz com que se entenda o ser homem a partir do momento em que ele se interesse sexualmente pela mulher.15

Por outro lado, outros adolescentes/jovens já têm filhos e relação conjugal estável com suas parceiras, confirmando estatísticas da alta prevalência de adolescentes/jovens meninas que engravidam, não sendo a formação escolar e a inserção no mercado de trabalho uma prioridade16, mas sim, a união marital e a reprodução. Esta última é uma referência para inserção social e reconhecimento do homem por meio da constituição de família ser provedor15, conforme deixam transparecer os adolescentes/jovens do sexo masculino.

Ressalta-se que foi possível evidenciar, a partir das conversas e observações durante as oficinas, que, para alguns sujeitos do sexo masculino, ter uma mulher e filhos lhes confere status perante a sociedade, na qual, para ser homem, deve-se gostar de mulher e procriar, e essa condição afirma sua masculinidade, necessária para a sua aceitação social e dominação, inclusive em relação a outros seres do mesmo sexo15,17. Se essas identidades assumirem contornos distintos da via da heterossexualidade, podem provocar dissonâncias do ser homem, compreendidos com base em modelos hegemônicos.16 Dessa forma, identifica-se outra característica para a "fortaleza" e "identidade" do gênero.

A ilustração de características explícitas na Figura 2, de um homem com a face fechada e rígida, olhar forte e penetrante, cabelo raspado, musculatura corporal e órgão sexual bem desenvolvido e definido, na posição de pé e com as pernas abertas, postura corporal que intimida, relaciona-se à aparência masculina como determinante nos processos de construção da "identidade" e socialização; na condição de variável determinante e determinada, vetor e símbolo de poder.1 O poder aparece como elemento que estrutura e estruturado no âmbito das relações sociais, cuja masculinidade é representada pelo "ser masculino" dominador.15

Assevera-se que os desenhos analisados nesta categoria foram, em sua maioria, construídos pelos adolescentes/jovens que pertencem ao Grupo da Nova Descoberta (comunidade do meio do morro), cujo ambiente difere-se dos demais grupos por ser o que tem maior envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas e outros conflitos com a lei; o trabalho do Aroeira começou a ser timidamente inserido ao longo do ano de 2008 e está ainda em processo de formação. Este grupo apresenta como característica a confecção de trabalhos artísticos, como desenhos (retrato falado) e outros.

O papel contraditório do gênero feminino

Evidenciou-se que as representantes do gênero feminino, principalmente as do Grupo da Gastronomia, apresentaram-se bastante retraídas e envergonhadas e, muitas vezes, nos causavam a impressão de estarem sendo reprimidas em sua própria condição de gênero. Nesse Grupo, três adolescentes eram casadas, duas delas eram gestantes.

Em contrapartida, as participantes do Grupo da Estética, que era formado em sua maioria por adolescentes do sexo feminino (apenas na última oficina esteve presente um adolescente masculino), não se apresentaram retraídas, nem tímidas, pelo contrário, demonstram-se espontâneas e comunicativas. Neste grupo, também duas adolescentes eram gestantes casadas, sendo que uma delas já tinha um filho. Estas gestantes partilharam vários eventos de sua experiência de gestante, como as consultas pré-natais e consequente conhecimento sobre várias questões discutidas no grupo. Constata-se que a diferença de comportamento entre os grupos reforça o papel feminino contraditório.

O que talvez tenha alguma conotação nessa diferença de comportamento entre estes dois grupos é o fato de a professora do Grupo de Estética ter se interessado pelas oficinas e ter participado delas, inclusive exercendo o papel de estimuladora para as adolescentes, fato que não aconteceu com o Grupo da Gastronomia.

Na relação estabelecida entre os adolescentes/jovens, identificam-se resquícios da marca identitária da masculinidade no grupo em que se relacionam adolescentes/jovens do sexo feminino e masculino, visto que, quando o masculino interage com o feminino, há um domínio do primeiro sobre o segundo, condição que se mantém ou é reforçada porque o poder nas relações de gênero tende culturalmente a se concentrar no masculino, por conta de uma perspectiva hegemônica que permanece no imaginário social15 e da dificuldade, ainda percebida no grupo feminino, para romper o modelo de criação que destina à mulher um lugar de subalternidade.

Nas oficinas que permearam a discussão do tema "conhecimento do corpo humano", com os três grupos que integraram o estudo, apenas um cartaz foi construído com a imagem de uma mulher, para representação biológica do corpo feminino. Cabe ressaltar que do total de adolescentes/jovens, 12 eram do sexo masculino e 15, do feminino.

Percebe-se o gênero feminino reprimido na sua expressão e manifestação biológica do sexo pela da observação, a partir dos desenhos, e também nos diálogos estabelecidos na interação com os demais participantes do grupo.

Ao analisar a imagem feminina expressa no cartaz, esta infere uma jovem mulher recatada, escondida, retrógrada e submissa. Nenhum órgão sexual feminino foi exposto, e a mulher do desenho estava encoberta por tecido, usando um vestido longo e fechado, que mostra as curvas do corpo, mas não o expõe, velando-o (Figura 3).

Contrária à imagem do desenho, na prática não é esta a imagem de corpo feminino e vestimenta que se observa nas jovens pertencentes ao grupo. Porém, o seu comportamento é digno da imagem analisada.

Esse é caso do duplo padrão que condiciona muitas mulheres a acreditarem que se devam conformar aos padrões societários vigentes relativos aos valores e à moralidade, calando os seus próprios desejos. Exemplo desta situação é quando o desejo de ser considerada atrativa para o parceiro representa uma situação de conflito para as jovens adolescentes. Estas aprendem que devem parecer sexy, mas devem dizer "não" para serem consideradas "boas meninas" e atraírem o desejo masculino, calando os seus próprios desejos. Este duplo padrão pode levar muitas jovens a aprenderem a sacrificar a sua autonomia sexual para serem consideradas sexualmente bem comportadas diante do que é socialmente desejável para as mulheres.18

Observa-se que os desenhos da imagem masculina e feminina realizados pelos adolescentes/jovens são divergentes ao que é mostrado pela mídia. A mídia expõe o corpo feminino e mantém o corpo masculino vestido e encoberto, ao contrário dos desenhos realizados neste estudo. Isso é um indício de que, nos espaços sociais mais vulneráveis, a realidade pode ser bem diferente daquela que é apresentada pelos meios de comunicação social, o que deve ser levado em conta quando atuamos com estas realidades.

Na interação observada entre os gêneros durante a confecção dos cartazes e no desenrolar das oficinas, as adolescentes/jovens demonstraram, em sua maioria, um comportamento recatado, cauteloso, tímido e submisso à imagem e presença masculina. Assim, na correlação entre o feminino e o masculino entende-se que o homem pode expor-se, enquanto a mulher não é livre para este comportamento e está submissa à figura masculina, que tem a posse e o controle do sexo oposto.

Da mesma forma, durante conversas e observações desses jovens, confirma-se que a sexualidade feminina é um objeto de controle masculino, cuja determinação de uso ou não do preservativo como método de barreira para doenças ou para contracepção também está sob o poder de decisão do homem. Contudo, o uso do preservativo é negligenciado no contexto das relações regulares com a parceira, sendo opção, notoriamente, apenas para a prevenção da gravidez.17

Nota-se que o comportamento do gênero feminino em relação ao masculino e a sua própria sexualidade, na forma como concebem as relações sexuais, mostra-se em condição de vulnerabilidade, que pode comprometer a sua saúde e a sua vida, visto que se vive em tempos de Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis.

Quanto às atividades inerentes ao gênero, alguns informantes do sexo masculino pontuam que determinadas atividades são fundamentalmente do gênero feminino e não do masculino, tais como:

Tem coisa que homem não faz e a mulher faz, como lavar roupa (P.5)

Varrer a casa, tirar o pó (P.6)

Em contrapartida, outros jovens se manifestam, dizendo:

Tem mulheres que tão ocupando lugar agora no serviço, motoristas de ônibus (P.7)

Apreendem-se, a partir da fala de P.7, algumas modificações históricas acerca da questão de gênero que vêm se processado nas sociedades no que se refere ao papel masculino e feminino e à posição da mulher nesse cenário.

Neste sentido, "a intersecção das múltiplas pertenças (sexo/etnia/classe social/orientação sexual e outras) condiciona o modo como muitas mulheres vivem, pensam ou julgam ser "iguais" ou "diferentes" de seus pares do sexo masculino", seja em domínios do trabalho, do acesso ao poder, seja na família ou na vivência da sexualidade. E em todos esses domínios existem, ainda, desigualdades. Esta desigualdade está na vivência da sexualidade, nos seus múltiplos aspectos de atitudes, de expectativas e/ou de comportamentos associados ao prazer, ao desejo, à orientação sexual, mas também ao risco e à violência18:60.

 

CONCLUSÃO

Com o objetivo de compreender os significados atribuídos ao papel masculino e feminino pelos adolescentes/jovens de um projeto de inclusão social em um espaço social vulnerável, discutimos as duas categorias temáticas emergentes: "A fortaleza e o poder masculino" e "O papel contraditório do gênero feminino".

Evidenciamos que os adolescentes/jovens atribuem ao papel masculino o significado da "fortaleza e poder masculino", que expressa força, virilidade, rigidez, controle e posse, representados por desenhos e imagens nos cartazes confeccionados por eles, e também por meio de suas expressões verbais. Também evidenciou-se que o poder, a fortaleza e a virilidade masculina se expressam por meio do órgão sexual masculino.

Na interação observada entre os gêneros durante as oficinas, as adolescentes/jovens demonstraram, em sua maioria, um comportamento recatado, cauteloso, tímido e submisso à imagem e presença masculina. Assim, na correlação entre o feminino e o masculino, entende-se que o homem pode expor-se, enquanto a mulher não é livre para este comportamento, para expressar suas ideias, sendo submissa à figura masculina, que tem a posse e o controle do sexo oposto.

Quanto às atividades inerentes ao gênero, alguns informantes do sexo masculino pontuam que determinadas atividades são fundamentalmente do gênero feminino, e não do masculino. No entanto, também ficou evidente que na compreensão dos sujeitos algumas modificações históricas acerca da questão de gênero vem sendo processadas na sociedade no que se refere ao papel masculino e feminino e à posição da mulher nesse cenário.

Constatamos que existem diferenças entre os grupos, em que diferentes significados são construídos. Não levar em conta essas variações e essas diferentes formas de dar significado aos papéis sexuais e de gênero pode levar a intervenções descontextualizadas e que não trarão efeitos esperados. Assim, a compreensão dos significados atribuídos ao papel masculino e feminino por ambos os sexos e nos diferentes grupos é essencial para que os programas de educação sexual, as campanhas de prevenção das DST, e da gravidez na adolescência, e todos os esforços educativos consigam atingir aqueles e aquelas a quem se destinam.

Concluímos que, como enfermeiras, temos que considerar estas diferenças na construção e significação dos papéis masculino e feminino, que estão relacionados ao contexto sócio-político-cultural no qual estes adolescentes/jovens estão inseridos e que podem ter repercussões importantes na forma em que vivem a sua sexualidade, e, acima de tudo, na construção do seu viver saudável e de sua cidadania.

 

REFERÊNCIAS

1. Hoff TMC. Corpo masculino: publicidade e imaginário. E-compós [on-line]. 2004 dez; [citado 20 abr 2009]; 1: [aprox.16 telas]. Disponível em: http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/24/25         [ Links ]

2. Cemin AB, Ott AMT. Antropologia do desenvolvimento e direitos humanos: Violência de gênero e etnocidadania [on-line]. 2008 ago; [citado 23 abr 2009]; [aprox.6 telas]. Disponível em: http://www.fazendogenero8.ufsc.br/sts/ST62/Cemin-Ott_62.pdf         [ Links ]

3. Mattioda SRG. O processo de formação da identidade de gênero através da literatura infanto-juvenil [on line]. 2007; [citado 20 abr 2009]; [aprox.8 telas]. Disponível em: http://www.alb.com.br/anais16/sem03pdf/sm03ss01_07.pdf         [ Links ]

4. Cabral F, Díaz M. Relações de gênero. In: Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte. Fundação Odebrecht. Cadernos afetividade e sexualidade na educação: um novo olhar. Belo Horizonte(MG): Gráfica / Ed Rona; 1998. p.142-50.         [ Links ]

5. Prazeres V. Saúde juvenil no masculino: género e saúde sexual e reprodutiva [on line]. 2003; [citado 18 abr 2009]; [aprox 68 telas]. Disponível em: http://www.arslvt.min-saude.pt/SiteCollectionDocuments/SJMasculino.pdf         [ Links ]

6. Conchão SA. Masculino e feminino: a primeira vez. Análise de gênero sobre a sexualidade adolescente [on-line]. 2008 ago; [citado 18 abr 2009]; [aprox.7 telas]. Disponível em: http://www.fazendogenero8.ufsc.br/sts/ST62/Silmara_Conchao_62.pdf         [ Links ]

7. Macedo RMS, Souza RM. Adolescência e sexualidade: uma proposta de educação para a família. In: Macedo RMS,organizador. Família e comunidade. São Paulo(SP): Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP); 1996. p.7-32.         [ Links ]

8. Sousa ACG, Brandão SN. Como é ser adolescente do sexo feminino na periferia? Psicol Cienc Prof [on-line]. 2008 dez; [citado 02 maio 2009]; 28(1): 82-97. Disponível em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/pcp/v28n1/v28n1a07.pdf         [ Links ]

9. Guareschi NMF, Oliveira FP, Giannechini LG, Comunello LN, Pacheco ML, Nardini M. O cotidiano de meninos e meninas na favela: problematizando as políticas de identidade. In.: Guareschi NMF, Bruschi ME, organizadores. Psicologia social nos estudos culturais: perspectivas e desafios para uma nova psicologia social. Petrópolis (RJ): Vozes; 2003.         [ Links ]

10. Thiollent M. Metodologia da pesquisa-ação. 4ª ed. São Paulo(SP): Cortez; 2000.         [ Links ]

11. Franco MAS. Pedagogia da pesquisa-ação. Educ Pesq 2005; 31(3): 483-502.         [ Links ]

12. Aroeira. Consórcio Social da Juventude Grande Florianópolis. Centro Cultural Escrava Anastácia [página na internet]. 2009; [citado 22 abr 2009]. Disponível em: http://www.ccea.org.brLinks ]ccea.org.br/">/

13. Minayo MCS. Desafio do conhecimento. 5ª ed. São Paulo(SP): Hucitec/Abrasco; 2000.         [ Links ]

14. Ministério da Saúde (BR). Conselho Nacional de Saúde. Resolução n° 196, de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Inf Epidemiol SUS 1996; 5 (2 supl 3): 13-41.         [ Links ]

15. Nascimento EF, Gomes R. Marcas identitárias masculinas e a saúde de jovens homens. Cad Saúde Pública 2008; 24(7):1556-564.         [ Links ]

16. Spindola T, Silva LFF. Perfil epidemiológico de adolescentes atendidas no pré-natal de um hospital universitário. Esc Anna Nery Rev Enferm [on-line]. 2009 jan/mar; [citado 19 maio 2009]; 13(1): 99-107. Disponível em: http://www.eean.ufrj.br/revista_enf/20091/ARTIGO%2012.pdf         [ Links ]

17. Motta MP. Gênero e sexualidade: fragmentos de identidade masculina nos tempos da Aids. Cad Saude Pub 1998; 14(1):145-55.         [ Links ]

18. Nogueira C, Saavedra L, Costa C. Visibilidade do género na sexualidade juvenil: propostas para uma nova concepção sobre a educação sexual e a prevenção de comportamentos sexuais de risco. Pro-Posições [on-line]. 2008 maio/ago; [citado 10 maio 2009]; 19(2): 59-79. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a06v19n2.pdf         [ Links ]

 

 

NOTAS

a Estudo originado a partir do projeto de Pesquisa "Significando o viver saudável para os jovens integrantes dos projetos do Centro Cultural Escrava Anastácia", do Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração e Gerência do Cuidado em Enfermagem e Saúde (GEPADES) do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PEN), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC), Brasil.

É também autora do artigo em questão a pesquisadora Magda Santos Koerich. Enfermeira. Doutoranda do PEN/UFSC. Professora Assistente 4 do Departamento de Patologia da UFSC. Membro do GEPADES e Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Quotidiano e Imaginário em Enfermagem e Saúde (NUPEQUIS) da UFSC E-mail: mskoerich@ccs.ufsc.br.

 

 

Recebido em 01/03/2009
Reapresentado em 26/08/2009
Aprovado em 08/09/2009

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License