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Escola Anna Nery

Print version ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.14 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452010000300003 

PESQUISA

 

Indicativos e características da aprendizagem em uma comunidade virtual de enfermagem

 

Evidences and characteristics of the learning in a nursing virtual community

 

Indicativos y características del aprendizaje en una comunidad virtual de enfermería

 

 

Viviane Modesto FerrazI; Maurício Abreu Pinto PeixotoII; Marcos Antônio Gomes BrandãoIII; Jaqueline Santos de Andrade MartinsIV

IMestre em Tecnologia Educacional nas Ciências da Saúde. Enfermeira Intensivista do Hospital Pró-Cardíaco - RJ, Brasil. Supervisora dos Cursos de Enfermagem do Centro de Treinamento Berkeley. Integrante da Coordenação de Enfermagem da Sociedade de Terapia Intensiva do Estado do Rio de Janeiro (SOTIERJ). Rio de Janeiro-RJ-Brasil. E-mail: vimferraz@yahoo.com.br
IIDoutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da UFRJ. Professor Adjunto e Pesquisador do Laboratório de Currículo e Ensino (LCE/NUTES). Líder do Grupo de Estudos em Aprendizagem e Cognição (GEAC). Orientador do Mestrado.Rio de Janeiro-RJ-Brasil. E-mail: mpeixoto@nutes.ufrj.br
IIIDoutor em Enfermagem. Professor Adjunto do Departamento de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem Anna Nery / UFRJ. Pesquisador Permanente do Grupo de Estudos em Aprendizagem e Cognição (GEAC). Rio de Janeiro-RJ-Brasil. E-mail: marcosbrandao@ufrj.br
IVMestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ. Bolsista pela CAPES. Membro do Núcleo de Pesquisa em Fundamentos do Cuidado de Enfermagem (Nuclearte). Membro do Grupo de Estudos em Aprendizagem e Cognição (GEAC). Rio de Janeiro-RJ-Brasil. E-mail: jaqueenfermagem0401@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

O estudo aborda a aprendizagem em enfermagem em um ambiente virtual constituído na internet.
OBJETIVOS: verificar indicativos de aprendizagem no conteúdo das mensagens textuais; e caracterizar os indicativos verificados nas mensagens eletrônicas.
METODOLOGIA: procedimento metodológico foi o "survey interseccional", com abordagem quantitativa. O material de estudo foi o total de mensagens válidas postadas na primeira fase da comunidade, 864 mensagens. O cenário do estudo foi uma comunidade virtual de enfermagem. O processo de análise foi a leitura inspecional; a partir disso, foi elaborado um conjunto de categorias empíricas que indicaram a aprendizagem na comunidade.
RESULTADOS: observou-se que os membros na comunidade aprendem, fundamentalmente, questionando e solicitando auxílios.
CONCLUSÃO: é possível, através dos ambientes virtuais, adquirir conhecimento para a vida e colaborar com a aprendizagem do outro. Este contato com a diversidade de pensamentos, favorecida pelo mundo digital, pode constituir um novo espaço de construção e circulação do saber.

Palavras-chave: Aprendizagem. Educação Profissionalizante. Internet.


ABSTRACT

The study deals with learning in nursing in a virtual environment of the Internet.
PURPOSE: to verify elements of learning into content of text messages, and characterize these elements recorded in e-mail.
METHODOLOGY: methodological procedure was the "cross-sectional survey", with a quantitative approach. The material of the study were all valid messages posted in the first phase of the community, 864 e-mails. The study setting was a virtual community of nursing. The analysis was made by an inspectional reading and then was found a set of empirical categories that had been indicative the learning in the community.
RESULTS: it was observed that the members of the community learn primarily by questioning and requesting aid.
CONCLUSION: It is possible through virtual environments to gain knowledge for life and learning to collaborate with each other. This contact with the diversity of thought favored by the digital world can be a new area of construction and circulation of knowledge.

Keywords: Learning. Education. Professional. Internet.


RESUMEN

El estudio aborda el aprendizaje en enfermería en un ambiente virtual constituido en la Internet.
OBJETIVOS: verificar indicativos de aprendizaje en el contenido de los mensajes de texto, y caracterizar los indicativos registrados en los mensajes electrónicos.
METODOLOGÍA: procedimiento metodológico fue el "survey interseccional", con un enfoque cuantitativo. El material de estudio fue el total de mensajes válidas enviadas en la primera fase de la comunidad, 864 mensajes. El escenario fue una comunidad virtual de enfermería. Proceso de análisis fue la lectura de inspección y de este, preparado una serie de categorías empíricas que indican el aprendizaje en la comunidad.
RESULTADOS: Se observó que los miembros de la comunidad aprenden principalmente por cuestionar y pedir ayuda.
CONCLUSIÓN: Es posible por medio de ambientes virtuales adquirir conocimientos para la vida y aprender a colaborar entre sí. Este contacto con la diversidad de pensamiento favorecido por el mundo digital puede ser una nueva área de construcción y circulación del conocimiento.

Palabras clave: Aprendizaje. Educación profesional. Internet


 

 

INTRODUÇÃO

A Resolução Conselho Nacional de Educação/Câmara de Educação Superior (CNE/CES) nº 31 que, em âmbito nacional, instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Graduação em Enfermagem, dispõe no seu artigo 5º que a formação do enfermeiro tem por objetivo dotar o profissional dos conhecimentos requeridos para o exercício de competências e habilidades específicas que apontam o adequado de novas tecnologias. Também, recomenda a aplicação das tecnologias com vistas a implementação de estratégias visando a uma aprendizagem ativa e contínua, com base na crítica e reflexão.

A consequência de uma formação desta natureza, correlacionada com a atual conformação da sociedade brasileira, impulsiona o aprendiz para a busca de alternativas de aprendizagem continuada para situações de educação não formal. A educação não formal refere-se aos processos de formação que acontecem fora do sistema de ensino (escolas e universidades), não se atém a uma sequência gradual, não leva a graus nem títulos e se realiza fora do sistema de educação formal.2

Há que se reconhecer a importância para a aprendizagem em enfermagem dos ambientes virtuais constituídos na internet. Ainda que falte uma variedade de estudos que endosse de modo inquestionável o papel desses ambientes na aprendizagem de estudantes e profissionais de enfermagem, eles emergem como extensa alternativa para a aprendizagem não formal.

A educação formal depende de modelos estruturados, hierarquizados e potencialmente limitados em termos de informação que geram uma organização com currículos, metodologias e cronogramas construídos a revelia das características do aluno. Daí decorre a Ordem do Livro ou Cultura do Livro3 que influencia a constituição dos ambientes de ensinoaprendizagem formais.

Na educação não formal há a meta de não desvincular o indivíduo do processo produtivo e da vida cotidiana, muito menos produzir a educação como um constructo definido como um conjunto de verdades estabelecidas a priori. Como exemplo, temos as experiências decorrentes da problematização de Paulo Freire em ambientes presenciais4 e das ferramentas de interação e comunicação da internet, não vinculadas à Educação a Distância (EAD).

A densa comunicação dialógica e a interação social que são essenciais aos modelos de educação não formal tendem a produzir uma infinita quantidade de dados e, portanto, exigir um processamento mais complexo dessas informações, dada a variabilidade de conexões e relações que podem ser estabelecidas daquilo que se constrói no curso da ação de educar. Tal conformação está relacionada à Ordem da Web (ou Cultura da Internet).3

A Ordem da Web assume magnitude crescente e desponta como desafio de compreensão não desprezível. Dados recentes da pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil5 de 2008 indicam que 50 milhões de brasileiros usam a internet. Dos que possuem nível superior, o percentual de usuários supera os 80%.

No que concerne ao uso da internet, 90% dos usuários utilizam a internet para se comunicar, seja por e-mail (77%), por sites de relacionamento (69%), ou mensagens instantâneas (61%). Os dados da pesquisa ainda indicam que no intervalo de 10 a 44 anos de idade todas as três finalidades são utilizadas por mais de 49% dos usuários de internet; no nível superior de informação, por mais de: 93% (e-mail) 64% (sites de relacionamento) 73% (mensagens instantâneas) dos usuários. Por fim, a procura por informações de saúde representa 33% das finalidades de busca de informações e serviços, ampliando à medida que a classe social (61% dos usuários da classe A) e nível de formação (54% dos usuários com nível superior) se elevam.

O quadro delineado demonstra a relevância de encarar como problema de investigação o desconhecimento acerca dos indicativos de aprendizagem presentes em ambientes de educação não formal que tomem a área de enfermagem como de interesse. Contudo, em função da extensão da internet e da diversidade de contextos de aprendizagem disponíveis, os autores recortam como objeto a investigação dos indicativos em mensagens eletrônicas de uma comunidade virtual de enfermagem hospedada em um grupo virtual.

São objetivos do estudo:

. Verificar indicativos de aprendizagem no conteúdo das mensagens textuais.

· Caracterizar os indicativos verificados nas mensagens eletrônicas.

 

METODOLOGIA

O procedimento metodológico foi o survey interseccional, com abordagem quantitativa, sendo possível com esta tipologia de estudo generalizar, no cenário pesquisado, os dados obtidos por meio do material de análise, no caso as mensagens eletrônicas (e-mails) das identidades virtuais.

A característica a ser descrita foi a aprendizagem1. O material de análise foi composto pelo total de 864 mensagens válidas postadas na primeira fase da comunidade. Foram válidas as mensagens sem alterações tipográficas que inviabilizassem a análise do conteúdo.

O cenário do estudo foi uma comunidade virtual de enfermagem fundada há mais de oito anos no Yahoo! Grupos. Reúne atualmente mais de duzentos filiados que se autodenominam pertencentes ao corpo social da enfermagem.

Os participantes se comunicam de forma assíncrona por meio de e-mails que ficam disponíveis para todos do grupo. Atualmente as mensagens ultrapassam dez mil. Neste estudo foram utilizadas como material de análise apenas as mensagens postadas pelas identidades virtuais na primeira fase da comunidade (aproximadamente seis meses). A opção por essas mensagens deveu-se ao fato de estas representarem a etapa em que a comunidade estava sendo constituída e definida inclusive em um escopo de discussão que foi redefinido após essa fase.

A mudança de etapa foi oficializada pelo moderador, constituindo-se na condição de alteração de foco de discussão, e as discussões monotemáticas foram substituídas por discussões de temas diversos relacionados à natureza da enfermagem e à aprendizagem. A formalização da mudança ocorreu na mensagem de número 934. Isto representa o corte temporal para a finalização da coleta no estudo.

O processo de análise foi iniciado pela leitura inspecional, aquela orientada para a pesquisa de uma dada informação,6 das 864 mensagens na busca por conteúdos que, de um modo geral, pudessem expressar a aprendizagem na comunidade. As mensagens apresentam os campos: número da mensagem, autor, data, hora, assunto e o texto da mensagem, conforme exemplo que segue:

Mensagem 01:
De: moderadorfundador@servidordeemail
Data: 17 dias do Mês 0 3:08 am
Assunto: Bem-vindo! Conheça um pouco sobre o que propomos neste grupo

Olá caro membro,Temos o prazer de recebê-lo como membro no Grupo! Teremos enorme prazer em compartilhar com você nossos achados na área do diagnóstico de enfermagem, bem como receber suas contribuições! Esperamos que este site seja uma oportunidade para trocas! Seja bem-vindo!

(M - Moderador)

Esta primeira leitura objetivou a identificação de trechos de texto na mensagem que explícita ou implicitamente expressassem a aprendizagem ocorrida no âmbito da comunidade. Os trechos de mensagens foram então denominados eventos de aprendizagem, e constituíram as unidades de análise.

Posteriormente, os dados emergentes foram confrontados com outros já categorizados no banco de dados da equipe de pesquisa, com vistas a analisar melhor os dados e produzir considerações para a apresentação dos resultados do estudo. Foram exemplos: a distribuição das categorias profissionais, a data em que as mensagens foram enviadas, e o número de mensagens enviadas por cada identidade virtual.

A partir das unidades de análise foi esboçado um conjunto de categorias empíricas que indicaram a aprendizagem nas mensagens. Foram elas:

· Relato explícito de aprendizagem na comunidade: quando na mensagem o indivíduo relatava explicitamente que aprendeu na comunidade, por exemplo: "Aqui eu aprendo muito...".

· Relato de obtenção de novas informações na comunidade: quando o indivíduo relata que obteve novas informações participando da comunidade, por exemplo: "Nem sabia que ...". Neste caso, podemos dizer que se trata de uma aprendizagem que está implícita na mensagem, ou seja, indivíduo não usa a palavra aprendizagem, mas de certo modo relata que aprendeu.

· Relato de cogitação sobre algum tema discutido na comunidade: quando o indivíduo expressa seu processo de reflexão na mensagem, por exemplo: "Estive pensando sobre o tema X ...".

· Questionamento/solicitação de auxílio para resolução de alguma tarefa ou entendimento sobre algum assunto: quando na mensagem existe um questionamento ou pedido de auxílio, seja ele relacionado a enfermagem ou não, por exemplo: "Alguém poderia me ajudar a resolver/entender esta questão... ?".

· Relato de agradecimento sobre alguma questão respondida ou auxílio prestado: quando o indivíduo agradece ao outro que lhe concedeu algum auxílio solicitado, por exemplo: "Muito obrigada pela ajuda".

· Relato de expectativa em relação à aprendizagem na comunidade: quando o indivíduo relata na mensagem seu desejo em aprender na comunidade virtual, por exemplo:"Estou entrando neste grupo para aprender com vcs ...".

A partir da verificação do indicativo de aprendizagem representado pelo eventos de aprendizagem na mensagem, foi gerada uma planilha contendo informações sobre: nº da mensagem; tipo da mensagem (com evento - S -, sem evento - N -, ou automáticas, inexistentes e repetidas - A); e tipo de evento. Cada mensagem que continha evento foi representada na coluna do tipo de mensagem com a letra "S" e na coluna do tipo de evento que apresentava com o nº 1.

Para validação das categorias propostas foram aleatoriamente selecionadas 101 mensagens para serem categorizadas por outros dois pesquisadores (juízes) em relação às categorias e definições propostas.

As opiniões dos juízes foram submetidas a verificação de concordância por intermédio do teste de Kappa, cujo valor geral foi de 0,81 (p<0.001) com limites inferior e superior de 0,73 e 0,89, para um intervalo de confiança de 95%.

Na interpretação dos resultados da concordância interobservadores, o valor de 0,81 indica, na categorização das mensagens, concordância quase perfeita dos observadores.7

Foi aplicada a estatística descritiva objetivando construir por meio dos dados quantitativos as respostas para os questionamentos colocados pelo estudo. No que concerne à apresentação dos dados foram utilizados gráficos, tabelas e figuras com frequências simples e percentuais para apresentar os achados.

O Projeto de Pesquisa denominado "Análise Exploratória de uma comunidade virtual de enfermagem", que produziu o banco de dados utilizado na pesquisa e engloba os procedimentos do estudo, foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery, obtendo parecer favorável aos procedimentos éticos propostos. O Projeto foi aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e consta da relação de projetos aprovados, sob o número: DOC. SISNEP FR-58786.

 

RESULTADOS

A aprendizagem foi aqui indicada e descrita por meio dos eventos de aprendizagem que foram verificados nas mensagens. Das 864 mensagens analisadas, 30% apresentavam eventos de aprendizagem e 70% não apresentavam.

No que se refere aos eventos de aprendizagem, foram identificados seis tipos diferentes que estão representados no Gráfico 1:

A partir dos dados, o indicativo de destaque da aprendizagem aponta para uma situação em que membros da comunidade aprendem, fundamentalmente, questionando e solicitando auxílios. Tais indicativos representaram 44% (136 ocorrências) do total de eventos. Cabe ressaltar que das 136 mensagens de questionamento, 98 são questionamentos de temas relacionados à enfermagem e 38 de temas gerais.

Do Gráfico 1 depreende-se que o relato de agradecimento foi o evento com a segunda mais frequente ocorrência (57 casos), o que pode apontar para interação social de cordialidade. Também, presumir o diálogo entre os participantes dado que tal relato faz par conversacional com os questionamentos e/ou solicitações de auxílio.

Em menor número (50 ocorrências) despontou o relato de expectativa de aprendizagem. De certo modo, quando um indivíduo se torna participante de uma comunidade virtual, espera alguma modificação em seu nível de informação ou conhecimento, em uma intencionalidade de interação. Neste caso, como se trata de uma comunidade de enfermagem, é coerente presumir que eles esperaram aprender assuntos relacionados à enfermagem.

Os 21% restantes tratam dos eventos que, de forma direta, tem relação com o que o indivíduo escreve para a comunidade, referente à sua própria aprendizagem. São os relatos de cogitação (32 ocorrências), em que apresenta seu processo de reflexão; os de aprendizagem explícita (23 ocorrências), e os de aprendizagem implícita (06 ocorrências).

Caracterizada a distribuição dos eventos indicativos de aprendizagem propõe-se, para melhor entendimento, a distribuição por categoria profissional declarada (Gráfico 2).

 

 

Verifica-se que, exceto no caso dos docentes, todos os profissionais enviaram mais mensagens de questionamentos/solicitação de auxílio, seguidos pela categoria de agradecimentos. O mesmo ocorreu com o total de mensagens contendo eventos de aprendizagem. Reforçando a ideia de que há, pelo menos ao que se apresenta, uma relação de ligação entre o que se pergunta e o que seria respondido, uma vez que há o agradecimento como segundo maior evento de aprendizagem encontrado nas mensagens.

Na Tabela 1, como forma de complementar o entendimento, é indicada a proporção de mensagens com eventos de aprendizagem enviadas por cada categoria profissional.

Observa-se que o indivíduo que declarou não pertencer à enfermagem foi o que enviou mais mensagens contendo eventos de aprendizagem. Cada aluno enviou em média 6,8 mensagens, enquanto os enfermeiros enviaram 5,3. Em relação aos docentes, foram 3,3 mensagens, excetuando as do moderador. Este, sozinho, foi responsável por 47 mensagens, o que aumentaria o número de mensagens por docente para 12. Em menor número, observamos os técnicos de enfermagem, com 3,0 mensagens, em média, enviadas. Aqueles que não informaram a profissão também não enviaram mensagens com eventos de aprendizagem.

No total de mensagens com eventos de aprendizagem, cada identidade virtual enviou, em média, 5,6. Considerando as mensagens do moderador, este número aumenta para 6,5.

Até este momento havíamos considerado os resultados referentes à ocorrência dos eventos de aprendizagem e à sua distribuição na amostra, considerando fatores como a categoria profissional. No entanto, surgiu daí uma questão acerca de uma ordenação diferente: Existe uma ordem na qual ocorrem os eventos?

Entendemos que todos os eventos têm características em comum, são relatos de algo que demonstra a aprendizagem explícita ou implícita. O sujeito diz que aprendeu ou que pretende aprender, que obteve novas informações,que pensou sobre algo discutido na comunidade e agradece por ter sido atendido por outros.

O conteúdo da mensagem é, em sua dimensão qualitativa, um indicativo de aprendizagem dos participantes da comunidade virtual. A seguir, são apresentados trechos de mensagens enviadas à comunidade de cujo conteúdo foram destacados os eventos de aprendizagem identificados no estudo.

· Relato explícito de aprendizagem na comunidade

Mensagem 582:
De: alunol@servidordeemail
Data: 15 dias do mês 01 7:08pm
Assunto: Re: [XX] Semana do Falatório

Primeira observação e a mais importante: eu adoro de paixão este grupo!!!! Acredito que este grupo esteja contribuindo para todos, e muito...tenho aprendido muito e conhecido pessoas maravilhosas!!! Espero, assim como o M, o moderador mais paciente e querido de todo o mundo virtual, que discutamos mais sobre diagnóstico de enfermagem, mas nossas discussões são sempre importantes, pois refletem uma inquietude....Enfim, parabéns a este grupo e que cada vez mais ele cresça e apareça!!!!! Bem vinda, minha amiga Michele!
Beijus L :-)

· Relato de obtenção de novas informações na comunidade

Mensagem 815:
De: enfermeirog@servidordeemail
Data: 03 dias do mês 02 10:29pm
Assunto: Re: [XX] Importante: precisamos conhecer TODA a comunidade!

(...) O que mais gosto no XX é a riqueza e diversidade dos conhecimentos, ter pessoas que contribuem efetivamente para meu crescimento pessoal e profissional como o M, E e tantos outros é fantástico. (...)
G.

· Relato de cogitação sobre algum tema discutido na comunidade

Mensagem 26:
De: alunov@servidordeemail
Data: 26 dias do mês 08 11:30 pm
Assunto: Re:[diagnóstico de enfermagem] Registros clínicos, Drogas, e Rock in Roll

Caros colegas, Ao ler o comentário sobre o registro clínico de enfermagem pude refletir sobre algumas questões importantes. (...)
Abraços,V.

· Questionamento/solicitação de auxílio para resolução de alguma tarefa ou entendimento sobre algum assunto

Mensagem 117:
De: alunov@servidordeemail
Data: 28 dias do mês 09 1:46am
Assunto: o que é isso de Enfermagem Aeroespacial?

Gostaria de saber da nossa colega D. o que é isso de Enfermagem Aeroespacial? É algo relacionado com profissionais da aviação? Agravos na saúde que estes profissionais sofrem? Se mais alguém do grupo tiver informações gostaria muito de me informar mais sobre o assunto.
Bejos para todos.

Mensagem 474:
De: enfermeirog@servidordeemail
Data: 01 dia do mês 01 11:21pm
Assunto: Re: [XX] Novos arquivos do Grupo by G. M.

Gostaria de responder a algumas pessoas do grupo sobre estomaterapia e especificamente sobre feridas, mas gostaria de anexar algumas fotos.
Tenho um arquivo bom de fotos e gostaria de compartilhar com vocês. Como poderei fazer isso?
G.

· Relato de agradecimento sobre alguma questão respondida ou auxílio prestado

Mensagem 479:
De: alunog@servidordeemail
Data: 03 dias do mês 01 9:37am
Assunto: Para G.

Olá G.
Muito obrigada por ter respondido a minha dúvida à respeito da papaína.
Agradeço de coração. Feliz Ano Novo. Academica G.

· Relato de expectativa em relação a aprendizagem na comunidade

Mensagem 190:
De: alunoj@servidordeemail
Data: 07 dias do mês 11 1:35am
Assunto: UM NOVATO

OI PESSOAL, SOU ALUNO DA UFRN E ESTOU QUERENDO CONHECER E TROCAR INFORMAÇÕES COM ALUNOS E PROFISSIONAIS DA ÁREA.

Os segmentos de mensagens apresentados, além de apresentarem relatos de aprendizagem, demonstram a interação entre as identidades virtuais participantes da comunidade. O conteúdo das mensagens apresenta, na maioria das vezes, respeito, atenção e colaboração com o outro para permitir a aprendizagem de todos. Tal fato vem corroborar com a natureza da enfermagem, em que o processo de interação e relação interpessoal é um conceito central para a profissão.

 

DISCUSSÃO

A aprendizagem na comunidade foi representada neste estudo por meio dos eventos passíveis de identificação nas mensagens dos membros da comunidade.

Embora os eventos aparecessem em um terço das mensagens (como apresentado no Gráfico 2), este número se torna significativo quando consideramos a natureza da comunidade. Trata-se de uma comunidade virtual de aprendizagem não formal, e mais, a temática aprendizagem foi identificada em apenas 4% das mensagens.8

Esses fatores podem ter interferido na ocorrência dos eventos de aprendizagem, uma vez que, na educação não formal, não há uma obrigatoriedade em atingir graus ou títulos, o aprendiz é livre para fazer suas escolhas sobre como aprender.2

As novas tecnologias da informação e comunicação, em especial a internet com seu modo flexível de participação e aprendizagem, desempenharam um papel notável nas últimas décadas ao oferecer um conjunto de oportunidades de estudo independente, inclusive facilitando a inserção e desenvolvimento continuado de estudantes classificados em um perfil não tradicional (profissionais em educação contínua, adultos reinseridos no sistema educacional, entre outros).9

Na comunidade, nem sempre os temas tratavam diretamente de conteúdos de discussão sobre o processo de aprendizagem, o que pode restringir relatos explícitos de tal natureza. Assuntos relacionados à enfermagem foram os mais frequentes (51% dos temas de conversação). Porém, considerando a composição dos participantes da comunidade virtual, pode-se presumir a existência de uma relação entre os interesses de educação não formal relacionados ao cotidiano do indivíduo com a maior frequência de temas de enfermagem. De um modo indireto, isso presume uma indicação de interação para a aprendizagem profissional.

Os eventos de aprendizagem que foram identificados tratam de indicativos da aprendizagem adquirida pela interação na comunidade virtual. Entretanto, existem diferenças entre eles em relação à natureza do evento. Os quatro primeiros eventos descritos - relato explícito de aprendizagem na comunidade; relato de obtenção de novas informações na comunidade; relato de cogitação sobre algum tema discutido na comunidade; questionamento/solicitação de auxílio para resolução de alguma tarefa ou entendimento sobre algum assunto - consideram o que o indivíduo aprendeu ou como agiu para aprender (no caso do questionamento). Os outros eventos - relato de agradecimento sobre alguma questão respondida ou auxílio prestado e relato de expectativa em relação a aprendizagem na comunidade - consideram a troca e a motivação entre os indivíduos.

Em estudo realizado com mensagens da mesma comunidade virtual verificou-se que as ações participativas dos membros que mais predominaram foram o comentário (23%), o questionamento (14%) e a resposta (12%), formando uma "tríade da conversação".10 A caracterização baseada na participação subsidia o entendimento de que são grandes as chances de aprendizagem por colaboração e compartilhamento de informações e reflexões.

O Gráfico 1 demonstrou que os eventos de aprendizagem com maior ocorrência foram os de questionamento/solicitação de auxílio para resolução de alguma tarefa ou entendimento sobre algum assunto (44%) e os de agradecimento sobre alguma questão respondida ou auxílio prestado (19%). Do mesmo modo que questão-respostacomentário são conectados logicamente, assim o é o pedido de auxílio e agradecimento. Esse par conversacional indica coesão social e preocupação com a necessidade de conhecimento do outro.

Em uma comunidade de prática, isto é, aquela em que a meta é compartilhar práticas e melhorar condições de trabalho, o que tende a manter os indivíduos aproximados é o conhecimento situado e socialmente construído.11 Parte significativa dos eventos de aprendizagem pode permitir que se presuma que a coesão entre os participantes tenha relação com as necessidades de conhecimento indicadas em questionamentos e pedidos de auxílio, bem como nos comentários que tendem a ampliar e aprofundar a magnitude de uma conversação em experiências da prática.

Ao correlacionar as mensagens de conversação com as que contêm eventos de aprendizagem, identificam-se que 82% das mensagens com eventos de aprendizagem eram também mensagens pertencentes a uma conversação.12 Então, tornase apropriado afirmar que nesta comunidade virtual a aprendizagem está fortemente relacionada à interação com o outro. Maturana13 é um dos autores que defende que o aprendizado se faz em uma rede de conversações.

Os eventos que mais ocorreram (questionamento/ solicitação de auxílio e agradecimento) estão relacionados à interação com o outro para a aprendizagem. O aluno virtual bem-sucedido sabe trabalhar e trabalha em conjunto com seus colegas para atingir seus objetivos de aprendizagem.14

Na distribuição dos relatos de aprendizagem por categoria profissional, todos os profissionais enviaram mais mensagens de questionamentos/solicitação de auxílio, seguida pela categoria de agradecimentos, exceto para os docentes. O mesmo ocorreu com o total de mensagens contendo eventos de aprendizagem. No grupo docente prevaleceu o relato de expectativa de aprendizagem.

É de se esperar, pelo menos nos meios presenciais, que docentes tenham maiores expectativas de aprendizagem. Na comunidade virtual não foi diferente, conforme demonstrado pelo evento mais prevalente em suas mensagens. Na prática, docentes ensinam para que outros possam aprender, e para tal é necessário que eles próprios tenham aprendido previamente.

A relação entre número de mensagens com eventos de aprendizagem e número de indivíduos por categoria profissional declarada (Tabela 1) foi de 5,6 mensagens contendo eventos de aprendizagem, por identidade virtual. Este número é ainda maior (6,5 mensagens) se consideradas as mensagens do moderador. O moderador, por sua condição diferenciada dos demais participantes, foi excluído.

 

 

O indivíduo que declarou não pertencer à enfermagem foi o responsável, pelo menos na média, pelo maior número de mensagens contendo eventos de aprendizagem. Do conteúdo analisado nas mensagens, verificou-se que ele estava desejoso por informações gerais sobre a natureza da enfermagem e sobre a atuação profissional do enfermeiro.

Todo este contexto de aprendizagem centrado no aprendiz justifica a defesa do argumento de que os estudantes de enfermagem precisam ser entendidos como parceiros no processo ensino-aprendizagem,15 sentindo-se com direitos de elaborar os questionamentos críticos, de enfrentar os desafios de encarar os próprios temores e riscos e exercer a coragem de se manifestarem diante de seus possíveis erros e de suas opiniões pessoais. Mesmo assim, destaca-se que eles necessitam do apoio e da ajuda pedagógica para assumir esta postura epistemológica ativa no processo de aprender a pesquisar e a construir o conhecimento na área da enfermagem.

Em ambientes virtuais, o apoio pedagógico pode vir de diferentes identidades virtuais e por meio de conexões dialógicas que tendem a ampliar a perspectiva do conhecimento. Ainda mais, permite a individuação dos percursos de aprendizagem, personalizando a atenção oferecida aos alunos, respeitando características pessoais como o ritmo de aprendizado.16

A rede de conversações que promove o aparecimento de eventos de aprendizagem também se relaciona com a construção da comunidade virtual. Para a constituição de uma comunidade virtual de enfermagem, são fatores determinantes o objetivo da interação social, e do estabelecimento de relacionamentos de colaboração, e cooperação entre os participantes para a constituição de uma comunidade em uma lista de discussão.6

 

CONCLUSÕES

No alcance deste estudo, o que difere o presencial do virtual é a maneira com a qual a aprendizagem se dá. Na maioria das vezes, no meio presencial, o professor está no centro do processo de aprendizagem e esta ocorre aos moldes de um modelo mecanicista ainda prevalecente. Em contrapartida, os ambientes virtuais - principalmente em uma comunidade virtual de educação não formal - o aluno (neste caso, cada participante da comunidade) está no centro do processo de aprendizagem e tem autonomia para desenvolvêlo da maneira que julgar mais adequada para si.

As diferentes relações que ocorrem nesta comunidade como, por exemplo, a colaboração e interação, têm como fim a aprendizagem. Quando se trata da especificidade da enfermagem, estas relações de colaboração e interação se tornam mais evidentes no contato dos profissionais com seus pacientes. Porém, observa-se que na comunidade virtual de enfermagem estas relações ultrapassam o cuidado e o contato físico com o outro e dão espaço à construção coletiva de conhecimentos, utilizando os meios que a tecnologia oferece, desde o simples uso do computador até a utilização de tecnologias capazes de modificar a maneira de sentir, pensar e agir.

Supõe-se que a ocorrência dos relatos de aprendizagem tenha tido relação direta com as interações e conversações observadas em estudos que tiveram a comunidade virtual de enfermagem como cenário. A aprendizagem na comunidade em tela não dependeu somente do interesse do indivíduo em aprender, como muitas vezes ocorre nos meios presenciais, dependeu ainda de um contexto que incluiu não só todo aparato tecnológico como também o interesse do outro em ser (em parte) responsável pelo aprendizado coletivo.

Ao final deste estudo podem-se fazer algumas considerações no que tange a aprendizagem em comunidades virtuais. A primeira delas é que é possível identificar indicativos de aprendizagem em mensagens de textos de participantes de uma comunidade virtual de enfermagem. A segunda é que é possível descrever a aprendizagem que ocorre dentro de uma comunidade virtual de enfermagem.

E mais, é possível, através dos ambientes virtuais, adquirir conhecimento para a vida e colaborar com a aprendizagem do outro. Este contato, com a diversidade de pensamentos favorecida pelo mundo digital, pode constituir um novo espaço de construção e circulação do saber, ampliando o ambiente físico no virtual, configurando, assim, uma nova ecologia do saber.

 

REFERÊNCIAS

1. Resolução CNE/CES n.3, de 09 de novembro de 2001. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília (DF), 09 nov 2001: Seção 1: 37.         [ Links ]

2. Ministério da Educação (BR). Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Disponível em: http://www.inep.gov.br/pesquisa/thesaurus.asp?te1=122175&te2=122350&te3=37499.         [ Links ]

3. Santos NB. Comunidades virtuais e popularização da saúde. Rede de Informações para o Terceiro Setor. [on-line] 2007 maio: [aprox. 12 telas]. Disponível em http://www.rits.org.br/redes_teste/rd_tmes_mai2007.cfm#vref1        [ Links ]

4. Alves LV. Educar, um ato radical de comunicação: para pensar Paulo Freire e a sociedade em mudança. Rev Fronteiras: estudos midiáticos. 2006 maio/ago; 8 (2): 123-32        [ Links ]

5. Comitê Gestor da Internet no Brasil (BR). Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informação e da comunicação no Brasil 2008. São Paulo(SP); 2009.         [ Links ]

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Recebido em 29/07/2009
Reapresentado em 06/01/2010
Aprovado em 03/03/2010

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