SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue4The theatre in focus: a ludic strategy for educational work in the family healthThe crisis of paradigms in science and the new perspectives in nursing author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Escola Anna Nery

Print version ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.15 no.4 Rio de Janeiro Oct./Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452011000400023 

REFLEXÃO

 

Teoria ego-ecológica e o estudo da identidade social : aplicabilidade em pesquisas de enfermagem

 

The ego-ecological theory and the study of the social identity applied to nursing research

 

Teoría egoecológica y el estudio de la identidad social : aplicabilidad en la investigación en enfermería

 

 

Rosâne MelloI; Antônia Regina Ferreira FuregatoII

IDoutora em enfermagem psiquiátrica; Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto/UNIRIO. Rio de Janeiro- RJ. Brasil. E-mail: rosane.dv@gmail.com
IIDoutora em enfermagem psiquiátrica; Professora Titular do Depto. de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da EERP/USP. Ribeirão Preto - SP. Brasil. E-mail: furegato@eerp.usp.br

 

 


RESUMO

A enfermagem vem trilhando caminhos teórico-metodológicos mais sensíveis para desenvolver um conhecimento que discuta, analise e fundamente sua prática cotidiana. O objetivo deste texto foi refletir sobre as bases metodológicas e a aplicação da Teoria Ego-ecológica nas pesquisas em enfermagem. Por este caminho, é possível conhecer a identidade do indivíduo, suas peculiaridades e sua realidade, através das representações que ele possui acerca de si mesmo, de seus grupos de pertencimento e da sociedade. A Teoria Ego-ecológica entende a identidade como um modo de construção da realidade, a partir do qual o mundo exterior funde-se ao mundo interior a partir da história de vida do indivíduo. A análise Ego-Ecológica permite compreender o cliente e suas complexidades e paradoxos e as relações que estabelece no contexto da família, do trabalho, do lazer e nas situações sociais no espaço micro ou macrossocial.

Palavras-chave: Pesquisa em enfermagem. Pesquisa qualitativa. Relações interpessoais. Identificação social.


ABSTRACT

Nursing has been through theoretical and methodological paths more sensible to the development of a kind of knowledge that is able to discuss, to analyze and provide a basis to its daily practice. This text aims to discuss the methodological basis and the application of the ego-ecological theory in nursing research. According to this theory it is possible to know the individual's identity, its peculiarities and its reality, by means of his/her self-representations and the representations (s)he has about his/her social groups. The ego-ecologic theory sees identity as a reality construct in which the outer world and the inner world merge in face of the individual history. The ego-ecological analysis allows one to understand the client and his/her complexities and paradoxes and the relations established on family, work, leisure and micro-social and macro-social levels.

Keywords: Nursing research. Qualitative research. Interpersonal relations. Social identitification.


RESUMEN

La enfermería pasa por caminos teóricos y metodológicos más sensibles para desarrollar los conocimientos para discutir, analizar y fundamentar su práctica cotidiana. El objetivo de este texto es reflexionar sobre las bases metodológicas y la aplicación de la Teoría Egoecológica de investigación en enfermería. A través de esta forma, es posible conocer la identidad del individuo, su propia cultura y realidad a través de las representaciones que tiene sobre sí mismo, su pertenencia a grupos y la sociedad. La teoría Ego ecológica comprende la identidad como una forma de construir la realidad, desde que el mundo exterior venga a unirse con el mundo interior de la historia de vida de la persona. El análisis Ego Ecológica permite comprender al cliente y sus complejidades y paradojos y las relaciones que se establecen dentro de la familia, del trabajo, del ocio y las situaciones sociales en el espacio micro o macro social.

Palabras clave: Investigación en enfermería. Investigación cualitativa. Relaciones interpersonales.Identificación social.


 

 

INTRODUÇÃO

Ao longo do tempo, a enfermagem vem trilhando vários caminhos teórico-metodológicos e continua buscando métodos mais sensíveis para desenvolver um conhecimento que discuta, analise e fundamente a prática cotidiana da enfermagem. Neste sentido, acredita-se que a prática (ciência), e a arte (criatividade) constituem a força da enfermagem à procura de novos paradigmas, novos rumos e de novas linguagens, inclusive na arte de pesquisar.1

Este estudo apresenta a proposta metodológica de Marisa Zavalloni2, psicóloga social canadense. Trata-se do referencial teórico-metodológico "Teoria ego-ecológica", que é uma das vertentes da Teoria das Representações Sociais. Através desta metodologia, é possível conhecer a identidade do indivíduo, suas peculiaridades e sua realidade, por meio das representações que ele possui acerca de si mesmo, assim como do seu grupo de pertencimento. Vale destacar que a Teoria Ego-Ecológica possibilita a compreensão mais profunda não só do indivíduo que precisa de ajuda, mas também de todo o ambiente histórico e cultural envolvido no processo saúde/doença, otimizando o cuidar em enfermagem.

O objetivo, portanto, deste texto é apresentar uma reflexão sobre as bases metodológicas para a aplicação da Teoria Ego-ecológica nos estudos e pesquisas em enfermagem.

 

A ENFERMAGEM E A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

A investigação científica no Brasil iniciou-se com a criação da Escola de Enfermagem do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), em 1923. Concretizou-se em 1932 com a criação do primeiro veículo de divulgação de informações de enfermagem, os "Annaes de Enfermagem", que desde 1954 passou a se chamar Revista Brasileira de Enfermagem -REBEn.3

A Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) teve importante papel, organizando, entre 1956 e 1958, o primeiro estudo sistematizado que recebeu o título de "Levantamento de Recursos e Necessidades em Enfermagem". Esta investigação foi realizada com o apoio da Fundação Rockefeller, da Organização Mundial de Saúde (OMS), Ministério da Educação, Ministério da Saúde, Comissão Nacional de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Serviço Especial de Saúde Pública (SESP).4

Outros fatos importantes marcaram a história da pesquisa em enfermagem no Brasil, como a Reforma Universitária em 1968 que indicava e ratificava a importância da associação do ensino com a pesquisa, assim como a criação do primeiro curso de pós-graduação em nível de mestrado, na Escola de Enfermagem Anna Nery, em 1972.3

Com o apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa de São Paulo (FAPESP) foi realizado um minucioso estudo sobre a criação e o desenvolvimento da pós-graduação no Brasil e seus reflexos na formação de pesquisadores para todo o território nacional e a criação e consolidação de Núcleos de pesquisa na enfermagem brasileira.5 Observa-se que a pós-graduação teve influência marcante na produção do conhecimento pelas enfermeiras.

Nas décadas de 1950 e 1960, as pesquisas de enfermagem no Brasil focalizavam o ensino e a profissão, as necessidades sentidas pelos pacientes, a avaliação da assistência de enfermagem, o estudo de métodos para melhorar a qualidade do cuidado e o rendimento das atividades.6 Até a década de 1980, o foco estava na metodologia de assistência em enfermagem, necessidades do paciente, ensino, avaliação da assistência, a profissão, a equipe de enfermagem, epidemiologia e biologia.

Levantamento realizado em periódicos de enfermagem entre os anos 1990 e 2000, na área de saúde da mulher, revelou tendência para os estudos baseados em técnicas qualitativas, voltadas para o aspecto assistencial. 6 As abordagens metodológicas mais comumente utilizadas por enfermeiros foram as Representações Sociais e a Fenomenologia. Neste sentido, faz-se importante destacar que a abordagem qualitativa possibilita maior aproximação entre o pesquisador e o pesquisado, facilitando uma relação dialógica entre os profissionais e seus clientes, ampliando o conhecimento dos aspectos culturais da população.6

O enfermeiro lida diariamente com sentimentos, dores e angústias dos clientes e, muitas vezes, está inserido em um contexto de trabalho pobre de recursos que o auxiliem neste cuidado. A pesquisa é o instrumento indicado para observar de forma sistematizada a especificidade e a complexidade do ser humano, facilitando a prática do cuidado e possibilitando o desenvolvimento de concepções e ações mais adequadas às especificidades do trabalho do enfermeiro.1

O enfermeiro, ao entrar em contato com a subjetividade e a peculiaridade de sua clientela, tenta estabelecer uma relação terapêutica com o cliente, pois o espaço do cuidar é atravessado tanto pelo cotidiano do cliente quanto pelos seus sentimentos, saberes e hábitos de vida.7

A aproximação dos pesquisadores da enfermagem com as técnicas qualitativas e, consequentemente, das representações sociais tem coerência com uma prática matizada por tons humanísticos. Desta forma, o profissional pode perceber o cliente de forma integral, inserido no contexto social, cultural e político, o que possibilita a construção de um cuidado mais adequado às necessidades do cliente.6,7 Neste sentido, o enfermeiro precisa conhecer melhor os fenômenos histórico-sociais, de forma tal que articule o saber e o fazer, tendo como ponto central o cliente no seu contexto psicossocial.

O cuidado em enfermagem não deve ser visto como algo apenas técnico, superficial, repetitivo e generalizável, mas como algo denso, complexo e principalmente singular. Os enfermeiros têm por base o que cada sujeito sente, pensa, vivencia, deseja e sofre de forma única, pois cada um vive a sua própria história, em seu próprio ambiente ecológico.8 O ambiente ecológico inclui as relações sociais, culturais, políticas e a subjetividade que é peculiar a cada sujeito inserido em seus vários contextos.2

 

A ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA EGO-ECOLÓGICA E O ESTUDO DA IDENTIDADE SOCIAL

Marisa Zavalloni é estudiosa da área das representações sociais e professora da Universidade de Montreal, no Canadá. Suas publicações iniciaram-se na década de 1960, tendo inclusive produzido textos em conjunto com Moscovici, Doise e outros pesquisadores das representações sociais. Na década de 1980, publicou vários textos em um referencial teórico-metodológico que intitulou Teoria Ego-ecológica. Por meio deste referencial, a autora entende o indivíduo não como um receptor passivo, mas como um participante ativo de seu mundo. Apresenta o indivíduo inserido em um projeto matizado por lutas e por conflitos, onde ele participa da situação em questão, transformando e sendo transformado.9

Através da linguagem é possível alcançar maior compreensão do sujeito, pois pode ser usada como um instrumento de ação e de reprodução de uma determinada ordem social. O estudo da linguagem permite observar sistemas classificatórios que expressam sentimentos e pensamentos relativos à identidade do indivíduo e seus valores culturais. Vale destacar que através da linguagem o indivíduo expressa sua percepção acerca de sua identificação ou diferenciação de aspectos como etnia, gênero, classe, religião, entre outros. Cada grupo desenvolve um vocabulário para marcar sua identidade e se diferenciar dos outros e, desta forma, elaborar novos significados constantemente. Os significados atribuídos às palavras são utilizados para ampliar o vínculo da linguagem a uma experiência ou a um projeto específico.11

A interação de uma pessoa com seu meio social pode ser deduzida ou mensurada como produto de uma realidade exterior. Entretanto, o resultado final estaria incompleto, sendo então necessário considerar o interior do indivíduo, representado através das palavras e seus significados que tanto podem estar cristalizados ou em processo de transformação ou atualização.2

As representações não são somente ideias ou a tradução mental de uma realidade exterior, mas refletem o espaço imaginário e simbólico do indivíduo. As representações sociais são criações que expressam valores e concepções da pessoa sobre si mesma, sobre as pessoas com as quais convive e sobre a sociedade, sendo este o objeto de estudo da Teoria ego-ecológica. As representações, estando vinculadas às palavras e aos temas, possuem uma ressonância particular, captando aspectos relativos à identidade, às experiências, lembranças e imagens pessoais.2

A partir da Ego-ecologia busca-se entender a maneira como um ambiente exterior específico é constituído e como se organiza em um ambiente interior. Este método busca entender como se constroem as diferentes realidades e as regras que geram as motivações e ações da pessoa.2

A identidade surge como o lugar de encontro do individual e do social, do objetivo e do subjetivo. É um método indicado para estudar a mediação entre o meio exterior e o interior e a identidade é percebida como o produto da história pessoal e individual, que reflete as experiências passadas. Pela Teoria Ego-ecológica, a identidade é compreendida como um modo de construção da realidade, a partir do qual o mundo exterior é introjetado em função de um projeto e de uma história particular. A identidade é o produto da interação do sujeito com o mundo que, em contrapartida, também influencia o seu próximo.9

A Ego-ecologia compreende uma dinâmica que permite conhecer a construção e a reconstrução da identidade através de três dimensões interligadas, ou seja, as representações que um indivíduo possui acerca de si mesmo, dos outros (indivíduos ou grupos) e da sociedade.2

Para que se tenha uma representação mais abrangente do individuo é necessário que ele seja percebido como resultado de sua interação com os outros e com a sociedade. O senso que a pessoa elabora sobre o outro tem ligação direta com as relações imaginárias e reais que possui acerca de si mesma.10

A Ego-ecologia procura compreender as representações do sujeito a partir do ambiente interior, através da maneira como os conteúdos são organizados na memória, as lembranças pessoais, as imagens e as experiências. O ambiente interior reflete as situações concretas, do mesmo modo que as situações imaginárias refletem as relações com os outros, com a sociedade, sobre o desejo e a probidade. Esta análise permite conhecer o microcosmo do indivíduo e suas regras, através das representações que ele constrói sobre cada tema.2

A Ego-ecologia situa-se no pensamento consciente ou pré-consciente, quer dizer, nas representações e nas lembranças pessoais, imagens ou experiências que surgem da memória. Neste sentido, a memória seria o reservatório do pensamento consciente. É o que a autora chama de memória emocional do mundo.2

O método de busca dessas memórias é ativo e, através das palavras e opiniões do individuo, identifica as representações acerca de si mesmo, das pessoas que o cercam e dos diversos grupos nos quais está inserido; permite conhecer atributos (positivos ou negativos) construídos sobre o tema pesquisado, bem como os graus de importância dentro do seu sistema de valores.2

 

ANÁLISE EGO-ECOLÓGICA: O MÈTODO

O sistema de levantamento de dados desenvolve-se em três etapas, tendo como ponto de partida o entendimento de que toda pessoa está inserida em uma matriz social, fazendo parte, concomitantemente, de diferentes grupos sociais e culturais. Os grupos dos quais a pessoa faz parte constituem-se em categorias onde se inscreve a identidade social objetiva e o delineamento de perfil do sujeito. Estas categorias são obtidas através do grau de identificação ou dissociação do sujeito com os membros do grupo e/ou da sociedade na qual está inserido.2

A primeira etapa (subdividi-se em três fases) primeiramente se obtém de forma sistemática, através da complementação de frases, da representação que o sujeito faz de si mesmo e dos diferentes grupos aos quais pertence. Faz-se necessário destacar que as frases devem ser completadas a partir de dois estímulos distintos ("Nós" e "Eles"), tal como nos exemplos abaixo:

- "Como enfermeiras, nós..."; "Como mulheres, nós..."

- "Como enfermeiras, elas..."; "Como mulheres, elas..."

Este duplo estímulo (nós e eles) tem por objetivo gerar certo afastamento do entrevistado do objeto de representação, além de facilitar o julgamento crítico de si mesmo e de seus pares.

O material expresso através de frases ou de palavras compõe a Identidade Social Subjetiva, através da qual se observam aqueles aspectos dos membros dos grupos com os quais o sujeito se identifica ou se diferencia.

Após a complementação de frases, o entrevistado atrela os conteúdos citados à própria pessoa através da autoinclusão ou da autoexclusão. Tal classificação gerará uma identificação especifica com os aspectos sociais, culturais, históricos, psicossociais e/ou políticos do objeto de investigação. Neste momento, pergunta-se ao entrevistado se ele se identifica (autoinclusão) ou não (autoexclusão) com os conteúdos citados por ele.

No terceiro momento, retorna-se ao conteúdo produzido e solicita-se ao entrevistado que classifique as características em atitudes positivas ou negativas, para observar os campos simbólicos onde se depositam as realizações, as atitudes, os projetos e os desejos do indivíduo.

Através do levantamento dos temas ou das palavras-chave são construídas as imagens do grupo e, ao mesmo tempo, é possível compreender a percepção que o indivíduo possui acerca de ser, ter e fazer.

A segunda etapa tem por objetivo elucidar e aprofundar o estudo acerca das representações sociais que estão sendo investigadas. De forma sistemática busca-se compreender a história do indivíduo, assim como sua relação com os atributos citados. Esta busca pode ser realizada através de perguntas, como por exemplo, o que vem à sua mente quando pensa acerca do conteúdo citado, ou ainda a descrição do grupo que mais se assemelha a ele e do grupo que mais se diferencia. Dos conteúdos obtidos na coleta destes dados, o pesquisador pode destacar:2

1)O que o sujeito atribui a si mesmo;

2)As referências implícitas sobre os grupos, sobre as pessoas ou sobre as imagens nas quais ele reflete sua própria identificação a respeito do objeto investigado;

3)A atribuição de valor (positivo ou negativo) a cada um dos significados no que concerne ao grupo e ao indivíduo.

Procura-se ordenar este material, tomando-se por base um sistema de identificação e de oposição binária considerando-se três aspectos:2

· Eu x Outro;

· Bom x Mau;

· Importante x Não importante.

A análise dos conteúdos expressos pelos sujeitos conduz a quatro possíveis categorizações da identidade do indivíduo:2

I. Identificação positiva com o grupo => Valorização das qualidades intrínsecas e extrínsecas do objeto investigado;

II. Diferenciação positiva com o grupo => Valorização dos aspectos diferenciais;

III.Identificação negativa com o grupo => Desvalorização intrínseca e extrínseca ligada a privação ou vitimização;

IV.Diferenciação negativa com o grupo => Desvalorização dos aspectos intrínsecos que se apresentam como oposição, causando privação ou ameaça.

Esta análise contextualizada do ambiente histórico e social oferece indicadores do quanto a pessoa está impregnada pelo sistema de significação deste contexto. A partir daí, o pesquisador observa se há diferenciação positiva ou negativa com o objeto do estudo, possibilitando a construção de categorias que indicam uma aproximação ou afastamento entre a identidade do entrevistado e a identidade do grupo em que ele está inserido. Vale ressaltar que, ao compreender a percepção do indivíduo a respeito dos integrantes de um grupo, é possível conhecer as características essenciais que o indivíduo manifesta a respeito de si mesmo (tanto aquelas com as quais se identifica como aquelas das quais se dissocia).

A terceira etapa é intitulada "Contextualização Representacional". São os procedimentos de retomada de cada palavra e de sua exploração junto com o próprio sujeito da pesquisa.2

Nesta fase da análise, são percorridos os conteúdos coletivos (história do grupo, projetos e privações sociais) e os conteúdos individuais (biografia, projetos e estratégias de adaptação) sobre o tema focalizado.

São feitas perguntas sobre o significado do conteúdo para aquele grupo, justifica-se aquela associação ao grupo, situações particulares são lembradas, entre outros.

A análise do conteúdo obtido nesta etapa permite que aspectos da identidade sejam observados e analisados. Os seguintes critérios para construção de eixos de identidade são definidos: identificação positiva com o grupo; identificação negativa com o grupo; diferenciação positiva com o grupo; e diferenciação negativa com o grupo. Nesta fase, o pesquisador não realiza nenhum tipo de inferência, pois o próprio entrevistado já classificou suas respostas. Após a alocação dos atributos informados nos eixos, observa-se através da contagem simples o quantitativo de respostas em cada quadrante do eixo. O resultado permite estabelecer o grau de identificação dos indivíduos com seus pares, com os indivíduos de outros grupos com os quais convive e com a sociedade.9

 

RESULTADOS

A organização das respostas em eixos, baseia-se na valoração dos atributos feita pelos próprios entrevistados, no momento em que completaram as frases. Os termos egomórfico e alomórfico são utilizados como indicadores do grau de identificação do indivíduo com o atributo citado por ele. 2,9,10

O termo "egomórfico" (características aplicadas a si mesmo) é utilizado para indicar que o entrevistado se identifica com o atributo que referiu para o sujeito ou situação em questão. Por sua vez, o termo "alomórfico" (características dissociadas de si mesmo) é aplicado quando o sujeito informa não se identificar e se dissocia das características destacadas por ele e que se relacionam com o sujeito ou situação referida.2

Vale a pena ratificar que além de informar se há identificação ou não com o atributo citado, o entrevistado também classifica suas respostas em positivo ou negativo. Foram desenvolvidos parâmetros e quadros que apontam alguns caminhos possíveis para o desenvolvimento da análise dos dados na Teoria Ego-Ecológica.8 Através da contagem dos atributos em cada eixo inicia-se a análise dos dados propriamente dita. O Quadro 1 foi construído como parâmetro de análise das respostas8:110, intitulado pela autora como "Espaço Elementar de Identidade Social". Este quadro de análise diz respeito à maneira como o entrevistado compreende sua relação com o seu par ou com um determinado grupo, tendo o centro deste construto o objeto de representação:

Há quatro maneiras de proceder à avaliação das respostas dos entrevistados, de acordo com a distribuição dos resultados obtidos nos eixos do Espaço Elementar de Identidade Social:2

A-Se a maioria das respostas ('Nós' e 'Eles') se encontra nos polos egomórficos, há uma importante identificação do sujeito com o grupo. A codificação do grupo evoca dimensões ou atitudes similares às do grupo. O sujeito tem uma tendência a ter uma visão positiva de si mesmo, do grupo e em relação ao objeto pesquisado;

B-Se há preponderância das respostas referentes a 'Nós' nos polos egomórficos, da mesma forma em que há preponderância das respostas referentes a 'Eles' nos polos alomórficos, isto indica a existência de subgrupos. O sujeito estabelece aproximação ou afastamento dos subgrupos, de acordo com sua identificação. Neste caso, 'Nós' indica as qualidades positivas e 'Eles' os defeitos, os traços rejeitados e os contravalores;

C- Se a maioria das respostas relativas a 'Nós' se encontra nos polos alomórficos e relativas a 'Eles' nos polos egomórficos, isto indica um código em que 'Eles'evoca aspectos ideais do grupo, enquanto 'Nós' evoca os limites e as falhas. Neste caso, as características positivas estão relacionadas a 'Eles' e as negativas, a 'Nós';

D-Se a maioria das respostas ('Nós' e 'Eles') se situa nos polos alomórficos, há indicação de distanciamento do sujeito entrevistado com o grupo em estudo. Neste caso, frequentemente 'Nós' e 'Eles' são codificados como subgrupos, diferentes do próprio sujeito. Tanto os aspectos positivos como os negativos podem afetar o sujeito, dependendo do significado atribuído à identidade do outro.

Observa-se que este método permite utilizar diferentes eixos de significação e análise, explicitando o valor de cada palavra trabalhada, procurando desdobrar cada eixo temático em torno das representações elaboradas. Esta característica permite que, todas as vezes que seja retomada a análise, ocorra a geração de novas dimensões passíveis de serem exploradas, quer seja através do aspecto grupal, individual, histórico, social, cultural ou político.

Através do estudo da identidade social, há a proposta de quatro dimensões psicológicas relevantes para a compreensão das representações sociais do sujeito em estudo:11

• As representações ligadas a um saber referente à identidade do indivíduo e do(s) grupo(s) em estudo;

• A articulação entre as representações do grupo e as do próprio individuo;

• Os limites do conceito de grupo

• A percepção do entrevistado em uma situação social complexa.

Este método pode ajudar a entender mais efetivamente a inserção e a relação dos clientes no seu meio social. Também possibilita o acesso aos sentimentos e emoções que emergem deste sujeito nas suas relações sociais. Os aspectos técnicos da proposta estão presentes em inúmeras pesquisas que abordam a questão da identidade social. 2,9,10,11, 12

 

APLICAÇÃO DO MÉTODO

Tendo como base o referencial teórico-metodológico da Ego-ecológica, desenvolveu-se a tese de doutoramento intitulada "Identidade Social de Usuários, Familiares e Profissionais de um Centro de Atenção Psicossocial no Rio de Janeiro".12 O estudo teve por objetivo conhecer a identidade dos usuários, familiares e profissionais que atuavam no cenário dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e conhecer os significados relacionados ao serviço. A pesquisa foi realizada com 11 usuários, 11 familiares e 12 profissionais. Esta abordagem teórico-metodológica permitiu conhecer a identidade do indivíduo, suas peculiaridades e sua realidade através da representação que os entrevistados possuíam acerca de si mesmo e de seus grupos de pertencimento. Permitiu compreender cada sujeito/identidade inserido em seu contexto, assim como as relações estabelecidas entre eles e seus pares e entre eles e os sujeitos dos outros grupos com os quais se relacionava no cotidiano do atendimento no CAPS.

Através da aplicação do referido referencial teórico-metodológico foi possível observar fatores facilitadores e limitadores. Entre os fatores facilitadores, destaca-se a possibilidade de o próprio entrevistado atribuir valor, assim como se incluir ou não nos eixos propostos (egomórfico ou alomórfico, percepção positiva ou negativa do aspecto relatado pelo entrevistado), reduzindo o número de inferências do pesquisador nos achados da pesquisa; é de fácil aplicação, pois há indicação da organização do instrumento no referencial teórico primário; permite conhecer a percepção que o entrevistado tem de si mesmo, assim como as relações que estabelece com o seu grupo de pertencimento e com os indivíduos de outros grupos com os quais convive.

A experiência de aplicação do referencial teórico-metodológico da Ego-ecologia indicou poucos fatores limitadores; porém, vale a pena ressaltar que o entrevistado precisa estar apto a valorar os aspectos citados por ele mesmo. No desenrolar das entrevistas, ao aplicar o instrumento, observou-se que pessoas com baixa escolaridade tiveram muita dificuldade em responder e classificar suas respostas.

No que diz respeito ao tempo de aplicação da entrevista, percebeu-se que é extremamente variável. Houve entrevistas de cerca de trinta minutos; porém, algumas chegaram a noventa minutos. Observou-se que o instrumento permite que o participante da pesquisa discorra sobre sua história de vida, suas angústias e expectativas e suas dificuldades em lidar com seus pares e com os grupos com quem convive, sendo possível observar as relações de conflito existentes no contexto estudado.

A utilização do referido referencial teórico-metodológico mostrou-se extremamente eficaz no seu propósito, possibilitando discussão crítica e profunda a respeito da relação entre usuários, seus familiares e os profissionais, de suas perspectivas para o futuro e sua visão do serviço em que foi realizado o estudo.

 

REFLEXÕES FINAIS

Como foi discutido anteriormente, a pesquisa em enfermagem vem modificando o seu objeto de interesse, seus referenciais teóricos e metodológicos, adotando contribuições oriundas das áreas sociais e filosóficas. O foco de atenção dos enfermeiros tem ampliado sua perspectiva a respeito do sujeito de seu cuidado, abordando inclusive o ambiente no qual ele se insere e as relações que estabelece. Portanto, para se compreender e incrementar o cuidado de enfermagem utilizam-se abordagens que vão além das ciências biológicas. A enfermagem emprega conceitos e conhecimentos também da antropologia, da sociologia, da filosofia e da história, pois

"se o cuidado é a natureza viva do pensar, é preciso saber como ele se dá no seu campo de ação, o que produz nos clientes quando são tocados por ele e o que significa pensar nele... associando o que é preciso (ciência vigente) com o impreciso (as ciências que envolvem o social e a emoção), o quantitativo com o qualitativo, o mensurável com o imensurável, o racional com o irracional"13:383

Neste sentido, através do referencial da Ego-ecologia é possível compreender de forma mais clara o indivíduo, seu ambiente e suas relações. O referido referencial teórico-metodológico favorece a busca de informações para compreender o sujeito que está sendo cuidado, assim como o ambiente em que está acontecendo o cuidado, seu ambiente social e as relações que se dão no cotidiano. A análise ego-ecológica permite compreender mais amplamente o cliente dentro de sua complexidade e paradoxos, bem como as relações que estabelece no contexto da instituição, na família, no trabalho e demais situações sociais relevantes para a vida do cliente, quer estejam localizadas no espaço micro ou macrossocial.

O referencial teórico-metodológico da Ego-ecologia indica estratégia alternativa para o desenvolvimento de pesquisas que discutam a identidade do sujeito e suas aproximações e afastamentos dos grupos dos quais faz parte. Desta forma, este referencial pode ser uma ferramenta interessante nas pesquisas em enfermagem, pois permite conhecer de forma profunda a identidade pessoal, bem como da identidade social dos sujeitos que se propõe a estudar.

A análise ego-ecológica pode ser útil aos enfermeiros, pois atende às necessidades dos pesquisadores que buscam compreender melhor o objeto de sua ação (pessoa que precisa de ajuda) e o objeto de sua intervenção (o cuidado). Além disso, propõe um método sistematizado, dinâmico e flexível para se compreender o indivíduo, seu contexto social e sua relação com seus grupos de pertencimento.

 

REFERÊNCIAS

1.Santos I. Cientificidade na enfermagem: uma ideologia compartilhada. Rev Enferm UERJ. 1998 jun; 6(1): 215-21.         [ Links ]

2.Zavalloni M, Louis-Guérin, C. Identité sociale et conscience. Introduction à l'égo-écologie. Montreal: Lês Presses de L'Université de Montreal; 1984.         [ Links ]

3.Santos TCF, Gomes MLB. Nexos entre pós-graduação e pesquisa em Enfermagem no Brasil. Rev Bras Enferm. [on-line] 2007; [citado 2011 mar 22]; 60(1): [aprox 5 telas]. Disponível em: http://www.scielo.br        [ Links ]

4.Associação Brasileira de Enfermagem- ABEn. Levantamento de recursos e necessidades de enfermagem no Brasil. O compromisso histórico da ABEn no desenvolvimento da pesquisa e da produção de conhecimento. [citado 2011 mar 22]; [aprox. 2 telas] Disponível em: http://www.abennacional.org.br/centrodememoria/levantamentoderecursos.pdf        [ Links ]

5.Moriya TM, Furegato AR, Almeida MCP, Ruffino MC, Oliveira MHP. Pós-Graduação "stricto sensu" Em enfermagem: um estudo do seu desenvolvimento. Ribeirão Preto: Fundação Instituto de Enfermagem; 1998.         [ Links ]

6Moura MAV, Spindola T, Ferrer GH, Siqueira PRA, Chamilco ra. Tendências da produção de enfermagem na área da saúde da mulher. Esc Anna Nery. 2001 dez; 5(3): 335-46.         [ Links ]

7.Alvim NAT, Cabral IE, Soares CMJ, Vargas ARGAS MÑ. O espaço criativo e sensível na produção de dados para a pesquisa em enfermagem. Esc Anna Nery. 2001 ago; 5(2): 191-99.         [ Links ]

8.Ferreira MA. A comunicação no cuidado: uma questão fundamental na enfermagem. Rev Bras Enferm. 2006 maio/jun; 59 (3): 327-30.         [ Links ]

9.Zavalloni, M. Subjective culture, self concept and the social environment. Intern J Psychol. 1973; 8(3): 183-92.         [ Links ]

10.Doise W, Zavalloni M. The generality of social perception characteristics. Acta Psychol. 1970; 34: 521-24.         [ Links ]

11. Zavalloni M. Cognitive process and social identity through focused introspection. European J Social Psychol. 1971 Apr/Jun; 1(2): 235-60.         [ Links ]

12.Mello R. Identidade social de usuários, familiares e profissionais de um centro de atenção psicossocial no Rio de Janeiro [tese]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidadede São Paulo; 2005.         [ Links ]

13.Figueiredo NMA, Machado WCA. Cuidado: a natureza viva do pensar e do fazer. Esc Anna Nery. 2001 dez; 5(3): 377-86.         [ Links ]

 

 

Recebido em 05/11/2010
Reapresentado em 04/04/2011
Aprovado em 10/05/2011

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License