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Escola Anna Nery

versão impressa ISSN 1414-8145

Esc. Anna Nery vol.18 no.4 Rio de Janeiro out./dez. 2014

http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20140101 

PESQUISA

Eventos intra e extrafamiliar significativos no processo de construção da paternidade

Hechos relevantes intra y extra familiares en el proceso de construcción de paternidad

Barbara Tarouco da Silva1 

Mara Regina Santos da Silva1 

Maria Emilia Nunes Bueno1 

1Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande - RS, Brasil.

RESUMO

Objetivo:

O presente estudo objetivou identificar os eventos intra e extrafamiliar que contribuem para o processo de construção da paternidade.

Métodos:

Estudo exploratório qualitativo, participaram quatorze homens, residentes em um município do Rio Grande do Sul/Brasil. Os dados foram coletados entre maio e agosto de 2011, por meio da entrevista em profundidade.

Resultados:

Por meio da análise textual discursiva e do referencial bioecológico do desenvolvimento humano, identificou-se as seguintes categorias: Experiências vivenciadas na família de origem; Experiências vivenciadas no microssistema familiar e Experiências vivenciadas nos mesossistemas.

Conclusão:

É fundamental pensar na promoção do envolvimento do pai desde a assistência pré-natal e de puericultura, possibilitando sua participação em todos os momentos, principalmente, nas consultas e orientações, visando preparar o casal para a maternidade e a paternidade.

Palavras-Chave: Enfermagem; Paternidade; Pai; Família

RESUMEN

Objetivo:

El presente estudio tuvo como objetivo identificar los eventos intra y extra familiares que contribuyen en el proceso de construcción de la paternidad.

Métodos:

Estudio cualitativo exploratorio, participaron catorce hombres que viven en una ciudad de Rio Grande do Sul/Brasil. Los datos fueron recogidos entre mayo y agosto de 2011, a través de entrevista en profundidad.

Resultados:

A través del análisis textual discursiva y del referencial bioecológico del desarrollo humano, se identificaron las siguientes categorías: experiencias en la familia de origen; experiencias en el microsistema familiar; y experiencias en mesosistema.

Conclusión:

El pensamiento crítico en la promoción dela participación del padre desde la atención prenatal y de puericultura, ofreciendo la posibilidad de participar en todo momento, especialmente en las consultas y orientaciones, preparándolos para la maternidad y la paternidad.

Palabras-clave: Enfermería; Paternidad; Padre; Familia

INTRODUÇÃO

A construção da paternidade é um processo que ocorre a partir de práticas inseridas na relação entre pai e filhos. É marcada por transformações, mudanças e conhecimentos em que o pai, necessariamente, busca para expressar seu papel1. Assim, o exercício da paternidade requer conhecimentos necessários para o desenvolvimento dos papéis e tarefas parentais. Possuir esses conhecimentos permite aos pais organizarem seus comportamentos, em relação as suas responsabilidades com o desenvolvimento dos filhos. Oportuniza, também, fazer as escolhas adequadas a cada situação vivenciada na relação pai/filho, podendo ser adquiridos por meio de experiências e interações com familiares, amigos e comunidade. Tornam-se primordiais para conduzir cada etapa de desenvolvimento da criança2.

Além disso, o processo de construção da paternidade requer uma adaptação na qual os pais necessitam construir seus valores, metas e estratégias que são estabelecidas de acordo com o contexto sociocultural1. O contexto social no qual o fenômeno paternidade se desenvolve e os principais desdobramentos na vida dos sujeitos, advindos do nascimento da criança, são questões fundamentais para analisar o exercício da paternidade, o que possibilita visualizar a situação dos pais nesse processo.

Nessa perspectiva, as experiências e interações vividas pelos pais com seus próprios genitores e o modo como introjetaram o modelo de paternidade são aspectos que influenciam a relação a ser construída com seus filhos, mais tarde3. Muitos homens criados no modelo de paternidade tradicional preocupam-se em reformular o papel e as responsabilidades que lhes cabe na família, em vez de simplesmente reproduzirem a experiência vivenciada ao se tornarem pais, revelando o desejo de constituir-se como fonte de suporte emocional e afetivo para os filhos e a companheira4. Corroborando essa ideia, alguns autores destacam que a mudança no modelo de paternidade implica, na maioria dos casos, o rompimento do modelo experienciado, pois os homens estão mais participantes nas questões referentes à vida familiar5.

Além do modelo de paternidade experienciado, na própria família de origem, o papel que ele desempenha na família atual está relacionado também com suas características individuais e com o contexto social, onde suas interações mais significativas acontecem5. Especificamente, no presente estudo, as características individuais do pai estão relacionadas às suas experiências pessoais, à disponibilidade para envolver-se com a família e às experiências prévias com seus genitores.

As experiências vivenciadas pelo pai nos diversos contextos onde vive e em diferentes etapas do seu ciclo vital podem constituir-se como conteúdo valioso para a assistência de enfermagem aos pais, quando a finalidade é o desenvolvimento de habilidades para atuação no cuidado dos filhos. Esses aspectos poderão ser resgatados quando, por exemplo, acontece o encontro entre enfermeiro e pai, especialmente, nos períodos, pré-natal e puerpério, momentos em que se cria a oportunidade para que os homens reflitam acerca de suas responsabilidades no papel que estão assumindo. Partilhar o momento que se percebe pai, geralmente, após o nascimento do filho, com o enfermeiro possibilitará aos pais se preparem para o cuidado e visualizarem estratégias que poderão ser utilizadas no enfrentamento de determinadas situações do cotidiano6.

Para a enfermagem, é importante, primeiramente, conhecer as características individuais e as interações significativas vivenciadas nos diversos contextos nos quais o pai está inserido, de modo que consiga estabelecer uma relação de confiança com ele, atendendo-o em suas demandas no exercício da paternidade. Nesse sentido, é importante que os enfermeiros se constituam em referências para os pais, criando condições para que os mesmos possam desenvolver habilidades no cuidado dos filhos7.

Do ponto de vista assistencial, é necessária a criação de um espaço de escuta das dúvidas e anseios dos homens, referentes às tarefas de cuidar, possibilitando o compartilhamento das experiências que contribuíam para o desempenho de seu papel. Alguns estudiosos destacam que as discussões com pais, já possuidores de experiências nos cuidados práticos dos filhos, podem ser benéficas para que os novos pais possam aprender novos conhecimentos e desenvolver habilidades por meio do compartilhamento de informações6,8, uma vez que os experientes poderão ser vistos como fonte de apoio para os novos pais.

Contudo, observa-se no cotidiano de trabalho da enfermagem a dificuldade de inserir os pais no atendimento prestado à família. Assim, este estudo justifica-se pela necessidade de investir em pesquisas em uma área emergente no campo da enfermagem: a paternidade. Também por subsidiar as práticas dos enfermeiros no que concerne a assistência às famílias.

Nessa perspectiva, o presente estudo teve como questão norteadora: quais os eventos significativos que contribuem para a construção do processo de paternidade? O objetivo foi identificar os eventos intra e extrafamiliar significativos que contribuem para o processo de construção da paternidade.

METODOLOGIA

Estudo qualitativo exploratório, orientado pela teoria bioecológica do desenvolvimento humano de Urie Bronfenbrenner, a qual aporta uma estrutura teórica e operacional para compreender o desenvolvimento humano, tomando como base as interações vivenciadas pelos seres humanos em diferentes níveis de seu contexto de vida, para as quais são determinantes as características biopsicológicas do pai, o tempo histórico vivido por ele e as características do contexto em que ocorre o fenômeno paternidade no mundo contemporâneo9.

Participaram 14 homens, com faixa etária entre 16 e 61 anos, que vivenciam a paternidade em diferentes etapas do ciclo vital, adolescência, idade produtiva e madura. Os pais residem em um município do Rio Grande do Sul e foram selecionados e recrutados a partir da indicação dos próprios participantes da pesquisa, considerando como critério de inclusão: idade (entre 15 e 65 anos); ter contato permanente com os filhos e estarem de acordo em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A busca por novos sujeitos foi suspensa quando houve saturação dos dados.

Para preservar o anonimato, os participantes foram identificados pela letra "P" seguida do número que expressa sua idade cronológica. Para os que apresentavam a mesma idade, foi acrescida a letra "a" ou "b", visando diferenciá-los. A coleta ocorreu entre maio e agosto de 2011, por meio da entrevista em profundidade, a partir de uma questão norteadora aberta que abordava as experiências significativas vivenciadas que fizeram o participante sentir-se pai. Ao longo da entrevista, foram acrescentadas outras questões objetivando o esclarecimento e a busca por detalhes.

Após contato com os participantes, foram estabelecidos, para a entrevista, o horário e o local de acordo com a disponibilidade dos homens, considerando suas atividades de trabalho e compromissos familiares. Foram disponibilizadas como opção de espaço para a realização das entrevistas, as dependências do grupo de pesquisa, com sede na Universidade onde os autores atuam. As entrevistas foram gravadas com a autorização dos respondentes e duraram cerca de 1 hora e 30 minutos, após, transcritas e validadas com os participantes. As informações obtidas foram tratadas de forma ética e, fielmente, transcritas, respeitando os preceitos éticos e legais que regem a pesquisa com seres humanos, estabelecidos pela Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde10. O estudo recebeu certificação ética sob número de parecer 134/2010.

A análise dos dados compreendeu as seguintes etapas11: desmontagem das entrevistas, estabelecimento de relações, captação do novo emergente e construção de um processo auto-organizado. Na primeira etapa, identificou-se e codificou-se cada fragmento destacado, resultando em oito unidades de análise (modelo de paternidade, participação dos avós, experiência de cuidado adquirida, interações vivenciadas com o filho e com a companheira, amigos próximos, colegas de trabalho e vizinhança). A partir dessa primeira etapa, foi possível identificar os temas de análise e definir as categorias emergentes. A segunda etapa consistiu na categorização das unidades de análise, estabelecendo relações entre as mesmas, combinando-as e classificando-as em conjuntos que congregam elementos próximos. Nesse sentido, foram estabelecidas as categorias intermediárias: experiências vivenciadas na família, considerando os processos proximais estabelecidos nos diferentes exossistemas; experiências vivenciadas no microssistema familiar, considerando os processos proximais estabelecidos na família; experiências vivenciadas nos mesossistemas, destacando os processos proximais estabelecidos nos diferentes mesossistemas.

A terceira e quarta etapas culminaram com a construção dos metatextos, isto é, as categorias propriamente ditas, bem como a interpretação e compreensão obtidas, a partir do conjunto de entrevistas, considerando o referencial bioecológico do desenvolvimento humano adotado neste estudo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Experiências vivenciadas na família de origem

Destacam-se três eventos significativos que fizeram com que os participantes se sentissem pais e que se referem as interações face a face em distintos períodos de tempo. Os participantes enfatizaram as interações estabelecidas com o próprio pai; à participação dos avós no cuidado do filho e à experiência adquirida no cuidado dos irmãos.

Nas interações vivenciadas pelos pais, junto aos seus genitores, as experiências significativas influenciaram as relações com o filho em duas direções. A primeira foi à incorporação do modelo de paternidade experienciado com seu genitor, procurando reproduzir as experiências vividas, pois desejam ser presentes na vida dos filhos, provendo-os afetivamente, mantendo uma relação baseada no diálogo e repassando os valores e princípios aprendidos no microssistema familiar. Enfatizaram, ainda, que o ambiente familiar no qual cresceram e as relações afetivas estabelecidas com seus genitores contribuíram para o exercício de seu papel na família:

[...] Na realidade a experiência de pai vem de filho, quando tu tens um pai que te ajuda, que está contigo, tu passas a trazer isso para tua vida e eu acho que a experiência principal que eu tive foi essa, a questão do meu pai sempre presente, me apoiando, me ajudando, brigando quando tem que brigar, isso traz certa vivência (P42).

A segunda direção referida foi a rejeição do modelo de paternidade, pois os sujeitos reconhecem o pouco envolvimento de seu pai nos cuidados básicos, como higiene e alimentação e, principalmente, a participação nas decisões envolvendo a educação dos filhos. Por essa razão, sentiram necessidade de atuar nessas tarefas, interagindo mais com os filhos, enfatizando a necessidade de se adaptar às mudanças ocorridas no mundo atual, no que diz respeito às formas de criar e educar o filho e à preocupação em atender a necessidade de afeto dos filhos.

Os pais destacaram três razões principais que os levaram a rejeitar o modelo de paternidade vivenciado. A primeira foi a necessidade de participar nas questões referentes à vida familiar. Esses homens perceberam que as mudanças ocorridas ao longo do tempo na sociedade e, consequentemente, nos papéis do homem e da mulher, instiga-os a ter um envolvimento maior no cuidado dos filhos. Destacaram, ainda, que são importantes para o desenvolvimento saudável dos seus filhos, por isso dividem com a companheira o cuidado, a proteção e a orientação dos filhos.

A segunda razão destacada foi o pouco convívio com o genitor durante a infância, fato que os levou a redirecionarem a relação com seus filhos, procurando acompanhar o desenvolvimento deles, com vistas ao estabelecimento de vínculos desde o nascimento. A terceira razão foi o fato de seus pais serem vistos apenas como autoridade na família, pouco participando do cuidado, o que motivou o desejo de envolverem-se no cuidado e demonstrarem afeto nas interações estabelecidas com os filhos:

[...] eu e os meus irmãos procuramos ser diferentes do pai. Somos três filhos, era uma família mais patriarcal que o pai só mandava, não participava, então não é bem assim que a gente quer. Até a própria sociedade, o próprio mundo, vai mudando e a gente vê hoje que não pode ser do jeito que era (P40).

Em conformidade com os resultados obtidos, estudo realizado com pais adolescentes identificou que 77% dos participantes relataram o desejo de criar seus filhos de modo diferente ao que foram criados, em função de terem vivido situações de abuso físico e/ou emocional ou abandono. Observa-se, ainda, que os jovens gostariam de estar presentes na vida dos filhos, acompanhando seu desenvolvimento e, também provendo o sustento financeiro da família6.

Nesse estudo, observou-se que os pais estão preocupados em participar de todos os momentos que envolvem a vida dos filhos. Na família contemporânea, os homens estão redimensionando sua vida, no qual o modelo desempenhado por uma geração em que o pai representava alguém omisso e distante afetivamente, está sendo, aos poucos, substituído por um homem que busca se iniciar no exercício do contato e da expressão de suas necessidades afetivas3.

A participação das avós no cuidado do filho foi outro evento significativo apontado pelos pais. Eles destacaram que os cuidados prestados pelas avós nos primeiros dias de vida da criança contribuíram para sua atuação junto ao filho, fazendo com que eles se sentissem mais seguros para identificar as demandas de cuidado:

[...] quando ele [filho] nasceu, tivemos a participação da minha mãe e da mãe dela, cada qual querendo ficar mais tempo. [Elas] auxiliaram muito, porque marinheiro de primeira viagem, não sabia nada e ficava com medo, aquele medo que tu tem de acontecer alguma coisa com a criança, que é muito frágil. Elas ajudaram no banho, mudar de fralda, cuidado do umbigo dele. E a gente acabou aprendendo bastante com elas (P19a).

O resultado alcançado assemelha-se ao que foi observado na literatura. Após o nascimento, o cuidado direto do pai com o filho ocorre de forma bastante limitada. As ações dos pais são, muitas vezes, mediadas por atitudes de outros integrantes da família, que os auxilia com experiências valiosas referentes ao cuidado dos filhos12. Ademais, as mães e as sogras são consideradas pelos pais adolescentes como fonte de apoio financeiro e psicológico13.

A experiência adquirida no cuidado dos irmãos foi outro evento significativo vivenciado pelos pais. Eles referiram que ao auxiliar a mãe no cuidado dos irmãos menores, participando de algumas tarefas básicas, como, por exemplo, alimentação e higiene possibilitaram adquirir habilidades que contribuíram, significativamente, para o desempenho de seu papel na relação com os filhos. Outro aspecto ressaltado foram as interações vivenciadas com os irmãos já adultos, discutindo e refletindo acerca do papel do pai na família e do modo de criar e educar os filhos. Os irmãos podem ser considerados fonte de apoio e informação, já que ao compartilhar experiências e conhecimentos, dividem suas preocupações e dúvidas relativas à criação dos filhos:

[...] eu ajudava meus irmãos, tive que dar leite, mudar fralda, aprendi tudo com a minha mãe. Eu ajudava meus irmãos, fazendo tudo e isso me fez sentir como pai (P48).

[...] sempre converso muito com meus irmãos sobre minhas filhas, sempre quando preciso tenho o apoio deles (P58).

Experiências vivenciadas na família atual

Destacam-se dois eventos significativos: as interações vivenciadas com o próprio filho e as interações com a companheira. O primeiro refere-se a processos proximais vivenciados com o filho no microssistema familiar e às experiências de cuidado neles adquiridos, em diferentes etapas da vida dos filhos. Os pais relataram que as habilidades de cuidado são aprendidas durante o próprio processo de cuidar do filho, principalmente, quando eles são pequenos e necessitam de um adulto para garantir a sobrevivência. Já na adolescência e na idade adulta dos filhos, os homens percebem que estão desempenhando bem o seu papel, à medida que os filhos vão agregando os valores e os princípios ensinados na família de origem:

[...] quando a gente tem o primeiro filho tem a preocupação exagerada, acha que vai quebrar e qualquer choro ou doença já fica preocupado. A gente não sabe lidar bem com ele. A gente vê que não é bem assim, que as coisas são um pouco mais simples. Depois a experiência que a gente adquire com o tempo, a gente conhece mais as reações dele [filho] (P44b).

O resultado apontado encontra ressonância na literatura. Alguns autores referem que a sensibilidade e a capacidade de responder as demandas da criança está associada à experiência de cuidado, assim ao cuidar do filho, o pai vai desenvolvendo habilidades e conhecimentos que o auxiliam no processo de cuidar8.

Além disso, os pais enfatizaram que as interações estabelecidas com a criança após o nascimento foram fundamentais ao desenvolvimento das competências para cuidar dos filhos, já que, até então, não se sentiam preparados para desempenhar tal função:

[...] aquele processo inicial do filho quando tu pegas ele no colo pela primeira vez, começa a conviver com a criança, cuidando dela (P44b).

Na primeira gravidez quando ela falou que tava grávida eu não sei, claro eu já sabia que ia ser pai aquela coisa, mas eu me senti pai mesmo na hora que eu consegui sentir o cheirinho dela. Quando eu peguei ela no colo, eu senti o cheirinho dela, aí sim, ali eu comecei a me sentir pai, depois no cuidado fui só aprimorando (P31).

Em consonância com os resultados obtidos, estudo aponta que atitude de cuidado do pai é construída em resposta as necessidades da companheira e do filho. Além disso, suas ações são determinadas pelo resultado da interação do homem consigo mesmo, com companheira, filho e o contexto em que está inserido12.

Os pais também relataram as interações vivenciadas na própria família, com os filhos adolescentes, baseadas no diálogo e no respeito mútuo, considerando as novas formas de educar no mundo atual, de modo a acompanhar o desenvolvimento deles, orientando-os em suas escolhas e preocupando-se com as interações que estabelecem nos ambientes extrafamiliares:

[...] A gente se preocupa com tudo, porque tu estás criando uma pessoa, então a gente tenta alertar a respeito dos perigos do mundo, principalmente na adolescência. Eu converso bastante, até porque há uma necessidade dela [filha] de conversar, tento explicar, dar meu ponto de vista em relação às coisas que ela me pergunta. A conversa é constante (P40).

As interações estabelecidas com a companheira no microssistema familiar foi outro evento considerado significativo para os pais. Eles destacaram a importância de compartilhar com a companheira as tarefas, envolvendo alimentação, higiene, lazer, escola, especialmente nos fins de semana e no período da noite. Quando os filhos eram pequenos, esses pais atendiam suas demandas de cuidado no período noturno, proporcionando horas de descanso para sua companheira. Referiram, ainda que discutiam com sua companheira a respeito de como criar e educar, decidindo juntos todos os aspectos referentes à vida dos filhos:

[...] eu sempre conversei muito com a minha esposa sobre a criação. Quando a decisão é tomada por um, o outro aprova (P58).

Alguns autores destacam que a gravidez e a chegada de uma criança no âmbito familiar podem interferir na natureza do vínculo entre homem e mulher, influenciando o relacionamento do casal e modificando o cotidiano dos pais com sentimentos de maior responsabilidade e de novos projetos para o futuro. Ademais, o sentimento de perda em relação a hábitos e à privacidade é real3,14,15. Resultado semelhante foi encontrado nesse estudo.

Nesse estudo foi relatado que após o nascimento do filho, houve uma mudança na rotina do casal, onde o filho passa a ser tratado como prioridade e os pais passam a viver em função do atendimento das necessidades da criança. Dessa forma, o casal não possui tempo disponível para realizar atividades conjuntas, inclusive as atividades de lazer que são condicionadas à possibilidade de incluir o filho:

[...] é complicado, porque tu perde toda tua liberdade, todo o teu lazer, teu lazer se resume a ficar em casa. Sempre que a gente sai de casa temos que levar ele [filho] (P19a).

Em conformidade com esse resultado, uma pesquisa identificou que o sentimento de perda em relação aos hábitos e à privacidade, diante da possibilidade de tornar-se pai é real. A prioridade dos pais passa ser o atendimento das necessidades dos filhos, deixando para segundo plano suas necessidades e, também, as atividades de lazer, adiadas em nome do cuidado e da convivência com a criança3. Com a chegada do filho, as atividades do casal são planejadas e adaptadas de acordo com as necessidades de alimentação, de sono e repouso da criança. Contudo, é necessário o estabelecimento de um tempo e de um espaço, para que o casal realize suas atividades pessoais16.

Nesse estudo, observou-se ainda que, após o nascimento do filho, os pais adquiriram consciência das necessidades de descanso da mulher. Esse resultado assemelha-se aos achados da literatura no qual destacam a preocupação dos pais em compartilhar os cuidados do bebê e questões concernentes à educação16. Além disso, a mulher tem papel fundamental nas interações pais e filhos, apoiando e facilitando o envolvimento do pai e contribuindo para relação entre pai e filho17.

Experiências vivenciadas nos mesossistemas

Destacaram-se três eventos significativos vivenciados em ambientes extrafamiliares: as interações vivenciadas com amigos próximos, no ambiente de trabalho e com a vizinhança.

As interações vivenciadas pelos participantes com os amigos compartilhando experiências relativas à criação dos filhos facilitam a participação do pai no cuidado do filho. Os pais apontaram momentos em que eles sentem a necessidade de discutir e se aconselhar com os amigos, principalmente, quando os filhos são adolescentes, pois consideram a adolescência uma fase conflituosa, quando há maior influência de contextos externos no desenvolvimento dos filhos, gerando maiores preocupações quanto à sua criação.

Outro contexto apontado foi o ambiente do trabalho dos pais que dividiam suas dúvidas e preocupações referentes ao cuidado dos filhos com seus colegas de trabalho, possibilitando o compartilhamento de experiências que contribuíram para a atuação no cuidado:

[...] costumava conversar com alguns amigos aqui do trabalho sobre como é difícil educar os filhos nos dias de hoje, com o problema das drogas e violência (P57).

Outros contextos reforçaram a tese de que os saberes acumulados em diferentes cenários contribuíram para o desempenho do seu papel na família. Um participante considerou os saberes advindos das interações vivenciadas, principalmente com a vizinhança, o que contribuiu na educação do filho, visto que dividia seus anseios e procurava se aconselhar sobre o modo como deveria criar o filho:

[...] eu tinha uma vizinhança boa que me ajudava bastante, tanto na parte do dinheiro como também ajudando a cuidar dele [filho] quando tinha que trabalhar (P61).

Autores observaram homens com grande dificuldade em compartilhar suas ansiedades, dúvidas e preocupações3. Os resultados, desse estudo, assemelham-se ao que foi observado pelos autores em questão, os quais identificaram a busca de apoio por parte dos pais no convívio social com amigos, familiares e com vizinhos. Torna-se clara a necessidade de acompanhamento desses pais, que pode se dar por meio da criação de um espaço, onde eles possam discutir dúvidas e dividir ansiedades com os profissionais de saúde, especialmente enfermeiros. Faz-se necessário que os serviços ofereçam orientação especializada aos pais, facilitando o acesso por meio da flexibilização de horários, tornados compatíveis com suas atividades profissionais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No presente estudo, identificaram-se os eventos significativos vivenciados por homens no contexto intra e extrafamiliar que contribuíram para o homem sentir-se pai. Observou-se que os eventos podem variar, conforme a etapa do ciclo vital que o homem vivencia a paternidade. Os achados deste estudo, relacionados ao nascimento do filho e as mudanças negativas no relacionamento do casal após esse evento, foram aspectos que influenciaram o papel do pai na família, os quais são consoantes com os resultados apresentados na literatura nacional e internacional. Em relação ao modelo de paternidade foram enfatizadas as experiências positivas vivenciadas com os próprios genitores, o que se mostra diferente dos estudos publicados, que apontam apenas a rejeição do modelo de paternidade patriarcal. O elemento do referencial teórico que teve maior destaque foi às interações vivenciadas pelo pai.

Uma limitação do presente estudo foi o recrutamento dos participantes e a dificuldade em agendar horário para realização das entrevistas, devido aos compromissos de trabalho e familiares dos pais.

Em relação às implicações para a prática de enfermagem, é fundamental considerar de um lado, que os eventos significativos que influenciam o papel do homem na família, podem variar conforme a etapa do ciclo vital na paternidade. Por outro lado, que a promoção do envolvimento do pai desde a assistência pré-natal, pressupõe criar possibilidades para sua participação em todos os momentos, principalmente, nas consultas e orientações, visando preparar o casal para a maternidade e a paternidade. Ao inserir o pai na assistência prestada à família, é primordial que o enfermeiro conheça suas características individuais, com ênfase nas experiências pessoais de cada pai; nas interações que eles estabelecem com seus filhos, com a companheira e demais familiares. Em outras palavras, compreender como as interações podem facilitar e/ou dificultar o desempenho de seu papel e, como as mudanças sociais, culturais e econômicas que ocorrem em seu entorno influenciam o cuidado com os filhos.

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Recebido: 27 de Março de 2014; Aceito: 05 de Setembro de 2014

Autor correspondente: Maria Emilia Nunes Bueno. E-mail: me_bueno@yahoo.com.br

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