SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.15 issue1-3Mulher - mãe author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.15 no.1-3 Brasília  1995

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931995000100002 

Gênero, o que é isso?

 

 

Mª Eunice Figueiredo Guedes

Professora Assistente I do Depto de Psicologia. Social e Escolar de UPPA. Psicologia. Mestre em Ciências Sociais

 

 

Aceitando o desafio que é discutir um tema tão complexo e ainda não bem delimitado pelos vários ramos das ciências, sejam elas humanas ou naturais, propomo-nos rastrear o conceito GÊNERO, no âmbito do seu significado lingüístico, passando pela utilização do termo pelos movimentos de mulheres e pela Academia. Neste caminhar, percebe-se uma articulação entre movimentos sociais, especificamente o Feminismo, e as concepções teóricas emergentes no Brasil hoje.

 

Os Significados: gênero, masculino/feminino, homem/mulher: o dicionário da língua portuguesa...

De uns anos para cá, começou-se a escutar algumas pessoas, tanto no movimento de mulheres quanto na Academia, dizendo: "Isto é uma questão de Gênero!" "O Gênero dentro do trabalho..." "O Gênero e a Política..." "A construção de Género... "Mas, afinal que Gênero é esse? Será algo divino da Lógica e significando "classe cuja extensão se divide em outras classes, as quais, em relação à primeira, são chamadas espécies?" Ferreira (1986, p.844). Se formos nos guiar por esse sentido, teríamos as espécies homem e mulher da chamada classe Humana. Ainda, segundo o linguista Ferreira, o termo Gênero também poderia ser "qualquer agrupamento de indivíduos, objetos, idéias, que tenham caracteres comuns" (p.844). Teríamos assim indivíduos dos dois sexos, de novo o homem e a mulher agrupados, agregados através de características comuns, ou seja, o feminino para a mulher e o masculino para o homem. Prosseguindo com a nossa língua portuguesa, esses caracteres comuns seriam convencionalmente estabelecidos. Este convencionalmente pode ir desde maneiras, estilos, significando os Gêneros artísticos ou se referir aos estilos de arte: o Gênero Literário e Gênero Dramático. Pode-se buscar o significado do termo ainda na Biologia ou no campo da Gramática propriamente dita.

Chegamos assim à definição de Ferreira (1986) do termo do ponto de vista gramatical no seu sentido estrito. Encontramos, então, a seguinte definição: "categoria que indica, por meio de desinências, uma divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas" (p.844). Neste sentido, o autor aponta o Gênero masculino, o feminino e o neutro. A partir disso, passamos a nos perguntar, mas afinal que Gênero é esse, que além de propiciar interpretações das mais diversas, dependendo da ótica de quem busca seu significado, ainda pode ser agregado ao significado de costumes/idéias?

Se caminharmos por este último sentido (costumes e idéias), vamos chegar ao significado do chamado Gênero de Vida, expressão que designa o "conjunto de atividades habituais, provenientes da tradição, mercê dos quais o homem assegura a sua existência, adaptando a natureza em seu proveito" (p.844-845).

A definição de Gênero torna-se, assim, complicada, pois além de apresentar vários significados, agrega no seu bojo os sentidos mais amplos ligados a "caracteres convencionalmente estabelecidos", bem como a "atividades habituais decorrentes da tradição" (p.844). Por outro lado, a espécie Humana se comunica e estabelece linguagens, sejam faladas, escritas ou gestuais, constituindo-se em representações sociais que, segundo Lane, são esperadas pelo grupo: "esta análise nos permite apontar uma função da linguagem que é a mediação ideológica inerente nos significados das palavras, produzidas por uma classe dominante que detém o poder de pensar e 'conhecer' a realidade, explicando-a através de 'verdades' inquestionáveis e atribuindo valores absolutos ..." (1984, p.34).

Voltando então para a lingüística, vemos que os significados são representações de culturas dominantes. Se as características, que denominam o termo Gênero, têm que ser "comuns convencionalmente estabelecidas" (Ferreira, 1986, p.844), elas vão passar pelos padrões estabelecidos. Só assim entende-se, prosseguindo na busca do significado e adentrando ainda mais na gramática na busca do sentido de masculino e feminino, o que seriam os dois sexos em que a sociedade normalmente divide os seres humanos. Não esqueçamos que existe o Gênero neutro... Mas, examinando o que determina o dicionário, encontramos o significado de Masculino: "diz-se das palavras ou nomes que pela terminação e concordância designam seres masculinos ou como tal considerados" (Ferreira, 1986, p. 1099). Já para o Feminino, nos revela a bondosa gramática "diz-se do gênero de palavras ou nomes que, pela terminação e concordância designam os seres femininos ou como tal considerados (p.768). O que fazemos então com o Neutro do Gênero que, para Ferreira, "diz-se do gênero de palavras ou nomes, que em certas línguas, designamos serem concebidos como não animados, em oposição aos animados, masculinos e femininos"? (p.1191). Como explicar, então, ainda que a denominação de feminino também designe, no sentido figurativo, efeminado, aclamado e mulherengo?

Se prosseguirmos pelos caminhos da língua brasileira, buscando o sentido do termo, vamos muito mais além, pois através destas considerações jã se percebe o quanto que a língua reflete a construção cultural do povo que a nomeia, a partir da dominância de características comuns, representações sociais que nos atravessam a nós, indivíduos, às instituições sociais, como escola, igreja, direito etc, às normas e valores sociais instituídos socialmente e expressos em códigos de comportamento sociais. "Mas a instância psíquica que mais depende das circunstâncias histórico-sociais é o superego, este grande assimilador das normas e valores vigentes, este regulador do comportamento (através do ego, que se comunica com ele) de acordo com o que cada cultura considera reprovável ou desejável. Assim, embora uma grande parte do que move as pessoas -a matéria instintiva que constitui as paixões, seja inerente ao que venho chamando condição humana, a forma que as paixões adquirem, a maneira como se expressam, a valorização positiva ou negativa de cada uma delas, tudo isso está permeado por esta modalidade de expressão de consumo e de visão do mundo de cada cultura que costumamos chamar Ideologia" (Kehl, 1992, p.485).

Os sentidos dicotomizados da língua, expressando valorações, fazem com que o mesmo termo Mulher acabe sendo apreendido também ou como Santa e reprodutora ou como Prostituta. Se olharmos de novo o dicionário e tentarmos encontrar o significado de mulher, nos depararemos com a seguinte afirmação: "O ser humano do sexo feminino capaz de conceber e parir outros seres humanos e que se distingüe do homem por essas características" (Fereira, 1986, p.ll68). Encontramos ainda as designações "Mulher à toa", "Mulher de comédia", "Mulher de rótula", "Mulher de rua", "Mulher da vida", "Mulher de amor", "Mulher de má nota", "Mulher de ponta de rua", "Mulher de fado", "Mulher de fandango", "Mulher de mundo", "Mulher do pala aberto", "Mulher errada", "Mulher fatal", "Mulher perdida" e "Mulher vadia". De todas as dominações de mulheres que o lingüista assinala, somente duas não têm o significado assinalado como Meretriz! (grifo meu): "Mulher de César" e "Mulher de piolho" (p.1168).

Já para o significado do Homem, o dicionário aponta "qualquer indivíduo pertencente à espécie animal que, apresenta o maior grau de complexidade na escala evolutiva, o ser humano" dotado "das chamadas qualidades viris, como coragem, força, vigor sexual etc, Macho - Homem que é homem não leva desaforo para casa" (Ferreira, 1986, p.903). Entre os sentidos, tipos de denominação de homem, não existe nenhuma designação que tenha sentido pejorativo ou signifique o gigolô. Pelo contrário, todos os sentidos do termo seguem no rumo da definição geral, de "alguém que apresenta um maior grau de complexidade na escala evolutiva" (Ferreira, 1986, p.903). Então, aqui, percebemos que temos mais do que uma dualidade de sentidos: nós temos, na verdade, um diferencial de pesos/poderes para os termos Mulher e Homem. A Mulher, no sentido da construção da língua, do significado social do termo que a deveria nomear, só existe como Meretriz ou Reprodutora, não tendo função social fora dessas denominações. Vemos, então, que não é de graça que um estudioso como Lacan diz "a Mulher não existe". Quando ele se refere a esse enunciado, diz que feminilidade se coloca na categoria do inominável, revelando a impotência do saber para nomear o feminino como tal (Almeida, 1992, p.15).

 

Movimento de Mulheres/ Movimento Feminista - E o Gênero?

Dois mil e quinhentos anos de civilização, a partir do apogeu grego trazem em seu bojo todo um legado cultural. O imaginário humano foi sendo povoado por "uma gama imensa de mitos, cosmogonias, seres folclóricos etc. A posição e o papel da mulher em meio a este circuito acabam sendo expressos através desses mitos inscritos no imaginário" (Almeida, 1992, p.15).

Ao enveredarmos ainda pela identificação do Gênero e procurarmos compreender o seu significado, no campo da construção teórica e da sua relação com o Movimento de Mulheres/Movimento Feminista, vemos que, há cerca de duas décadas, um certo furor feminino atacou diversos campos do saber, ligado principalmente ao Movimento Feminista. F.sse furor representava tentativa(s) de dar estatuto de saber á vivência e estudos sobre a mulher. Era a época de risibilizar um segmento que se encontrava embutido sempre no geral: a história da classe trabalhadora, a força de trabalho na indústria etc. De uma certa maneira caminhava-se no campo teórico com passos ligados, interligados aos movimentos que se gestavam no país, pós-anos 70. A luta pela abertura política no Brasil trouxe uma reflexão também da condição feminina, que teve um impulso maior no país com a instauração da Década da Mulher pela Organização das Nações Unidas, de 1975 a 1985. Com a vinda de militantes exiladas pelo regime ditatorial, a discussão sobre o feminino/feminismo se acentuou ainda mais, já que em outros países a discussão sobre a opressão feminina se encontrava em estágios bem avançados, enquanto no Brasil ainda engatinhávamos no pós-abertura. Os encontros/desencontros de militantes latino-americanas(os), com inglesaste), francesas(es), alemãs(ães) com essa reflexão/discussão de um certo pensar a mulher possibilitaram modificações também no Brasil. Surge daí a afirmação primeira do movimento feminista brasileiro, ou sua primeira fase: visibilizar o feminino enquanto elemento qualitativo e constitutivo da população e das instituições brasileiras.

O período correspondente a esta fase vai dos anos 80 a 85. Afirma-se assim, tanto no âmbito da Academia quanto dos movimentos, temáticas que levassem em conta a "importância da participação das mulheres no seio de partidos/sindicatos, movimentos de bairro/instituições em geral etc. (...) Visualiza-se a mulher, com esta perspectiva, dentro dos movimentos gerais, tentando apontar para a ocupação de um segmento importante e, qualitativamente, numeroso no âmbito do Macros-social, ou seja. 'Mulher: Participação e Representação Política', podendo ser este o slogan deste período" (Bandeira e Oliveira, 1990, p.5).

Um segundo momento nessa história de construção do conceito de Gênero no seio dos movimentos sociais e da Academia, poderia ser agregado ao slogan dos grupos de reflexão feminista, que proliferaram no país pós-80: "o cotidiano é político'. Gestava-se uma outra necessidade dentro dos diversos movimentos. Era necessário mais do que visibilizar a Mulher. Precisava-se entender o Sujeito Mulher, a Identidade Feminina, desvendando as relações do cotidiano. Não havia, neste momento, tanta preocupação com os interlocutores, a idéia era soltar as idéiasno ar. Havia, por um lado, resistência social e académica a estas ideias e, por outro, as mulheres feministas, na busca de tentar entender a especificidade do ser-mulher, ainda se colocavam nos seus guetos. Essa atitude visava poder responder às inúmeras provocações por parte dos companheiros que, reafirmando a assimetria do masculino e feminino na sociedade, afirmavam, por exemplo, que a compreensão do surgimento do movimento operário brasileiro não mudou porque souberam que as mulheres participaram da sua formação. Esta fase. ou segundo momento, compreendeu o período que foi de 1985 a 1988.

Um terceiro momento compreende o período de 1989 até os dias atuais, no qual a discussão do feminino/masculino busca lutar contra guetos e resgatar aliadas(os). Se os movimentos de mulheres e feministas tinham descerrado os véus da Invisibilidade no seio dos movimentos sociais, se tinham buscado um Estatuto Científico para os estudos sobre a Mulher, ainda assim se encontravam nos Guetos. Embora politizando os espaços públicos e afirmando que o privado também

era importante, pois esse era um grito necessário, acabavam falando delas para elas mesmas. A construção cultural, a linguagem, a moralidade, a ética, as institucionalidades das mais diversas (medicina, justiça, Igreja, saber científico etc), regentes da sociedade, estão impregnadas por um discurso do chamado Outro e o dominante social teimava em vir à tona... Resgatar o ser mulher foi importante para os diferentes movimentos, mas não significou mudanças nas relações sociais expressas nas práticas cotidianas, nas práticas institucionais. Proliferaram estudos sobre a Mulher, mas o diálogo e o estatuto da cientificidade continuavam a corroer as tentativas feitas por estudiosas/acadêmicas/feministas. Buscava-se agora, então, resgatar e compreender a dialogicidade da comunicação Eu/Outro, pois no Eu também está presente o Outro, haja vista os exemplos colocados neste texto anteriormente sobre as definições dos termos Gênero, Masculino/Feminino, Mulher/Homem. O grande Outro da cultura, segundo Lacan, teimava em inquietar. Mais do que espelhara construção, era o momento de buscar entender o que particulariza a totalidade e o que a totalidade particulariza. As multiplicidades que compõem os seres humanos precisavam ser agenciadas, instituindo novas compreensões, novos modos de ver o humano. Pois, como diz Guatarri: "a questão da micropolítica é a de como reproduzimos (ou não), os modos de subjetivação dominante... Um grupo de trabalho comunitário pode ter uma ação emancipadora em nível molar, mas o nível molecular ter toda uma série de mecanismos de liderança falocrática, reacionária etc... Isso pode ocorrer com a Igreja. Ou, o inverso: ela pode mostrar-se reacionária, conservadora em nível das estruturas visíveis de representação social, em nível do discurso tal qual se articula no nível político, religioso etc, ou seja, em nível molar. E, ao mesmo tempo ao nível molecular, podem aparecer componentes de expressão de desejo, de expressão de singularidade, que não conduzem, de maneira alguma, a uma política reacionária e de conformismo" (Guattari e Rolnik, 1986, p.133).

Com estes elementos em mãos tenta-se buscar, nesta etapa do movimento de mulheres e da Academia, compreender a noção de Gênero enquanto possibilidade de instaurar a dialogicidade no seio dos movimentos e da Ciência. Será um novo Gueto?

 

Gênero: algumas abordagens teóricas e os Elementos Constitutivos do Conceito na perspectiva de Joan Scott

De maneira resumida, não pretende esse texto esgotar toda a bibliografia existente hoje sobre o conceito Gênero, por sinal já bastante vasta. Vamos elencar alguns pressupostos que norteiam os estudos e compreensão de diversas(os) estudiosas(os), militantes de movimentos nesta fase atual de compreensão da relação Masculino/Feminino.

A conceituação de Gênero, enquanto possibilidade de "entender processos de construção/reconstrução das práticas das relações sociais, que homens e mulheres desenvolvem/vivenciam no social" (Bandeira e Oliveira, 1990, p.8), tem redundado em algumas questões que precisam ser melhor clareadas. Em primeiro lugar, o conceito tem uma história, pois ao longo dos séculos, as pessoas utilizaram de forma figurada "os termos gramaticais para evocar os traços de caráter ou os traços sexuais" (Scott, 1995, p.72). Assim, já em 1878, Gladstone, citada por Scott, afirmava que "Atena não tinha nada do sexo além do género, nada da mulher além da forma" (p. 72).

Recentemente as feministas americanas começaram a utilizar a palavra Gênero no sentido literal, como uma forma de entender, visualizar e referir-se à organização social da relação entre os sexos. Eram tentativas de resistência ao determinismo biológico implícito, por parte destas feministas, presente no uso dos termos como sexo ou diferença sexual. Na verdade queria-se enfatizar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas em sexo. Conforme assinala Scott (1995), citando Davis, "nosso objetivo é descobrir o leque de papéis e de simbolismos sexuais nas diferentes sociedades e períodos, é encontrar qual era o seu sentido e como eles funcionavam para manter a ordem social ou para mudá-la" (p.72).

O Gênero também era visto e proposto por pesquisadores que afirmavam a importância do conceito para transformar os paradigmas no interior de cada disciplina, ou conforme Gordon, Buhle e Dye, citadas por Scott (1995), "inscrever as mulheres na história implica necessariamente a redefinição e o alargamento das noções tradicionais ... não é demais dizer que ainda que as tentativas iniciais tenham sido hesitantes, uma tal metodologia implica não somente uma nova história de mulheres, mas também uma nova história" (p. 73).

Esta afirmação pressuporia uma analogia entre Gênero e Classe e Raça. Para estas pesquisadoras as desigualdades sociais de poder estão organizadas segundo, no mínimo, estes três eixos: Gênero/Raça/ Classe. O problema é que esta articulação pressupõe uma paridade que não existe. Segundo Scott "classe tem seu fundamento na elaborada teoria de Marx (e seus desenvolvimentos ulteriores) sobre a determinação económica e mudança histórica, 'raça' e 'gênero' não carregam associações semelhantes" (1995, p.73). O próprio conceito de classe não é unanimidade entre as pesquisadoras(es), pois umas utilizam a referência Marxista, outras(os), a Weberiana. Não existe nem, nesse nível, uma clareza a respeito de Raça e Gênero, nem as desigualdades existentes nas práticas e relações sociais, em relação à assimetria Homem/Mulher e etnia, se dão no mesmo plano de análise das determinações econômicas.

As(os) historiadoras(es) buscam, então, que o conceito de Gênero dê conta de três questões:

1- Explicação das continuidades/descontinuidades e dar conta das desigualdades presentes, cias experiências sociais radicalmente diferentes.

2- Constatação da alta qualidade dos trabalhos sobre a história das mulheres e seu estatuto marginal em relação ao conjunto da disciplina.

3-  Um desafio teórico, exigindo a análise não só da relação entre as experiências masculinas e femininas no passado mas também a ligação entre a história do passado e as práticas históricas atuais.

Mas, nem só de teoria vive a história e as tentativas de conceituar o termo Gênero; muitas vezes, tais tentativas não saíam dos quadros da Academia e apresentavam "tendência a incluir generalizações redutivas ou demasiadamente simples, que se opõem não apenas à compreensão que a história como disciplina tem sobre a complexidade do processo de causação social, mas também aos compromissos feministas com análises que levam à mudança" Scott (1995, p.74). Mais do que isso, não levavam em conta o engajamento do movimento feminista, suas lutas e estudos, na elaboração das análises.

As teorias hoje existentes sobre Gênero se colocam dentro de duas categorias.

Uma teoria que explica o conceito de forma essencialmente descritiva, sem interpretar e atribuir causalidade.

Neste âmbito estão os estudos recentes do uso do Gênero, que acabaram virando sinônimo de Mulher. Onde se lia antes Mulheres, agora leia-se Gênero. Essa utilização acaba por dar uma conotação mais objetiva e neutra (não nos esqueçamos do significado de neutro no dicionário) do que as Mulheres. A tentativa acaba descartando a participação e experiência do movimento feminista, dissociando Ciências e Política. Não implica também uma tomada de posição sobre a assimetria de poder, nem designa a parte lesada. Inclui as Mulheres sem as nomear! Lembremo-nos do que colocamos anteriormente em relação ao que diz Lacan de que a mulher não existe, estando no campo do inominável, ou seja fora da linguagem.

Outras teorias explicam o Género para sugerir que as informações a respeito das mulheres são necessariamente informações sobre os homens, que um implica o estudo do outro. Esse uso insiste na idéia de que o mundo de mulheres faz parte do mundo dos homens, que ele é criado dentro e por esse mundo. Rejeita-se assim as esferas separadas, as justificativas biológicas. O Gênero seria uma forma de indicar construções sociais. Assim, gênero seria, "segundo esta definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado"(Gates, citada por Scott, 1995, p. 75).

Usar Gênero assim pressupõe todo um sistema de relações que pode incluir o sexo, mas que não é diretamente determinado pelo sexo nem determina diretamente a sexualidade. Coloca-se aqui então o desafio de reconciliar a teoria com a história, que trata das experiências e estudos específicos. Como articular teoria, concebida em termos gerais e universais, com a especificidade de condição feminina?

As(os) historiadoras(es) feministas realizam abordagens sobre o Gênero que podem ser resumidas em três posições teóricas:

1- Esforço inteiramente feminista que tenta explicar as origens do Patriarcado.

2- Discussões dentro da tradição marxista.

3- Inspira-se nas várias escolas de Psicanálise para explicar a produção e a reprodução da Identidade de Gênero do sujeito, dividida entre o Pós-estruturalismo francês e as teorias anglo-americanas das relações de objeto.

Diante do exposto, chegamos à necessidade - e indo pelo conceito expresso por Scott - de entender que o termo "gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos... o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder" (1995, p.86).

Poderíamos enfrentar a explicação do conceito Gênero das mais variadas formas e sob os mais variados prismas teóricos. Preferimos, nessa primeira aproximação da temática, expor as questões que envolvem a sua conceituação e sua aplicação aos movimentos e à Academia, bem como as teorias que embasam cada uma das utilizações. No entanto, achamos que a conceituação de Scott sobre Género é a que pode ser mais utilizada neste momento, por englobar vários componentes, que açambarcariam melhor o termo. Embora também seja uma das explicações e o saber tem que existir para ser transformado/ construído/reconstruído incessantemente, num movimento de busca das singularidades sociais e pessoais dentro da subjetividade capitalística como Guattari mostra (Guattari e Rolnik, 1986).

Esmiuçando a conceituação de Género de Scott, vemos que esta definição constitui-se de duas partes e várias subpartes. Assim, os elementos constitutivos em relação à primeira parte da definição de que o "género é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos" (1995, p. 86), implica quatro elementos relacionados entre si:

1-  "Símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas (e com frequências contraditórias)" (Scott, 1995, p.86) como, por exemplo, Maria e Eva - a pureza e a sujeira... As apresentações desses símbolos podem propiciar múltiplas interpretações, mas são contidas em interpretações binárias, a partir de explicações culturais.

2-  "Conceitos normativos que expressam interpretações dos significados dos símbolos, que tentam limitar e conter as suas possibilidades metafóricas. Esses conceitos estão expressos nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas e tomam a forma típica de uma oposição binária fixa que afirma de maneira categórica e inequívoca o significado do homem e da mulher, do masculino e do feminino"(Scott, 1995, p. 86), via rejeição ou repressão de outras formas. Assim, por exemplo, a virilidade é associada ao Masculino e a feminilidade ao Feminino. Um homem não pode ter um comportamento mais dócil/emotivo, que automaticamente será rotulado de efeminado. Outro exemplo é o da pessoa que não se situa nem como masculino, nem como feminino, em termos de opções sexuais.

3-  "A noção de fixidez ... que leva à aparência de uma permanência intemporal na representação binária dos gênero" (Scott, 1995 p.87). A maioria dos estudos, além de apresentar a dialética da história e das práticas sociais nas suas análises, não incluem a noção de político, compreendendo esse político como a resistência ou coerção a que foram sujeitas as mulheres, principalmente para ficarem fora da história. Um exemplo disso é a volta do uso do véu preto, cobrindo o rosto das mulheres iranianas, após a tomada do poder pelo Aiatolá Khomeini. Seria necessário incluir, na noção de Gênero, a noção de político, tanto em relação às Instituições, como em relação às organizações sociais, ou seja, a atuação no Macrossocial também é importante.

4- A noção de Identidade Subjetiva. Como as Identidades de Gênero são construídas, a partir de formação de conceitos/preconceitos imaginária e simbolicamente. A partir da compreensão da Linguagem enquanto elemento formador e constitutivo do Psiquismo, bem como os símbolos, que prendem os sujeitos a formas normativas de exercer a sua subjetividade. Como trabalha, por exemplo, a Educação diferenciada, existente no seio de nossa sociedade hoje, constituindo formas específicas de internalização de valores grupais e sociais. Como viver o exercício da sexualidade amarrado aos conceitos de papéis sexuais, de masculino/feminino, de normalidade e anormalidade, de pureza e sujeira. Basta nos recordarmos dos significados/tipos de mulher, que o dicionário nos presenteou, colocado por nós neste texto. Se a concepção de Mulher é de ser ou santa ou puta, onde fica o livre exercício de cidadania e o exercício dos desejos? Assim também, se é verdade o que Lacan coloca de que o "Inconsciente tem uma sintaxe particular, sendo estruturado como uma linguagem" (Cesarotto e Leite, 1992, p.55), coloca a mulher fora do nominável, já que a Língua é construída no masculino. Pensar e repensar estas questões são fundamentais em relação a todas as culturas, dentro de uma análise que permita entender a construção dessas representações historicamente situadas.

A segunda parte da definição de Scott, de que "o Gênero é uma forma primária de significar as relações de poder" (1995, p.88), a leva a citar Godelier que aponta: "...não é a sexualidade que assombra a sociedade, mas antes a sociedade que assombra a sexualidade do corpo. As diferenças entre os corpos, relacionadas ao sexo, são constantemente solicitadas a testemunhar as relações sociais e as realidades que não têm nada a ver com a sexualidade. Não somente testemunhar, mas testemunhar para, ou seja, legitimar" (p.89).

Assim, em lugar de nos perguntarmos sobre o que é Gênero ou Gênero, o que é isso?, será que não deveríamos buscar a compreensão de como esta denominação está se Construindo/Desconstruindo?

Desse pequeno apanhado surgem, como certas, mais do que certezas, inúmeras incertezas e possíveis pistas necessárias para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária nas suas diferenças, semelhanças e multiplicidades. Enfrentarmos a reflexão aqui colocada, é um desafio para todas(os) nós. Essa discussão/compreensão acompanha todos os níveis da sociedade e nos envolve a todos. No campo da Academia está o desafio de resgatarmos o conhecimento de uma forma a inserir essa reflexão no seio de todas as disciplinas. Assim a Gramática, a Medicina, o Direito, a Biologia etc. surgem como saberes a serem problematizados. No seio dos movimentos está a necessidade de refletir sobre nossa história, que faz parte da História, de aprender/compreender a importância destas colocações aqui sumariamente ainda esboçadas. Este é o nosso desafio!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Maria Emília Souza. Pelo avesso da cultura: o feminino. In: Insight Psicoterapia. 1992, 17, p. 12-15.         [ Links ]

BANDEIRA, Lourdes Maria & OLIVEIRA, Eleonora M. de. Trajetória da Produção Acadêmica sobre as Relações de Gênero nas Ciências Sociais. In: GT 11 - A transversalidade do gênero nas ciências sociais. XIX Encontro Anual da ANPOCS. Caxambu, outubro de 1990.         [ Links ]

CESAROTTO, Oscar & LEITE, Márcio Peter de Souza. O que é Psicanálise, segunda visão. 5ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1992.         [ Links ]

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2ª ed. 18. Impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.         [ Links ]

GUATTARI, Felix & ROLNIK, Suely. Micropolítica - Cartografias do Desejo. Petrópolis: Vozes, 1986.         [ Links ]

KEHL, Maria Rita. A psicanálise e o domínio das paixões. In: Os Sentidos da Paixão. São Paulo: Funarte, Companhia das Letras, 1990, p.469-496.         [ Links ]

LANE, Silvia T M. Linguagem, pensamento e representações sociais. In: LANE, Silvia T. M. e CODO, Wanderley (orgs.). Psicologia Social: o Homem em Movimento. São Paulo: Brasiliense, 1984, 32-39.         [ Links ]

SCOTT, Joan. Gênero: uma Categoria Útil de Análise Histórica. Educação e Realidade. 20 (2), p.71-99, 1995.         [ Links ]

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License