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Psicologia: Ciência e Profissão

versão impressa ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.19 no.3 Brasília  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98931999000300004 

A atuação do psicólogo em um mundo globalizado1: a experiência de uma década de trabalho no Canadá

 

 

Lúcia Cavalcanti De Albuquerque Williams

Universidade Federal de São Carlos Departamento de Psicologia

Endereço para correspondência

 

 

A autora narra sua experiência de psicóloga no Canadá. O procedimento para o registro de psicólogo na América do Norte é descrito. O conceito de globalização é discutido, bem como o de multiculturalismo. Discute-se a função do psicólogo escolar em Toronto através de casos ilustrativos. Questiona-se a formação do psicólogo à medida que o mundo se globaliza.

O processo de globalização é definido por Celso Furtado (1998) pela "crescente interdependência das economias nacionais" (p.21). Trata-se de um imperativo tecnológico que nos desafia, pois, segundo este autor "vivemos uma dessas épocas em que faz-se notória a insuficiência do quadro conceitual para apreender uma realidade em rápida transformação". Para Octavio lanni (1995) a descoberta de que "... o globo não é mais apenas uma figura astronômica, e sim o território no qual todos encontram-se relacionados e atrelados, diferenciados e antagônicos - essa descoberta surpreende, encanta e atemoriza. Trata-se de uma ruptura drástica nos modos de ser, pensar e fabular... abalando não só as convicções, mas também as visões do mundo" (p.33).

Ao psicólogo, o fenômeno da globalização interessa menos do ponto-de-vista financeiro e sim pelo impacto que provoca no comportamento humano em geral e, mais especificamente, na influência que tal conceito acarreta na nossa própria atuação, como psicólogos. O que significa fazer psicologia num mundo que constantemente encolhe? É esse o desafio.

Longe de dar respostas, este trabalho pretende contribuir para o debate de maneira modesta, pois trata-se de uma experiência pessoal. Meu objetivo consiste em narrar minha atuação como psicóloga no Canadá, no equivalente à Secretaria de Educação da cidade de Toronto (Toronto District School Board). O Canadá é um excelente exemplo de mundo globalizado devido à sua estrutura social complexa, caracterizada por sua política multiculturalista ou poli-étnica.

Em primeiro lugar eu gostaria de descrever o procedimento envolvido para a pessoa obter o registro de psicólogo tanto no Canadá quanto nos Estados Unidos, já que os procedimentos são iguais em ambos os países e bastante diferentes do sistema brasileiro.

 

Como Registrar-se como Psicólogo na América do Norte

Os pré-requisitos para o registro de psicólogo na província de Ontário assim como em muitos estados americanos consiste em: 1) titulação de doutor em Psicologia, sendo tal grau obtido por uma Universidade credenciada pelo órgãos educacionais locais; e 2) ter obtido o mestrado e bacharelado em áreas predominantemente psicológicas. No meu caso, eu me doutorei pela Universidade de São Paulo, universidade que, sem causar surpresa, é credenciada junto à Universidade de Toronto.

Preenchido estes dois critérios, o indivíduo ganha o direito de se inscrever no registro temporário do Conselho Provincial ou Estadual de Psicologia desde que tenha sido aceito para ser supervisionado durante um ano por dois psicólogos credenciados pelo mesmo Conselho. Tal supervisão se dá de modo assíduo e intenso, cabendo ao Supervisor imediato assinar todos os relatórios psicológicos que porventura o psicólogo com registro temporário venha redigir, bem como enviar relatórios bi-mensais ao Conselho onde a atuação do psicólogo novato é avaliada de modo operacionalizado, sendo estabelecidas metas em relação a um desempenho final ideal. O psicólogo com registro temporário não só participa do estabelecimento de tais metas juntamente aos Supervisores, como se auto-avalia e assina os relatórios como prova de que recebeu feedback detalhado de seu desempenho.

Em seguida vem, possivelmente, a parte mais difícil do processo que é o Exame para a Prática Profissional de Psicologia (EPPP). Trata-se de um exame de quatro horas de duração, com 200 questões de múltipla escolha abrangendo as quatro áreas de atuação do psicólogo: clínica, escola, aconselhamento e psicologia organizacional.

Tal exame é realizado duas vezes ao ano, simultaneamente, em várias cidades da América do Norte. Por exemplo, no dia em que eu o fiz, um total de 1751 pessoas prestou o exame. Trata-se de um exame difícil - a psicologia na América do Norte tem toda uma tradição de elaboração de testes e exames e, portanto, devem gostar do desafio de elaborar testes para selecionar futuros psicólogos (imaginem quanto tempo devem gastar analisando e testando as dificuldades de cada item!). A nota de corte varia conforme o desempenho do grupo mas gira em torno de 70% de acertos, (amédia de desempenho do dia em que eu fiz o exame foi de 77.15%).

Semelhante ao que ocorre com o nosso "Exame Vestibular", existe nos Estados Unidos uma série de "cursinhos à distância" que vendem kits preparatórios ao EPPP, contendo apostilas e fitas cassete que custam entre 500 e 1000 dólares. O material fornece um plano de horas de estudo, exames simulados e apostilas com os seguintes temas: psicologia escolar, testes de inteligência, desenvolvimento, psicologia comunitária, estatística, construção de testes, neuropsicologia, psicofísica, percepção e cognição, História e Sistemas, aprendizagem, personalidade, psicologia clínica, psicofarmacologia, psicologia industrial, social e, finalmente, ética e prática profissional.

Tendo sido aprovado no exame escrito, e completado um ano de atuação supervisionada, o psicólogo está apto a participar da última etapa que é a realização de um exame oral onde ele é argüido por uma banca de membros do Conselho. Os critérios deste exame não são claros e um dos meus supervisores sugeriu em tom de brincadeira que serviria para desqualificar pessoas que apresentassem um grau questionável de sanidade... De qualquer modo eu conheci pelo menos uma pessoa que, apesar de ter ido muito bem no exame escrito, foi reprovada no Exame Oral.

Tendo concluído toda esta seqüência, recebe-se um Diploma de Psicólogo, podendo acrescentar ao nome após as inicias de titulação (por exemplo, Ph.D.) as iniciais C. Psy, ou Certified Psychologist.

 

O que Faz um Psicólogo Atuando no Sistema de Educação Pública Canadense

Antes de mais nada eu gostaria de comentar que é um prazer atuar como psicóloga num país que investe maciçamente em educação e que tem um sistema de educação pública de altíssima qualidade. Como vocês devem saber, o Canadá é considerado pela ONU e por cinco anos consecutivos, como sendo o país de melhor índice de qualidade de vida do mundo levando-se em conta o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que apóia-se em três critérios: renda, saúde e educação.

Há muitos aspectos positivos em relação ao sistema de ensino público de Toronto, mas talvez o mais interessante seja a aplicação fervorosa do conceito de eqüidade em educação, tentando garantir igualdade de oportunidade de aprendizagem para que todo aluno possa desenvolver seu potencial. Sendo assim, as escolas de bairros mais pobres recebem maiores verbas do governo do que as escolas de classe média, possuindo uma relação professor-aluno significativamente menor. Por exemplo, se na escola em que meus filhos estudaram, as classes de jardim de infância tinham por volta de 35 alunos para uma professora e uma assistente, em uma das escolas mais pobres em que trabalhei (Park Public School), a relação era de 20 alunos por professor e assistente. A programação cultural é mais intensa no bairro de menor poder aquisitivo, já que, teoricamente, as famílias de classe média, por exemplo, podem levar seus filhos ao teatro.

Um segundo aspecto interessante é a adoção de um currículo com uma tradição de respeito aos direitos humanos, traduzido no respeito à diversidade cultural. Como decorrência, desde cedo o debate do que vem a ser racismo e como evitá-lo é parte integral do currículo e dos debates em sala-de-aula.

Um terceiro aspecto favorável refere-se ao fato do quanto a escola adota práticas educacionais atualizadas incorporando em sala de aula resultados bem sucedidos da pesquisa na área de psicologia e educação. Cito apenas alguns exemplos como a ênfase curricular na solução de problemas, no ensino centrado na criança, no ensino em grupo (quase não se vê classes onde as carteiras sejam dispostas em fileiras), no uso de monitores e na individualização do ensino. Paralelamente, procura-se desestimular a memorização priorizando e elaboração de trabalhos e a pesquisa.

Finalmente, há ainda o fato de o sistema educacional ter percebido que a sociedade e a família mudaram neste final de milênio. Os pais estão cada vez mais sendo solicitados por um mercado de trabalho competitivo e sendo assim, ao invés de culpá-los pelo não envolvimento e sem minimizar sua importância, a escola necessita ampliar sua função e portanto seu currículo, ensinando aspectos diversos como por exemplo técnicas de resolução de conflito.

Toda escola pública de Toronto (tanto do ensino fundamental como médio) possui um psicólogo e um assistente social como parte de sua equipe. Embora o tempo de atuação em cada escola varie muito por razões diversas (por exemplo, tamanho da equipe de psicólogos, número de estudantes, dificuldades inerentes a cada população escolar etc.) em média, tínhamos em nossas atribuições um conjunto de quatro escolas. Assim, passamos um dia da semana em cada escola diferente, sendo o quinto dia reservado para a elaboração de relatórios, reuniões com a equipe de psicologia e treinamento em serviço.

Em Toronto a função do psicólogo educacional divide-se em quatro atividades interligadas: 1) avaliação psico-pedagógica de alunos que apresentam quaisquer dificuldades, 2) aconselhamento ou intervenção psicológica com alunos ou pais, 3) consultoria a professores e administradores escolares e, finalmente 4) realização de projetos de pesquisa.

O eixo central em que o trabalho se desenvolve e, onde as principais decisões são tomadas é o "Local School Team". Trata-se de uma reunião sistemática em que a equipe da escola discute alunos-problemas, realiza conselhos de classe, avalia as necessidades da comunidade e propõe estratégias de intervenção. A equipe é composta pelo diretor da escola, o professor do aluno, o psicólogo, o assistente social e os pais, que são encorajados a terem uma participação ativa no processo. A freqüência com que a equipe se reúne varia de escola para escola, podendo ser semanal, bimensal ou mensal.

A avaliação psico-pedagógica consiste na obtenção de uma grande quantidade de dados a respeito do desempenho do aluno, tanto de suas dificuldades quanto de aspectos fortes do seu repertório, tendo em vista a queixa inicial (por exemplo, um problema de aprendizagem, um problema comportamental ou emocional etc). A avaliação tem início em geral por um entrevista com pais e professores, seguida por observações diretas em sala-de-aula, entrevistas com o aluno e aplicação de uma bateria de testes normativos.

Privilegia-se a avaliação dinâmica em que o psicólogo avalia e intervêm simultaneamente, podendo a intervenção ocorrer de várias formas: seja através do ensino de habilidades específicas à criança, com orientação subseqüente ao professor ou aos pais, seja através de aconselhamento dos pais e/ou atendimento psicoterapêutico do aluno.

Para que sua contribuição seja útil, o psicólogo precisa ser um generalista, sendo simultaneamente um educador e um clínico. Do mesmo modo que ele necessita estar familiarizado com as controvérsias da literatura sobre técnicas de aquisição de leitura, ele deveria sentir-se à vontade para conduzir sessões de intervenção com crianças com mutismo seletivo, com adolescentes com fobia escolar, com depressão, com risco de suicídio, etc.

 

 

Como forma de maximizar o tempo do psicólogo, o atendimento terapêutico em grupo é freqüentemente utilizado. Eu tive a oportunidade de participar, dentre outros, de grupos de intervenção terapêutica para meninos da sétima e oitava séries que experienciavam violência doméstica, grupos para alunos cujos pais estavam separados ou divorciando-se, grupos para alunos que estava enlutados, grupos para adolescentes do sexo feminino com alto risco de evasão escolar etc.

Além da atividade individual em cada escola, é permitido ao psicólogo engajar-se em projetos amplos de consultoria ao sistema como um todo. Neste caso, ele torna-se um especialista em um determinado assunto sendo, subseqüentemente, solicitado a atender diversas escolas dentro de sua especialidade. Uma das áreas em que eu atuei neste sentido foi participar do Tragic Events Team - equipe de apoio a eventos trágicos.

Trata-se de uma equipe interdisciplinar que se especializa em atendimento de crise a toda a comunidade escolar quando esta experiência é um evento trágico, como a morte súbita de professores, suicídios de alunos, etc. A equipe procura familiarizar-se com a literatura pertinente (por exemplo, o que vem a ser transtorno de estresse pós-traumático e como preveni-lo, aconselhamento em situações de luto) bem como, tenta coletar material didático e livros que auxiliem os alunos em diversas faixas etárias e lidarem com temas dolorosos.

 

 

Foram muitos os eventos trágicos em que fui chamada a intervir em Toronto. Cito apenas um caso que me marcou. Imaginem a seguinte situação: uma professora pede aos alunos de segunda série para fazerem uma redação. Uma menina vietnamita, a quem chamarei de Kim, escreveu em seu caderno "ontem foi um dia muito triste. Foi um dia muito triste porque meu pai morreu". Em seguida ilustrou sua redação com um desenho feito com traços precisos e detalhados da figura de um homem enforcado. A professora não soube como enfrentar a situação, solicitando a ajuda da Equipe de Eventos Trágicos. Como o atendimento à crise é priorizado pelo sistema, em menos de uma hora eu já estava na sala de Kim. Estava próxima a hora do almoço e a professora e eu decidimos acompanhar Kim até sua casa, fazendo uma visita. Como não havia tempo para conseguirmos um intérprete, a própria Kim traduziu nossa conversa com sua mãe. Infelizmente constatamos que a informação da redação de Kim era correta: não só ela havia descoberto o corpo do pai enforcado no apartamento, como assistira à polícia fazer a remoção do mesmo. Através do auxílio de um assistente social vietnamita foi possível oferecer ajuda à mãe de Kim e suas demais filhas, dar atendimento psicológico a Kim, orientação à professora e à classe como um todo. Impressionou-me a carta que Kim escreveu ao pai em uma de nossas sessões. Ela ditou a carta, copiou-a e levou-a ao templo budista onde seria o funeral. Marcou-me a perspicácia de como aquela menina minúscula, que mal havia aprendido o inglês, descrevia seus sentimentos: "papai, eu estou um pouco brava e muito triste com você."

Incidentalmente este caso teve um aspecto curioso de "substituição de sintomas": nos primeiros dias após o suicídio do pai, Kim desenhava a figura do pai morto com freqüência.A certa altura, sua mãe proibiu-a de fazer tais desenhos; Kim passou então a desenhar coelhinhos de pescoço quebrado ou com um cachecol ensopado de sangue. Por meio do assistente social vietnamita foi feita, então, uma orientação à mãe de Kim explicando a necessidade e utilidade dos desenhos como técnica de enfrentamento; paralelamente Kim foi orientada a respeitar o desejo de privacidade de sua mãe evitando que mostrasse os desenhos a todas as pessoas indiscriminadamente.

Este caso teve um bom desfecho: Kim terminou o ano escolar sem problemas, quando a família mudou-se para outra província do Canadá onde a mãe tinha parentes. Kim continuou correspondendo-se com a escola por certo tempo e tanto ela quanto a mãe e irmãs estavam contentes com a mudança.

 

A Atuação do Psicólogo numa Sociedade Multicultural

Nas escolas de Toronto há um cartaz dizendo: somente nas Nações Unidas fala-se mais línguas do que aqui. Toronto é considerada pela ONU como sendo a cidade mais multicultural do mundo. A título de exemplo na escola Park, a que já me referi, situada próximo ao centro de

Toronto, de um total de 520 crianças em 1995 apenas 34% delas falavam inglês em casa (sendo que, deste contingente, uma grande porcentagem usava um dialeto de inglês caribenho). As demais expressavam-se em casa em outras línguas como: 24,4% das crianças o vietnamita, 10,8% o chinês, 4,6% o somaliano e 26,2% falavam 26 outras línguas (sendo as mais freqüentes o árabe, bengalês, francês, curdo, persa, polonês, afegão, espanhol, oromo, tamil, tigrinia, turco e twi).

O impacto desta diversidade para o trabalho em sala de aula do professor é fenomenal e as implicações curriculares inúmeras. Para o psicólogo os desafios também são muitos. O psicólogo precisa aprender a diferenciar dificuldades de ensino específicas à aquisição de uma segunda língua de outras dificuldades que estariam presentes na própria língua materna. Precisa aprender práticas culturais diversas antes de sentar-se, por exemplo, com um mãe da Somália para orientá-la a lidar com as dificuldades comportamentais de sua filha adolescente. Precisa aprender a trabalhar usando intérpretes. Precisa aprender a treinar intérpretes de forma a atuarem de modo profissional e neutro (sem emitir seus próprios julgamentos e opiniões) e, o que é fundamental, mantendo a confidencialidade dos assuntos discutidos.

Se a natureza e a prática de nossa atuação já é complexa em si, imagine exercê-la através de um intérprete: dar o diagnóstico de autismo de uma criança do jardim de infância a pais de Uganda que só falam twi; discutir o conceito de déficit de atenção com uma família polonesa que não fala inglês, explicar a um pai de Madagáscar que sua filha está deprimida e sofre de baixa auto-estima; ou, ainda, discutir a necessidade de abandonar práticas de castigo corporal a famílias cuja cultura estimula tais práticas. Neste último caso, não só explicando a intolerância da legislação canadense a agressões físicas, como apresentando alternativas à punição.

Entrevistei um sem- número de alunos e famílias com dificuldades de adaptação à nova cultura, seja por resistir a sua assimilação, seja por rejeitar sua cultura de origem. Tais dificuldades de desaculturação foram descritas por vários psicólogos canadenses (Wolfgang, 1975; Cole & Siegel, 1990; Berry, 1985). Paralelamente, deparei-me com inúmeros casos de alunos e/ou familiares nostálgicos pelo país de origem, isolados devido a dificuldades lingüísticas, dificuldades essas que somadas à intensidade do inverno canadense contribuíam para um quadro geral de depressão.

É interessante notar que foi um canadense, Marshal McLuham (1989) que cunhou a expressão "aldeia global" para este nosso mundo modernizado. O dicionário Michaelis define multiculturalismo pela parática de acomodar qualquer número de culturas distintas numa única sociedade, sem preconceito ou discriminação.

Em seu livro Diversidade Cultural e Educação para Todos, Moacir Gadotti (1992) caracteriza a educação multicultural como sendo o pluralismo e respeito à cultura do aluno. Em contraste com os currículos brasileiros, em geral monoculturais, a educação multicultural é, segundo ele, "ao mesmo tempo uma educação internacionalista que procura promover a paz entre os povos e nações e uma educação comunitária, valorizando as raízes locais da cultura, o cotidiano mais próximo onde a vida de cada um se passa" (p.21)

Gadotti neste mesmo texto lança a semente do seguinte paradoxo: quanto mais o mundo se globaliza, mais ele se torna multicultural e, paralelamente, maior nossa necessidade de valorização de nossa cultura regional e da afirmação de nossa identidade.

Quanto mais a sociedade de massa nos despersonaliza talvez maior seja nossa necessidade de "pertencer a algum lugar", de nos identificarmos com alguma cultura. Quando isto é dificultado, surgem diversos problemas, como por exemplo a depressão que eu observei em certos clientes canadenses desenraizados culturalmente.

A descoberta de outras culturas pode ser tanto atemorizadora quanto libertadora. Anthony Giddens (1991) abre seu livro As Conseqüências da Modernidade com uma bela citação de Paul Ricoeur: "Quando descobrimos que há diversas culturas ao invés de apenas uma e, consequentemente, na hora em que reconhecemos o fim de um tipo de monopólio cultural, seja ele ilusório ou real, somos ameaçados com a destruição de nossa própria descoberta, subitamente torna-se possível que só existam outros, que nós próprios somos um "outro" entre outros ..."

Para concluir gostaria de especular sobre a atuação do psicólogo à medida que o mundo se globaliza. Continuaremos necessitando de informações de nosso colegas sociólogos e antropólogos mas nossos psicólogos sociais poderão se beneficiar do desenvolvimento de projetos de pesquisa em conjunto a nossos clínicos e educadores para realizarmos intervenções multiculturais mais eficazes.

Paralelamente, à medida que o mundo se encurta, as oportunidades de colaborações profissionais serão cada vez mais freqüentes. Se a nível universitário isto já ocorre em termos de colaboração mútua em projetos de pesquisa ou intercâmbio de alunos e professores, a nível profissional as oportunidades ainda são restritas. Uma dificuldade inerente refere-se aos contrastes nas exigências de formação do psicólogo, e por isto eu me detalhei no início para caracterizar como a América-do-Norte é muito mais rigorosa nesse sentido. A questão que se coloca, quanto a formação do psicólogo, é como competir globalmente e, ao mesmo tempo, atender as necessidades locais?

 

Referências bibliográficas

Berry, J.W. (1985) Psychological adaptation of foreign students. In A. Thomas & J. Grimes (Eds.), Intercultural Counselling and Assessment. (pp. 58-72). Toronto: C.J. Hogrefe Inc.         [ Links ]

Cole, E. & Siegel, J.A. (1990) School Psychology in a multicultural community: responding to children's needs. In E. Cole & J.A. Siegel (Eds.) Effective Consultation in School Psychology, (pp. 141-169). Toronto: Hogrefe & Huber Publishers.         [ Links ]

Furtado, C. (1998) O Capitalismo Global. São Paulo: Editora Paz e Terra.         [ Links ]

Gadotti, M. (1992) Diversidade Cultural e Educação para Todos. Rio de Janeiro: Edições Graal Ltda.         [ Links ]

Giddens, A. (1991) As Conseqüências da Modernidade. São Paulo: Editora UNESP.         [ Links ]

lanni, O. (1995) Teorias da Globalização. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira.         [ Links ]

McLuham, M. & Powers, B.R. (1989) The Global Village. (Transformation in world life and media in the 21st Century). New York: Oxford University Press.         [ Links ]

Wolfgang, A. (1975) Basic issues and plausible answers in counselling new Canadians. In A. Wolfgang (Ed.) Education of Immigrant Students. (Issues and Answers). (pp. 139-148). Toronto: The Ontario Institute for Studies in Education.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Lúcia Cavalcanti De Albuquerque Williams
Rua Virgilio Pozzi,293
São Carlos,SP 13564-000 Brasil (016)271-3610
E-mail: lucawi@zaz.com.br

Recebido em 25/01/99
Aprovado em 27/03/99

 

 

1 Conferência apresentada na XVIII Reunião Anual de Psicologia da Sociedade Brasileira de Psicologia, Ribeirão Preto, 27-31 de outubro de 1998.

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