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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.20 no.4 Brasília Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932000000400003 

ARTIGOS

 

Condições de vida e saúde mental na zona rural de Nova Friburgo – RJ

 

 

Adriana de Andrade Gomes*; Brani Rozemberg**

Fundação Oswaldo Cruz

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa teve como objetivo conhecer as condições que envolvem o processo saúde-doença dos moradores de zona rural de Nova Friburgo/RJ, estudando especificamente as queixas relacionadas ao “nervoso” e às explicações destas pelos moradores. Aplicamos 102 questionários e encontramos 24 queixas referidas como “nervoso”. Para compreender os significados envolvidos na referida queixa, entrevistamos posteriormente somente os moradores que referiram sofrer dos nervos. Ao interpretarem o “nervoso” como herança genética, expressam uma situação fatalista, ficando com menores opções de tratamento. Em outros relatos percebemos que os entrevistados articulavam relações entre as transformações atuais no ambiente socio-cultural e a emergência do nervoso. Tal relação permite que se pense o “nervoso” como um sofrimento não-fatalista, facilitando o resgate da autoria da palavra, recuperada como um saber original, que permite articular a história pessoal com o adoecer. Nesta perspectiva, organizamos um grupo de mútua-ajuda com os moradores locais.

Palavras-chave: Área rural, Condições de vida, “Nervoso”, Grupo de mútua-ajuda.


ABSTRACT

The aim of this research was to understand the conditions involved in the health-disease process of the rural workers from Nova Friburgo/Rio de Janeiro, studying specifically the complaints referred to as “nervousness” by the inhabitants as well as the related explanations given by them. We applied 102 questionnaires and found 24 complaints reported as “nervousness”.In order to understand the meanings involved in this particular complaint, we only interviewed the inhabitants that had mentioned suffering from “nervousness”. When “nervousness” was interpreted as a genetic inheritance, the options for treatments were diminished as a fatalistic dimension was imbued in their explanations. In other reports we perceived that the dwellers raised relations between the present changes in the socio-cultural environment and the “nervousness” emergence. This other association enables to think of “nervousness” as a non-fatalistic condition, which facilitates the ransom of the authorship of the word, recovered as an original knowledge, therefore allowing for the establishment of a relationship between their own personal history and the acquired illness. In this perspective, we have organized a mutual help group with the local inhabitants.

Keywords: Rural area, Life conditions, “Nervousness”, Health-disease process, Mutual help group.


 

 

Neste texto relatamos a caminhada por nós percorrida durante os últimos dois anos (1997/1998) para compreendermos o processo saúde-doença, na região rural de Nova Friburgo (5º/7º distrito) e, mais especificamente, a realidade mencionada pelos lavradores de “nervoso”.

“Doença nervosa”, “estado de nervos” ou propriamente “nervoso” é uma categoria de queixa de saúde encontrada na literatura médica e antropológica. Alguns autores trabalharam o tema com indivíduos moradores dos grandes centros urbanos, como Duarte (1986) e Costa (1987). Duarte realizou um amplo estudo sobre a forma com que os trabalhadores urbanos denominam o sofrimento psíquico, articulando as expressões utilizadas pelos trabalhadores para referi-lo com as representações que denotam saberes elaborados coletivamente pelo contexto sociocultural em que se inserem. Costa também voltou-se para o estudo das queixas nervosas. Procurou demonstrar que o “nervoso” é uma forma de reagir, específica de certos grupos sociais, aos fatores estressantes presentes no meio em que vivem. Tais fatores modificariam os sentimentos e comportamentos considerados pelos indivíduos como universais, naturais, gerando outros que rompem com o modelo anteriormente vivenciado pelo indivíduo, o que gera sofrimento por perceber sua identidade afastada da norma aceita. Permanecer fora dos padrões psicológicos aceitos pressupõe estar enfermo. Esta tendência para interpretar como patologia, como doença a experiência da angústia foi estudada também por Rozemberg (1992). A autora pesquisou as principais queixas de saúde referidas por moradores de Conceição do Castelo, Espírito Santo, tendo verificado a existência de uma alta incidência de queixas de saúde denominadas de “nervoso” e ao procurar estudá-las verificou que estas eram entendidas predominantemente como sintomas físicos, muitas vezes relacionados a outras doenças, como artrite, cansaço, velhice, etc. Em outros relatos eram interpretados como uma doença em si mesma, ou seja, como a denominação completa para um mal incurável, apenas tratável por medicação. Foi observada uma íntima relação entre a denominação para o mal e a escolha do tratamento, geralmente associado ao consumo alto e crônico de psicotrópicos. Assim entender-se como “doente dos nervos” pressupunha padecer de um mal passível somente de alívio através da medicação, o que gerava nesta população um círculo vicioso e intransponível, composto pelo elo doença-remédio-doença.

Baseadas nestes trabalhos e apoiadas em estudos exploratórios no 5º/7º distrito de Nova Friburgo, realizamos uma pesquisa nesta região para verificar a incidência de queixas de saúde, onde de forma similar aos autores mencionados, também encontramos um elevado índice de queixas associadas ao “nervoso”.

 

Objetivos

Nossos objetivos foram:

a)levantar os diferentes problemas de saúde referidos por 102 moradores do 5º/7º distrito de Nova Friburgo, dando especial atenção as possíveis queixas denominadas de “nervoso” ou com menções similares.

b)Buscar levantar as possíveis explicações desenvolvidas pelos próprios sujeitos para seu sofrimento, articulando a fala dos entrevistados à nossa leitura interdisciplinar enquanto profissionais que trabalham na interface entre a Psicologia e as Ciências Sociais.

Este estudo parte do pressuposto de que é a linguagem que define o sujeito. O lugar de onde fala e como fala exprimem o sentido de sua experiência, deixando entrever a expressão de uma real e concreta existência. Freire Costa (1989) afirma que não existe doença independente de seu modo de expressão. A idéia de causalidade faz parte da maneira como a doença é representada. Entender como o sujeito nomeia seus males significa que é a partir de noção construída por ele para sua dor que ele lidará com ela, oferecendo-lhe sentido ou negando-lhe. Tal premissa relaciona-se com a possibilidade - que somente o homem possui - para comunicar-se através da palavra. Dolto afirma em conferência realizada em Grenoble (1987) e intitulada “Tudo é linguagem”1 que enquanto as necessidades devem ser satisfeitas, os desejos devem ser conhecidos e expressos em palavras. O conhecimento de vivências passadas facilitará a integração das memórias vinculadas aos sentimentos e impulsos que mantidos inconscientes serão vividos desordenadamente, através de diferentes atos, freqüentemente incompreensíveis para o próprio sujeito, que atônito, pergunta-se: por que fiz isto? A negação à palavra e, portanto, ao conhecimento acerca do significado das ações que envolvem os indivíduos conduzem, muitas vezes, à manifestações sintomáticas de toda ordem, o que nos permite afirmar que o desconhecimento de si pode conduzir à doença.

 

Metodologia

Para atingir nossas metas discutimos ao longo do texto nossas idas e vindas na elaboração do método (palavra grega originária do grego “odos” – caminho) porque acreditamos que são os avanços e recuos que permitem o desenvolvimento da ciência, ainda mais quando se tem como objetivos o estudo da subjetividade humana. Ao optarmos por apontar também nossos revezes, entendemos assim como Guba (1990) que é a autenticidade na descrição de todas as etapas, muito mais que a assepsia descritiva, que permite o avanço do conhecimento, já que o pesquisador que verdadeiramente pesquisa não nasce pronto, ele assim se torna na busca contínua do conhecimento, na interação inseparável entre teoria e prática. Articular permanentemente estes dois pólos é ação indispensável em todo processo de pesquisa, na medida em que toda ida ao campo se inicia a partir alicerces teóricos. Entretanto, é através do contato vivo com a realidade em estudo que o pesquisador alimenta a teoria, ampliando-a ou, eventualmente, rompendo com estruturas explicativas até então tidas como válidas, tal como ocorreu com Freud. O renomado médico vienense revolucionou a psiquiatria da época e a compreensão da mente humana ao optar por trilhas desconhecidas, ao servir-se de uma prática ousada, inovadora, criando a partir dela novo corpo explicativo de idéias. Sua genialidade estava, sobretudo, em sua coragem para romper com esquemas prévios, tradicionalmente hegemônicos de intervenção terapêutica e propor uma saída à supremacia dos posicionamentos organicistas de então.

Por considerarmos a realidade estudada não-linear, contraditória, complexa e incognoscível, optamos por redigir este texto como uma edificação viva, o que de certa forma nos leva a considerá-lo interminável, se considerarmos que o produto final não será jamais capaz de refletir, na totalidade, todas as vivências e descobertas percebidas ao longo do processo de pesquisa. Balizadas nesta idéia, optamos por trabalhar os dados coletados ao longo de todo o artigo e não adicioná-los ao texto como uma parte destacada, mas, ao contrário, estes devem estar presentes no texto, de forma continuada, não estilhaçada. Tal posição é defendida por Minayo (1994), quando a autora se refere à análise do material coletado nas pesquisas qualitativas em Saúde :

“...o material empírico, é como dissemos, o ponto de partida e o ponto de chegada da interpretação. Esse movimento incessante que se eleva do empírico para o teórico e vice-versa, que dança entre o concreto e o abstrato, entre o particular e o geral é o verdadeiro movimento dialético visando ao concreto pensado. ...O produto final e sempre provisório, resultado de todas as etapas da pesquisa , é o concreto pensado de que falava Marx”. ( 1994: 236/237).

Inicialmente pretendíamos somente realizar um estudo de caso. Ludke & André (1988:17) afirmam que o estudo de caso caracteriza-se por ser “a investigação de uma unidade dentro de um sistema mais amplo”. O interesse localiza-se naquilo que o objeto de estudo em questão tem de específico, ainda que posteriormente fiquem evidentes semelhanças com outras situações ou casos. Em nossa pesquisa pretendíamos levantar as referências às queixas de “nervos” na região rural de Lumiar-São Pedro, para posteriormente - através da análise do discurso - construir categorias a partir das falas dos entrevistados. Veremos adiante que esta opção foi ampliada, passando nossa investigação a incluir também a organização de um grupo de mútua - ajuda para aqueles que referiram sofrer dos “nervos”. Entendemos que o espaço grupal oferece ao pesquisador um instrumento que facilita a abertura de caminhos para o desvelamento do eterno movimento entre a subjetividade dos moradores e sua articulação com a realidade circundante. Apontamos também para o fato de que tal proposta permite a circularidade da palavra, democratizando o acesso ao conhecimento das diferentes formas com que cada membro do grupo lida com suas dificuldades cotidianas. Assim, os grupos funcionam como um suporte social e psicológico para aqueles que dele participam, além de oferecer ao investigador uma alternativa metodológica aos tradicionais instrumentos de investigação. As palavras proferidas nos encontros de mútua-ajuda iluminam o dinamismo interno das questões pertinentes ao processo saúde-doença, trazendo à tona elementos que de outra forma estariam inacessíveis ao investigador. Observamos ainda, que nos grupos, os diferentes pontos de vistas são confrontados bem como o debate sobre as situações cotidianas. Tal situação permite - aos sujeitos participantes e ao pesquisador - a oportunidade do diálogo construtor de uma realidade inesgotável

Por termos viajado para a região várias vezes ao longo do ano de 1997 nos tornamos lentamente familiarizadas com o contexto cultural e a população. Fomos construindo uma intimidade com os moradores e ao mesmo tempo aprofundando as informações solicitadas. Nossa habilidade relacional colaborou para o estabelecimento de uma relação de mútua confiança, tornando a comunicação pesquisador - pesquisando mais solta, menos amarrada pelo temor natural de relatar informações íntimas à desconhecidos.

Dividimos os caminhos percorridos em três etapas. Em nossa primeira etapa, mapeamos dez bairros dos dois distritos, escolhendo aleatoriamente cerca de 100 residências, onde aplicávamos um questionário para levantarmos o perfil socioeconômico do morador bem como as queixas de saúde. Este questionário acabava muitas vezes por permitir também a coleta de informações que não pretendíamos inicialmente obter naquele momento, mas que se revelaram fundamentais para o alcance de nossos objetivos. A busca do estabelecimento de uma situação de intimidade com os moradores do local transformava a situação “preenchimento do questionário” também em um momento de entrevista, o que facilitou nosso retorno, na segunda etapa da pesquisa.

Dentre os 102 questionários domiciliares preenchidos, observamos que 24 continham referências ao “nervoso”, como queixa de saúde. Optamos, então, por retornar às residências destes moradores (2ª etapa), para - a partir de entrevistas semi-dirigidas - aprofundar o conhecimento do que seria, na concepção dos próprios, a doença dos nervos. Thiollent (1982) afirma que um dos maiores méritos da entrevista não-diretiva é que ao não propor ao entrevistado uma completa estrutura do campo de investigação, a palavra lhe é oferecida inteiramente. Desta forma... “é o entrevistado que detém a atitude de exploração”(Simon,1977 in Thiollent, 1982:85).Estas entrevistas nos permitiram descrever a sintomatologia dos “nervos”, conhecer o tratamento escolhido e discutir algumas possíveis causas atribuídas pelos próprios moradores para seu sofrimento.

A terceira etapa consistiu na organização de grupos de ajuda. Goffman (1963) destaca a função psicossocial dos grupos de mútua-ajuda, por ele denominados de “grupos entre iguais”. Menciona a existência de associações internacionais como o A.A2 ., ALLA-NON3 , N.A4 que são grupos de mútua ajuda onde objetiva-se desenvolver entre seus membros uma doutrina completa e um novo modo de viver. Estas associações conseguiram, através de muitos anos de experiência e estudo, tornar-se uma referência terapêutica e social para pessoas estigmatizadas por diferentes problemáticas sociais e psicológicas. Funda-se na idéia de que o indivíduo que participa de um grupo e que compartilha com outros sujeitos de um papel social em comum, adquire - através do laço identificatório estruturado no grupo – maior força emocional para se organizar em busca da construção de espaços públicos para sua atuação, com a conseqüente possibilidade de reconhecimento social. Este sujeito desenvolve um autoconceito mais elevado de si enquanto diminuem os sentimentos de exclusão que parecem infligidos exclusivamente pela sociedade.

Neste sentido, os encontros grupais organizados atuaram tanto em benefício da comunidade, já que a troca conjunta de experiências favoreceu a tomada de consciência e serviu como indicativo para resolução de problemas vividos em comum, quanto à pesquisa, que teve seus horizontes ampliados após o início dos grupos.

 

As Queixas de Saúde

Os moradores da região rural de Friburgo sofrem principalmente de dores nas pernas, decorrente de problemas circulatórios e de dores na coluna causados pela extenuante jornada de trabalho, capinando, como “funcionários da enxada”, conforme expressão corriqueira entre os lavradores. O longo tempo em pé, com a enxada nas costas, com as pesadas cestas de verduras e frutas na cabeça, agravou ou gerou problemas circulatórios, referidos pela população como cansaço nas pernas, varizes ou, em casos graves, provocou feridas nas pernas e dificultou a realização do trabalho na lavoura. Doenças cardíacas e hipertensão arterial também foram queixas freqüentes, além da menção ao “nervoso”, terceira queixa mais referida, tendo tido 24 menções dos moradores.

 

Análise da Queixa Referente ao “Estado dos Nervos”

O problema dos nervos apareceu como 3º categoria de doença mais referida pelos 102 moradores ouvidos. Classificamos suas descrições didaticamente através de três eixos, embora todos interrelacionados, como demonstraremos: a) como sintomas desconectados entre si, localizados essencialmente no corpo, que, entretanto, eram parte de uma doença a ser diagnosticada. b) como uma doença já diagnosticada, como um mal físico, pelos próprios sujeitos ou por terceiros - como médicos - sendo sua origem entendida como hereditária e fatalista. c) como um mal, que apesar de localizar-se no corpo, possuía raízes nas alterações econômico-culturais em curso na região. Este último eixo pode ser melhor visualizado durante os encontros grupais.

Em sua maioria, a transcrição das entrevistas demonstra que o “nervoso” era expresso através de queixas localizadas no corpo, geralmente vinculadas a um substrato orgânico e decorrentes da hegemonia do discurso médico. Esta forma de compreender o adoecer localiza-se no entendimento de que toda doença tem necessariamente uma base orgânica, biológica. Nicacio (1996) em um estudo sobre as formas de mapeamento do sofrimento psíquico, encontradas em um ambulatório público situado no Rio de Janeiro, também assinala a presença da queixa “nervoso”. Para o autor, os diversos sujeitos que buscam os serviços de Psicologia e Psiquiatria referem-se ao “nervoso” através de uma multiplicidade de sintomas, geralmente localizados no corpo, onde as experiências da vida, como possíveis impulsionadoras de seus males, não são destacadas. Podemos observar este tipo de explicação na transcrição dos relatos abaixo obtidos durante o processo de entrevista :

“... eu acho que isto é coisa que vem desde criança, de família, será não? Acho que não deveria ter acasalado, coisa que não dá certo. Meus filhos tudo eles são nervoso para caramba....” “... Minha mãe falava assim: essa menina tem problema de fígado, vomitava, eu ficava jogada na cama, ia indo, ia indo, passava, eu voltava a comer bem de novo, eu fui descobrir que eu tinha problema de nervoso depois que eu trabalhei no restaurante. Fiquei cinco anos presa aqui dentro, eu mesma nem comia...Foi indo, foi indo e não parava nada no estômago, fui no médico, fiz chapa de vesícula e não deu nada. Aí o médico me mandou pro médico de nervo, me dá remédio de nervoso... ( N, 62 anos).

“Eu sempre fui meio nervosa, ficava brava com as coisas, sabe, quando alguém me aborrece, me deixa com raiva. Eu nasci assim. Eu acho que puxei o nervoso de meu pai... Ele tremia tanto que chegava a tocar a modinha. Eu tenho uma irmã na Benfica que era assim... ele tremia muito. Então eu acho que é de família, eu sou de gente nervosa. Eles acham eu calma, mas por dentro eu sou muito nervosa. Eu fui ao médico e ele passou Ludiomil...Eu melhoro com o remédio, ele me deixa mais viva... (L 47 anos)

Já em outro relato observa-se uma linguagem centrada inicialmente na idéia fatalista de doença, acoplada ao desenvolvimento de uma relação de causalidade visível, concreta para o “nervoso” - os vermes. O discurso elaborado nos passa a impressão de que ao localizar nos microrganismos a causa para seus males, o sujeito teria a ilusão de um maior controle sobre seu sofrimento:

“Eu acho que foi porque antigamente eu dava ataque de nervo. Eu acho que foi onde eu fiquei com este problema de nervo, eu dava ataque várias vezes ao dia. Era desmaio, ficava desacordada um tempão. ...Era assim, era problema de nervoso, era pequena, não tinha problema de ser contrariada....Eu não lembro deste ataque, meu pai que me contava...aí depois que eu fiquei grande, eu tava sabendo que eu tinha problema, mas depois eu sentia aquela tremura dos nervos, eu começava a chorar, não conseguia ficar sozinha no lugar...Eu sentia um negócio... como se fosse morrer, aí eu ia pro quarto dele. Ainda hoje eu tenho este problema ainda, tenho vontade de chorar. Acho que o nervoso me pega mais quando estou de verme. Acho que piora muito...” ( M, 39 anos)

Tal linguagem nos remete às expressões médicas hegemônicas próprias dos séculos XVIII e XIX, onde a causa primeira deste sofrimento se localizava em uma hereditariedade degenerada, denominada pela medicina da época de degenerescência mental, como demonstrou Nicacio ( 1996).

Nota-se também que as explicações estão centradas nos sintomas, passando a impressão de que este “nervoso”, embora parte da própria pessoa, é vivenciado como um elemento em separado, não integrado ao restante da noção de identidade do sujeito. Este sofrimento é entendido pelo sujeito como tendo uma raiz única: o corpo. Embora em alguns discursos tenha havido menção à melhoras com chás, caminhadas, etc, o que sobressai é que o saber do sujeito é, por ele próprio, desconsiderado. A palavra e o conhecimento de si são todos oferecidos ao doutor, que, onipotente, saberá fornecer a mágica solução.

“E assim fico zonza, dá tonteira forte, prende o peito...O médico falou que é problema de nervo... Ele disse que ia melhorar com o lexotan.... O meu nervo ele é tão forte, que vamos supor, o serviço que, para mim, era de duas ou três empregadas, eu fazia sozinha, porque o meu nervo ele não permite que eu fique parada, ele não permite fazer nada calmo, ficar nem um minuto parada era daí, a botar 3 empregadas , mas eu sozinha fazia tudo... Por quê? Por causa do nervo... Era muito prejudicial até mesmo trabalhar... O que fez meu nervo ficar assim?... Se eu vou pedir exame médico, vão botar que eu não tenho nada, e no fundo, com o tempo vão descobrir que eu tenho...De primeiro, ele falou que eu não tinha nada, mas depois descobriu que era depressão. Eu sem o lexotan eu não fico com a minha mente perfeita, eu fico com muita tonteira, posso até conversar com você, tudo assim normal, às vezes, você nem me nota, pode notar na cor, porque eu fico pálida... eu desconfio que ele é tão bravo, ele não é bem por fora, ele é por dentro, eu acredito que ele prende a circulação sangüínea, eu acredito que sim, porque nem as batidas do meu coração funcionam normal.....(M. 32 a),

... Eu às vezes fico ansiosa, porque eu trabalho no comércio, já é uma coisa que deixa a gente nervosa, eu trabalho no caixa, e pega mais a depressão, mas agora eu estou bem, porque antes eu estava com um remédio de 100mg, 2 comprimidos, era muito forte, agora eu estou ótima. Só que às vezes eu me sinto triste, me dá um desânimo...”(J,36 a)

Kabat-Zinn (1999) ressalta que ao situar a dor no corpo, o sofrimento descrito passa a ter, para o sujeito que sofre, uma visibilidade maior. Assim, quando ele diz que talvez o problema esteja na vesícula, ou no estômago ou no próprio nervo, o sofrimento torna-se passível de ser localizado. Ele é visto como situado em um órgão concreto. Expressando-se desta maneira o sujeito acredita conferir maior legitimidade à sua dor. Por outro lado, é possível ler nas entrelinhas a idéia de que a linguagem dos sentimentos não deve ser levada ao médico, porque sua função consiste em tratar do corpo. Ressaltamos, contudo, que este tipo de comportamento não é específico dos trabalhadores rurais de Nova Friburgo, na medida em que expressa a dicotomia tradicional entre mente e corpo, própria da medicina ocidental, à despeito do esforço hercúleo de inúmeros profissionais que trabalham em Saúde Mental atuarem no sentido de recuperarem o elo perdido entre estes dois pólos, como têm demonstrado alguns pesquisadores, entre eles Goleman ( 1999); Salzberg &Kabat-Zinn (1999); Brown (1999), dentre outros.

A introdução maciça de novos medicamentos alopáticos no mercado da saúde mental, aliada à propaganda feroz das indústrias farmacêuticas – ansiosa por ver seus lucros crescerem incessantemente – também têm contribuído para a compreensão de que toda dor, mal-estar é doença e, portanto, passível de ser medicada. Concomitantemente, observa-se que parte da coorporação médica bem como os próprios pacientes preferem manter-se estritamente na compreensão orgânica dos distúrbios mentais à interpretá-los como um fenômeno relacionado com a própria história do indivíduo e associado à visão pessoal de sua dor. Compreender o sofrimento psíquico como fruto da interpretação que o sujeito constrói para sua dor foi, com certeza, a grande iluminação de Freud, fato este que gerou a introdução de um novo paradigma científico, com o qual até hoje nos confrontamos. Fabião (1999), em recente entrevista, segue na mesma trilha de argumentação que apontamos, ao afirmar:

“ quando a ciência moderna rotula a depressão não é que ela esteja absurdamente errada... mas... Ela está pegando a conseqüência do fato e não está percebendo que aquilo que o sujeito sente não é biológico... Como o outro não quer se questionar... Ele aceita o discurso do doutor. Há um acordo e, dessa maneira, ficam todos felizes...” (1999:74)

Olhar para dentro de si, buscar no próprio interior as raízes para as suas dores, sejam estas físicas ou psíquicas é caminho árduo, que demanda tempo, incompatível com a ideologia atual, cada vez mais difundida, da impossibilidade de “perda de tempo”. “Tomou doriu, a dor sumiu”, parecem querer todos. Algum nível de sofrimento é inerente ao processo de autoconhecimento, na medida em que o sujeito precisa entrar em contato com suas sombras, com imagens identificatórias inconscientes – construídas no estabelecimento das primícias relacionais - que remetem freqüentemente a lembranças dolorosas, para integrá-las e harmonizá-las de forma a facilitar o emergir de uma identidade menos fragmentada.

Na vertente oposta, as terapias que pregam a rapidez na cura através de instrumentos que não enfatizam o envolvimento do indivíduo no processo terapêutico tornam-se muito mais sedutoras. Entretanto, o conceito de saúde não pode ser definido como ausência de doença ou de sintomas, pois traz, ao contrário, a idéia de um eterno movimento, que engloba muito mais o fazer um caminho do que efetivamente uma chegada precisa, um produto tido como pronto e acabado.

Embora os sujeitos enfatizem em seus discursos a base organicista para o “nervoso” assinalamos que a linguagem, através da qual nomeiam suas dores, carrega também a percepção de que o sofrimento pode ter sua origem em fatores externos, vinculados a problemas vivenciados no seio da família e no trabalho. Em alguns momentos ambos os discursos surgem intrincados, trazendo elementos que parecem contraditórios, sendo difícil separá-los. Senão, vejamos:

“...À lavoura diminuiu porque eu trabalho um pouquinho para me distrair um pouquinho, porque eu não “quento” mais não. Meu pai desde pequenino nunca botou filho nas costas, só debaixo de enxada e jacá, para pegar na roça, pegar no serviço...” “...Às vezes eu sinto fraqueza, eu tomo uma vitamina que o farmacêutico passa. Às vezes fico assim meio desanimada, parece que a minha pressão abaixa, fico enjoada, meio fraca das pernas, aí saio, vou andar, vou ver minha irmã que mora em cima , falar um pouquinho, aí quando volta já está melhor...)(S, 49 a)

Observamos que com o andamento do diálogo pesquisador - pesquisando os relatos que somente deixavam entrever a descrição do “nervoso” como sintomas ou como um mal fatal, lentamente iam sendo percebidos e localizados fora do espaço do corpo. O locus da queixa passava a vincular-se às variáveis presentes no meio em que vivem, o que facilitava a expressão de diferentes relações de causalidade. Podia-se perceber em alguns trechos uma certa psicologização das causas atribuídas à queixa do “nervoso”. Assinalamos que ao nos referirmos à expressão psicologização, falamos de tentativas empreendidas pelos sujeitos para recriar subjetivamente, de forma singular, fatos externos. São exemplos deste tipo de colocação:

“Ele começou a beber umas doses no volante, aí foi indo, foi demitido, teve que voltar para lavoura.. aí você sabe, a lavoura não é mole não, depois que a gente deixa, vai fazer outro serviço, o corpo amolece, não aguenta. Aí não deu mais.. Bebeu mais, acho que foi para esquecer, afastar as idéias. Eu fiquei com muita preocupação com ele, foi me dando um nervoso, que não passa. Quando ele tá bem, parece que eu fico melhor, fico mais calma, a calmaria dele passa para mim....” ( J, 36 anos)

Em outros relatos, observa-se que o “nervoso” que as trabalhadoras rurais relatam está associado ao afastamento dos filhos.

...” Agora ando demais com saudade da minha filha que quis estudar fora... Nunca mais vem aqui... Dói o coração da gente, né? Filha mulher sempre é mais apegada, ajuda a gente no serviço, mas essa que era a mais trabalhadeira teve que ir atrás do marido, pelo menos está estudando, se Deus quiser ela vai melhorar, não vai pegar nunca no pesado igual à mãe...A vida na lavoura é boa, mas desgasta muito. Eu queria parar para ver se ficava mais calma, mas cadê que dá?” (J, 49 aa)

“...Hoje tô muito cansada, cheia de varizes nas pernas, tudo dói. Não tenho mais força para ir para lavoura. Meu marido também se queixa muito de dor na coluna. Quase não “quenta” mais capinar. Meu filho mais velho, ajudava ele na roça, mas agora está trabalhando em uma oficina em Friburgo, quase não vem mais por aqui...deixou a lavoura porque quer ganhar mais, acha que não tá dando quase preço.. Só aparece por aqui às vezes, no domingo..., tem os filhos dele, a mulher, não pode tá vindo sempre. Eu sinto, fico nervosa, me dá aquela tristeza, penso que pode acontecer coisa ruim por lá, cidade grande... Me faz um aperto no peito, me dá um nervoso. Fui ao médico, ele passou remédio pros nervos. Melhora um pouquinho, mas volta, acho que eu só sossego quando ele aparece por aqui...” ( S, 56 anos)

Ao analisarmos os relatos observamos tanto um discurso entremeado de queixas orgânicas, dispersas, desvinculada da existência que circunda o sujeito - o que dificulta a construção de uma significação pessoal - quanto de palavras, que ao vincularem-se ao espaço cambiante e mutável, possibilitam o encontro de alternativas ao discurso médico, na medida em que sinalizam a influência das relações ambientais, familiares e, principalmente, aquelas associadas ao processo de manutenção da vida. Ao descolarem do corpo a queixa nervosa, os sujeitos permitem que uma interpretação própria desabroche, trazendo consigo a noção de que estas queixas não brotam necessariamente de um mal herdado ou de forças inexplicáveis, mas fundamentam-se em um saber inerente àquele que sofre, que precisa ser resgatado para que suas palavras não sejam a expressão de um monólogo: o corpo que fala consigo próprio. Como veremos abaixo, nos grupos de ajuda e reflexão, a linguagem começou a ser tecida como um diálogo inesgotável com a vida.

 

Os Grupos de Mútua - Ajuda – A Palavra Recuperando a História

O fato de alguns moradores começarem a perceber que a raiz de muitos de seus males estivesse não somente na leitura que fazem da realidade que os envolve, mas também na própria dificuldade para articular relações entre a vida e a dor, nos conduziu para a organização de grupos de mútua-ajuda, que são grupos de discussão de experiências entre iguais.

Embora estes encontros não possam substituir um trabalho psicoterápico, facilitaram a percepção de que o sofrimento dos “nervos” pode ser formulado através de uma linguagem pessoal e simbólica. As diferentes palavras, conduzidas através de mediadores – no caso a psicóloga –permitiram o acesso a uma outra linguagem, ou seja, ao exterior do corpo. Todo enfoque que não se enclausure no monólogo auto-referente – onde uma única voz é ouvida – pode vir a ser meio para o encontro entre o que é interior e o exterior, entre o eu e o outro, entre a singularidade e a universalidade, impedindo assim a ininterrupta categorização humana em dicotomias excludentes. A oportunidade que o grupo oferece para a troca de saberes e de histórias, as múltiplas vozes ouvidas constantemente conduzem ao desenvolvimento de mecanismos intrínsecos de identificação entre seus integrantes. O outro sujeito, anteriormente um estranho, é percebido no grupo como alguém que compartilha o mesmo universo simbólico cultural, mas que, no entanto, verbaliza outras sentenças em face à mesma dificuldade.

A partir das premissas de que os grupos possuem o potencial para a recuperação da autoria da palavra - anteriormente entregue ao corpo, ao médico, a um outro - realizamos na sede da Ação Rural (associação criada para defender os pequenos agricultores) oito encontros, com uma média de 12/15 pessoas em cada encontro. Os sujeitos que participaram têm, em média, 35/55 anos, escolaridade baixa (no máximo completaram quatro anos de ensino fundamental) e são em sua maioria mulheres, donas de casa, lavradoras e/ou agentes de saúde.

Durante os grupos observamos que os participantes foram se afastando do referido “problema dos nervos”, descrito basicamente através de diferentes sintomas dispersos, sem significação, para irem se apossando de saberes que lhe são próprios, pessoais, articulados à dinâmica da transformação do espaço de trabalho na região. A antiga agricultura de subsistência que manteve por longos anos estes trabalhadores passa hoje por duros revezes em função de um conglomerado de fatores. Entre eles, encontramos: A agricultura ocupa espaços cada vez menores na região em função da crescente diminuição das áreas próprias para o plantio (fruto do desgaste natural da terra - pouca rotatividade das culturas e realização de muitas queimadas) e da progressiva industrialização da agricultura, situação que o pequeno agricultor não tem condição de acompanhar. Tal situação decorre, por um lado, da dificuldade de conseguirem financiamentos para suas atividades e, por outro, da forma autônoma realizada exclusivamente com parcerias familiares e de conhecidos próximos, com que sempre conduziram sua produção.

Paralelamente a esta situação, assinalamos o crescimento da consciência ecológica, que tem levado os moradores mais recentes da região - geralmente vindos dos grandes centros - a atuarem no sentido de fiscalizar possíveis derrubadas da Mata Atlântica, hoje tombada. Impedido de roçarem pequenas árvores - hábito tradicional que lhes garantia terras disponíveis para o plantio - os lavradores têm tido dificuldades para manter sua principal atividade econômica. Tornou-se premente encontrar novas formas de manutenção da vida. Em função desta transformação no campo econômico, a maioria das mulheres sinalizou o sofrimento de serem obrigadas a deixar a lavoura, pois apesar de ser esta uma atividade desgastante, constituíram uma relação afetiva com a terra, passada de pai para filho, desde que deixaram a Suíça em 1819, para vir para o Brasil colonizar a terra e estabelecer residência. O contato com a terra é tudo que conhecem desde a infância mais remota. Muitas lavradoras jamais se mudaram, morando no mesmo terreno desde o nascimento. Seus relatos assinalam a dificuldade inerente em deixar para traz a terra que dá sentido à existência, que organiza seu mundo externo e interno, muito diverso da realidade urbana e cosmopolita, cheia de imagens cada esquina.

Associada a esta mutação no espaço rural foi apontada também a necessidade de seus filhos deixarem a região para irem estudar e procurar trabalho nos grandes centros. (Fato este já assinalado nas entrevistas domiciliares). Apesar de compreenderam a importância do acesso à educação formal na atualidade, bem como a maior possibilidade de inserção profissional na cidade grande, sofrem com a distância e com seus riscos. A mídia, ao divulgar constantemente crimes e acidentes, passa a impressão de que a violência é fatal, atingindo a todos que ficam, invariavelmente, sem possibilidade de defesa. O mundo urbano é apreendido como violência, morte e abandono em contraposição a um mundo rural familiar e pacífico.

Acoplada à percepção da transformação da economia rural, observamos também as mutações nas noções de espaço e tempo. Até então toda a distância conhecida consistia no espaço demarcado pela utilização da terra para a semeadura e a colheita. O mundo pelo qual transitavam estava confinado rigidamente entre o quintal, a horta e, no máximo, Nova Friburgo - cidade procurada pela população local, sempre que necessitam serviços médicos mais especializados e prestação de serviços em geral. Assim, são comuns o uso das seguintes expressões para referirem-se ao espaço : “fica do outro lado do rio; é só pegar a próxima estrada; a pé dá meia hora; o ônibus te leva lá, mas tem que esperar meia hora por ele...” . Entretanto, hoje convivem também com uma noção de tempo que, por um lado, se acelerou - pois aumentou a quantidade de ônibus que percorrem os municípios e distritos vizinhos - enquanto por outro lado, o mundo ampliou-se: viajam muito mais freqüentemente à Friburgo e ao Rio - em busca de trabalho ou para visitar familiares - percorrendo 180Km para aí chegar a esta última cidade. Para Lumiar/São Pedro, que não incorporou os novos instrumentos tecnológicos - como a internet, os faxes, os telefones celulares5- este novo mundo tornou-se, portanto, muito maior.

Este redimensionamento do espaço também pode ser observado através do crescimento do número de TVs na região, bem como pelos relatos das experiências dos filhos na cidade grande, que permitem o contato com um universo simbólico até recentemente totalmente desconhecido.

Seguem-se alguns trechos transcritos dos encontros, onde transparecem as mudanças mencionadas acima:

“ Meu filho arrumou trabalho no Rio, foi morar com o tio e hoje tá como eletricista, ele sempre foi bom, sempre gostou de estudar, agora não quer mais vir para Lumiar, é só o Rio. Ser funcionário da enxada, como o pai, não quer saber não... ele sempre viu a nossa luta, ele não quer passar o que nós passamos.... ele tá ganhando bem, ganha logo, não precisa ficar vivendo comprando fiado, esperar para receber...mas fico com medo de violência, é muito assalto... a gente aqui ganha pouco, mais não passa tanto perigo...” (R, 48 a)

“É tudo muito diferente daqui...Eu fico com medo, dá tanta notícia ruim, é gente matando, é gente morrendo por nada... eu até queria que ele ficasse por aqui, ajudando o pai na lavoura, mas hoje ninguém quer mais saber da lavoura, também não dá preço...ele quis sair, foi para o Rio... e do jeito que ele gosta, não volta mais para viver aqui....” (L, 53 a)

“... Eu também fico assim com saudade, sei que ele tá fazendo dinheiro, está na prefeitura, ele é bom filho, me manda dinheiro, mas tenho medo, com quem ele tá andando? A gente aqui, tudo se conhecia, agora, lá dá tanto bandido, quem é que vai orientar? Só com fé em Deus...” ( M,, 46 a)

“Eu ando muito nervosa, meus filhos tudo, cada um foi para um canto, um foi trabalhar em Friburgo, o outro tá num sítio em Rio Bonito de Cima, a menina foi para Niterói, não tem ninguém aqui, às vezes eles vêm, mas fico muito só, só eu e meu Deus...”( G, 54 a)

O ideal do trabalho familiar e rural que o agricultor acalentou para si e para seus filhos está tendo que ser abandonado. O jovem nascido no campo está seduzido pelas imagens espetaculares do universo urbano: fartura de produtos estrangeiros, festas, carros importados, aquisição financeira mais rápida, quando comparada com a espera da colheita e a posterior venda dos produtos. O agricultor de meia idade, antes familiarizado com referenciais constantes, com os quais se organizava externa e internamente, agora se encontra diante de uma realidade estranha e mutável.

Estas rupturas provocam um confronto de idéias, desorganizando os alicerces que norteiam o mundo dos lavradores, gerando situações novas, ameaçadoras, que acabam por produzir estresse - denominado pelos moradores locais de “nervoso” – referido em tantos momentos.

Para que possa compreender as mudanças neste novo universo e reorganizar-se, torna-se fundamental tanto a aquisição de novas informações quanto que a palavra do lavrador seja ouvida, o que permite a ampliação da percepção sobre o que ocorre a sua volta. Assim, durante os grupos, quando o tema recaía - o que era muito freqüente - sobre as alterações em curso no âmbito do espaço e do trabalho, voltávamos as questões para os próprios, de modo a induzi-los a refletir sobre as soluções viáveis. Embora estas mudanças estejam sendo compreendidas como realidades desconhecidas e violentas, foram apontadas também suas dimensões inexoráveis, da qual não podem se esquivar.

Não os ajudaria negar as atuais transformações. Em função desta premissa, trabalhamos no sentido de contribuir para a discussão de alternativas viáveis. Em alguns discursos notamos até mesmo colocações otimistas, ao afirmarem que a vida na lavoura é desgastante, é incerta, exige muito sacrifício e na cidade, talvez, seus filhos consigam trabalhar sem exaustão. Entretanto, para aqueles que permanecem no campo algumas saídas foram por eles levantadas: para as mulheres realização de trabalhos domésticos em pousadas, ou em sítios próximos como caseiras. Esta realidade doméstica, por não exigir qualificação técnica e por fazer parte de seu universo simbólico e familiar, foi a mais discutida. Para os homens foi lembrado o trabalho na construção civil, que atualmente está crescendo muito na região em função do incremento de pousadas e do comércio em geral. A introdução do trabalho de pedreiro facilitou a aquisição monetária, que passou a ser maior e obtida diariamente, em confronto com a imperiosa necessidade do agricultor de aguardar meses, após o investimento na fertilização da terra, da semeadura até as primícias da colheita.

Finalizamos apontando para o fato de que nestes encontros pretendemos, por um lado ampliar nosso conhecimento dos laços sociais da população ouvida, bem como de seu universo simbólico, pois a interação entre iguais facilita a expressão verbal, além de permitir que estes trabalhadores percebam outras conexões entre os fatos que vivenciam na realidade, que sem a interação, seria menos provável. Buscamos deixá-los falar livremente, perguntando quando alguns pontos pareciam obscuros e também procuramos fazê-los voltar a alguns temas que se perdiam durante a discussão.

Apontamos que ao descobrirem-se autores de textos que vão sendo lentamente tecidos na circularidade da palavra inerente aos grupos, discutem suas inserções sociais e as influências da cultura na construção de suas histórias. Os encontros funcionaram, portanto, como um espaço reflexivo para os lavradores, ponto de partida inicial para o resgate da força pessoal, escondida através da desinformação e da alienação do conhecimento de si. Desta forma, rompem com o fechamento próprio ao desconhecimento. Na medida em que volta a acreditar em si, o lavrador se percebe como detentor de saberes “vivos” - sua experiência de vida - que não podem ser esquecidos e que, apesar das inovações, são as ferramentas com as quais poderá contar para traduzir esta realidade tão distinta da sua de origem. Esta será, certamente, uma aprendizagem contínua, de construção de conexões alternativas, como aquelas que articulam a tradição com o novo, de modo que a interminável reorganização do real – matéria viva, característica humana – se mantenha como um ciclo eterno.

Temos consciência de que nosso trabalho foi somente um “ponta pé inicial” na árdua caminha-da da compreensão do novo. Contudo, destaca-mos que os encontros com os agricultores estão continuando através da iniciativa das agentes de saúde, apoiadas pela Ação Rural.

 

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Endereço para correspondência
Adriana de Andrade Gomes e Brani Rozemberg
Rua Professor Manuel Ferreira, nº 144/910 - Gávea
22451-030 Rio de Janeiro-RJ
E-mail: adrigomes@openlink.com.br

Recebido em 25/05/99
Aprovado em 22/09/00

 

 

* Mestre em Educação. Especialista em Psicologia Clínica.Psicóloga. Pesquisadora visitante FiocruzFaperj.Fundação Oswaldo Cruz/IOC/LEA 1996/1998.
** Doutora em Saúde Pública. Mestre em Biologia. Pesquisadora Titular Fundação Oswaldo Cruz/Hospital Evandro Chagas.
1 A transcrição da conferencia foi publicada no Brasil, pela primeira vez em 1999, através da editora Martins Fontes.
2 Alcoólatras Anônimos.
3 Alla-non é o nome dado ao grupo de mútua ajuda aos familiares de alcoólatras.
4 Grupo de mútua ajuda denominado Neuróticos Anônimos.
5 Cabe registrar que a cidade tem até hoje (1998), somente um posto telefônico, onde trabalham três atendentes.

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