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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.20 no.4 Brasília Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932000000400007 

ARTIGOS

 

Corpo grávido deixando-se fecundar pela vida

 

 

Tatiana Ramminger*

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este ensaio propõe-se a pensar o processo criativo, o “corpo-grávido” - este corpo que é marcado por uma diferença, deixando-se fecundar por ela. Com o auxílio da filosofia, discutimos o lugar destinado ao corpo e ao desejo através da história, aprofundando a origem de conceitos pontuais em duas ciências aparentemente opostas: a biologia e a psicologia.

Palavras-chave: Filosofia, Criação, Gravidez.


ABSTRACT

This article intends to think the creative process, the “body-pregnant” - this body that it is marked by the difference, letting to fecundate goes her. With the aid of the philosophy, the place destined to the body and the desire through the history discussed, deepening the origin of punctual concepts in two seemingly opposed sciences: the biology and the psychology.

Keywords: Philosophy, Creation, Pregnancy.


 

 

“E disse Deus: haja luz. E houve luz” (Gênesis 1:3).

Assim a Bíblia sugere o início deste nosso mundo... Assim tentam fazer crer também algumas teorias contemporâneas que afirmam que a origem do Universo deu-se a partir de uma explosão (luz) - o big-bang - liberando energia e matéria que antes estavam compactadas em um só ponto.

Explicar o início (e o fim) da vida tornou-se questão de honra para a humanidade... Desde as tribos primitivas, passando pela era cristã e agora, pela ciência, um longo caminho foi percorrido na busca incansável de desvendar este Mistério.

E de que crença somos herdeiros? No mínimo, podemos afirmar que sempre convivemos com esta idéia, esta estranheza de que algo que não existia, de uma hora para outra, começou a existir - ou por capricho de um Deus solitário, ou pelo grito de liberdade da matéria sufocada...

E quando, de homens moldados com barro e saliva, ou mulheres nascidas de uma costela, nos sentimos como Deus que, por uma mistura de acaso e desejo, cria um novo Mundo? Quando nós podemos sentir uma vida pulsar dentro de nós, misturar-se aos nossos líquidos, fazendo-se e refazendo-nos? A luz, a explosão, a expansão, o processo, a evolução - seja qual for a origem da vida, ela está dentro de nós...

É disto que pretendo falar neste trabalho: de criação. Criação de mundos, idéias, telas, danças, músicas, pessoas, modos de existência - daquilo que nos permite experienciar este trânsito, esta passagem da condição de criatura para a de criador.

Para tanto, valho-me da gravidez biológica como principal metáfora, já que nos permite vivenciar no corpo, concretamente, condições essenciais a qualquer processo criativo: a fecundação, a transformação, o acolhimento, a entrega, o crescimento, o nascimento...

 

Mitos e Desconstruções: Identidade, Singularidade e devir

Inicialmente sugiro um vôo pela filosofia, a fim de contextualizar o lugar destinado ao corpo através de sua história. Que lente escolhemos para enfocar suas transformações, suas diferentes marcas e significações?

Não é novidade para nós que a filosofia clássica, inaugurada pela tríade Sócrates-Platão-Aristóteles (séc. V-IV AC), determinou a cisão e oposição radical entre dois mundos: o material e o ideal, o corpo e a alma, o desejo e o pensamento.

No entanto, os antecessores de Sócrates, pensando o homem de forma integrada, não separavam natureza e sobrenatureza. Corpo, pensamento e o mundo invisível dos deuses faziam parte de um só domínio - a physis (natureza).

Como herdeiros desta corrente, vieram os sofistas, megáricos, cínicos, estóicos e epicuristas que não mais falavam da profundidade dos elementos da physis - o que ainda guarda certa unidade - fazendo explodir uma diversidade de pontos de vista.

Não defendiam uma verdade absoluta, e sim diferentes perspectivas e entendimentos conforme a mudança de referenciais e as relações estabelecidas. Os seres passam a ser entendidos na relação. Passam a ter sentido e valor por si mesmos, sem necessitar das formas e modelos pré-fixados das alturas.

Ao contrário de Platão que insistia em desvendar a essência, o que permanece imutável na matéria; os estóicos concentravam-se na questão do tempo e do movimento dos corpos. Almejavam saber da expressão dos corpos neste mundo, e não entendê-los como re-apresentação de um modelo...

Era o pensamento nômade rompendo fronteiras contrapondo-se ao pensamento sedentário que está sempre referido a um mesmo lugar. Um combate acirrado, iniciado no cenário grego dos séculos V e IV AC, entre o mundo da expressão da diferença e o mundo da representação do igual, de onde somente o pensamento platônico saiu legitimado... E por quê?

Sem dúvida a Grécia passava por inúmeras transformações na época... Nascia uma nova forma de organização, um Estado democrático e civilizado em contraposição ao despotismo e à barbárie. Surgia a Lei, ao mesmo tempo em que tentava-se unificar língua, crenças, mitos e deuses dos povos subjugados criando um grande e único Estado.

Até então os gregos problematizavam o desejo e os prazeres pelo uso que se fazia deles. O modo que a pessoa se conduzia em suas relações é que determinava sua ética. Mas Platão dirá que de nada vale a conduta, se o desejo não for verdadeiro. Para ele não mais interessa a maneira de se conduzir no amor, mas o próprio ser do amor.

Assim, as ações não mais são regidas pela ética, mas pela moral, pelos códigos de uma Lei que pretende tudo prever e controlar. Expurgado e condenado, o desejo não mais deve ligar-se a outros corpos, mas as idéias eternas. Pensar passa a ser obedecer com a alma, enquanto agir é entendido como obedecer com o corpo.

Ao mesmo tempo em que serve aos objetivos do novo estado que precisa da semelhança e obediência de seus pupilos, Platão aponta uma saída para o homem que sempre precisa de alguém cheio de bom senso para governá-lo, salvá-lo e preservá-lo na segurança do termo médio, longe do excesso e da falta (Fuganti, 1990, p.42). Um efeito real foi produzido nos corpos já que este outro mundo é fictício, entretanto não é fictícia a vontade que o quer (Fuganti, 1990, p.30).

Com o tempo, Platão não mais se preocupa em discernir o modelo da cópia - já que a Idéia pertencia a outra dimensão - passando a priorizar a diferença entre a boa e a má cópia, entre dois tipos de imagens do plano material.

Uma imagem dotada de semelhança - legítima cópia, dócil e obediente ao modelo e uma imagem sem semelhança - àquela que simula uma aparência, ou simulacro. Este era entendido como verdadeiro demônio, construído a partir de uma dissimilitude, implicando uma perversão, um desvio essenciais. Tratava-se, pois, de assegurar o triunfo das cópias sobre os simulacros, de recalcar os simulacros, de mantê-los no fundo, de impedi-los de subir à superfície e de se “insinuar” por toda parte (Deleuze, 1982, p. 262).

O cristianismo entendeu muito bem o que Platão quis dizer, convencendo-nos que Deus fez de nós, sua imagem e semelhança, mas pelo desejo desenfreado, caímos em pecado. Nosso desejo perverteu-se como desejo de outras imagens e separamo-nos de Deus...(Fuganti, 1990, p. 33). Perdemos a semelhança, a existência moral, mas conservamos a imagem... Imagem já sem semelhança, pervertida, simulacro condenado a vagar na existência estética, na existência temporal deste corpo sempre mutante.

Apenas o homem fiel à Imagem, é capaz de resgatar a semelhança, conquistando a Vida Eterna, o Reino dos Céus... É como se uma prece insistente sempre nos acompanhasse: “Venha a nós o vosso Reino. Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu... E não nos deixais cair em tentação, mas livrai-nos do Mal. Amém”.

Fazer a nossa própria vontade... Ligar novamente nosso corpo ao que ele pode, ao seu desejo, sempre pareceu encerrar um quê de pecado, de transgressão... Não é à toa que fazer arte designa tanto o ofício do artista quanto travessura de criança.

Não posso deixar de lembrar Prometeu - mortal que ao ousar criar, apropriando-se do fogo dos deuses e revelando-o para toda humanidade, foi acorrentado em uma coluna e condenado a ter seu fígado roído durante o dia por uma águia. O órgão recompunha-se no decorrer da noite, tornando o castigo de Prometeu um eterno retorno do mesmo.

Da mesma forma, o homem foi expulso do Paraíso e passou a viver em pecado quando tentou apropriar-se do mundo no qual vivia, compondo sua própria existência. Assim, na filosofia platônica-cristã, da qual somos herdeiros, não há como inventar criar uma nova realidade um novo corpo sem pagar um alto preço por isto. O verdadeiro valor não está na produção, mas na reprodução de um modelo dado a priori.

Como contra-ponto, vimos a emergência de uma filosofia que propõe a reversão do platonismo. E, para nossa surpresa, é o próprio Platão que indica o caminho desta restituição.

Ao se debruçar sobre o abismo do simulacro, Platão é o primeiro a perceber o caráter de metamorfose ambulante1 dos corpos... Ele fala do devir, da capacidade da matéria estar sempre tornando-se algo diferente. Para ele, a vida devém, nunca é verdadeiramente real, idêntica a si mesma. Daí a necessidade de buscar sua essência, algo que permaneça.

Platão deu a “dica”, mas entendeu que a matéria está sempre neste vir-a-ser a fim de adequar-se ao modelo. O devir é entendido como contrário à imortalidade e à eternidade, e por isso deve ser banido, previsto, controlado. Verdadeiro inimigo da alma... Alma que deve estar atenta para não sucumbir aos simulacros, às falsas cópias, às inúmeras tentações deste mundo demasiadamente humano e efêmero.

Reverter o platonismo seria, como propõe Deleuze, passar a entender o devir como afirmação da vida, seu modelo por excelência... “É fazer subir os simulacros, afirmar seus direitos sobre os ícones ou as cópias. O simulacro não é uma cópia degradada, ele encerra uma potência positiva que nega tanto o original como a cópia, tanto o modelo como a reprodução” (Deleuze, 1982, p.265).

Nasce o desafio de forjar um pensamento sem imagem que acolhe os devires, em contraposição a uma imagem do pensamento que pressupõe uma forma à qual o pensamento e os corpos estão submetidos. (Pelbart, 1993, p.24). Tentativa que aparece não só na filosofia, mas contagia diferentes ciências e artes.

A pintura pôde deixar de lado a figuratividade, liberando cores e linhas, dispensando um só entendimento e interagindo cada vez mais com o observador. Na política houve o desmoronamento do Leste Europeu e com ele a necessidade de inventar um outro jeito de fazer política, ou ainda a possibilidade de libertar-se de um só modelo, entendendo que uma intervenção política vai se construindo na relação entre o Estado e o Social. A música saiu do território fixo das partituras e caiu na rica improvisação do jazz e da mistura de ritmos, assim como a física nunca mais foi a mesma depois que Einstein lançou a teoria da relatividade.

Brincando um pouco com a dicotomia inerente à esta perspectiva, que busca o que há de essencial e imutável, proponho acompanhar mais de perto a desconstrução proposta por Deleuze, em duas ciências “opostas”: a biologia, designada a tratar do corpo e a psicologia, chamada a cuidar da alma.

 

Corpo Reprodutor ou Autoprodutor?

Visando romper com a imagem clássica do pensamento, que também teve suas repercussões no entendimento do ser e continuar vivo, eles tentam pensar o organismo fora do mecanismo da representação.

Inicialmente, entendia-se que o centro criador e organizador do mundo e de tudo que nele vive, era uma vontade de Deus. Até hoje as alas mais conservadoras da Igreja relutam em aceitar que o mundo não tenha começado a partir de um estalar divino de dedos, ou que a humanidade inteira não seja resultado das condutas pecaminosas de Adão e Eva...

Contra esta perspectiva criacionista, já no século XIX passa-se a explicar a origem das espécies como uma evolução permanente, buscando entender o mecanismo do engendramento das espécies umas pelas outras. A discussão passa a ser quem desempenha papel mais importante nesta evolução - o organismo ou o meio. Enquanto Darwin vai defender que o ponto de partida é o organismo, cujas modificações fortuitas do programa genético são posteriormente julgadas pelo meio, Lamark acredita que é o meio que instrui e direciona a transformação do organismo.

Neste mesmo sentido, a biologia molecular, mais recente, entende o mecanismo evolutivo como uma combinatória entre os elementos que compõem o programa genético, ou seja, como uma combinatória de possíveis, pre-existentes, posteriormente selecionados pelo meio.

Maturana e Varela rompem com estes discursos que (ao concentrarem-se na relação entre este dois termos - organismo e meio) acabam por obscurecer a questão do tempo e da criação implicados na evolução. Falam da evolução como evolução criadora e definem o vivo como um sistema autopoiético, ou seja, um sistema que tem como atributo essencial a autoprodução de si mesmo. Aqui o criacionismo ressurge, mas trata-se agora de um criacionismo ateu, sem instância criadora: autocriação, autoposição, autopoiese...

Pensam organismo e meio como efeitos de uma rede processual, constituindo-se e apresentando-se como fontes recíprocas de perturbação. devires paralelos, relativamente independentes, que se cruzam e afetam mutuamente, formando superfícies de acoplamento, pontos onde se encontram.

Destes encontros, surgem perturbações, que inicialmente atingem apenas uma das dimensões do sistema, e não o sistema como um todo, podendo posteriormente capturá-lo em sua totalidade. Só sobreviverá a espécie que conseguir envolver na perturbação local seu sistema global, criando sentido para o problema colocado pelo meio.

É a definição do vivo em sua capacidade de problematizar. Organismo e meio são antes movimento que coisas, antes processos que entidades previamente individuadas. Para continuar vivo devem ser atendidos dois requisitos fundamentais: além de estar em constante processo de produção de si, transformando-se permanentemente, o movimento criador não pode destruir a unidade, ou seja, também é necessária uma adaptação minimal. Do encontro de dois devires paralelos, surgem diversificações e estabilizações. Desterritorializações e territorializações...

É entender organismo e meio formando uma rede. Enqüanto rede, sua organização é variável e flexível, sem extensão ou forma fixa, encontrando-se em constante engendramento de si mesma. Não possui centro organizador, mas é essencialmente acentrada. Todos os pontos ou nós que a compõem podem funcionar como centros temporários e sujeitos a deslocamentos. A rede faz-se e refaz-se por meio das conexões que cada nó estabelece com sua vizinhança, onde cada nó pode abrir e constituir ele próprio uma rede. Sendo assim, a adaptação explicada pelo acoplamento estrutural não possui direção otimizante nem caminho necessário. É agenciamento, composição e não mera acomodação ou adaptação de informações. É a “Internet” no corpo.

Varela e Maturana reafirmam, assim, o que Nietzsche já dizia... O corpo mergulhado nele mesmo é só positividade. O patológico não é defeito do corpo, mas ocorre quando ele está mergulhado em um meio que o captura, que o impede de fazer sentido.

Portanto, mais importante do que definir o vivo como aquele que se reproduz, aquele que é segundo em relação a uma unidade é pensá-lo como aquele que se cria e automodifica, aquele que é singular em relação a qualquer unidade...

 

Identidade e Subjetividade: (des) Cristalização de Modos de Existência

Para acompanhar este movimento dentro da Psicologia, temos que melhor entender o conceito de identidade.

Figueiredo (1996, p. 165) em uma análise inspirada da trajetória da Psicologia, observa: “creio que para as psicologias a identidade é um conceito-limite e o ‘psicológico’ vem a ser exatamente o que condiciona, pressiona, estrutura, destroça as identidades”. Inclusive, é das relações estabelecidas com este fato que nascem as diferentes psicologias.

devires-platônicos na psicologia quando ela tenta organizar elementos dispersos, na busca de uma reidentificação e do salvamento de uma suposta identidade do sujeito. Ou então, ao contrário, há devires-artísticos quando colocam a psicologia a serviço da desidentificação, dando sustentação para a emergência de uma subjetividade, que nada tem a ver com o sujeito, mas com a processualidade.

Buscando uma definição para nós mesmos, criaram-se conceitos como indivíduo, sujeito, identidade... Em cada um deles pressupõe-se a existência de algo que permanece imutável, algo que diz da essência de todo e qualquer ser humano. Assim, a identidade, como qualquer definição, sempre nasce de uma igualação do não-igual (Nietzsche apud Neto, 1991, p.22).

Se o Estado grego foi o berço destas tentativas, ele também possibilitou o surgimento de outras formas de se pensar o homem. Ali surgiu um novo tipo de relação entre os homens livres: as relações de poder - homens livres que governam homens livres.

Uma força que não se exerce somente sobre outras forças, mas também sobre si própria. Quem tiver maior domínio sobre si mesmo, melhor poderá governar os outros... Curvando sobre si a força, colocando a força em relação consigo mesma, os gregos falam da subjetivação (Deleuze, 1992, p. 141).

Um processo de subjetivação nada mais é do que produção de um modo de existência, que não tem a ver com o sujeito, mas com o que lhe acontece e com o sentido que ele consegue encontrar para estes acontecimentos.

Há momentos em que a existência cristaliza-se em um modo de ser, momentos em que a subjetividade reconhece-se em um corpo, em uma unidade, podendo-se até falar em identidade. No entanto, a identidade, assim como o amor cantado pelo poetinha, só é eterna enquanto dura... Ou seja, só vale enquanto continuar fazendo sentido.

Voltando para a filosofia, podemos entender este processo com o auxílio de Nietzsche. Ele acredita que o homem é movido por duas forças antagônicas - as ativas e as reativas. Enquanto as forças reativas funcionam como um reservatório de marcas mnêmicas à dispo-sição para fins adaptativos, as forças ativas buscam a criação de novas maneiras de viver incessante e incansavelmente.

A partir destes dois conceitos, ele desenvolve formas de viver que se alternam, se misturam ou se sobrepõem na constituição de uma subjetividade são circuitos de vida quais sejam o circuito nobre e o circuito escravo. Não é difícil deduzir que no primeiro, há o predomínio das forças ativas, e no segundo das forças reativas.

“Quando uma subjetividade está comandada por um circuito-nobre, isso significa, em primeiro lugar, que ela tem referência vital na afirmação da sua vida enquanto devir. Assume a própria força (...). O outro é apenas outrem...” (Neto, 1994, p. 34).

Mas o escravo habita-nos, na medida em que nos deixamos escravizar pelo Outro. Outro-imaginário que acreditamos deter nossa própria potência castrada. Aqui já podemos entender a discriminação realizada pela filosofia clássica que ao separar desejo e pensamento, separou o corpo daquilo que ele pode, do sentido que ele mesmo pode encontrar no que lhe acontece... Separou-o de sua vontade de potência, de sua capacidade de construir a vida, ao invés de estar subjugado a uma vontade outra que a determina.

Esta vontade outra pode ser tanto o ideal perfeito de Platão, quanto a vontade divina das igrejas, ou ainda a mídia contemporânea que invade nossas casas com imagens assépticas e efêmeras...

Restabelecer um circuito nobre passa por habitarmos definitivamente nossos corpos e nosso tempo, encarnando o devir... devir que ultrapassa as identidades, e nos faz ser tudo ao mesmo tempo: alertas, inconscientes, seguros, inconseqüentes, apaixonados, pessimistas, sonhadores, ambivalentes... Não se trata aqui de uma natureza pura que varia, mas de uma pura variação (Rolnik, 1989, p.34).

Neste sentido, Guattari (1986) sugere que os fenômenos de expressão social não são uma simples somatória de subjetividades individuais. Ao contrário, é a subjetividade de cada um de nós que é atravessada por inúmeros agenciamentos coletivos que em algumas circunstâncias podem se individuar.

A maneira com que os indivíduos se relacionam com estes agenciamentos coletivos é que vai determinar o circuito predominante em sua subjetividade. Ele pode submeter-se a eles, tal como os recebe ou ainda criar a partir deles, reapropriando-se de seus componentes de forma singular, singularizar...

Seguindo a tradição platônica, a tendência atual é que apenas se reproduzam valores e sentidos universais, ao invés de buscar sentido na própria experiência:

“ A experiência deixa de funcionar como referência para a criação de modos de organização do cotidiano: interrompe-se os processos de singularização. É, portanto, num só movimento que nascem os indivíduos e morrem os potenciais de singularização” (Guattari & Rolnik, 1986, p. 38).

A partir dessas considerações, podemos pensar que qualquer ruptura com o modo de funcionamento de nossa sociedade atual passa por resgatar uma espécie de função-gravidez. A possibilidade de se deixar fecundar pela vida, por algo que nos movimenta por inteiro, que faz a gente funcionar como canal para a proliferação de formas de existência que se impõem a cada nova configuração da experiência (Guattari & Rolnik, p. 81)... Um estranhamento que acolhemos, carregamos conosco, nutrimos e esperamos amadurecer, até que possa nascer, compor território...

 

Fecundação e Gravidez - Quando o Qcontecimento Produz Sentido

Aqui, proponho entender a “gravidez”, seja ela física ou simbólica, como um acontecimento.

O acontecimento envolve os corpos de tal maneira que nenhum corpo pode estar fora de um acontecimento... Poder-se-ia até dizer que não é algo que nos acontece, e sim nós que entramos em um acontecimento.

Acontecimento inesperado, imprevisível, que desmancha definitivamente nossa (re)conhecida trama de representações e nos empurra para a construção de um novo possível. O acontecimento afirma sua autonomia, nos afetando proporcionalmente à intensidade de sua independência e indo além de nossos recursos (in)conscientes para controlá-lo.

Está em suspenso, habitando o entre, fundando e rompendo mundos. “Ao destroçar um mundo ele é sempre a prefiguração da morte” (Figueiredo, 1994, p. 154) - morte de uma ilusória totalidade. Isto nos leva a senti-lo, inicialmente, como uma crise, uma ruptura de existência, que chama a integração do acontecimento.

Integrar o acontecimento é dar-lhe sentido, traduzindo-o e fazendo-o transitar de um início caótico, onde apresenta-se como signo vazio de sentido, até a construção de um novo território, não por isso menos provisório. Justamente por conservar sempre incompleta a presença, acaba por criar solo para novas composições, para outros acontecimentos.

O acontecimento é aparentemente igual para todos, é a nossa conduta frente a ele que vai singularizá-lo e determinar a ética de cada um, o que cada um acredita. A ética aqui é a ética de Spinoza (1677/1994), que afirmava que todo corpo está aqui para realizar sua natureza, o que nada mais é do que realizar afetos, realizar sua capacidade de afetar e ser afetado.

“O homem não se conhece a si mesmo, senão pelas afecções do seu corpo e suas idéias”.

Sendo assim, natureza é relação, um ser que estiver no vazio não é nada, e a qualidade desta relação estará intimamente ligada à potência deste corpo, ao poder realizar algo. Quando dois corpos se afetam mutuamente pode haver uma composição ou decomposição afetiva, o que marca um aumento ou perda de potência.

Quando há composição, podemos falar de um bom encontro, ao contrário, a decomposição determina um mau encontro. Mas pode haver, e geralmente é assim, os dois ao mesmo tempo. A ética aqui não está nos manuais, não tem a ver com a moral, mas está dentro de nós. Somente nós mesmos podemos determinar que acontecimentos nos compõem, aumentando nossa potência, e quais apenas enfraquecem nossos recursos de entendimento... A ética, portanto, está em desviar dos maus encontros e procurar bons encontros.

Spinoza sugere, portanto, uma filosofia que lide com afetos e não com sujeitos. Enquanto Demiurgo de Platão objetivava fazer os seres obedecerem a formas eternas, pré-determinadas, esta natureza tem como propriedade acabar com gêneros e espécies... É uma natureza-Drácula, que transforma em vampiro tudo que morde. A reprodução do vampiro é por contágio e não por cruzamento sexual, preso no gênero e na espécie. Isto significa dizer que a natureza é contágio... A idéia de que ela respeita gêneros e espécies, vem de uma visão do macro-olho que não consegue apreender toda intensidade da natureza afetiva...

Agora já nos permitimos construir algumas pontes com quem deu continuidade a este pensamento na contemporaneidade. Guattari/Deleuze vão chamar de Corpo Sem Órgãos este corpo atravessado por fluxos e intensidades diversas, puro vir a ser, que não tem, portanto, imagem ou representação possível. “Não é a testemunha de um nada original, muito menos o resto de uma totalidade perdida” (Guattari & Deleuze apud Lopes, 1996). É corpo sem imagem e sem órgãos, não por se opor aos órgãos, mas por não ser organismo - aqui entendido como “um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação”.

Da mesma forma, Suely Rolnik (1989) integra estes conceitos - acontecimento, encontro, corpo fluido e ética, falando em três linhas de vida. A primeira, invisível e inconsciente, é um traçado entre os corpos em seu poder de afetar e ser afetado. É linha de fuga que desaba territórios para que outros possam surgir. Corpo afetivo.

A terceira linha, ao contrário, é a composição que conseguimos fazer, é o território, linha dura e visível, que nos permite a tranqüilidade da ancoragem e do contorno. Corpo possível, visível.

A segunda linha faz a interlocução entre estes dois campos, linha de simulação que oportuniza a passagem da dimensão dos afetos - primeira linha - para a dimensão do território visível - terceira linha - e vice-versa. É o vaivém entre composição e desmanchamento de modos de existência. Corpo grávido. Grávido de virtualidades que ainda não se efetivaram.

Aqui tomamos o destino em nossas mãos e, tal qual as três Moiras2, a maneira que cada um fia, tece e compõe estas linhas é que vai determinar as diferentes estratégias de desejo. Ou seja, é o que vai determinar a ética, a procura de bons ou maus encontros.

O que vai nos dizer o que compõe ou não é o entendimento. É o entendimento que dá sentido aos encontros, ao acontecimento. No entanto, não existe nenhum modelo que eu possa seguir, eu não tenho como saber previamente como será o encontro, senão através da experiência. Eu só posso saber da potência de meu corpo na experiência...

 

Enfim Grávidos...

É assim que, por vezes, nos descobrimos grávidos. Grávidos de alguma idéia, projeto, tela, música, poesia... Não sabemos o que exatamente vai nascer, como, onde, quando... Apenas sentimos que algo nos aconteceu.

Em um encontro com outra alteridade, fomos marcados de alguma forma, fecundados pela diferença - o que chama para a composição de um outro corpo, um corpo que possa acolher e encontrar sentido para este contágio:

“E é pelo fato de que a marca abre para o desassossego pelo desmanchamento das formas constituídas que se faz necessário que se invente um novo corpo para encarnar este novo estado”.(Oliveira, 1996, p.38).

Um processo criativo pode ser entendido como a invenção deste novo corpo. Resultado de algo que nos tirou do sossego, da estabilidade... Uma marca. Marca do diferente-em-nós, do estranho-em-nós, que nos chama para compor algo com ele.

Este novo estado provoca, inicialmente, certo mal estar. Uma angústia frente a este algo que está por vir e ainda não veio, legítimo vir-a-ser que ainda não é. A nós cabe suportar estar suspensos neste “entre”, presos na eternidade fugaz de um devir... Temos que aprender a esperar, talvez até mais de nove meses. Esperar um a posteriori de sentido que ainda não se conhece:

“A atitude mais sábia diante disso seria a serenidade, tal como compreendida por Heidegger”.Quando se espera o inesperado nada há a fazer senão (...) manter-se na espera; esperar com os sentidos atentos e abertos, mas sem uma direção pré-selecionada...”. Trata-se de uma relação muito particular com o tempo, em que o presente é o espaço do acolhimento de um acontecimento, um presente que não está entupido pelo passado e que não impede a aproximação do futuro” (Rosenfeld, 1994, p. 63).

A gravidez biológica não deixa de ser a melhor metáfora deste processo, já que é a concretização deste corpo que espera, se transforma e cresce, transgredindo limites a cada dia, acolhendo e nutrindo um diferente... Um corpo definitivamente marcado pelo encontro.

No entanto, está longe de ser só isso... Basta pensarmos em como, desde o início, o corpo fecundado tem que ser capaz de dar sentido a este encontro, caso contrário o processo não tem continuidade. Apenas o desejo de (não) engravidar não basta para (não) engravidar (Rosenfeld, 1994, p. 62)... Não é só a mulher, sua consciência, que escolhe ou não engravidar, seu corpo também tem que se deixar afetar, dar passagem a esta possibilidade.

Quem vive no próprio corpo o crescimento de um outro, não pode deixar de se afetar por esta alteridade. Vê, dia a dia, algo despontar entre ela e o mundo... Vive, literalmente, em si, a passagem de um corpo para outro. Corpo que não cabe mais em suas antigas roupas, que não passa mais pelos mesmos lugares, que exige um passo desacelerado, uma espera... Corpo que procura acolher este acontecimento gravidez, carregando-o de sentido.

 

Referências bibliográficas

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Endereço para correspondência
Tatiana Ramminger
Rua Lima e Silva, nº 250/104 - Cidade Baixa
Porto Algre - RS
Tel.: +55 51 227-2103 / Cel.: +55 51 9102-9557
E-mail: tathy@portoweb.com.br

Recebido em 6/09/99
Aprovado em 22/09/00

 

 

* Psicóloga, CRP 07/09051, formada pela UNISINOS em 1998. Este trabalho é um resumo da tese de conclusão do curso. Atualmente, além da clínica, trabalho na Política de Atenção Integral à Saúde Mental da Secretaria da Saúde do Estado.
1 Título de uma música do compositor brasileiro Raul Seixas que proclama: “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”...
2 As Moiras, Cloto, Átropos e Láquesis, segundo a mitologia grega, são a personificação do destino individual, da parcela que toca a cada um. Cloto é a fiandeira por excelência, Láquesis é a que enrola o fio e Átropos é a que corta o fio.

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