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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.2 Brasília June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932002000200003 

ARTIGOS

 

Quem disse que é proibido ter prazer online? Identificando o positivo no quadro de mudanças atual

 

 

Ana Maria Nicolaci-da-Costa*

Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Psicologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo tem como principal objetivo discutir alguns problemas de ordem psicológica gerados pela difusão das novas tecnologias da informação e pela nova organização social delas decorrente. Argumentamos que, enquanto certos problemas e conflitos são inevitáveis, ou estruturais, outros podem ser induzidos por visões negativas do novo. Essa argumentação é fundamentada em dados inesperados de uma pesquisa sobre o uso intensivo da Internet. Nesta, ficou evidente que os homens e mulheres entrevistados recorrem ao discurso de psicólogos e da mídia em geral para dar sentido às suas experiências online. Deparam-se, no entanto, com uma visão que insistentemente rotula de vício o uso intensivo da Rede. Sem dispor de discursos alternativos que lhes sirvam de guia, esses homens e mulheres, que simplesmente gostam de conversar online durante suas horas de lazer, passam a repudiar o prazer que desfrutam em suas horas de conexão.

Palavras-chave: Internet, Conflitos psicológicos, Prazer, Produtividade.


ABSTRACT

The present paper discusses psychological problems that result from the diffusion of information technologies and from the new social organization these technologies generate. It is argued that, while certain problems and conflicts are inevitable, or structural, others may be induced by negative interpretations of the new order of things. Such an argument is backed up by unexpected results of research on the intensive use of the Internet. These results reveal that the men and women who were interviewed resort to the discourse made public by psychologists and the media in order to make sense of their online experiences. In doing so, they are, however, faced with a view that insistently applies the addiction label to the intensive use of the Net. Given that there are no alternative views to guide them, these men and women, who simply enjoy a digital chat during their leisure hours, end up repudiating the pleasure derived from time spent on the Net.

Keywords: Internet, Psychological conflicts, Pleasure, Productivity.


 

 

Mudanças, Desorientação e Medo

Estamos vivendo um processo de acelerada transformação social impulsionado por avanços tecnológicos que acontecem em alta velocidade, derrubam fronteiras, alteram os modos de produção, o mercado de trabalho, os modos de vida, a distribuição de renda, as hierarquias, as formas de nos comunicarmos, de adquirirmos conhecimento, de obtermos informações e muito mais. A mudança é tão radical que não é raro termos a sensação de estarmos à deriva, pois aquilo que conhecíamos como “o nosso mundo” deixou de existir.

Essa sensação não é, no entanto, nova. Outros processos de transformação, ocorridos em outras épocas, tiveram resultado análogo. A partir do final do século XVIII, por exemplo, a humanidade atravessou um período de mudanças tão avassaladoras quanto aquelas que estamos presenciando em nossos dias. Naquela época, um desenvolvimento tecnológico - a invenção da máquina a vapor - deu início a um processo de desestabilização dos modos tradicionais de produzir e viver1. O historiador contemporâneo Eric Hobsbawn (1969) enfatiza os aspectos liberadores e também desorientadores dessa transformação radical, que se tornou conhecida como Revolução Industrial:

“[A Revolução Industrial] transformou a vida dos homens além do que se podia perceber. Ou, sendo ainda mais preciso, em seus estágios iniciais, destruiu o antigo modo de vida, deixando-os livres para descobrirem ou fazerem, para eles próprios, outros caminhos, se pudessem e soubessem como. Mas dificilmente disse-lhes como começar” (p. 80).

Hobsbawn contou com um distanciamento no tempo para fazer essa afirmação retrospectiva. Tal distanciamento não foi, no entanto, condição necessária para que a desorientação e o medo resultantes dos novos modos de produção instaurados pela Revolução Industrial pudessem ser percebidos e registrados.

Em O Suicídio, publicado pela primeira vez em 1895, o sociólogo Emile Durkheim (1895/1982) já se preocupava em analisar os efeitos negativos da liberdade individual gerada pelo esfacelamento da ordem feudal. Afirmava que, perdendo sua coesão, o todo social do período que se seguiu à Revolução Industrial perdera também seu poder de coerção e contenção do desejo individual. Cunhava, então, o conceito de anomia para descrever o que acontecia no plano individual em conseqüência desse estado de coisas. A anomia - literalmente ausência de nomos ou regras - ocorre quando as ações dos indivíduos deixam de ser reguladas por normas claras e coercitivas. A liberdade que resulta dessa ausência de normas claras pode ser inebriante num primeiro momento, mas pode também ter conseqüências extremamente negativas. Isso porque dá aos indivíduos uma larga margem de autonomia, facultando-lhes o estabelecimento de objetivos inalcançáveis, bem como a entrega ao desejo e à paixão. Em decorrência disso, esses indivíduos se vêem expostos ao risco, à incerteza , ao medo e, muitas vezes, ao fracasso e à angústia. Risco, incerteza, medo, fracasso e angústia podem, por sua vez, tornar-se insuportáveis ao ponto de levarem muitos ao suicídio2. Resumindo, o argumento de Durkheim é o de que a liberdade excessiva é difícil de suportar. Algum grau de coerção é necessário para aplacar a angústia de se sentir à deriva.

A esse período conturbado - caracterizado pelo excesso de liberdade bem como pela desorientação e falta de regras claras - se seguiu o relativamente estável período da Modernidade. Durante este, foram erigidos novos parâmetros para o funcionamento social e individual. De modo esquemático, nesse período passou a imperar a crença no progresso linear, nas verdades absolutas e no planejamento racional de ordens sociais ideais sob condições padronizadas de conhecimento e produção. Do ponto de vista individual, a construção de uma identidade e de um projeto de vida a longo prazo, no seio de estruturas sociais estáveis, fez com que os sentimentos iniciais de desorientação, incerteza e medo em relação ao futuro dessem lugar a uma relativa sensação de segurança e bem-estar.

A história, no entanto, parece repetir-se no que diz respeito às transformações radicais que são, de quando em quando, introduzidas no tecido social. De acordo com o paleontólogo Stephen J. Gould:

“A história da vida, como a vejo, é uma série de situações estáveis, pontuadas em intervalos raros por eventos importantes que ocorrem com grande rapidez e ajudam a estabelecer a próxima era estável” (Gould, 1980, p. 286 em Castells, 1999, p. 49).

Tal como nossos antepassados, que presenciaram os primeiros estágios de um desses raros intervalos - a Revolução Industrial -, estamos, ao que tudo indica, vivendo os primeiros estágios de outro desses intervalos. E, tal como eles, estamos nos sentindo à deriva em um mundo tornado imprevisível e surpreendente por outra Revolução, agora digital, e pela nova organização social dela decorrente, a da sociedade em rede (ver Castells,1999). Esse sentimento de estar-à-deriva, de ter que enfrentar o caos e o desconhecido, vem, por isso mesmo, sendo registrado (com diferentes graus de nostalgia e negatividade) por vários autores contemporâneos3.

David Harvey (1992), por exemplo, descreve genericamente aquilo que lhe parece ser o fato mais espantoso desta nova Era, que ele chama de Pós-Moderna:

“...sua total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico (...) O pós-modernismo nada, e até se espoja, nas fragmentárias e caóticas correntes da mudança, como se isso fosse tudo o que existisse” (p.49, minha ênfase).

A pergunta que se coloca é se essa mesma aceitação ocorre no plano individual. Se o efêmero, o fragmentário, o descontínuo e o caótico não geram, nos indivíduos pós-modernos, os sentimentos de insegurança e de estar-à-deriva que vimos discutindo.

O próprio Harvey (1992) discute alguns dos problemas individuais gerados pelas percepções da efemeridade, fragmentação, descontinuidade e caos dos dias de hoje. É, no entanto, Zygmunt Bauman (1998) quem analisa em maior profundidade os sentimentos de insegurança e desorientação dos homens e mulheres pós-modernos. Estabelecendo um contraponto com o que aconteceu durante a Modernidade, Bauman diz:

“[No contexto da vida pós-moderna], os projetos de vida individuais não encontram nenhum terreno estável em que acomodem uma âncora... A imagem do mundo diariamente gerada pelas preocupações da vida atual é destituída da genuína ou suposta solidez e continuidade que constumavam ser a marca registrada das ‘estruturas’ modernas. O sentimento dominante, agora, é a sensação de um novo tipo de incerteza, não limitada à própria sorte e aos dons de uma pessoa, mas igualmente a respeito da futura configuração do mundo, a maneira correta de viver nele e os critérios pelos quais julgar os acertos e erros da maneira de viver. (...) O mundo pós-moderno está se preparando para a vida sob uma condição de incerteza que é permanente e irredutível. (...) Vivemos hoje, para tomar emprestada a feliz expressão cunhada por Marcus Doel e David Clarke, na atmosfera do medo ambiente” (pp. 32-33, minha ênfase).

Essas afirmações parecem ser confirmadas pelo trabalho de Richard Sennett (1999). Baseado na escuta e análise de depoimentos pessoais sobre o trabalho dentro da nova economia flexível, Sennett, além de detectar as mesmas características atribuídas à pós-modernidade por Harvey e Bauman, assinala o potencial de conflito subjetivo gerado pela exposição individual a velhos e novos valores contraditórios:

“A estrutura da nova ordem perturba profundamente a auto-organização. Pode separar a experiência flexível [nova] da ética pessoal estática [antiga]... Pode separar o trabalho fácil superficial [novo], da compreensão e do empenho [antigos]... Pode tornar o constante correr riscos um exercício de depressão...” (p. 139)

Fragmentos, descontinuidade, caos, insegurança, medo ambiente, perturbações da auto-organização, depressão. Tal como apontadas por Harvey, Bauman e Sennett, essas são algumas das características da experiência de vida contemporânea. Todas remetem à perda de referenciais outrora sólidos. Na ausência destes, o medo e a sensação de estarmos à deriva são inevitáveis. Cabe-nos, portanto, perguntar como estamos, consciente e inconscientemente, reagindo a isso.

O restante deste trabalho tem como objetivo oferecer respostas parciais a essa pergunta. Inspira-se na postura que, independentemente de seus ensinamentos substantivos, foi adotada pelos pais da sociologia clássica e da psicanálise4. Ou seja, parte da premissa de que, em tempos de mudança acelerada, é a observação atenta do cotidiano que pode levar à construção de um edifício teórico sólido5. Faz, portanto, uso de resultados de pesquisa como base para suas argumentações teóricas. E, para que o leitor não se surpreenda, é bom deixar imediatamente claro que esses resultados foram inesperadamente obtidos em uma pesquisa sobre o uso intensivo da Internet (o que talvez exemplifique bem que pelo menos os fragmentos de nossos dias podem se interconectar).

Mesmo não sendo meu objetivo apresentar em detalhes a pesquisa sobre o uso intensivo da Internet, sabemos que o histórico, a motivação e o objetivo são parte integrante - e, algumas vezes determinante - de toda e qualquer investigação empírica. Passo, portanto, a uma breve descrição do contexto de origem, objetivos e metodologia da pesquisa em questão. Logo após, discutirei os resultados acima mencionados e retomarei a discussão de algumas formas de lidar com o estar-à-deriva contemporâneo, colocando em relevo a necessidade de interpretações positivas das mesmas.

 

A Pesquisa

A mídia brasileira (impressa e online) vem divulgando maciçamente dados de pesquisa, em grande parte norte-americanos (ver, por exemplo, Young, 1998; Rosen and Weil, 1997; SIQSS, 2000), sobre os diversos problemas gerados pela Internet6. E não é só no Brasil que isso vem acontecendo. O ano de 1998 presenciou um amplo debate internacional - que chegou a ser divulgado como matéria de primeira página do jornal The Washington Post - sobre alguns dos problemas supostamente gerados pelo uso intensivo da Rede: a depressão, o isolamento, a solidão, o technostress e o chamado vício na Rede, ou Net addiction. Debates análogos também encontraram amplo espaço tanto no número de março de 1998 quanto no número de abril de 2000 do jornal da American Psychological Association (APA Monitor), que se dedica à divulgação de trabalhos científicos. Além disso, todos esses dados vêm tendo ampla circulação na Rede, como o atesta o número de artigos sobre vários problemas psicológicos atribuídos ao uso da Internet disponíveis tanto no site da APA (www.apa.org) quanto na seção Catalyst: On computers and Psychology do site Victoria Point Multimedia (http://www.victoriapoint.com/catalyst.htm).

Esse alarde, no entanto, não encontrou eco na percepção que meu grupo de pesquisa e eu tínhamos da Rede a partir do contato com diversos tipos de usuários brasileiros em pesquisas anteriores (ver, por exemplo, Nicolaci-da-Costa, 1998, 1999, 2000 e Zaremba, Abreu & Nicolaci-da-Costa 2000). Sempre nos pareceu haver nele muito exagero. A pesquisa intitulada “Ansiedades e conflitos psicológicos do homem do século XXI” foi, portanto, projetada e realizada com o objetivo principal de investigar a fundo o que está por trás de um dos problemas contemporâneos mais discutidos no âmbito da psicologia: o do uso cotidiano da Internet que, quando ultrapassa a barreira artificial de cerca de 10 horas semanais para atividades vistas como não-produtivas, é geralmente rotulado de vício7. Para atingir esse objetivo, procuramos identificar por que tantos passam tantas horas conectados diariamente. Queríamos saber quais são seus hábitos online, o que gostam de fazer, o quanto e como se comunicam uns com os outros, o que pensam da Internet e de seu uso dela, etc. Por isso mesmo, escolhemos trabalhar exclusivamente com o que chamamos de “usuários pesados”.

 

Metodologia

Sujeitos

Foram, aleatoriamente, recrutados vinte homens e mulheres. Todos eram usuários experientes da Internet, que se conectavam à Rede a partir de casa em suas horas de lazer. Todos também eram “usuários pesados”, ou seja, todos passavam pelo menos 2 horas por dia conectados8.

Coleta de Dados

A coleta de dados foi feita a partir de vinte entrevistas individuais de cerca de uma hora de duração. Essas entrevistas foram realizadas em locais escolhidos pelos próprios sujeitos de modo a torná-las informais e descontraídas9. Para guiá-lo, o entrevistador dispunha de um roteiro construído com esta finalidade (ver Nicolaci-da-Costa, 1989). O roteiro era composto de 25 perguntas abertas sobre hábitos do usuário (como, por exemplo, a que horas liga o computador, quantas vezes checa sua caixa postal, quantos programas usa ao mesmo tempo), sobre suas opiniões acerca da Internet e acerca do que dizem a respeito dela, sobre seus sentimentos em relação ao uso da Rede, etc. No início da entrevista, eram também coletados dados objetivos do sujeito: tempo de acesso à Rede, idade, sexo, escolaridade e ocupação/profissão. Como forma de registro, fez-se uso de gravações.

 

Análise dos dados

Todas as entrevistas foram integralmente transcritas e submetidas às técnicas de análise qualitativa do discurso propostas por Nicolaci-da-Costa (1989, 1994) e já utilizadas em várias outras pesquisas (ver, por exemplo, Nicolaci-da-Costa, 1987, 1998, 2000). De forma muito resumida, são realizados sucessivos cruzamentos e comparações das respostas do grupo como um todo (análise inter-sujeitos) com as respostas dadas por cada um dos entrevistados (análise intra-sujeitos). Essas técnicas permitem detectar, ao mesmo tempo, recorrências nas respostas de todos os entrevistados bem como inconsistências nas respostas individuais. É, por isso, muito eficaz na identificação de conflitos e mal-estares psicológicos cuja origem é social.

 

Resultados relevantes

Além de tornar evidente a ausência de patologia no uso que fazem da Rede, a pesquisa revelou o mal-estar de nossos entrevistados em relação ao seu uso intensivo da Internet quando este não é produtivo. Passo, agora, à apresentação dos resultados que nos levaram a detectar esse mal-estar, que são aqueles relevantes para a discussão teórica anunciada na primeira seção deste trabalho.

Dado que, como mencionado anteriormente, o objetivo da pesquisa era o de investigar um comportamento - o uso intensivo da Internet - que tem sido visto como patológico e rotulado como vício, fizemos, entre outras, perguntas como: “O que acha do uso que faz da Rede?”, “O que os outros acham do seu uso da Rede?”, “O que gosta de fazer na Rede?”, “O que acha que é um uso normal da Internet?”, “O que procura na Rede?”. Tínhamos a expectativa de que nossos entrevistados - todos eles, lembro, “usuários pesados” da Internet - contrastariam o que quer que considerassem um uso “normal” com o uso dito patológico que vem sendo divulgado à exaustão pela mídia e por vários sites de psicologia.

Isso, no entanto, não aconteceu. O contraste que fizeram foi, em última análise, entre uso produtivo e uso improdutivo. Expressões como “uso útil”, “uso construtivo”, “uso correto”, “uso qualificado”, “uso produtivo”, “uso interessante”, “uso enriquecedor”, “bom uso” e congêneres foram empregadas pela esmagadora maioria dos nossos entrevistados em suas respostas. Em todos os casos, foi possível constatar, através de suas definições, que o significado dessas expressões era exatamente o mesmo: o uso da Internet é útil, produtivo, bom, correto, etc., quando atende alguma necessidade de trabalho ou pesquisa. Bater papo, que é o que praticamente todos gostam de fazer quando estão conectados, é, paradoxalmente, por eles considerado uma perda de tempo.

Seguem-se, para que o leitor possa avaliar por si próprio, algumas das respostas que colhemos.

Ronaldo10 (jornalista de 23 anos), por exemplo, diz em resposta à pergunta sobre o que acha do uso que faz da Rede:

“Dificilmente alguém faz um uso qualificado da Internet. [Uso qualificado] é você entrar na Internet, só quando você precisa procurar ou pesquisar alguma coisa. Isso é um uso bem qualificado da Internet. [Do tipo] só vou usar a Internet quando eu estiver precisando realmente fazer alguma coisa importante que tenha a ver com meu trabalho ou alguma coisa que eu estou precisando. Neguinho busca agora mais a rede por prazer, prazer de conversar e não ficar mais entediado.”

É interessante observar que Ronaldo, apesar do seu aparente desdém - veiculado pelo uso da palavra “neguinho” - por aqueles que gostam de bater papo via Rede, posteriormente revela adorar conversar com seus amigos através dela.

Já Carla (estudante de 3º grau de 20 anos de idade), define o seu uso da Rede como:

“Inútil (risos). Porque eu não faço para nada de construtivo na minha vida. (...) Seria muito melhor se eu usasse esse tempo para fazer pesquisas aonde eu fosse aprender mais coisas.”

Carla também adora um bate-papo digital.

Para citar um último exemplo, Alessandra (estudante de 3º grau de 18 anos de idade), de modo análogo aos de Ronaldo e Carla, diz, também a respeito do seu uso da Rede:

“Eu acho que eu aproveito muito pouco do que eu poderia aproveitar dela. Eu passo muito tempo batendo papo e não usando ela de forma que me acrescentaria de alguma forma, pesquisando ou lendo...sei lá, entendeu? Eu faço um uso que não é correto. Eu poderia aproveitar ela muito melhor...”

Os depoimentos dos demais entrevistados foram, em sua grande maioria, muito semelhantes aos depoimentos contraditórios e/ou autocríticos de Ronaldo, Carla e Alessandra. Dos nossos vinte entrevistados, somente três parecem ver com bons olhos o prazer que, dado o tempo que passam conectados (minimamente 2 horas diárias, como já mencionado), obviamente todos obtêm de suas experiências digitais. Mesmo estes, no entanto, não deixam de se preocupar com a questão da produtividade, própria ou alheia. Eis o que nos disseram.

Sérgio (médico e psicanalista de 56 anos de idade) admite que sua experiência na Rede não é muito enriquecedora em termos culturais, e afirma que gosta de usar a Internet por prazer. Diz:

“Eu gosto muito, não acho uma coisa ruim. Se você pensar no que é que te enriquece socio-culturalmente... Pouquíssimo, né? Eu não tenho uma cultura maior a partir do que eu sei dali, eu não tenho uma experiência vivencial muito maior, não. (...) Mas o uso que eu faço não me atrapalha, eu faço um uso um pouco maior, não posso dizer que seja comum não, meu uso é grande. A conta que eu pago na Internet mostra que meu uso não é dos menores, mas é o meu lazer, né?”

Sérgio, no entanto, faz uma ressalva interessante:

“Se eu tivesse um filho jovem, que ficasse pendurado no computador o dia inteiro e não fizesse absolutamente nada eu ficaria preocupado.”

Ou seja, parece que, por ter certeza de que é produtivo, Sérgio pode admitir que a Internet é, para ele, somente uma fonte de prazer. A produtividade - no caso a de um filho - não deixa, entretanto, de estar presente em suas considerações.

A questão da produtividade também encontra espaço - embora de outro modo - nos outros dois depoimentos que se afastam do modelo autocrítico.

Cristiane (professora de artes plásticas de 27 anos de idade) fala de uma espécie de conciliação entre produtividade e prazer, ou seja, daquilo que poderia ser chamado de um “lazer produtivo”. Em resposta à pergunta sobre o que gosta de fazer na Rede, revela:

“Eu gosto de pesquisar e bater papo (...) com pessoas que conheço da minha vida cotidiana e algumas poucas pessoas que conheci na Internet. Não sou muito de conhecer gente na Rede.Quando estou conectada eu me descontraio muito. É muito bom porque em geral eu estou trabalhando, estudando, produzindo e com a sensação de estar me divertindo, sentindo prazer.”

Soraya (estudante de 3º grau de 22 anos) parece dizer o mesmo em outras palavras. Quando perguntada sobre o papel que a Internet tem em sua vida hoje, diz:

“[Um papel] de entretenimento, prazer, mesmo quando estou pesquisando.”

Resumindo, embora todos os nossos entrevistados se conectem um mínimo de duas horas diárias em suas horas de lazer, é evidente que eles têm dificuldade em admitir o prazer que obviamente derivam de seu uso da Rede (afinal, quem, por opção, fica conectado durante pelo menos duas horas de lazer diárias sem disso extrair algum prazer?).

Na realidade, como vimos antes, esse prazer - na maior parte dos casos, derivado de conversas online - chega a ser, por eles mesmos, repudiado e criticado por não ser um “uso útil”, “construtivo”, “correto”, “qualificado”, “produtivo”, “interessante”, “enriquecedor”, “bom”, etc. Segundo eles, usar a Rede produtiva, construtiva, correta, qualificadamente, etc. significa usá-la apenas para atividades voltadas explicitamente para a aquisição de conhecimentos, como, por exemplo, a de fazer pesquisas online.

Temos aí um paradoxo. Enquanto todos os nossos entrevistados revelam muita preocupação com sua produtividade na Rede, todos são, de acordo com seus próprios testemunhos e definições, nela improdutivos. E mais, certamente derivando prazer de suas horas de conexão diárias, esses mesmos entrevistados, em sua grande maioria, insistem em repudiá-lo, criticando o seu próprio uso pelo fato de este não ser útil.

Somente Sérgio, Cristiane e Soraya parecem ter conseguido conciliar prazer e produtividade. Sérgio porque, mais velho e sabendo-se produtivo offline, admite seu prazer abertamente (embora projete em “um filho” sua preocupação com a produtividade). Cristiane e Soraya, porque aparentemente conseguiram aliar prazer à produtividade.

Ao observar esse quadro, algumas perguntas se colocam imediatamente. Por que nossos entrevistados, com tão poucas exceções, repudiam o prazer que sentem quando conectados quando é esse mesmo prazer que os leva a passar várias de suas horas de lazer diárias à frente de um computador? Por que todos valorizam tanto a produtividade online? Por que seu discurso e sua prática são tão inconsistentes?

Cabe agora interpretar esses resultados de modo a oferecer respostas para essas perguntas.

 

Discussão: Problemas Estruturais e Problemas Induzidos

Nossos resultados são contraditórios e sua interpretação é, por isso mesmo, complexa. A presente discussão será, portanto, dividida em partes para facilitar a compreensão. Adianto, porém, que os problemas enfrentados por nossos sujeitos parecem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, há os estruturais, que parecem ser conseqüência inevitável de processos de mudança radical como aquele que caracteriza os dias de hoje. Nossos dados, no entanto, indicam a existência de um outro tipo de problema: aquele que chamarei de induzido. Este parece estar sendo artificialmente gerado por discursos que insistem em enxergar o novo pela ótica da negatividade.

 

Computador: um Instrumento de Trabalho ou de Prazer?

O conflito existente entre a prática do prazer e o discurso da produtividade dos nossos entrevistados indica, antes de mais nada, a existência de um problema estrutural, ou seja, de um problema que ocorre em função dos mais variados tipos de mudança. Em sua forma genérica, ele foi percebido por Sennett que, tal como discutido na primeira parte deste trabalho, chamou-o de perturbação da auto-organização. Vejamos.

O mundo em que nossos entrevistados nasceram e cresceram era, tomando emprestados alguns conceitos de Joshua Meyrowitz (1999), um mundo em que membranas relativamente impermeáveis separavam aquilo que era daquilo que não era. Um mundo em que, entre muitas outras coisas, as esferas do trabalho e do lazer eram separadas por uma dessas membranas impermeáveis. Um mundo no qual, em conseqüência de estarem associados ao seu uso para o lazer ou para atividades produtivas, certos aparatos tecnológicos eram vinculados a atividades prazerosas enquanto outros, à produtividade. Essa organização está sendo solapada diariamente pelas novas tecnologias da informação, através das quais as membranas entre diferentes esferas da experiência adquirem uma porosidade antes inexistente. Numa sociedade em rede (ver Castells, 1999), não há mais como distinguir o que é do que não é, em vários domínios da experiência humana.

Leigos que são, no entanto, nossos entrevistados, como seria de se esperar, não estão conscientes disso. Demonstram, pelo contrário, estar bastante confusos no que diz respeito à alocação do computador à esfera do lazer ou à do trabalho.

Dados os requisitos que estipulamos para o recrutamento daqueles que participaram da nossa pesquisa (ver a seção de metodologia de pesquisa acima), sabemos que todos eles se conectam à Internet de casa em suas horas de lazer. Poderíamos, portanto, supor que, nessas horas, eles estariam buscando alguma fonte de prazer e entretenimento. É isso, na realidade, o que eles fazem. Como vimos, no entanto, a fruição deste prazer encontra um obstáculo: a preocupação com a produtividade.

Por quê? A resposta mais óbvia pode ser encontrada na forma pela qual o computador e, posteriormente, a Internet entraram em nossas vidas.

Diferentemente de outros aparatos tecnológicos como a televisão, o rádio, a aparelhagem de som, o vídeo, etc., que entraram em nossas vidas de forma a nos proporcionar prazer, o computador começou a se inserir no espaço doméstico, numa época anterior à Internet, como um instrumento de trabalho11. Era, então, visto por muitos como uma máquina de escrever sofisticada que facilitava a confecção de textos, tabelas, planilhas, etc. A diversão por ele tornada disponível era de pequena monta (limitava-se, em grande parte, a jogos eletrônicos) e a dificuldade de aprender a dominar a máquina assustava a maior parte de seus potenciais usuários. Foi somente com a chegada da Internet comercial - o que, no Brasil, só aconteceu em 1995 - que as grandes possibilidades de entretenimento chegaram ao computador. Mesmo assim, no início, muitos viam a Internet somente como uma grande biblioteca, relegando a um plano menor as reais possibilidades de comunicação virtual, ainda pouco acessíveis ao usuário leigo dada a dificuldade apresentada pelos programas disponíveis então. Em outras palavras, o computador e a Internet entraram em nosso cotidiano associados à esfera do trabalho e à produtividade.

No decorrer dos últimos cinco anos, no entanto, muitas coisas mudaram. As opções de entretenimento na Grande Rede se diversificaram enormemente e os vários programas de bate-papo online, tão apreciados por nossos entrevistados, se popularizaram porque se tornaram fáceis de usar. Passamos, portanto, a fazer um novo uso dessa mesma tecnologia digital. Ao uso original que dávamos ao computador e à Internet, adicionamos um outro: o uso por prazer.

Dito desse modo, essa simples adição não parece gerar problemas. Não é, no entanto, assim que funcionam os seres humanos. Como assinalam vários estudiosos (ver, por exemplo, Berger e Luckmann, 1973; Figueira, 1985; Nicolaci-da-Costa, 1987), estes são bastante resistentes a mudanças (embora, no mais das vezes, inconscientemente). O conflito entre a prática do prazer e o discurso da produtividade daqueles que participaram da nossa pesquisa é prova dessa resistência estrutural. Ao não conseguirem desvincular o computador da esfera original do trabalho em que foi inserido, nossos sujeitos parecem ter suas atividades online regidas por uma ética do trabalho que vê o prazer como indesejável. (Essa ética do trabalho será retomada na próxima seção.)

 

Computador e Internet: como Lidar com o Excesso de Liberdade?

A alocação do computador à esfera do trabalho não parece, no entanto, ser a única responsável pelo insistente discurso da produtividade que contraria a prática do prazer dos nossos sujeitos. Há uma razão complementar, menos óbvia e talvez mais importante para esse conflito: o medo da liberdade excessiva.

Para expô-la, faz-se necessário retomar, brevemente, o conceito de anomia proposto por Durkheim (1895/1982) e apresentado no início deste trabalho. Anomia, como já foi visto, diz respeito à ausência de normas sociais coercitivas que, além de dar uma dimensão de realidade aos objetivos individuais, impõem limites à paixão e ao desejo. Essa ausência de normas coercitivas pode gerar sentimentos difíceis de suportar, como a incerteza, o medo e a angústia. Isso ocorre sempre que uma mudança radical põe por terra um determinado conjunto de regras e valores, dado que este dificilmente é substituído por outro de imediato. A anomia é, portanto, um problema estrutural.

Nossos sujeitos parecem estar sofrendo de anomia. Estão enfrentando dificuldades não somente em tornar porosas as membranas, antes impermeáveis, entre as esferas do trabalho e do prazer. Dado que a membrana que tornava a realidade “real”12 impermeável também se tornou surpreendentemente porosa e penetrável pela realidade virtual, estão tentando estabelecer uma ponte entre essas duas realidades de modo a buscar na primeira a fonte de nomos de que necessitam na segunda. Ou seja, embora, como foi discutido na Introdução e também na seção anterior, a realidade “real” de nossos dias seja bastante conturbada e confusa, nela ainda existem normas coercitivas de vários tipos. Já na realidade virtual, a liberdade individual aparentemente não encontra limites. Os homens e mulheres que participaram da nossa pesquisa estão, portanto, visivelmente tentando transferir para a última - a virtual - os limites da primeira.

Sentem-se à deriva.Têm medo de ser, nas felizes palavras de Fernando Villela13, “tragados pelo virtual”, ou seja, de se perder em suas experiências online14. Recorrem, em conseqüência, aos discursos daqueles que, nesses primeiros estágios da vida digital, discorrem abertamente sobre o que é certo e errado fazer durante as horas de conexão.

Esses são os discursos aos quais também fiz referência no início deste artigo: (a) os discursos de muitos psicólogos que rotulam de “vício” o uso intensivo e, geralmente, prazeroso da Internet; e (b) os discursos da mídia em geral, que, além de divulgarem os primeiros à exaustão, enfatizam o lado patológico das experiências virtuais através do relato, quase diário, de seqüestros, homicídios e congêneres cujas causas são atribuídas, de modo automático e quase ingênuo, à Internet. Na ausência de discursos que lhes ofereçam uma interpretação positiva de suas novas experiências, parece ser nos discursos patologizantes da psicologia e da mídia que nossos sujeitos encontram, repetindo uma colocação de Bauman citada na Introdução, definições da “maneira correta de viver... e... critérios pelos quais julgar os acertos e erros da maneira de viver” (1998, p. 32).

Nossos sujeitos não o percebem, mas há algo traiçoeiro nessa fonte de orientação. Porque não buscam a positividade do novo, esses discursos tendem a ver como patológico e perigoso tudo aquilo que foge aos antigos padrões de normalidade, deixando de levar em conta que esses próprios padrões têm que ser revistos. Adotam, precipitada e generalizadamente, a ótica da patologia na interpretação de novas maneiras de agir, viver, sentir, etc. e, ao fazê-lo, podem facilmente induzir a percepção social e a vivência individual de patologia e/ou risco em relação a novos comportamentos.

A proteção, neles ímplicita, contra os perigos supostamente oferecidos pela Rede é o uso produtivo da mesma. Pelo menos, essa é a leitura que deles fazem nossos entrevistados. Prova disso é o discurso da produtividade que contrapõem à sua prática do prazer online. O discurso da produtividade dos participantes da pesquisa é tão radical que parece ser originário de uma ética do trabalho puritana na qual o prazer é repudiado, e não apenas adiado, como na ética do trabalho que ainda vigora em vastos setores do mundo “real”15. De fato, essa renúncia explícita ao prazer encontra paralelo na ética do trabalho ditada pelo ascetismo cristão (protestante, no caso), tal como descrito por Max Weber em 1905. Uma ética tão radical que, nas palavras do próprio Weber citando o Christian Directory, estipulava:

“(...) na terra, o homem também deve, se quiser ter certeza de estar num estado de graça: ‘trabalhar os trabalhos Daquele que o enviou enquanto é dia’. Somente a atividade, e não a preguiça, de acordo com a vontade Deus claramente por Ele revelada, serve para aumentar a Sua glória.

Perder tempo é, portanto, o primeiro e, em princípio, o pior de todos os pecados. (...) Perder tempo em sociabilidade fácil, em conversas a esmo, em extravagâncias, mesmo em dormir mais do que o necessário para a saúde (de seis a no máximo oito horas), é considerado digno de total condenação moral. (...) toda hora perdida é retirada do trabalho a serviço da glória de Deus” (Weber, 1905/1980, p. 141, minha tradução e ênfase).

Observe-se a semelhança existente entre os trechos enfatizados na citação acima e a insistência dos nossos entrevistados em fazerem, nos seus depoimentos, uma autocrítica do que muitos deles chamaram de “perda de tempo” batendo papo nas salas de chat virtuais ou fazendo outros usos prazerosos, mas pouco produtivos, do seu tempo online. Dado que dificilmente todos os nossos sujeitos teriam sofrido influência direta de um discurso puritano nos dias de hoje, cabe perguntar qual a origem dessa severa crítica ao prazer por parte desses homens e mulheres contemporâneos. Não estaria ela sendo fomentada pelos discursos negativos e/ou patologizantes aos quais são expostos quase diariamente? Em outras palavras, não teriam a autocrítica dos nossos entrevistados e o conflito que está por trás dela sido induzidos por esses discursos? Embora não disponhamos de dados conclusivos, essa é uma possibilidade bastante plausível.

É óbvio que não há nenhum cunho religioso nos discursos por nós coletados e que ninguém está achando que atingirá um estado de graça se fizer um uso produtivo do computador ou da Internet. O discurso de nossos sujeitos é radical, porém secular. Independentemente de sua origem, sua radicalidade parece ter uma única finalidade: a de conter a ansiedade e o medo gerados pela falta de limites por eles experimentada em suas experiências virtuais.

Ao criticarem seu comportamento online a partir de parâmetros offline, nossos entrevistados estabelecem uma ponte entre as realidades “real” e virtual, ponte essa que lhes permite avaliar o seu próprio comportamento online de uma forma que faça sentido offline. Isso lhes fornece uma âncora que evita a sensação de estar-à-deriva,ou seja, ao se sentirem infringindo as regras do bom uso da Internet, eles adquirem a certeza de que pelo menos existem regras, ou seja, normas sociais para o uso do tempo online. Dado que são as únicas disponíveis, essas são as normas que vão lhes fornecer parâmetros para suas experiências individuais na realidade virtual. À primeira vista, o importante para eles parece ser a simples constatação de que existem regras, de que o seu comportamento não pode ser simplesmente ditado pelo seu desejo. É possível, no entanto, que a própria tensão gerada pelo conflito entre o seu discurso e a sua prática esteja exercendo o papel da âncora de que necessitam. Embora disso não possamos ter certeza no momento, não é improvável que essa tensão esteja, para eles, desempenhando o papel de inibir maiores exposições ao desconhecido da realidade virtual.

Para finalizar nossa discussão da radicalidade do discurso dos homens e mulheres que entrevistamos, resta dizer que, na ausência de visões positivas que lhes forneçam formas de enxergar positivamente suas experiências digitais, eles parecem ter a sensação de estar vivendo uma aventura radical que só pode ser contrabalançada por um discurso igualmente radical. Em outras palavras, o peso e o tamanho da âncora de que necessitam correspondem à turbulência dos mares em que navegam e dos perigos - reais ou imaginários - que têm que enfrentar.

 

Conclusão: Resgatando a Positividade

Vimos, na Introdução, que a história parece repetir-se no que diz respeito àquilo que Gould (1980) chamou de raros intervalos que sucedem e antecedem eras estáveis. Podemos também afirmar que a história se repete no que diz respeito ao medo, desorientação e nostalgia gerados pelas grandes mudanças sociais que caracterizam esses raros intervalos.

O período que se seguiu à Revolução Industrial foi, como vimos nas colocações de Hobsbawn (1969) e Durkheim (1895/1982), um período de muito medo e desorientação. De modo análogo, a expressão medo ambiente, usada por Bauman (1998), encapsula as observações que muitos fazem sobre os nossos dias: as de que o medo e a desorientação parecem ser a tônica dos primeiros estágios da nossa nova Era, quer seja ela chamada de Era Digital ou Pós-Moderna. E as analogias não param por aí. Como assinala Nisbet (1966), nos primeiros momentos que sucederam a Revolução Industrial, a nostalgia de um mundo perdido e o medo gerado pelo novo eram tão grandes que as visões daqueles que procuravam entender e interpretar a nova ordem eram geralmente saudosistas e negativas. O mesmo, como vimos ao longo deste artigo, parece estar ocorrendo agora.

É possível, no entanto, esperar que, em breve, uma nova analogia possa ser feita. Também de acordo com Nisbet (1966), no período posterior ao início do processo de industrialização, uma vez superados os primeiros obstáculos, pouco a pouco foi possível começar a identificar, e integrar àqueles vistos como negativos, os aspectos positivos da nova ordem. E, nesse todo equilibrado, foram plantados os alicerces dos grandes edifícios teóricos que nos permitiram fazer sentido da Era Moderna. Resta, agora, fazer o mesmo em relação ao que vem acontecendo nesses primeiros estágios da Era Digital. Embora Robert Hewison (1987) nos ensine que o impulso nostálgico - na medida em que este tenta preservar a integridade de nossas identidades individuais e supra-individuais - é um importante agente do ajuste à crise, é fundamental que não nos deixemos ser carregados pela nostalgia do outrora familiar de forma que sejamos impedidos de identificar aquilo de positivo que há em toda mudança.

No que diz respeito aos aspectos virtuais e suas relações com aqueles vistos como reais, creio estarmos podendo contribuir para essa identificação positiva, tanto através de nossos trabalhos anteriores como do presente estudo.

 

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Endereço para correspondência
Ana Maria Nicolaci-da-Costa
Departamento de Psicologia
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Rua Marquês de São Vicente, 225
22543-900 Rio de Janeiro - RJ
E-mail: anicol@psi.puc-rio.br

Recebido em 14/11/00
Aprovado em 20/10/01

 

 

* Psicóloga, M.A. em Psicologia pela New School for Social Research em Nova York, Ph.D. em Psicologia pela Universidade de Londres. Professora e Pesquisadora do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Autora do livro Na Malha da Rede: Os Impactos Íntimos da Internet (Rio de Janeiro: Editora Campus, 1998).
1 Uma comparação mais pormenorizada dessas duas revoluções pode ser encontrada em Castells (1999). Ver, também, Nicolaci-da-Costa (1998, 1999).
2 Para uma discussão mais detalhada do conceito de anomia, ver Boudon e Bourricaud (1993), pp. 25-29. Ver, também, Nisbet (1966).
3 Embora sendo crucial para as diversas mudanças que vêm ocorrendo nas últimas décadas, a tecnologia digital raramente é objeto de análise mais meticulosa por parte de muitos autores contemporâneos, notadamente dos chamados autores pós-modernos. Ela é pressuposta. A esse respeito ver, por exemplo, Jameson (1997), Harvey (1992), Bauman (1998), Sennett (1999).
4 Deixo claro que me refiro à postura em comum adotada por eles. Seus ensinamentos substantivos são muitas vezes complementares ou contraditórios e somente alguns serão utilizados neste artigo.
5 Dou alguns exemplos desse tipo de postura. Para compreender as mudanças geradas pela revolução industrial em seus primórdios, Friedrich Engels foi morar na Inglaterra (berço da primeira classe operária), Georg Simmel observou minuciosamente o cotidiano objetivo e subjetivo das grandes metrópoles (então coisa recente), e Sigmund Freud procurou mergulhar no psiquismo de seus pacientes (o que lhe possibilitou romper com o primado da consciência e escandalizar a moral vitoriana afirmando a existência da sexualidade infantil). Ver, por exemplo: Engels (1845/1986), Wolff (1964) e Freud (1980).
6 Uma discussão mais pormenorizada do papel da mídia na divulgação dos problemas supostamente gerados pelo uso da Internet pode ser encontrada em Nicolaci-da-Costa (no prelo).
7 Esta pesquisa contou com o apoio do CNPq. Dela participaram, em diferentes momentos, os seguintes alunos do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, muitos dos quais foram ou são bolsistas de iniciação científica: Priscilla França Dib, Fernanda Vanni, Sabrina Presman, Carla Pannetti, Bianca Castro Dantas, Vanessa Cervinho Viana, Fernando Vilela, Cristiane Mastrangelo Ebecken e Erika Falcão Ramalho.
8 Em outros estudos (ver, por exemplo, SIQSS, 2000) entende-se, por um “usuário pesado”, alguém que passa pelo menos 10 horas por semana conectado à Internet. A definição a que chegamos é, portanto, ainda mais rígida.
9 É importante frisar que, quanto mais à vontade o sujeito se sente durante uma entrevista mais disposição ele tem para se abrir com o entrevistador (a este respeito ver, por exemplo, Labov, 1972 e Nicolaci-da-Costa, 1989), o que para nós pode ser fundamental.
10 Todos os nomes próprios usados neste artigo são fictícios.
11 Um histórico da entrada dos computadores e da Internet em nosso cotidiano pode ser encontrado em Leitão e Nicolaci-da-Costa (2000).
12 O termo realidade “real” foi maciçamente utilizado por entrevistados numa pesquisa anterior (ver Nicolaci-da-Costa, 1998) para se referir à realidade cotidiana. É usado em oposição ao termo realidade “virtual”, aquela à qual se tem acesso somente através de computadores.
13 Fernando Villela, ex-editor da revista Internet.br e do site AQUI! www.aqui.com.br , é, hoje, um dos responsáveis pelo noticiário do site do iG www.ig.com.br.
14 Na pesquisa que serviu de base ao livro Na Malha da Rede (Nicolaci-da-Costa, 1998), ficou evidente o quão estreitamente os usuários tendem a associar a Internet a uma liberdade sem limites.
15 Para uma discussão da ética do trabalho, fundamentada no ascetismo leigo, que vigorou durante os primeiros estágios do capitalismo, e que, em certos setores, vigora até os dias de hoje, ver Sennett (1999). Também em Sennett, pode ser encontrada uma descrição da ética do trabalho característica da economia flexível de nossos dias.

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