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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.3 Brasília Sept. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932002000300006 

ARTIGOS

 

A influência do afastamento por acidente de trabalho sobre a ocorrência de transtornos psíquicos e somáticos

 

 

Elizabethe Cristina Borsonello*; Leila Cristina dos Santos**; Maria Luiza Gava Schmidt***; Telma Gonçalves Carneiro Spera de Andrade****

Universidade Estadual Paulista J. M. Mesquita. Faculdade de Ciências e Letras de Assis

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo teve como objetivo verificar a associação entre o afastamento por acidente de trabalho e a ocorrência de ansiedade e de depressão, averiguando se houve desencadeamento de transtornos somáticos e/ou transtornos nas relações sociais dos indivíduos. Em todos os casos estudados, constatamos que houve aumento significativo de sintomas após o afastamento e que o retorno ao trabalho foi impossibilitado devido à persistência da patologia e ao desenvolvimento de outras manifestações. Assim, o afastamento pôde ser considerado um estímulo estressor, pois além de causar transtornos psíquicos provocou alterações orgânicas.

Palavras-chave: Acidente de trabalho, Ansiedade e depressão.


ABSTRACT

The present study has the goal of verifing the association between the removal by work accident and the occurrence of anxiety and depression, checking if this first factor had influence in the appearance of somatic disturbances and/or disturbances in the social relationships of the individuals. In all the cases studied, it was noted that there was a significative increase in the symptoms after the removal and that the return to work was not possible because of the persistence of the pathology and the development of other manifestations. Thus, the removal was considered a stressor stimulus, since it has caused psychological disturbances and also occasioned organic modifications.

Keywords: Work accident, Anxiety and depression.


 

 

Trabalho e manifestações psicossomáticas

No mundo de hoje, em decorrência da contínua evolução da ciência e da tecnologia, deparamo-nos com uma sociedade onde há predominância do homem como massa, em detrimento do homem como indivíduo (Kubler-Ross, 1987).

No ambiente de trabalho, Dejours (1987) aponta dois tipos de sofrimentos fundamentais: a insatisfação e a ansiedade que acompanham o indivíduo que realiza tarefas com graus diferentes de complexidade.

O trabalho envolve demandas de necessidades individuais e organizacionais em sintonia . Quando elas não são atendidas, as vinculações pessoa-empresa modificam-se e criam-se processos patogênicos de adaptação como o desligamento da empresa, a perda de promoções ou o isolamento na carreira profissional, provocando a formação de conflitos (Rodrigues & Gasparini, 1992).

O homem é capaz de responder não só às ameaças concretas como também a situações como quebra de laços familiares e da estrutura social, privação de necessidades básicas, separação, perda de emprego, aposentadoria, entre outros.

Por isso, a Psicossomática estuda o homem como ser histórico, constituído por corpo, mente e suas interações com o meio, levando-se em conta sua totalidade para melhor entender os processos de adoecer. Nesse caso, as doenças psicossomáticas representariam um mecanismo de defesa, no qual o sujeito transforma o problema psicológico em fisiológico.

O sofrimento é controlado pelas estratégias defensivas, para impedir que se transforme em patologia. Quando há uma falência ou uma deficiência nesses sistemas defensivos, aparecem as neuroses, psicoses e depressões e/ou sintomas orgânicos, desencadeando uma queda no desempenho produtivo. A exclusão imediata do trabalho passa a ser percebida como punição. Se diversos operários descompensam, a chefia intervém diminuindo o ritmo de trabalho, isto é, bastaria diminuir a pressão organizacional para que manifestações de sofrimento desaparecessem.

Parece que o sofrimento mental e a fadiga são manifestações proibidas no trabalho. Só a doença é admissível e, dessa forma, a consulta médica disfarça o sofrimento mental, que é aliviado com psicoes-timulantes ou analgésicos. Dessa forma, tenta-se deslocar o conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro e com a medicalização, desqualificando o sofrimento.

A organização do trabalho não determina a doença mental, porém poderia deixar inscritos seus efeitos enquanto uma explicação do que chamaríamos de “Síndrome Subjetiva Pós-traumática”. Segundo Dejours, essa síndrome “caracteriza-se por uma grande variedade de problemas funcionais, ou seja, sem substrato orgânico, ou pela persistência anormal de um sintoma que apareceu depois do acidente” (Dejours, 1987, p: 123).

Esses sintomas persistem após a cicatrização de uma ferida, a consolidação de uma fratura ou a cura de uma intoxicação aguda sob a manifestação orgânica de desconforto em relação à área afetada.

Toda essa sintomatologia funciona como impedimento para o retorno ao trabalho. Nesse sentido, o acidente aparece como elemento desencadeador desse quadro, refletindo o caos encontrado na organização do trabalho.

Dessa forma, o trabalhador acidentado “percebe” o risco da sua tarefa, e excluído da ideologia ocupacional enfrenta o perigo, o medo e a impotência que isso gera no cumprimento da tarefa. Assim, continuará produzindo sintomas que caracterizam a “Síndrome Subjetiva Pós-traumática” para evitar o retorno ao trabalho.

Essa realidade faz com que o trabalhador procure caracterizar seu sofrimento mental, como o medo ou a ansiedade, como doença mental, já que somente a doença mental permitiria a aquisição de um estado de invalidez reconhecida pela organização do trabalho.

“É essa a lógica da organização do trabalho, que só permite que o sofrimento mental deixe sua máscara no final de sua evolução: a doença mental caracterizada” (Dejours, 1987, p: 125).

 

Ansiedade e depressão

Inúmeros estudos demonstram que o conflito entre as metas e as estruturas de uma empresa e as necessidades individuais, quando em discordância, tornam-se um agente estressor importante. Desse modo, as necessidades do sujeito não são atendidas ou consideradas, tornando o local de trabalho um ambiente gerador de ansiedades, insatisfações e podendo ocasionar a depressão. Assim, o acidente de trabalho seria uma forma inconsciente encontrada pelo trabalhador para evitar o conflito existente na relação homem-empresa, que produzem estados de ansiedade e insatisfação.

Quando o indivíduo não tem sua auto-percepção desenvolvida, fica impossibilitado de alcançar o equilíbrio, passando a apresentar sinais nocivos de ansiedade que podem levá-lo à exaustão e à formação de sintomas psicossomáticos, podendo desenvolver a patologia psicossomática (Knobel, 1984).

Todos os casos de ansiedade apresentam sintomas psicológicos e somáticos. Dentre os psicológicos estão apreensão, medo, desespero, sensação de pânico, hipervigilância, irritabilidade, fadiga, insônia e dificuldade para se concentrar. Os sintomas de origem somática são: dor de cabeça e lombar, causada pelo aumento da tensão muscular, palpitação devido aos movimentos mais vigorosos e rápidos do coração, sudorese emocional, principalmente nas mãos, sensação de bolo na garganta devido à maior tensão dos músculos do pescoço, boca seca, náusea e vazio no estômago, além de falta de ar e tontura, estas últimas conseqüentes a hiperventilação, tremores e fraquezas.

Outro aspecto a ser ressaltado é que alguns indivíduos enfrentam melhor determinada situação que outros, e tal fato relaciona-se com a história de vida de cada pessoa, ou seja, de suas experiências passadas, educação, sexo, idade, personalidade, etc. (Andrade, 1989).

Vários neurotransmissores estão envolvidos no processo de ansiedade e/ou depressão e na geração dos seus sintomas, principalmente na neurotransmissão serotonérgica e noradrenérgica, assim como os fatores ambientais e estressores psicossociais que permeiam a vida dos trabalhadores no ambiente de trabalho.

A depressão está relacionada com situações de perda física ou afetivas, e é caracterizada por um grande contingente de sintomas que podem incluir sentimento de tristeza, auto depreciação, desvalia, abandono, culpa, desesperança, idéias de suicídio, apatia, incapacidade de sentir prazer e mesmo uma angústia que suplanta qualquer experiência humana normal e possui um caráter emocional extremamente doloroso. Além destes sintomas, o quadro é acompanhado, geralmente, de alterações físicas como distúrbios de sono, do apetite, da função sexual, perda ou ganho de peso e retardo ou agitação psicomotora. É freqüente a ocorrência de outros sintomas físicos, tais como, obstipação intestinal, indigestão, urgência miccional, dificuldade respiratória e dor.

Nesse contexto, o acidente de trabalho, apesar de poupar o indivíduo de condições que geram ansiedade e insatisfação, o coloca em situações de perdas: perda salarial, afastamento do convívio com os colegas de trabalho (separação social), sentimento de inutilidade e conflitos familiares, além de outros sintomas.

 

Justificativa e objetivo

Observando a realidade de trabalhadores atendidos no INSS e na Clínica, verificamos uma elevada incidência de afastamento por acidente de trabalho. Com base na teoria estudada e na realidade vivenciada até então, perguntamos: será que o afastamento por acidente de trabalho ocasionaria transtornos psíquicos e somáticos em trabalhadores?

O presente trabalho teve como perspectiva pesquisar se as situações de afastamento do indivíduo por acidente de trabalho desencadeariam no trabalhador transtornos psíquicos (ansiedade, depressão), transtornos somáticos e alterações nas relações sociais (família, amigos, etc.).

 

Matériais e Metódos

Sujeitos e instrumentos

Realizamos uma amostragem por conveniência com 16 sujeitos, utilizando um questionário semi-aberto, composto de 46 questões, divididas nos itens: dados de identificação, dados sobre afastamento por acidente de trabalho, anamnese física e emocional, família, relações sociais, situação financeira, situação religiosa e perspectiva futuras, incluindo questões tais como: tempo de afastamento por acidente de trabalho, alterações físicas e psíquicas relacionadas ao afastamento, além de perspectivas futuras em relação ao emprego.

Neste trabalho, foi usado o Inventário Ansiedade Traço-Estado proposto por Spielberger e colaboradores (1970). Esse inventário consta da aplicação de um formulário, procurando levantar dados sobre a percepção do paciente no que diz respeito a sua ansiedade. Cada escala é composta de vinte itens com uma variação de escores entre 20 no mínimo e 80 no máximo.

Também foi usada a Escala de Depressão de Lopez & Valverde, escala utilizada para quantificar a sintomatologia psicopatológica nos transtornos angustiosos e depressivos. Essa escala é composta de vinte e um itens com uma variação de escores de 20, no mínimo, a 100, no máximo.

Procedimentos

Num primeiro momento, o levantamento de dados foi realizado no período de abril a setembro no Instituto Nacional Seguro Social (INSS), agência de Assis/São Paulo, e num segundo momento a coleta foi realizada na Clínica Santa Marta durante o mês de outubro, devido à escassez na demanda de sujeitos no INSS, fazendo com que procurássemos a Clínica Santa Marta para completarmos o número de sujeitos e prosseguir com a pesquisa.

Os indivíduos foram consultados antes da aplicação do questionário sobre a viabilidade de participarem do estudo. Em caso de resposta afirmativa, foram aplicados os instrumentos citados anteriormente.

Análise Estatística

Utilizamos para análise estatística o teste não paramétrico de WILCOXON, para verificar se houve alterações somáticas significativas decorrentes do afastamento por acidente de trabalho. Um valor de p igual ou inferior a 0.05 foi considerado significativo. Os demais dados foram analisados qualitativamente.

 

Resultados e Discussões

O levantamento de dados foi realizado no período de abril a setembro no Instituto Nacional Seguro Social (INSS), agência de Assis/São Paulo, e na Clínica Santa Marta no mês de outubro. Participaram da coleta de dados dezesseis indivíduos com idades entre 23 (vinte e três) anos e 48 (quarenta e oito) anos, que eram submetidos à perícia médica durante o período de afastamento por acidente de trabalho.

Através do questionário, foi possível fazer algumas considerações a respeito dos sujeitos e do contexto no qual se inserem:

• Acompanhamento médico e atendimento.

• Relações familiares.

• Relações sociais.

• Associação entre ambiente social e ambiente familiar.

• Perspectivas futuras.

Quanto ao acompanhamento médico e atendimento, constatamos que, dentre os dezesseis entrevistados, onze estavam passando por acompanhamento fisioterápico; quatro estavam em atendimento com ortopedistas e um deles recebia acompanhamento com clínico geral. Faz-se necessário observar que todos os entrevistados recebiam acompanhamento médico/fisioterápico depois do afastamento, porém nenhum deles citou atendimento na área psicológica.

No que diz respeito às relações familiares, verificamos que de forma geral não ocorreram mudanças no comportamento familiar. Entretanto, de todos os entrevistados, dois disseram que esse comportamento melhorou e dois afirmaram que o mesmo piorou. Em relação ao convívio entre os membros da família e os sujeitos afastados, constatamos que as relações familiares após o afastamento permaneceram estáveis, ou seja, a família mostrou-se acolhedora em relação ao fato acidente-afastamento, proporcionando ao sujeito sensação de conforto perante o ocorrido.

No que se refere ao convívio com os amigos (relacionamento social), a maioria dos sujeitos relataram que não ocorreram mudanças nas suas relações com os amigos, alegando ser esta uma relação estável. Da mesma forma, o comportamento do sujeito afastado em relação aos seus amigos não apresentou alterações (agressividade e distanciamento). Alguns entrevistados relataram que o afastamento devido ao acidente ocasionou a perda de contato com o meio social no qual estavam inseridos, prejudicando suas relações.

Com base nos resultados acima, é possível estabelecer uma associação entre as relações familiares e sociais do indivíduo. Observamos que em ambos os ambientes houve acolhimento e compreensão em relação à ocorrência acidente-afastamento.

Apesar de os indivíduos receberem acompanhamento médico-fisioterápico, apoio e/ou acolhimento por parte de familiares e amigos, em todos os casos estudados os sujeitos não retornaram ao ambiente de trabalho devido à persistência da doença de que foram acometidos, ou desenvolveram alguma outra manifestação fisiopatológica que os impediam de retornar à empresa. Esses relatos corroboram com a explicação de Dejours (1987: 123) acerca da “Síndrome Subjetiva Pós-traumática”, que é caracterizada pela variedade de problemas funcionais, sem substrato orgânico, ou seja, nesse quadro ocorre a persistência anormal de um sintoma que apareceu depois do acidente.

Toda essa sintomatologia funciona como impedimento para o retorno ao trabalho. Nesse sentido, o acidente aparece como elemento desencadeador desse quadro, refletindo o caos encontrado na organização do trabalho.

Dessa forma, o trabalhador acidentado “percebe” o risco da sua tarefa e, excluído da ideologia ocupacional, enfrenta o perigo, o medo e a impotência que isso gera no cumprimento da tarefa. Assim, continuaria produzindo sintomas que caracterizariam a “Síndrome Subjetiva Pós-traumática”, para evitar o retorno ao trabalho.

Essa realidade faz com que o trabalhador procure caracterizar seu sofrimento mental, como o medo ou a ansiedade, como doença mental, já que somente a doença mental permitiria a aquisição de um estado de invalidez reconhecida pela organização do trabalho.

No que concerne às perspectivas futuras, a maioria dos entrevistados têm uma boa expectativa em relação ao futuro: esperam voltar ao emprego encontrando boas condições de trabalho e apoio por parte dos colegas e da própria empresa. Alguns dos entrevistados, apesar de saberem que o retorno à empresa ou ao trabalho poderia resultar no “desligamento” da mesma, conseguiram manter uma boa expectativa em relação ao futuro.

Entretanto, convém ressaltar que os sujeitos apresentam uma dinâmica psíquica que elabora mecanismos que permitem lidar com a situação de submissão à empresa, mantendo ao mesmo tempo o vínculo com o trabalho e com os amigos, evitando, assim, a situação de perda.

Quando avaliamos a anamnese física e emocional presente em um dos itens do questionário, constatamos através do teste não paramétrico de Wilcoxan que os sujeitos apresentaram um aumento significativo de sintomas após o afastamento por acidente de trabalho, o que pode ser verificado através da tabela 1.

Através dos gráficos 1 e 2, é possível observar o aumento de alterações gastro-intestinais (gastrite, falta de apetite, diarréia, obstipação intestinal) e de alterações gerais (perda de peso, cefaléia, hipersonia, cansaço, irritabilidade, impotência, alterações no ciclo menstrual), respectivamente, sendo essas alterações as mais freqüentes após o afastamento.

Alguns autores que observaram as respostas psicossomáticas na empresa afirmaram que as doenças psicossomáticas representam um mecanismo defensivo no qual o trabalhador converte o problema psicológico em fisiológico e que isso representaria a reação adaptativa à ansiedade experimentada no trabalho (Argyris, 1957).

Com base na aplicação das Escalas de Ansiedade e de Depressão, constatamos que na Escala Ansiedade Traço (EAT), que questiona como o indivíduo geralmente se sente, dentre os dezesseis avaliados, quinze apresentaram níveis elevados de ansiedade. Quanto à Escala Ansiedade Estado (EAE), que questiona como o indivíduo se sente num momento particular do tempo, dentre os dezesseis avaliados, onze apresentaram níveis elevados de ansiedade.

É possível perceber que, no primeiro caso, a maior parte dos indivíduos geralmente apresentam-se ansiosos, enquanto que, no segundo caso, os indivíduos estavam ansiosos devido ao contexto em que estavam vivendo (afastamento, acidente, perdas...). Apesar da nossa amostra ter sido pequena e nossos resultados apresentarem algumas limitações, parece estar ocorrendo uma tendência no que se refere a uma associação entre afastamento por acidente de trabalho e aumento da ansiedade. Nesse sentido, faz-se necessário um estudo mais acurado na investigação da relação entre afastamento e transtornos psíquicos. No entanto, no que diz respeito aos dados obtidos, podemos presumir que o acidente de trabalho seria uma forma inconsciente encontrada pelo trabalhador para evitar o conflito existente na relação homem-empresa, que produz no trabalhador estados de ansiedade e insatisfação.

Podem ocorrer processos de depressão e tensão nervosa quando o indivíduo não consegue a afirmação da personalidade no trabalho e alguns sintomas como a insônia, fadiga, úlceras e outras manifestações psicossomáticas poderiam revelar a existência desses processos (Friedmann, 1983).

Quando aplicamos a Escala de Depressão de Hamilton, que quantifica sintomas de transtornos angustiosos e depressivos, verificamos que, dentre os dezesseis sujeitos, sete apresentaram níveis elevados de sintomas depressivos. Nesse sentido, o acidente de trabalho, apesar de poupar o indivíduo de condições que geram ansiedade e insatisfação e colocá-lo em situações de perdas: perda salarial, afastamento do convívio com os colegas de trabalho (separação social), sentimento de inutilidade, conflitos familiares , além de outros sintomas, não favoreceu o aparecimento de sintomas de depressão acentuadamente (tabela 2).

Quanto aos tipos de acidente de trabalho, foram observadas maior ocorrência entre aqueles relacionados a quedas, seguidas de fraturas, e lesões como torsão de coluna (tabela 3).

Em relação ao período de afastamento, verificamos que houve maior incidência no período acima de 3 (três) meses (tabela 4).

 

Conclusão

É possível perceber que o afastamento por acidente de trabalho pôde ser considerado um estímulo estressor, pois além, de vários transtornos psíquicos provocou alterações orgânicas, conforme observado em nosso estudo.

Apesar de os indivíduos receberem acompanhamento médico-fisioterápico, apoio e/ou acolhimento por parte de familiares e amigos, em todos os casos estudados os sujeitos ainda não retornaram ao ambiente de trabalho devido à persistência da doença de que foram acometidos, ou desenvolveram alguma outra manifestação fisiopatológica que os impedem de retornar à empresa. Assim, os dados do estudo corroboram com a manifestação daquilo que Dejours denomina de “Síndrome Subjetiva Pós-traumática “, caracterizada por inúmeros problemas funcionais sem a presença de substrato orgânico ou pela permanência do sintoma manifestado após o acidente. Nesse sentido, os sujeitos em estudo continuaram produzindo sintomas para evitar o retorno ao trabalho.

 

Referências bibliográficas

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Endereço para correspondência
Elizabethe Cristina Borsonello,Leila Cristina dos Santos
Maria Luiza Gava Schmidt & Telma Gonçalves Carneiro Spera de Andrade
Rua Regente Feijó, 390 – Centro
19800-000 Assis - SP
E-mail: zafelis@hotmail.com

Recebido em 09/03/01
Aprovado em 20/10/01

 

 

* Discente do Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP
** Discente do Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP
*** Psicóloga, professora do Departamento de Psicologia Experimental e supervisora de estágios na área de Psicologia do Trabalho da UNESP – Assis, Mestre
****Enfermeira, professora do Departamento de Ciências Biológicas da UNESP - Assis.

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