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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.23 no.1 Brasília Mar. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932003000100009 

ARTIGOS

 

Os componentes do amor e a satisfação

 

 

José Augusto Evangelho HernandezI, 1; Ilka Maria Biasetto de Oliveira2

I Departamentos de Psicologia e Educação Física da ULBRA

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho tem como objetivo investigar as relações entre componentes do amor, a saber: dependência romântica, intimidade comunicativa, excitação física, respeito e compatibilidade romântica e a satisfação. A amostra constitui-se de 146 casais heterossexuais. Os instrumentos utilizados foram: Escala dos Componentes do Amor de Critelli et. al. e, para a satisfação, de Jemmott III et al. Os dados foram submetidos à Regressão Múltipla revelando que, entre componentes do amor, o que melhor se correlaciona com a satisfação, para homens e mulheres, é a intimidade comunicativa, seguido da excitação física. Componentes do amor se correlacionaram positivamente com satisfação das mulheres quando declarados em maior grau pelos homens.

Palavras-chave: Relacionamentos íntimos, Amor, Satisfação no amor.


ABSTRACT

Relations between love components were investigated: romantic dependence, communicative intimacy, physical excitement, respect and romantic compatibility and satisfaction in heterosexual couple members. It is a sample of 146 couples. Love Components Scale, by Critelli et. al. was used as an instrument. Also, it was used Jemmott III Scale et al. for satisfaction. The results were submitted to Multiple Regression, a stepwise method. It showed that the love component that best co-relates to satisfaction, for both men and women is communicative intimacy, followed by physical excitement. All components correlated positively with women`s satisfaction when they they showed in a larger scale by men.

Keywords: Close relationships, Love, Satisfaction in love.


 

 

Segundo Bystronski (1992, 1995), independentemente das variáveis histórico-sociais, é no âmbito das relações interpessoais que o homem vive suas mais fortes emoções, dentre elas o prazer decorrente do amor. Em um momento de mudanças, com a revisão de papéis sexuais e novas formas de arranjos entre as pessoas, dentre outras, em que as diretrizes dos relacionamentos estão vagas e indefinidas, faz-se necessário um esforço ainda maior para uma relação bem sucedida, não sendo fora de propósito pensar-se em indivíduos que desistiram das ligações afetivas.

No entanto, de acordo com a autora referida acima, as pesquisas demonstram que os relacionamentos íntimos satisfatórios estão identificados como a fonte mais importante de felicidade pessoal. Dessa forma, verifica-se uma necessidade de compreender os relacionamentos em seu processo de mudança, já que deles não se pode prescindir.

De acordo com Fromm (1966), pode-se distinguir dois tipos de amor: o verdadeiro amor, identificado como uma atividade, caracteriza-se por cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento; o falso amor, por sua vez, é baseado em submissão, passividade, dotado de contornos neuróticos. O amor como atividade é o amor maduro, que, levando a romper e superar o sentimento de isolamento, permite preservar a própria integridade e individualidade. Por trás do amor-passividade está a união simbiótica, em que a pessoa foge do sentimento de isolamento e separação tornando-se parte de outra pessoa, que a dirige e protege. Essa submissão implica em dependência e falta de integridade.

Maslow (1974) baseia sua teoria no aspecto precisar, enfatizando o amor como uma necessidade de algo a ser preenchido. Faz, entretanto, uma distinção entre dois tipos possíveis de amor: o primeiro, baseado nas necessidades de deficiência - “necessidades D”, que seriam as biológicas, de segurança, de amor e pertença, e relativas à auto-estima; o segundo, baseado nas necessidades relativas ao ser - “necessidades S”, quais sejam, as intelectuais, estéticas, de auto-realização. O “amor D” é autocentrado, egoísta, fragmentado. O “amor S” é altruísta, não possessivo, mais admirador, proporciona maior prazer e resulta na aceitação do próprio eu.

Dietch (1978), em estudo sobre o amor, papéis sexuais e saúde psicológica, encontrou dados que apontam para a existência de relação entre a auto-realização e o “amor S”. Quanto maior o nível de auto-realização de um indivíduo, maior sua capacidade de oferecer “amor S”. As mulheres, em relação aos homens, mostraram um nível mais elevado de “amor S”. Tal evidência, conforme o autor, se coaduna com os achados de Dion e Dion (1975) no sentido de que as mulheres demonstram atitudes de maior amor, apreço e confiança, e experienciam maior euforia do que os homens em relacionamentos amorosos. Por outro lado, o papel masculino estereotipado implica em proibição de um alto nível de expressão emocional, impedindo a capacidade masculina para o “amor S”.

Um dos marcos iniciais do estudo sistemático do amor consiste no trabalho de Rubin (1973), na exploração dos conceitos de gostar e amar, vistos de forma independente. A partir de tal estudo, o autor identificou como componentes do amor o precisar do outro, os cuidados para com ele e a presença da intimidade, envolvendo a confiança e a proximidade.

Quanto ao gostar, segundo Rubin (1973), comporta duas dimensões fundamentais: a afeição e o respeito. Afeição é o gostar baseado no experienciar o calor emocional e na proximidade à pessoa. Respeito, por sua vez, se baseia na admiração pelas características ou ações da pessoa. Trata-se de uma forma de gostar mais calma, distante.

Dentre os modelos que se propõem a explicar o amor, encontramos a teoria de Hatfield (1988), que distinguiu dois tipos de amor: apaixonado e companheiro. O amor apaixonado é descrito como um estado de intenso desejo de união com outra pessoa, cuja reciprocidade confere êxtase e realização, ao passo que uma separação é sentida como vazio, provocando ansiedade ou desespero. Trata-se de um profundo despertar fisiológico. Relaciona-se a uma variedade de emoções fortes, tanto negativas quanto positivas, que podem se apresentar de forma intercalada. O amor companheiro, por sua vez, caracteriza-se por um processo de aproximação entre os indivíduos, explorando suas semelhanças e diferenças na maneira de pensar, sentir e agir. Assim, os parceiros apresentam desejo de se revelar um ao outro compartilhando segredos, valores, fraquezas, esperanças. Também se verifica uma preocupação profunda e cuidados com o outro, bem como o conforto com relação à proximidade física.

Lee (1988) desenvolveu a teoria denominada As Cores do Amor, em que tenta explicar o amor através de uma analogia com as cores. Parte do pressuposto de que, assim como nas cores, no amor também encontramos diversas variações, ou love-styles, deslocando o foco da questão do quanto duas pessoas se amam para quais cores do amor produzem uma boa combinação. Assim, o autor define três estilos primários de amor, quais sejam: eros, baseado no amor erótico, que geralmente inicia com uma grande atração física, em que os sujeitos se guiam por um tipo de pessoa ideal, abrindo-se mutuamente para o conhecimento; storge, ou amor companheiro, em que a afeição e o compromisso se desenvolvem gradativamente, não possuindo o sujeito um tipo ideal, mas procurando conhecer outras pessoas que apreciem as mesmas atividades de seu interesse e com as quais pode se unir e ludus, em que o sujeito não possui qualquer tipo ideal, estando voltado para o prazer, o jogo sem compromisso. Os amantes lúdicos são pluralistas, mas costumam ser honestos quanto a isso.

Da combinação dos estilos acima decorrem novos tipos de amor, ou cores secundárias do amor. Mania (eros + ludus), que se caracteriza pela preocupação obsessiva com o ser amado, de forma ciumenta e possessiva, pragma (ludus + storge), baseado em interesses comuns, em que se valoriza a compatibilidade, e agape (eros + storge), amor altruísta, respeitoso, dedicado, desinteressado. Além desses, encontramos ainda tipos terciários de amor, como eros estórgico, eros ludus e ludus estórgico, provenientes da combinação de tipos primários e secundários.

Sternberg (1989) desenvolveu a denominada Teoria Triangular do Amor, que consiste, atualmente, em um dos mais completos estudos sobre o amor. Segundo o autor, três são os componentes do amor: intimidade, paixão e decisão/compromisso.

A intimidade refere-se aos sentimentos vivenciados dentro de uma relação que promovem o vínculo entre os membros do casal, distinguindo a presença de dez elementos: o desejo de promover o bem-estar da pessoa amada, o sentimento de felicidade junto a ela, o respeito por ela, a capacidade de contar com a pessoa amada em momentos de necessidade, o entendimento mútuo que se estabelece entre os parceiros, entregar-se e dividir as posses com o parceiro, receber apoio emocional da pessoa amada, prover-lhe apoio, comunicar-se intimamente com ela e valorizá-la.

A paixão consiste, em grande parte, na expressão de desejos e necessidades, tais como necessidades de auto-estima, entrega, submissão e satisfação sexual.

O componente decisão/compromisso tem dois aspectos, um a curto e outro a longo prazo. O aspecto a curto prazo é a decisão de amar outra pessoa, ao passo que o de longo prazo é o compromisso em manter esse amor. Tais aspectos não ocorrem, necessariamente, de modo simultâneo. A decisão de amar não implica em estabelecer um compromisso por esse amor, bem como o inverso também é possível, como quando o compromisso por uma relação se estabelece sem o acordo de um dos parceiros, casos de matrimônios arranjados, por exemplo. No entanto, ainda que a decisão/compromisso possa carecer da carga de intimidade e paixão, é o componente que, em última instância, mantém a relação.

A partir da combinação desses três componentes, Sternberg (1989) caracteriza diversos tipos de amor que podem ocorrer. Assim, presente somente o componente intimidade, o amor se caracterizará pelo carinho, sem a paixão ou comprometimento, situando-se muito próximo à amizade. A presença exclusiva do componente paixão, por sua vez, dá origem a uma relação em que predomina o alto grau de despertar psicofisiológico, podendo tanto surgir como se dissipar instantaneamente. O amor baseado somente no elemento decisão/compromisso é o denominado amor vazio, que pode ser visto naquelas relações em que a intimidade e a atração física já deixaram de existir.

Finalmente, encontramos o modelo de Critelli, Myers e Loos (1986), cuja escala dos componentes do amor é utilizada na presente pesquisa. Segundo os autores, podem ser identificados cinco componentes do amor, quais sejam:

Dependência romântica, caracterizada pela crença em ideais românticos, com ênfase na importância do relacionamento, no quanto o parceiro é necessário e na exclusividade do amor, estando a felicidade do indivíduo na dependência do relacionamento com o parceiro. Esse componente encontra-se relacionado pelos autores basicamente ao falso amor de Fromm(1966) e às “necessidades D” de Maslow,(1974) apesar de envolver alguns aspectos concernentes ao sentimento de responsabilidade pelo bem-estar do parceiro (amor maduro). Os autores salientam, ainda, a presença, nesse componente, dos três itens identificados por Rubin(1973) em sua concepção de amor romântico: necessidades afiliativas e de dependência, predisposição à ajuda e exclusividade e absorção pelo parceiro.

Intimidade comunicativa, componente que enfatiza o sentimento de ser compreendido, participar de um relacionamento sólido, sendo realmente capaz de se comunicar e confiar no parceiro. Esse componente, conforme expõem os autores, identifica-se com o amor genuíno de Fromm, as “necessidades B” de Maslow (1974) e, ainda, com o amor conjugal de Driscoll et al. (1972).

Excitação física, item que se relaciona ao estar romântica e sexualmente excitado, apaixonado e fisicamente atraído pelo parceiro.

Respeito, que inclui muitos dos itens da escala do “gostar” de Rubin(1973), enfatizando as concepções de um parceiro maduro, bem ajustado, recomendável e que usufrui um bom conceito.

Compatibilidade romântica, resultado da combinação dos ideais românticos enfatizados na dependência romântica e a interação harmoniosa, a compatibilidade de humor, a satisfação total e o contentamento dos parceiros. Deve ser salientado que, na escala dos autores, os ideais românticos são expressos em itens que soam de forma um tanto irrealista, o que, não obstante, parecem ser aspectos do amor bastante importantes para alguns casais.

O grau de satisfação de um indivíduo com o seu relacionamento consiste, segundo Bystronski (1995), em uma função da avaliação subjetiva que possa fazer sobre a qualidade do mesmo. Tal qualidade, segue a autora, está relacionada com os resultados obtidos a partir da relação (positivos ou negativos), o nível de comparação entre os resultados da relação e o padrão interno de satisfação. Esse padrão varia conforme as experiências passadas da pessoa. Assim, na medida em que tenha se acostumado a obter resultados bastante satisfatórios em suas relações, o indivíduo apresentará, em conseqüência, um nível de comparação alto, esperando engajar-se em relacionamentos nos quais os benefícios superem os custos.

Outro fator mencionado pela autora como influente na avaliação da satisfação é a eqüidade. Assim, uma relação percebida como eqüitativa em termos de custos e benefícios tende a ser avaliada como mais satisfatória, na medida em que os sentimentos, normalmente indesejados, de explorar ou ser explorado não estariam presentes.
Hendrick e Hendrick (1997) sustentam que a satisfação é um dos diversos termos empregados para descrever o julgamento sobre um relacionamento íntimo. Os autores salientam que a perspectiva de satisfação abrange o sentimento subjetivo de uma pessoa sobre o seu relacionamento, ao passo que a perspectiva do ajustamento estaria mais relacionada com os comportamentos realmente verificados em um relacionamento, sendo melhor expressada pelo termo “funcionamento” da relação.

Sternberg (1989) enfatiza que, ainda que as relações românticas envolvam dois indivíduos de carne e osso, também podem estar envolvidos outros indivíduos, quais sejam, os companheiros ideais de cada um. A felicidade e a satisfação de um dos parceiros na relação poderá ver-se significativamente afetada por uma mera invenção da imaginação, seja esta uma versão “hollywoodiana” de perfeição ou uma expectativa baseada no presente e nas experiências passadas de uma pessoa.

Ainda segundo Sternberg (1989), deve-se levar em conta que a felicidade de uma pessoa dependerá da medida em que a relação na qual está envolvida supere ou não o seu nível de comparação, ou seja, aquilo que espera de uma relação segundo sua experiência no passado. Tal noção pode ser ampliada para o seguinte raciocínio: em primeiro lugar, define-se o nível de comparação para o presente, propósito não somente como representativo do nível médio de amor que essa pessoa tenha experimentado em relações anteriores, como também o seu ideal realista para as relações presentes e futuras, ou seja, o ideal possível para a sua vida. Em segundo lugar, inclui-se não somente o ideal do que um indivíduo gostaria realmente de sentir por outro, mas também o ideal do que gostaria que o outro sentisse por si. Desse modo, para cada membro de um casal podemos observar o que um sente realmente pelo outro, o que cada um gostaria idealmente de sentir pelo outro, o que cada um percebe que o outro sente por ele e como cada um gostaria, idealmente, que o outro sentisse por ele.

Segundo o autor acima, o importante não é tanto o que um sente pelo outro ideal, senão a diferença entre o que sente pelo outro ideal em contraposição ao que sente pelo outro real. Em outras palavras, o importante não é somente o que um deseja idealmente, mas a diferença entre o que deseja e o que sente que obtém.

Considerando se a visão do que o outro sente é importante para a satisfação, e se é tão importante como os próprios sentimentos em relação ao outro, tem-se, conforme o autor, que são ambos importantes. O que um dos membros do casal crê que o outro sente por ele é tão importante como o que um sente pelo outro. Nesse ponto, faz-se um questionamento: até que ponto são importantes os sentimentos reais da outra pessoa em contraposição à própria percepção desses sentimentos?

As diferenças percebidas predizem melhor a satisfação que as diferenças reais. Com efeito, depois de considerar o que uma pessoa crê que a outra sente, o que essa última realmente sente não produz diferença quanto à satisfação, ou seja, a própria percepção dos sentimentos da outra pessoa são mais importantes para a satisfação do que os sentimentos reais. A melhor forma de predizer a satisfação dentro de uma relação, portanto, consiste em achar a diferença entre o que uma pessoa espera da outra e aquilo que essa pessoa pensa que está recebendo (Sternberg, 1989).

Shackelford e Buss (1997) sustentam que, sob uma perspectiva psicológica evolutiva, a satisfação ou insatisfação conjugal podem ser vistas como estados psicológicos que trilham os benefícios e custos globais associados a uma união marital em particular. Uma aliança conjugal é uma união reprodutiva forjada por aproximadamente todos os homens e mulheres ao redor do mundo. O casamento implica vários e variados desafios adaptativos, alguns específicos a determinado sexo, mas muitos deles enfrentados tanto por homens quanto por mulheres. Tais problemas adaptativos não são estáticos, mas mudam conforme o contexto flutuante que se verifica ao longo do casamento. É o contínuo sucesso na resolução dos problemas adaptativos que produzem estados de relativa satisfação marital, felicidade e contentamento.

Para os autores acima, através das culturas, as mulheres costumam valorizar capacidades aquisitivas e de trabalho e ambição em um esposo potencial. Já para os homens, a valorização maior recai na capacidade reprodutiva de uma esposa potencial, avaliada mediante critérios de juventude e atratividade física. Ambos os sexos, contudo, valorizam a inteligência, a generosidade e a confiabilidade no parceiro, mais do que quaisquer outros atributos.

Em uma perspectiva evolutiva, os autores predizem que a discrepância do valor dos parceiros está associada a uma insatisfação em ambos os membros do casal, produzindo ansiedade no parceiro menos valorizado quanto à possibilidade de que seu esposo ingresse em ligações extramaritais, em busca de alguém de valor comparável. O esposo de maior valor, por sua vez, também poderá expressar insatisfação, na medida em que os benefícios recebidos podem ser menores do que os custos de permanecer em uma relação, excluindo as possibilidades de outros relacionamentos possíveis.

Os autores, contudo, salientam que, quanto maior a discrepância quanto à valorização do parceiro, maior a insatisfação para os homens, mas não para as mulheres, em seus casamentos, não se encontrando bem esclarecidas, no entanto, as razões de tal diferença.

Assim, frente ao apanhado teórico acima, coloca-se o seguinte problema: como são as relações entre os componentes do amor, percebidas por membros de casais, e a satisfação com o relacionamento?

Para responder a essa indagação, lançaram-se as seguintes hipóteses: H0 - Não existe relação entre os componentes do amor e a satisfação no relacionamento amoroso de casais heterossexuais; H1 - Quando a medida de dependência romântica das mulheres for superior à dos homens, haverá um aumento de satisfação para as mulheres; H2- Quando a medida da intimidade comunicativa for elevada para homens e mulheres, haverá um aumento de satisfação para ambos; H3 - Quando a medida da excitação física dos homens for superior à das mulheres, haverá um aumento de satisfação para os homens; H4 - Quando a medida do respeito das mulheres for superior à dos homens, haverá um aumento de satisfação para as mulheres; H5 - Quando a medida de compatibilidade romântica for elevada para homens e mulheres, a medida de satisfação também será elevada para ambos.

 

Metodologia

Amostra

Os dados dos casais foram coletados em diversas situações: no dia em que foram à escola receber o boletim de notas dos filhos; em reuniões de casais em associações comunitárias, em campus universitário, em praças públicas, em shopping centers e nas próprias residências. Todos os dados foram recolhidos na região metropolitana de Porto Alegre/RS. Os casais que compõem esta amostra foram designados através de uma técnica não-probabilística, amostragem por conveniência ou acidental. Diversos casais foram desprezados por falta de inúmeros dados nos questionários. Foram aproveitados 146 casais, sendo 98 casados, 4 companheiros, 8 noivos e 36 namorados. A idade dos sujeitos variou de 15 a 74 anos, com média de 36 anos. O tempo de relação variou de 1 mês a 504 meses (ou 42 anos), com média de 147 meses (ou 12 anos). 41 casais não residem juntos e 105 residem juntos. 143 casais declararam que praticam sexo juntos e apenas 3 casais declararam não praticar sexo juntos. O número de filhos variou de 0 a 8. 71 casais não possuem filhos e 75 possuem. A escolaridade variou do 1º ao 4º graus: 15 pessoas possuem o 1º grau, 110 pessoas possuem o 2º grau, 151 pessoas possuem o 3º grau e 2 pessoas o 4º grau.

Instrumentos

Dois instrumentos foram utilizados: um referente aos componentes do amor e outro à satisfação. O instrumento adotado para medir a intensidade dos componentes do amor foi o dos pesquisadores Critelli et al. (1986), que é constituído de cinco subescalas: dependência romântica, intimidade comunicativa, excitação sexual, respeito e compatibilidade romântica. Cada subescala contém 7 itens, computando um total de 35 itens. Pontuações elevadas em cada uma das subescalas indicam a presença preponderante do componente respectivo naquele determinado relacionamento, conforme percepção do sujeito respondente. A opção por esse instrumento se deu a partir de seu elevado grau de confiabilidade, conforme investigação levada a efeito pelos próprios autores do instrumento (Critelli et al., 1986), que encontraram uma consistência interna representada pelo alpha de Cronbach de .90, .88, .86, .83 e .69 para homens, e .92, .87, .83, .78 e .73 para mulheres, referentes à dependência romântica, intimidade comunicativa, excitação física, respeito e compatibilidade romântica, respectivamente. Para verificar a intensidade da satisfação, foi utilizado o instrumento proposto por Jemmott III et al. (1989), composto de dois itens, que foi adotado tendo em vista sua confiabilidade, representada pelo coeficiente alpha de Cronbach de .88 (Anexo 2). Esse mesmo instrumento foi utilizado por Serrano e Carreño (1993) e Carreño e Serrano (1995) por apresentar um coeficiente de confiabilidade considerável com somente duas perguntas e por sua adequação a todo tipo de casal, independentemente do status legal. Ambos os instrumentos apresentam cinco graus de resposta, conforme a intensidade do sentimento vivenciada pelo respondente, em escala do tipo Likert. Para o questionário dos componentes do Amor, o nº 1 refere-se a “nada verdadeiro” e o nº 5 a “totalmente verdadeiro”. No questionário da satisfação, para a 1ª questão o nº 1 indica “nada gratificante” e o nº 5, “totalmente gratificante”, e, para a 2ª questão, o nº 1 indica “nada satisfeito” e o nº 5, “totalmente satisfeito.”

Análise dos dados

Para o processamento das respostas, foi montado um banco de dados no programa SPSS, digitando-se os escores constantes dos questionários. Foram utilizadas as técnicas estatísticas Coeficiente de Correlação de Pearson, Análise de Variância e Análise de Regressão Múltipla para analisar os dados. Os resultados foram analisados mediante o pacote estatístico SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 7.5.2.

 

Resultados

No estudo atual, o alpha de Cronbach foi de .96 para a escala integral, para a subescala compatibilidade romântica foi de .77, para a subescala dependência romântica foi de foi de .91, para a subescala respeito foi de .90, para a subescala excitação física foi de .91 e para a subescala intimidade comunicativa foi de .91.

Sujeitos homens

 

 

Conforme a tabela acima, o modelo 1 é o que melhor se ajustou para predizer a satisfação. A variável independente melhor preditora da satisfação foi a intimidade comunicativa, a qual explicou 32% da variância compartilhada com a satisfação. No segundo modelo ajustado, aparece a variável excitação física precedida da intimidade comunicativa. O modelo 2 explicou 33% da variância compartilhada com a satisfação. Portanto, a inclusão da variável excitação física acrescentou apenas 1% de variância explicada.

Sujeitos mulheres

 

 

Observando a tabela acima, novamente a variável independente intimidade comunicativa foi a melhor preditora da satisfação, explicando 56% da variância compartilhada. Nos modelos subseqüentes, acrescentou-se, respectivamente, a excitação física, o respeito e a dependência romântica, e a variância compartilhada elevou-se para 68%, resultando, portanto, em um acréscimo desses três componentes em apenas 12% da mesma.

Seguindo a técnica estatística do coeficiente de correlação de Pearson, levando-se em conta a variável diferença entre a percepção de cada componente, individualmente considerado, declarada pelo homem e pela mulher, e a satisfação, encontraram-se os seguintes resultados:

a) Componente dependência romântica: quando a dependência romântica das mulheres é maior ou igual à dos homens, existe uma relação (r = - 0,43) com a satisfação dos homens, ou seja, quanto maior essa diferença, menor a satisfação dos homens. Não há relação com a satisfação das mulheres. Quando a dependência romântica das mulheres é menor ou igual à dos homens, existe uma relação (r = 0,64; p = 0,000) com a satisfação das mulheres, ou seja, quanto maior essa diferença, maior a satisfação. Não há relação com a satisfação dos homens.

b) Componente intimidade comunicativa: quando a intimidade comunicativa das mulheres é maior ou igual à dos homens, existe uma relação (r = -0,36; p = 0,000) com a satisfação dos homens, ou seja, quanto maior essa diferença, menor a satisfação dos homens. Não existe relação com a satisfação das mulheres. Quando a intimidade comunicativa das mulheres é menor do que a dos homens, existe uma relação (r = 0,57; p=0,000) com a satisfação das mulheres, ou seja, quanto maior essa diferença, maior a satisfação. Não há relação com a satisfação dos homens.

c) Componente excitação física: quando a excitação física das mulheres é maior ou igual à dos homens, não existe relação com a satisfação das mulheres e dos homens. Quando a excitação física das mulheres é menor ou igual à dos homens, existe relação (r = 0,37; p = 0,002) com a satisfação das mulheres, ou seja, quanto maior essa diferença, maior a satisfação da mulher. Não há relação com a satisfação dos homens.

d) Componente respeito: quando o respeito das mulheres é maior ou igual ao dos homens, existe uma relação (r = -0,26; p = 0,009) com a satisfação dos homens. Ou seja, quanto maior essa diferença, menor a satisfação. Não há relação com a satisfação das mulheres. Quando o respeito das mulheres é menor do que o dos homens, existe uma relação (r = 0,60; p = 0,000) com a satisfação das mulheres, ou seja, quanto maior esta diferença, maior a satisfação. Não há relação com a satisfação dos homens.

e) Componente compatibilidade romântica: quando a compatibilidade romântica da mulher se revela maior ou igual a do homem, não existe relação com a satisfação dos homens e das mulheres. Quando a compatibilidade romântica da mulher é menor do que a do homem, existe uma relação (r = 0,46; p = 0,000) com a satisfação das mulheres, ou seja, quanto maior for esta diferença, maior a satisfação das mulheres. Não há relação com a satisfação dos homens.

 

Discussão

Os resultados deste estudo demonstraram que, dentre os componentes do amor estabelecidos por Critelli et al (1986), a intimidade comunicativa é o preditor de satisfação mais significativo, tanto para os homens quanto para as mulheres, da amostra estudada, confirmando H2.

Esse componente, conforme Critelli et al. (1986), baseia-se na compreensão, confiança e comunicação entre o casal, encontrando-se identificado com o amor genuíno, de Fromm, e o “amor S”, de Maslow (1974).

Driscoll et al. (1972) distinguem amor romântico de amor conjugal. O primeiro, baseado em necessidades afiliativas e de dependência, paixão, idealização, absorção e exclusividade; o segundo, baseado em confiança, tolerância a críticas, troca, conhecimento genuíno do parceiro. Este último, caracterizado como amor maduro, é o que prevalece como maior propiciador de satisfação neste estudo, na medida em que seus elementos estão na origem do componente intimidade comunicativa.

O amor apaixonado, descrito por Hatfield (1988) como aquele em que os indivíduos experimentam um intenso desejo de união, em que podem se intercalar sentimentos de êxtase e realização com ansiedade e desespero conforme a proximidade ou separação dos parceiros, identifica-se com o componente da dependência romântica de Critelli et al. (1986). Como se pode observar dos resultados apresentados, tal componente não se correlacionou positivamente com a satisfação dos homens e, par as mulheres, foi o preditor mais fraco da mesma. Já o amor companheiro, definido pela autora acima como peculiar a um tipo de relacionamento em que os parceiros apresentam desejo de autorevelação, de compartilhar segredos e valores, e que se identifica com o componente intimidade comunicativa, se correlacionou positivamente com a satisfação, para ambos os sexos.

Segundo Peele (1988), o amor pode ser visto como hábito, na medida em que os parceiros não possam ver nada além de um ao outro, e a relação contenha aspectos destrutivos, de sofrimento, sendo sua manutenção vista como uma questão de segurança, muitas vezes impedindo outras fontes de satisfação. O hábito, segue o autor, é o oposto do amor, o qual deve basear-se em confiança, ajuda, aceitação, envolvendo o prazer, a valorização do outro e de si mesmo. Esse entendimento vem ao encontro dos resultados obtidos nesta pesquisa, na medida em que tais aspectos do amor, tido como verdadeiro pelo autor acima, abrangem os elementos que caracterizam a intimidade comunicativa, maior preditor de satisfação para os casais desta pesquisa.

Branden (1988) enfatiza algumas necessidades implicadas na relação amorosa, dentre elas a de companhia humana, alguém para compartilhar valores, sentimentos, interesses e objetivos, bem como de suporte emocional, tendo alguém devotado a nosso bem-estar, um aliado face aos desafios da vida, e a de autoconsciência e autodescoberta, que se obtém mediante o processo de intimidade e confrontação com outro ser humano. A satisfação de tais necessidades, que encontram sua melhor tradução no componente intimidade comunicativa, foi vista, neste trabalho, como muito valorizadas e promotoras de satisfação para o casal.

A intimidade comunicativa contempla, por outro lado, a boa capacidade de comunicação e a similaridade entre os membros do casal, itens reconhecidos por Whisman (1997) como determinantes de satisfação em relacionamentos íntimos.

Acrescente-se, ainda, no que diz respeito à comunicação, conforme Feeney et al. (1997), que esta consiste em elemento de grande importância para a satisfação, na medida em que é a partir dela que as relações são construídas e mantidas, e mediante a qual se resolvem as diferenças. Mais uma vez, portanto, os achados desta pesquisa encontram sustentação na teoria.

No que diz respeito à teoria triangular do amor, Sternberg (1989) enfatiza a intimidade como o maior preditor de satisfação, o que restou confirmado por Serrano e Carreño (1993), emconsonância com o que foi levantado neste estudo, tendo em vista que os elementos que compõem a intimidade comunicativa estão contemplados no componente intimidade daquele teórico. Destacase, novamente, a importância da comunicação e da auto-exposição dos membros do casal no desenvolvimento da intimidade (Serrano e Carreño, 1993).

Deve ser destacada, ainda, a importância para a satisfação nos relacionamentos íntimos da capacidade de auto-revelação e a existência de uma auto-estima positiva (Hendrick, 1981; Napoli et al., 1985) que se encontra na base da intimidade, elemento de maior valorização pelos casais deste estudo, e, por conseqüência, ponto crucial para o desenvolvimento de relações saudáveis.

Quanto à excitação física, tem-se que contribui, ainda que em uma medida mais discreta, para a satisfação tanto dos homens quanto das mulheres que compõem a amostra deste trabalho. Tal achado está de acordo com Sternberg (1989) na medida em que a paixão, na qual está inserido o despertar sexual, ocupa o segundo lugar na predição da satisfação, assim como em Lee (1988), encontramos em eros - estilo que valoriza a atração física - o maior preditor de satisfação.

Já nos estudos de Hendrick e Hendrick (1997) e Hendrick, Hendrick e Adler (1988), encontramos em eros - estilo que valoriza a atração física - o maior preditor de satisfação. Nesse último trabalho, é importante salientar que a amostra consistia de indivíduos jovens e com pouco tempo de relacionamento, ao passo que, na amostra do presente trabalho, a média de idade dos sujeitos é de 36 (trinta e seis) anos, e o tempo médio foi de 12 anos de relacionamento. É possível sugerir, assim, que, sendo a paixão um componente de maior relevância no início do relacionamento, tendendo a arrefecer com o passar do tempo (Murstein, 1988), passe a ocorrer uma maior valorização dos aspectos da intimidade, que se tornam mais significativos para a satisfação do casal.

Quanto às diferenças entre os auto-relatos de homens e mulheres, e sua repercussão para a satisfação, vários aspectos merecem ser abordados.Inicialmente, no que diz respeito à dependência romântica, como já salientado acima, esta consiste no preditor de satisfação de menor relevância para as mulheres, e não se correlaciona, em nenhuma medida, com a satisfação dos homens.

Quando sua medida for superior para as mulheres, implica em um decréscimo de satisfação para os homens, denotando o quanto os aspectos de que se reveste este componente não são valorizados pelos homens. Ou seja, esse resultado sugere que as necessidades afiliativas e de dependência, a absorção da parceira, não promovem a satisfação para o homem. Com efeito, trata-se de um tipo de amor baseado nas “necessidades D”, de Maslow (1974), e no falso amor, de Fromm(1966), e que, em alguma medida, se assemelha ao amor visto como hábito (Peele, 1988).

Saliente-se que a dependência romântica apresenta similitude com o estilo mania (Lee, 1988), na medida em que ambos se caracterizam com uma preocupação excessiva com o ser amado e possessividade. Conforme estudos de Martin et al. (1990), esse estilo, quando verificado na mulher, revelou-se preditor negativo de felicidade conjugal para o homem.

De outra parte, verificou-se que, quando esse componente se apresentar mais elevado nos homens, resultará em um aumento de satisfação para as mulheres. Pode-se depreender, por um lado, que as mulheres visualizem nesse tipo de amor uma fonte de gratificação e segurança, na medida em que implique um maior envolvimento por parte do homem na relação, provocando um aumento de satisfação para ela, em consonância com o entendimento esposado por Sternberg e Barnes (1985) e com um maior nível de exigência que apresentam na escolha do parceiro, de acordo com Botwin et al. (1997).

H1 , portanto, não se confirmou, tendo em vista que o aumento de dependência romântica para as mulheres não se correlacionou positivamente com sua satisfação, e, sim, com um decréscimo de satisfação para os homens.

Quanto à intimidade comunicativa, os resultados indicaram que, à proporção que sua medida aumente para as mulheres, uma diminuição de satisfação ocorre para os homens. Esse resultado sugere possíveis dificuldades por parte dos homens em perceber a comunicação como algo positivo na relação, costumando vislumbrá-la como um indicativo de problemas e enfraquecedor de relações (Feeney et al., 1997).

Já nos casos em que a intimidade comunicativa declarada pelos homens superou a das mulheres, um aumento de satisfação destas ficou caracterizado, indicando que as mesmas tendem a valorizar mais a comunicação e a apresentar maior necessidade de serem compreendidas (Feeney et al., 1997).

Também se pode inferir dos resultados referentes às repercussões para a satisfação das diferenças na percepção do componente intimidade comunicativa, em concordância com a lição de Clements et al. (1997), que a mulher costuma ser mais receptiva ao suporte e apoio provenientes do homem do que este em relação ao mesmo tipo de comportamento por parte da mulher. Dessa forma, conforme os autores, o apoio por parte do homem parece ser definitivo no relacionamento do casal, mais do que o apoio oriundo da mulher, corroborando com os resultados desta pesquisa. O aumento da medida da excitação física para as mulheres, por sua vez, não se correlaciona com a satisfação, seja dos homens, seja das mulheres. Já o aumento da mesma medida para os homens repercute em um aumento de satisfação para as mulheres. Nesse ponto, encontram-se subsídios nas formulações feitas por Shackelford e Buss (1997), segundo os quais a maior valorização da mulher se dá em virtude de sua juventude e atratividade física. Assim, pode-se supor que, preenchidos esses critérios, e mediante um aumento da excitação sexual masculina, a mulher se sentiria mais valorizada e, conseqüentemente, satisfeita com a relação. Acrescente-se, ainda, que esses resultados vão ao encontro dos desempenhos esperados pela cultura através do cumprimento de um papel de maior passividade e inibição dos desejos sexuais pela mulher, e uma maior expressão dos mesmos pelo homem (Oliveira, 1983).

Quanto ao componente respeito, na medida em que aumenta para as mulheres, aponta para uma diminuição de satisfação para os homens, ao passo que, quando for maior para os homens, os resultados indicam um aumento de satisfação para as mulheres. Esse resultado revela haver maior valorização do respeito por parte da mulher na relação, sendo maior fonte de gratificação para ela. O fato de ser respeitada pelo homem, em maior medida do que ela própria o respeite, direciona para um aumento em sua satisfação. Já no que se refere ao homem, sua satisfação diminui à medida que aumenta o respeito declarado pela mulher, indicando que quando é visto pela mulher com maior admiração, ajustamento e maturidade do que ele próprio nutre em relação a ela, ocorre uma diminuição em sua satisfação.

Nesse ponto, o ensinamento de Shackelford e Buss (1997) pode ser esclarecedor, na medida em que se entender que o componente respeito envolve diretamente a noção de valorização do parceiro. Segundo os autores, quando ocorre uma discrepância nesse sentido, resulta em uma maior insatisfação para os homens, o mesmo não sendo verdadeiro para as mulheres. Os próprios autores, contudo, reconhecem não estarem ainda bem esclarecidas as razões dessa diferença.

A compatibilidade romântica, componente que mescla aspectos de ideais românticos, compatibilidade de humor, similaridade de opiniões, não se correlacionou significativamente com a satisfação, nem para os homens, nem para as mulheres, rejeitando-se H5. No entanto,verificou-se que, na hipótese de se apresentar superior no homem, implica um aumento de satisfação para as mulheres.

A similaridade entre os membros do casal, conforme Whisman (1997), associa-se à grande satisfação do casal, o que pode ser estendido à semelhança de humor entre os parceiros. Por outro lado, as mulheres costumam valorizar a capacidade do homem em ser agradável e estável emocionalmente (Shackelford e Buss, 1997), elementos que estão implicados na compatibilidade romântica, através da declaração de que o outro satisfaça as necessidades de amor, afeto, segurança.

 

Conclusão

Os resultados deste estudo permitiram concluir que, nos dados da respectiva amostra, o componente do amor que maior satisfação proporciona em membros de casais consiste na intimidade comunicativa, confirmando a hipótese 2, seguida da excitação física, cuja participação revelou-se bem mais discreta.

Tratando-se da intimidade comunicativa, um componente que valoriza os aspectos de comunicação, compreensão, apoio e confiança, elementos consagrados pelos autores que se dedicam ao tema como promotores de relações sadias, fica evidenciada a importância desta pesquisa e sua contribuição para a atuação do psicólogo, fornecendo diretrizes para o atendimento de casais.

Por outro lado, é importante destacar que o modelo adotado nesta pesquisa mostrou-se mais eficaz na explicação da satisfação das mulheres, na medida em que, dos cinco componentes, quatro se correlacionaram com a satisfação, ao passo que, para os homens, somente dois.

Quanto aos resultados referentes à correlação entre diferenças de auto-relatos e a satisfação, proporcionaram considerações instigantes, sugerindo a necessidade de estudos mais aprofundados sobre o assunto, inclusive que levassem em consideração não somente a autopercepção, como também a percepção do outro, tanto real quanto ideal, sobre os componentes do amor, que certamente proporcionariam conclusões mais completas.

Torna-se necessário, assim, que novas pesquisas sejam realizadas, face aos inúmeros aspectos envolvidos neste tema. Poder-se-ia pensar, exemplificativamente, em amostras estratificadas em diferentes níveis sócio-econômicos, estudos longitudinais que possibilitassem o acompanhamento e desenvolvimento de casais e a flutuação da satisfação, estudos que correlacionassem os componentes do amor, a satisfação e papéis sexuais, dentre outros.

 

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Endereço para correspondência
José Augusto Evangelho Hernandez
Rua Dr. Ernesto Di Primio Beck, 240 Partenon
91510-490, Porto Alegre, RS, Basil
Fone: (51) 3336-2005
E-mail:hernandz@portoweb.com.br

Recebido 04/05/01
Aprovado 22/11/02

 

 

1 Mestre em Psicologia pelo Curso de Psicologia do Desenvolvimento da UFRGS, doutorando em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS e em Psicologia Social pela USC/ES e docente dos Departamentos de Psicologia e Educação Física da ULBRA/Canoas/RS.
2 Psicóloga pela ULBRA/Canoas/RS.

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