SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.30 special issueO dilema da Psicologia ContemporâneaEpistemology, History and further: reflexions on a personal story of life author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.30 no.spe Brasília Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S1414-98932010000500004 

NÚMERO ZERO

 

Concepção de pais um instrumento fatorial

 

 

Luiz Pasqual

Conselheiro Federal

 

 


 

CAPÍTULO I

Concepção de pais ideais

1. 1. Pais Reais e Pais Ideais.

A idéia e a realidade dos pais parecem ser uma presença indelével na experiência pessoal da totalidade dos seres humanos. De um ponto de vista físico, esta presença é um fato: todo ser humano tem um pai e uma mãe. Entretanto, de um ponto de vista psicológico, esta mesma presença pode oferecer os mais variados níveis de intensidade bem como de qualidade.

Existem, com efeito, seres humanos orfãos, cuja presença e experiência dos pais pode assumir variados graus, a saber, da ausência praticamente total de pai e/ou mãe e substitutos até níveis mais brandos de abandono. Para estes o conceito de pais se torna bastante relativo. Por outro lado, a presença dos pais não gera necessariamente um tipo único ou uniforme de experiência nos filhos. De fato, esta pode assumir os níveis mais dramáticos de caráter negativo, nefasto e punitivo até a experiência mais querida e desejável. Em suma, a experiência real dos pais importa numa gama variada de vivências nos filhos, dependendo tanto da presença física daqueles, bem como e sobretudo da qualidade e valor desta presença.

Como a experiência dos pais é normalmente original, isto é, atinge o ser humano nos seus primórdios de existência, ela deixa impressos nele muitos traços que apresentam mais tarde um caráter misterioso, indefinível, isto é, a experiência dos pais se torna protótipo e símbolo que vão ao encontro dos desejos e aspirações mais profundos deste mesmo ser humano. Esta asserção tem, além do caráter ontogenético, uma dimensão filogenética. A literatura da psicologia profunda, particularmente, tem feito estudos amplos e detalhados sobre este caráter simbólico e a relevância vital que os pais assumem na vida de qualquer pessoa. A ambiguidade profunda que existe na experiência dos pais por parte dos filhos gera nestes as expectativas mais diversas com relação aos mesmos e a medida diferente em que elas são realmente ou imaginariamente atendidas gera neles traços indeléveis que ditam o modo de como os pais e as outras pessoas serão mais tarde percebidas (Freud, 1923; Mitscherlich, 1969; Vergote, 1964).

Além da literatura propriamente psicanalítica, vários outros estudos, de caráter empírico, têm sido efetuados para verificar a problemática desta concepção simbólica dos pais (Custers e Pattyn, 1964; Bonami, 1966; Pasquali e Tamayo, 1967; Pasquali, 1970; Tamayo, 1970; Vergote et al., 1969).

Constitui objetivo do presente estudo estabelecer um perfil da concepção ideal dos pais para com ele se poder avaliar as discrepâncias e as semelhanças que com ele mantem o perfil da percepção dos pais reais de tipos diferentes de sujeitos, a saber, sujeitos de diferentes sexos, sujeitos normais, delinquentes, drogados, etc. Discrepâncias entre os dois perfis dos pais poderiam explicar talvez quantidade de problemas psicológicos e sociais de ajustamento das pessoas na sociedade moderna.

 

1.2. Os Pais Ideais.

A literatura empírica sobre o preserte tema tem descoberto já vários aspectos importantes e consistentes, ao que parece, referentes à concepção simbólica dos pais. Os estudos baseados na análise fatorial descobriram, com efeito, várias dimensões que parecem se apresentar invariantes através de cultura, idade, sexo e outras variáveis.

Pasquali (1970) verificou a presença de alguns fatores importantes nas concepções dos pais, entre jovens estudantes de nível secundário e universitário. O fator “intimidade”, por exemplo, congregando um conjunto de valores de caráter maternal, expressa atitudes de acolhimento, afiliação, amizade, ternura e proteção afetiva. Este fator representa, na realidade, a síntese das características maternais. Ele congrega os conceitos de segurança e proteção, particularmente segurança emocional, apoio e conforto afetivos. Encerra também as experiências de intimidade e aconchego que expressam amizade e calor humano, bem como as de cuidado maternal, solicitude e preocupação pelo outro Além disso, também os aspectos de sensibilidade, ternura e fragilidade emocionais entram neste fator. Por conter todos estes elementos, o fator foi interpretado como a manifestação dos desejos mais primordiais do ser humano, nos quais ele procura o retorno à situação paradisíaca da união de completa paz e tranquilidade que a mãe representa; ademais, ele expressaria também o conjunto de experiências que a criança necessita para desenvolver o que Erikson (1963) chama de confiança básica.

Um outro fator revelado por esta pesquisa é o de “autoridade” ou de “lei”. Este fator congrega particularmente as noções de discíplinador, juiz e legislador. No caso dos pais, ele enfatiza o aspecto do disciplinador, daquele que mantem a ordem, que vigia e corrige o comportamento humano. Quando aplicado ao conceito de Deus, este fator se divide em dois, um representando o disciplinador e outro expressando a autoridade que possui o direito de legislar e de julgar as ações dos homens. Estes fatores foram interpretados como expressando um caráter tipicamente paternal que contem os comportamentos e as atitudes singulares do pai pelos quais ele se torna o princípio que introduz a medida e a distinção na experiência originariamente amorfa da criança; a experiência nova que esta dimensão paternal introduz na criança seria responsável pela separação da mesma em relação à mãe, possibilitando assim o encaminhamento da criança a uma vida autônoma e independente na sociedade onde imperam as imposições de ordem ética, social e financeira.

Um terceiro fator, “autonomia”, se manifestou expressando conceitos de autonomia, isto é, comportamentos e atitudes de uma pessoa que pensa com a própria cabeça, que é autosuficiente no sentido de não necessitar nem proteção nem sustento dos outros, e que é líder, dando as ordens, tomando as decisões e a iniciativa. O fator expressa também os conceitos de ação e de dinamismo, do homem decidido e de ação, bem como o conceito de poder intelectual que manifesta habilidade para a solução de problemas e para a organização, assim como possuindo grandes conhecimentos das coisas e dos homens. O fator foi interpretado como expressando o homem capaz de se manter em seus próprios pés, de se sustentar com seus próprios recursos, não necessitando nem de proteção, sustento nem conselhos. Trata-se do homem independente e de ação, que não se deixa dominar; ao invés, ele domina as coisas, ele é o pioneiro que desbrava as fronteiras do espaço e do tempo.

Um quarto fator expressa o caráter de realismo e a atitude sistemática do pai enfrentar a realidade. Aqui o pai aparece como a pessoa que enfrenta a realidade concreta sem hesitação ou receio, mas antes com objetividade e decisão. Ele não procura fugir desta realidade; pelo contrário, ele a estuda em seus detalhes, sem precipitação ou envolvimento emocional, mas com confiança, firmeza, frieza e de um modo sistemático e persistente.

No trabalho de Tamayo (1970) também aparece uma série de fatores centrais que definem as figuras dos pais. E importante salientar que este estudo foi efetuado ém diversas culturas diferentes, contendo amostras de sujeitos da Bélgica, Estados Unidos da América, Filipinas, Zaire e da Colômbia.

Novamente aparecem dois fatores básicos já verificados na pesquisa acima relatada. Tratase do fator “lei” ou “autoridade” que expressa os mesmos conceitos de norma, disciplina e autoridade. Este fator parece expressar mais o conceito de autoridade e de juiz, particularmente no caso do pai. Dele se distingue um aspecto mais concreto de autoridade que se expressa no conceito de “disciplinador”, aparecendo como “lei” na figura da mãe, mas que na figura do pai se desmembra num fator especial diferente do de “lei”. Aliás, evento similar foi verificado na pesquisa de Pasquali (1970) com relação a este mesmo conceito de autoridade, o qual se desmembra em dois na figura de Deus, a saber, “autoridade” e “disciplinador”.

O segundo fator central que aparece na pesquisa em pauta é constituído por uma série de características normalmente atribuídas à mãe. Ele concentra os conceitos que na nossa pesquisa anterior são expressos sob o fator de “intimidade”.

Um terceiro fator aparece (“mediadora” na mãe e “o grande homem” no pai) combinando os conceitos de autoridade e de ação. Este caracteriza os pais como pessoas de firmeza, iniciativa e dinamismo. Parece novamente que este fator representa basicamente o que foi definido na pesquisa anterior sob o nome de “autonomia”.

Vários outros fatores menores são descritos; particularmente interessante é a tentativa de estruturação de um fator de “proteção”, expressando conceitos de acolhimento e apaziguação. Este mostra uma pessoa que cerca o outro com seus braços para dar-lhe abrigo e conforto físicos e afetivos.

Estes dois estudos, bem como vários outros antes deles (Pattyn e Custers, 1964; Bonami, 1966; Pasquali e Tamayo, 1967; Vergote e Aubert, 1972) mostraram ainda haver diferenças marcantes na concplexidade e no caráter simbólico dos conceitos dos pais. Com efeito, a figura do pai aparece sempre mais complexa que a da mãe, integrando maior variedade de dimensões. No seu caráter simbólico, o conceito de mãe tende a expressar a presença imanente, a intimidade profunda no ser humano e o se sentir bem (segurança, paz, etc), ao passo que o conceito de pai enfatiza precisamente o oposto, isto é, a distância, a renúncia e o dever (norma, lei, etc.) sem com isso negar aquela presença materna. É uma questão de ênfase.

 

CAPÍTULO II

Metodologia

O presente estudo visou validar um instrumento fatorial de medida de atitudes em relação aos pais concebidos em seu valor ideal, bem como estabelecer os perfis fatoriais que expressam a percepção dos filhos em relação ao pai e à mãe ideais.

2.1. Construção da Escala.

2. 1. 1. Construtos e propriedades.

Inicialmente era necessário precisar o que o futuro instrumento pretendia medir. Tratava-se da construção de um instrumento capaz de medir as atitudes dos filhos em relação aos pais. Em primeiro lugar, os pais em questão são os pais ideais, a saber, os pais que os filhos gostariam de ter ou os pais que eles achariam perfeitos como pais; a percepção dos filhos não se refere, portanto, a seus pais reais, mas àqueles que eles almejariam ter. Em segundo lugar, só entram em questão os comportamentos e as atitudes que os pais poderiam assumir em relação aos filhos ou que teriam influência sobre a vida ou percepção destes, ficando, por isso mesmo, geralmente excluídos comportamentos e atitudes que os pais possam manifestar em relação a outras pessoas ou situações que não envolvam os filhos.

Além disso, tratava-se de percepções que filhos têm dos pais ideais. Por conseguinte, o respondente deveria poder se por numa atitude de filho em relação à figura sobre quem opinaria.

2.1.2. Dimensões dos construtos pai e mãe.

A literatura que serviu de base para a construção do presente questionário é resultante principalmente das pesquisas realizadas no “Centre de Psychologie de Ia Religion” da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica. Várias obras surgiram dali as quais possuem relação com o presente estudo. Devem-se destacar dois trabalhos de construção de escala de atitudes para belgas, um em flamengo (Custers e Pattyn, 1964) e outro em francês (Bonami, 1966). Dois outros trabalhos adaptaram este instrumento belga para a cultura norte-americana (Pasquali e Tamayo, 1967) e para várias outras culturas, inclusive africana e asiática (Tamayo, 1970). Outra pesquisa (Pasquali, 1970) procurou reelaborar o instrumento para ampliar-lhe o conteúdo e adaptá-lo melhor à cultura norte-americana, fazendo uso de ampla literatura psicológica e sociológica dos Estados Unidos da América sobre a família e os pais. Além destas pesquisas, devem ser mencionados os trabalhos do professor Vergote (1964; 1966; Vergote et al., 1966; 1969), bem como as pesquisas de Spilka et al. (1964), Hunt (1967), Gorsuch (1968) e de Glock(1972).

Desta literatura foram extraidas as dimensões seguintes nas figuras dos pais:

01. Intimidade e ternura: um fator que expressa toda a gama de características de uma mãe em relação ao filho. Por isso este fator é conhecido sob vários nomes, como o de preocupação pelo filho, afeto, ser-para-o-outro, calor humano, receptividade, amor, amizade, auto-doação, mediador, proximidade, e outros.

02. Proteção: fator que cobre os comportamentos e as atitudes de providenciar segurança física e afetiva aos filhos, como alimentar, salvaguardar, consolar, defender.

03. Autoridade: conceito combrindo os comportamentos e atitudes dos pais referentes à manutenção da ordem e da disciplina, de estabelecer normas e leis de conduta, bem como de julgar as ações dos filhos.

04. Sabedoria: fator que revela os conceitos de poder intelectual, capacidade de resolver problemas e situações difíceis, habilidade de organização mental, grande conhecimento das coisas e dos homens, mente examinadora e sistemática.

05. Realismo: especialmente no pai, este fator cobre os comportamentos e as atitudes que caracterizam os pais por uma visão objetiva da realidade concreta, física e social; representa a conduta da pessoa que tem os pés na terra, não se deixando levar pela emotividade, mas solucionando os problemas enfrentando-os diretamente e com objetividade.

06. Dinamismo e ação: o fator representa os comportamentos e as atitudes dos pais pelos quais estes se mostram incansáveis realizadores; enfrentam a realidade para a transformar; agem constantemente sobre a mesma; produzem obras; não se cansam de trabalhar, e de agir.

07. Poder: um fator que aparece às vezes, mas menos preciso, cobrindo comportamentos e atitudes de coragem, força e energia. Este fator se confunde muitas vezes com o de autoridade.

08. Femininidade: na mãe aparece várias vezes um fator expressando conceitos de caráter feminino, sensibilidade, emotividade, intuição, interioridade, delicadeza; a pessoa, enfim, que se comove facilmente, que adivinha os problemas do filho e os sente com ele; que reage com forte emoção a todos os eventos, especialmente quando relacionados com as pessoas humanas.

09. Outros fatores menores são às vezes mencionados, como o de renúncia (auto-sacrifício, abnegação) e perdão (indulgência, não exigente, condescendente, opondo-se a disciplinador e punitivo).

2.1.3. O questionário inicial.

Com base nestes fatores parentais e nos instrumentos apresentados pela literatura citada, foram elaborados mais de 150 itens cobrindo as dimensões acima anotadas.

Os itens foram submetidos a uma análise semântica com uma amostra de 21 estudantes de nível secundário e universitário. A análise se fez em forma de entrevistas de grupo (dois e três indivíduos cada) e a finalidade da mesma consistia na verificação da compreensibilidade, clareza e precisão dos itens. Estes foram sistematicamente avaliados em seu conteúdo cognitivo (precisão e clareza em comunicar o que pretendiam) e também se procurou reformulá-los, quando era o caso, para se enquadrarem dentro do modo de pensar e falar destes jovens.

Da análise semântica resultaram 142 itens que integraram o questionário inicial para fins de validação estatística do mesmo, após aplicação a uma amostra razoável de sujeitos.

2.2. Validação da Escala.

2.2.1. Amostra de sujeitos.

O questionário de 142 itens foi aplicado a uma amostra de 98 estudantes universitários de Brasília, 25 masculinos e 73 femininos. A tabela 2.1 dá detalhes desta amostra, onde se observa que os respondentes foram, em sua maioria, solteiros e seus pais ainda estavam ambos vivos, a mãe trabalhando no lar e o pai como funcionário público ou em profissões liberais autônomas (professor, comerciante, engenheiro e outros).

 

 

As instruções do questionário informavam aos respondentes de se referirem aos pais ideais e oferecer sua opinião, em cada item, numa escala de tipo Likert (1932) de sete pontos, onde 7 expressava que o item era totalmente característico do pai ou da mãe ideais e 1 que o item nada expressava dos mesmos1.

2.2.2 Análises estatísticas.

Sobre os dados obtidos da aplicação do questionário aos 98 sujeitos foram efetuadas duas análises fatoriais. A primeira delas visava uma redução inicial do questionário, eliminando os itens francamente irrelevantes, reduzindo-os a um número inferior a 100, se possível. Esta preocupação de reduzir os itens a um número inferior a 100 respondia a uma dificuldade de ordem mecânica, pois que o programa BASIS2 disponível para a análise fatorial comporta uma tabela máxima de 100 x 100 variáveis.

As análises fatoriais seguiram o método dos componentes principais com rotação ortogonal varimax (Harman, 1967).

Pela razão acima aduzida, a primeira análise fatorial, com 142 variáveis, foi efetuada com três subconjuntos de 100 itens cada, tendose a preocupação de que cada item se encontrasse com cada um dos 142 itens ao menos uma vez. Esta preocupação responde à questão de que, para se verificar se dois itens covariam entre si, eles devem aparecer juntos numa mesma análise.

Foram efetuadas, por isso, três análises fatoriais (de três subconjuntos de 100 itens) para o caso do pai e três para os dados da mãe ideal. Estas análises produziram, em média, 25 fatores em cada imagem parental, explicando 80% da variância total das mesmas imagens. Além disso, as análises permitiram reduzir o questionário para menos de 100 itens.

Os critérios de seleção dos itens foram os seguintes (cfr. Pasquali et al., 1977):

01. Carga fatorial importante: todos os itens que não apresentassem uma carga mínima, positiva ou negativa, de 0,30 em um fator foram eliminados.

02. Pureza das cargas fatoriais: itens que apresentassem cargas fatoriais importantes e de mesmo sinal em mais de um fator, foram eliminados.

03. Carga fatorial em fator importante: considerou-se importante um fator quando este explicava ao menos 2,50% da variância total da imagem parental. O critério de extração de fatores pelo computador foi um “eigenvalue” de ao menos 1,00; contudo, vários fatores, embora possuindo tal “eigenvalue”, explicavam menos de 2,50% da variância e foram, por isso, eliminados como irrelevantes.

04. Fator com ao menos 3 itens: o fator que não conseguiu congregar o mínimo de três itens com cargas importantes, foi eliminado.

05. Homogeneidade do item: um item que apresentasse um desvio padrão exorbitante em relação à sua média (DP = M), foi eliminado. Neste critério também entra a preocupação pela homoscedasticidade da variância, isto é, procurou-se manter dentro do fator itens com variâncias semelhantes, senão iguais.

06. Interpretação psicológica do fator: embora este critério não fosse utilizado na primeira etapa da análise fatorial, visto que esta visava tão somente a redução dos itens sem interpretação dos fatores, o critério é apresentado aqui para uso ulterior. O fator que não permite uma interpretação psicológica suficientemente precisa de seu conteúdo semântico, tona-se inútil num instrumento de medida psicológica e por isso foi eliminado.

Com base nestes critérios, os 142 itens foram reduzidos a menos de 100. Contudo, como o programa BASIS comportasse uma matriz de 100 x 100, na segunda análise fatorial foram mantidos os 100 melhores itens para uma análise simultânea de todos eles.

Foram efetuadas duas análises fatoriais com os 100 itens, uma para os dados do pai e outra para os da mãe. Além da redução final dos itens ao inventário definitivo (cf. cap. 5), os resultados destas análises fatoriais serviram também para a interpretação psicológica dos fatores (cf. cap. 3).

Ademais das análises fatoriais mencionadas, o questionário foi avaliado em seus aspectos de validade e de fidedignidade (cf. cap. 5), bem como da congruência dos fatores paternais e maternais (cf. cap. 3) e também da invanância dos fatores (cf. cap. 5).

 

CAPÍTULO III

3.1. Introdução.

3.1.1. Número de fatores interpretados.

Embora a fatorização com 100 itens tenha mostrado a presença de 24 fatores possíveis no pai e 25 na mãe, os quais correspondiam a “eigenvalues” iguais ou superiores a 1,00, muitos destes fatores não satisfazeram vários outros critérios que o autor se propos para dar maior estabilidade fatorial ao questionário (cf. cap. 2). Isto ocorreu particularmente com os três critérios seguintes:

01. Vários fatores não chegaram a explicar 2,50% da variância total da imagem parental correspondente, ainda que possuindo um “eigenvalue” de 1,00 ou mais. Fatores que explicam menos do que 2,50% da variância total de um conceito são geralmente muito fracos para serem mantidos como fatores genuínos e seguros do mesmo conceito (Harman, 1967). Com efeito, sua representatividade do conceito chega a ser quase irrelevante, pois não conseguem representar nem 3% da variância explicada pelos fatores comuns do mesmo conceito.

02. Vários outros fatores apresentaram número insuficiente de itens com carga importante, isto é, menos de três itens. Carga importante, deve-se notar, foi considerada aqui a de 0,40 (positiva ou negativa). Para dar maior consistência ao questionário, garantindo a invariância dos fatores, foi elevado o rigor do critério de carga importante de 0,30, estabelecido no capítulo 2 (para fins de manutenção inicial de itens) para o valor de 0,40.

03. Outros fatores ainda não permitiram uma interpretação psicológica satisfatória do seu conteúdo semântico.

A conjugação destes critérios e dos outros referidos no capítulo anterior determinou a eliminação de 13 fatores no caso do pai ideal e de 12 fatores no caso da mãe. Deste procedimento resultaram 11 fatores importantes no figura do pai ideal e 13 na da mãe ideal. Estes fatores explicam mais de 50% da variância total dos conceitos em ambos os pais. A tabela abaixo detalha esta situação:

 

 

3.1.2. Congruência dos fatores dos pais

A análise dos fatores paternais e maternais pelo coeficiente de Tucker (Harman, 1967) revelou haver grande congruência entre os mesmos. A tabela 3.1 mostra que ao menos quatro fatores são idênticos nas duas figuras parentais. Vários outros fatores apresentam bastantes similaridades, sem contudo se poder afirmar que sejam suficientemente congruentes para se poder equiparálos integralmente. Outros ainda são fatores típicos ou singulares de cada imagem parental, não aparentando nenhuma semelhança semântica entre si.

Fatores congruentes apresentam, em princípio, comunalidade total de conteúdo, isto é, contem os mesmos itens e as mesmas cargas fatoriais dos itens. Quanto maior for a comunalidade de itens e de cargas fatoriais, maior a congruência. Um índice de congruência de ca. 0,903 entre dois fatores mostra que se trata do mesmo fator em ambas as figuras parentais. Um índice de ca. 0,70 não parece justificar ou garantir suficiente identidade de fator, pois parte considerável dos itens não é comum ou parte importante dqas cargas fatoriais dos itens comuns aos dois fatores difere o bastante para dar aos mesmos um sabor idiossincrático dependendo da figura parental em que eles aparecem. Por exemplo, o fator 7 que expressa o conceito de “mente sistemática” e “mente organizadora” no pai e na mãe respectivamente, apresenta aspectos diferentes em ambas as figuras parentais: no pai, o fator expressa mais o aspecto da planificação a longo termo, enquanto na mãe ele salienta o aspecto de disciplina e método da ação presente; entretanto, em ambos os casos parece se tratar radicalmente do mesmo conceito. É difícil, porém, se poder afirmar que se trata de conceitos idênticos, visto que não apresentam suficiente invariância fatorial ao aparecer numa figura ou na outra. Um coeficiente da ordem de 0,70, porém, é alto e indica haver semelhanças fundamentais entre os fatores, pelo que são chamados aqui de fatores similares.

 

 

Para facilitar a orientação nas discussões que se seguem, a tabela 3.2 apresenta a denominação final dos fatores do questionário no pai e na mãe ideiais e a correspondência dos mesmos à ordem com que saíram na fatorização dos 100 itens.

 

 

3.1.3. Médias fatoriais

Na interpretação dos fatores são utilizadas tabelas que, além de cargas fatoraisi, médias e desvios padrões dos itens, apresentam a média fatorial dos mesmos. Esta representa o grau de atribuição do conceito expresso pelo fator à figura parental. O cômputo da média fatorial leva em conta a carga fatorial dos itens e por isso segue a segunte fórmula

 

 

A soma do produto das cargas fatoriais e das médias dos itens é a soma absoluta, pois a carga fatorial é tomada sempre com sinal positivo, desconsiderando-se portanto o sinal quando este é negativo.

Além disso, é preciso observar que certos fatores são bipolares, apresentando simultaneamente itens com cargas fatoriais positivas e negativas. Para o cômputo da média fatorial, no caso dos fatores bipolares, necessita-se preliminarmente unidirecionar os itens do fator, seguindo a direção do pólo mais representativo. Neste caso, a média do item a ser redirecionado será o complementar da escala, a saber, o valor 7 assume o valor 1, o 2 o valor 6, etc. Esta conversão se impõe porque os itens com carga fatorial de sinal oposto ao da interpretação principal do fator expressam o negativo do conceito que o fator cobre.

3.2. Fatores Comuns ao Pai e à Mãe Ideais.

A caracterização de fator comum ou idêntico é determinada pelo coeficiente de congruência. No caso dos quadro primeiros fatores, este coeficiente é de natureza tal a garantir a afirmação da congruência entre o fator extraído na figura do pai com o fator correspondente extraído na figura da mãe (phi de ca. 0,90).

No caso dos fatores congruentes, dada a quantidade de bons itens em alguns fatores, isto é, itens com cargas fatoriais altas em ambos os pais, alguns itens foram eliminados (nove ao todo) porque, embora apresentando cargas na ordem de 0,40 em uma figura parental, não possuíam cargas relevantes na outra figura.

Fator 1: PM - 1

A tabela 3.3 apresenta os resultados da análise fatorial (cargas fatoriais), bem como o nível de atribuição (médias) às figuras parentais dos itens que constituem o fator 1. Este fator explica 7,76% da variância total do conceito de pai ideal e 9,76% do da mãe ideal. Observa-se que o fator é unipolar: no pai ele aparece no polo positivo e na mãe no polo negativo. Esta divergência de posição polar (cargas positivas no pai e negativas na mãe) se deve à rotação fatorial e não implica em nenhuma conotação de conteúdo semântico ou psicológico.

O coeficiente de congruência do fator no pai e na mãe (phi = 0,8827) é alto, mas deixa ainda algumas dúvidas quanto a se tratar de identidade total de fator.

A análise semântica dos itens que compõem o fator 1 revela um conteúdo caracterizando os pais como pessoas afetuosas, ternas e amigas, possuidoras de sentimentos delicados e de grande intimidade. São pais que criam um ambiente de calor humano, apoio e aconchego, no qual os filhos se sentem totalmente em casa e aceitos, sem se sentirem, porém, sufocados emocional mente. Na figura do pai a ênfase está mais no aspecto de ternura e na da mãe o acento recai sobre a receptividade para com o filho. Obviamente, esta diferença de ênfase explica a queda no nível do coeficiente phi.

 

 

O fator parece revelar um conceito que a literatura tem descoberto constantemente no estudo dos pais, isto é, os conceitos de intimidade e afeto. Os filhos acham que estas qualidades são muito importantes num pai ideal (Mf = 5,56) e indispensável numa mãe ideal (Mf = 6,24). Esta afirmação se baseia no fato das médias fatoriais serem significativamente mais elevadas do que o valor 4 que representa o ponto neutro da escala de avaliação de 7 pontos usada neste estudo.

Fator 2 : PM -2

A tabela 3.4 apresenta a situação fatorial e o nível de atribuição aos pais ideais dos itens do fator 2. Este fator expressa 11,26% da variância total do conceito de pai e 9,29% do da mãe. O fator é unipolar e se encontra em polos opostos nas duas figuras parentais. O índice de congruência é de —0,9985, não deixando sombra de dúvida quanto a se tratar de um mesmo fator em ambos os pais ideais.

A análise semântica dos itens do fator 2 manifesta um conteúdo que caracteriza ambos os pais como legislador, disciplinador, juiz e autoridade. O fator congrega todos os aspectos da autoridade em seu direito de legislar, executar as ações e também de julgar os resultados das mesmas. O conceito que este fator revela é o de autoridade, caracterizado sobretudo pelo aspecto de disciplinador, do mantedor da ordem e da disciplina. Os filhos não acham que esta seja uma qualidade de importância nem no pai ideal (Mf = 3,97) e menos ainda na mãe ideal (Mf = 3,62).

 

 

Fator 3 : PM - 3

A tabela 3.5 oferece os resultados fatoriais e as médias de atribuição aos pais ideais dos itens que compõem o fator 3. o fator é unipolar e explica 7,10% da variância total do conceito de pai ideal e 8,58% da mãe ideal. O coeficiente de congruência é 0,9774, garantindo a identidade do fator em ambos os pais.

 

 

A análise semântica dos itens deste fator manifesta um conteúdo que caracteriza os pais como pessoas preocupadas pela segurança dos filhos. O conteúdo engloba o conceito de sensibilidade, pelo qual os pais estão sempre atentos aos perigos e às dificuldades que os filhos enfrentam, antecipando-se mesmo na percepção de possíveis ameaças. Além disso, ele engloba um conceito amplo de segurança, a saber, segurança física (proteção contra os perigos exteriores) e segurança psicológica e emocional (resolução de problemas difíceis). Os pais são, portanto, pessoas sensíveis e sempre prontas a ajudar e assegurara integridade física e moral dos filhos. O fator parece revelar, por conseguinte, o conceito de proteção. Os filhos acham ser essa uma qualidade muito importante tanto no pai (Mf = 5,37) quanto na mãe (Mf = 5,62).

Fator 4 : PM -4

A tabela 3.6 apresenta os resultados fatoriais (cargas) e as médias de atribuição aos pais ideais referentes aos itens que compõem o fator 4. O fator explica 3,32% da variância total do conceito de pai e 3,02% do da mãe ideal. O coeficiente de congruência de 0,9486 parece garantir suficientemente que se trata do mesmo fator no pai e na mãe ideais.

A análise semântica dos itens do fator 4 manifesta figuras parentais caracterizadas por atitudes e comportamentos que ostentam segurança naquilo que querem, decisão e competência. Os pais são pessoas que sabem o que desejam e sabem como consegui-lo, não se intimidando diante das dificuldades e diante das outras pessoas. O fator parece revelar o conceito de autoconfiança, força, asserção e coragem. Os filhos acham que tanto o pai ideal (Mf = 5,87) quanto na mãe ideal (Mf = 5,33) devem ser pessoas de força e coragem.

 

 

3.3 Fatores Similares no Pai e na Mãe

Uma série de cinco a seis fatores, aparecendo no pai e na mãe ideais, parece apresentar raízes comuns bastante salientes em ambas as figuras parentais. O coeficiente de congruência, contudo, não se mostrou suficientemente elevado para garantir que se trate de fatores idênticos em ambos os pais (o phi se situa entre 0,70 e 0,80). As discussões que seguem vão procurar fazer justiça a esta situação e mostrar as semelhanças bem como as diferenças existentes entre estes fatores.

Fator 5: P5 e M5

A tabela 3.7 mostra as cargas fatoriais e as médias de atribuição aos pais ideais dos itens que compõem o fator 5. No caso do pai ideal, o fator explica 2,93% da variância total do conceito paternal e na mãe ele explica 2,06% do conceito materno. O coeficiente de congruência chega a ser superior a 0,79.

Analisando semanticamente os itens deste fator, aprece nele um conteúdo que caracteriza o pai como uma pessoa que gosta de se aventurar em novos horizontes e experiências, sendo, porém, organizado nesta tentativa, planejando suas ações e sendo mesmo criativo nisso. Contudo, nesta tentativa ele não é ambicioso e aceita fracassos e agruras tão bem quanto os êxitos. No caso do pai, parece que o fator esteja revelando o conceito de um indivíduo capaz de tomar riscos mas não arbitrários e sim planejando suas ações na medida do possível, mostrando nisto decisão e despretensão. Talvez o conceito de senso de aventura ou pioneirismo cubra a dimensão semântica que este fator revela no pai. Aliás, os filhos acham muito importante esta qualidade num pai ideal (MF = 5,51).

 

 

No caso da mãe, o mesmo fator acentua o aspecto de despretensão, revelando uma mãe que se satisfaz com aquilo que lhe é possível; a mãe se mostra, portanto, abnegada e capaz de grandes sacrifícios. O conceito de renúncia parece, por isso, cobrir o conteúdo semântico revelado por este fator da mãe ideal. Esta quantidade é considerada bastante importante numa mãe ideal pelos filhos (Mf = 5,23).

Fator 6: P6 e M6

Os resultados do fator 6 se encontram na tabela 3.8. o fator explica 2,31% da variância total do conceito de pai ideal e 2,71% da mãe ideal. A congruência entre estes dois fatores oferece um coeficiente de -0,79.

 

 

Apesar de o coeficiente de congruência mostrar semelhança importante entre os dois fatores em questão, a análise semântica dos itens que constituem o fator 6 revela conteúdos bastante distintos no pai e na mãe ideais, ainda que tais conteúdos não sejam divorciados. No caso do pai, o fator manifesta uma pessoa que escrutina as coisas e planeja seus atos, sendo mesmo habilidosa na solução de problemas e aceitando sem irritação os reveses. Trata-se do pai que não age no espírito do momento, mas que pondera suas ações, analisando cuidadosamente os problemas para encaminhá-los a uma solução satisfatória. Para tal intento ele faz uso de procedimentos sistemática e racionalmente arquitetados. É a pes¬soa que pensa antes de agir. O fator parece, então, revelar o conceito de mente examinadora, qualidade que os filhos consideram indispensável num pai ideal (Mf = 5,90).

No caso da mãe, por outro lado, embora também caracterize uma pessoa que é atenta e minuciosa no exame das coisas e habilidosa na solução dos problemas, o fator dá ênfase ao aspecto de determinar aos filhos que assumam seus atos, não fugindo da responsabilidade. A mãe aparece aqui como uma pessoa alerta às coisas e às pessoas, não se deixando iludir sobre a realidade das mesmas nem permitindo que as ações e faltas dos filhos passem despercebidas ou sem que delas sejam dadas as devidas contas. Talvez o fator esteja revelando o conceito de objetividade vigilante, pela qual a mãe não fecha os olhos à realidade, mas, pelo contrário, a enfrenta e examina com atenção, porque, aliás, ela está consciente de sua capacidade de solucionar os problemas que porventura surjam. Os filhos esperam muito que uma mãe ideal seja deste tipo de pessoa (Mf = 5,98).

Fator 7 :P7 e M7

A tabela 3.9 apresenta as cargas fatoriais e as médias de atribuição aos pais ideais dos itens do fator 7. Este fator oferece um coeficiente de congruência de 0,79 e explica 2,48% da variância total do conceito de pai e 2,42% do da mãe ideal.

 

 

A análise semântica dos itens que compõem este fator manifesta um conteúdo que caracteriza o pai ideal como uma pessoa de mente planejadora, que faz julgamentos imparciais, é disciplinada e objetiva. A ênfase se situa no procedimento sistemático, metódico e objetivo no enfoque intelectual à realidade. Tal descrição parece garantir que o fator esteja revelando o conceito de mente sistemática que faz planejar a vida de uma pessoa em termos de futuro. Esta qualidade os filhos acham muito importante num pai ideal (Mf = 5,52).

No caso da mãe, a análise semântica manifesta quase idêntico conteúdo, mas insistindo mais no caráter de planificação da atividade presente. Se no caso do pai a ênfase cai no procedimento sistemático de enfrentar a realidade, no da mãe a ênfase se situa no fato de ela não se precipitar em suas ações presentes, mas sim em planejá-las e esquematizá-las, evitando, contudo, cair em rotina porque gosta também de novidades. Talvez o conceito de mente organizadora possa expressar o que este fator revela na mãe ideal. Os filhos consideram importantes que a mãe possua tal qualidade (Mf = 5,23).

Fator 8: P8 e M8

Os resultados referentes ao fator 8 se encontram na tabela 3.10. O coeficiente de congruência é de 0,78 entre o fator que se manifesta no pai e o que aparece na mãe. O fator explica 2,56% do conteúdo do conceito de pai e 2,74% do da mãe ideal.

 

 

A análise semântica dos itens do fator 8 manifesta um conteúdo que caracteriza os pais como pessoas profundamente acolhedoras, aceitando a individualidade dos filhos sem impor condições. Trata-se do relacionamento dos pais com os filhos no qual o bem destes é a única preocupação. Entretanto, dentro desta atitude de aceitação incondicional dos filhos, o pai se singulariza da mãe pela introdução de respeito pela personalidade do filho, ao passo que a ênfase, no caso da mãe, recai sobre o comportamento de preocupação pelo bem estar dos filhos, enfatizando por isso o aspecto de ser guia e de orientação nas dificuldades dos mesmos.

0 fator parece, por isso, revelar o conceito de aceitação incondicional e respeito pelo filho no caso do pai e de aceitação incondicional e orientação do filho no caso da mãe. Em ambos os pais ideais, estas qualidades são tidas como indispensáveis pelos filhos (Mf = 5,80).

Fator 9 e 10 :P9 e M9 e M1O

A tabela 3.11 apresenta as cargas fatoriais e as médias de atribuição aos pais ideais dos itens que entram na composição do fator 9 no pai e dos fatores 9 e 10 na mãe ideal. O coeficiente de congruência entre o fator paterono (P9) e o fator 9 materno (M9) é de —0,76, e entre o P9 e o MIO é de —0,79. O fator paterno tende a se relacionar com dois fatores maternos ou, talvez, o fator paterno se divide em dois fatores quando entra no campo cognitivo materno. O fator em questão explica 2,81% da variância do conceito de pai; na mãe, o M9 explica 3,56% e o M10 4,12% da variância do conceito materno.

A análise semântica dos itens que constituem o fator paterno manifesta um conteúdo que caracteriza o pai como um indivíduo de ação e realista, além de ser hábil na solução dos problemas. O fator revela no pai o conceito de ação e realismo, a saber, iniciativa e dinamismo enraizados na realidade e não no sonho; o pai deve ser um realizador decidido e habilidoso, conhecendo e enfrentando a realidade com ação dinâmica. Os filhos acham tais qualidades indispensáveis num pai ideal (Mf = 6,12).

 

 

Este fator paterno se divide em dois fatores totalmente distintos no caso da mãe ideal. Um deles, o M9, enfatiza o conceito de ação e dinamismo; a mãe aparece aqui como uma pessoa incansável, não desistindo facilmente daquilo que se propõe fazer. Talvez o conceito de dinamismo persistente cubra satisfatoriamente o que este fator revela na mãe. Os filhos acham que tal qualidade é muito importante na mãe ideal (Mf = 5,85).

O outro fator materno, o M10, enfatiza, em seu polo positivo, o aspecto de realismo e decisão que chega a demonstrar uma certa dureza afetiva. A mãe é aqui delineada como uma pessoa que conhece e enfrenta o mundo da realidade com objetividade, firmeza e sem se descontrolar emocionalmente, isto é, enfrenta a realidade com cabeça fria, dir-se-ia com atitude de administrador. Este fator é bipolar, manifestando em seu polo negativo uma mãe efusiva no afeto. O conceito que este fator revela é o de realismo vs. demonstração de afeto. Os filhos dão bastante importância a que a mãe seja também realista em seus comportamentos e atitudes (Mf = 5,07).

3.4. Fatores Singulares das Figuras Parentais.

Além dos quatro fatores verificados idênticos em ambos os pais e dos cinco fatores paternos e seis maternos que manifestaram partes similares em seus conteúdos, apareceram igualmente dois fatores singulares no pai e três na mãe, sendo os do pai totalmente independentes dos da mãe.

Tanto no caso do pai quanto no da mãe, estes fatores típicos se apresentam bastante fortes e muito relevantes às figuras parentais, ainda que sua interpretação psicológica não seja sempre fácil de determinar.

Fator P10

A tabela 3.12 apresenta os resultados referentes ao fator 10 na figura do pai ideal, o qual chega a explicar 3,16% da variância total do conceito parental.

 

 

A análise semântica dos itens deste fator mostra um conteúdo que caracteriza o pai como uma pessoa criativa tanto nas suas idéias quanto ações, bem como respeitadora dos outros, ainda que íntima e amiga. O fator parece cobrir semanticamente vários fatores, como que sintetizando vários conceitos já discutidos, a saber, os fatores de originalidade, respeito e amizade.

O fator parece expressar a súmula do que um pai ideal deve ser: como indivíduo em si mesmo, ele deve ser criativo e original no pensar e no agir, isto é, ser uma personalidade bem definida, não sendo copiador mas criador, sendo enfim uma personalidade marcante; como relacionamento o pai deve ser amigo íntimo, mas respeitador da intimidade dos outros. Os filhos consideram tal conjunto de valores absolutamente indispensáveis num pai ideal (Mf = 6,39).

Fator P11

A tabela 3.13 oferece os resultados fatoriais e os níveis de atribuição dos itens do fator 11 no conceito de pai. O fator explica 4,07% da variância total desse conceito.

 

 

A análise semântica dos itens do fator mostra um conteúdo revelando o pai como uma pessoa acolhedora, junto da qual o filho se sente querido e em casa. É o pai que se preocupa, acima de tudo, com a pessoa humana à qual procura garantir respeito e justiça. O pai que aqui se manifesta não é um pai possessivo, mas um que, em seu afeto e receptividade, manifesta respeito pela pessoa do filho. O fator parece, por conseguinte, revelar os conceitos de receptividade e respeito, qualidades consideradas pelos filhos como necessárias num pai ideal (Mf = 6,15).

Fator M11

A tabela 3.14 mostra as cargas fatoriais e as médias de atribuição à mãe ideal dos itens que integram o fator M11. O fator explica 2.88% do conceito de mãe ideal.

 

 

A análise semântica dos itens deste fator manifesta um conteúdo que caracteriza a mãe como uma pessoa cuja preocupação central é o bem das outras pessoas. Ela procura criar um ambiente onde o grande favorecido seja o ser humano, proporcionando-lhe uma atmosfera acolhedora que promova nele o crescimento e o bem estar.

O fator parece revelar o conceito de preocupação pelo humano ou de humanismo, no sentido de pôr o ser humano no centro das coisas e dos valores. Os filhos acham esta qualidade indispensável numa mãe ideal (Mf = 6,12).

Fator M12

Os dados referentes ao fator M12 se encontram na tabela 3.15. Este fator explica 2,62% da variância total do conceito de mãe ideal.

 

 

A análise semântica dos itens compõem este fator mostra, em seu pólo negativo, um conteúdo que caracteriza a mãe como uma pessoa que não censura os outros pelos erros cometidos e que é justa em seus julgamentos e ações, estando sempre disposta ao perdão. Uma pessoa com tais características se opõe à manifestação de comportamentos impositivos e exigentes sobre os outros.

O fator revela-se bipolar, expressando conceitos de indulgência vs. exigência. O tipo de atitude indulgente que aqui se manifesta não parece ser uma qualidade que os filhos apreciem muito numa mãe ideal (Mf = 4,52). Isto significa que ser indulgente ou ser exigente no sentido do presente fator não parece caracterizar singularmente uma mãe ideal.

Fator M13

A tabela 3.16 apresenta os resultados referentes ao fator M13. este fator explica 2,29% do conceito de mãe ideal.

 

 

A análise semântica dos itens do fator M13 revela um conteúdo que caracteriza a mãe como uma pessoa que, em si mesma, é criativa e inovativa, e em seu relacionamento com os outros, é respeitosa e compreensiva, reconhecendo onde é seu limite, isto é, reconhecendo que seus direitos terminam onde começam os dos outros.

O fator parece, portanto, revelar os conceitos de respeito e criatividade, características que os filhos consideram indispensáveis numa mãe ideal (Mf = 6,05). Como no caso do fator paterno P10, parece que o M13 também expressa uma súmula de outros fatores maternos, especificamente os valores de ser compreensiva, respeitadora e criativa.

 

CAPÍTULO IV

Os pais ideais

4.1 O Pai Ideal.

Os dados que integram uma conceituação global da figura do pai são sumariamente apresentados na tabela 4.1 e ilustrados na figura 4.1. Estes dados representam uma síntese das discussões apresentadas no capítulo 3.

 

 

 

 

Observando-se os dados da tabela 4.1 e da figura 4.1, verifica-se que o presente questionário contem somente características positivas, em termos de valor, pois que todos os fatores são altamente desejáveis num pai ideal, com a única exceção do fator “autoridade” que se apresenta como um valor neutro da mesma figura paternal. Resultado este, aliás, óbvio visto que o questionário foi construído para explorar as características típicas dos pais em seu conceito ideal.

Parece estranho, à primeira vista, que o conceito de “autoridade” não seja visto pelos jovens como perfazendo um valor desejável na concepção do pai. Deve-se, no entanto, adiantar que o fator em questão representa mais especificamente o conceito de disciplinador do que o de legislador e juiz. Toda a gama de nuances da noção “autoridade”, incluindo o direito do legislador, do executor e do juiz do comportamento humano, foi encoberta quase que exclusivamente pela concepção do controlador, do disciplinador, do supervisor, daquele enfim que impõe ordem e disciplina. Os jovens não atribuem muito valor a tais comportamentos num pai ideal. Aliás, em estudo anterior (Pasquali, 1970) com estudantes dos Estados Unidos da América, foi verificado fenômeno igual em relação aos pais. Os filhos distinguem bem o conceito de legislador e de juiz do conceito de disciplinador, mas somente quando aplicados a Deus; nos pais, estes conceitos se confundem num só. Além disso, o conceito de disciplinador era reconhecido, naquela pesquisa, como uma qualidade muito típica e desejável num pai ideal. O jovem brasileiro, além de aglutinar os conceitos de legislador, juiz, executor e disciplinador na noção genérica de autoridade, não acha que tal noção seja desejável num pai ideal, ainda que sua presença nele não chegue a ser um desdouro.

Que esperam, então, os filhos que o pai seja? A resposta a esta questão talvez não seja fácil de oferecer, ou melhor, a resposta parece ser complexa, sendo difícil decidir se existe neles dúvidas e inseguranças quanto à noção de pai. Afirma-se isto porque os filhos atribuem ao pai ideal uma série de fatores com quase idêntica intensidade e cujos conteúdos parecem diferir bastante entre si, pois trata-se, no mais, de fatores independentes, ortogonais.

Através de uma análise semântica integrativa, talvez se consiga esclarecer melhor o conceito de pai que se esboça neste estudo. Uma análise integrativa e semântica significa estabelecer as diferenças e as possíveis semelhanças de sentido psicológico que os vários fatores mantem entre si. Trata-se de uma espécie de análise fatorial de segunda ordem, mas de caráter subjetivo e não estatístico. A recusa de efetuar uma análise fatorial estatística de segunda ordem se deve, em parte, a que tal análise nos levaria longe demais dos dados empíricos, tornando mais difícil ainda a descoberta de um conteúdo psicológico nos fatores porventura extraídos pela mesma.

Dito isto, observa-se, antes de mais nada, a existência de um fator (P10) de atribuição extrema ao pai ideal. Este fator P10 cobre os conceitos de originalidade, respeito e amizade, congregando, como numa síntese, elementos que definiriam o pai em seu âmago como um ser superior, dirse- ia, de demiurgo, a saber, do ser que é diferente dos outros seres e originador dos mesmos e que com eles mantem simultaneamente a intimidade mais profunda do amor e o respeito mais sagrado pela sua individualidade. Esta frase é, obviamente, uma boa definição do conceito cristão do Deus criador e do amor respeitoso. Só falta nesta definição de Deus o conceito de autoridade que, como vimos, os jovens não acham relevante no caso do pai ideal.

Mais concretamente, o conceito de pai parece poder ser esclarecido se nos fatores a ele atribuídos introduzirmos uma análise distintiva entre os que definem o pai em termos de valores pessoais dele e os que o definem em termos de suas relações com os outros (os filhos). Aliás, o fator P10 acima comentado integra estes dois aspectos numa síntese. Nesta tentativa de definição do pai ideal, nada menos do que nove fatores entram em jogo: cinco em termos de valores pessoais do pai e quatro em termos de seu relacionamento com os outros seres.

Em termos pessoais, o pai é definido como ação e realismo (P9), mente examinadora (P6), auto-segurança (P4), mente sistemática (P7) e senso de aventura (P5). Esta série de fatores realça valores tradicionalmente característicos de uma concepção cultural de pai concebida no mundo ocidental (Handel, 1967; Coser, 1964; Christensen, 1964). O pai é, antes de mais nada, o homo faber, isto é, o indivíduo que atua sobre a realidade concreta, procurando amoldá-la com seu poder de comando sobre a natureza e de transformador da mesma. Talvez se pudesse afirmar hoje em dia que o pai é um homem tecnológico que, com soberania, enfrenta e transforma a natureza.

Além disto, o pai se caracteriza pelo poder intelectual, pela atividade do cérebro, através do qual ele escrutina a natureza, não se contentando antes de ter chegado ao conhecimento do mais íntimo do ser da mesma. Ele é metódico nesta atividade, procedendo com calma mas progredindo sistematicamente.

Uma terceira qualidade, também considerada sempre típica do pai, é a sua segurança ou estabilidade emocional como característica de personalidade, a qual traduz uma atitude mais profunda de auto-confiança. Esta segurança vem, talvez acima de tudo, do fato do pai ser poder intelectual, isto é, de se deixar guiar pela razão e raciocínio e não pela emotividade e pelas paixões; isto porque tal atitude resulta num conhecimento profundo da natureza e de si mesmo, não permitindo, portanto, lugar para receios e dúvidas.

Finalmente, o pai é concebido também em termos do conceito de risco. Ele não teme enfrentar o desconhecido e o novo; é desbravador e aventureiro, manifestando espírito pioneiro e de fronteira, tanto no sentido de espaço quanto no de tempo, querendo desbravar as distâncias e penetrar o futuro.

Os filhos acham que um pai ideal deve possuir todas estas qualidades em alto grau. Aliás, esta série de valores não parece produzir nenhuma surpresa por aparecerem na figura do pai. Contudo, tão óbvio já não parece ser a importância de uma outra série de qualidades no conceito de pai, a saber, as características que definem o pai em seu relacionamento com os outros, especificamente com os filhos. Neste seu relacionamento com os outros, o pai é concebido como uma pessoa que deve manifestar receptividade e respeito aceitação, intimidade e proteção. Estes fatores manifestam duas qualidades básicas que tradicionalmente parecem ter sido mais de atribuição à mãe, a saber, a intimidade e a proteção.

O conceito de intimidade é particularmente reivindicado pelos filhos como característica de um pai ideal. Com efeito, eles esperam do pai que os aceite integralmente como indivíduos. E interessante ressaltar que esta intimidade do pai com os filhos se caracteriza por dois aspectos bem acentuados, a saber, o afeto e o respeito. O pai deve ser afetuoso, acolhedor e íntimo, mas deve, neste ambiente de intimidade, manter suficiente distância para permitir aos filhos não se sentirem emocional mente sufocados; estes querem se ver gente, respeitados em sua individualidade, e o pai deve lhes proporcionar, dentro de uma atmosfera de calor e afeto humanos, este sentimento de independência e de identidade.

Se a característica de relacionamento íntimo é uma reinvindicação de caráter maternal no pai, o conceito de proteção já o seria menos, pois o pai parece ter sido culturalmente concebido sempre como o protetor e o defensor, particularmente no sentido de salvaguardar a sobrevivência física dos seus. Entretanto, o conceito de proteção engloba, além deste aspecto de defesa contra os perigos físicos, também o de conselheiro, isto é, aquele que protege contra os perigos morais e psicológicos, contra as dúvidas, a angústia e o desespero. Este aspecto pode novamente ser interpretado como uma integração no conceito de pai de valores maternais ou então um florescimento da sofisticação da cultura e da civilização no conceito de proteção.

Como conclusão, pode-se afirmar que o pai ideal apresenta uma figura bastante complexa, integrando simultaneamente e em alto grau valores pessoais de conhecimento e domínio sobre a natureza, bem como de valores de relacionamento humano que fazem dele o amigo respeitador e protetor da pessoa humana. Neste contexto não entra o domínio sobre os outros seres humanos (autoridade) como um valor desejável num pai ideal.

4.2. A Mãe Ideal

A tabela 4.2 e a figura 4.2 apresentam o sumário dos resultados da análise fatorial referentes ao conceito de mãe ideal.

Observando-se a tabela 4.2 e a figura 4.2, verifica-se novamente que o questionário só apresenta fatores desejáveis na figura da mãe, com exceção do fator 2 (autoridade) para o qual valem os mesmos comentários feitos com relação ao pai ideal. Talvez, também se deva excetuar o fator 12 (indulgência vs. exigência), pois sua atribuição à mãe não parece relevante.

Procurando analisar, também no caso da mãe, os fatores de uma forma integrativa, isto é, procurando descobrir as similaridades semânticas entre os mesmos, verifica-se que o conceito de mãe ideal que eles expressam parece ser o agrupamento de quatro núcleos cognitivos. O primeiro e o quarto destes núcleos se diferenciam bastante no conteúdo semântico, bem como na intensidade de atribuição à mãe ideal; os dois núcleos intermédios, embora diferindo dos outros dois em termos de intensidade de atribuição, se sobrepõem um ao outro em grande parte no que se refere à sua atribuição à mãe.

 

 

 

 

São os fatores 1, 11 e 13 que constituem o núcleo semântico mais característico e desejável de uma mãe ideal. Estes fatores expressam os conceitos de intimidade e afeto, preocupação pelo que é humano, criatividade e respeito pela pessoa humana. Aparece neste conjunto de fatores uma imagem de mãe que expressa a intimidade criadora e respeitosa na qual a mãe é simultaneamente presente, com calor, carinho, amizade e união, no mais íntimo do ser humano, mas que ao mesmo tempo mantem a distância necessária para, com sua presença, não sufocar a personalidade do filho, isto é, ela é respeitosa do ser do filho. Esta presença íntima da mãe na vida do filho não é a confusão primordial entre mãe e filho descrita pela psicanálise (Ferenczi, 1927, 1962) na qual o filho é apenas uma extensão da mãe, confundindo-se com a mesma. A intimidade da mãe é respeitosa; ela cria um ambiente no qual a pessoa humana se sente segura, livre e desafiada a desenvolver sua própria vida, seu próprio ser, digamos onde o filho se sente seguro para se desabrochar livremente. Nem a mãe nem o filho desaparecem como individualidades nesta intimidade; nem a mãe nem o filho estão ali se abnegando ou renunciando, mas ambos se desabrocham porque existe uma atmosfera totalmente propícia e aberta para a vida e o crescimento da vida; é, enfim, um ambiente que Maslow (1962) diria propício para a auto-realização de ambos, sem imposições, sem deficiências, sem necessidade de orientação ou censura, mas crescimento dentro do ser. A abertura e a intimidade existentes entre a mãe e o filho são tão radicais que, poder-se-ia dizer com Rogers (1966), as forças de atualização podem atuar com todo seu dinamismo vital.

Este é o tipo de mãe que os jovens mais almejam encontrar; não é, com efeito, uma mãe que se preocupa com problemas de arrumação de casa, com o sustento físico dos filhos e que dê abrigo aos seus lamentos, nem mesmo uma mãe de grande personalidade e habilidosa que a cultura moderna apregoa e nem mesmo a mãe acolhedora e protetora da tradição ocidental cristã. Acima de tudo isso, os filhos esperam que a mãe seja uma espécie de espelho ou centelha do divino, uma mãe realmente ideal, além do que a experiência da cultura e da civilização tem mostrado possível existir. Parece mesmo que esta mãe seja uma expressão subjetiva do conceito cristão do Deus do amor que é presença total, amizade e respeito, conceitos, aliás, já verificados em parte na concepção ideal do pai.

Um duplo conjunto de fatores de atribuição à mãe ideal, menor do que o anteriormente comentado, mas sempre altamente característico da mesma, cobre um conceito cultural de mãe. Um destes conjuntos, o tradicional cristão, como se poderia chamar, define a mãe em termos de suas relações com o filho; o outro conjunto, o moderno racional, se poderia dizer, define a mãe em termos de valores de personalidade da própria mãe.

O conjunto que define a mãe em termos tradicionais cristãos é expresso pelos fatores de aceitação e orientação (M8), proteção (PM3) e renúncia (M5). Nesta série de qualidades a mãe é expressa por valores através dos quais a civilização cristã e ocidental a tem tradicionalmente concebido, isto é, a pessoa que vive primariamente em função dos outros, em bem dos filhos, e que o faz com amor, não por injunção (Christensen, 1964; Durant, 1950). Nesta sua relação com os filhos, a mãe é a que cria um ambiente de natureza tal onde o filho não somente se sente em casa, mas também se sente querido como pessoa, além de se saber protegido e mesmo perdoado quando em falta. A mãe não se apresenta, nesta concepção, como pessoa na qual se centralizam as atenções, mas é o filho que representa o centro dos interesses; para ele a mãe é como o pano de fundo, criando um ambiente sadio, acolhedor e seguro para que o filho possa representar com perfeição seu papel humano, chegando ela mesma a se sacrificar por isso.

Deve-se salientar que esta concepção de mãe é ainda muito acentuada entre os jovens de hoje e eles esperam que a mãe represente também estes valores atualmente.

Opondo-se um tanto a esta concepção, ou talvez complementando-a, a mãe é igualmente concebida em termos pessoais, isto é, em termos de valores que ela como pessoa deve possuir. Estes valores são constituídos pelos fatores de objetividade e vigilância (M6), dinamismo persistente (M9), auto-segurança (PM4), mente organizadora (M7) e realismo (M10). Aqui a mãe aparece como um ser humano dotado de habilidade intelectual, de ação, realismo e autoconfiança. Uma mãe, enfim, representando uma pessoa que se define em seus próprios termos de ser racional e de ação (homem racional e “home faber”) e não em termos de sua função procriadora.

Esta concepção de mãe pode ser etiquetada de moderna porque ela representa uma série de reivindicações dos movimentos feministas e de liberação socio-cultural da mulher (Beauvoir, 1949; Friedan, 1964). Todos estes fatores, aliás, se opõem a alguma definição de mãe já amplamente aceita no passado. Por exemplo, a qualidade de habilidade mental se contrapõe à concepção muitas vezes repetida no passado da inferioridade intelectual da mulher; dinamismo e ação se opõem obviamente à concepção da mulher como parceiro passivo da sociedade humana; realismo e auto-confiança se contrapõem à concepção que define a mulher como ser sentimental e cheio de sensibilidade e desraigado do mundo da realidade socio-econômica e política; mente sistemática nega a definição da mulher impulsionada só pelo coração, pelas emoções.

Certamente trata-se, nesta concepção moderna da mãe, de uma figura bastante diferente da tradicional mulher frágil que vivia em função exclusiva dos filhos. Na concepção moderna, a mãe é definida em termos iguais ao homem, isto é, em termos de valores de ser humano, enfatizando especialmente a capacidade racional e organizadora da mente, bem como a ação sobre a realidade de um mundo concreto, isto é, socio-econômico. Esta concepção da mãe é tida pelos jovens como tão característica da mãe como é a concepção tradicional. Há aqui uma fusão ou, ao menos, uma concomitância destas concepções de mãe. A esta altura da evolução sociocultural da nossa sociedade, as duas versões talvez ainda não estejam suficientemente buriladas para integrar uma concepção dialética em que ambas passem a expressar simultaneamente a mãe numa concepção sintética mais elaborada. A dar fé aos nossos dados, contudo, é para tal síntese que parece se encaminhar a solução do conceito de mãe concebido em termos socioculturais, pois tanto a concepção tradicional quanto a moderna são consideradas pelos jovens como altamente específicas do conceito atual de mãe. Além disso, também a concepção de pai tende, como vimos, a ser um síntese de valores, digamos masculinos e femininos. De qualquer forma, a especificidade clara e distinta da concepção de cada uma das figuras parentais como polos opostos de valores masculinos e de valores femininos está desaparecendo para dar lugar a uma concepção que poderia quase ser etiquetada de unissex.

Finalmente, há um quarto conjunto de valores pelos quais a mãe é igualmente concebida. Este conjunto é integrado pelos fatores de indulgência vs. exigência (M12) e autoridade (PM2). Estes valores espelham, ao nível mais imediato da situação concreta do lar, portanto mais terra a terra, aspectos dos valores que culturalmente expressam a mãe na concepção tradicional. Aqui também, a mãe é definida em termos de sua relação com os filhos somente; é a mãe dona de casa que se caracteriza como pessoa que mantem controle sobre os filhos e que procura entender e perdoar os erros e as malandragens dos mesmos. Deve-se entender a que esta concepção de mãe dona de casa já quase não é considerada característica relevante da mãe, pois sua atribuição à ela parece não significativa.

Da descrição que vem de ser apresentada, aparece que o conceito de mãe não é um conceito monolítico, mas constitui a síntese de elementos bastante diversos. Especificamente, ele congrega elementos dos mais sublimes ou ideais (concepção 1: aspirações talvez demiúrgicas ou divinas dos jovens respondentes, substituindo práticas religiosas formais em desaparecimento), elementos sócio-culturais (concepção 2 e 3: corriqueira de dona de casa (concepção 4). A mãe parece ser um símbolo onde todas as formas de aspirações dos jovens podem ser refletidas.

4.3. O pai e a Mãe Ideais

A figura 4.3 mostra a intensidade de atribuição relativa dos fatorres ao pai e à mãe ideais. Observa-se que, de um modo geral, os fatores comuns (idênticos) às duas figuras e os similares não se atribuem com intensidades relativas iguais a ambos os pais. Verifica-se realmente que alguns sobem de intensidade de aplicação à mãe e outros descem, enquanto alguns outros permanece no mesmo nível de atribuição ao pai ideal. Esta situação pode ser brevemente ilustrada no esquema abaixo:

 

 

 

 

Tanto o pai quanto a mãe ideais são primariamente concebidos em termos de seus valores específicos: o pai é uma síntese complexa de originalidade, amizade receptiva e respeito; a mãe é centralização no ser humano, criatividade e respeito. Ainda no caso da mãe, o fator PM-1 (intimidade e afeto) torna-se o mais importante de todos, diferindo bastante da sua atribuição ao pai. Aliás, daí advem que o coeficiente de congruência deste fator se ressentiu um pouco, tornando-se o mais baixo dos fatores comuns (cf. cap. 3).

Observando-se atentamente, percebe-se que o núcleo mais característico do pai e da mãe ideais (com atribuição de mais de 6 pontos na escala de 7 graus) são dois fatores específicos de cada figura e um fator comum ou congruente, sendo que este último não é o mesmo no caso do pai e no da mãe. Assim, o pai se define primariamente por seus fatores específicos (originalidade, respeito e amizade, e receptividade e respeito) e ainda por ação e realismo (fator comum). Ao passo que a mãe é concebida por dois fatores específicos seus (preocupação pelo humano e respeito e criatividade) e ainda por intimidade e afeto (fator comum).

Através destes dois núcleos de fatores, os pais se distinguem em duas figuras bastante independentes, embora não opostas. O pai aparece como uma pessoa que acima de tudo é um indivíduo singular, uma personalidade marcante que não copia mas origina coisas e idéias. Ele é ação e realismo, isto é, ele é criação, originador de coisas novas. Em si mesmo, então, o pai é um ser independente que se define em seus próprios termos, tanto assim que os outros seres se definiriam em função dele, pois ele é o originador. De sorte que, em seu âmago, o pai não se define em função dos filhos somente e nem primariamente, mas sim em termos de si mesmo; contudo, o pai não é avesso aos filhos, pelo contrário, ele os reconhece como seus, pois é receptividade e amizade, sempre mantendo, bem entendido, a distinção que é expressa em respeito pelo ser do filho. Pode-se concluir, ao que parece, que o pai é originariamente, senão o criador, ao menos o transformador da natureza e o plasmador dos filhos, com os quais, ademais, mantem um relacionamento de receptividade (reconhecer os filhos como seus) e respeito (distinção em relação aos filhos).

Bastante diferente desta do pai é a definição da mãe. Ela sim se define intrinsicamente em função dos outros (dos filhos) em primeiro lugar, porque ela não somente reconhece, mas cria os filhos, neles se centraliza com profundidade de afeto e intimidade, ainda que mantendo a individualidade dos mesmos (respeito). O conceito de criatividade que na mãe aparece é o de matriz, a formadora (de forma) do novo ser humano. Ela não seria tanto a originadora (criar algo novo, diferente) mas a procriadora, isto é, que reproduz um ser segundo uma forma, uma matriz já existente, a qual é a mãe mesma como dom da natureza. Esta observação é pertinente porque nela não aparecem os conceitos, a este nível de atribuição, de ação e originalidade que se apresentam óbvios no caso do pai.

Para reforçar as interpretações acima, convem observar também que no caso da mãe, em relação ao pai, se eleva a importância do conceito de proteção, novamente se definindo ela em função do outro (dos filhos), e caem os de ação e realismo, bem como auto-segurança, isto é, caem os conceitos que definiriam a mãe em termos de sua própria personalidade.

Estas observações, deve-se convir, têm um caráter um tanto simbólico, isto é, elas projetam os pais contra um horizonte contra um horizonte conceitual que excede os limites do cultural para se prolongar no reino do simbolismo, dir-se-ia, do mágico. Os pais são ali concebidos como representando aspirações profundas, talvez de raizes inconscientes, da humanidade, aspirações que se não são a origem, são pelo menos expressões de desejos ético-religiosos, isto é, “mágicos”, porque apontam para além da cultura e da natureza. É sobretudo neste horizonte cognitivo que o pai e a mãe ainda se definem bastante distingos, ele em função de si mesmo e a mãe em função dos outros. Tal asserção não denega a definição da mãe também em termos pessoais, basta ver seus fatores M6, M9, M4, M7 e M10, os quais são altamente caracteríscos da mesma. Contudo estes já entram nela num nível inferior aos primeiros comentados (fatores PM1, M11 e M13) e definem a mãe mais como um membro da sociedade concreta e real, da cultura existente, uma mãe ideal desejável e possível concretamente. Deve-se igualmente ressaltar que o pai também se define intrinsicamente em função dos filhos (pai e filho são termos complementares), mas esta não é uma definição marcadamente isolada das outras (definição em termos próprios) como é o caso da mãe.

 

CAPÍTULO V

O questionário (qpi )

5.1. O QPI

O questionário final – Questionário dos Pais Ideais (QPI) – é constituído por 77 itens que se mostraram válidos entre os 142 originais que aprecem distribuídos em cerca de uma dúzia de fatores. Eles são apresentados na tabela 5.1 onde aparecem também os fatores no pai e na mãe que eles integram.

 

 

5.2 Validade do QPI

5.2.1. Validade fatorial.

O QPI apresenta boa validade fatorial. A tabela 5.1 deixa patente a existência da pureza fatorial dos itens do questionário, isto é, cada item possui uma carga importante somente em um fator ou, se apresenta cargas em mais de um fator, estas são de sinais opostos. Fazem exceção a esta afirmação os seguintes itens: no caso do pai, os itens 14, 25, 26 e 54; no caso da mãe, os itens 14, 29, 33 e 34. Observa-se, então, que, dos 77 itens que compõem o QPI, apenas quatro deles, em ambas as figuras parentais, (5%) não apresentam pureza fatorial total, porque possuem cargas importantes e de mesmo sinal, em dois fatores distintos da mesma figura dos pais. Apenas o item 29, no caso da mãe, apresenta cargas importantes de mesmo sinal em três fatores. Estes itens obviamente não expressam, inequivocamente, um conceito único, mas ao menos dois, tornando-se por isso mesmo menos precisos e menos representativos dos fatores que integram.

Além disso, o QPI apresenta substancial invariância fatorial. Esta afirmação pode ser mostrada através de dois procedimentos: invariância de fatores entre conceitos diferentes num mesmo estudo e invariância dos fatores entre conceitos idênticos em estudos diferentes. A invariância de fatores entre conceitos diferentes se refere à verificação da existência de congruência fatorial. Obviamente, os conceitos, sendo diferentes, não devem ser estranhos, mas manter similaridade cognitiva para poder permitir que as mesmas dimensões semânticas (fatores) possam aparecer; isto é, certamente o caso com os conceitos dos pais. A análise da congruência fatorial (cf. cap. 3) mostrou haver quatro fatores idênticos entre os conceitos dos pais e cinco a seis fatores similares. Dos 12 (pai) e 13 (mãe) fatores extraídos, 9 (no pai) e 10 (na mãe) são ou idênticos ou similares em ambas as figuras parentais, demonstrando uma invariância fundamental nos fatores do QPI, que é da ordem de mais de 75%, dos fatores encontrados nos pais.

Ademais, estudos fatoriais (Pasquali, 1970; Tamayo, 1970) feitos sobre os mesmos conceitos de pais e utilizando instrumentos similares ao QPI, acharam um núcleo de fatores que aparece claro também no presente estudo, evidenciando a invariância fatorial entre estudos diferentes efetuados sobre os mesmos conceitos. Esta verificação é tanto mais importante, porque no presente estudo entraram muitos itens dos estudos mencionados, mas num conjunto mais diversificado e amplo, e apesar do contexto diferente em que os itens se encontraram, resultaram na formação dos mesmos fatores. Os quatro fatores, nas figuras dos pais ideais descobertos por Pasquali (1970) num contexto cultural norte-americano, cobrem com precisão fatores do presente estudo, como se vê a seguir:

— fator 1, “intimacy”, cobre o presente fator PM—1, intimidade e afeto; no presente estudo o fator “intimacy” se desdobra em vários outros; no caso do pai, por exemplo, o fator se subdivide nos fatores P8 (aceitação e respeito) e P11 (receptividade e respeito), além, obviamente, de compor o fator PM —1 ; no caso da mãe, além de compor o PM—1, o fator se divide nos fatores M8 (aceitação e orientação) M 11 (preocupação pelo humano) e M12 (indulgência vs. exigência);

— o fator 2, “law and order”, cobre o de autoridade (fator PM—2);

— o fator 3, “autonomy”, cobre em parte o fator de auto-segurança (PM-4);

— o fator 5, “realism”, cobre o fator de realismo e ação (P9, M9 e M10).

Portanto, dos fatores comuns aos pais, somente o de proteção (fator PM—3) não saiu claro na pesquisa de 1970.

Como no estudo de Tamayo (1970), o presente também verificou uma série de fatores similares, além dos comuns. Por exemplo, “mediatrice” na mãe e “être-pour-l'enfant” no pai são os mesmos do nosso fator PM—1, isto é, intimidade e afeto; “loi “ em ambos os pais e “disciplinaire” no pai correspondem ao nosso fator de autoridade (PM—2); o fator “protection” na mãe é o nosso fator de proteção em ambos os pais (PM—3). Estes fatores Tamayo os encontrou em várias culturas (da Bélgica, Zaire, Colômbia, Indonésia, Filipinas e Estados Unidos da América), o que evidentemente reforça a realidade da invariância dos fatores em questão.

O persistente aparecimento dos mesmos fatores em estudos diferentes, trabalhando com questionários não idênticos (obviamente similares) e em culturas diversas, mostra que vários destes fatores apresentam caráter de invariância. Isto ocorre especificamente com ao menos três dos nossos fatores comuns: intimidade e afeto, autoridade, e proteção. Vários outros fatores aparecem também mas não tão sistematicamente, como é o caso com os fatores de “mente examinadora”, “mente sistemática” e “ação e realismo”. Aliás, isto ocorre bastante frequentemente com os fatores que aqui chamamos de similares e um fator específico em cada figura parental, a saber, ação e realismo no pai e indulgência na mãe.

5.2.2. Validade de construção.

No capítulo 2, ficaram detalhados os passos efetuados na elaboração do presente questionário, visando precisamente garantir validade ao instrumento. Especificamente, houve a preocupação de cobrir representativamente o campo semântico dos conceitos de pais em sua concepção ideal, isto é, os pais, como a literatura empírica e teórica visualizou deverem ser os pais enfim que representassem os almejos profundos da humanidade. Para tal se recorreu principalmente à série de estudos que o “Centre de Psychologie de Ia Religion” vem efetuando na Faculdade de Psicologia e de Educação da Universidade de Lovaina (Bélgica). Através do levantamento desta literatura e outra (cf. cap. 2) procurou-se garantir a máxima cobertura dos conceitos em questão, assegurando assim que o QPI iria medir o que pretendia. As análises semântica e fatoriais deram ao QPI compreensão de conteúdo e consistência interna de estrutura (itens e fatores), eliminando aspectos irrelevantes e inconsistentes.

5.3. Precisão do QPI

A análise da fidedignidade do questionário foi efetuada, através do método “split-half”, por fator dentro de cada figura parental. O método das duas metades se fez por fatores dentro dos quais os itens estavam ordenados em ordem decrescente de valor da carga fatorial. Obviamente, a ordenação dos itens não podia ser feita sobre o comprimento total dos 77 itens porque o QPI não é um instrumento unidimensional, não permitindo por isso misturar aleatoriamente itens de dimensões (fatores) diferentes. Uma ordenação inicial aleatória dos itens, para depois dividi-los em duas metades, também não se justificava quando havia um critério mais preciso e apropriado de divisão do instrumento que eram precisamente os vários fatores do mesmo.

Nesta análise não entraram todos os itens porque no caso de um número ímpar de itens no fator, o item com a carga fatorial mais baixa ficou eliminado por não encontrar par similar.

No caso do pai ideal, o coeficiente de correlação entre duas metades do QPI com 66 itens (33 pares) foi de rxy = 80. Este coeficiente corrigido para o comprimento total do questionário de 77 itens resultou num índice de precisão de rtt = 0,90, altamente significativo4.

Na mãe ideal, o coeficiente de correlação com 38 pares (76 itens) foi de rxy = 0,68 e o índice de precisão de rtt = 0,81, também altamente significativo.

5.4. Utilização do QPI

O QPI pode ser utilizado, com fins clínicos e de pesquisa de grupos, para estudar a percepção que as pessoas tem de seus pais ou de figuras substitutas ou similares, como o conceito de Deus, de esposo (a), parente, etc. Na situação clínica, o perfil de percepção de um indivíduo pode ser comparado com o perfil ideal dos pais (cf. figuras 5.1 e 5.2). Para o caso de estudo de grupos de sujeitos, é preciso primeiramente se estabelecer o perfil de percepção do grupo e compará-lo em seguida com o perfil ideal ou pode-se ainda comparar diferentes perfis de grupos diversos de sujeitos no caso de comparação de grupos.

 

 

5.4.1. Os perfis dos pais ideais.

A figura 5.1 apresenta grafado o perfil do pai ideal e a figura 5.2 o da mãe ideal. Estes perfis resultam da presente pesquisa e expressam a média fatorial dos itens do fator, corrigida pela carga fatorial dos mesmos (cf. cap. 3). Por exemplo, no caso do pai, o fator PM—1 tem o valor de 5,56 e os outros fatores têm os valores apresentados na figura, perfazendo assim o perfil do pai ideal. O perfil de percepção de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos pode ser grafado sobre este perfil ideal e assim as diferenças poderão ser analisadas (cf. 5.4.3).

5.4.2. Obtenção dos perfis de percepção dos pais

Para se estabelecer o perfil de percepção dos pais por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, é necessário se calcular a média do indivíduo ou do grupo em cada fator. A obtenção destas médias é ilustrada na tabela 5.2.

Inicialmente, deve-se atender a que as médias fatoriais podem ser calculadas de dois modos: a média não corrigida e a média corrigida pelas cargas fatoriais dos itens que compõem o fator. O uso da média fatorial corrigida tem talvez mais importância teórica que prática, porque na realidade as médias corrigidas e não corrigidas não parecem diferir substancialmente. A importância teórica da correção foi mostrada no capítulo 3.

As fórmulas para o cômputo destas médias são as seguintes:

 

 

 

 

 

 

 

 

Observe que tal média é simplesmente a soma de uma coluna R da tabela 5,2 dividida pelo número de itens sobre os quais se fez a soma.

B) Média fatorial corrigida:

 

 

onde Σ (Ra) = soma das respostas do sujeito a cada item do fator corrigidas pela respectiva carga fatorial do item;

Σ a = soma das cargas fatoriais dos itens do fator.

Novamente, trata-se da soma de uma coluna Ra da tabela 5.2 dividida por Σ a.

O cômputo da desvio padrão da média fatorial segue a fórmula usual, a saber, para dados não corrigidos é:

 

 

02. Média fatorial de um grupo de indivíduos.

a) Média fatorial não corrigida:

 

 

onde, Σ Mfgo = soma das médias fatoriais não corrigidas de cada indivíduo do grupo.

N = número de indivíduos no grupo.

Observe-se que o primeiro passo no cômputo da média fatorial do grupo consiste em calcular a média fatorial de cada um dos seus membros e em seguida somar estas médias fatoriais individuais e dividir a soma pelo número de indivíduos no grupo.

b) Média fatorial corrigida:

 

 

onde, Σ Mfic = soma das médias fatoriais não corrigidas de cada indivíduo do grupo.

O cômputo da desvio padrão fatorial do grupo deve levar em conta as respostas individuais de cada sujeito: daí, a fórmula é

 

 

Para os dados corrigidos, o cômputo do desvio padrão se faz pela seguinte seguinte fórmula:

 

 

onde Σ (Σ R2) ou Σ [Σ (Ra)2] = soma dos quadrados de cada resposta dos indivíduos, isto é, a soma da linha Σ R2 ou Σ (Ra)2 da tabela 5.2;

(Σ Σ R)2 ou [Σ Σ (Ra)] 2 = soma de todas as respostas dos indivíduos do grupo elevada ao quadrado, isto é, a soma da linha Σ R ou Σ (Ra) elevada ao quadrado, na tabela 5.2

Mn = número de indivíduos no grupo multiplicado pelo número de itens do fator.

Para facilitar o cômputo das médias fatoriais e dos desvios padrões, a tabela 5.3 apresenta os itens que compõe cada fator no pai e na mãe ideal, bem como as respectivas cargas fatoriais.

5.4.3 Diferenças entre médias fatoriais

Para a comparação do perfil de um grupo de indivíduos com o perfil ideal dos pais, é preciso se estabelecer a importância da diferença entre os dois perfis. Uma maneira simples de proceder consiste em verificar se as diferenças das médias fatoriais do grupo com as médias fatoriais do perfil ideal são estatisticamente significativas. Esta comparação se faz entre cada média fatorial isoladamente dos outros fatores e disso resultarão os pontos (os fatores) em que os perfis se distanciam significativamente. A significância da diferença entre duas médias é calculada pela fórmula.

 

 

Esta fórmula estabelece a diferença entre duas médias em termos do erro padrão desta diferença5.

No caso de se tratar de médias não correlatas, como é normalmente a situação quando se quer comparar médias de uma amostra de sujeitos com o perfil ideal dos pais, a fórmula pode assumir a seguinte forma

 

 

onde, M1 e M2 = médias fatoriais do perfil ideal e do grupo de estudo no fator x;

σ M1 e σ M2 = Erros padrões das médias M1 e M2

 

 

 

 

 

Referências

Beauvoir, S. de. Le deuxième sexe. 2 vols. Paris: Gallimard, 1949.         [ Links ]

Bonami, M. Etude différentielle sur Ia correspondence entre les images du père, de Ia mère et de Dieu. Louvain: Université Catholique de Louvain, 1966. Dissertação de mestrado, não publicada.         [ Links ]

Christensen, H. T. (Ed.). Handbook of marriage and the family. Chicago, III.: Rand McNally and Co., 1964        [ Links ]

Coser, R. L. (Ed.). The family: Its structures and functions. New York: St. Martin's Press, 1964.         [ Links ]

Custers, A. en Pattyn, M. — R. Het vadersymbool en het moedersymbool in Godsvoorstelling. Louvain: Universidade Católica de Lovaina, 1964. Dissertação de mestrado, não publicada.         [ Links ]

Durant, W. The story of civilization, IV: The age of faith. New York: Simon and Schuster, 1950.         [ Links ]

Ferenczi, S. Further contributions to psychoanalysis. London: 1927.         [ Links ]

Ferenczi, S. Thalassa. Psychanalyse des origines de Ia vie sexuelle. Paris: Payot, 1962.         [ Links ]

Friedan, B. The feminine mystique. New York: Dell Publ. Co., 1964.         [ Links ]

Glock, C. Y. Images of “God”, images of man, and the organization of social life. Journal for the Scientific Study of Religion, 1972, 11 (1), 1.15.         [ Links ]

Gorsuch, R. L. The conceptualization of God as seen in adjective ratings. Journal for the Scientific Study of Religion, 1968, 7 (1), 56-64.         [ Links ]

Guilford, J. P. and Fruchter, B. Fundamental statistics in psychology and education. 3d ed. New York: McGraw-Hill Book Co., 1973.         [ Links ]

Handel, G. (Ed.). The psychological interior of the family: A sourcebook for the study of whole families. Chicago, III.: Aldine Publ. Co., 1967.         [ Links ]

Harman, H. H. Modern factor ana/ysis. 2d ed. Chicago, III.: The University of Chicago Press, 1967.         [ Links ]

Hunt, R. A. The interpretation of the religious scale of the Allport-Vernon-Lindzey study of values. Journal for the Scientific Study of Religion, 1968, 65        [ Links ]

Likert, R. A technique for the measurement of attitudes. Archives of Psychology, 1932, No. 140.Maslow, A. H. Toward a psychology of being. Princeton, N. J.: D. Van Nostrand Co. 1962.         [ Links ]

Pasquali, L. The parental images and the concept of God. Formulation of an instrument of measure in the psychology of religion. Louvain: Université Catholique de Louvain, 1970. Tese doutoral, não publicada.         [ Links ]

Pasquali, L, Alves de Araújo, J. M. e Costa, M. T. P. M. O pai e a mãe na opinião dos filhos. Validação de um instrumento de medida de atitudes. Brasília: Relatório ao CNPq, 1977.         [ Links ]

Pasquali, L. and Tamayo, A. Symbolization of the image of God by the parental images: Genetic and differential study. Louvain: Université Catholique de Louvain, 1967. Dissertação Mestrado, não publicada.         [ Links ]

Rogers, C. R. et Kinget, M. Psychothérapie et relations humaines: Théorie et pratique de Ia thérapie non-directive. Studia Psychologica. 2 vols. Louvain: Publications Universitaires, 1966.         [ Links ]

Spilka, B., Armatas, P., and Nussbaum, J. The concept of God: A factor-analytic approach. Review of Religious Research, 1964, 6, 28-36.         [ Links ]

Tamayo, A. Structure psychologique des images parentales et leur symbolisme religieux. Etude interculturelle. Louvain: UniversitébCatholique de Louvain, 1970. Tese doutoral, não publicada.         [ Links ]

Vergote, A. Psychologie religieuse. Bruxelles: Ch. Dessart, 1964.         [ Links ]

Vergote, A. Image maternelle et image paternelle. Revue de Psychologie et des Sciences de, Education, 1966-1967, 2 (4), 329-340.         [ Links ]

Vergote, A., Bonamt, M., Custers, A., et Pattyn, M. R. Le symbole paternel et sa signification religieuse. Revue de Psychologie et des Sciences de L'Education, 1966-1967a, 2 (3), 191-213.         [ Links ]

Vergote, A., Tamayo, A., Pasquali, L., Bonami, M., Custers, A., and Pattyn, M. R. Concept of God and parental images. Journal for the Scientific Study of Religion, 1969, 8 (1), 79-87.         [ Links ]

Vergote, A. and Aubert, C. Parental images and representations of God. Social Compass, 1972, XIX, 431-444.         [ Links ]

Vergote, A. et al. Symbolisme de Dieu et des Images Parentales. Louvain: Ed. Nauwelaerts, 1978. No prelo. Freud, S. Trois essais sur Ia théorie de Ia sexualité. Paris: Gallimard, 1923.         [ Links ]

Mitscherlich, A. Society without the father. A contribution to social psychology. New York: Harcourt, Brace and World, Inc., 1969.         [ Links ]

Erikson, E. H. Childhood and society. 2d ed. New York: W. W. Norton and Co., 1963.         [ Links ]

 

 

1 Formato: É despretensioso 1.2.3.4.5.6.7
2 Programa em ALGOL para computador Burroughs. As análises estatísticas foram efetuadas, no Centro de Processamento de Dados da Universidade de Brasília com computador B—6700.
3 Tucker considera congruentes fatores apresentando um phi da ca. 0,95 (Harman).
4 A correção seguiu a fórmula de Spearman– Brown (Guilford and Fruchter, 1973):5.4.1. Os perfis dos pais ideais.
5 É bom lembrar que o erro padrão é:

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License