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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.30 no.spe Brasília Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S1414-98932010000500005 

ARTIGOS

 

Epistemologia, História, e além: reflexões sobre uma trajetória pessoal

 

Epistemology, History and further: reflexions on a personal story of life

 

Epistemología, Historia y más allá: reflexiones acerca de una trayectoria personal

 

 

Luís Claudio Figueiredo*

Pontífica Universidade Católica de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O texto aborda questões relativas à cientificidade e à produção do conhecimento na área da Psicologia resgatando o percurso de pesquisa e docência do autor ao longo de 30 anos. A análise inicia-se na década de 1980, enfocando estudos sobre as matrizes do pensamento psicológico e a arqueologia dos saberes. No que tange à década de 90, o texto comenta estudos sobre a invenção do psicológico e os modos de subjetivação no Brasil: as genealogias das práticas e dos saberes; as memórias sobre textos escritos já no século XXI relatam os primeiros exercícios de leituras desconstrutivas e os desdobramentos posteriores. Por fim, ao tratar de perspectivas, o autor relata o crescimento do interesse pelo que chama de renovação do empirismo, isto é, da reflexão sobre como fazer da experiência uma base para a produção de conhecimentos, seja na experiência da clínica psicanalítica no sentido estrito (o que comporta a leitura de textos, a comunicação e a discussão entre pares), seja na clínica ampliada, fora do consultório, em comunidades ou diante de processos e fenômenos socioculturais.

Palavras-chave: Epistemologia, Pensamento psicológico, Subjetivação, Pesquisa científica.


ABSTRACT

The text refers to science and to knowledge production in psychology, listing the author's research and teaching activities along 30 years. The analysis begins in the 80's and gives an account of the studies on the sources of the psychological thinking and on knowledge archeology. In relation to the 90's, the text explains the studies held on the invention of the psychological and on the ways of subjectivation in Brazil: the practices and knowledge genealogies. The recollection of the texts that were written in the 21st century focus the first exercises of deconstructive readings and its subsequent extensions. Eventually, in relation to perspectives, the author relates the growing interest in what he calls renovation of empirism, that is, the reflection on how to transform experience in a basis for the production of knowledge, either in the psychoanalitical clinic in a strict sense (what includes text reading, communication and discussion with colleagues) or in the extended clinic, out of the office, in communities or in the face of sociocultural processes and phenomena.

Keywords: Epistemology, Psychological thinking, Subjectivation, Scientific research.


RESUMEN

El texto abarca temas relativos a lo científico y a la producción del conocimiento en el área de la psicología y rescata el recorrido de investigación y docencia del autor a lo largo de 30 años. El análisis empieza en la década de 1980, enfocando estudios acerca de las Matrices del Pensamiento Psicológico y la arqueología de los saberes. En lo que tañe a la década de 90, el texto comenta estudios acerca de la invención de lo psicológico y las formas de subjetivación en Brasil: las genealogías de las prácticas y saberes; las memorias acerca de textos escritos ya en el siglo XXI relatan los primeros ejercicios de lecturas no constructivas y despliegues posteriores. Por fin, al tratar de perspectivas, el autor relata el crecimiento del interés por lo que llama de “renovación del empirismo”, es decir, de la reflexión acerca de cómo hacer con que la experiencia sea una base para la producción de conocimientos, ya sea en la experiencia de la clínica psicoanalítica en el sentido estrito (lo cual comporta la lectura de textos, la comunicación y la discusión entre pares), sea en la “clínica ampliada”, fuera de la oficina de consulta, en comunidades o ante procesos y fenómenos socioculturales.

Palavras clave: Epistemologia, Pensamiento psicológico, Subjetivación, Investigación científica,


 

 

Atendendo ao convite dos editores de Psicologia: Ciência e Profissão para dar alguma contribuição às comemorações dos 30 anos da revista publicada pelo Conselho Federal de Psicologia, fui levado a pensar no que andei fazendo ao longo dessas três décadas. O Conselho me solicitava, o que fortalecia essa visada retrospectiva, que me pronunciasse sobre questões relativas à cientificidade e à produção do conhecimento na área da Psicologia. Esse foi, certamente, um dos temas de eleição em todo o meu percurso de pesquisa e docência. Por isso, pedi licença ao Conselho para que, em vez de um texto em moldes estritamente acadêmicos, pudesse aproveitar a ocasião para uma pequena viagem de caráter pessoal. Assim nasceu este trabalho.

 

A década de 80, ou trinta anos atrás

Os estudos sobre as matrizes do pensamento psicológico e a arqueologia dos saberes

Logo após terminar meu doutorado e ministrando a disciplina Teorias e Sistemas no Instituto Unificado Paulista – atual UNIP –, procurava um meio de expor de forma inteligível o campo da Psicologia, com toda a dispersão metodológica e conceitual que comporta, algo um tanto caótico. Comecei, então, a pensar nos grandes quadros de referência epistemológica a partir dos quais as diferentes teorias se organizavam. Dois anos depois, em 1981, já ministrando uma disciplina na Universidade Federal da Paraíba, propus um curso de pós-graduação intitulado As Matrizes do Pensamento Psicológico. À medida que preparava as aulas, durante um semestre letivo, escrevia os doze capítulos. O livro ficou pronto em julho de 1981, mas, durante 10 anos, foi usado apenas por mim e por alguns amigos em algumas grandes universidades, como a USP e a PUC-RJ. Várias editoras se recusavam a publicá-lo alegando sua falta de valor comercial; chegavam a dizer: não haverá muitos professores capazes de usar e adotar esse livro. Finalmente, em 1991, a Vozes o publicou, e, desde então, as várias edições se sucedem (hoje estamos na décima quinta). Posso entender o ocorrido de duas formas: ou as editoras não tinham o menor tino comercial – o que não é provável – ou o panorama no ensino da Psicologia mudou muito, e para melhor. Vinte anos depois do livro publicado e trinta anos depois de escrito, o interesse pelas questões epistemológicas certamente cresceu, e o número de profissionais aptos a adotar o livro em seus cursos de pós-graduação e graduação aumentou bastante. Matrizes do Pensamento Psicológico beneficiou-se com essa mudança e, gostaria de acreditar, contribuiu um pouco para ela, ao menos no nosso campo específico.

Minhas pesquisas sobre as matrizes devem muito, em sua concepção geral, às obras de Michel Foucault, Alexandre Koyré, Georges Canguilhem, Georges Gusdorf, Thomas Khun – a quem devo o conceito de matrizes disciplinares – e a outros que se dedicaram a uma nova historiografia da ciência, modalidade de História em que estão imbricadas questões epistemológicas, conceituais e culturais, no sentido amplo da palavra.

No conjunto, o livro sobre as matrizes, sem se tornar foucaultiano no sentido estrito, inserese no campo das arqueologias dos saberes científicos. Sua principal tese é a de que a produção dos saberes psicológicos precisa ser compreendida em um contexto sociocultural bem específico, o da modernidade madura do século XIX. Nesse contexto, emergem quase que simultaneamente as diversas correntes da Psicologia contemporânea, com suas diferentes concepções básicas do que é a (1) realidade (psicológica e/ou comportamental) a ser conhecida – uma questão ontológica; do que é (2) a condição humana a ser estudada – uma questão antropológica; de (3) como – uma questão de método – tais estudos podem e precisam ser realizados, bem como (4) de com quais critérios de verdade e validação – uma questão epistemológica – devemos trabalhar. Todos esses aspectos estão envolvidos nos projetos de Psicologia, se é que queremos fazer ciência e/ou se é que queremos ser psicólogos. Convém colocar as coisas dessa forma, pois muitos autores achavam, e ainda acham, que temos de nos decidir por um desses polos, ou bem cientistas, ou bem psicólogos. A cada conjunto de opções ontológica, antropológica, metodológica e epistemológica, corresponde determinada matriz do pensamento psicológico, e a cada matriz corresponde uma posição ética no campo sociocultural e político da modernidade madura.

Uma decorrência imediata dessa maneira de ver nossa dispersão e nossa variedade é a de renunciarmos a um critério unificado e absoluto de método científico; na verdade, o que vemos é que não há um critério único e absoluto de cientificidade, sendo que, para algumas das correntes da Psicologia contemporânea, a própria noção de cientificidade não faz nenhum sentido, sem que por isso as práticas sociais e as crenças que lhe são associadas percam valor, eficácia e legitimidade. Deixo claro que essa não é minha posição pessoal, mas isso é o que menos importa quando estamos fazendo um trabalho de historiografia epistemológica, ou melhor, de arqueologia dos saberes psi. Admito, por outro lado, que argumentar contra o metodologismo, uma entronização ao mesmo tempo ingênua e arrogante do MÉTODO, sempre me pareceu necessário para liberar a pesquisa e o pensamento. Assim, mostrar o caráter de pretensão sem fundamento dessa crença nas virtudes do MÉTODO, mostrar seus condicionamentos históricos, sociais e políticos, revelar o quanto de metafísica se esconde por trás desse positivismo de visão tão curta quanto autoritária está, a meu ver, entre os principais méritos do livro de 81/91.

Antes mesmo da publicação de Matrizes..., seguindo, contudo, uma vertente de pesquisa nele já esboçada, enveredei por outros estudos, preparando minha tese de Livre Docência em Psicologia geral na USP.

 

A década de 90

Os estudos sobre a invenção do psicológico e os modos de subjetivação no Brasil: as genealogias das práticas e saberes

Entre 1990 e 1991, dediquei-me a estudar os processos de subjetivação imperantes na modernidade; entre 1500 e 1900, e as formas de subjetividade que aí foram emergindo e que criaram o ambiente e, mais ainda, os objetos que exigiram e possibilitaram a criação de um campo novo de estudos, o da Psicologia como ciência independente e sui generis. O primeiro resultado desse esforço foi o livrinho Psicologia. Uma Introdução, reeditado mais tarde, em colaboração com meu orientando de doutorado Pedro de Santis, com o título de Psicologia. Uma (nova) introdução, publicado pela EDUC em 1991 e já na décima sexta reimpressão, ou seja, ao contrário do Matrizes..., esse livro foi um sucesso imediato. Sinal dos tempos. E no ano seguinte, tão logo ficou pronta, minha tese de Livre Docência foi publicada pela Escuta, em colaboração com a Educ, com o título A Invenção do Psicológico. Quatro Séculos de Subjetivação, hoje na sétima edição.

Se em Matrizes... me aproximava de Foucault pela via da arqueologia, aqui me aproximava de outras obras do mesmo autor pela via das genealogias. Meu propósito era reconstituir os processos históricos que presidiram a constituição do espaço sociocultural e político das psicologias – a tese se intitulava A Gestação do Espaço Psicológico – e dos lugares que, dentro desse espaço, as diferentes psicologias vieram a ocupar. Falar de espaço e de lugares é falar da ética, ou melhor, das posições éticas assumidas pelas diferentes correntes do pensamento e da prática psicológica. Em outras palavras, a ênfase se deslocava do vértice epistemológico para o ético, e a dimensão das práticas, associadas às crenças e conceitos, era focalizada com maior ênfase. Logo em seguida, em 1995, mas no mesmo caminho, publiquei, também pela Escuta, o livro Modos de Subjetivação no Brasil e Outros Escritos.

Mas, após alguns anos de investimento nas pesquisas genealógicas, achei que era necessário, para atender a convites de diversas partes do País, muitos, inclusive provenientes dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Psicologia, onde o livro sobre as matrizes começava a ser lido, retomar a velha questão com os novos elementos e ideias. Um conjunto de pequenos trabalhos foi então publicado pela Vozes, com o título Revisitando as Psicologias. Da Epistemologia à Ética das Práticas e Discursos Psicológicos. Esse livro já teve várias edições (está na quinta), sempre com algum acréscimo, à medida que fazia novas palestras sobre o tema. Considero seus capítulos as melhores introduções aos livros de 81/91 e 92, embora ele tenha vindo – esteja vindo – a partir de 95, pois em Revisitando..., sob diferentes ângulos e focalizando diferentes questões, estão sempre presentes as preocupações arqueológicas e genealógicas, os problemas da epistemologia, da ética e dos processos de subjetivação, as dimensões das práticas e das crenças.

Como antes, o confronto com o metodologismo é muito forte, e, em diversos capítulos do Revisitando..., ao discorrer sobre divergências e convergências em Psicologia, sobre o conceito de cientificidade, sobre a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, sobre a questão do rigor (a que atribuo uma grande importância na luta contra o dogmatismo e o ecletismo), sobre a natureza do conhecimento no campo da clínica psicológica e sobre a pesquisa em Psicologia clínica e em psicanálise, tenho a oportunidade de firmar minha posição a favor de uma produção de conhecimento que vá muito além do cientificismo caricato e de imitação e que leve em conta o que há de específico no campo dos saberes psi.

Mas, ainda no final desse período, com publicação em 1999 e 2000, respectivamente, conduzi meus esforços em outras direções ao produzir o material que veio à luz com os títulos de Palavras Cruzadas entre Freud e Ferenczi, e, em colaboração com meu amigo e colega na USP, Nelson Coelho Júnior, Ética e Técnica em Psicanálise, ambos pela editora Escuta. Mas, para uma apreciação do que se abria para mim nesse momento, vamos ter de esperar pela terceira década de trabalho.

 

Começando o século XXI

Na verdade, o meu século XXI começara ainda um pouco antes, timidamente, quando, em 1994, publiquei Escutar, Recordar, Dizer. Encontros Heideggerianos com a Clínica Psicanalítica. Nesse pequeno ensaio, em uma aproximação com o pensamento de Heidegger, em especial com suas obras das décadas de 40, 50 e 60, procuro lançar alguma luz sobre a problemática ética e teórica da prática clínica da psicanálise. De certa forma, embora com uma inflexão nova e com um foco mais fechado sobre a minha própria posição como profissional da psicanálise, minhas antigas preocupações epistemológicas e éticas estão presentes. O livro Ética e Técnica em Psicanálise, de 2000, segue nessa mesma direção, e é, aliás, entre todos, o meu livro preferido, tendo chegado a uma segunda edição ampliada.

Já o Palavras Cruzadas... resultou de um primeiro exercício de leitura desconstrutiva. Durante vários anos seguidos, nas minhas aulas na pós-graduação em Psicologia clínica da PUC-SP, dediquei-me às leituras desconstrutivas de grandes textos dos grandes autores da psicanálise freudiana e pós-freudiana. De todo esse material – as aulas eram integralmente escritas –, foram publicados apenas trechos, em forma de artigos científicos e, embora não seja diretamente um exercício de desconstrução, também se deveu a esse empreendimento o livro publicado em 2004, em colaboração com Elisa Maria de Ulhôa Cintra, Melanie Klein. Estilo e Pensamento (anos depois, publicamos, na coleção Folha Explica, a convite de Arthur Nestrovski, um volume sobre Melanie Klein). Embora, como disse, não sejam exercícios desconstrutivos, só vieram a ser leituras relativamente originais e renovadoras da obra kleiniana porque foram precedidos pela leitura desconstrutiva já praticada.

Na leitura desconstrutiva, inaugurada pela obra de Jacques Derrida e esposada por outros filósofos e críticos literários, reúnem-se epistemologia, ética, uma noção de clínica ampliada, que abarca textos, instituições e outros fenômenos da cultura, e uma política da antimilitância, isto é, profunda e visceralmente antidogmática. A leitura desconstrutiva dos textos psicanalíticos engajava-me com a clínica em sentido amplo e abrangente, fazendo com que minhas preocupações arqueológicas e genealógicas incidissem diretamente na apropriação dos textos em sua dimensão ativa e retórica. A questão da qualidade e da natureza do conhecimento produzido na e para a clínica e o estatuto dos conceitos e sistemas de pensamento da psicanálise sempre me pareceram decisivos para as práticas do psicanalista. As leituras desconstrutivas de textos psicanalíticos tornaram-se para mim a principal modalidade de fazer contato com o conhecimento já produzido, trazendo-o para o campo das vicissitudes do que se experimenta no próprio sítio de onde ele veio e para onde ele deve retornar, transformado, o lugar da experiência clínica, os lugares do atendimento, das supervisões e dos seminários.

Foi a partir desse lugar que escrevi os textos incluídos nos livros Psicanálise. Elementos para a Clínica Contemporânea (2003, agora em segunda edição) e As Diversas Faces do Cuidar. Novos Ensaios de Psicanálise Contemporânea (2009), ambos pela editora Escuta. Nos ensaios dos dois livros, os temas antigos e novos estão presentes, mas a serviço da produção de conhecimento na área da clínica psicanalítica, em especial a voltada para os atendimentos aos casos difíceis das chamadas novas psicopatologias. A dimensão clínica está profundamente articulada à dimensão cultural, e temas como a confiança e a esperança encontram um lugar de destaque. No livro de 2009, em especial, um capítulo dedicado à lógica do paradoxo, ativa na construção das ideias e práticas da psicanálise, incide diretamente na minha antiga problemática epistemológica e ética de uma forma nova, totalmente afinada com a questão da experiência psicanalítica.

Mas não quero encerrar o relato desse período sem mencionar uma tarefa que me foi encomendada pelo Conselho Federal de Psicologia, o de escrever um volume sobre um dos pioneiros da Psicologia no Brasil com que tive, felizmente, uma larga e proveitosa convivência: Antônio Gomes Penna, não apenas um pioneiro da Psicologia, mas um mestre nos estudos históricos e epistemológicos. Antônio Gomes Penna foi meu professor na UFRJ, e com ele tomei o gosto pelos estudos que vêm me conduzindo até os dias de hoje. A biografia foi publicada em 2002, pela editora Imago.

 

Perspectivas

Como saldo dos trinta anos de percurso, creio haver contribuído para a valorização (paradoxal) da tolerância e do rigor como atitudes necessárias à luta contra o dogmatismo e o ecletismo na produção e na contínua crítica e renovação dos saberes psicológicos. Nessa linha, sinto que participei de um grande momento nos estudos psicológicos em nosso país, um período em que as questões históricas, epistemológicas e éticas ganharam relevo desbancando o metodologismo até então dominante. Reconheço muitos colegas e ex-orientandos seguindo pela mesma trilha, e hoje estou muito bem acompanhado, ao contrário do que vivia no final da década de 70 quanto a esses interesses. Acho importante, neste momento, mencionar algumas orientações de doutorado que me parecem dar continuidade às minhas linhas de pesquisa. Foram dezenas de mestrados e mais de vinte doutorados, em geral muito bons, mas cito cinco trabalhos de tese que são da minha especial estima por terem dado continuidade a trabalhos iniciados por mim: Artur Leal Ferreira – fisgado pelas questões das Matrizes –, Pedro Luiz de Santi, Sidnei Cazeto e Inês Loureiro – fisgados pelas questões da Invenção do Psicológico –, e Talya Candi – na linha dos estudos dos grandes textos e autores da psicanálise. Todos (com exceção da tese do Arthur) foram publicados na forma de livros com apresentações redigidas por mim. São textos curtos, mas que assinalam a importância desses trabalhos nos campos da epistemologia, da História, e além...

No entanto, o que já há alguns anos vem me interessando, e cada vez mais, é o que eu chamaria de renovação do empirismo. A questão que se coloca é a de como fazer da experiência uma boa base para a produção de conhecimentos. No meu caso, trata-se da experiência clínica no sentido estrito (o que comporta a leitura de textos, a comunicação e a discussão entre pares), mas aí também se inclui a clínica ampliada, fora do consultório, em comunidades, por exemplo, ou diante de processos e fenômenos socioculturais. O que o psicólogo faz, principalmente nessas condições, não é jamais a aplicação da teoria. Ainda que existam e nos sejam úteis teorias gerais do funcionamento psíquico individual e coletivo, cabe-nos a tarefa de construir teorias sob medida, articuladas às nossas práticas e enraizadas nas experiências com nossos objetos, em circunstâncias particulares de trabalho. A pesquisa deixa de ser, assim, uma especialidade entre outras para se tornar uma dimensão intrínseca e indispensável de nossa atividade profissional.

Confesso que sempre olhei para os sistemas fechados de crenças de forma bastante desconfiada, nunca simpatizei com ideias excessivamente claras e distintas, mas também tento me manter longe dos hermetismos e das pretensões à coerência inexpugnável, ou seja, desconfio das doutrinas e dos jargões em prol dos processos de teorização que façam contato com as alteridades com as quais nos encontramos ao experimentar, no sentido preciso do termo, o sair fora de si, o andar para fora, pois a experiência, que nunca se completa, se endereça sempre ao outro, aos outros e se faz desses encontros.

Prefiro, enfim, os riscos de pensar a partir da experiência, com tudo que isso contém de surpresas e complexidade, ao enclausuramento defensivo; prefiro o risco de continuar pensando, pesquisando, em vez de me encerrar em minhas próprias convicções. E procuro, venho procurando, por diferentes meios e vias, transmitir essas posições a meus alunos e leitores.

É isso o que tenho no momento a dizer acerca do tema que me foi proposto: a Psicologia contemporânea na perspectiva do desenvolvimento da ciência e da metodologia.

 

 

Endereço para correspondência
Luís Claudio Figueiredo
Rua Alcides Pertiga, 65
CEP 05413-100, São Paulo, SP – Brasil
E-mail: lclaudio@netpoint.com.br

 

 

* Psicanalista, Livre Docente pela Universidade de São Paulo, professor da Universidade de São Paulo, São Paulo – SP - Brasil.

Luís Claudio Figueiredo é psicanalista, professor da PUC-SP e da USP e autor de diversos livros e dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e estrangeiras.

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