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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.33 no.1 Brasília  2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932013000100009 

ARTIGOS

 

Personalidade e reações afetivas à exploração de carreira

 

Personality and emotional reactions to career exploration

 

Personalidad y reacciones afectivas a la explotación de carrera

 

 

Liliana da Costa Faria*

Laureate International Universities

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo pretende avaliar relações entre as dimensões de personalidade e as reações afetivas à exploração de carreira em um grupo de estudantes universitários. A amostra é composta por um total de 115 estudantes universitários, 72 mulheres (63%) e 43 homens (37%), com idades compreendidas entre os 23 e os 65 anos (M= 31.28, DP= 10.58). As medidas utilizadas foram o Inventário de Personalidade NEOPI - R, para avaliar as dimensões de personalidade, e as medidas de satisfação com a informação, stress antecipado com a exploração e stress antecipado com a decisão do Career Exploration Survey, para avaliar as reações à exploração vocacional. A partir dos resultados da análise de regressão, identificou-se uma relação negativa entre a satisfação com a informação e o neuroticismo, e uma relação negativa entre o stress com a decisão e a idade. São discutidas as implicações dos resultados para a intervenção vocacional.

Palavras-chave: Escolha profissional, Personalidade, Comportamento de escolha, Orientação vocacional.


ABSTRACT

This study aims to assess relations between the personality dimensions and the emotional reactions to career exploration in college students. The sample comprised a total of 115 college students, 72 women (63%) and 43 men (37%) aged between 23 and 65 years (M = 31.28, SD = 10.58). The participants completed a measure of personality (NEOPI-R) and a measure of satisfaction with information, anticipated stress with subsequent career exploration, and anticipated stress with subsequent career decision-making (Career Exploration Survey). Regression analysis results indicated a significant negative relation between satisfaction with information and neuroticism, and a significant negative relation between stress with decision and age. Finally, the implications for career interventions are discussed.

Keywords: Ocuppational choice, Personality, Choice behavior, Vocational guidance.


RESUMEN

Este estudio pretende evaluar relaciones entre las dimensiones de personalidad y las reacciones afectivas a la explotación de carrera en un grupo de estudiantes universitarios. La muestra está compuesta de un total de 115 estudiantes universitarios, 72 mujeres (63%) y 43 hombres (37%), con edades comprendidas entre los 23 y los 65 años (M= 31.28, DP= 10.58). Las medidas utilizadas fueron el Inventario de Personalidad NEOPI - R, para evaluar las dimensiones de personalidad, y las medidas de satisfacción con la información, estrés anticipado con la explotación y estrés anticipado con la decisión del Career Exploration Survey, para evaluar las reacciones a la explotación vocacional. A partir de los resultados del análisis de regresión, se identificó una relación negativa entre la satisfacción con la información y el neuroticismo, y una relación negativa entre el estrés con la decisión y la edad. Son discutidas las implicaciones de los resultados para la intervención vocacional.

Palavras clave: Escogimiento profesional, Personalidad, Conducta de elección, Orientación vocacional.


 

 

A partir dos anos 90, o modelo dos cinco fatores de personalidade começou a ser usado por psicólogos de aconselhamento (Tokar, Vaux, & Swanson, 1995; Barrick, Mount, & Judge, 2001; Judge, Heller, & Mount, 2002; Judge & Ilies, 2002; Walsh & Eggerth, 2005), como um quadro para orientar a pesquisa sobre o papel da personalidade na predição de aspectos do desenvolvimento de carreira e do comportamento profissional.

Vários são os estudos que relatam que os traços do modelo dos cinco fatores de personalidade (Costa & McCrae, 1992) apresentam relações consistentes com as variáveis de desenvolvimento de carreira, tais como: os interesses vocacionais (Arbona, 2000; Sullivan & Hansen, 2004; Tokar, Fischer, & Subich, 1998), a identidade e a maturidade de carreira (Holland & Gottfredson, 1994; Holland, Gottfredson, & Baker, 1990; Tokar, et al., 1998), autoeficácia (Larson & Borgen, 2006) e decisão de carreira (Lounsbury, Hutchens, & Loveland, 2005), e com as variáveis de ajustamento profissional, tais como: a satisfação profissional (Furnham, Petrides, Jackson, & Cotter, 2002; Holland & Gottfredson, 1994; Judge, Higgins, Thoresen, & Barrick, 1999; Judge & Ilies, 2002; Judge, Locke, Durham, & Kluger, 1998; Lounsbury, Park, Sundstrom, Williamson, & Pemberton, 2004; Tokar et al., 1998), o desempenho no trabalho (Barrick & Mount, 1991; Judge & Bono, 2001; Judge et al., 1999; Tett, Jackson, & Rothstein, 1991; Tokar et al., 1998), o sucesso profissional (Judge et al., 1999; Seibert, Crant, & Kraimer, 1999) e a satisfação com a vida (Lounsbury et al., 2004).

Estudos mais recentes mostraram também que as características do modelo dos cinco fatores de personalidade são preditivas das dimensões de exploração de carreira (Larson, Wei, Wu, Bailey, & Borgen, 2007; Nauta, 2007; Reed, Bruch, & Haase, 2004). Reed et al. (2004), por exemplo, afirmam que existe uma associação entre a dimensão neuroticismo e a abertura à experiência e à exploração de si próprio, uma associação entre a dimensão abertura e a falta de informação de carreira, e, por fim, uma associação entre as dimensões de conscienciosidade, extroversão e neuroticismo e as dimensões de exploração do meio e o valor instrumental da exploração orientada para si próprio. Por sua vez, Nauta, em um estudo realizado com estudantes universitários, encontrou associações entre duas dimensões da personalidade e a exploração de si próprio. A extroversão foi associada negativamente à autoexploração, e a abertura à experiência foi associada positivamente.

Nesse contexto, o presente trabalho de investigação tem como propósito analisar as possíveis relações entre as dimensões de personalidade do modelo dos cinco fatores de personalidade (Costa & McCrae, 1992) e as reações à exploração do modelo de exploração de carreira de Stumpf, Colarelli e Hartman (1983), de modo a retirar implicações para a prática do aconselhamento vocacional com universitários, tendo em consideração as características pessoais e de desenvolvimento de cada aluno e de grupos específicos de alunos.

 

Dimensões de personalidade

O modelo dos cinco fatores de personalidade (Costa & McCrae, 1992) está entre os modelos de personalidade mais extensamente pesquisados e amplamente aceitos (Lounsbury et al., 2005) na comunidade científica. Vários estudos (Costa & McCrae, 1994; De Raad, 2000; Ten Berge & De Raad, 1999; Tokar et al., 1995) têm verificado a estrutura fatorial e a validade do modelo dos cinco fatores de personalidade em uma ampla variedade de culturas, grupos étnicos e demográficos.

O modelo é composto por cinco fatores de personalidade no qual os indivíduos podem ser caracterizados em cinco dimensões, a saber: (a) neuroticismo – representa a tendência geral para experienciar afetos negativos como tristeza, medo, embaraço, raiva, culpabilidade e repulsa, (b) extroversão – avalia a quantidade e a intensidade das interações interpessoais, o nível de atividade, as necessidades de estimulação e a capacidade para exprimir a alegria, (c) abertura à experiência – avalia a apreciação da vivência pela experiência em si, a procura proativa, a tolerância e a exploração do não familiar, (d) amabilidade – avalia a qualidade da orientação interpessoal em um contínuo que vai desde a compaixão ao antagonismo nos pensamentos, sentimentos e ações, e (e) conscienciosidade – avalia o grau de organização, persistência e motivação no comportamento orientado para um determinado objetivo (Costa & McCrae, 1989; Hogan & Ones, 1997; McCrae & Costa, 1992, 1996, 1999).

 

Reações de exploração de carreira

O modelo de exploração de carreira de Stumpf et al. (1983) é um modelo integrativo do processo de exploração de carreira que enfatiza as dimensões cognitivo-motivacionais. A exploração é entendida como um processo que implica ação consciente do indivíduo sobre o meio baseada em cognições e crenças sobre ocupações, empregos e organizações. Esse é um modelo hierárquico que apresenta três componentes principais: as crenças, os comportamentos abertos e as reações afetivas. As crenças dizem respeito às perceções dos indivíduos sobre o mercado de trabalho, e os comportamentos abertos de exploração dizem respeito ao grau de exploração de profissões, empregos, organizações e exploração pessoal e de retrospecção, intencional e sistemática, bem como à quantidade de informação obtida. As reações afetivas à exploração de carreira, por sua vez, incluem as reações de satisfação com a informação obtida com as atividades de exploração de carreira e o stress antecipado, por comparação com outros acontecimentos de vida relacionados com as atividades de exploração e com as atividades de decisão vocacional.

Stumpf et al. consideram, por um lado, que, se a qualidade e a quantidade de informação analisada pelos sujeitos for desajustada do ponto de vista do seu desenvolvimento cognitivo, social e vocacional, bem como em termos do seu nível de interesse e de expectativas, pode surgir insatisfação como resultado da exploração (Taveira, 1997). Estudos demonstram a existência de correlações positivas entre a ansiedade e a indecisão, relacionada com a falta de informação e com as barreiras percebidas em relação à escolha (Fuqua, Seaworth, & Newman, 1988; Mojgan, 2011). Por outro lado, os indivíduos, quando sentem indecisão quanto aos produtos da exploração de carreira, podem reagir com stress e ansiedade. Ora, esse stress e ansiedade experienciados poderão colocar em causa quer os comportamentos exploratórios futuros, quer as crenças acerca da sua utilidade como meio de alcançar os objectivos desejados (Taveira, 1997). Crites (1974) sugeriu que altos níveis de ansiedade podem dificultar a tomada de decisões de carreira e de desenvolvimento eficazes.

 

Metodologia

Participantes

A amostra de conveniência é composta por 115 estudantes de graduação, de um instituto de ensino superior privado português, inscritos pela primeira vez no primeiro e no segundo anos dos cursos de Psicologia, Gestão de Recursos Humanos e Gestão de Empresas, no ano letivo 2010/2011.

Dos 115 estudantes, 72 são mulheres (63%) e 43 são homens (37%), com idades compreendidas entre 23 e 65 anos, com um valor de moda de 25 e valor médio de 31,28 anos (D.P.=10.58), com estatuto socioeconómico médio-alto. De referir que o fato de a amplitude etária ser muito grande, está relacionada com a Lei de Bases do Sistema Educativo Português, que consagra o direito ao acesso ao ensino superior a indivíduos que, não estando habilitados com um curso secundário ou equivalente, façam prova de capacidade para a sua frequência, permitindo, assim, a candidatura ao ensino universitário e politécnico, público e privado aos candidatos que completem 23 anos até o dia 31 de dezembro do ano que antecede a realização das provas, e a todos os maiores de 23 anos que não tenham habilitação de acesso para o curso pretendido (Santos Silva & Nascimento, 2010).

A Tabela 1 apresenta a distribuição da amostra em função das variáveis sociodemográficas e do ano de escolaridade.

 

 

Instrumentos de medida

As medidas utilizadas foram o Inventário de Personalidade NEOPI – revisto: (NEOPI-R, Costa & McCrae, 1992, versão adaptada por Lima, 1997), para avaliar as dimensões de personalidade, e as medidas de satisfação com a informação, stress antecipado com a exploração e stress antecipado com a decisão do Career Exploration Survey CES (Stumpf et al., 1983, versão adaptada por Taveira, 1997) para avaliar as reações à exploração vocacional.

O NEOPI-R, na sua versão adaptada, é constituído por 60 itens, em formato likert (escala de cinco categorias de resposta, variando de discordo fortemente para concordo fortemente), organizados em cinco dimensões: neuroticismo (N), extroversão (E), abertura à experiência (O), amabilidade (A) e conscienciosidade (C). Por meio da descrição do posicionamento do sujeito nas cinco dimensões, obtém-se um esquema abrangente, que sintetiza o seu estilo emocional, interpessoal, experiencial, atitudinal e motivacional (Lima & Simões, 2003). Com base em Lima (1997), a versão portuguesa do NEOPI-R mede as mesmas dimensões da personalidade que a versão americana, apresentando boas características psicométricas. Lima relatou alfas de 0.86, 0.75, 0.76, 0.72 e 0.84 para as dimensões de neuroticismo, extroversão, abertura à experiência, amabilidade e conscientização, respectivamente.

O CES na sua versão adaptada apresenta três componentes principais, as crenças, os comportamentos e a reações à exploração. Assim, as crenças de exploração são constituídas pelas escalas Estatuto de Emprego, Certeza nos Resultados da Exploração, Instrumentalidade Externa e Instrumentalidade Interna. Por sua vez, os comportamentos de exploração caracterizam-se pelas escalas Exploração do Meio, Exploração de Si Próprio/a, Exploração Sistemática Intencional, Quantidade de Informação e Importância de Obter a Posição Preferida. Finalmente, as reações afetivas, que são focadas neste estudo, são compostas pelas escalas Satisfação com a Informação (SI), Stress na Exploração (SE) e Stress na Decisão (SD). Esse instrumento é composto por um total de 54 itens, de autorrelato, 53 dos quais são de resposta tipo Likert, cujo valor de resposta varia entre 1 (muito pouca/ muito poucas vezes/probabilidade muito baixa/tensão mínima) e 5 (muitíssima/muito poucas vezes/ probabilidade muito baixa/ tensão mínima), nos itens 1 ao 43, ou 7 nos itens 44 ao 53. O último item permite aos sujeitos indicar o número de domínios profissionais explorados até ao momento. O estudo de análise fatorial confirmatória do CES realizado por Taveira permite evidenciar a robustez desse modelo de doze dimensões consistentes de exploração vocacional, para ambos os sexos, com uma precisão de medida, obtida pelo alpha de Cronbach, entre 0.63 e 0.86 (Taveira, 1997), tendo sido demonstrada, também, quer a validade discriminante da medida (em relação com medidas de indecisão e identidade vocacional), quer a sua estabilidade temporal (dois meses). Outros estudos que utilizam esse instrumento têm provado a fidelidade e a validade do mesmo (Afonso, 2000; Faria, 2008).

 

Procedimentos

Por questões relacionadas com a facilidade antecipada de coleta de dados, foi selecionado um instituto de ensino superior privado português. Para a seleção dos participantes, utilizou-se o método de conveniência. A participação de todos os sujeitos no estudo foi voluntária e informada, e a administração das medidas foi realizada em contexto de turma, mas o preenchimento foi individual. Foram garantidas as questões do anonimato e da confidencialidade da informação fornecida, observando que ela seria usada apenas para fins de investigação científica. De referir que não foi feita qualquer submissão a Comitê de Ética, dado não ser um padrão requerido em Portugal.

Todos os dados foram inseridos e analisados no programa Statistic Program for Social Sciences(SPSS; versão 18.0 para Windows).

 

Resultados

Estatística Descritiva e Análise de Diferenças

Pela leitura da Tabela 2, podemos observar que, no nível da distribuição dos resultados na amostra, os valores de personalidade obtidos oscilam entre os valores obtidos na dimensão neuroticismo (M= 35.14; DP= 5.15) e os alcançados na dimensão conscienciosidade (M=41.56; DP=4.03). Por seu lado, os resultados nas dimensões de exploração vocacional oscilam entre os valores obtidos na dimensão de SI (M=8.38; DP= 2.33) e os alcançados na dimensão SD (M=15.50; DP=9.96).

 

 

Esses resultados, bem como a dispersão das respostas nas demais subescalas, corroboram a amplitude teórica esperada. Além disso, verificou-se a existência de uma diferença estatisticamente significativa ao nível das dimensões SI (t-2.314; p<.05), favorável aos homens, e, nas dimensões SE (t=2.120; p=<.05) e SD (t=1.978; p=<.05), favorável às mulheres (mulheres com maiores níveis de stress).

 

Análise das relações

A leitura da Tabela 3 permite-nos verificar que os valores do grau de fidelidade das reações à exploração e às dimensões de personalidade obtidos através do método da consistência interna com recurso ao coeficiente Cronbach oscilam entre .744 e .930, e .744 e .862, respectivamente, pelo que se pode concluir que as escalas possuem consistência interna, possibilitando a continuação do estudo através dessas medidas. No aprofundamento do conhecimento das associações entre as reações à exploração vocacional e a personalidade, procedeu-se à análise das correlações entre as duas dimensões psicológicas em estudo.

 

 

Relativamente à análise correlacional, efetuada com recurso ao estudo dos coeficientes de correlação de Spearman, a leitura da Tabela 3 permite verificar que a dimensão neuroticismo está associada de modo estatisticamente significativo às reações à exploração de carreira, revelando correlações negativas a SI (r=-.195) e correlações positivas com o SE (r=.245) e SD (r=.277). Por sua vez, a dimensão amabilidade revela correlações positivas com a subescala SD (r=.212). As dimensões de personalidade extroversão, conscientização e abertura à experiência parecem não apresentar associações estatisticamente significativas com as reações à exploração de carreira.

De modo a aprofundar o estudo das relações entre as dimensões de personalidade e as reações à exploração de carreira, realizou-se uma análise do poder preditivo – equação de regressão hierárquica múltipla – na qual se procurou avaliar o impacto das variáveis demográficas sexo e idade, bem como das cinco dimensões da personalidade nas reações de exploração de carreira.

A Tabela 4 permite-nos verificar que a dimensão idade prediz de modo significativo o SD (ß= -.267; t= -2.715; p < .01). Essa relação é negativa, o que indica que níveis superiores de stress com a decisão se relacionam com a menor idade dos sujeitos. Por sua vez, verifica-se que o neuroticismo prediz de modo significativo a SI (ß= -.228 t= -2.063; p < .05). Essa relação também é negativa, o que indica que níveis superiores de satisfação com a informação se relacionam com menores índices de neuroticismo.

 

 

Discussão

Tal como referenciado na literatura vocacional (Jordan, 1963 como citado em Taveira, 1997), a exploração vocacional realizada pelos participantes deste estudo parece ter suscitado reações de stress sobretudo quando a fonte de informação principal foi o self, ou seja, o avaliar-se e questionar-se, em termos de interesses, capacidades e valores, face ao mundo escolar e profissional, parece ter sido experienciado como uma atividade nova e ameaçadora para os participantes deste estudo. Também, tal como em outros estudos realizados (Betz & Fitzgerald, 1987; Fouad & Spreda, 1995; Luzzo, 1995; Patton & Creed, 2002; Faria, 2008), na amostra em estudo, foi possível identificar diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres quanto às reações de exploração de carreira. Neste estudo, verificou-se que as mulheres apresentam níveis mais elevados que os homens de stress antecipado, por comparação a outros acontecimentos de vida relacionados com as atividades de exploração e com as atividades de decisão vocacional. Já os homens parecem ter mais satisfação relacionada com a exploração vocacional. Esses resultados parecem demonstrar que as mulheres, fruto da ansiedade experienciada no processo de exploração vocacional, são mais suscetíveis a condicionamentos dos comportamentos exploratórios futuros e das crenças acerca da utilidade desses comportamentos como meio de alcançar os objetivos desejados (Greenhaus & Sklarew, 1981 como citado em Taveira, 2000). Esses dados chamam atenção para a relevância da compreensão das diferenças relacionadas com o género nos processos de escolha de carreira e de construção de projetos de vida. Desse modo, ressalta-se, como uma implicação para a prática, que esse conhecimento é importante para os serviços de orientação e para orientadores vocacionais/ profissionais, e pode contribuir para o desenvolvimento de práticas e de intervenções nas áreas mais adequadas às características dos jovens de ambos os sexos (Faria, Taveira, & Saavedra, 2008; Gottfredson, 2002; Saavedra, 2005), através do recurso, por exemplo, de instrumentos de avaliação do self sensíveis às questões de género na exploração da carreira (Sue & Lam, 2002).

Os resultados deste estudo demonstram, igualmente, que apenas as dimensões de neuroticismo e amabilidade apresentam correlações significativas com as reações à exploração de carreira. A dimensão neuroticismo apresenta correlações negativas com a SI e correlações positivas com o SE e SD, e a dimensão amabilidade revela correlações positivas com o SD. Assim sendo, parece que níveis superiores de SI se relacionam com menores índices de neuroticismo, e níveis superiores de SE e SD se relacionam com maiores índices de neuroticismo. Esses resultados são consistentes com a descrição da dimensão neuroticismo, que se encontra de forma mais acentuada em indivíduos preocupados, nervosos, emocionalmente inseguros, hipocondríacos, com propensão para a descompensação e para ideias irrealistas, desejos e necessidades excessivos e respostas de coping inadequadas (Costa & McCrae, 1992; McCrae & Costa, 1999), e são identicamente consistentes com os estudos que demonstram relações entre os traços de personalidade e a exploração de carreira (Nauta, 2007; Reed et al., 2004).

Os resultados confirmam a existência de uma relação negativa significativa entre os níveis de SI e a dimensão de personalidade neuroticismo. O neuroticismo explica, ainda, o fato de haver apenas 23% (6% no R2 ajustado) nos níveis menos elevados de SI. Esse resultado pode indicar que, no grupo de participantes estudado, a satisfação com a informação resulta, em parte, das características de personalidade do sujeito.

Confirma-se também que existe uma relação negativa significativa entre os níveis de SD e a idade dos participantes. O stress gerado na decisão vocacional explica, ainda, o resultado de apenas 27% (13% no R2 ajustado) nos níveis de stress experienciados com a tomada de decisão vocacional dos alunos. Esses resultados corroboram o esperado, tendo por base a teoria e a investigação empírica da exploração vocacional, que evidencia a perceção como um fator importante e necessário ao desenvolvimento vocacional, que traz consequências mais diretas na tomada de decisão (Faria, 2008; Jordan, 1963), bem como dos estudos que demonstram que a ansiedade parece não ser um traço da personalidade no processo de exploração (Vignoli, Croity-Belz, & Garcia, 2005 como citado em Jidovanu & Taveira, 2010).

A quantidade de variância nas reações à exploração de carreira prevista pelo modelo dos cinco fatores de personalidade, embora pequena, é significativa o suficiente para sugerir que os psicólogos de aconselhamento devem considerar o uso desse modelo nas atividades de aconselhamento de carreira. Essa abordagem pode ser uma ferramenta útil para os psicólogos, na medida em que pode permitir a identificação dos estilos de personalidade do cliente, bem como das forças e das fraquezas que o indivíduo traz para o processo de exploração, de modo a facilitar o seu desenvolvimento de carreira (Costa, McCrae, & Kay, 1995; McCrae & Costa, 1996). Se um cliente apresenta índices elevados na dimensão neuroticismo, por exemplo, o psicólogo deverá avaliar o grau de stress e ansiedade que podem influenciar o processo de exploração e a consequente tomada de decisão (Mojgan, 2011).

 

Conclusões

Os resultados supramencionados vão de encontro ao esperado e atendem ao corpo teórico apresentado, bem como justificam a prossecução dos estudos nesse domínio. No entanto, é preciso tomar algumas providências com o objetivo de garantir a validade desses resultados. Dessa forma, gostaríamos de mencionar algumas limitações que existiram nesta investigação: 1º – a amostra foi composta só por alunos universitários, e é necessário recriar o estudo incluindo também amostras mais alargadas, com indivíduos oriundos de outros grupos demográficos, sociais e culturais e de outras instituições, 2º – atendendo que a amostra era composta só por estudantes universitários, teria sido valioso ter dados referentes a alunos de mestrado e de doutoramento, 3º – é necessário repetir o estudo em uma ótica longitudinal, de forma a obter resultados mais fidedignos.

Embora as limitações do estudo realizado não permitam generalizações, consideramos que este estudo poderá contribuir para a sensibilização dos psicólogos no que diz respeito à importância da utilização de instrumentos válidos e adequados às questões de género, da pesquisa empírica, para eficácia da intervenção, bem como com linhas orientadoras para que a intervenção no domínio vocacional dê mais enfoque e/ ou considere as reações emocionais dos clientes, pois estas poderão estar na base de bloqueios na decisão. Assim, no contexto do aconselhamento de carreira, deverão ser consideradas as reações afetivas nos momentos de atividade exploratória, no sentido de facilitar o processo de tomada de decisão, melhorando, dessa forma, a qualidade dos serviços prestados.

 

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Endereço para correspondência
Liliana da Costa Faria
ISLA Campus Lisboa. Laureate International Universities. Quinta do Bom Nome, Estrada da Correia, 53. CEP: 1500-210. Camide, Portugal
E-mail: lilianafaria@delphis.com.pt

Recebido 08/12/2011
1ª Reformulação 30/03/2012
Aprovado 15/10/2012

 

 

* Docente ISLA Campus Lisboa. Laureate International Universities, Lisboa – Portugal. E-mail: lilianafaria@delphis.com.pt

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