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Psicologia: Ciência e Profissão

versão impressa ISSN 1414-9893versão On-line ISSN 1982-3703

Psicol. cienc. prof. vol.38 no.1 Brasília jan./mar. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-37030004312016 

Artigo

Para uma Concepção Discursiva dos Afetos: Lacan e a Semiótica Tensiva

For a Discursive Approach of Affect: Lacan and Tensive Semiotics

Para una Concepción Discursiva de los Afectos: Lacan y la Semiótica Tensiva

Tiago Ravanello1 

Tiago Ravanello

Professor Associado da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, MS, Brasil. Pós-Doutorando pelo Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo, SP. Brasil.

E-mail: tiagoravanello@yahoo.com.br

Christian Ingo Lenz Dunker2 

Christian Ingo Lenz Dunker

Psicanalista. Professor Titular do Instituto de Psicologia no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo, SP. Brasil. Livre-docente em Psicologia Clínica e Pós-Doutor pela Manchester Metropolitan University, Reino Unido.

E-mail: chrisdunker@usp.br

Waldir Beividas3 

Waldir Beividas

Professor Livre-docente no Departamento de Linguística (Graduação) da Universidade de São Paulo, SP. Brasil. Professor do Programa de Pós-Graduação em Semiótica e Linguística Geral e Pós-Doutor pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris – França.

E-mail: waldirbeividas@gmail.com

1Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, MS, Brasil

2Universidade de São Paulo, SP, Brasil

3Universidade de São Paulo, SP, Brasil

Resumo

Buscamos, com esse artigo, apresentar como determinadas teses gerais de Lacan sobre a linguagem podem também nos fornecer e corroborar elementos para uma abordagem discursiva do afeto como alternativa aos projetos de sua redução biológica. O procedimento realizado foi o operar um diálogo entre a teoria lacaniana do significante e a semiótica tensiva para, a partir dos conceitos psicanalíticos de sujeito e Outro, e os semióticos de intensidade e extensidade, delimitar diretrizes para reposicionar o afeto, em sentido restrito, e o ponto de vista econômico, em sentido amplo. Como resultado, defendemos uma releitura no campo lacaniano do conceito de afeto enquanto engajamento, na qual o significante atua em termos de uma semiose que instaura formas de relação entre corpo, sujeito e linguagem sem necessidade de lançar mão de referentes biológicos.

Palavras-chave Psicanálise; Semiótica; Afeto; Lacan

Abstract

We seek through this article how certain general thesis of Lacan on language can also provide and support elements to a discursive approach of affection as an alternative to its biological reduction projects. The procedure performed was proposing a dialogue between the Lacanian theory of the signifier and the tensive semiotics starting from the psychoanalytic concepts of subject and Other, and the semiotic concepts of intensity and extensity, quoting guidelines to reposition the affections, in the strict sense, and the economic point of view, in a broad sense. As result, we propose a re-reading in the Lacanian field of affection as engagement, in which the signifier works in terms of semiosis, which establishes rapport forms between body, subject and language without having to make use of biological referents.

Keywords Psychoanalysis; Semiotics; Affection; Lacan

Resumen

Buscamos, con este artículo, presentar cómo determinadas tesis generales de Lacan sobre el lenguaje también pueden suministrar y corroborar elementos para un abordaje discusivo del afecto como alternativa a los proyectos de su reducción biológica. El procedimiento realizado fue el operar un diálogo entre la teoría lacaniana del significante y la semiótica tensiva para, a partir de los conceptos psicoanalíticos de sujeto y Otro, y los semióticos de intensidad y extensión, delimitar directrices para reposicionar el afecto, en sentido restricto, y el punto de vista económico, en sentido amplio. Como resultado, defendemos una relectura en el campo lacaniano de la concepción de afecto como compromiso, en la cual el significante actúa en términos de una semiosis que instaura formas de relación entre el cuerpo, el sujeto y el lenguaje sin necesidad de hacer uso de referentes biológicos.

Palabras-chave Psicoanálisis; Semiótica; Afecto; Lacan

Introdução

Se em Freud havia o desafio de, a partir das concepções de cunho quantitativo, fazer derivar uma concepção propriamente discursiva e qualitativa para o afeto (Beividas, & Ravanello, 2009), em contrapartida, o tratamento da obra lacaniana nos coloca o problema inverso: das várias contribuições ao tema da linguagem, lançar as bases para o afeto e para o registro do intensivo no interior do universo discursivo. No caso, a intenção epistemológica de Lacan, desde seus primórdios, notadamente apontou para o predomínio de hipóteses ligadas ao campo da linguagem em detrimento de explicações biologizantes ou substancialistas. Porém, se Lacan fortaleceu a importância dada aos fenômenos da linguagem a partir de seu percurso, guiado pela tese principal da estrutura do inconsciente enquanto tal, por outro lado, não foram poucas as críticas como as de André Green (1982) e Laplanche de que ele acabou por calar-se a respeito do afeto. Logo, o problema é delimitar uma nova compreensão do afeto em psicanálise na qual ele não seja pensado como mero epifenômeno em exterioridade com a linguagem.

Ao retomar a contundente afirmação de Lacan no seminário 20 de que não há realidade pré-discursiva1, o que por si só já restringe os limites para a busca, Gori e Hoffmann (1999) apresentam duas alternativas: ou bem a psicanálise tenderia a uma versão “mentalista”, identificando assim fala e linguagem a estados mentais determináveis, o que reforçaria a reconstrução dos estados afetivos pela via de uma metafísica naturalista, ou bem a psicanálise deveria recorrer à vertente por eles designada como “pragmática” ao supor que “não existe outra causalidade senão aquela determinada pela estrutura formal do discurso” (p. 380-1). Trata-se, portanto, antes mesmo de uma versão pragmática, de uma leitura propriamente imanentista, isto é, intrínseca a uma abordagem na imanência do discurso.

É nesse sentido que Lacan nos aponta os limites do discurso na prática da psicanálise “mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidência, ele afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, ele especula com a fé no testemunho” (Lacan, 1953/1998, p. 253). Frequentemente se reduz a hipótese do inconsciente estruturado como uma linguagem ao superidealismo linguístico no qual “tudo é linguagem verbal”. Que os fatos psíquicos sejam invariavelmente semiotizados, seja na esfera consciente, seja na inconsciente, disso não decorre que esta semiótica comporte a noção tradicional de estrutura. A regra fundamental da psicanálise adquire, desse modo, estatuto de postulado epistemológico: é vital que se diga tudo o que vier à mente porque tudo o que for proveniente do discurso promove um encontro forçoso com a verdade, pois, é justamente nos interstícios do saber que ela se situa.

No que concerne à temática do afeto, a crítica torna-se ainda mais relevante e encontra ecos no questionamento feito por Derrida (1967/2009) sobre o logofonocentrismo2 da filosofia clássica – de Platão a Hegel – e o recurso metafísico implícito na concepção de “representação” da realidade. Logo, para evitar a atitude metafísica de redução do afeto a um a priori natural em suas diversas roupagens (definido como energética, quantidade ou descarga de excitações endógenas, como querem os críticos do lacanismo em nome de uma suposta ortodoxia) e, ainda, não recair na posição contrária e igualmente reducionista de identificar o campo da linguagem exclusivamente à fala, buscamos a delimitação do afeto em sentido amplo e que pode ser derivada da obra lacaniana através de uma abordagem diferenciada da cisão subjetiva. Seguindo a premissa lançada por Lacan de que “[…] o sujeito é dividido pela linguagem como em toda parte, mas um de seus registros pode satisfazer-se com a referência à escrita, e o outro, com a fala” (1971/2003, p. 24), prosseguiremos o texto com vistas ao desenvolvimento de duas hipóteses norteadoras: (1) tanto a teoria do significante quanto a concepção de letra – já em seus primórdios (Lacan, 1957/1998), mas principalmente em seu desdobramento em textos como Lituraterra (1971/2003) e O Aturdito (1973/2003) – permitem o diálogo com teorias da linguagem em termos de uma semiotização do afeto; e (2) mesmo tendo como parâmetro diferenças significativas quanto a sua formalização, ambas concepções encontram na semiótica tensiva uma interlocução que sustenta a pertinência de uma concepção discursiva de afeto.

Muito embora a compreensão em sobrevoo da obra lacaniana operada por autores como Laurent (1997), Fink (1998) e Milner (1996) tenha delimitado uma divisão bipartite de formalizações de seu ensino, opondo um primeiro Lacan – o “linguístico”, de orientação saussureana – a um segundo – o “lógico”, com inspiração em Frege – e tenham, igualmente, destacado uma ruptura entre as duas metades do percurso que indicariam uma suposta superação e/ou desenvolvimento em sentido cronológico e progressivo, reiteremos a hipótese de que tanto a investigação pela via do significante quanto pelo encaminhamento tomando a letra como aspecto central, no que diz respeito especificamente ao conceito de afeto, apontam para a possibilidade de semiotização do afeto no campo lacaniano como recurso último ao reducionismo biologizante que impregna as leituras pós-freudianas e as aproximações mais recentes da psicanálise com o campo das neurociências.

Uma abordagem discursiva do afeto

Uma abordagem que se quer discursiva quanto ao tema do afeto deve, portanto, oferecer elementos que permitam a compreensão dos mecanismos que visam dar conta da economia psíquica no campo da linguagem, ou, para mantermos os termos, da semiologia clínica à semiotização conceitual do ponto de vista econômico. Não se trata apenas da substituição de uma referência orgânica para esquemas linguísticos, como a substituição de objetos a serem metaforizados pela teoria psicanalítica, mas sim, como podemos ver no posicionamento de Lacan frente ao tema, de uma rigorosa reordenação metodológica dos conceitos relativos aos afetos.

Seja assintoticamente, seja indiretamente, o conceito de afeto na obra de Lacan remete constantemente a uma espécie de engajamento subjetivo. Sob este termo condensamos as teses pelas quais a delimitação do afeto passa pela relação entre sujeito e alteridade, fazendo da interação o vínculo entre corpo e linguagem. Daí, por exemplo, as teses de que “os afetos são sempre recíprocos” ou “os afetos são sempre mentirosos”. É nesse sentido que lemos o seguinte trecho de seu seminário sobre O avesso da psicanálise: “Julgo possível determinar isto, especialmente a partir do discurso psicanalítico. Com efeito, a partir desse discurso não há senão um afeto, ou seja, o produto da tomada do ser falante num discurso, na medida em que esse discurso o determina como objeto” (Lacan, 1969-1970/1992, p. 143). Tomado por uma via discursiva, o afeto define-se como a inevitável apreensão das operações da linguagem pela qual o ser falante passa ao ser captado em diferentes linhas discursivas, em isotopias de discurso e implicações subjetivas.

Mais que um simples influxo energético segundo sua concepção corrente no campo freudiano, o afeto é assim delimitado no interior de mecanismos de linguagem inerentes a sua relação com o outro e com seu próprio corpo que, por sua vez, são igualmente definidos nessa mesma dinâmica. O postulado lacaniano de que não há realidade pré-discursiva recupera o seu sentido em meio ao caráter imanente de tal proposição: a realidade psíquica se constitui justamente no exercício da linguagem. Por essa razão, Lacan enuncia que “desde sempre, os objetos estão, se assim me posso exprimir, significantizados” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 263). Não há realidade anterior ao surgimento do significante como mediador nem quanto ao Outro, nem mesmo na relação entre o psíquico e o corpo, pois, ambos são submetidos aos efeitos de linguagem então determinantes. Não obstante, a realidade não é o Real, e o único índice subjetivo do Real é a angústia, ou seja, uma espécie de matriz fundamental dos afetos, do qual todos os outros são variações, deformações e supressões. O objeto a, o objeto condicional da angústia, corrobora nossa hipótese de que há um persistente apelo em Lacan a ao engajamento subjetivo envolvido nos afetos.

Mesmo o objeto mais primordial – o “objeto materno”, em toda sua amplitude e generalidade – somente entra na consideração dos fatos psíquicos através dos procedimentos discursivos que o tornam “moeda do desejo do Outro”. Para tanto, Lacan faz uso da expressão de “signos constitutivos”, muito semelhantemente ao encaminhamento que anos mais tarde dará ao seu “significante mestre” – o S1 – como aqueles, “através dos quais a criação do valor é assegurada, através dos quais esse algo de real que é implicado a todo instante nessa economia é atingido pela bala que faz dele um signo” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 263). Importante notar como a interação com o Outro permite a Lacan não somente formular uma noção de economia psíquica submetida ao significante e à linguagem, como também daí derivar uma nova postura epistemológica para a teoria psicanalítica, independentemente de reduções a estados transcendentais anteriores ao acesso via discurso. Lembremos que na construção de seu Grafo do Desejo, Lacan parte de uma posição mítica do sujeito (designada pela letra delta) que se encontra com a cadeia significante, representada pelo eixo que vai do significado do Outro [s (A)] ao Outro [A], ou do significante à voz (Lacan, 1957-1958/1999, p. 353). Esta “entrada na linguagem” representada pela passagem de delta ao campo do Outro [A] é intermediada pelo circuito imaginário que vai do eu [m] à sua imagem especular [i(a)]. Tendo em vista que o campo do imaginário do narcisismo se caracteriza por duas paixões fundamentais, a agressividade (ódio) e a fascinação (hipnotismo amoroso), se confirma a imagem do “engajamento” do sujeito pelos afetos. A substância “mítica”, a “libra de carne” perdida, implica o sujeito na linguagem, atravessando o campo dos afetos.

Na definição dos objetos como inevitavelmente subordinados à ordem da cadeia significante podemos evidenciar a relevância dada por Lacan, principalmente durante a década de 1950, ao aspecto epistemológico tomado de empréstimo à linguística e que aqui designamos como semiotismo imanente. Tal aspecto, crucial na formação das bases teóricas do lacanismo e de suas teses sobre o discurso, consiste justamente na defesa de uma postura epistemológica que situa a linguagem como determinante tanto na compreensão dos fatos psíquicos e de sua economia, quanto na apreensão dos objetos externos. Contudo a linguagem faz três funções no ensinamento lacaniano deste período: (1) ela permite importar um método, o método estrutural, para a análise do inconsciente; (2) ela implica uma solução provisória para o problema ontológico representado pelo inconsciente; e (3) ela define uma epistemologia compatível com a noção de sujeito, naquele momento em desenvolvimento. Assim, sob a égide do significante, Lacan nos propõe uma saída heurística para a questão fundamental do tema outrora definido por Freud como o do mundo exterior (Freud, 1924/1996a,b). Para Lacan, a função primordial do significante é precisamente a de desempenhar “um papel de relha cuja função é tornar a fundir, de maneira nova, o real” (Lacan, 1956-1957/1995, p. 314). Essa é uma concepção recorrente e, de fato, não há maiores dificuldades para voltarmos a situá-la ao longo de sua obra.

É assim que, logo no seminário seguinte, e em referência ao escrito sobre A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957/1998), Lacan volta a falar das “funções essenciais do significante” – metáfora e metonímia – novamente nos termos que delimitamos como os de um semiotismo imanente, que podemos aqui opor ao semioticismo transcendente, aquele que impregna a concepção associacionista e idealista e que encontramos, por exemplo, em Freud e sua importação da teoria das representações a partir de Brentano e Stuart Mill. Isso porque o exercício de tais funções essenciais se dá “na medida em que é por elas que o arado do significante sulca no real o significado, literalmente o evoca, o faz surgir, maneja-o, engendra-o” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 33). A relha – no primeiro exemplo – ou o arado do significante – no segundo – serve para designar, mesmo que de maneira metafórica, o processo segundo o qual os objetos exteriores, tendo uma vez entrado em contato com o universo discursivo, não podem mais serem daí desligados. Em certo sentido, é por essa razão que passamos do amplo uso do conceito de representação na teoria freudiana para a predominância na utilização da concepção de significante na obra lacaniana. Não que eles sejam correlatos ou que um seja o desenvolvimento direto do outro, mas sim porque essa passagem permite deslocar os problemas contidos na tradição filosófica quanto ao primeiro, posto que vinculado tanto a correntes empiristas e realistas quanto perspectivas racionalistas e idealistas.

Lacan, contrariamente, identifica em Freud a abertura para o deslocamento da primazia da realidade externa e independente para uma abordagem centrada nos efeitos da linguagem na constituição do psíquico. É através dessa leitura que lhe é possível delimitar a coincidência entre as leis freudianas que regem o inconsciente e as leis primordiais segundo as quais o discurso é formado (Lacan, 1957-1958/1999, p. 70). Seguindo o mesmo princípio, o próprio conceito maior e berço do arcabouço teórico psicanalítico, precisamente o de inconsciente, deverá ser reapresentado nos termos concernentes a essa visada de cunho semiótico, sendo os seminários 11, 12 e 13 o segmento nodal de tal consideração (Lacan, 1964/1998, 1965/2006, 1965-1966). Neles, a hipótese central do ensino lacaniano – a do inconsciente estruturado como uma linguagem – é por repetidas vezes acrescida de um importante complemento: o dos efeitos da fala. Nas palavras do autor: “O inconsciente, são os efeitos da fala sobre o sujeito, é a dimensão em que o sujeito se determina no desenvolvimento dos efeitos da fala, em consequência do que, o inconsciente, é estruturado como uma linguagem” (Lacan, 1964/1998, p. 142). A consequência lógica a ser então depurada é a de afastar eventuais tentativas de uma apreensão do inconsciente ou de elementos constitutivos da “ontologia do sujeito” a partir do inconsciente (Lacan, 1965/2006, p. 227) por realidades outras que não a da própria constituição do sujeito engendrado na prática analítica. Ao contrário, os efeitos da fala são aí julgados como sendo tão essencialmente primordiais que a eles são imputados não só a origem do estatuto de sujeito como também a principal via pela qual seria possível restituir ao inconsciente freudiano o seu devido lugar.

De modo geral, podemos delimitar três diferentes contextos de conceitualização dos efeitos de fala ao longo da obra lacaniana. Num primeiro contexto, Lacan destaca, sobretudo em seus dois primeiros seminários, a função da palavra enquanto reintrodução simbólica da verdade na história individual. Trata-se, portanto, de restituir uma ordenação simbólica para o registro do imaginário: “em outros termos, é a relação simbólica que define a posição do sujeito como aquele que vê. É a palavra, a função simbólica que define o maior ou menor grau de perfeição, de completude, de aproximação, do imaginário” (Lacan, 1953-1954/1986, p. 165). Num segundo e mais duradouro contexto de seu ensino, o significante ocupará a vez de articulador do processo de semiose que implica em modos de engajamento entre o sujeito e o Outro, como veremos ao longo deste artigo.

Já num terceiro momento, especialmente a partir da releitura da concepção de letra em Lituraterra (1971/2003), os efeitos da fala serão retomados pela lógica do traço, reatualizando o entendimento freudiano de que a “racionalidade clínica opera principalmente sob a função da escrita” (Dunker, 2011, p. 74). É nesse sentido que a condição da letra como suporte material do significante será repensada como uma espécie de aluvião, ou seja, de conjunto de sedimentações que fazem litoral, fronteira, “borda em torno do furo no saber” (Lacan, 1971/2003, p. 18) e do impossível de ser inscrito no corpo a partir da enxurrada de significantes. Por diversas vezes o texto pontua que a letra não pode ser pensada como anterior ou em relação de primazia para com o significante ou com o discurso, caso o contrário, indicaria a instauração de uma posição transcendental referente à linguagem ao estilo de um a priori de inspiração kantiana. Contrariamente a isso, a escritura da letra faz recair no traçado – ou, melhor dito, na caligrafia – o processo segundo o qual o sujeito encontra na rasura e no escoamento a sua “diz-mansão”. Trata-se, portanto, de um questionamento de cunho ontológico já que visa reposicionar o sujeito, através de um processo de singularização que instaura o Um, em relação aos discursos e aos semblantes: “[…] o subjuntivo com que se modula seu sujeito é testemunha disso” (1973/2003, p. 448). A letra tem seu ponto de partida no discurso e, a partir da incidência do significante, passa a funcionar como “um referente tão essencial quanto qualquer outra coisa, e isso modifica o status do sujeito” (p. 24).

Convém salientar, contudo, que a retomada da concepção de letra não implica necessariamente no abandono da teoria do significante ou no descrédito a conceitos anteriormente utilizados3, já que

A evolução da formalização algébrica do significante para a teoria dos conjuntos, com o seu corolário que é a topologia de Moebius, Toro, Plano Projetivo e Garrafa de Klein já se encontra na antropologia e não é uma invenção de Lacan. Há, sem dúvida, um desdobramento do método estrutural, mas o incremento de referências metodológicas não muda, necessariamente, o teor das teses e a estrutura do conceito (Dunker, 2016, p. 253).

A semiotização do afeto: psicanálise e semiótica tensiva

Submetido à ordem significante e transitando pelas sedimentações da letra, o efeito de afeto consiste, em suma, no processo pelo qual a linguagem apropria-se do corpo durante o exercício do discurso, ou seja, de sua participação na constituição do corpo nos termos em que é apreendido pelo psíquico ao modo de um etos discursivo, uma morada ao estilo de um “céu constelado e não apenas no traço unário” (Lacan, 1971/2003, p. 24). A tal processo propomos a denominação de semiotização afetiva do corpo. Simultaneamente, assim são englobados outros efeitos de cunho econômico – como os do sintoma, do gozo e da produção do sujeito – especificando no que eles se referem a procedimentos de engajamento. Isso porque o efeito de afeto, se compreendido da forma como estamos propondo, permite uma abordagem da inflexão que a linguagem opera tanto no psíquico quanto no corpo, criando o efeito de sujeito e o engajando nas diferentes linhas discursivas – isotopias – que dão possibilidade ao prazer, ao gozo e mesmo ao sintoma. O significante como causa do gozo e a letra como seu suporte se inscrevem nessa mesma lógica pela qual “a afetação essencial é a afetação marcante da língua sobre o corpo” (Miller, 2000, p. 47). A isotopia, cabe ressaltar, é uma propriedade topológica e linguística, definida pelo transporte de propriedades de um lugar para outro, transporte este que se faz por meio de equivalência lógica ou funcional e não de identificações de significado. Diz-se, por exemplo, na teoria do romance, que personagens isotópicos fazem funções semelhantes numa obra, gênero ou autor. Para a semiótica tensiva a noção de isotopia permite pensar a equivalência entre diferentes níveis de significação, por exemplo:

Na dimensão tensiva, a metáfora pode ser concebida como uma grandeza que estabelece a tensão entre dois ou mais conteúdos ou planos de significação, isto é, pode ser tomada como um conector de isotopias. No campo discursivo, as isotopias estão dispostas em graus de profundidade distintos, desde as mais fortemente presentes no centro até as mais fracamente presentes na periferia do campo. Quando surge, a metáfora produz uma competição entre isotopias, em que cada uma delas possui uma força para atingir a manifestação, mas apenas uma pode ser realizada, enquanto as outras permanecem atualizadas (Leite, 2011, p. 32).

Segundo Zilbelberg (2011), experiências sujeitas a gradientes perceptivos, como as cores ou sensoriais como os afetos, podem ser analisadas valendo-se de uma decomposição do evento em sua intensidade (andamento ou tonicidade) e sua extensidade (concentrado ou difuso). Curiosamente, em seu seminário sobre a angústia (Lacan, 1962-1963/2005, p. 22), Lacan, ao introduzir o problema da angústia, divide os diferentes equivalentes de angústia, como a efusão imaginária e o impedimento simbólico, ou o embaraço real e a emoção imaginária, em um grafo cuja partição entre o eixo horizontal representado pela “dificuldade” e o eixo vertical, representado pelo “movimento”, parecem antecipar as categorias de Zilberberg. O movimento dos afetos pode ser pensado como ponto de equivalência entre o tônico (agudo ou grave) e andamento (acelerado, como na mania, ou lentificado, como na depressão). De modo inverso, a dificuldade do afeto pode se mostrar como ponto de equivalência extensional entre a concentração (reatividade ou labilidade) e a difusão (extroversão ou introversão).

Semelhantemente, o processo de semiotização afetiva do corpo se contrapõe às versões psicológicas e psicanalíticas que pretendem localizar na maturação individual, na aquisição de capacidades sejam elas cognitivas, sejam de estruturas biológicas, o fundamento dos fenômenos afetivos. Uma vez subordinados ao discurso, os efeitos de afeto tornam-se intrinsecamente dependentes da alteridade discursiva enquanto condição de possibilidade – no que se refere ao acesso simbólico aos significantes4 – e determinação de suas modulações – que obedecem às estruturas pressupostas pela linguagem –, bem como ao outro, no contato íntimo e imaginarizado com o semelhante. É nesse sentido que Lacan aponta, a respeito das diferentes fases propostas por Freud acerca de suas teses sobre a sexualidade humana (Freud, 1905/1996), que: “a passagem da pulsão oral à pulsão anal não se produz por um processo de maturação, mas pela intervenção de algo que não é do campo da pulsão – pela intervenção, o reviramento, da demanda do Outro” (Lacan, 1964/1998, p. 171). Assim, a introdução de novas isotopias para o econômico, tido enquanto objeto sincrético, deve ser compreendida no registro da alteridade e, principalmente, no que ela exige de engajamento do corpo nas vias discursivas que lhe são, a partir de então, imprescindíveis.

A noção de isotopia permite articular diferentes conceito psicanalíticos envolvidos na produção e modalização dos afetos, a saber: demanda e identificação, transferência e projeção, idealização e introjeção. Todos ele conceitos intersubjetivos, que dão suporte para a noção de engajamento como homólogo da noção de implicação subjetiva. Assim como a implicação subjetiva incide sobre um significante, que representa o sujeito ou o desejo, o engajamento de afetos incide sobre o equivalente de afeto. Recuperamos assim a antiga noção freudiana de equivalente de angústia, para designar a angústia somática, as síndromes cardíacas ou gastrointestinais, os tiques e outras reverberações do afeto no corpo.

Com o intuito de considerar a “complexidade existencial” do afeto como uma complexidade centrada em aspectos funcionais, Zilberberg defende que o conceito deve ser “subentendido por uma rede de dependências internas” inerente às formas propiciadas pelas línguas (Zilberberg, 2001, p. 10, itálicos no original). Desta forma, a compreensão do afeto é invariavelmente lançada para além de acepções enquanto estado passional inerte para encontrar-se nos moldes de um jogo de inter-relações de processos discursivo-formais. O resultado de tal empreitada é justamente o de incutir no afeto uma função essencial nos processos de semiose que engajam o sujeito no discurso bem como os planos da expressão e do conteúdo numa conformidade semiótica. Tal hipótese é baseada na condição de possibilidade garantida pelo isomorfismo da forma nos dois planos, ou ainda, no que Hjelmslev destacava como função semiótica (Hjelmslev, 1961/2003). Acompanhemos uma breve apresentação desta proposta nas palavras do autor em questão:

Às figuras do plano da expressão vão corresponder os afetos do plano do conteúdo; porém, na medida em que esta correspondência não se reduz a uma substituição, isto quer dizer que as figuras do plano da expressão são afetadas e afetantes na exata medida em que os afetos do plano do conteúdo são informados e informantes. A semiose assim constituída é literalmente surpreendente. A afetividade deixa de ser um suplemento, desnecessário para o prazer que dispensa, e se converte numa razão constituinte. E graças a nos encontrar em presença de formas-afetos, a comunicação alcança a eficácia que sentimos: a cessação de tal regime afetivo expulsa, ao mesmo tempo, as formas que o expressam (Zilberberg, 2000, p. 71, itálicos no original).

É nesse sentido que ao afeto é designado o termo de chave cognitiva, uma vez que aqui se trata claramente do processo de conjugação entre as formas do conteúdo e da expressão abrindo espaço para a distinção de profundidades tímicas. Porém, como não haveria de ser diferente, devemos fazer uma ressalva quanto à escolha do termo “cognitivo”. Sua aparição pouco precisada no texto acaba por possibilitar abordagens que o próprio autor considera excessivamente “logocêntricas”, pois, como o desenvolvimento todo do campo semiótico em relação a outras vertentes linguísticas mostra, trata-se mais da experiência sensível dos fenômenos afetivos do que especificamente de seus procedimentos racionais e conscientes. Deste modo, propomos a substituição do termo chave cognitiva para chave discursiva sem com isto alterar em nada a citação precedente ou mesmo fazer ressalvas quanto ao seu conteúdo. Importante notar, semelhantemente, que o processo de semiose acima descrito se aproxima visivelmente de nossa proposta de leitura quanto ao conceito de gozo e suas implicações na obra lacaniana. Isto porque a implicação entre as formas no plano da expressão e o plano tímico – aqui representado pelo afeto – não pode dar-se senão pelo engajamento do corpo próprio enquanto formação de um espaço tensivo, ou seja, ao modo da incidência do significante e sua consequente escrita enquanto letra.

Retornemos, portanto, ao modo de definição que Zilberberg lhe conferirá. Se em Tensão e significação (Fontanille, & Zilberberg, 1998/2001) é possível destacar a tríade formada pela tensividade e seus componentes intensivo e extensivo, os textos posteriores de Zilberberg no desenrolar da semiótica tensiva nos propõem um novo arranjo ainda mais significativo. Isto porque a disposição do conceito de valência diretamente derivado do momento de passagem da semiótica modal greimasiana para a instauração de uma semiótica tensiva, mais especificamente na semiótica das paixões (Greimas, & Fontanille, 1993), por sua vez, não adentrava intrinsecamente no modelo, devendo então ser tomada numa discussão suplementar enquanto elemento do valor. Já na abordagem que Zilberberg nos apresenta na continuidade de sua pesquisa (principalmente em 2001, p. 14, 2002, p. 120 e p. 130 e 2006, p. 56 e p. 76-8), os dois planos da discussão são heuristicamente assimilados. Assim, expomos o modelo gráfico da tensividade que visa sintetizar nossa leitura a respeito dos modelos então propostos (Figura 1).

Figura 1 Modelo gráfico da tensividade 

Certamente podemos notar que o modelo proposto para a tensividade é complexificado pela inserção do esquema de formação dos valores, do registro das subdimensões das valências e do posicionamento do novo conceito de forema5. Vejamos em cada caso suas consequências teóricas. Quanto ao valor, suas duas principais características permanecem inalteradas: sua constituição no campo tensivo continua sendo feita através dos processos referentes às valências intensivas e classemáticas (Fontanille, & Zilberberg, 1998/2001, p. 49), bem como segue vigente sua capacidade de formar linhas isotópicas pela competência atribuída pelas valências em atrair (relações conversas) ou afastar (relações inversas) outros valores. A lógica aqui implicada segue a inspiração hjelmsleviana de um estudo imanente sobre a linguagem que pressupõe o conjunto como aberto, porém, dotado de relações de interdependências, determinações e constelações entre processos e sistemas na organização de suas hierarquias sem lançar mão de pressupostos metafísicos. A tese geral saussureana de que a língua é forma e não substância é posta em ação ao considerarmos que a ordenação entre atração ou afastamento das linhas isotópicas implica no encadeamento dos valores seguindo o modelo de combinação interna ao campo, evitando assim a necessidade de argumentos transcendentais, semelhantemente ao modelo utilizado por Lacan em seu seminário sobre as relações de objeto ao tratar do tema do “Significante no Real” (Lacan, 1956-1957/1995, pp. 237-253)6. Portanto, tal representação da tensividade transpassada pela cadeia isotópica, por sua vez, formada pela conjunção de valores, adequa-se facilmente aos requisitos e hipóteses saussurianas sobre a temática. Tanto sua competência no que concerne à fundamentação da linguagem enquanto sistema formal de valores, regido sob o desígnio da troca, quanto sua relação com a significação ficam aqui preservadas (Saussure, 1916/2003). Contudo, torna-se mais precisa a sua atuação no campo tensivo, bem como a sua formação pelos procedimentos intensivos e extensivos, agora reordenados diretamente pelas valências, suas subdimensões e o consequente atravessamento dos foremas (de direção, posição e elã7).

Contudo, o principal reordenamento operado com a ampliação do esquema está no remanejamento da concepção de valência. Desde as primeiras versões da tensividade, seja na Semiótica das paixões (Greimas, & Fontanille, 1993), seja em Tensão e significação (Fontanille, & Zilberberg, 1998/2001, p. 52, por exemplo), ao conceito de valência corresponde um processo analítico do valor, o que fica mais claro quando ressaltamos sua face de profundidade (tímica para a intensidade, classemática para a extensidade). A valência, neste sentido, deve ser compreendida como um procedimento de aprofundamento, de entranhamento nos elementos de composição do valor, tanto em sua face extensa quanto na intensa. Isto é ressaltado, ou, melhor dito, examinado com ainda maior rigor na exposição de suas subdimensões, a saber, as de andamento e tonicidade (subdimensões intensivas) e as de temporalidade e espacialidade (subdimensões extensivas). Aparentemente, para o tema proposto neste artigo, poderia parecer que o interesse se esgotaria do lado da valência de intensidade e suas profundidades. Como se estas se alinhassem mais perfeitamente ao campo econômico, cabendo às profundidades classemáticas eventuais debates com conceitos outros do campo psicanalítico (tais como os de representação na teoria freudiana ou de significante, na lacaniana).

No entanto, o que defendemos como o cerne da semiótica tensiva a respeito da recobertura proposta ao tema, ou ainda, à semiotização do campo econômico, está justamente na definição do conceito de valor na caracterização mútua entre os aprofundamentos intensivos e extensivos. Para exemplificar este ponto de vista, podemos contrapor duas citações de Lacan no seminário sobre As formações do inconsciente (Lacan, 1957-1958/1999), o que mostra igualmente a posição um tanto claudicante do mesmo sobre o tema. Num primeiro momento, Lacan aponta em seu exame a respeito do conceito de metonímia o que acaba por considerar, ele mesmo, paradoxal, enfim: “que a metonímia é, propriamente falando, o lugar onde devemos situar a dimensão – primordial e essencial na linguagem humana – que é oposta à dimensão do sentido: a saber, a dimensão do valor” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 85). Entretanto, o seminário em questão começa com uma rica passagem a respeito do discurso: “[…] um discurso não é um evento punctiforme, à maneira de Russell, se assim me posso exprimir. Um discurso não é apenas uma matéria, uma textura, mas requer tempo, tem uma dimensão no tempo, uma espessura” (p. 17). Na primeira, o sentido é antagônico ao valor, o que não seria condizente nem com a tese saussuriana de linguagem enquanto forma, nem com as propostas que aqui apresentamos de semiotização do valor, posto que a esfera da extensidade não é alheio a ele. Entretanto, a segunda citação acaba por indicar, precisamente, a abertura aos aspectos contidos na temporalidade e no andamento, como fundamentos da própria concepção de valor. Deste ângulo, sustentamos a hipótese de que os pressupostos da semiótica tensiva, estendidos e ajustados ao campo psicanalítico, seriam capazes de levar-nos a um reposicionamento, senão de grande monta, certamente heurístico, da psicanálise quanto à relação entre discurso e valor para uma abordagem não reducionista de seu ponto de vista econômico, em sentido amplo, e do afeto, em sentido restrito.

O afeto pela via do engajamento

Mais do que um suposto desenvolvimento libidinal no qual o acento recai nas variações possivelmente substanciais (questão deixada permanentemente em aberto por Freud), Lacan aborda as mudanças no registro pulsional às novas ordens nas quais o indivíduo é engajado pelo Outro através do discurso, o que abrirá novas vias para a semiose do afeto (em seu sincretismo formado por expressões de tipo visuais, auditivas, olfativas, e assim por diante). É desse modo que Vierling-Weiss (2006) resgata, para a consideração de Lalangue (alíngua), a leitura de Françoise Dolto acerca da língua materna enquanto um ganho no território discursivo a partir da instauração de um “objeto transicional sutil” (p. 17), certamente, no mesmo sentido em que Soler afirma que o objeto transicional está do lado do sujeito enquanto “o significante fóbico é uma metáfora do Outro” (Soler, 2012, p. 239). Tal objeto transicional, em todas as características que ele porta, ressalta a propriedade dos efeitos da fala de estruturar, a partir do afeto – compreendido como um registro de seus efeitos, propriamente econômico – a constituição semiótica do corpo em sua relação com a realidade e na relação disjuntiva da realidade com o Real.

Vierling-Weiss acima citado, partindo da análise de uma paciente que recentemente havia se tornado mãe num país estrangeiro, do qual não dominava a língua vigente – traz um exemplo do entrelaçamento que o afeto comporta entre o corpo e a alteridade bem como da realidade com o Real. Para tanto, parte da seguinte indagação: “não mudamos um pouco de corpo quando falamos numa língua estrangeira?” (p. 16). De fato, se levamos em conta a questão da semiotização afetiva do corpo, as modulações discursivas que diferentes idiomas permitem acabam por determinar, igualmente, alterações ao longo do processo8. Também as transformações corporais mais ou menos típicas da gravidez testemunham um descompasso esperado entre a realidade corporal discursiva do corpo exposto à intrusão de uma criança, na posição de objeto a. Na sequência do texto, a autora conclui então que “uma língua procura sensações de prazer/desprazer, e não somente as auditivas. Há efeitos no corpo tais que podem ser ressentidos como um outro. A língua é o lugar de reencontro entre as palavras e o gozo via corpo” (Vierling-Weiss, 2006, p. 16). Importante salientar aqui que isso não deriva de uma espécie de dualismo corpo-linguagem, do qual os afetos seria sua substância intermediária e híbrida, o que nos levaria a uma espécie de naturalização do gozo. Os efeitos da fala, que desempenham notadamente um papel de destaque na consideração teórica de Lacan durante os seminários 11, 12 e 13, são aqui sentidos especificamente como assujeitamento do corpo nos caminhos do gozo, maneira pela qual podemos designar, em linhas gerais, a designação do afeto como equivalente do discurso e do gozo, sem se reduzir nem mediar um ao outro, levando em consideração a definição lacaniana de que o discurso é um aparelho de gozo, ou seja, um aparelho de equivalências ao gozo.

Que o sujeito como tal está na incerteza em razão de ser dividido pelo efeito de linguagem, é o que lhes ensino, eu enquanto Lacan, seguindo os traços da escavação freudiana. Pelo efeito de fala, o sujeito se realiza sempre no Outro, mas ele aí já não persegue mais que uma metade de si mesmo. Ele só achará seu desejo sempre mais dividido, pulverizado, na destacável metonímia da fala. O efeito de linguagem está o tempo todo misturado com o fato, que é o fundo da experiência analítica, de que o sujeito só é sujeito por ser assujeitamento no campo do Outro, o sujeito provém de seu assujeitamento sincrônico a esse campo do Outro (Lacan, 1964/1998, p. 178).

A experiência analítica para Lacan, se bem compreendida, está situada na forma como o sujeito se insere no campo do Outro através de efeitos de linguagem que, ao mesmo tempo em que o dividem, o engajam nesse campo. Entretanto, tal divisão, cujo ponto extremo de sutura e de indução é justamente o objeto a, não deve ser vista necessariamente como um ponto de discórdia para com o tema da linguagem, ou ainda, como uma limitação das possibilidades de auxílio que ela poderia nos oferecer. Não se trata de uma atitude demissionária para com a questão do discurso, mas sim, do traçado fino das estruturas inerentes ao sujeito nas suas relações com o corpo, o próximo e o Real. Nelas, a linguagem desempenha suas funções tanto na constituição quanto no traçado de seus limites. Milner (1996) ressalta que no movimento de Lacan nem a linguagem, nem a língua chegam a ser tomadas por si próprias como pontos de referência absolutos na teoria, cargo tão somente delegado ao sujeito, ao qual a primeira é oferecida, em seu real, como substituto (p. 73).

Entretanto, a questão aqui relevante em momento algum se refere ao jogo de predominância, precedência ou anterioridade causal ou temporal entre os termos, mas sim no que a mútua implicação entre linguagem, sujeito e, ainda, o campo do Outro podem proporcionar à temática do afeto. Isso explica porque a relação de assujeitamento ao campo do Outro, conhecida também como alienação, deve ser compreendida como um dos efeitos de linguagem pertencentes à esfera do afeto. Os afetos alienam não porque eles são intrinsecamente imaginários, como se as palavras pelo mesmo equívoco fossem sempre simbólicas, mas porque eles são convocados pelo Outro e também engajam ou comprometem o sujeito ao Outro.

A importância dada por Lacan à correlação entre sujeito e Outro figura em sua teoria desde seus primórdios, como se nota no desenvolvimento dos três esquemas gerais criados para dar conta de tal relação, a saber, os esquemas L e R. Apresentados ao longo da teoria como variações graduais de maior complexidade, ou ainda, como coloca Grignon (2007), numa relação de complementaridade uns com os outros, uma vez que, segundo o autor, não há abandono de hipóteses no edifico lacaniano quanto aos esquemas. Ao contrário, sua defesa é a de tratar-se da instauração de lentes gradualmente mais potentes, que visam versões sempre mais nucleares de suas hipóteses precedentes (p. 114). Tomemos o esquema L para exemplificar nossa análise. Sua representação gráfica, tal como figura no seminário sobre A relação de objeto (1956-1957/1995, p. 10) e ainda em O seminário sobre “A carta roubada” (1955/1998, p. 58), pode ser delineada da forma que apresentamos na Figura 2.

Figura 2 Esquema L. 

Nesse esquema, Lacan organiza uma estrutura formada por quatro elementos, sendo S o sujeito, a’ o outro semelhante, a o eu imaginarizado e A o Outro. Em seu princípio, a relação entre S e A iria no sentido de apontar o recebimento da mensagem do Outro na forma de uma palavra inconsciente que, como bem aponta o esquema, é barrado fundamentalmente pela relação imaginária de um indivíduo ao outro. O estádio do espelho, assim, consistiria justamente na constituição dessa relação especular e de suas consequências. De acordo com Lemérer (2007), o eixo a’-a nos dá precisamente a dimensão do plano do espelho, em suas identificações imaginárias, reflexivas, trasitivistas e transitórias.

Ao mesmo tempo, o plano do espelho constituído igualmente como discurso faz tela e obstáculo à passagem direta do discurso do Outro, o que poderia vir a instituir a realização do sujeito, deixando para trás um resto formado por “falas que insistem no inconsciente” (Lemérer, 2007, p. 85). O resultado desse procedimento não poderia ser outro senão o estabelecimento do estado de alienação. Porém, e nisso podemos ver grande parte do mérito da leitura de Lacan sobre a obra freudiana, trata-se aqui de uma alienação dupla, como pode ser claramente evidenciado no seminário sobre As psicoses (1955-1956/1988): alienação quanto à própria posição de sujeito do enunciado – que não sabe de onde fala, nem acessa a plena realização simbólica de seu discurso – e alienação no descentramento do eu em sua relação imaginária – como Freud já destacava desde o Projeto, mas mais precisamente na máxima concernente ao Ego e o Id, que Lacan retraduz como o apelo “lá onde isso estava, lá, como sujeito, devo [eu] advir” (Lacan, 1966/1998, p. 878).

Vê-se assim que as propriedades fundamentais dos afetos implicam um plano de imanência entre linguagem e sujeito, ou seja, não é porque eles são imaginários e, portanto, que sua gramática esteja condicionada pelo narcisismo, que eles excluem o reconhecimento reflexivo do Outro como alteridade simbólica. Também não é porque os afetos têm sua causalidade potencialmente localizada no transitivismo imaginário, ou seja, na experiência de indeterminação do agente e do paciente da ação afetiva, que eles independam do objeto a, como condição Real de sua indução ou convocação no sujeito (Dunker, 2015). Poderíamos dizer, em síntese, que o sujeito recebe seu próprio afeto de forma invertida desde o Outro, sendo o “recebimento” índice do engajamento e convocação subjetivo e o “invertido” índice de sua trasitividade ontológica e intersubjetiva. Assim como a fala é a língua assumida pelo sujeito que fala, o afeto é o discurso apropriado por aquele que diz.

Considerações finais

O desenlace que buscamos para a temática ora apresentada retoma uma formulação importante na teoria lacaniana quanto à linguagem: “o inconsciente é o discurso do Outro”. Tal postulado é diretamente derivado do esquema acima apresentado, uma vez que os lugares destinados ao sujeito e ao Outro estão implicados no vetor da função simbólica que dá origem ao inconsciente, demarcando uma posição imanente quanto ao campo da linguagem coerente com o a formalização de seu ensino no período em que o compromisso com o estruturalismo de orientação saussureana estava colocado em primeiro plano. Vejamos, na seguinte passagem, como Lacan examina o enunciado a respeito do discurso do Outro:

Nesse discurso, como estaria o sujeito implicado, se dele não fosse parte integrante? Ele o é, com efeito, enquanto repuxado para os quatro cantos do esquema, ou seja, S, sua inefável e estúpida existência, a, seus objetos, a’, seu eu, isto é, o que se reflete de sua forma em seus objetos, e A, lugar de onde lhe pode ser formulada a questão de sua existência (Lacan, 1959/1998, p. 555).

Logo, o sujeito como parte integrante do discurso do Outro é engajado na formação de seu próprio inconsciente. É justamente seu engajamento que é representado através de seu repuxo pelos lugares que o esquema comporta. Duas consequências podem ser consideradas decorrentes dessa leitura do esquema: a primeira é que a criação do valor depende da relação entre sujeito e alteridade; já a segunda é de que o âmbito dos fenômenos afetivos deve ser demarcado precisamente nesses processos de interação, nos quais os efeitos de linguagem devem ser destacados. Podemos concluir que, de forma semelhante à que Lacan emprega para a concepção do pensamento através do exame do cogito cartesiano, durante o curso de seu texto A ciência e a verdade (Lacan, 1966/1998), devemos aqui nos posicionar quanto ao afeto: “[…] o pensamento só funda o ser ao se vincular à fala, onde toda operação toca na essência da linguagem” (p. 879). O que é precedido pela importante ressalva de que, no entanto, não somos causa de nós mesmos.

Semelhantemente, essa abordagem passa invariavelmente pela constituição do afeto nas operações que incidem sobre o sujeito em sua relação com o Outro – o que só é possível ao se vincular pela via do discurso –, e pelo seu exercício nos efeitos de linguagem – a partir do que se pode tocar em sua essência. Conforme defendido ao longo do artigo, reiteramos a posição segundo a qual a abordagem do afeto por uma via discursiva é o recurso final de oposição a uma via naturalizante que o delimita num campo para além daquele em que a escuta clínica opera e que, por sua vez, acaba por centrar a causa dos fenômenos afetivos em sua suposta base orgânica em detrimento das relações próprias ao campo da linguagem.

1“Não há nenhuma realidade pré-discursiva. Cada realidade se funda e se define por um discurso” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 45). Notemos bem, não é o Lacan dos anos 1950 ou 1960 que tem afirmação peremptória desse tipo, mas sim um Lacan já tardio em seu percurso

2Logofonocentrismo é entendido aqui como a atitude epistemológica que irá equiparar o campo da linguagem à função da fala, reduzindo, portanto, a escrita ao papel tecnocêntrico de representação gráfica da linguagem oral.

3Aqui a ressalva mais importante a ser feita é relativa à concepção de Outro, sendo que sua análise mais pormenorizada mereceria um artigo à parte. Embora saibamos que há uma controvérsia notória quanto a divergentes leituras do conceito e do papel das diferentes formalizações do ensino lacaniano, defendemos que, mesmo que a teoria da sexuação tenha indicado a inconsistência do gozo Outro ou que as últimas formulações do conceito de objeto a aponte para o caráter aberto e incompleto do Outro, estes não são argumentos que implicam necessariamente que a estratificação do pensamento lacaniano imponha o abandono de teses anteriores. Sobre esta temática e sua articulação necessária com o conceito de Real, sugerimos aos interessados a leitura do capítulo “Gênese e estrutura do conceito de Real” (Dunker, 2016).

4Hoffmann: “Deste modo, a linguagem é a condição do inconsciente, como já afirmava Lacan. O sujeito da psicanálise ou o sujeito do inconsciente pode encontrar sua verdade somente num lugar Outro (por exemplo: o ‘tesouro depositado’ de F. de Saussure) onde seu desejo, inarticulável estruturalmente pela fala é articulado pela linguagem que lhe significa” (2007, p. 45).

5Os foremas são definidos como figuras que entrecortam as subdimensões das valências, fazendo com estas sejam situadas no tempo e no espaço. Trata-se, pois, de um processo de semiotização que implica num novo recorte da continuidade, permitindo a criação e segmentação de novos elementos a partir de sua vetorialização. O termo forema, proveniente da concepção de foria, ressalta com a terminação “ema” o caráter de unidade minimamente discriminada, assim como acontece com os semas (unidades de conteúdo) e os femas (unidades de expressão).

6Segundo Lacan: “[…] o mínimo surgimento de grafia faz surgir ao mesmo tempo a ortografia, isto é, o possível controle de um erro. É por isso que se constrói este exemplo. Ele demonstra a vocês que, desde o surgimento mais elementar do significante, surge a lei, independentemente de todo elemento real.” (Lacan, 1956-1957/1995, p. 243).

7Além das diretrizes de espaço e tempo presentes na concepção de forema, ao elã correspondem os processos de segmentação intensiva, seja em seu aspecto de duração, seja enquanto intensificação. A noção de vetorialização é aqui importante, pois, os foremas se definem de forma dinâmica, no encontro com as subvalências, recortando espaço, tempo e intensidade.

8Essas alterações podem ser sutis para quem adquire competência na nova língua, porém, podem ser verdadeiros obstáculos para o desempenho de certas atividades – como a maternagem –, ainda mais se atravessadas por questões sociais e políticas, como no caso da paciente ora citada. Como refugiada política, seu retorno à língua materna evocava diversas formas de abandono experienciadas: do país, da família, da mãe (sua referência maternal) e de parte importante de sua identidade.

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Recebido: 24 de Novembro de 2016; Revisado: 08 de Julho de 2017; Aceito: 29 de Agosto de 2017

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