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Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental

Print version ISSN 1415-4366On-line version ISSN 1807-1929

Rev. bras. eng. agríc. ambient. vol.5 no.3 Campina Grande Sept./Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-43662001000300009 

MANEJO DE ÁGUA E SOLO

 

Resposta de arroz de terras altas, feijão, milho e soja à saturação por base em solo de cerrado

 

Response of upland rice, dry bean, corn and soybean to base saturation in cerrado soil

 

 

Nand K. Fageria

Embrapa Arroz e Feijão, CP 179, Sto. Antônio de Goiás, CEP 75375-000, Goiás, GO. Fone: (62) 533-2178, Fax: (62) 533-2100. E-mail: fageria@cnpaf.embrapa.br

 

 


RESUMO

Foi conduzido um experimento de campo, quatro anos consecutivos (1995/96 a 1998/99) para avaliar a resposta das culturas de arroz de terras altas, feijão, milho e soja à saturação por base em Latossolo Vermelho-Escuro distrófico (LEd) (Oxissolo) cultivados em sistema de sucessão. Os valores de saturação por base criados pela aplicação de calcário, foram: 40, 44, 51, 53, 56 e 66%. Ocorreu aumento significativo na produção de grãos de feijão, milho e soja com a saturação por base; entretanto, a produção de arroz não foi influenciada significativamente pelos tratamentos. Mas, com base de equação de regressão, as saturações por base adequadas para a produção dos três, foram estabelecidas em 53, 60 e 63% respectivamente, e, para a cultura de arroz, o nível adequado de saturação por base encontrado foi de 40%. A acumulação de nutrientes na parte aérea e nos grãos foi influenciada significativamente pelos tratamentos e pela idade da planta nas quatro culturas estudadas. Os níveis adequados das propriedades químicas do solo, como pH, teor de Ca, teor de Mg, relações Ca/Mg, Ca/K, Mg/K, saturações por Ca, Mg e K, foram estabelecidos para as culturas de arroz, feijão, milho e soja, cultivados em solo de cerrado.

Palavras-chave: acidez do solo, acumulação de nutrientes, Latossolo Vermelho-Escuro, produção de grãos


ABSTRACT

A field experiments was conducted during four consecutive years (1995/96 to 1998/99) to evaluate responses of upland rice, dry bean, corn, and soybean grown in sequence to base saturation on a Dark Red Latosol (Oxisol). Mean base saturation levels determined after harvest of each crop were: 40, 44, 51, 53, 56, and 66%. Grain yield of dry bean, corn, and soybean were significantly affected with base saturation. Upland rice yield, however, was not influenced with base saturation treatments. Based on the quadratic response, optimum base saturation for maximum grain yield of dry bean was 53%, for corn 60% and for soybean 63%. For upland rice the base saturation under no lime treatment was 40%, which is considered adequate. Nutrient accumulation was significantly influenced by different base saturation treatments as well as by the age of the four crops. Adequate levels of soil chemical properties, such as pH, contents of Ca and Mg, ratio of Ca/Mg, ratio of Ca/K, ratio of Mg/K, Ca saturation, Mg saturation and K saturation were established for upland rice, dry bean, corn and soybean grown in cerrado soil.

Key words: soil acidity, accumulation of nutrients, dark red latosol, grain yield


 

 

INTRODUÇÃO

A acidez do solo é um dos fatores mais importantes que limitam a produção das culturas em solos tropicais altamente intemperizados, como os de cerrado (Goedert 1983; Fageria et al., 1991). A maior área de solos ácidos está localizada na América do Sul, onde ocupam 85% da área total e segundo Cochrane (1989) aproximadamente 850 milhões de hectares são subutilizados para a produção agrícola. No cerrado brasileiro, que ocupa cerca de 200 milhões de hectares, o pH médio do solo está em torno de 5 (Fageria et al., 1999). A precipitação média anual na região é de uns 1.500 mm, e a lixiviação de bases a longo prazo é uma das principais razões do desenvolvimento de acidez nos solos (Goedert, 1983). De acordo com Fageria et al. (1991), em condições de clima tropical em que a precipitação é maior que a evaporação, a acidificação do solo é um processo contínuo, que pode ser acelerado pela atividade das plantas, animais e seres humanos, ou diminuído pelo manejo adequado.

Teoricamente, a acidez do solo é medida como os teores de Al3+ e H+ do solo mas, na prática, ela é um complexo de vários fatores, em especial da deficiência e da toxicidade dos nutrientes e/ou da baixa atividade dos microrganismos benéficos. A produção das culturas pode ser afetada negativamente por esses fatores e suas interações; além disso, os solos ácidos têm, em geral, baixa capacidade de troca de cátions, baixa saturação por base e baixa capacidade de retenção de água, o que provoca a deficiência hídrica das plantas. (Fageria et al., 1995; Fageria & Stone, 1999).

A calagem é uma das práticas mais comuns e efetiva para aumentar a produção agrícola em solos ácidos. O uso adequado de calcário é fundamental para aumentar a produção e, ao mesmo tempo, reduzir o seu custo. Vários índices são usados para corrigir a acidez do solo. Esses índices são a saturação por base, o pH e a saturação por alumínio (Fageria & Stone, 1999). Kamprath (1971) sugeriu que a eliminação dos níveis tóxicos de Al e Mn e a adição de quantidade adequadas de Ca e Mg, são os principais objetivos da calagem, especialmente em solos lixiviados e intemperizados. Reeve & Sumner (1970) sugeriram que a necessidade de calagem para Oxissolos deve ser baseada somente no Al trocável. O conceito de saturação por base está relacionado ao fornecimento de bases (Ca, Mg, K) em níveis ótimos para o desenvolvimento das plantas (McLean, 1977). A filosofia da saturação por base é baseada no conceito de criar relações ideais de Ca, Mg e K no solo, para a produção máxima das culturas (Eckert, 1987).

Os solos de cerrado do Brasil que apresentam maior potencial para expansão da fronteira agrícola são ácidos, o que limita a produção agrícola. Para incorporação desses solos ao processo produtivo brasileiro, é indispensável o uso adequado de calagem. A saturação por base é um importante índice de acidez do solo para estabelecer dosagens adequadas de calcário para as principais culturas anuais e estratégias de manejo para a produção agrícola. O objetivo deste trabalho foi avaliar as respostas de arroz de terras altas, feijão, milho e soja cultivados em sistema de rotação, à saturação por base em solo de cerrdo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Conduziu-se experimentos de campo durante quatro anos consecutivos (1995/96 a 1998/1999) em um Latossolo Vermelho-Escuro (Oxissolo) na Fazenda Capivara, da Embrapa Arroz e Feijão, localizada no município de Santo Antônio de Goiás, GO. Os resultados da análise química das amostras do solo da área experimental coletadas antes da instalação do experimento, na profundidade de 0-20 cm, foram: pH 5,3; Ca 10 mmolc dm-3; Mg 10 mmolc dm-3; Al 1,0 mmolc dm-3; P 2,6 mg dm-3, K 121 mg dm-3, Cu 4,4 mg dm-3, Zn 1,5 mg dm-3, Fe 53 mg dm-3, Mn 46 mg dm-3 e matéria orgânica 16 g dm-3. A saturação por base na área experimental antes de aplicação de tratamentos de calcário estava 31%. A análise granulométrica apresentou 330, 220 e 450 g kg-1 de argila, silte e areia, respectivamente. As análises química e granulométrica do solo foram realizadas de acordo com metodologia recomendada por EMBRAPA (1997).

Os vários níveis de saturação por base foram estabelecidos com a incorporação de calcário em dosagens de 0, 4, 8, 12, 16 e 20 t ha-1 com grade aos 30 dias antes do plantio de arroz de terras altas(Oryza sativa L.) (primeiro cultivo). Após a colheita da cada cultura retiraram-se amostras do solo para determinação das propriedades químicas. A média de oito cultivos (dois cultivos de cada cultura) apresentou valores de 40, 44, 51, 53, 56 e 66% de saturação por base. Houve uma variação na saturação por base, especialmente no tratamento sem calcário. Mas nos tratamentos com calcário, a variação não foi maior do que 10% e portanto não vai influencia a interpretação dos resultados. O calcário utilizado possuía PRNT 69,2%; CaO 31,45 e MgO 11,6%. A cultura de arroz recebeu 30, 100, 60 e 1,5 kg ha-1 de N, P2O5, K2O e Zn, respectivamente, no plantio e 40 kg ha-1 de N em cobertura na iniciação do primórdio floral. Na cultura de feijão (Phaseolus vulgaris L.), a adubação básica foi de 30 ,120 e 60 kg ha-1de N, P2O5 e K2O e também recebeu 40 kg ha-1 de N em cobertura, uma semana antes do início da floração, enquanto o milho (Zea mays L.) recebeu 40, 120, e 60 kg ha-1 de N, P2O5 e K2O no plantio e 40 kg ha-1 de N em cobertura, aos 33 e 60 dias após o plantio. Na cultura de soja (Glycine max L. Merrill) foram aplicados 10, 120 e 80 kg ha-1 de N, P2O5 e K2O no plantio. No segundo cultivo, as quatro culturas receberam a mesma adubação. O N foi aplicado com sulfato de amônio, o P com do superfosfato triplo e o K na forma de cloreto de potássio e as sementes de soja foram inoculadas com rizóbio Bradyrhizobium japonicum.

O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso, com três repetições. O primeiro cultivo foi de arroz, na época das chuvas (1995/1996), o segundo de feijão (1996-inverno), o terceiro, de milho (Zea mays L.)(1996/1997) e o quarto de soja (1997-inverno). Quinto, sexto, sétimo e oitavo cultivos de arroz, feijão, milho e soja, foram repetidos na mesma ordem, para completar mais uma seqüência da rotação. As cultivares plantadas foram Caipó de arroz, Aporé de feijão, Cargil 435 de milho e EMBRAPA 20 (Doko-RC) de soja. O espaçamento para a cultura de arroz, de feijão e da soja, foi de 40 cm entre fileiras, e para a cultura do milho, de 80 cm. A densidade de sementes foi de 70 m-1 linear para arroz, 18 m-1 linear para o feijão, 25 m-1 linear para a soja e 7 sementes por metro linear para o milho. O tamanho da parcela foi de 6 x 5 m, com espaçamento de 1 m entre cada parcela e 2 m entre cada bloco. Colheram-se seis fileiras centrais com 5 m cada uma para o arroz, 7 fileiras centrais com 4 m cada uma para o feijão, 3 fileiras centrais de 5 m cada uma para o milho e seis fileiras centarais de 5 m cada uma para a soja. A análise de solo (propriedades químicas) foi realizada após a colheita de cada safra, para determinar as conforme EMBRAPA (1997). A saturação por base foi calculada pela fórmula:

Saturação por base(%) = (Ca2+ + Mg2+ + K+) / (CTCpotencial) x 100 em que a CTCpotencial foi calculada pela soma de Ca2+, Mg2+, K+, H+ e Al3+.

Foram determinados a produção de matéria seca da parte aérea e dos grãos, o teor e a acumulação de nutrientes nos vários estádios de crescimento de cada cultura em estudo. Para determinação de matéria seca da parte aérea foi colhida 1 m linear de fileira em cada parcela e após separação de grãos o peso foi transformado em kg ha-1. O peso seco da matéria seca foi determinado em diferentes estádios da cultura. A metodologia utilizada na análise da planta foi a descrita por Moraes & Rabelo (1986). Os dados foram submetidos à análise de variância e ajustada equação apropriada para determinar os efeitos dos tratamentos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A interação entre anos de cultivo e saturação por base, não foi significativa para a produção de matéria seca nem para produção de grãos; portanto, apenas os dados médios relativos aos dois cultivos de cada cultura, são apresentados nas Tabelas 1 e 2. A produção de matéria seca da parte aérea de arroz e milho não foi influenciada significativamente pela saturação por base, com exceção da última época (119 dias após plantio) de milho, mas durante o ciclo de arroz e milho, a produção de matéria seca foi influenciada significativamente (p < 0,01) pelo ano de cultivo, com exceção de milho, 35 dias após o plantio. A variação na produção de matéria seca de um ano para outro, está relacionada à variação nos fatores ambientais (Fageria & Gheyi, 1999). Ocorreu efeito significativo dos tratamentos de saturação por base na produção de matéria seca de feijão e soja, em algumas colheitas, durante o ciclo das duas culturas. A produção de matéria seca (Y) foi influenciada significativamente pela idade da planta (X) nas quatro culturas testadas. A relação foi quadrática e pode ser explicada pelas seguintes equações:

Arroz Y = - 3078,73 + 138, 3816X - 0,04759X2 (R2 = 0,8917**)
Feijão Y = - 1204,43 + 71,5579x - 0,3824X2 (R2 = 0,7277**)
Milho Y = - 8020,78 + 370,2660 - 1,6849X2 (R2 = 8405**)
Soja Y = - 2782,49 + 104,9493X - 0,4592X2 (R2 = 0,8930**)

 

 

Constatou-se aumento na produção da matéria seca com o avançar da idade, mas diminuição na época da colheita, nas quatro culturas. Esta diminuição na matéria seca está relacionada com a translocação de produtos fotossintéticos para os grãos e também, com a queda de folhas nas culturas do feijoeiro e de soja (Fageria & Santos, 1998; Fageria et al., 1997).

A produção de grãos de arroz não foi influenciada pelos tratamentos de saturação por base (Tabela 2). A cultura de arroz é considerada bastante tolerante à acidez do solo entre as principais culturas anuais como feijão, milho, soja e trigo (Fageria et al., 1997). Nesta situação, a saturação por base adequada para esta cultura está em torno de 40%. Fageria (1989) relatou valor da saturação por base adequado para a cultura de arroz de terras altas, na faixa de 30 a 40%.

A produção de grãos de feijão aumentou, significativa e quadraticamente (p < 0.05) com o aumento da saturação por base, de 40 para 66% (Tabela 2). O nível adequado de saturação por base calculada com base na equação de regressão, foi de 53% e o aumento da produção estimado foi de 24% em comparação com o da testemunha, ou baixa saturação por base. Fageria et al. (1996) relataram que o nível adequado da saturação por base para a cultura do feijoeiro está em torno de 67%, em solo de cerrado. Lopes et al. (1991) apresentaram o nível adequado da saturação por base para esta cultura de 70% em Oxissolo de cerrado. De acordo com Fageria (1989), o valor ideal da saturação da base para a cultura do feijoeiro, está na faixa de 60-70%, em solo de cerrado. A diferença na saturação por base pode ser relacionada com o uso de cultivares e prática de manejo das culturas diferentes.

A produção de grãos do milho foi influenciada significativamente (p < 0.01) com o aumento da saturação por base e a resposta foi quadrática. Com base na equação de regressão, a produção máxima de 8231 kg ha-1 foi obtida com 60% da saturação por base, aumento de 27% em comparação com o valor mínimo de saturação por base (40%). Fageria (1989) relatou valor de 60 a 70% da saturação por base para a cultura de milho em solo de cerrado. van Raij ((1991) também relatou para o milho valor de 60-70% de saturação por base, significando que a calagem para o milho é recomendada quando a saturação por base é inferior a 60% e, neste caso, o cálculo é feito para elevá-la a 70%.

A produção da soja foi influenciada significativamente e também segue modelo quadrático com aumento da saturação por base, de 40 para 66%. Com base na equação da regressão, a produção máxima foi obtida com a saturação por base de 63%. Nesta saturação por base houve aumento na produção, da ordem de 42%, em comparação com o nível baixo de saturação por base. Sousa & Lobato (1996) relataram que, na região dos cerrados, a produção de grãos de soja aumentou com a saturação por base, até 40%, estabilizando-se entre os valores de 40 e 60% e apresentando decréscimo de produção de grãos, quando a saturação por base foi maior que 60%. De acordo com esses autores é importante, portanto, para a cultura da soja, que a saturação por base esteja em torno de 50%, pois nestas condições obtém-se as maiores produtividades. Entretanto, de acordo com EMBRAPA (1995) para os Estados do Paraná e de São Paulo, as recomendações da quantidade de calcário, em função da saturação por base, devem ser quantificadas para atingir 70%; para a região sul do Mato Grosso do Sul, elas devem ser feitas para a saturação por base atingir 60% e, nos demais estados da região central, formados basicamente por solos sob vegetação de cerrados, o valor adequado de saturação por base é de 50%. Oliveira & Pavan (1996) citaram que saturação por base adequada para os Oxissolos do Paraná é 60%.

É evidente que os níveis adequados de saturação por base sugeridos por vários autores, são bastante variáveis para as culturas de arroz, feijão, milho e soja. Esta variação pode ser atribuída às diferentes cultivares usadas, à variação em fertilidade do solo e à variação também em outros fatores ambientais como temperatura, radiação solar, umidade do solo (Fageria et al., 1999). O efeito benéfico do aumento na saturação por base na produção de milho, feijão e soja, é devido ao suprimento adequado de Ca, Mg, melhor pH, e a um balanço apropriado entre os diferentes cátions básicos (Fageria et al., 1999).

Dados relacionados à acumulação dos nutrientes nas culturas de arroz, feijão, milho e soja, são apresentados nos Tabelas 3 (A, B, C e D). Houve interações significativas entre tratamentos e anos de cultivo para algunas nutrientes mas, pelo fato dessas interações não terem sido significativas na produção de grãos, os dados da média de dois anos, para cada cultura, são apresentados. No caso de tratamentos quantitativos, como níveis de saturação por base, o melhor método de análise estatística para avaliação dos efeitos dos tratamentos é a análise de regressão. A acumulação de todos os macro e micronutrientes, nas quatros culturas estudadas, foi significativamente (p < 0,01) influenciada pela idade das plantas. Nas quatro culturas, a acumulação de nutrientes seguiu o modelo quadrático, que está relacionado à produção de matéria seca da parte aérea e dos grãos. A acumulação de nutrientes é função do teor de nutrientes e da produção de matéria seca ou dos grãos.

Na cultura de arroz, a acumulação (total) máxima foi de K, seguido pelo N, Ca, Mg e P entre os macronutrientes. Entre os micronutrientes, a ordem de acumulação foi de Mn> Fe > Zn > Cu > B (Tabela 3A). Entre os macronutrientes, 55% de N, 77% de P, 27% de K, 16% de Ca e 27% de Mg foram translocados para os grãos e os restantes ficaram na parte aérea. Entre os micronutrientes, para os grãos a translocação foi 46% de Zn, 62% de Cu, 18% de Mn, 15% de Fe e 36% de B. Para produzir uma tonelada de grãos de arroz, são necessários extração de 28 kg de N, 3 kg de P, 45 kg de K, 6 kg de Ca , 4 kg de Mg, 65 g de Zn, 20 g de Cu, 351 g de Mn, 169 g de Fe e 18 g de B, significando que, entre os macronutrientes, o P foi mais exigido na produção de grãos e o K foi menos eficiente. Entre os micronutrientes, o B foi mais exigido e o Mn foi menos eficiente na produção de grãos. Fageria & Souza (1995) relataram extração de mais ou menos a mesma quantidade de nutrientes para produzir uma tonelada de grãos de arroz de terras altas, em solo de cerrado. Relataram, também, a mesma eficiência de utilização de nutrientes na produção de grãos.

A acumulação total de nutrientes na cultura de feijão foi na seguinte ordem: N > K > Ca > Mg > Fe >Zn > Mn > B > Cu (Tabela 3B). Em relação à distribuição de nutrientes na parte aérea e nos grãos de feijão, 78% de N, 86% de P, 56% de K, 26% de Ca 38% de Mg, 72% de Zn, 74% de Cu, 27% de Mn, 35% de Fe e 41% de B, absorvidos foram translocados para os grãos e o restante ficou na parte aérea. Para produzir uma tonelada de grãos de feijão são necessários acumulação de 45 kg de N, 4 kg de P, 32 kg de K, 11 kg de Ca, 6 kg de Mg, 54 g de Zn, 16g de Cu, 52g de Mn, 215g de Fe e 18g de B, ou seja, na utilização de nutrientes na produção de grãos, P foi mais exigido e o N foi menos entre os macronutrientes e entre os micronutrientes a eficiência de Cu foi maior, enquanto a de Fe foi menor. Fageria & Souza (1995) relataram mais ou menos a mesma eficiência na produção de nutrientes na cultura de feijoeiro em solo de cerrado.

Na cultura de milho, a acumulação total de nutrientes foi da ordem de N > K > Ca> Mg > P > Fe > Mn >Zn > B >Cu (Tabela 3C). Em relação à distribuição de nutrientes na parte aérea e nos grãos do milho, 64% de N, 79% de P, 18% de K, 20% de Ca, 30% de Mg, 51% de Zn, 21% de Cu, 15% de Mn, 39% de Fe e 29% de B absorvidos foram translocados para os grãos e o restante ficou na parte aérea. Para produzir uma tonelada de grãos de milho são necessários acumulação de 24 kg de N, 3 kg de P, 23 kg de K, 5 kg de Ca, 4 kg de Mg, 46 g de Zn, 8 g de Cu, 65g de Mn, 274g de Fe e 18g de B, isto é, na utilização de nutrientes na produção de grãos, o P foi mais eficiente e o N foi menos eficiente entre os macronutrientes, enquanto a eficiência de Cu foi maior e a de Fe foi menor, entre os micronutrientes. Fageria et al. (1997) relataram a acumulação, distribuição e utilização de nutrientes mais ou menos na mesma ordem, na cultura de milho.

Na cultura da soja, a acumulação total de nutrientes foi da ordem de N > K > Ca> Mg > P > Fe > Mn > Zn > Cu > B (Tabela 3D). Em relação à distribuição de nutrientes na parte aérea e nos grãos da soja, 73% de N, 67% de P, 49% de K, 15% de Ca, 24% de Mg, 64% de Zn, 37% de Cu, 14% de Mn, 20% de Fe e 48% de B absorvidos foram translocados para os grãos e o restante ficou na parte aérea. Para produzir uma tonelada de grãos do soja são necessários acumulação de 86 kg de N, 9 kg de P, 40kg de K, 27 kg de Ca, 16 kg de Mg, 84 g de Zn, 58 g de Cu, 156 g de Mn, 671 g de Fe e 30 g de B; isto significa que na utilização de nutrientes na produção de grãos, o P foi mais eficiente e N foi menos eficiente entre os macronutrientes, mas a eficiência de B foi maior e a de Fe foi menor, entre os micronutrientes. Fageria et al. (1997) relataram, ainda, a acumulação, distribuição e utilização de nutrientes mais ou menos na mesma ordem, na cultura de soja.

Determinaram-se níveis adequados de algumas propriedades químicas do solo para cada cultura cultivada em sucessão (Tabela 4). O nível adequado de pH para a cultura de arroz foi de 5,6, para a cultura de feijão foi de 6,2, para a de milho foi de 6,4 e, para a cultura de soja, foi de 6,8, significando que a tolerância da cultura à acidez do solo foi da ordem de arroz > feijão > milho> soja. Fageria & Zimmermann (1998) relataram também que a cultura de arroz é mais tolerante à acidez do solo entre as cultura anuais como feijão, milho, caupi e trigo, em solo de cerrado. O nível adequado de Ca para a cultura de arroz foi de 19 mmolc dm-3, para a feijão 29 mmolc dm-3, para o milho 33 mmolc dm-3, e para a soja 40 mmolc dm-3. O nível adequado de Mg para a cultura de arroz foi de 12 mmolc dm-3 e para a cultura de feijão, milho e soja, de 14 mmolc dm-3. Os valores adequados da relação Ca/Mg, Ca/K, e Mg/K foram de 1,8, 9,0, e 5,9, respectivamente, para a cultura de arroz, enquanto para a cultura de feijão os valores adequados de Ca/Mg, Ca/K e Mg/K foram de 2,3, 14,2 e 5,2 respectivamente e, para o milho, o valor adequado de Ca/Mg foi de 2,4, o valor de Ca/K foi de 16 e o de Mg/K foi de 7,8. Para a cultura da soja os valores adequados da relação Ca/Mg foram de 2,6, o de Ca/K foi de 25 e o de Mg/K foi de 7,1. Não existem muitos dados de pesquisa em relação aos valores adequados dessas relações, porém Cochrane (1989) fez levantamento de alguns solos de cerrado em torno de Brasília e relatou valores médios da relação Ca/Mg 0,9, Ca/K 1,9 e Mg/K 2,3; ele considerou que esses valores são muito baixos para as culturas anuais, para se obter a produção ótima nesses solos.

A saturação de Ca adequado para a cultura de arroz encontrada foi de 21%, para a do feijoeiro de 37%, para a cultura de milho 43% e, para a cultura de soja, de 51%. A saturação de Mg adequada para a cultura de arroz, de feijão, de milho e de soja foi, de 15, 16, 18 e 18%, respectivamente. Para essas culturas, a saturação de K adequada foi de 2,6%. Não existem dados de pesquisa no solo de cerrado; entretanto, Fageria et al. (1999) relataram que o crescimento da cultura e a produtividade seriam pouco afetados pela saturação por base dentro das faixas de 65% a 85% de Ca, 6 a 12% de magnésio e 2 a 5% de K. Adams & Henderson (1962) consideraram o solo deficiente em magnésio se menos de 4% dos sítios trocáveis estivessem ocupados por este elemento.

 

CONCLUSÕES

1. A resposta à saturação por base variou de cultura para cultura e a tolerância a acidez foi na ordem de arroz > feijão > milho > soja.

2. O pH adequado para a arroz foi de 5,6, para o feijão de 6,2, para o milho de 6,4 e, para a soja, foi de 6,8.

3. A eficiência de utilização de nutrientes na produção dos grãos foi maior para P nas quatro culturas estudadas, entre os macronutrientes.

4. Entre os macronutrientes, a translocação de N e P para os grãos foi maior em comparação aos outros macronutrientes.

5. O nível adequado de saturação por Ca foi de 24% para o arroz, de 37% para o feijão, de 43% para o milho e de 51% para a soja.

 

LITERATURA CITADA

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Protocolo 022 - 21/2/2001

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