SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue2Microbial activity in a degraded Latosol treated with sewage sludgeThermal preference pattern estimates of female broiler breeders author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental

Print version ISSN 1415-4366On-line version ISSN 1807-1929

Rev. bras. eng. agríc. ambient. vol.11 no.2 Campina Grande Mar./Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-43662007000200011 

GESTÃO E CONTROLE AMBIENTAL

 

Impacto das vazões demandadas pela irrigação e pelos abastecimentos animal e humano, na bacia do Paracatu

 

Impact of water demands for irrigation, animal and human supply in the Paracatu Basin

 

 

Fernando F. PruskiI; Renata del G. RodriguezI; Luciano F. de NovaesI; Demetrius D. da SilvaI; Márcio M. RamosI; Alessandro de F. TeixeiraII

IDEA/UFV, CEP 36570-000, Viçosa, MG. Fone: (31) 3899-1912, fax: (31) 3899-2735. E-mail: ffpruski@ufv.br, ms45944@vicosa.ufv.br; lovaes@vicosa.ufv.br; david@ufv.br, mmramos@ufv.br
IICIENTEC, Av. PH Holfs, CEP 36570-000, Viçosa/MG. Fone: (31)38925008. E-mail:aft@cientec.br

 

 


RESUMO

O rio Paracatu é o afluente com maior contribuição para o rio São Francisco. Como conseqüência da grande expansão da agricultura irrigada na bacia do Paracatu, a partir da década de 70 sérios conflitos pelo uso da água surgiram em várias partes da bacia. Tendo em vista esses conflitos objetivou-se, com o presente trabalho, avaliar, ao longo da bacia do Paracatu, a proporção do consumo representado pela irrigação e pelos abastecimentos animal e humano e o impacto das vazões demandadas pela irrigação. A vazão média anual de longa duração, a vazão mínima de sete dias de duração e o período de retorno de 10 anos (Q7,10) e a vazão associada à permanência de 95% (Q95) foram estimados utilizando-se o período de 1970 a 1996 em 18 seções correspondentes a estações fluviométricas situadas na bacia do Paracatu. As vazões demandadas pelos segmentos analisados foram calculadas para o ano de 1996. Embora a vazão de retirada pela irrigação no mês de maior demanda, para as 18 seções analisadas, tenha representado de 4,3 a 85,1% da Q7,10 observada, a vazão consumida apresentou pouca influência na vazão média de longa duração.

Palavras-chave: gestão de recursos hídricos, usos da água, disponibilidade hídrica


ABSTRACT

The Paracatu River is the main tributary of the São Francisco River. As a consequence of the huge development of the irrigation in the Paracatu Basin, in the early 70-s, serious conflicts for the water use began to take place in several parts of the basin. The objectives of this paper were: to estimate the relative amount of the water consumption by irrigation and by animal and human supply in the Paracatu Basin; and to evaluate the impact of the water withdrawals for irrigation in the stream flow in the Paracatu River and tributaries. The average stream flow, the minimum stream flow of seven days and 10 years of return period (Q7,10) and the stream flow associated with the duration of 95% of permanence (Q95) were calculated from 1970 to 1996 for 18 stations used to measure the stream flow in the Paracatu Basin, and the water demand for the four sectors analyzed was calculated for 1996. Although the water withdrawals for irrigation in the month with the maximum demand have represented, for the 18 sections analyzed, from 4.3 to 85.1% of the Q7,10, the water effectively consumed by irrigation did not have significant influence on the mean stream flow.

Key words: water resources management, water use, water availability


 

 

INTRODUÇÃO

O aumento da demanda pelo uso da água, evidenciado nos últimos anos, vem causando sérios conflitos entre os seus usuários em muitas regiões da Terra fazendo, em muitos casos, com que a água se torne fator limitante para o desenvolvimento sustentável.

A bacia do São Francisco possui, segundo ANA (2002), uma demanda total de água de 224 m3 s-1, cujo principal usuário é a irrigação, responsável por 71,4% dessa demanda. A demanda total de outorgas para a retirada de água na bacia do São Francisco é, entretanto, da ordem de 770 m3 s-1, correspondente a 27% da vazão média na foz do rio, em que mais de 90% deste valor se destinam a projetos de irrigação (Lima et al., 1999). Ante valores tão expressivos, percebe-se a importância do estudo detalhado de cada pedido de outorga, visando minimizar os prejuízos socioeconômicos e ambientais advindos de retiradas excessivas de água.

A bacia do Paracatu, situada no Médio São Francisco, embora represente apenas 7,3% da área da bacia do São Francisco, drenando uma área de aproximadamente 45.600 km2 (Brasil, 1996), apresenta a maior proporção de contribuição (20,8%) para a formação da vazão do rio São Francisco (Pereira, 2004).

Como conseqüência da grande expansão da agricultura irrigada nesta bacia, a partir da década de 70 sérios conflitos têm surgido, principalmente nas sub-bacias do ribeirão Entre Ribeiros e do rio Preto. Segundo Dino (2002), no caso do município de Paracatu houve necessidade, inclusive, de substituição do sistema de abastecimento de água, originalmente situado no córrego Espalha, para o córrego Santa Isabel, tendo em vista o impacto advindo dos projetos de irrigação implantados na área e que provocaram queda de vazão de 50 para 8 L s-1.

Tendo em vista o quadro de conflitos pelo uso da água existente na bacia do Paracatu teve-se, como objetivo, no presente trabalho, avaliar, ao longo da bacia do Paracatu, a proporção do consumo representado pela irrigação e pelos abastecimentos animal e humano (urbano e rural) e, ainda, avaliar o impacto das vazões demandadas pela irrigação na vazão média de longa duração e nas vazões mínimas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Estimativa das vazões

Estimou-se, com base no período de 1970 a 1996, a vazão média anual de longa duração, a vazão mínima de sete dias de duração e o período de retorno de 10 anos (Q7,10) e a vazão associada à permanência de 95%, com base em dados diários (Q95) para 18 estações fluviométricas (Tabela 1) pertencentes à rede hidrometeorológica da Agência Nacional de Águas (ANA), situadas na bacia do Paracatu.

A Q7,10 foi estimada a partir das distribuições de probabilidade de Weibull, Log-normal a dois e três parâmetros, Perason III e Log-Pearson tipo III, sendo selecionada a distribuição que apresentou o melhor ajuste à série histórica. Para esta seleção foram analisados o coeficiente de variação e o teste de Kolmogorov-Smirnov; já as vazões associadas à permanência de 95% foram obtidas pelas curvas de permanência de cada estação fluviométrica obtidas com base em dados diários, retratando a parcela de tempo em que determinada vazão foi igualada ou superada durante o período analisado.

Para a estimativa das vazões de retirada, de retorno e consumidas pelos quatro segmentos de usuários, foram consideradas, como vazões de retirada, as vazões captadas, vazões de retorno, as vazões lançadas nos corpos d-água após o seu uso e vazões consumidas que é a diferença entre as vazões de retirada e de retorno.

A estimativa das vazões de retirada, de retorno e consumidas pela irrigação, abastecimento animal e humano (urbano e rural) foi realizada para o Distrito Federal e para cada um dos 21 municípios pertencentes à área de drenagem correspondente às 18 estações fluviométricas. Obteve-se a vazão de retirada para cada tipo de usuário pelo somatório das vazões relativas a todos os municípios pertencentes à área de drenagem considerada.

Apresentam-se, na Figura 1, os municípios pertencentes à bacia e suas respectivas sedes.

No cálculo da vazão de retirada para o abastecimento urbano considerou-se que, se a sede do município se encontra na área de drenagem analisada, toda população atendida está na área de drenagem e, portanto, toda a vazão de retirada foi computada nesta área de drenagem. Para o cálculo da vazão de retirada pela irrigação e para os abastecimentos animal e rural, considerou-se o critério de proporcionalidade da área do município, localizada na área de drenagem considerada.

As vazões consumidas pela irrigação e pelo abastecimento animal foram estimadas pelo censo agropecuário (IBGE, 1996); entretanto, em virtude da inexistência de censos demográficos do IBGE no referido ano, estimaram-se as vazões consumidas pelo abastecimento humano (urbano e rural) para os anos de 1991 e 2000 (último ano do censo demográfico) (IBGE, 1991 e 2000) e, por meio de interpolação desses dados de vazões, obtiveram-se as vazões para o ano de 1996.

Na seqüência, descreve-se o procedimento utilizado para o cálculo das vazões consumidas para cada um dos quatro segmentos de usuários considerados neste estudo.

Irrigação

A vazão de retirada pela irrigação foi estimada com base na irrigação total necessária e na área irrigada para cada cultura em cada mês no município, determinada pela equação

(1)

em que:
Qm,i - vazão de retirada pela irrigação no município, L d-1
ETrc,m,m - evapotranspiração real da cultura para cada mês no município, mm d-1
Pef,m,m - precipitação efetiva mensal no município, mm d-1
Ea - eficiência de aplicação, adimensional
Am,i,c,m - área irrigada para a cultura no município e em cada mês, ha
Cn - número de culturas irrigadas no município

As áreas irrigadas mensalmente para cada cultura, foram calculadas a partir dos dados obtidos no censo agropecuário de 1996, utilizando-se o procedimento apresentado por Rodriguez (2004). A evapotranspiração real das culturas foi estimada com base na evapotranspiração potencial da cultura de referência, calculada pelo método de Penman-Monteith, nos coeficientes das culturas (Kc) e no coeficiente que depende da umidade do solo (KS).

Para cada cultura foi associado o método de irrigação de uso mais freqüente, sendo o método de irrigação por aspersão associado às culturas temporárias e o de irrigação localizada às culturas permanentes. Considerando-se os resultados obtidos por Ramos & Pruski (2003) em estudo pertinente à quantificação e análise da eficiência do uso da água pelo setor agrícola na bacia do São Francisco, adotaram-se os valores de 0,81 e 0,88 para o KS e de 0,70 e 0,79 para a Ea para as irrigações por aspersão e localizada, respectivamente. A precipitação efetiva foi obtida pelo método proposto pelo boletim 24 da FAO (Doorenbos & Pruitt, 1977).

As perdas por percolação e escoamento ocorridas na aplicação da água para cada tipo de irrigação, foram consideradas como retorno, não se levando em conta as perdas ocorridas na condução da água; portanto, a vazão de retorno foi obtida pela equação.

(2)

em que:
Qm,i,r - vazão de retorno referente à irrigação no município, L d-1
Pp - perdas por percolação, adimensional
Pesc - perdas por escoamento, adimensional

Considerou-se que não seria irrigada a cultura, caso a precipitação efetiva fosse maior que a evapotranspiração real da cultura, enquanto as perdas por percolação mais as perdas por escoamento, foram estimadas pela equação.

(Pp + Pesc) = 1 - Pevp - Ea

(3)

em que:
Pevp - são as perdas por evaporação e deriva, adimensional.

Para os sistemas de irrigação por aspersão, adotou-se uma perda por evaporação e deriva igual a 10,9% (Ramos & Pruski, 2003), enquanto para os sistemas de irrigação localizada esta perda foi considerada nula.

Abastecimento animal

A vazão de retirada para o abastecimento animal foi obtida pela equação.

(4)

em que:
Qm,a - vazão de retirada para o abastecimento animal no município, L d-1
Pm,ay - número de cabeças do rebanho para cada espécie animal no município, cab
qay - vazão per capita para cada espécie animal, L d-1cab-1

Para determinação da vazão per capita correspondente a cada espécie animal, utilizaram-se os critérios propostos pelo MMA (2003), no qual se adotou a vazão per capita por espécie animal, contida em Rebouças et al. (1999). A vazão per capita para aves, não disponível no trabalho desses autores, foi obtida em Corsan (1991). Com o intuito de uma estimativa melhor da vazão de retorno que expresse principalmente as condições de confinamento (suínos, bovinos etc.), em que esta vazão pode representar uma parcela expressiva de vazão de retirada, considerou-se a vazão de retorno como 20% da vazão de retirada.

Abastecimento urbano

A vazão de retirada para o abastecimento urbano em cada município foi obtida pela equação.

Qm,u = (Pm,u,a qm,u)

(5)

em que:
Qm,u - vazão de retirada para o abastecimento humano ur- bano no município, L d-1
Pm,u,a - população urbana do município abastecida pelo Sis- tema Público de Abastecimento de Água, hab
qm,u - vazão per capita para o município, L hab-1 d-1

Quando a população abastecida foi maior que a urbana considerou-se, como população urbana abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água, a própria população urbana porém, quando a população abastecida foi menor que a urbana, considerou-se toda a população abastecida como a população urbana abastecida.

Tendo em vista a inexistência de dados referentes à população abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água nos censos demográficos, esta foi estimada pela equação.

(6)

em que:
Pm,a - população abastecida pelo Sistema Público de Abas tecimento de Água no município, hab
Dm,u - domicílios urbanos no município, unidade (obtidos nos censos demográficos do IBGE)
Dm,a - domicílios abastecidos pelo Sistema Público de Abas tecimento no município, unidade (obtidos nos cen- sos demográficos do IBGE)
Pm,u - população urbana no município, hab (obtida nos cen sos demográficos do IBGE)

A vazão per capita para os municípios cujas sedes se localizam dentro da bacia do Paracatu, foi estimada pela equação.

(7)

em que:
qm,u - vazão per capita no município, L hab-1 d-1
Vm,u,d - volume de água distribuído no município, L d-1

A Norma Brasileira 9649 da ABNT recomenda, na falta de valores experimentais, o valor de 0,8 para o coeficiente de retorno (Alem Sobrinho & Tsutiya, 1999).

Abastecimento humano rural

A vazão de retirada para abastecimento rural, por município, foi estimada considerando-se duas situações: população abastecida pelo sistema público maior que a população urbana e menor que a população urbana.

Quando população abastecida pelo sistema público foi maior que a população urbana, considerou-se que parte da população rural do município estava sendo abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água; logo, a população considerada no abastecimento rural do município foi estimada tendo em vista toda a população rural como a abastecida quanto a não-abastecida; então, a vazão retirada para o abastecimento rural no município foi estimada pela equação.

Qm,r = Pm,r,a qm,u + Pm,r,ña qm,r

(8)

em que:
Qm,r - vazão de retirada para o abastecimento rural no municí- pio, L d-1
Pm,r,a - população residente no meio rural, abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água, hab
Pm,r,ña - população residente no meio rural não-abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água, hab
qm,r - vazão per capita no meio rural, L hab-1 d-1

A população rural abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água no município, foi obtida pela equação:

Pm,r,a = Pm,a - Pm,u

(9)

A população rural não-abastecida pelo Sistema Público de Abastecimento de Água, foi estimada pela equação.

Pm,r,ña = Pm,t - Pm,a

(10)

em que Pm,t é população total do município, hab (obtida nos censos demográficos do IBGE).

Para determinação da vazão per capita no meio rural, utilizaram-se os critérios propostos pela ANA (2003) no documento "Base de Referência para o Plano Nacional de Recursos Hídricos".

Quando a população abastecida pelo sistema público foi menor que a população urbana, a vazão retirada para o abastecimento rural no município foi estimada pela equação.

Qm,r, = Pm,rt qm,r

(11)

em que Pm,rt é população total considerada para o abastecimento rural no município, hab.

A população considerada no cálculo do abastecimento rural no município, foi estimada pela equação:

Pm,rt, = Pm,r + Pm,u,ña

(12)

em que:
Pm,r - população residente no meio rural no município, hab
Pm,r,ña - população urbana não-abastecida pelo sistema público de abastecimento de água no município, hab

A população urbana não-abastecida, foi estimada pela equação:

Pm,u,ña, = Pm,u - Pm,a

(13)

O fato de, em geral, inexistirem sistemas para a condução das vazões de retorno aos mananciais de águas superficiais no meio rural, implica na inexistência do retorno das vazões de retirada, uma vez que este passa a ocorrer através do reabastecimento do lençol freático e conseqüente escoamento subterrâneo. Embora se reconheça que o retorno deva ser inferior ao do abastecimento urbano, considera-se que ele não deva ser desprezado. Pela consulta à literatura, não foi possível identificar nenhum valor de referência para este coeficiente; entretanto, acredita-se que um valor da ordem de 0,5 possa constituir um referencial para início de análise; daí, a vazão de retorno foi considerada igual a 50% da vazão de retirada.

Estimativa das vazões naturais

Para estimativa das vazões naturais, utilizou-se a Equação 14.

Qnat = Qobs + Qanim + Qrur + Qurb + Qirrig

(14)

em que:
Qnat - vazão diária natural, m3 s-1
Qobs - vazão diária observada, m3 s-1
Qanim - vazão média mensal consumida pelo abasteciento animal, m3 s-1
Qrur - vazão média mensal consumida pelo abastecimen- to rural, m3 s-1
Qurb - vazão média mensal consumida pelo abastecimento urbano, m3 s-1
Qirrig - vazão média mensal consumida pela irrigação, m3 s-1

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Vazões consumidas

A Figura 2 apresenta, para o ano de 1996, as vazões consumidas pela irrigação e pelos abastecimentos animal e humano (urbano e rural), bem como as proporções associadas a cada um desses usuários.

A vazão consumida pela irrigação foi superior a 78% do total consumido em todas as seções analisadas. Para o abastecimento animal, a vazão consumida variou de 6 a 21% do total, para abastecimento humano urbano de 1 a 5% e, para o abastecimento humano rural, inferior a 2%.

Na estação Porto Alegre, mais próxima do desagüe do rio Paracatu no São Francisco, a qual representa 88% da área de drenagem total da bacia e até onde se encontravam em 1996, 99,6% da área irrigada da bacia, a vazão consumida foi de 5,15 m3 s-1; desse total, 4,46 m3 s-1 (87%) foram consumidos pela irrigação, 0,55 m3 s-1 (11%) pelo abastecimento animal, 0,08 m3 s-1 (2%) pelo abastecimento urbano e 0,063 m3 s-1 (1%) pelo abastecimento rural.

A maior proporção de consumo pela irrigação foi evidenciada nas regiões oeste e noroeste, principalmente no ribeirão Entre Ribeiros e afluentes, no rio Preto e afluentes e no ribeirão Santa Isabel, afluente do rio Escuro, sendo a irrigação responsável por mais de 92% do total consumido no Entre Ribeiros, 85% no rio Preto e afluentes e 93% no ribeirão Santa Isabel.

A comparação dos valores obtidos nas áreas de drenagem das estações Porto dos Poções (rio Preto), Fazenda Barra da Égua e Fazenda Poções (ambas situadas na sub-bacia do ribeirão Entre Ribeiros), nas quais se concentravam 46% da área irrigada da bacia e a vazão consumida pela irrigação, era de 1,8 m3 s-1 (41% da vazão consumida pela irrigação na bacia), com os valores apresentados no Plano Diretor de Recursos Hídricos - PLANPAR, no qual se notou que as bacias dos rios Preto e Entre Ribeiros concentravam 53% (206,9 km2) do total das áreas irrigadas na bacia do Paracatu, permitiu evidenciar boa proximidade entre as duas estimativas.

Em relação ao abastecimento animal, as maiores proporções consumidas foram evidenciadas nas regiões central e sul da bacia, decorrentes sobretudo dos grandes rebanhos bovinos existentes nos municípios de João Pinheiro e Paracatu, situados nesta região, os quais representavam 23% (246.676 cabeças) e 16% (178.378 cabeças), respectivamente, do rebanho bovino da bacia.

As maiores proporções de consumo pelo abastecimento humano (urbano e rural) foram observadas nas regiões noroeste e oeste da bacia. Em virtude dos censos demográficos terem sido realizados para os anos de 1991 e 2000 não havendo, portanto, censo em 1996, os dados referentes às populações, apresentados na seqüência, são relativos a 2000, último ano de censo. Na região noroeste, onde se localizam os municípios de Formosa e Unaí, viviam 28% (48.862 hab) da população urbana abastecida pelo sistema público, a qual era responsável por 45% (0,055 m3 s-1) do total consumido de água por esse segmento na bacia e 17% (13.318 hab) da população rural da bacia, respondendo por 14% (0,018 m3 s-1) do consumo total de água por este segmento na bacia. Na região oeste, onde se localiza o município de Paracatu, viviam 27% (47.008 hab) da população urbana abastecida, a qual era responsável por 25% (0,031 m3 s-1) do consumo de água por este segmento na bacia e 14% da população rural (10.859 hab) da bacia, responsável por 8% (0,010 m3 s-1) do consumo de água por este segmento na bacia.

Impacto na vazão média de longa duração

Apresentam-se, na Tabela 2, para as 18 estações fluviométricas analisadas, as vazões consumidas no ano de 1996 pelos quatro segmentos de usuários, as vazões médias de longa duração e as proporções das vazões consumidas em relação às vazões médias de longa duração e se verifica, também, que as vazões consumidas foram, em geral, pouco expressivas em relação à vazão média de longa duração do rio, representando de 0,5 a 2,1% das vazões dos rios, nas seções analisadas.

 

 

Na seção localizada mais à jusante do rio Paracatu, a qual representa o comportamento geral da bacia, a vazão consumida no ano de 1996 correspondeu a apenas 1% da vazão média de longa duração observada no rio.

O maior consumo de água em relação à vazão média de longa duração foi evidenciado no ribeirão Entre Ribeiros, representando 2,1%. Conforme já mencionado, referido consumo ocorreu devido ao grande uso da irrigação nesta sub-bacia.

A pequena proporção das vazões médias de longa duração, consumidas pela irrigação, indicou a existência de um potencial para a construção de reservatórios de acumulação, os quais poderão permitir o crescimento das atividades econômicas na bacia, sem comprometer a sustentabilidade desse desenvolvimento.

Impacto da vazão retirada pela irrigação

Sendo a irrigação o principal consumidor de água na bacia do Paracatu, na Figura 3 se apresentam as vazões de retirada pela irrigação no mês de maior demanda (agosto) de 1996, as vazões referentes à Q7,10, estimada com base na vazão observada no rio no período de 1970 a 1996, e os percentuais das vazões retiradas pela irrigação em relação à Q7,10 observada. Nesta figura, evidencia-se que as vazões de retirada pela irrigação no mês de maior demanda variaram de 4,3% (Veredas) a 85,1% (Fazenda Barra da Égua).

A maior porcentagem da vazão de retirada pela irrigação (1,05 m3 s-1) em relação à Q7,10 observada foi de 85,1%, evidenciada na seção Fazenda Barra da Égua, localizada no ribeirão Entre Ribeiros. Este percentual foi muito superior ao da máxima vazão concedida para outorga no Estado de Minas Gerais (onde se encontra o ribeirão Entre Ribeiros), que é de 30% da Q7,10.

Visando a uma comparação entre os resultados obtidos da relação das vazões consumidas pela irrigação e as Q7,10 observadas, com aqueles da relação das vazões consumidas pela irrigação e as Q7,10 naturais, apresentam-se, na Figura 4, as vazões de retirada para irrigação no mês de maior demanda (agosto) de 1996, as Q7,10 estimadas com base na vazão natural do rio no período de 1970 a 1996 (Q7,10 natural) e as porcentagens das vazões retiradas para irrigação em relação à Q7,10 natural. Nesta figura se verifica que as vazões de retirada pela irrigação representam de 4,2 a 69,4% da Q7,10 natural, parcelas que, embora inferiores àquelas obtidas em relação à Q7,10 observada, ainda são muito expressivas em relação à vazão do rio e, em certas seções, muito superiores às vazões máximas permissíveis para outorga.

Enquanto em estações como Porto Alegre e Veredas a redução da proporção (Qirr/Q7,10 nat) decresce de apenas 0,1% em relação à proporção observada por ocasião do uso da vazão observada (Q7,10 observada), em algumas estações este declínio foi bem mais acentuado, atingindo até 15,7% na estação Fazenda Barra da Égua, onde a relação (Qirr/Q7,10 obs) era de 85,1% e passou para 69,4% quando da consideração da relação (Qirr/Q7,10 nat), valor ainda muito superior à vazão máxima passível de outorga.

Apresentam-se, na Figura 5, as vazões de retirada para irrigação no mês de maior demanda (agosto) de 1996, a Q95 estimada com base nas vazões observadas no período de 1970 a 1996 e nas porcentagens das vazões de retirada em relação às Q95 verificadas. Nesta figura, evidencia-se que as porcentagens da vazão de retirada pela irrigação em relação à Q95 observada, variaram de 2,7 a 47,0% nas seções analisadas, percentuais inferiores aos obtidos em relação à Q7,10, tanto aquela calculada com base em dados observados quanto a obtida com base em dados naturais.

Na estação Porto Alegre a vazão retirada pela irrigação correspondeu a apenas 13,7% da Q95 observada, sendo este valor inferior 1,4 vez ao obtido em comparação com a Q7,10 verificada (19,5%). Na estação Fazenda Barra da Égua, a vazão retirada para irrigação correspondeu a 47% da Q95 observada, sendo aproximadamente duas vezes inferior quando da comparação com a Q7,10 observada (85,1%).

 

CONCLUSÕES

1. A vazão total consumida na bacia apresentou pouca influência na vazão média de longa duração, sendo a maior porcentagem da vazão consumida em relação à vazão média de longa duração igual a 2,1%, observada no ribeirão Entre Ribeiros, o que potencializa a construção de reservatório na bacia.

2. Na situação mais extrema, correspondente à estação localizada no ribeirão Entre Ribeiros, a vazão de retirada pela irrigação no mês de maior demanda representou 85,1% da Q7,10 observada e 69,4% da Q7,10 natural.

3. Para condição crítica, relativa à estação situada no ribeirão Entre Ribeiros, a vazão de retirada pela irrigação no mês de maior demanda representou 47,0% da Q95.

 

LITERATURA CITADA

Alem Sobrinho, P.; Tsutiya, M.T. Coleta e transporte de esgoto sanitário. São Paulo: Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 1999. 548p.        [ Links ]

ANA - Agência Nacional de Águas. A evolução da gestão dos recursos hídricos no Brasil. Brasília: ANA 2002. 64p. Edição comemorativa do Dia Mundial da Água.        [ Links ]

ANA - Agência Nacional de Águas. Memorial descritivo do cálculo da demanda humana de água contidas no documento -Base de referência do plano nacional de recursos hídricos-. Brasília: Superintendência de Outorgas da Agência Nacional de Águas, 2003. 30p. Nota Técnica 010/SPR/2003.        [ Links ]

Brasil. Governo Federal. Minas Gerais; Governo do Estado. Distrito Federal. Plano Diretor de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Paracatu - PLANPAR. [S. l.]: Belo Horizonte, 1996. v.1, T. 1. CD-Rom.        [ Links ]

Corsan - Companhia Riograndense de Saneamento. Pró-Guaíba: Esgotamento sanitário da Bacia hidrográfica do Guaíba. [S. 1.: s. n.]: Secretaria do Interior de Obras Públicas, 1991.        [ Links ]

Dino, K.J. Projeto marca d-água: Relatórios preliminares 2001. Brasília: FINATEC, 2002, 47p.        [ Links ]

Doorenbos, J.; Pruitt, W.O. Las necessidades de agua de los cultivos.. Roma: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 1977. 144p. FAO Irrigation and Drainage, paper, 24.        [ Links ]

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo demográfico, Rio de Janeiro: IBGE, 1991, 512p.        [ Links ]

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo agropecuário, Rio de Janeiro: IBGE, 1996, CD- Rom.        [ Links ]

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico, Rio de Janeiro: IBGE, 2000, CD- Rom.        [ Links ]

Lima, J.E.F.W.; Ferreira, R.S.A.; Christofidis, D. Estudo do uso da água e energia elétrica para irrigação no Brasil. In: Encontro das Águas, 2, 1999, Montevidéu. Resumos... Montevidéu: IICA, 1999, CD-Rom.        [ Links ]

MMA - Ministério do Meio Ambiente. Base de referência do plano nacional de recursos hídricos. http://www.mma.gov.br/port/srh/pnrh/ documento /docbase/agrop.doc. 15 Mar. 2003.        [ Links ]

Pereira, S.B. Evaporação no lago Sobradinho e disponibilidade hídrica no rio São Francisco. Viçosa: UFV, 2004. 103p. Tese Doutorado        [ Links ]

Ramos, M.M.; Pruski, F.F. Subprojeto 4.3 - Quantificação e análise da eficiência do uso da água pelo setor agrícola na bacia do São Francisco. In: Projeto gerenciamento integrado das atividades desenvolvidas em terra na bacia do São Francisco. Viçosa: UFV; ANA/GEF/PNUMA/OEA, 2003. 190p. Relatório Final        [ Links ]

Rebouças, A.C., Braga, B., Tundisi, J.G. Águas doces no Brasil: capital ecológico, uso e conservação. São Paulo: Escrituras, 1999, 717p.        [ Links ]

Rodriguez, R. del G. Metodologia para estimativa das demandas e disponibilidades hídricas: Estudo de caso da bacia do Paracatu. Viçosa: UFV, 2004. 103p. Dissertação Mestrado        [ Links ]

 

 

Protocolo 008.05 - 03/02/2005 - Aprovado em 19/01/2007

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License