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Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental

versión impresa ISSN 1415-4366

Rev. bras. eng. agríc. ambient. vol.16 no.4 Campina Grande abr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-43662012000400004 

MANEJO DE SOLO, ÁGUA E PLANTA

 

Aplicação do fósforo e da irrigação na absorção e exportação de nutrientes pelo algodoeiro

 

Phosphorus and irrigation application on the absorption and exportation of nutrients by cotton

 

 

Leonardo A. de AquinoI; Rosiane F. B. A. AquinoII; Tatiane C. SilvaIII; Dayanne F. dos SantosIII; Paulo G. BergerIV

ICRP/UFV, Campus Rio Paranaíba, Rodovia MG 230, Km 8, CEP 38810-000, Rio Paranaíba, MG. E-mail: leonardo.aquino@ufv.br
II
Graduanda em Agronomia, UFV, Campus Rio Paranaíba, Rodovia MG 230, Km 8, CEP 38810-000, Rio Paranaíba, MG. E-mail: rosiane.aquino@yahoo.com.br
III
Graduanda em Agronomia, Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, Campus Januária, Bom Jardim, CEP 39480-000, Januária, MG. E-mail: tatianeagronomia@gmail.com; dayannecefet@yahoo.com.br
IV
Departamento de Fitotecnia/UFV, Avenida PH Rolfs, CEP 36570-000, Viçosa, MG. E-mail: pgberger@ufv.br

 

 


RESUMO

Objetivou-se, com este trabalho, avaliar o efeito de doses de fósforo em cultivos de sequeiro e irrigado, sobre a biomassa seca da parte aérea, o conteúdo e a exportação de nutrientes e a produtividade do algodoeiro. O experimento foi conduzido em Neossolo Quartzarênico, na região Norte de Minas Gerais. O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso com quatro repetições, num arranjo fatorial de duas doses de P2O5 x dois sistemas de cultivo. Dois tratamentos adicionais, sem aplicação do fósforo em cada sistema, completaram os seis tratamentos estudados. Avaliaram-se o acúmulo de biomassa seca, o conteúdo e a exportação de nutrientes e a produtividade do algodoeiro. Os níveis de fósforo estudados não influenciaram o acúmulo de biomassa seca de parte aérea. O suprimento de P aumentou a exportação de P, Ca, Mg, S e Mn no cultivo irrigado e de N, K e Fe independentemente do sistema de cultivo. A irrigação aumentou a biomassa seca de parte aérea aos 80 dias após a emergência, o conteúdo de N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn, Zn e B, bem como a exportação desses pela colheita. Houve incremento do número de capulhos por planta, do rendimento de fibra e da produtividade com a irrigação. O aumento de produtividade com a aplicação do P foi condicionado ao uso da irrigação.

Palavras-chave: neossolo quartzarênico, Gossypium hirsutum L., conteúdo mineral


ABSTRACT

This work aimed to evaluate the effect of phosphorus application in rainfed and irrigated crop on shoot dry matter, the absorption and nutrient exportation, and yield of cotton crop. The experiment was carried out in a Psament in the northeren part of Minas Gerais State, Brazil. The experimental design was in randomized blocks with four replications in a factorial arrangement of two doses of P2O5 x two cropping systems. Two additional treatments in each system without phosphorus application completed six studied treatments. Accumulation of dry biomass, absorption and exportation of nutrients, and yield of seed cotton were evaluated. Phosphorus levels did not influence the accumulation of shoot dry biomass. P supply increased the exportation of P, Ca, Mg, S, and Mn under irrigated and of N, K, and Fe regardless of the cropping system. Irrigation increased the dry biomass of leaves, stems, and shoots at 80 days after emergency, and the absorption of N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn, Zn, and B, as well as their exportation by the crop. There was an increase in the number of bolls per plant, fiber yield and productivity through the irrigation use. Increasing productivity with P application was conditioned to irrigation.

Key words: quartzanic neossoil, Gossypium hirsutum L., mineral content


 

 

INTRODUÇÃO

A baixa fertilidade do solo, em especial a de fósforo (P), pode comprometer a produtividade do algodoeiro. As interações entre o P e o solo podem levar a formação de complexos insolúveis com cátions, especialmente alumínio e ferro em condições ácidas (Vance et al., 2003; Bastos et al., 2008). A formação de P não-lábil a partir do P lábil é muito rápida e de reversibilidade pequena ou inexistente no curto prazo (Novais & Smyth, 1999; Broggi et al., 2010).

Em algodão, a aplicação da dose de 726 kg ha-1 de P2O5 parcelada ao longo de seis anos em solo argiloso no sulco de semeadura ou nos primeiro e quarto anos a lanço proporcionou maior produtividade quando comparada com a aplicação a lanço em dose única, no primeiro ano. Além do aumento da produtividade o P promoveu incrementos na massa dos capulhos, das sementes e do comprimento da fibra (Silva et al., 1990).

Os principais sintomas de deficiência de P no algodoeiro se caracterizam por atraso no desenvolvimento, coloração verde-escuro intenso nas folhas e manchas ferruginosas no limbo foliar. Ainda pode haver necrose de botões florais nas partes mais novas das plantas e amarelecimento das folhas mais velhas, devido à menor absorção de N e Mg (Rosolem & Bastos, 1997). Há formação de fibras imaturas, capulhos menores e leves, que não se abrem (Silva et al., 1990).

Aproximadamente 20% da área da região dos cerrados são ocupados pelos Neossolos Quartzarênicos (Goedert et al., 1980), solos com menos de 150 g kg-1 de argila. Nos últimos anos tem ocorrido expansão das áreas de soja e de algodão em solos de textura média e arenosa em razão do menor custo da terra e da escassez de áreas de solos argilosos. Regiões com boa aptidão climática para a produção do algodão, como o Norte de Minas Gerais e Oeste do estado da Bahia, possuem extensas áreas de solos arenosos (Aquino, 2009). A menor capacidade de armazenamento de água desses solos associada à distribuição irregular de chuvas, pode predispor a cultura a déficit hídrico e comprometer sua produtividade.

Dentre as culturas anuais o algodoeiro (Gossypium hirsutum) se destaca pela tolerância relativamente alta à seca. Isso advém de seus ajustes fisiológicos e de sua capacidade de crescimento e plasticidade radicular. O sistema radicular do algodoeiro pode atingir 2 m de profundidade mas a maior parte se concentra na camada de solo de 0 - 40 cm (Silva et al., 2009).

A cultura do algodão requer, durante seu ciclo de vida, entre 650 e 900 mm de água. A demanda hídrica depende do clima, das práticas culturais, da disponibilidade de água no solo, da cultivar e da evapotranspiração. Em geral, na fase inicial até o aparecimento dos primeiros botões florais o requerimento hídrico é inferior a 2 mm dia-1. Após esta fase e com o rápido crescimento vegetativo, o consumo de água aumenta, podendo ultrapassar 8 mm dia-1 (Bezerra et al., 2010).

O estádio mais sensível ao déficit hídrico é o reprodutivo durante a floração e formação das maçãs, no qual o déficit ou excesso hídrico pode provocar queda das estruturas reprodutivas e reduzir a produtividade da cultura (Arruda et al., 2002; Bezerra et al., 2010). A deficiência hídrica pode reduzir o diâmetro do caule, a altura das plantas e, consequentemente, a produtividade (Cordão Sobrinho et al., 2007).

O fornecimento adequado de água favorece a maior retenção de botões florais, especialmente nos primeiros ramos reprodutivos, além de aumentar a massa das sementes (Nuti et al., 2006; Balkcom et al., 2007). Cordão Sobrinho et al. (2007) estudaram reguladores de crescimento e lâminas de irrigação no algodoeiro e verificaram acréscimos de até 339% na produtividade com a irrigação.

Em estudo sobre transporte de P em seis solos com teor de argila de 50 a 570 g kg-1, a redução da água da condição de saturação para 75% da porosidade total reduziu, em média, vinte vezes o fluxo difusivo de P (Miola et al., 2000). Costa et al. (2006) notaram interação entre as propriedades físico-químicas de solos com fator capacidade de P distintos, doses de P e conteúdo volumétrico de água no solo. Solos com maior fator capacidade de P foram mais restritivos à difusão do elemento, quando da ocorrência de redução da água no solo, especialmente nas menores doses de P.

Os resultados de pesquisa indicam que o conteúdo de água do solo exerce grande influência sobre a difusão de P, razão pela qual é importante o estudo, em conjunto, de doses de P e irrigação na cultura do algodão.

Objetivou-se avaliar o efeito da aplicação de doses de fósforo em cultivo de sequeiro e irrigado sobre a biomassa seca e conteúdo de nutrientes da parte aérea, a exportação de nutrientes e a produtividade da cultura do algodão em Neossolo Quartzarênico.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Norte de Minas Gerais - Campus Januária, localizado em Januária, MG. Utilizou-se a cultivar de algodão 'Delta Opal'. A semeadura foi realizada em 04/11/2008, com espaçamento de 80 cm e quantidade necessária de sementes para alcance de população final de 100 mil plantas por hectare.

O preparo do solo constou de subsolagem, aração e duas gradagens. O solo da área experimental, de textura arenosa, é classificado como Neossolo Quartzarênico, cujos atributos químicos e físicos, estão expressos na Tabela 1.

O delineamento experimental foi o de blocos ao acaso com quatro repetições, num arranjo fatorial de duas doses de P2O5 (50 e 120 kg ha-1 de P2O5) x dois sistemas de cultivo (sequeiro e irrigado por gotejamento). Dois tratamentos adicionais, que consistiram do cultivo em cada sistema, sem aplicação do P, completaram os seis tratamentos estudados.

Cada unidade experimental se constituiu de cinco de linhas de 6 m cada uma; a área útil correspondeu às três linhas centrais, sem 50 cm das extremidades. A fonte de P utilizada foi o superfosfato triplo granulado com 41% de P2O5.

A recomendação de corretivo e adubações, exceto fosfatada, foi realizada de acordo com resultados de análise de solo seguindo-se as recomendações para a cultura, pelo Ferticalc Algodoeiro (Possamai, 2003). O Ferticalc é um sistema de recomendação de fertilizantes e corretivos por meio do balanço nutricional entre as quantidades de nutrientes requeridas pelos componentes vegetativos e reprodutivos e as quantidades disponibilizadas pelo solo.

Na semeadura foram aplicados N, K, Zn e B, nas doses de 12; 25; 2 e 1 kg ha-1, respectivamente; em cobertura, 188 kg ha-1 de N e 116 kg ha-1 de K2O, parcelados em três aplicações, aos 25, 35 e 45 dias após a emergência (DAE). Utilizaram-se uréia e sulfato de amônio como fontes de N, sendo supridos 60 e 40% da dose total de N com cada uma das fontes, respectivamente. A fonte de potássio foi o KCl. Foram aplicados, via foliar, 5 kg ha-1 de Fertilis 38®, que contém 10% de N, 3% de Mg, 10% de S, 3% de B, 2% de Cu, Fe e Mn, 0,1% de Mo e 8% de Zn.

Realizou-se o manejo de plantas daninhas pela aplicação, em pré-emergência, dos herbicidas S-metolachlor + Trifluralin e, em pós-emergência, de Pyrithiobac Sodium e Fenaxiprop-p-ethyl e em pós-emergência com jato dirigido, de flumioxazin + paraquat + S-metolachlor.

Aplicações de inseticidas (Tracer®, Endosulfan® e Decis®) foram realizadas nas dosagens recomendadas para a cultura, com vistas ao controle de insetos-praga. Foram realizadas, também, duas aplicações de estrobirulinas e triazóis, para controle da mancha de Ramulária (Comet® e Folicur®).

Nas parcelas irrigadas utilizou-se o sistema de irrigação por gotejamento e se instalou uma linha lateral por fileira de plantas, com gotejadores espaçados 50 cm e operando com vazão de 2,2 L h-1; enfim, avaliou-se a uniformidade pelo Coeficiente de Uniformidade de Christiansen (CUC), a qual foi de 92%.

Os dados diários de temperatura (máxima, média e mínima), umidade relativa, velocidade do vento, radiação solar e precipitação pluvial, foram obtidos numa estação meteorológica automática localizada a 200 m da área experimental. Com os dados meteorológicos calculou-se a evapotranspiração de referência com a aplicação da equação de Penman - Monteith. A evapotranspiração da cultura foi calculada pelo produto da evapotranspiração de referência e dos coeficientes de cultura para o algodoeiro (Bernardo et al., 2006). Quando a precipitação efetiva foi menor que a evapotranspiração da cultura, aplicou-se uma lâmina de água necessária para elevação da umidade do solo à capacidade de campo.

Amostraram-se as plantas aos 50 e 80 DAE, coincidindo com os estádios fenológicos de início de florescimento e florescimento pleno com desenvolvimento de maçãs. Esses estádios foram escolhidos por serem as fases de crescimento pleno e estabilização do crescimento vegetativo, respectivamente.

Coletou-se a parte aérea de quatro plantas da área útil, que foram lavadas e tiveram as folhas (do ramo principal e dos ramos frutíferos) separadas dos caules, aos 50 DAE; aos 80 DAE separaram-se as folhas (do ramo principal e dos ramos frutíferos), dos caules e das estruturas reprodutivas (botões florais, flores e frutos); na sequência, cada órgão da planta foi levado à estufa com ventilação forçada de ar, a 70ºC e secado até massa constante; após a secagem cada órgão da planta foi triturado em moinho tipo Wiley equipado com peneira de 1,27 mm para determinação dos teores de N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn, Zn e B, de acordo com método descrito por Malavolta et al. (1997).

Com o teor de cada nutriente calculou-se a quantidade acumulada em cada parte da planta (conteúdo), nas épocas de amostragem, por meio do produto da massa seca do órgão e teor de nutriente da respectiva parte da planta. A quantidade total absorvida aos 35, 50 e 80 DAE foi obtida pela soma do conteúdo das partes (folhas, caules e estruturas reprodutivas).

Realizou-se a desfolha quando 70% dos frutos encontraram abertos. Para isso utilizou-se carfentrazone - ethyl associado a óleo mineral no cultivo de sequeiro aos 128 DAE e nos cultivos irrigados aos 138 DAE. Procedeu-se à colheita aos 134 e 145 DAE, nos cultivos de sequeiro e irrigado, respectivamente. Na colheita foram determinados o número e a massa dos capulhos de vinte plantas de cada parcela.

Definiu-se a produtividade de algodão em caroço após a colheita dos capulhos abertos da área útil da parcela. Realizou-se o descaroçamento e se calculou o rendimento de fibra pela relação entre a massa de fibra e a de algodão em caroço de cada parcela.

Uma amostra de capulhos de cada parcela foi pesada e em seguida triturada em moinho tipo Wiley equipado com peneira de 1,27 mm para determinação dos teores de N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn, Zn e B, conforme descrito anteriormente. Calculou-se a quantidade exportada de cada nutriente pelo produto entre seu teor e a matéria seca de capulhos da parcela.

Os dados foram submetidos à análise de variância, através do software estatístico SAEG Versão 9.1 (SAEG, 2007). Realizou-se o desdobramento dos graus de liberdade dos fatores estudados comparando-se as doses de P pelo teste Duncan e os sistemas de cultivo pelo teste F, ambos a 5% de probabilidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Houve efeito dos sistemas de cultivo sobre a biomassa seca acumulada apenas aos 80 DAE. No cultivo irrigado o acúmulo de biomassa seca de folhas e de caule foi maior, o que resultou em também maior biomassa seca de parte aérea (Figura 1).

 

 

Até os 50 DAE a distribuição adequada de chuvas associada à baixa demanda hídrica da cultura, resultou em satisfação das exigências hídricas da cultura no cultivo de sequeiro (Figura 2). O algodoeiro tem baixa demanda hídrica até a fase de florescimento, o que ocorre por volta de 50 DAE (Bezerra et al., 2010). Na fase de florescimento pleno e formação de maçãs o déficit hídrico pode acarretar redução da altura de plantas, na expansão foliar e da matéria seca acumulada na parte aérea (Cordão Sobrinho et al., 2007).

 

 

Não houve diferença significativa na biomassa seca de estruturas reprodutivas aos 80 DAE (Figura 1). No entanto, a irrigação promoveu maior número de capulhos por planta e produtividade de algodão em caroço (Tabela 2). Tal resposta se deveu à distribuição irregular da precipitação pluvial, especialmente após os 60 DAE (Figura 2). Apesar de a precipitação pluvial superar a evapotranspiração da cultura em fases críticas, como após o florescimento e no crescimento de maçãs (Bezerra et al., 2010), houve períodos de veranicos.

 

 

O solo da área experimental possui disponibilidade total de água de 26,4 mm na camada de 0-40 cm. Assim, devido à baixa capacidade de armazenamento de água os veranicos induzem à deficiência hídrica haja vista que, dentre os distúrbios provocados por esta na cultura, estão o menor acúmulo de biomassa e a queda de botões florais (Arruda et al., 2002). Isto reduz o número de capulhos por planta, especialmente nos ramos situados no ápice do ramo principal. A irrigação pode beneficiar a produtividade, por aumentar a massa de capulho mas, principalmente, por aumentar seu número por planta (Balkcom et al., 2007; Aquino et al., 2011). No cultivo irrigado foram suplementados 278 mm de água durante o ciclo via irrigação.

Não houve efeito das doses de P2O5 aplicadas sobre a biomassa seca de folhas, caule e estruturas reprodutivas aos 50 e 80 DAE. Esta resposta pode ser relacionada ao fator capacidade de P na área experimental, que é reduzido, e à disponibilidade original de P no solo, classificada como média (Alvarez et al., 1999; Santos et al., 2009). Além de que o preparo profundo do solo favorece o crescimento abundante do sistema radicular o que, por sua vez, também favorece a absorção de nutrientes em camadas mais profundas.

Para o conteúdo de nutrientes na parte aérea aos 50 DAE, ocorreu interação significativa dos sistemas de cultivo x doses de P2O5 para o conteúdo de Zn (Tabela 2). O conteúdo de Zn foi maior no cultivo irrigado. Neste sistema foi notório o aumento do conteúdo com a aplicação do P. Por outro lado, no cultivo de sequeiro houve redução do conteúdo com o aumento das doses de P2O5. As condições adequadas de umidade no solo favorecem o transporte de nutriente, especialmente os menos móveis, como é o caso do Zn (Novais & Mello, 2007); entretanto, há forte interação entre o Zn e o P no solo (Novais & Smyth, 1999). É provável que no cultivo de sequeiro tenha havido menor crescimento do sistema radicular e, por conseguinte, este ficou restrito a região rica em P, resultando em menor absorção de Zn.

No sistema de cultivo irrigado houve maior conteúdo de N, P, Ca, Mg, Cu, Fe, Mn e B aos 50 DAE e de todos os macro e micronutrientes analisados aos 80 DAE (Tabela 3). A irrigação favoreceu maior expansão de área foliar e crescimento da parte aérea (Figura 1). Este maior crescimento se estendeu, provavelmente, ao sistema radicular. O maior crescimento radicular e as condições adequadas de umidade são condições que favorecem a absorção de nutrientes, em especial daqueles cujo mecanismo principal de transporte no solo é a difusão (Costa et al., 2006; Oliveira et al., 2010). Adicionalmente, a maior biomassa de folhas está associada à maior área foliar transpirante que, por sua vez, contribui para maior conteúdo de nutrientes transportados predominantemente por fluxo de massa, como, por exemplo, o N, Ca, Mg e o B (Novais & Mello, 2007).

O conteúdo de nutrientes na parte aérea aos 80 DAE foi maior no cultivo irrigado (Tabela 3). Em ambos os sistemas de cultivo, exceto para o de B, este conteúdo supera o observado por Hulugalle et al. (2004) visto que não foram influenciados pelas doses de P. Esses autores estudaram o conteúdo de nutrientes na maturidade do algodoeiro em função do sistema de manejo de solo e da rotação de culturas adotado anteriormente ao cultivo do algodoeiro. O solo utilizado pelos autores citados, mais argiloso, associado à menor produtividade obtida, justifica o menor conteúdo de nutrientes em relação aos encontrados neste trabalho. Existe, pois, uma relação direta entre produtividade, acúmulo de matéria seca e de nutrientes (Possamai, 2003; Aquino et al., 2011). Solos mais argilosos (mais tamponados) podem condicionar menor conteúdo de nutrientes na planta (Bastos et al., 2010).

Constatou-se interação nos sistemas de cultivo x doses de P2O5 para o P, Ca, Mg, S e Mn exportados pela colheita (Tabela 2). Para esses nutrientes o conteúdo foi maior no cultivo irrigado (Tabela 3). Não houve efeito das doses de P sobre a exportação dos nutrientes citados no cultivo de sequeiro, enquanto no irrigado as doses de P incrementaram a exportação dos nutrientes. A aplicação do P e o suprimento adequado de água, concorrem para aumentar o crescimento da parte aérea, o número de capulhos por planta na colheita e, por conseguinte, a produtividade (Balkcom et al., 2007; Cordão Sobrinho et al., 2007). A maior produtividade aumenta a quantidade de nutrientes exportados pela colheita do algodoeiro (Possamai, 2003; Aquino, 2009; Aquino et al., 2011).

As quantidades exportadas de Cu, Zn e de B foram influenciadas apenas pelos sistemas de cultivo e foram maiores no irrigado (Tabela 3). As condições adequadas de umidade no cultivo irrigado favorecem o mecanismo de transporte de nutrientes por difusão. Elementos menos móveis, especialmente micronutrientes catiônicos, têm na umidade do solo uma das principais limitantes ao transporte e à quantidade absorvida pela planta (Oliveira et al., 2010).

A exportação de N e K foi maior no cultivo irrigado (Tabela 3). A aplicação de P2O5 também aumentou a quantidade exportada desses nutrientes (Tabela 4). A maior biomassa de folhas no cultivo irrigado aos 80 DAE (Figura 1) estava associada, possivelmente, à maior área foliar. A maior área foliar favorece maior transpiração, condição que aumenta a absorção de nutrientes como o N e K, transportados no solo, predominantemente por fluxo de massa (Novais & Mello, 2007; Oliveira et al., 2010).

 

 

A exportação de Fe foi maior no cultivo irrigado (Tabela 3). A aplicação do P aumentou a exportação deste elemento (Tabela 4). Nunes et al. (2004) observaram aumento no fluxo difusivo de Fe com sua umidade e redução com a aplicação de P. Tal resultado pode ser devido à forte interação entre P e Fe e formação de compostos de baixa solubilidade (Vance et al., 2003); entretanto, neste trabalho o P incrementou a exportação de Fe, o que indica também maior absorção deste elemento. Se por um lado o P interage com o Fe, por outro favorece o crescimento do sistema radicular e este, por sua vez, reduz a distância para transporte do elemento no solo e aumenta a área de absorção. Elementos como o Fe, que são transportados predominantemente por difusão, têm a quantidade total absorvida muito influenciada pelo crescimento do sistema radicular (Novais & Mello, 2007).

No cultivo irrigado a aplicação do P resultou em maior número de capulhos por planta (Tabela 2). O P beneficia a produtividade do algodoeiro, dentre outros fatores, por aumentar o pegamento dos botões florais, o que resulta em maior número de capulhos por planta e produtividade da cultura (Silva et al., 1990).

O rendimento de fibra foi maior no cultivo irrigado e neste houve aumento desta variável com a aplicação do P (Tabela 2). O suprimento adequado de P concorre para a formação de fibras mais longas e de capulhos mais pesados, o que resulta em maior rendimento de fibra (Rosolem & Bastos, 1997; Girma et al., 2007).

A produtividade de algodão em caroço foi maior no cultivo irrigado nos três níveis de P2O5 testados. A resposta positiva da produtividade de algodão em caroço à aplicação do P ocorreu apenas no cultivo irrigado (Tabela 2). O maior número de capulhos por planta, com a aplicação do P no cultivo irrigado, contribuiu especialmente para a maior produtividade da cultura. A disponibilidade hídrica adequada e o suprimento de P resultam em maior pegamento de botões florais, notadamente naqueles situados nos ramos reprodutivos próximos ao ápice da planta (Aquino et al., 2011).

O incremento de produtividade médio do cultivo irrigado em relação ao de sequeiro foi de 44,6%. Cordão Sobrinho et al. (2007) encontraram incremento de até 339% na produtividade de algodão em caroço com o uso da irrigação. Fatores como bom preparo do solo e correção química que favoreçam o crescimento e o aprofundamento do sistema radicular no perfil do solo, distribuição de chuvas, época de semeadura, textura do solo, cultivar e adubação, influenciam na resposta da cultura à irrigação.

 

CONCLUSÕES

1. Os níveis de P2O5 estudados não influenciaram o acúmulo de biomassa seca de parte aérea. A irrigação aumentou a biomassa seca de folhas, caule e de parte aérea, aos 80 DAE.

2. A irrigação aumentou o conteúdo de N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn, Zn e B, na parte aérea tal como, também, sua exportação pela colheita.

3. O suprimento de P aumentou a exportação de P, Ca, Mg, S e Mn no cultivo irrigado e de N, K e Fe, independentemente do sistema de cultivo.

4. Houve incremento do número de capulhos por planta, rendimento de fibra e produtividade, com o uso da irrigação.

5. O aumento de produtividade com a aplicação do P foi condicionado ao uso da irrigação.

 

AGRADECIMENTOS

À FAPEMIG, pelo auxílio financeiro à pesquisa; ao CNPq, pela bolsa de Doutorado concedida durante parte do Doutorado do primeiro autor; à Iharabras, pela concessão de fitossanitários, e à MDM - Sementes de Algodão, pela doação das sementes utilizadas nos experimentos.

 

LITERATURA CITADA

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Protocolo 123.11 – 15/06/2011 - Aprovado em 30/12/2011