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Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental

Print version ISSN 1415-4366

Rev. bras. eng. agríc. ambient. vol.16 no.8 Campina Grande Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-43662012000800009 

GESTÃO E CONTROLE AMBIENTAL

 

Erosividade e padrões hidrológicos de precipitação no Agreste Central pernambucano

 

Erosivity and rainfall hydrological patterns in the Pernambuco Central 'Agreste'

 

 

Thais E. M. dos SantosI; Abelardo A. A. MontenegroII

ICCAAB/UFRB, CEP 44380-000, Cruz das Almas, BA. Fone: (75) 3621-2350. E-mail: thaisemanuelle@ufrb.edu.br
IIDTR/UFRPE, CEP 50910-130, Recife, PE. Fone: (81) 3320-6273. E-mail: abelardo.montenegro@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

A principal forma de erosão nas condições brasileiras é a causada pela energia cinética do impacto das gotas de chuva sobre a superfície do solo, desencadeando o processo de erosão hídrica. Desenvolveu-se o presente trabalho com o objetivo de avaliar o índice de erosividade (EI30) e caracterizar o padrão hidrológico das chuvas do Agreste Central pernambucano, considerando-se uma série de 29 anos de dados, ficando patente que o primeiro semestre do ano é caracterizado pela ocorrência de chuvas de elevado potencial erosivo. O valor do fator "R" da equação universal de perda de solo para a região estudada é de 2.779,79 MJ mm ha-1 h-1. O padrão de chuva de maior ocorrência é o avançado, seguido do intermediário e atrasado, com 46,57; 36,38 e 17,19% dos totais de chuvas erosivas analisados, respectivamente. Não foram encontradas correlações significativas entre erosividade, coeficiente de chuva e precipitação.

Palavras-chave: potencial erosivo das chuvas, características hidrológicas da chuva, USLE.


ABSTRACT

The main form of erosion in Brazilian conditions is caused by the kinetic energy of the impact of raindrops on the soil surface, triggering the erosion process. The present study was conducted with the aim to evaluate the erosivity index (EI30), as well as to characterize the hydrological pattern of rainfall in the Pernambuco Central 'Agreste', considering a series of 29 years of data. It was found that the first half of the year is characterized by rain with high erosive potential. The value of the factor "R" in the Universal equation of soil loss for the studied region is 2,779.79 MJ mm ha-1 h-1. The rain pattern of higher occurrence is the advanced, followed by intermediate and delayed, with 46.57; 36.38 and 17.19% of total erosive rainfall analyzed, respectively. There were no significant correlations between erosivity, rainfall coefficient and precipitation.

Keywords: rainfall erosive potential, rainfall hydrological characteristics, USLE.

 

 

INTRODUÇÃO

A erosão hídrica constitui um grande problema para os solos com utilização agrícola. Além da redução da produtividade das culturas, o processo erosivo pode causar sérios impactos ambientais, especialmente o assoreamento e poluição dos recursos hídricos (Cassol et al., 2007).

A erosividade das chuvas, definida como o potencial da chuva em causar erosão no solo, é função exclusivamente das características físicas da própria chuva, entre as quais são citados sua quantidade, intensidade, diâmetro de gotas, velocidade terminal e energia cinética. Na expectativa de detalhar os estudos desse agente erosivo, pesquisas têm demonstrado que as características da chuva que proporcionam as correlações mais elevadas com as perdas de solo são a intensidade e a energia cinética (Moreti et al., 2003).

A caracterização do fator R da equação universal de perda de solo requer o cálculo do índice de erosividade das chuvas (EI30), cujo valor é obtido pela multiplicação de dois parâmetros específicos das precipitações erosivas de dado local: energia cinética total da chuva (E) e intensidade máxima em 30 min (I30).

Tomando-se os valores desse índice para todas as chuvas individuais erosivas que ocorrem em cada mês do ano, tem-se o EI30 mensal, cuja soma caracteriza o EI30 anual. A média anual desse índice, determinada a partir de série histórica pluviográfica, representa o fator "R" do local em estudo.

Segundo Cassol et al. (2008), deve-se utilizar séries de registros pluviográficos de no mínimo 20 anos.

Mais de 30 anos de determinação em parcelas com coletores de enxurrada indicaram que, quando todos os demais fatores que influem na erosão, exceto a chuva, são mantidos constantes, as perdas de solo em áreas cultivadas são diretamente proporcionais ao índice EI30 (Wischmeier, 1962). Tal índice tem embasado vários estudos sobre erosividade podendo-se destacar Bazzano et al. (2010), Carvalho et al. (2009) e Cassol et al. (2008).

O conhecimento das características da chuva permite a planificação mais segura de estruturas de conservação de solo (terraços, curvas de nível) e de práticas agrícolas que visem à conservação do solo por meio de manutenção de sua cobertura, assim como outras obras (barragens, canais escoadouros) e de estruturas hidráulicas de fluxo para águas pluviais, o que justifica sua determinação (Bazzano et al., 2010).

Além da erosividade outra importante característica da chuva relacionada com o processo de erosão hídrica do solo diz respeito ao seu padrão hidrológico. Horner & Jens (1942) caracterizaram as chuvas em padrões denominados avançados, intermediários e atrasados, quando o pico de maior intensidade da chuva ocorre, respectivamente, no primeiro terço, no segundo terço e no terceiro terço do período de duração total da chuva. No Rio Grande do Sul, Mehl et al. (2001) caracterizaram os padrões de chuva ocorrentes em Santa Maria concluindo que o padrão avançado é o que ocorre com maior frequência. Além desses autores, Bazzano et al. (2010), Carvalho et al. (2009) e Cassol et al. (2007) também adotaram a mesma metodologia de classificação dos perfis para outras regiões do Brasil.

A determinação dos valores da erosividade, ao longo do ano também permite identificar os meses nos quais os riscos de perda de solo são mais elevados, razão por que exerce relevante papel no planejamento de práticas conservacionistas fundamentadas na máxima cobertura do solo, nas épocas críticas de maior capacidade erosiva das chuvas (Dias & Silva, 2003).

Carvalho et al. (2004) verificaram, analisando dados de chuvas e perdas de solo em São Manoel, SP, que em geral as maiores correlações do EI30 com a perda de solo foram obtidas quando as chuvas separadas por um intervalo tempo menor do que 6 horas foram tomadas como únicas e, assim sendo, foram seguidos como critério de seleção das chuvas individuais erosivas, para o cálculo da erosividade, os seguintes: considerar as chuvas maiores do que 10 mm e considerar a chuva menor do que 10 mm se ela apresentar pelo menos um segmento de intensidade que proporcione 6 mm em 15 min.

Os solos da região semiárida de Pernambuco normalmente estão sujeitos a chuvas de altas intensidades ocasionando a erosão hídrica de maneira bastante severa, tornando-se necessário, portanto, estudar as características das chuvas, seus parâmetros básicos e como eles contribuem para a desagregação, transporte e deposição do solo. Deve-se ressaltar que para esta região existe carência de estudos recentes voltados para as características da precipitação e para o comportamento de seus padrões hidrológicos.

Assim, o objetivo deste trabalho é avaliar o índice de erosividade (EI30), fornecer um valor para o fator "R" e caracterizar o padrão hidrológico das chuvas do Agreste Central pernambucano, além de sua distribuição anual.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Devido à dificuldade em se obter uma série completa e com intervalo de coleta de dados que satisfaçam aos estudos de erosividade e de caracterização dos padrões hidrológicos, os dados utilizados neste trabalho pertencem a três estações vizinhas, inseridas no Agreste Central do Estado de Pernambuco. Segundo SECTMA (2006), as estações apresentam precipitação total anual média entre 550 a 700 mm.

A primeira, localizada no município de Belo Jardim, encontra-se a uma latitude 08° 20' 08" Sul e a uma longitude 36° 25' 27" Oeste, estando a uma altitude de 608 m; a segunda estação se encontra no município de Pesqueira, localizada entre 8° 34' 17" e 8° 18' 11" de latitude Sul e 37° 1' 35" e 36° 47' 20" de longitude Oeste; possui uma altitude de 654 m; a terceira estação está localizada no município de Arcoverde, cuja altitude aproximada é de 663 m e coordenadas geográficas de 08o 25' 08'' de latitude Sul e 37o 03' 14'' de longitude Oeste. A maior distância entre as estações é de 72 km (SECTMA, 2006).

A estação localizada no município de Pesqueira está inserida na Bacia do Alto Ipanema, com área de 183 km2, localizada na região do Agreste Central do Estado de Pernambuco. O clima é semiárido muito quente tipo Estepe, segundo Köppen. A precipitação média anual é de 607 mm, a temperatura média é de 23 0C e a evapotranspiração potencial é de cerca de 2.000 mm por ano. A vegetação predominante é a caatinga hipoxerófila (Montenegro & Montenegro, 2006).

A Bacia do Alto Ipanema foi escolhida em razão de integrar a rede REHISA (rede de hidrologia do semiárido), que congrega grupos de pesquisa (universidades e outras entidades) do Nordeste, atuando na região semiárida que tem, como finalidade, o desenvolvimento de pesquisas em rede para estudo dos processos hidrológicos em escala de bacias experimentais e representativas. A Bacia dispõe de estação climatológica completa, instalada em 2002, além de pluviômetros automáticos, modelo TB4-L Rain Gauge (Campbell Scientific), com resolução de 0,254 mm, programado para registrar a precipitação a cada 5 min. A partir dos dados armazenados as alturas de precipitação e a intensidade de chuva foram analisadas.

Os dados de precipitação são provenientes dos anos de 1969 a 2010, com falhas de 1977 a 1979. Os pluviógrafos convencionais funcionaram até o ano de 1993, devido à desativação da SUDENE, acarretando uma falha de 1993 a 2002. Em 2002, a UFRPE instalou pluviógrafos automáticos, da Campbell Scientific, complementando a série de 2003 a 2010. O total de dados refere-se a um período de 29 anos.

Para os cálculos da erosividade foram levados em consideração apenas as chuvas individuais.

A precipitação foi dividida por sua duração e se obteve, assim, a intensidade, dada em mm h-1, conforme Foster et al. (1981). Para determinação do índice de erosividade (EI30), fez-se necessária a multiplicação de dois parâmetros específicos das precipitações erosivas: energia cinética total da chuva (Ec), em MJ mm ha-1 h-1 e intensidade máxima em 30 min (I30), em mm h-1. De acordo com Wischmeier & Smith (1978) e expresso nas unidades do Sistema Internacional, conforme Foster et al. (1981), foi considerada a Eq. 1 de cálculo da energia cinética por milímetro de chuva, amplamente utilizada na literatura, por Mello et al. (2007), Cassol et al. (2008), Machado et al. (2008), Carvalho et al. (2009) e Bazzano et al. (2010):

 

 

quando I ≤ 76 mm h-1, e

quando I > 76 mm h-1, em que:
Ec - energia cinética, MJ ha-1 mm-1
I - intensidade da chuva, mm h-1

A energia cinética por incremento de chuva foi então determinada como a Eq. 2:

 

 

em que:
Vol - quantidade de chuva do incremento (lâmina precipitada), mm
Eci - energia cinética do incremento, MJ ha-1

A energia cinética total foi obtida pelo somatório da energia cinética de cada incremento, segundo a Eq. 3:

Logo, o EI30 foi calculado pela Eq. 4:

Cada chuva foi segmentada em intervalo de 5 min e identificada a maior lâmina de chuva precipitada em um intervalo contínuo de 30 min, com a qual se obteve a intensidade máxima de chuva observada nessa duração (I30). Desta forma foi calculado, para cada precipitação, o índice EI30 em MJ mm ha-1 h-1.

Somando-se os índices EI30 de todas as chuvas individuais e erosivas de cada mês, obteve-se a erosividade mensal das chuvas e, somando-se os índices EI30 mensais, obteve-se então a erosividade anual das chuvas.

Foram determinados os padrões hidrológicos de cada chuva erosiva analisada seguindo-se a classificação proposta por Horner & Jens (1942), que classificam as chuvas em padrões hidrológico avançado, intermediário e atrasado. Com base no padrão hidrológico de cada chuva foi calculada a percentagem do total das chuvas que representa cada padrão hidrológico.

O coeficiente de chuva foi calculado pelo método proposto por Lombardi Neto (1977), Eq. 5, dado por:

em que:
RC - coeficiente de chuva, mm
Pm - precipitação média mensal, mm
Pa - precipitação média anual

Foram analisados a probabilidade de ocorrência e o correspondente período de retorno, tanto para os índices de erosividade EI30 anuais como para as chuvas máximas diárias, da série estudada.

A estimativa do período de retorno (T, em anos) foi calculada através da Eq. 6:

em que:
N - representa o número de anos da série parcial
m - número de ordem, quando os eventos climatológicos são relacionados em ordem decrescente de magnitude. Desta forma, a probabilidade (Pr) inversa do período de retorno (T), pode ser calculada pela Eq. 7:

Para avaliação das tendências temporais da erosividade nas três estações analisadas, foi utilizado o desvio normalizado, conforme a Eq. 8, como discutido por Silva et al. (2007):

em que:
X - valor anual observado do elemento meteorológico
- média do elemento meteorológico referente à série de 29 anos analisada
σ - desvio padrão da série temporal
E - erro calculado pela Eq. 9:

a partir deste erro (E) determina-se quando o ano é considerado normal (|y| ≤ E); acima da média (y > E); muito acima da média (y > 2E); abaixo da média (y < -E) e muito abaixo da média (y < -2E).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Durante o período de observação verificou-se a ocorrência de 481 chuvas erosivas, das quais 224 de perfil avançado, 175 de perfil intermediário e 82 de perfil atrasado, correspondendo a 46,57, 36,38 e 17,19% do total de chuvas erosivas analisadas, respectivamente. A intensidade média dos picos foi de 50,91, 39,89 e 39,05 mm h-1, para os perfis avançado, intermediário e atrasado, respectivamente.

Segundo Mehl et al. (2001), a distribuição das chuvas concentradas no padrão avançado tende a gerar menores perdas de solo pelo fato de que, no momento do pico da chuva, o solo estaria menos úmido que no caso dos outros padrões; desta forma, a desagregação, o selamento e o transporte de solo seriam menores.

O perfil avançado também foi o que apresentou maior percentual de chuvas erosivas para as localidades de Rio Grande, RS (Bazzano et al., 2010); Santa Rosa, RS (Mazurana et al., 2009); Seropédica, RJ (Carvalho et al., 2009) e São Borja, RS (Cassol et al., 2008).

Observando a Figura 1, verifica-se a distribuição de frequência de intensidade de precipitação, segundo os padrões hidrológicos avançado, intermediário e atrasado. No padrão avançado 50% dos valores são maiores que 38 mm h-1, chegando a valores de até 300 mm h-1, correspondendo a uma lâmina de 10 mm em 2 min. Chuvas de alta intensidade são bem características da região. Registros semelhantes também foram observados na Bacia experimental de Sumé, localizada no Estado da Paraíba, onde precipitou uma lâmina de 9,6 mm em 2 min, gerando intensidade de 288 mm h-1 (Srinivasan & Galvão, 2003).

Verifica-se ainda, na Figura 1, que aproximadamente 30% das intensidades de precipitação, do padrão avançado, são valores superiores a 60 mm h-1. Santos et al. (2009) verificaram, utilizando simulador de chuvas com intensidade de precipitação de 60 mm h-1, na Bacia do Alto Ipanema, em Pesqueira, PE, que em solos descobertos as perdas de água chegam a 90% da lâmina aplicada.

No perfil atrasado, apesar de possuir menor frequência, as intensidades de precipitação, tal como no perfil avançado, atingem valores elevados chegando a 246 mm h-1. Segundo Bazzano et al. (2010), quando ocorre o pico de máxima intensidade no padrão atrasado, o solo está com maior umidade (em relação aos outros padrões), favorecendo a desagregação, o selamento superficial e o transporte das partículas de solo ocorrendo, então, maiores perdas. Enfatiza esta afirmação o estudo realizado por Carvalho et al. (2009), no município de Seropédica, RJ, buscando avaliar o efeito da erosividade e dos padrões de precipitação nas perdas de solo, constatando-se que o perfil avançado foi o que apresentou menores perdas de solo quando comparado com os perfis intermediário e atrasado.

Na Figura 2A, que representa o número de chuvas mensais, verifica-se que o padrão avançado se apresenta superior em praticamente todos os meses do ano, com exceção apenas de junho e julho, meses em que o padrão intermediário tem maior proporção. Bazzano et al. (2007) e Cassol et al. (2007) também constataram predominância ao longo do ano, do padrão avançado, para as regiões de São Borja, RS e Ijuí, RS, respectivamente.

Em referência à distribuição média mensal da erosividade das chuvas (Figura 2B) também se constata predominância do padrão avançado em quase todos os meses, com exceção do mês de fevereiro, em que a erosividade atingiu valor máximo para a série analisada, de 1693,23 MJ mm ha-1 h-1, com perfil atrasado.

Observando a Tabela 1, verifica-se que no período de 1969 a 2010 a precipitação total anual média na região, foi de 568,11 mm. O ano de 2010 foi o de maior pluviosidade, cujo total foi de 1047,99 mm, enquanto 1981 foi o ano de menor pluviosidade, com 180,70 mm. Em relação às médias mensais, verifica-se que o mês de março apresentou maior média, com 90,92 mm, enquanto o mês de novembro indicou a menor média, com valor de 4,67 mm. A pluviosidade média mensal, variando de 4,67 a 90,92 mm, resulta da heterogeneidade temporal da distribuição da precipitação na região semiárida de Pernambuco que, como constatado por Santos et al. (2010), caracteriza-se pela má distribuição no tempo e no espaço, apresentando um período de estiagem que ocorre de setembro a fevereiro e um período chuvoso, de março a agosto, representado por chuvas de alta intensidade e de curta duração, resultando em elevado risco de perda de água e solo.

Na Figura 3 se observam os dados de erosividade médios mensais para os 29 anos estudados, verificando-se que o maior índice de erosividade se concentra nos meses de fevereiro a abril, os quais também possuem maiores valores discrepantes; já nos demais meses a erosividade das chuvas é muito baixa, chegando a zero em alguns meses, indicando que no primeiro semestre os riscos de erosão são maiores. Salienta-se que, na região do Agreste Central de Pernambuco, o primeiro semestre é o período em que ocorre o preparo do solo para a prática da agricultura de sequeiro requerendo, assim, adoção de técnicas de conservação; porém, deve-se adotar medidas conservacionistas durante todo o ano visto que em anos atípicos as chuvas ocorridas no verão podem acarretar processos erosivos, já que tais chuvas se apresentam com alta intensidade e curta duração, conforme constatado.

 

 

Na Figura 4 observa-se a distribuição anual do índice de erosividade, verificando-se que a distribuição ao longo dos anos não é regular. Observando o boxplot, pode-se inferir que os anos de 1986, 2009 e 2010 possuem maior mediana concluindo-se, então, que os referidos anos possuem maiores valores de erosividade, distribuídos ao longo do ano, em relação aos demais. Tem-se, ainda nesta figura, que os anos de 1975, 1985, 1986, 1988, 1989, 2004 e de 2008 a 2010 possuem maior dispersão já que os valores mínimo-máximo são mais acentuados em relação aos demais.

 

 

Na Figura 5 observa-se a série temporal do desvio normalizado para as erosividades anuais. Durante o período estudado não se verificaram anos com erosividades muito acima ou muito abaixo da média, com exceção para os anos atípicos de 2009 e 2010.

 

 

Com base na Tabela 2, verifica-se que a erosividade média anual para a região Agreste Central do estado de Pernambuco é de 2.779,79 MJ mm ha-1 h-1 valor que representa o fator "R" da equação universal de perda de solo, podendo ser utilizado para a região estudada. Quanto à média mensal observa-se variação de 12,67 MJ mm ha-1 h-1, no mês de novembro a 666,44 MJ mm ha-1 h-1, no mês de fevereiro.

Referente aos valores médios anuais, os extremos foram de 640 MJ mm ha-1 h-1, para o ano de 2010 e de 4,97 MJ mm ha-1 h-1, para o ano de 1981.

O valor de 2.779,79 MJ mm ha-1 h-1 é considerado de erosividade média, de acordo com a classificação proposta por Carvalho (2008), representada pela Tabela 3.

 

 

A erosividade média anual mostrou-se abaixo das médias anuais encontradas por Dias & Silva (2003) em Fortaleza, CE (6.774 MJ mm ha-1 h-1), Maia Neto & Chaves (1997), no Estado da Paraíba (2.000 a 8.000 MJ mm ha-1 h-1), Rufino et al. (1993), no Estado do Paraná (5.500 a 12.000 MJ mm ha-1 h-1) e Bertoni & Lombardi Neto (1990), no litoral do Estado de São Paulo (6.000 a 7.500 MJ mm ha-1 h-1).

Quando comparada com valores encontrados para o Agreste pernambucano, nota-se que a média anual de 2.779,79MJ mm ha-1 h-1 fica próxima às encontradas por Albuquerque et al. (1994) (2.100 MJ mm ha-1 h-1) e Margolis et al. (1985) (2.060 MJ mm ha-1 h-1), ambos em Caruaru, PE. Silva et al. (1985) encontraram, buscando caracterizar o índice de erosividade para as regiões Agreste e Sertão do Estado de Pernambuco, valores médios anuais de 2.775,5 e de 3.699,28 MJ mm ha-1 h-1, respectivamente. Lopes & Brito (1993) encontraram valor de 3.772 MJ mm ha-1 h-1 para a região do Médio São Francisco no polo Petrolina, PE - Juazeiro, BA, localizado no Sertão do Estado.

Por outro lado e comparada com outros autores, a média anual encontrada neste trabalho, de 2.779,79MJ mm ha-1 h-1, mantém-se inferior aos valores encontrados por Albuquerque et al. (2001), em Sumé, PB (4.298 MJ mm ha-1 h-1 ) e Campos Filho et al. (1992), no Agreste pernambucano (3.551 MJ mm ha-1 h-1), embora ambas as erosividades possam ser classificadas como erosividade moderada. Já Chaves et al. (1997) encontraram em Patos, PB, valor de 5.200 MJ mm ha-1 h-1, devendo tal erosividade ser classificada como moderada a forte, conforme Carvalho (2008). A grande variabilidade espacial do fator erosividade no Brasil é natural, decorrente da variabilidade climática entre as diversas regiões do País, indicando grande variabilidade no risco de erosão hídrica.

A Figura 6 apresenta a frequência acumulada dos valores totais anuais do índice de erosividade (EI30). Verifica-se que os valores foram bem diversos, com mínimo de 59,70 MJ mm ha-1 h-1, para o ano de 1981, o qual também apresentou menor pluviosidade (Tabela 1) e o valor máximo de erosividade que ocorreu no ano de 2010, com valor de 7682,61 MJ mm ha-1 h-1.

 

 

Na Figura 7 estão as correlações entre o índice de erosividade médio mensal e o coeficiente de chuva (Figura 7A) e entre o índice de erosividade médio mensal e a precipitação (Figura 7B). Para o índice de erosividade e o coeficiente de chuva, a linha de tendência ajustada foi do tipo potência, com coeficiente de determinação de 0,71, não apresentando uma correlação elevada quando comparada com coeficientes de determinação de 0,91 obtida por Almeida et al. (2011), para Cuiabá, MT, determinação de 0,84, obtida por Cassol et al. (2008), para São Borja, RS, e de 0,96, obtida por Colodro et al. (2002), para Teodoro Sampaio (SP). Também não foram encontradas correlações significativas entre o índice de erosividade e o coeficiente de chuva por Bazzano et al. (2010), para o município de Rio Grande, RS, enquanto Cassol et al. (2007) encontraram R2 de apenas 0,53, para o município de Ijuí, RS.

 


 

A relação entre o índice de erosividade médio mensal e a precipitação também apresentou ajuste tipo potência com R2 de 0,71. Baixas correlações entre essas duas variáveis também foram encontradas por Bazzano et al. (2010), enquan-to Almeida et al. (2011) encontraram R2 de 0,91 para essas duas variáveis.

Na Tabela 4 se apresentam o período de retorno e a probabilidade de ocorrência dos valores dos índices anuais de erosividade, durante o período de1969 a 2010. Observa-se que o valor do período de retorno e da probabilidade de ocorrência determinada para o maior índice de erosividade anual observado (7.138,72 MJ mm ha-1 h-1) foi, respectivamente, de 30,0 anos e 3,33%. Da mesma forma, os valores para a menor erosividade (59,70 MJ mm ha-1 h-1) foram de 1,03 anos e de 96,67%.

 

 

Prevê-se que o valor médio anual de erosividade, 2.779,79 (MJ mm ha-1 h-1) ocorra a, aproximadamente, cada 2,23 anos, com probabilidade de 42,49%.

 

CONCLUSÕES

1. O padrão de chuva de maior ocorrência no Agreste Central pernambucano é o avançado, seguido dos intermediário e atrasado, com 46,57, 36,38 e 17,19% dos totais de chuvas erosivas analisados, respectivamente.

2. Não foi encontrada correlação significativa entre erosivi-dade e coeficiente de chuva nem, tampouco, com a precipitação.

3. O primeiro semestre do ano é caracterizado pela ocorrência de chuvas de elevado potencial erosivo, sendo os meses de fevereiro e março aqueles que apresentaram maiores erosividades.

4. Espera-se que o valor médio anual de erosividade, 2.779,79 (MJ mm ha-1 h-1) ocorra, aproximadamente, a cada 2,23 anos, com probabilidade de 42,49%, podendo ser classificada como moderada.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à FINEP, ao CNPq e à CAPES/FACEPE, pelo apoio financeiro.

 

LITERATURA CITADA

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Protocolo 014.11 – 02/02/2011
Aprovado em 21/05/2012