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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714versão On-line ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.9 no.1 São Paulo jan./mar. 2006

https://doi.org/10.1590/1415-47142006001008 

OBSERVANDO A PSIQUIATRIA

Tempo, idade e cultura: uma contribuição à psicopatologia da depressão no idoso. Parte II: Uma investigação sobre a temporalidade e a medicina

Cláudio Lyra Bastos


RESUMO

Procuramos aqui relacionar dois aspectos fundamentais das intuições culturais sobre a passagem do tempo – a temporalidade cíclica e a contínua – com a terapêutica médica e especialmente com a psicopatologia, numa visão crítica do constructo moderno da depressão no idoso. Inspirado em perspectivas de natureza antropológica, o texto se apóia na experiência clínica cotidiana e na atitude fenomenológica que orienta essa prática. Nas concepções culturais que tendem a perceber a passagem do tempo de forma predominantemente cíclica, o envelhecer é parte de um movimento eterno, e a família se perpetua em seus descendentes, nas suas tradições, no vínculo com a terra ou no exercício do ofício familiar. As transformações culturais que têm proporcionado a passagem para enfoques mais direcionais do tempo vão destacando cada vez mais o papel individual na história social. Quanto mais difícil for a passagem de Weltanschauungen tradicionais – de tendência circular, fatalista, repetitiva e eterna – para outras de tendência individualizante, burocratizante, planejadora e sucessiva, maiores as dificuldades para uma senectude satisfatória e maior a tendência à medicalização desse fracasso. Esta é a primeira (segunda) parte de uma série de três artigos.

Palavras-Chave: Psicopatologia e cultura; temporalidade e medicina; depressão no idoso; psicogeriatria

RESUMEN

Buscamos aquí relacionar dos aspectos fundamentales de las intuiciones culturales sobre el pasage del tiempo – la temporalidad cíclica y continua – con la terapéutica médica y más especialmente con la psicopatología, en una visión crítica del constructo moderno de la depresión en la vejez. Inspirado en perspectivas antropológicas, el texto busca apoyo en la experiencia clínica diaria y en la actitud fenomenológica que la orienta. En las concepciones culturales del tiempo que tienden a percibir su pasage de forma predominantemente cíclica, envejecer es parte de un movimiento eterno. La familia se perpetúa en sus descendientes, en sus tradiciones, en el vinculo con la tierra o en el ejercicio del oficio familiar. Las transformaciones culturales que han proporcionado el pasage para enfoques más direccionales del tiempo van destacando cada vez más el rol individual en la historia social. Cuanto más dificultoso sea el pasage de Weltanschauungen tradicionales – de tendencia circular, fatalista, repetitiva y eterna – para otras, de tendencia individualizante, burocratizante, planeadora y sucesiva, mayores serán las dificultades para una senectud satisfactoria, y mayor la tendencia a la medicalización de ese fracaso. Esta es la segunda parte de una serie de tres artículos.

Palabras-clave: Psicopatología y cultura; temporalidad y medicina; depresión en el anciano; psicogeriatría

ABSTRACT

Nous cherchons ici à relationer deux aspects fondamentales des conceptions intuitives culturelles sur la passage du temps – la temporalité cyclique e la continue – avec la thérapeutique médicale et plus spécialement avec la psychopathologie, dans une vision critique de la conception moderne de la dépression chez la vieillesse. Inspirée des perspectives anthropologiques, le texte se soutien dans l’expérience clinique de chaque jour et dans l’attitude phénoménologique guidant cette pratique. Dans las conceptions culturelles du temps de tendance cyclique, le vieillissement est part d’un mouvement éternel et la famille se perpétue par ses descendants, sas traditions, ses liens avec la terre ou l’exercice du métier familier. Les transformations culturelles que proportionnent la passage pour un approche plus directionnel du temps détachent de plus em plus le rôle individuel das l’histoire social. La plus difficile est la passage des perspectives traditionnelles, tendants à la circularité, à la répétition, au fatalisme et à l’éternité, pour autres de tendance à l’individualisation, à la bureaucratie, à la planification et à la succession, les plus grandes les entraves à une vieillesse satisfaisante et la tendance à la médicalisation de ce problème. Cet article est la seconde part d’une série de trois.

Key words: Psychopatologie et culture; temporalité et médicine; depression et l’âgée; psychogeriatrie

ABSTRACT

Two fundamental aspects of intuitive cultural conceptions of the passage of time – cyclical and continuous – are related here to medical therapy and psychopathology, in a critical view of depression in old age as a modern construct. Although inspired by anthropological perspectives, this article is based on daily clinical experience which uses a phenomenological approach. In predominantly cyclical cultural perceptions of time the process of ageing is part of an eternal movement. Families perpetuate themselves in their descendants, their traditions, ties with the land or the practice of family crafts or skills. Cultural transformations that give rise to more directional approaches to the passage of time tend to increasingly implement individual roles in social history. The more difficult it is to effect a passage from a fatalist, repetitive, cyclical, eternal and traditional Weltanschauungen to individualizing, bureaucratizing, planning and successive Weltanschauungen, the greater the probability of unsuccessful old age and the consequent medicalization of this failure. This paper is the second part of a three-part series.

Key words: Psychopathology and culture; temporality and medicine; depression and ageing; psychogeriatrics

Texto completo disponível apenas em PDF.

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Recebido: Agosto de 2005; Aceito: Dezembro de 2005

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