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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.11 no.3 São Paulo Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142008000300008 

OBSERVANDO A MEDICINA
ENSAIO

 

 

Animais de estimação movidos a drogas*
(Correções incluídas)

 

 

James Vlahos

 

 

Introdução, por Mônica Teixeira

Esmin Elizabeth Green morreu no dia 19 de junho de 2008, na sala de espera do hospital psiquiátrico Kings County, Brooklin, Nova Iorque. A imagem de sua morte apareceu nas emissoras de televisão e deu a volta ao mundo: uma câmara de segurança filmou Esmin cair da cadeira em que esperava por um leito há 24 horas e ficar por 80 minutos estendida no chão - "por pelo menos 44 minutos, sem dar sinal de vida", como registrou o jornal New York Times.

Esmin era uma imigrante jamaicana, de 49 anos, que se mudou para Nova Iorque para sustentar os filhos que ficaram em sua cidade natal, Lluidas Vale, com uma de suas irmãs. Esmin mandava dinheiro, presentes, comida. Freqüentava a igreja e trabalhava. Segundo o jornal, Esmin vivia longos períodos de depressão. Por isso, tomava antidepressivos e por isso procurou o hospital Kings Count.

A notícia de sua morte só apareceu quase um mês depois, na mesma semana de julho em que a revista semanal do New York Times publicou uma estranha reportagem - sobre cães e gatos, de norte-americanos, que - como Esmin e tantos outros humanos - tomam antidepressivos e recebem outras formas de tratamento psiquiátrico. Seria estranho por si só - animais são humanos? -; tornou-se mais bizarro cotejado ao descaso de que a morte de Esmin é testemunha. Os Estados Unidos são, mesmo, uma sociedade complexa. Já a indústria farmacêutica, esta é incansável: agora chegou a vez de medicalizar o que parece dor nos animais.

Max busca frisbees. Devora balas de goma. Caça veados. Não deveria ser esquecido quando a discussão de casos como o dele entra nos campos da etologia cognitiva, da psicologia normativa e do solipsismo intra-espécie - Max é um cão, um pastor alemão de três anos de idade, patas ágeis e membros flexíveis, que patrulha o piso de madeira e o carpete de parede a parede de uma casa cul-de-sac em Lafayette, Califórnia. Ele vive com Michelle Spring, enfermeira, e Allan, marido dela, piloto de aviões aposentado. Max recupera bolas de tênis com as suas destras pernas dianteiras e consegue ficar de pé sobre as pernas traseiras para abrir a porta da frente. Adora passear de carro e salta para dentro de qualquer veículo disponível, mesmo aqueles que pertencem a estranhos. "Ele é ágil", diz Allan "é saudável, um animal atraente." Michelle acrescenta: "Nós o amamos de morrer". É por isso que não tiveram opção, afirma ela. O cão simplesmente teve que passar a usar drogas psicoativas.

Cheguei na noite em que Max tomaria o seu primeiro comprimido. Ele comia do seu pote de ração enquanto os Spring discutiam seus problemas sentados à mesa da cozinha. Para começar, havia essa sua necessidade avassaladora de estar perto de pessoas, especialmente de Allan. Se eles deixavam Max sair para o quintal, ele rapidamente se aliviava e então disparava de volta para dentro; corria para os cômodos que Allan iria ocupar, apoiava a sua cabeça na porta do banheiro durante as abluções de seu mestre. "Veja isso" disse Allan. Ele e Michelle se levantaram para se abraçarem. No momento em que se tocaram Max soltou uma série de latidos agudos. "Ele gosta de estar perto de nós, mas não gosta que nós estejamos perto um do outro" disse Allan.

Tais comportamentos, contudo, não foram o que levaram à intervenção psiquiátrica. Os Spring me conduziram ao piso inferior - Max, sem terminar o jantar, saltou adiante. Lá embaixo, Allan apontou em direção aocão, deitado no chão, olhando para a sua cauda. Ele encarava o rabo bravo, perturbado por ele. "Você pode ver a pressão crescendo em seu psiquismo até ele estar a ponto de explodir" disse Michelle. Então, ele explodiu: Max ficou de pé e arfou. Suas mandíbulas abocanhavam apenas ar e ele rodava no sentido anti-horário no mesmo lugar, um borrão de pêlos e dentes em aceleração e frustração. Caçar o rabo é normal - exceto que Max caçava o seu diariamente, por horas a fio. "Ele é como um viciado que precisa de uma dose" disse Allan. "Há vezes em que ele não consegue evitar. Ele fica maluco."

Allan foi ao andar de cima e retornou após alguns instantes com um pouco de carne de peru moída e um comprimido. Ele escondeu o comprimido na carne e estendeu a mão para Max que havia parado de rodopiar. O remédio, quimicamente idêntico à clomipramina, antidepressivo tricíclico usado na atenção psiquiátrica, mas ele veio em uma caixa verde e branca da Novartis. Este não era o Anafranil, a marca para a versão humana da droga; era Clomicalm, exclusiva para cães. Aprovada pelo Food and Drug Administration (F.D.A.) para tratar ansiedade de separação - que segundo a Novartis e veterinários, é um problema que pode ocorrer em cães que deixados sós em casa - a medicação também é prescrita na forma genérica para pacientes com o diagnóstico de Max: um transtorno compulsivo. Ele seria a versão canina de uma pessoa que lava as mãos 20 vezes por hora. Max inclinou-se para frente e engoliu o comprimido.

A prática de prescrever, para animais, medicamentos desenvolvidos para humanos, tem crescido substancialmente ao longo dos últimos 15 anos. As empresas farmacêuticas têm iniciado experimentação com uma estratégia mais direta: vender drogas de modificação comportamental e de estilo de vida especificamente para animais de estimação. Os animais da América, ao que parece, possuem problemas de saúde bem americanos. Mais de 20% dos nossos cães estão acima do peso; o Slentrol, da Pfizer, foi aprovado pelo FDA no ano passado como o primeiro medicamento contra a obesidade para cães do país. Os cães vivem em média 13 anos, consideravelmente mais tempo do que viviam no passado; o Anipryl, da Pfizer, trata disfunções cognitivas para que animais de estimação esquecidos possam se lembrar da localização do pote de ração para o jantar ou a porta do cãozinho. Para os cães solitários, com ansiedade de separação, a Eli Lilly trouxe ao mercado sua própria droga Reconcilia no ano passado. A única diferença entre ela e o Prozac é que o Reconcilia é mastigável e tem sabor de carne.

Comprimidos caninos para perda de peso podem ser claramente um absurdo, mas cientistas do campo em expansão, conhecido como farmacologia comportamental, afirmam que a combinação das novas terapias medicamentosas e técnicas progressivas de treinamento podem resolver os problemas que no passado sempre resultavam em eutanásia. A suposta eficácia dos medicamentos psiquiátricos para tratar o humor e questões comportamentais tem colocado novas questões no debate secular sobre o que, exatamente, separa a humanidade das feras. Se uma visão estritamente cartesiana fosse verdadeira - que os animais são essencialmente autômatos de carne e osso, destituídos de qualquer coisa que se assemelhe a emoção humana, memória e consciência - então por que os animais desenvolvem doenças mentais que assombrosamente lembram as humanas e que respondem às mesmas medicações? O que pode a farmacologia comportamental nos ensinar a respeito da mente animal e, em última instância, sobre a nossa própria?

 

Ontem e hoje

No dia cinco de setembro de 1379 três porcos franceses, agitados pelos gritos de um porquinho, atacaram o filho de seu cuidador que faleceu pouco depois devido aos ferimentos. De acordo com o relato de E.P. Evans em sua monografia de 1906 O processo criminal e a punição capital dos animais, "os três leitões, após processo criminal apropriado, foram condenados à morte" juntamente com vários outros porcos que "apressaram-se em estar na cena do assassinato e por meio dos seus gritos e ações agressivas demonstraram que aprovaram a agressão" (Os cúmplices foram posteriormente perdoados.) Adiantemos o filme para dezembro de 2007 para testemunhar um processo animal curioso da era moderna: a cadelinha Mitzi-Bitzi desfilava um bracelete de diamantes no valor de 118.000 dólares na inauguração do Chateau Poochie, um hotel e spa para animais de estimação próximo a Miami. "Ela é simplesmente tão especial" sua proprietária Marilyn Belkin me falou mais tarde, como se isso explicasse as coisas. Os leitões e a Mitzi receberam tratamentos opostos embora as crenças de Belkin e dos advogados dos porcos não fossem tão diferentes. Nos tempos medievais e no presente, freqüentemente agimos como se os animais tivessem pensamentos, sentimentos e desejos que se assemelham aos das pessoas. De que outra forma você poderia justificar a pena de morte suína; por que espalhar creme facial de mirtilo quando um simples rolar sobre a grama resolveria?

Os marqueteiros têm um novo nome para a antiga tendência de se verem animais como versões peludas de nós mesmos: "humanização", uma tendência que está alimentando o crescimento explosivo da indústria e a emergência da moderna farmacologia de animais de estimação. Os norte-americanos garfaram mais de 49 bilhões em produtos e serviços para animais de estimação no ano passado, 11.5 bilhões a mais que 2003; ao lado dos produtos eletrônicos para o consumidor, os produtos para animais de estimação é o segmento de varejo que mais rapidamente cresce. A expansão do mercado está sendo conduzida tanto por haver mais animais de estimação quanto por maiores gastos por animal, especialmente pelos baby boomers afluentes cujos filhos já se formaram na universidade. Um terço dos gastos totais, e a categoria que mais rápido cresce, é o cuidado com a saúde, com tratamentos anteriormente reservados às pessoas - tratamentos de canal, quimioterapia, lipoaspiração, comprimidos para o humor - estão sendo administrados a animais de estimação. "Perguntam-me o tempo todo, 'o que é isso de humanização - de repente amamos muito mais os nossos animais de estimação?'" afirma David Lummis, que analisa a indústria dos animais de estimação para a empresa de pesquisa de mercado Packaged Facts. "A minha teoria é que isso esteve sempre aí, mas agora foi sancionada. Não é apenas a dona louca por gato. São os marqueteiros e toda essa propaganda ao consumidor que tornaram aceitável gastar toneladas de dinheiro com o seu bichinho de estimação."

 

Correções anexadas

A humanização levou as empresas farmacêuticas a salivarem como os cães de Pavlov. Pesquisas realizadas pela American Pet Products Manufacturers descobriu que 77% dos proprietários de cães e 52% dos proprietários de gatos deu ao seu animal algum tipo de medicação em 2006; ambos subiram pelo menos 25 pontos percentuais desde 2004. As vendas de drogas para animais de estimação ultrapassou recentemente aquelas para animais de fazendas. Eli Lilly criou sua divisão "animais de companhia" no início de 2007 e espera lançar várias outras drogas nos próximos três anos. A Pfizer, cujas receitas advindas de "animal de companhia" cresceram 57% desde 2003 para aproximadamente um bilhão, espera desenvolver novos medicamentos para a dor, câncer e questões comportamentais. A maioria dos gastos dos consumidores é ainda com a medicação tradicional para animais de estimação como antiparasitas, mas a Ipsos, uma firma de pesquisa de mercado, estima que pelo menos 15 milhões de dólares foram gastos em drogas em 2005, nos Estados Unidos, para modificação do comportamento. "À medida que as pessoas estão vendo drogas mais sofisticadas e complexas para si mesmas, elas querem a mesma qualidade para os seus animais de estimação", disse a dra. Melanie Berson, uma veterinária do Centro para Medicina Veterinária do F.D.A. A disposição para empregar medicamento para a modificação do comportamento advém, em parte, de um desejo crescente por animais domésticos, mais convenientes e obedientes. "As nossas expectativas estão aumentando", diz Lummis. "Donos querem que seus animais de estimação tornem-se como crianças bem comportadas."

Embora seja uma potência como um modismo em marketing, a humanização tem sido desdenhada como prática científica pelos pesquisadores que trabalham na tradição comportamental de B.F.Skinner. George Page resume as razões em Inside the Animal Mind, "visto que não podemos entrar na mente dos animais... e que o animal não consegue relatar o que se passa - não em uma 'linguagem' que prontamente podemos compreender - só nos restam adivinhações e especulações fatalmente marcadas pelo antropomorfismo". Comportamentalistas estritos enfocam os observáveis condicionamentos estímulo-resposta: por exemplo, um filhote aprendendo a sentar para receber um prêmio. Ações que não podem ser explicadas dessa forma são usualmente atribuídas ao mero instinto. Assim, a filosofia skineriana ortodoxa acaba resumindo-se a uma perversão do cogito ergo sum: não posso provar que os animais pensam, portanto, eles não pensam. Ao lidar com animais de estimação problemáticos, os veterinários de inclinação comportamentalista não se dedicam muito ao que pode estar ocorrendo dentro do cérebro do animal, nem tentam corrigir os desequilíbrios neuroquímicos com drogas. Ao contrário, um animal compulsivo ou ansioso é visto como aquele que necessita apenas ser melhor treinado.

O debate sobre a mente animal é no mínimo tão antigo quanto Aristóteles, que postulou que somente o homem possui razão. O filósofo francês do século XVII, Nicolas Malebranche, escreveu que os animais "desejam nada, temem nada, sabem nada", enquanto Voltaire indagava, "responda-me, mecanicista, a natureza arranjou todas as fontes de sentimentos no animal com a finalidade de ele não poder sentir?". A visão de Darwin era: "claro que não." Em The Descendent of Man escreveu: "temos visto que os sentidos e as intuições, as várias emoções e faculdades... das quais o homem se gaba, podem ser encontradas de forma insipiente ou até, às vezes, de forma bem desenvolvida nos animais inferiores". A assustadora proposição da teoria de Darwin é que a continuidade evolutiva se aplica não somente aos corpos, mas também aos cérebros. "A diferença entre a mente do homem e a dos animais superiores, embora grande, certamente é uma de grau e não de tipo" escreveu.

Durante grande parte do século XX os cientistas propositalmente descartaram essa linha de pensamento que somente nas últimas três décadas tem sido reavivada pela emergência de uma disciplina conhecida como etologia cognitiva. A crença-guia é que embora seja destituído de base científica presumir que os animais pensam e que sentem tal como nós, é igualmente tolice presumir que eles não pensam ou sentem coisa alguma. Nos experimentos laboratoriais e observações de campo, os especialistas têm apresentado evidência de raciocínio analógico em gorilas, contagem em ratos, e a capacidade de pombos distinguirem as pinturas de Picasso das de Monet. Pesquisadores têm demonstrado que os animais podem compreender abstrações tais como "mesmo" e "diferente" e usar flexibilidade mental para resolver problemas novos, em laboratório, para os quais os instintos inatos não poderiam tê-los preparados. É impressionante, mas talvez pouco surpreendente, que um papagaio tenha sido ensinado a classificar cores ou que golfinhos tenham aprendido a distinção sintática entre "leve a prancha de surfe ao frisbee" e "leve o frisbee à prancha de surfe" -, pois já tendemos a pensar que esses animais são inteligentes. Os indícios de cognição presentes nas formas inferiores descendo a espiral filogenética, são ainda mais surpreendentes. As pesquisas têm mostrado que as abelhas podem lembrar em quais flores já estiveram e que as baratas de 10 centímetros de comprimento de Madagascar podem diferenciar entre uma pessoa familiar e uma estranha. (Se o inseto zumbir alto a você, é chegada a hora de você se apresentar a ele.)

Os etologistas cognitivos têm encontrado mais dificuldade para colher informações a respeito das emoções animais. Para qualquer dono de animal de estimação que alguma vez tenha acariciado um gato ronronando ou observado um cachorro quando ele dá pinotes no momento em que sua ração cai no pote, parece intuitivamente óbvio que os animais têm sentimentos. Mas intuição não é ciência ortodoxa - é apenas mais humanização. Adentre a farmacologia comportamental, que tem aberto uma janela nova e atraente para a mente animal. O dr. Nicholas Dodman, pioneiro no campo e fundador da Tufts University Animal Behavior Clinic (Clínica de Comportamento Animal da Universidade de Tufts), afirma que os céticos a respeito da existência de estados emocionais em animais costumavam perguntar-lhe: "Bem, e neste caso?", ao que Dodman responderia: "Nós lhe daremos um ansiolítico e veremos o que acontecerá".

O terreno da Cummings School of Veterinary Medicine (Escola Cummings de Medicina Veterinária) da Tufts espalha-se por 640 acres de suaves colinas verdes no centro de Massachussetts. Quando cheguei para visitá-los em março, uma das primeiras coisas que Dodman me disse foi que o campus havia sido um hospital psiquiátrico estadual. Tal como outros, havia sido fechado em 1960 após a descoberta revolucionária de drogas para tratar a esquizofrenia e outros transtornos de modo tão eficaz que muitos pacientes não precisavam permanecer institucionalizados. "Ironicamente, isso pavimentou o caminho para a nossa escola, o nosso programa comportamental, e os novos tratamentos farmacológicos para problemas comportamentais em animais" disse Dodman. Ou, como disse posteriormente, "nós trocamos um grupo de internos por outro".

Dodman, um inglês, iniciou a sua carreira no início dos anos 1970 como um errante veterinário rural na tradição de James Herriot. Passou a escrever uma série popular de livros de conselhos para donos de animais de estimação, o mais recente deles sendo The Well Adjusted Dog (O cachorro bem comportado). Em 1981 mudou-se para os Estados Unidos para tornar-se professor de anestesia na Cummings. As drogas o interessavam muito, mas pacientes em coma gradualmente não, e ele passou a cogitar: será que os medicamentos poderiam transformar a medicina veterinária comportamental tão radicalmente como elas transformaram a atenção psiquiátrica? Ele diz que rapidamente percebeu que o campo estava "completamente aberto e inexplorado, como um terreno limpo sem marcas de pegadas". Em uma conferência veterinária no final dos anos 1980, ele apresentou a sua visão da nova fronteira psicoativa e "viu queixos caírem pela sala. Foi como se dissessem: 'quem é este estranho homem de máscara?'". Três décadas mais tarde, "é quase uma corrente dominante para os comportamentalistas conhecerem algo a respeito de farmacologia", diz Dodman.

Dentro de seu pequeno escritório, Dodman, vestindo uma gravata e um sapato mocassim sob um jaleco branco de laboratório, recebeu seu primeiro paciente do dia. Um cão de focinheira em uma guia curta que rebocava Joe e Mahala Richards desde Mendon, Massachussetts, sala adentro. "Então aqui está Zoey, um pequeno cão de caça, fêmea, amarela de boca preta, de cinco anos de idade, e vocês a tem desde os sete meses" disse Dodman. "Já estou percebendo que ela está com medo e está ansiosa e que isso freqüentemente advém de uma infância difícil".

"Nós sabemos que ela foi abusada", disse Mahala.

"Isso mesmo", replicou Dodman.

Joe disse que o problema da Zoey era que ela às vezes atacava quando havia comida por perto. O pior incidente aconteceu há uma semana quando Mahala estava assistindo televisão e pegou um pedaço de queijo. "Ela simplesmente correu atrás de mim", disse Mahala. Joe acrescentou: "A Zoey a jogou sobre o sofá - ela gritava a todos os pulmões - e simplesmente ficava atacando as suas mãos". Mahala ergueu o pulso cheio de cicatrizes. "Meu Deus, isso está feio", disse Dodman. Ele ouviu por vinte minutos e então anunciou o diagnóstico: algo chamado "agressão conflitiva", o que significava que ocasionalmente Zoey esquecia que não precisava lutar para ganhar a sua parcela de comida. Zoey deveria ser mantida longe de salsichas, ossos de manteiga de amendoim e qualquer outra tentação culinária. Lugares altos tais como camas estavam proibidos (posições elevadas podem fazer com que os cães se sintam mais confiantes), e exercício era essencial. Ao descrever o programa "Nothing in Life is Free" (Nada é de graça na vida) Dodman disse que Zoey deveria sentar-se antes de comer e que o afeto deveria ser racionado. O objetivo geral era levar Zoey a respeitar a liderança de seus donos, o que aumentaria sua inibição de atacar. Essas modificações comportamentais poderiam ser suficientes para curar a Zoey, concluiu Dodman.

"Nós não queremos ter que sacrificá-la", replicou baixinho Mahala.

"Não" disse Dodman. "Uma grave mordida é um fator de risco de eutanásia para o cão, por isso alguma medicação poderá ser um outro componente do programa. Se fôssemos perguntar a Zoey: 'veja, se você escorregar no futuro e morder alguém dessa forma novamente, há chances de você não sair dessa viva. Mas nós iremos fazê-la sentir-se melhor se lhe dermos uma medicação tipo, por exemplo, Prozac. Você gostaria de tomar um remédio que poderia salvar-lhe a vida?' E ela poderá fazer Grrr-rrr rrrup - sim, eu tomarei o remédio.' É um salva vidas." Joe e Mahala saíram meia hora mais tarde com um roteiro nas mãos.

Agressão é a primeira questão que traz animais às clínicas; ela e outros problemas comportamentais são as razões principais que levam animais de estimação aos abrigos. A metade deles são submetidos à eutanásia, aproximadamente três a quatro milhões de animais por ano, e crê-se que um igual número é sacrificado por meio de iniciativas particulares. Tratamento com medicação psicoativa é, portanto, uma real alternativa à injeção letal. Prozac, um inibidor seletivo da recaptação da serotonina (I.S.R.S.), estabiliza o humor e reduz a ansiedade, afirma Dodman. Ele é amigo do notável psiquiatra de Harvard, John Ratey, e certa vez compararam as drogas que empregam para tratar pessoas e animais violentos. "Você sobrepõe o meu portfólio sobre o dele e é a mesma coisa", diz Dodman. Ele patenteou sua abordagem I.S.R.S. e está trabalhando com uma empresa farmacêutica, Accura Animal Health, que planeja trazer ao mercado o primeiro tratamento canino para agressão aprovado pelo F.D.A. (O uso atual do Prozac e drogas similares é prescrito na forma genérica.)

A agressão também é um problema felino. Algumas semanas após a visita a Dodman, fui à casa de um homem em West Los Angeles cujo animal de estimação estava fazendo tratamento com Prozac. O dono, Doug, pediu-me para não usar o seu sobrenome porque ele não gostaria que os seus colegas soubessem a respeito do que ele chamava de seu "pequeno perseguidor miniatura de puma louco" - o gato Booboo.

O primeiro incidente ocorreu há quatro anos após Booboo ter comido algumas flores secas decorativas. Booboo escalou sua árvore para gatos e sentou-se lá com seus olhos "um pouco dilatados e vesgos", disse Doug. Ele começou a "rosnar como um banshee" soltou um "gemido estridente e alto" e saltava. "Ele rasgou minha perna e não largava". Doug escapou, mas Booboo o perseguiu. Finalmente ele conseguiu prender o gato em um quarto. Desde então Booboo está diferente. Ele periodicamente atacava Doug em uma emboscada. Com o tempo, Doug percebeu que os ataques eram mais prováveis se ele tivesse algum cheiro anormal - por exemplo, se ele havia estado perto de uma mulher que estava usando perfume - então ele tomaria banho ao chegar em casa e vestiria sua roupa de luta com gatos.

Doug consultou uma comportamentalista, a dra. Karen Sueda. Uma hipótese era que Booboo sofria de uma versão felina de esquizofrenia - há evidência de que animais têm alucinações visuais e auditivas e que podem temporariamente entrar em estados delirantes nos quais atacam. Sueda não achava que isso fosse provável no caso de Booboo nem que seus ataques fossem motivados por medo, como é freqüente no caso de agressão animal. No caso de Booboo ela diz que percebeu ser um gato dominador e confiante que "desejava controlar seu território pessoal". Uma teoria sobre tais animais é que eles sofrem de um desequilíbrio neuroquímico. Como Dodman explicou em seu livro The Cat who Cried for Help (O gato que gritava por socorro) "ao engajar-se em e ao vencer encontros agressivos, animais dominadores aumentam os níveis de serotonina e adquirem auto controle". Sueda prescreveu Prozac para elevar os efeitos do neurotransmissor.

Doug conduziu-me escada acima ao segundo andar de sua casa. Ele havia mandado forrar uma calça caqui com nylon à prova de balas de alto calibre, que vestiu e se lavou porque havia me cumprimentado com um aperto de mãos. Andou furtivamente rumo à suíte master onde Booboo ficava de quarentena permanente atrás de uma porta que havia sido modificada para abrir para fora para facilitar a rápida escapada de Doug. "Atrás desta porta espreita o demônio da Tasmânia", disse Doug antes de entrar. Agachei no andar térreo e observei pela portinha transparente do cachorro. O quarto de 121,92 metros quadrados possuía um closet grande, uma cama de quatro postes e uma vista desde o piso até o teto das mansões de Beverly Hills pontuando um vistoso cânion. A suíte pertencia totalmente a Booboo embora Doug dissesse que conseguia agora dormir algumas noites por semana ali. Booboo andou furtivamente passando pela janela e me encarou fixamente. Ele tinha um pêlo preto como um fraque, com pequenas manchas brancas nas patas, baixo ventre e na testa. Doug apanhou-o e eles esfregaram os focinhos face a face. "Ele é simplesmente caloroso, macio e frizado, ele ronrona e ele é gostoso de acariciar murmurou."

Ansiedade de separação, a causa da ruína dos modernos cães deixados sozinhos em casa e alvo do novo Reconcile da Lilly, é um problema milenar. Arqueólogos e geneticistas estimam que a domesticação dos lobos (Canis lupus) em cães (Canis lupus familiaris) começou há pelo menos 15 mil anos. Uma hipótese a respeito de como isso aconteceu é que humanos se assentaram e estabeleceram vilarejos, pilhas de restos de comida descartada e montes de plantas acumuladas nos arredores. Lobos que eram geneticamente predispostos a terem um pouco menos de medo de humanos se alimentariam da fartura gratuita, enquanto os animais mais arredios permaneciam ao longe. "Neste ponto a seleção natural dominaria", explica Jake Page em Dogs: A Natural History: "À medida que os lobos amantes do lixão se reproduziam entre si, sua mansidão provavelmente tornar-se-ia mais e mais pronunciada." Os animais mais gentis eram gradualmente favorecidos e trazidos para as nossas vidas, a ponto de muitos cães (42% de acordo com uma enquete realizada pela American Pet Products Manufacturers Association [Associação Americana de Produtos para Animais de Estimação]) hoje dormirem na mesma cama que os seus donos. Apego extremo às pessoas é uma das características que melhor definem os cães.

Apego extremo, infelizmente, também causa sofrimento extremo em alguns cães quando privados da companhia dos donos. Martha e Phil Bridges vivem em Sacramento com um mestiço de labrador, de dois anos de idade, chamado Rocco. Os Bridges me disseram que quando iam trabalhar diariamente das oito da manhã às cinco da tarde, trancavam Rocco em uma gaiola enorme na sala de jantar para evitar que o jovem cão ficasse correndo como louco. Certo dia, no outono passado, retornaram para encontrar o cachorro solto com o nariz sangrando de tanto forçar a porta da gaiola até abrir. Eles o prenderam novamente dentro dela. Na próxima noite Rocco estava ainda dentro, mas havia ralado sua caminha, e espinoteara tão violentamente que a gaiola estava destruída. Na vez seguinte, os Bridges usaram um portão para bebês para bloquear parte da casa de modo que Rocco teria mais espaço para correr. Ele rasgou 1 metro e 52 centímetros de carpete do chão. Eles o trancaram no banheiro; a cortina do box foi moída, o xampu engolido, os batentes da porta arrancados. Ao perceberem que precisavam de ajuda, os Bridges levaram Rocco para ver a dra. Rachel Malamed, uma residente no Behavior Service (Serviço comportamental) da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia, em Davis. Ela diagnosticou a ansiedade de separação, rascunhou o programa de retreinamento e escreveu o roteiro. O resultado feliz: Rocco "nunca mais teve outro problema desde que passamos a dar o Reconcile", diz Martha.

Estima-se que 14% ou mais dos cães norte-americanos sofrem de ansiedade de separação. Os sinais do problema incluem a destruição da casa e de si mesmo; choro prolongado, latido ou baba; ou simplesmente permanecer na porta de entrada o dia inteiro em vigília ofegante. ("Nannycam" - um tipo de gravador de vídeo tem capturado todos acima.) Os termos para a aprovação pelo F.D.A. do Reconcile foram que as drogas fossem prescritas concomitantemente a um programa de modificação de comportamento. No caso de Rocco, Malamed ensinou os Bridges a ensaiarem partidas falsas - chacoalhar as chaves do carro, abrir a porta da frente - enquanto davam prêmios de modo que Rocco associasse sua partida com um prêmio apetitoso. Quando os Bridges saíam de casa de fato, eles deveriam sair sem o menor protesto; latidos frenéticos e saltos seriam ignorados. "Nós causamos essa ansiedade pelo fato de ele ser tão apegado a nós", diz Martha. "Agora temos que romper o vínculo - sem rompê-lo a ponto de ele não saber que nós ainda o amamos."

Quando se trata de retreinamento, contudo, algumas pessoas são preguiçosas. Dodman estima que 25% dos donos de animais de estimação que ele atende não seguem seu conselho. Na Universidade da Califórnia Davis, observei um casal descartando impacientemente as diretrizes de Malamed. Eu estava olhando a consulta por meio de um circuito fechado de televisão com outro veterinário, a dra. Jeannine Berger, e ela suspirou exasperada. "Eles somente querem o comprimido mágico", disse ela. "As pessoas sempre querem o comprimido mágico." Os estudos sobre o Reconcile mostram por que os farmacologistas comportamentais preferem não depender de um vidro de comprimidos - ou no caso, retreinamento - somente. O dr. Steve Connell, um veterinário da Eli Lilly disse-me que "modificação de comportamento funciona por si própria. Não há dúvida a respeito disso. Mas se você usa modificação de comportamento em conjunto com Reconcile, ele funciona mais rápido e melhor."

Como é que os pesquisadores sabem disso? Os pacientes, afinal, não conseguem descrever os nuanças dos seus humores aos terapeutas. Estudos sobre eficácia, ao invés disso, baseiam-se nas pessoas para registrar os sinais de sofrimento animal tais como latidos por hora e objetos destruídos na casa. O estudo encaminhado ao F.D.A. pela Lilly em apoio ao Reconcile, incluiu 242 cães espalhados pelos Estados Unidos e Canadá; em um teste duplo-cego nem os veterinários nem os donos envolvidos sabiam quais cães estavam tomando o Reconcile ou quais estavam tomando o placebo. Todos os cães receberam retreinamento comportamental. Os resultados foram fortes o bastante para demonstrar a eficácia, embora pouco estupendos: 72% dos cães submetidos ao Reconcile mostraram melhora após oito semanas de tratamento, enquanto 50% dos que estavam recebendo o placebo melhoraram. O estudo também descobriu que mais da metade dos cães que tomaram a droga tiveram efeitos colaterais de curta duração, que incluíam letargia, depressão e perda do apetite.

Um pensamento que me perseguia enquanto ouvia a história dos Bridges: se eu fosse trancado no banheiro o dia inteiro, também engoliria xampu. Embora a maioria dos problemas de comportamento animal sejam tidos como de origem genética, suas expressões são manifestas tipicamente por uma vida contra a natureza a que as pessoas forçam seus animais de estimação a viver. "Um cão que viveu em uma fazenda e correu por aí perseguindo coelhos o dia todo seria mais inclinado a ser estável do que um cão que mora em um apartamento em Manhatan", diz Dodman. Os caninos não domesticados não são nem confinados nem excessivamente apegados às pessoas, não sofrem de ansiedade de separação. Alguns cavalos em cativeiro andam em círculos sem parar dentro dos estábulos ou currais - um comportamento compulsivo semelhante à perseguição de rabo efetuada por Max -, mas tais repetições despropositadas nunca foram observadas em ambiente selvagem.

Ademais, tratamentos farmacológicos são, algumas vezes, mais para a conveniência dos donos do que para a saúde dos animais de estimação. Quando o cão morde, quando o gato mija - "muito dos 'comportamentos problema' que tratamos são, na verdade, comportamentos normais para o animal", diz Dodman. Gatos não são doentes mentais se atacam um novo felino na família ou se arranham a mobília para demarcar seu território. Vigiar a comida e agressão contra estranhos aumentam a taxa de sobrevivência dos cães no mundo selvagem, mas não funcionam na sala-de-estar. E ambos, gatos e cachorros, demarcam seu território com urina. "Se um cão vai ao banheiro na moita do lado de fora, você não se importa a menos que não seja a sua moita", diz Dodman. "Mas quando ele volta para casa e ergue a pata na sua cadeira, é como se, 'esse cão está com alguma doença mental?'".

Em muitas outras situações, porém, um animal medicado pode se dar melhor - para seu próprio bem e não apenas para a paz de espírito de seu senhor. Cães obsessivos como Max às vezes machucam a si próprios ao rodopiarem contra o mobiliário ou mastigarem suas pernas ou rabos até sangrar. Você poderia argumentar que Max ficaria mais feliz se não rodopiasse e, ao invés disso, perseguisse esquilos - um juízo antropomórfico, talvez, mas um que é difícil refutar, após vermos o animal ofegante e possuído num turbilhão. Medicar cães como Rocco, por outro lado, deixa as pessoas desconfortáveis porque a ansiedade de separação está muito claramente relacionada ao estilo de vida ausente de seus donos. A dra. Jean Donaldson, diretora da Academia S.P.C.A. de São Francisco para Treinadores de Cães, contou que tem insistido com as pessoas que não têm suficiente tempo livre, para que não tenham cachorros. Mas ela reconhece que muitas pessoas mal ajustadas irão fazê-lo a despeito disso, e apóia o emprego de medicamentos. A seu ver, nossa cumplicidade na criação do problema não nos absolve da responsabilidade em encontrar soluções, mesmo aquelas que tenham pequenos efeitos colaterais. "Você pode imaginar a ansiedade de separação?" ela perguntou. "Estamos falando de 'O silêncio dos inocentes' aqui, estar no buraco, arrancar as próprias unhas e quebrar os próprios dentes devido aos ataques de pânico que você está passando. Será que realmente estamos pensando que o problema aqui é uma boca seca devida ao uso do Reconcile?".

Nem todo mundo concorda que os animais de estimação dos Estados Unidos estejam passando por uma crise em saúde mental de grande vulto - ou que quaisquer que sejam os seus problemas, que as drogas são necessariamente parte da solução. Uma das vozes mais apaixonadas no lado "simplesmente-diga-não" pertence ao dr. Ian Dunbar, um veterinário que tem seu doutorado em comportamento animal e que é o fundador de um altamente respeitado império instrucional chamado Sirius Dog Training. "Nunca tive em minha vida que recorrer ao uso de drogas para resolver um problema comportamental", diz ele. A corrida ao vidro de remédios para problemas de solução fácil como a obesidade canina - "simplesmente dê menos comida ao cachorro!" - evidencia um paralelo perturbador com a abordagem humana ao cuidado com a saúde, diz ele. "Nós levamos um estilo de vida não saudável e, então, recorremos às drogas para corrigi-lo".

Dunbar mora em uma estrada cheia de curvas no alto em Berkeley Hills. Quando cheguei para visitá-lo, ele me conduziu à sala-de-estar, onde seus três saltitantes cães se juntaram a nós - Claude, Hugo e Dune. Claude havia sido um problemático cão de abrigo S.P.C.A. Ele mordia, era freqüentemente ansioso e tinha um problema conhecido como "pica", o que significava que ele devorava compulsivamente itens não comestíveis. Quando Dunbar o resgatou há poucos anos, Claude estava se recuperando de uma cirurgia para a remoção de uma bola de basquete de seus intestinos. "Ele teria sido o candidato ideal para um tratamento com drogas, mas para mim isso era desnecessário se você souber um pouco sobre as coisas mais simples a respeito de treinamento de cães", disse Dunbar.

Recursos farmacológicos são úteis em circunstâncias extremas, reconhece Dunbar, mas para a grande maioria dos casos, modificação de comportamento por si só, resolve. Para cães problemáticos como Claude, ele emprega a simples e imutável estratégia de um treinador: ignorar comportamentos indesejáveis e recompensar os desejáveis. O comprimido mágico do arsenal de Dunbar é um brinquedo de borracha de mastigar recheado de comida. Quando sentei no sofá ele lançou três deles no chão. Os cães me ignoraram completamente - não havia aquele saltitar usual sobre o visitante - e focaram no trabalho. Absortos, eles rosnavam e sacudiam os brinquedos, que lentamente soltavam grãos de ração. Levaria uns 45 minutos para o conteúdo se esgotar. Claude, cuja atenção fora redirecionada com a ajuda de brinquedos mastigáveis, não mais mordia as pessoas ou devorava não-comestíveis. Ele era calmo e o mais bem comportado dos três caninos da família. "O cão está produzindo suas próprias endorfinas, sua própria terapia medicamentosa enquanto se diverte em uma atividade totalmente aceitável," disse Dunbar.

Para os críticos como Dunbar, a ansiedade de separação é um transtorno do déficit de atenção do mundo dos animais de estimação, um problema que é patologizado com grande zelo, diagnosticado sem cuidado e medicado com liberalidade. Sua crítica é despudoradamente skineriana: "Estamos confundindo problemas comportamentais, que são observáveis e quantificáveis, com expressões tais como 'ansiedade', que descreve o estado mental interno do cão, para o qual temos absolutamente zero de provas", diz. Pessoalmente, Dunbar suspeita que os animais possuem pensamentos e sentimentos e podem ficar genuinamente ansiosos quando seus donos saem. Mas ele é cuidadoso para não permitir que pressuposições anuviem seu juízo profissional porque nem todas as situações que se parecem com ansiedade de separação são de fato isso. O website da Lilly sobre o Reconcile afirma que "a ansiedade de separação é uma condição clínica no cérebro do seu cão". Dunbar fornece explicações alternativas: alguns cães que são castigados fisicamente aprendem sem querer que podem fazer o que bem quiser quando os humanos estão longe. Outros estão simplesmente entediados e estão se divertindo. O que esperamos que os cães façam quando vamos trabalhar: que assistam tv, façam palavras-cruzadas ou leiam o jornal? pergunta. Esconder brinquedos de mastigar recheados pela casa é uma boa forma de manter os cães ocupados. "No mundo selvagem os cães passam a maior parte do tempo procurando alimento", diz. "O que a maioria dos donos faz é alimentar o cão no pote de ração, e em dois minutos lhes roubam sua raison d'être. Portanto, agora o cão está em busca de atividade e nós rotulamos isso de 'problema' e diagnosticamos todo tipo de coisas tais como compulsão e ansiedade de separação".

Dunbar está trabalhando com um fabricante de produtos para animais de estimação para desenvolver uma babá eletrônica de cães que combina os clássicos elementos de recompensa de uma caixa de Skinner clássica com a vigília permanente do Panopticon de Bentham. Ele emprega uma rede de sensores que monitoram quando o cão late, quantos passos ele dá durante o dia, por quanto tempo ele fica deitado em sua caminha e quando ele brinca com os brinquedos de mastigar. A máquina, que age como uma versão robô de Dunbar, automaticamente fornece pequenos prêmios quando o animal está calmo e bem comportado. "Ao invés da mortificação gradual que um ansiolítico ou um tranqüilizante produz, quero oferecer um programa bem específico e eficaz para ensinar o cão a como deve se comportar", diz Dunbar.

Donos modernos estão paulatinamente tentando "esterilizar" a propriedade de animais de estimação, acrescenta, tentando controlar farmacologicamente os cães de modo que eles não se comportem como cães. "O que as pessoas querem é um animal de estimação que está par a par com uma "TiVo",** que sua atividade, entretenimento e afeição estão em alta demanda", diz ele "então, quando eles acabam, querem desligá-lo".

De volta à sala-de-estar, observamos Claude e seus companheiros de casa trabalharem com seus brinquedos mastigáveis. "Treinamento é basicamente a respeito da formação de um relacionamento", mas para algumas pessoas tal processo interativo significa hoje dar um comprimido ao cão".

Há dois anos, no dia quatro de julho, um cão chamado Dixie estava sentado no quintal da casa de seus donos, Pat e Jen Morphy de Martinez, na Califórnia. Por volta do pôr do sol, o céu sobre ela explodiu com as luzes e a bateria rompante dos fogos de artifício. Talvez as crianças também tenham detonado bombinhas na rua próxima. O que quer que tenha ocorrido, Dixie não tem sido a mesma desde então.

No início desse ano, os Morphys trouxeram Dixie para ver Rachel Malamed no Behavior Service da Universidade da Califórnia Davis. Os Morphys relataram que eles levam Dixie para caminhar diariamente após o trabalho e então a colocam de volta no quintal. À medida que o sol se põe, Dixie dispara casa adentro e não pode ser tirada de lá pelo restante da noite. Ela anda de um lado para outro, encara e rastreia o ar sobre si. "Você pode afirmar que ela está aguardando que algo aconteça", disse Pat. Dixie fica ansiosa para dormir e se enfia debaixo da cama do casal. Mas no meio da noite, Dixie freqüentemente salta para a cama e caminha sobre a cabeça de Jen. Quando ela acende a luz o cão está com aspecto horrível tremendo e de olhar ausente. Leva entre 15 minutos e quatro horas para acalmá-la o suficiente para voltar a dormir. "Eu não consigo mais viver com esse cão como está", disse Jen.

Malamed colocou um CD de efeitos especiais em um toca-CDs e colocou o volume baixo. Dixie ficava sentada serenamente durante o período em que tocava uma fanfarra de trombetas, a descarga de um banheiro, uma serra de cortar metal, tilintar de sinos e dobradiças rangendo. Mas ao som de fogos de artifício, durante o longo apito e o estrondo de raios e trovões), Dixie ficou tensa, tentou subir no colo de Jen e começou a tremer. Malamed apertou o botão para parar. "Sinto, mas tive que fazer isso", disse. Fobias de barulhos, especialmente aqueles relacionados a trovões são comuns em cachorros, e Malamed concluiu que Dixie tinha fobia de fogos de artifício.

Então, como será que a fobia de Dixie se instalou? Um skineriano explicaria que seus problemas dentro do modelo do condicionamento de estímulo-resposta, sem pensar é automático. Naquele quatro de julho, Dixie aprendeu corretamente que fogos de artifício são dolorosamente altos, mas erroneamente associou esse evento traumático com o cair da noite. Agora todo o céu escuro a assusta. Sua atividade estranha por horas a fio provavelmente fora reforçada por mais aprendizagem condicionada: a cada vez que ela pulava na cama no meio da noite, Pat e Jen lhe davam atenção. Crendo que a estavam acalmando, eles de fato reforçavam e validaram seu comportamento problemático.

Mas será que o seu problema é mais complexo que isso? Hoje, a maioria dos cientistas aceita que animais sentem emoções básicas tais como prazer, excitação e medo. Esses sentimentos primevos fornecem motivação simples: acasalar, matar uma presa ou evitar perigo. Mas se tais estados emocionais como a ansiedade, obsessão e depressão existem, é mais controverso. Ademais, a diferença entre medo e ansiedade é a diferença entre a existência de uma gazela se assustando ao ver um leão e uma gazela se preocupando com um leão que possa surgir. Se você acredita que a última afirmação é possível, então considere que Dixie possa ter alguma memória, embora mínima, dos fogos de artifício originais e que quando ela vê o sol se pôr fica tensa ao pensar que ele possa atingir seu tímpano novamente. Em outras palavras, sua cognição vai além do processamento de informação sensorial do aqui e agora; parafraseando Eric Saidel, um professor de filosofia na Universidade George Washington, ela não está respondendo ao mundo, mas, ao invés disso, à maneira que ela retrata o mundo. Ela pensa e, criticamente, está consciente de seus próprios pensamentos.

Por meio de quase todas as definições, isso acaba chegando à existência de uma consciência, o traço que as pessoas tem tradicionalmente relutado em atribuir aos animais. Muitos pensadores hesitam tecer afirmações definitivas a respeito de qualquer aspecto da vida interior do animal, muito menos a concluir que eles são autoconscientes. Em um texto influente publicado em 1974, o filósofo Thomas Nagel propôs a questão "como será que se é um morcego?". Como será, realmente, voar às cegas pelo céu noturno caçando insetos e navegar por meio de sonar? A soma dos sentidos singulares e dos mundos cognitivos constitui sua Umwelt, e Nagel concluiu que seria impossível conhecer algum Umwelt, mas apenas aqueles de nossa própria espécie. As palavras que usamos para descrever o estado mental animal são, na melhor das hipóteses, vagas aproximações. Hank Davis, um psicólogo evolucionista da Universidade de Guelph, Canadá, que estudou a cognição em ratos, coelhos e as supracitadas baratas que assoviam, me contou que "eu sou um grande amante de animais como todos que já conheci. Posso falar sem parar sobre o quão doce e emotivo é o meu rato de estimação. Mas tenho que ter cuidado ao dizer que quando o meu rato parece ansioso ou obsessivo ele está sentindo o conjunto idêntico de condições neurológicas que um humano sente". Prescrever drogas nessas circunstâncias, diz ele, é "uma questionável medicina do tipo Twilight Zone".

Os céticos estão certos de que não há evidências que provem que os sentimentos humanos e os de Dixie sejam similares, mas por outro lado, há uma preponderância de evidências circunstanciais. O sistema límbico, crítico nas respostas emocionais em humanos, é estruturalmente semelhante em todos os mamíferos. "As pessoas têm respostas fisiológicas às coisas das quais sentem medo", diz Steven Hamilton, um psiquiatra geneticista da Universidade da Califórnia, São Francisco. "Eles ficam trêmulos. Seu batimento cardíaco acelera. Eles transpiram. Sua respiração aumenta. Os cães fazem exatamente a mesma coisa." A apresentação clínica do problema também é similar. Ao serem confrontados pela coisa que temem, as pessoas fóbicas e os cães tentam ficar o mais longe possível do estímulo temido, sejam aranhas ou fogos de artifício. Em ambas as populações, a suscetibilidade parece ser herdada. E finalmente, "humanos respondem a medicamentos ansiolíticos e antidepressivos específicos. E encontramos respostas similares, em cães, às mesmas drogas", diz Hamilton.

Dodman apontou as mesmas coisas a mim e concluiu, de certa forma exasperada, "é parecido, requebra e faz quac-quac como um pato, então pode ser que seja um pato". Ele reagiu à acusação de que farmacologistas exercem uma medicina Twilight Zone. A primeira fonte de ira para a maioria dos críticos é a idéia de veterinários ineptos dosarem medicamentos humanos a animais indefesos. Mas isso não apresenta claramente a questão. Muito antes do Prozac, Paxil e os demais serem usados nas pessoas, eles haviam sido testados quanto à segurança e eficácia em legiões de animais de laboratório. Você pode argumentar com plausibilidade - e Dodman e outros o fazem - que humanos estão de fato usando drogas para animais.

Na clínica da Universidade da Califórnia Davis, Malamed contou aos Morphys que "precisamos mudar a resposta emocional de Dixie àquele barulho". Ela prescreveu Clomicalm para aliviar a ansiedade de Dixie e torná-la mais receptiva ao treinamento, e Xanax, que é um tipo de tranqüilizante de curta duração para os ataques de pânico e ajudá-la a dormir. Recomendou que eles tocassem o som gravado de fogos de artifício bem baixo enquanto a recompensavam por estar calma. Poucas semanas depois, Jen relatou que Dixie estava dormindo a noite toda.

Três semanas após Max ter iniciado tratamento com Clomicalm, Allan e eu o levamos para um passeio ao longo de um riacho. Ele cheirou a grama do leito; latiu a um cão que passava. Retornamos para casa, e à medida que alternávamos o lançamento do frisbee ao Max em um gramado na frente, perguntei como as coisas andavam sobre a perseguição do rabo. "Ele ainda o faz", disse Allan. "Mas não está tão mal quanto antes". De acordo com o veterinário, a droga precisaria mais umas duas semanas até que se tornasse plenamente eficaz na neuroquímica do Max, então Allan ainda estava guardando o veredito. Uns dois meses depois, Allan me contou que achava que Max estava apenas rodopiando a metade do que costumava fazer.

Dodman diz que as drogas que atuam sobre a serotonina, tais como Clomicalm, têm um efeito de "óleo sobre águas turbulentas" - elas podem acalmar o animal, mas não atacam o problema subjacente. Para aprender mais sobre o porquê de os cães perseguirem seus rabos, e na esperança de desenvolver tratamento medicamentoso mais preciso, Dodman e outros pesquisadores em outras universidades estão procurando uma base genética do transtorno.

Cães são o sonho dos geneticistas. Os ratos de laboratório podem ser artificialmente induzidos a sofrerem alguns problemas - por exemplo, levar um choque elétrico para criar um estado de medo - embora cães sejam modelos neutros, exibem ansiedade, fobias e compulsões por si mesmos. O genoma canino, cujo seqüenciamento foi recentemente concluído, é consideravelmente mais fácil de analisar do que o humano. O coletivo de informação genética (gene pool) canina tem sido altamente restrito e segregado durante a criação de raças distintas, a maior parte das quais ocorreu nos últimos 200 anos. Integrantes da mesma raça são muito similares geneticamente, tornando as mutações que causam problemas comportamentais fáceis de localizar. Cães de raça pura também são excelentes para serem testadas teorias sobre hereditariedade. "Há recursos genealógicos fantásticos que podem ligar os cães de um século por dezenas de gerações", diz Hamilton.

Em algumas raças, quase todos os cães vivos hoje são descendentes de um pequeno número de vira-latas populares que exemplificavam traços que os criadores gostavam - por exemplo, pelagem branco neve ou excepcional habilidade de pastorear. Contudo, ao selecionar para obter tais traços desejados, os criadores, algumas vezes involuntariamente, selecionavam traços indesejáveis nas mutações genéticas. Isso parece ser o caso do transtorno compulsivo canino. Aproximadamente meia dúzia de raças são predispostas a contraí-la e de fato são suscetíveis a formas particulares do transtorno - por exemplo, pastores alemães tendem a perseguirem seus rabos, enquanto Doberman, Pinschers sugam seus flancos. Dodman e seus colegas estão conduzindo uma análise genética de 146 Dobermans, mais da metade deles portadores do transtorno e os outros não. Sua intuição diz que um defeito genético que leva à existência de receptores supersensíveis de glutamato podem aumentar a suscetibilidade para se desenvolver os comportamentos compulsivos. O mesmo pode ser verdade para as pessoas. Se isso estiver correto, então ratificaria uma abordagem que Dodman e seus colegas têm patenteado para o tratamento tanto de animais como de humanos para os transtornos compulsivos com drogas que inibem os receptores de glutamato. Procuras semelhantes estão a caminho em busca das bases genéticas do que se parece com a fúria psicótica em cocker spaniels e fobias em pastores australianos e essas buscas também poderão fornecer um tratamento medicamentoso para as versões humana e canina desses problemas.

Embora certos cães sejam provavelmente geneticamente predispostos, fatores ambientais também estão claramente envolvidos. "Todos os animais que eu atendo que têm transtorno obsessivo compulsivo (T.O.C.) são indivíduos ansiosos que estiveram em situações de conflito como 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come', que precipitou o transtorno", diz Dodman. Situações de estresse nas quais o animal é proibido de fazer o que deseja leva à ansiedade, e a ansiedade pode ser aliviada pela realização do comportamento repetitivo que perdura além da situação original. Isso acabou sendo, exatamente, o caso com Max. Embora tenha vivido uma vida perfeita de cachorro na Califórnia - muito amor, companhia e exercício - Allan disse que a maior parte do seu primeiro ano de vida, quando ele pertencia a outro dono, ficava confinado dentro de casa e completamente sozinho.

No final do dia em que visitei Dodman, sentamo-nos para assistir a videoclipes de cães andando para lá e para cá, caçando sombras e saltando em direção a moscas inexistentes. Dodman, inclinando-se para trás na cadeira, disparou uma história sobre um paciente com T.O.C. que ele havia conhecido - um homem que repetidamente puxava a sua barba; Dodman perguntou-lhe se já havia parado alguma vez, e ele disse que durante uma viagem de carona através do Canadá. Dodman pensou que ele sabia por que: "Ele voltou a ser humano. Estava alerta a reais perigos. Estava tentando ir a lugares reais. Estava preocupado com a sua próxima refeição. Estava pensando sobre onde dormiria. E ele não estava preocupado com o problema de puxar a barba porque agora ele tinha uma vida real. Quando o problema retornou? No minuto em que ele sentou de volta diante da tela do computador".

A teoria de Dodman, em essência, afirma que as causas dos transtornos de humor e das obsessões em humanos e em nossos animais de estimação não são tão diferentes - defeitos genéticos, meio ambientes assustadores. Seja preso em cubículo - ou em jaula - fazemos extremamente pouco exercício; não caçamos, nem corremos ou brincamos o suficiente para produzir os neuroquímicos que elevam o humor naturalmente. Estranho é que eu já ouvira essa teoria - de um executivo de uma empresa farmacêutica que, por razões comerciais óbvias, não quis ser identificado. "Todas as questões comportamentais que criamos em nós mesmos, estamos agora criando em nossos animais de estimação porque eles vivem nos mesmos ambientes não saudáveis que nós", disse ele. "Esse é o motivo por que há um mercado para essas drogas".

Este artigo foi revisado para refletir a correção abaixo:
Correção: 13 de julho de 2008

A matéria de capa deste fim de semana a respeito do mercado crescente de drogas para a alteração de humor para cães e gatos apresenta erroneamente as receitas obtidas pela Pfizer Animal Health dos medicamentos para animais. O total para esta divisão, que inclui rebanhos, é de 2,6 bilhões de dólares ao invés de "quase um bilhão de dólares." A sua "animais de companhia" ou divisão de animais de estimação, contribuiu com aproximadamente um bilhão de dólares para este total.

 

 

James Vlahos
Escreve para a National Geographic Adventure, Popular Science e Popular Mechanics. Este é o seu primeiro artigo para a revista.

Mônica Teixeira
Jornalista; psicanalista; coordenadora geral do programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo na TV Cultura (São Paulo, SP, Brasil); diretora de redação do boletim eletrônico Inovação Unicamp (Campinas, SP, Brasil).
Av. Higienópolis, 318/13
01238-001 São Paulo, SP, Brasil
e-mail: armonica@uol.com.br

* Publicado originalmentena revista semanal do The New York Times, de 13 de julho de 2008.
** TiVo é um decodificador de TV por assinatura, compatível com sistemas de cabo e satélite, e que possui um software e um hard disk interno, permitindo a gravação digital de programas. Trata-se de uma caixa - na verdade um pequeno computador simplificado - capaz de gravar, armazenar e tocar vídeo digital. (N. do E.)

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