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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. v.11 n.4 São Paulo dez. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142008000400012 

CLÁSSICOS DA PSICOPATOLOGIA
ARTIGO

 

As novidades da psicopatologia estão no século XIX? O retorno a William James1 e à sua "teoria das emoções"

 

¿Están las novedads de la psicopatología en el siglo XIX? El retorno a William James y su "teoria de las emociones"

 

Les nouveautés de la psychopathologie se trouvent-elles au XIX siècle? Le retour à William James et à sa "théorie des émotions"

 

Are the recent advances in psychopathology in the 19th century? A return to William James and his "theory of emotion"

 

 

Guilherme Gutman

 

 


RESUMO

O autor apresenta alguns dos principais elementos presentes na "Teoria das emoções" de William James. Entre eles, destacam-se os seguintes:

1) Inversão da ordem concebida pelo senso comum em relação à percepção subjetiva das emoções.

2) Investigação das fronteiras entre o que habitualmente se estabelece como os domínios do físico e do mental.

3) Introdução de modo preliminar das questões relacionadas a uma teoria da mente.

4) Sugestão de um novo modo de classificação para emoções, de acordo com o método pragmático.

Palavras-chave: William James, teoria das emoções, corpo, dualismo mente e cérebro


RESUMEN

El autor presenta algunos de los principales elementos contenidos en la "teoría de las emociones" de William James. Entre ellos, se destacan los siguientes:

1) Inversión del orden concebido por el sentido común en relación con la percepción subjetiva de las emociones.

2) Investigación de las fronteras entre lo que habitualmente se establece como los dominios de lo físico y de lo mental.

3) Introducción de modo preliminar de las cuestiones relacionadas a una teoría de la mente.

4) Sugestión de un nuevo modo de clasificación para emociones de acuerdo con el método pragmático.

Palabras clave: William James, teoria de las emociones, cuerpo, dualismo mente y cerebro.


RÉSUMÉ

L'auteur présente quelques uns des éléments les plus importants qu'on puisse repérer dans la "théorie des émotions" de William James. On y soulignera les suivants:

1) l'inversion de l'ordre de la perception subjective des émotions, tel qu'il est conçu par le sens commun;

2) l'investigation des frontières entre ce qui est couramment établi comme les domaines particuliers du physique et du mental;

3) l'introduction, de façon préliminaire, aux questions liées à la théorie du cerveau;

4) la suggestion d'un nouveau modèle de taxinomie des émotions, selon la méthode pragmatique.

Mots clés: William James, théorie des emotions, corps, dualisme esprit et cerveau


ABSTRACT

The author of this article discusses some of the main elements present in the "Theory of emotions", by William James. Among them, the following stand out:

1) Inversion of the order conceived by common sense in what concerns the subjective perception of emotions.

2) Investigation of the borderline between what are usually considered the domains of the physical and the mental.

3) Introduction of matters related to a theory of the mind.

4) Suggestion of a new way to classify emotions, according to the pragmatic method.

Key words: William James, theory of emotions, body, dualism between mind and brain


 

 

Foi certamente desconcertante para muitos - e em certa medida, continua sendo - uma das proposições centrais do artigo "What is an emotion?", publicado por William James em 1884, na prestigiosa revista Mind, como se segue:

A nossa forma natural de pensar sobre essas emoções básicas2 é a de que a percepção mental de algum fato incita a sensação mental denominada emoção, e que este último estado de espírito engendra uma expressão corporal. A minha tese, ao contrário, é a de que as mudanças corporais se seguem diretamente à percepção do fato existente, e que a sensação causada por essas mudanças no momento em que ocorrem é a emoção. (p. 189-190)

É possível imaginar o impacto contra-intuitivo dessa idéia em sua formulação original, especialmente porque há nela um rearranjo no modo habitual de se situar o corpo em relação ao mundo e às experiências do eu. Como se sabe, os objetos do mundo são regularmente concebidos pelo senso comum como "coisas" apreendidas por uma área especializada de nosso corpo - nosso, assim chamado, aparato sensório - que comunicaria as sensações recebidas aos nossos centros cognitivos que, por sua vez, "devolveriam" ao psiquismo tais sensações já sob a forma de "percepções" formadas. Ainda como parte dessa mesma forma de compreensão de nossas relações com o ambiente, teríamos que nossas impressões sensoperceptivas repercutiriam sobre o corpo como um todo, comovendo-o e dando origem às nossas "experiências afetivas" - companheiras inseparáveis de nossas "cognições". O mundo, dir-se-ia numa linguagem menos técnica, "entra pelos nossos olhos e pelos ouvidos" e, em contrapartida, "respondemos às impressões que recebemos do mundo com um amálgama de pensamentos, afetos e, eventualmente, ações".

James, portanto, contraria a lógica habitual ao interpor entre o mundo e a consciência individual, um corpo e, dessa forma, obtém uma inversão da ordem de acontecimentos ditada pelas intuições de uma psicologia laica. Sobre isso, ele escreve:

Segundo o senso comum, perdemos a nossa fortuna, lamentamos e choramos; deparamo-nos com um urso, temos medo e fugimos; somos insultados por um rival, temos raiva e revidamos com violência. A hipótese a ser aqui defendida diz que essa ordem de seqüência é incorreta, que um estado mental não é imediatamente induzido pelo outro, que, antes, as manifestações corporais devem a eles se interpor, e que a afirmação mais racional seria a de que nós lamentamos porque choramos, temos raiva porque revidamos, medo porque trememos, e não a de que choramos, revidamos ou trememos porque lamentamos, temos raiva, ou medo, segundo cada caso. Sem que os estados corporais se seguissem à percepção, o último estágio seria puramente cognitivo em sua forma, insípido, descolorido, destituído de calor emocional. Poderíamos então depararmo-nos com um urso, e julgarmos ser melhor fugir, ouvir um insulto e considerarmos como certo revidar, mas não verdadeiramente sentiríamos medo ou raiva. (p. 190)

Quando se estuda o modo como tal idéia jamesiana surge em muitos livros de psicopatologia e de psicologia contemporâneos, verifica-se que ela não raramente foi malcompreendida ou, ao menos, subcompreendida. No caso da má-compreensão, encontramos posições teóricas nas quais James torna-se involuntariamente o pioneiro de um organicismo redutivo; uma espécie de pai e de herói histórico das neurociências. Contudo, em James, o corpo não dá a última palavra, ou, em oposição àquilo que parecem preferir alguns partidários de um fisicalismo totalitário, os eventos mentais não são todos, em última instância, eventos físicos.3

No segundo caso, ele é mal-aproveitado, posto que a sua teoria das emoções não se restringe a inverter a "ordem de seqüência" das manifestações somáticas e de seus correlatos psíquicos. Mais do que isso, e sem assumir uma perspectiva reducionista, James redimensiona o modo habitual de apreensão das delimitações entre aquilo que, ordinariamente, se entende como propriamente corporal, em oposição àquilo que o senso comum reconhece como caracteristicamente mental. Alguns de seus críticos mais ferozes o acusam de embaralhar os vocabulários do físico e do mental, mas um mergulho rigoroso em seus escritos desencorajaria a adesão a essa perspectiva crítica. O que James parece realizar, especialmente nos seus The Principles of Psychology (1890), é a suspensão das fronteiras, quando ortodoxamente estabelecidas pela ciência, entre os domínios do físico e do psíquico. As relações entre a mente e o corpo, diria James, estão assentadas sobre bases mais fluidas e com superposições que, por vezes, fazem parecer despropositada a aplicação de uma terminologia dualista tradicional.

Esta mesma idéia presente no texto de 1884 aparece praticamente intocada em dois textos posteriores: "The emotions", capítulo do já citado Principles e "Emotion", capítulo de Psychology: Briefer Course (1892).4

Mas há outra idéia no texto - talvez a sua idéia central sobre o tópico das emoções - que, aliás, também surge ipsis litteris nos capítulos posteriores. Sobre ela, escreve James (1884):

Prossigo agora na defesa do ponto vital de toda a minha teoria, que é o seguinte: Se imaginarmos uma emoção forte, e em seguida tentarmos abstrair de nossa consciência dessa emoção todos os sentimentos de seus sintomas corporais, perceberemos que nada resta, nenhum "estofo mental" a partir do qual uma emoção possa ser constituída, e que tudo o que permanece é um estado frio e neutro da percepção intelectual. (p. 193)

Esta idéia sempre esteve meio à sombra, em relação à primeira, no tratamento que a posteridade lhe deu. Apesar disso - e talvez por isso - é preciso ler com toda a atenção a afirmação de James de que tal idéia corresponderia ao "ponto vital" de toda a sua teoria. Por que será que ele localiza aí o clímax do seu desenvolvimento teórico? A meu ver, por pelo menos duas boas razões.

A primeira está no fato de que, ao formular tal idéia, James bosqueja algo que se aproxima daquilo que corresponderá - no âmbito de seus textos filosóficos posteriores, especialmente naqueles que compõem a coletânea póstuma de artigos: Essays in Radical Empiricism (1911) - à sua visão mais bem-acabada de como concebe a vida psíquica e a sua relação com o corpo.

A segunda reside nas conseqüências pragmáticas que James extrai de sua idéia, prenunciando algumas colocações presentes em suas conferências sobre o pragmatismo (James, 1907).

Em "Does 'consciousness' exist?",5 reencontramos a proposição de James (1911), presente inicialmente em seus textos sobre as emoções, de que a consciência - entendida nesse contexto como o todo momentâneo da vida psíquica - não corresponderia a uma entidade determinada e isolável. Sobre esse ponto, ele explica:

Pelos últimos vinte anos eu suspeitei da "consciência" como uma entidade; pelos últimos sete ou oito anos sugeri sua não existência aos meus alunos (...). Parece-me que a hora é propícia para que ela seja descartada amplamente e universalmente.

(...) Pretendo negar apenas que o termo (consciência) represente uma entidade, mas insisto enfaticamente que ele representa uma função. Quero dizer que não há estofo original ou qualidade de ser, contrastado com aquilo de que são feitos os objetos materiais, exterior àquilo de que são feitos nossos pensamentos sobre esses mesmos objetos. (p. 2-4)

A essa altura, James (1911) recusa até mesmo o dualismo entre coisa e pensamento, entendendo um e outro como partes diferenciáveis daquilo que chama, em sua última filosofia, de experiência pura - a "matéria-prima de tudo" (p. 138). Seguindo essa diretriz, ele rechaça a idéia de que as vivências afetivas seriam experiências estritamente psíquicas; contudo - e essa observação procura situar com alguma precisão a posição teórica de James - também considera inadequada a perspectiva de que os afetos seriam elementos mais físicos do que psíquicos. A proposta de James é a de que não há nada que autorize a balança a pender em definitivo para o lado da fisicalidade ou da espiritualidade no caso das experiências afetivas. Ao contrário, de acordo com o filósofo norte-americano, seria particularmente característica das emoções a ambigüidade necessária a qualquer tentativa de classificá-las como experiências físicas ou psíquicas. Assim, prossegue James:

A noção popular de que essas experiências (afetivas) são intuitivamente dadas tal como fatos exclusivamente internos é apressada e errônea; (...) Sua ambigüidade ilustra com perfeição minha tese central de que subjetividade e objetividade são casos não daquilo de que a experiência é originalmente feita, mas de sua classificação. Classificações dependem de nossos propósitos temporários. Para certos propósitos é conveniente tomar as coisas em um dado conjunto de relações; para outros propósitos, em outro conjunto. (...) No caso de nossas experiências afetivas não temos qualquer propósito constante e permanente que nos obrigue a sermos consistentes; então podemos deixá-las flutuando ambiguamente, às vezes classificando-as como nossos sentimentos, às vezes como realidades mais físicas, de acordo com o capricho ou a conveniência do momento. (p. 141-142)

É possível notar, na colocação acima, duas idéias importantes: o entendimento de que as emoções não apenas corroboram a sua teoria, mas que são talvez o melhor exemplo de pêndulo entre o físico e o mental, no que diz respeito às nossas vivências subjetivas; e de que podemos optar livremente pelo físico ou pelo mental, segundo critérios pragmáticos.6

Naturalmente, o relativismo presente nessa última idéia não esgota o tema. Fica a sensação de que o papel do corpo como, simultaneamente, instância que "sente" e que "engendra" as emoções ou, dito de outra forma, como terreno que é parte central do eu, mas ao mesmo tempo uma espécie de "pedaço especializado" do mundo, segue merecendo mais e muitas investigações. Resta o consolo de que esta introdução e a tradução que a acompanha sejam uma contribuição de alguma utilidade para essa necessária empreitada teórica.

Em resumo, a teoria das emoções de William James opera os seguintes e principais movimentos:

1. Inverte a ordem concebida pelo senso comum em relação à percepção subjetiva das emoções.

2. Investiga as fronteiras entre o que habitualmente se estabelece como os domínios do físico e do mental.

3. Introduz de modo preliminar questões relacionadas a uma teoria da mente.

4. Sugere um novo modo de classificação para emoções, de acordo com o método pragmático.

Que a psicopatologia de hoje retenha por alguns instantes esse ar fresco soprado pelo James oitocentista.

 

Referências

ANDRIEU, B. S. Freud et W. James: déplacements de la psychophysiology. Revue Internationale de Psychopathologie, Paris, n. 3, p. 83-102, 1994.         [ Links ]

GUTMAN, G. Todas as vias levam ao hábito? Introduzindo William James. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. VII, n. 4, p. 192-199, dez. 2004.         [ Links ]

______ . As duas voltas do parafuso: sobre fantasmas, fluxo do pensamento e os irmãos James. In: ARRUDA, A.; BEZZERA JR., B.; TEDESCO, S. (Orgs.). Pragmatismos, pragmáticas e produção de subjetividades. Rio de Janeiro: Garamond, 2008.         [ Links ]

JAMES, W. What is an emotion?. Mind, n. 9, p. 188-205, 1884.         [ Links ]

______ . (1890). The Principles of Psychology. New York: Dover, 1950.         [ Links ]

______ . (1892). Psychology: Briefer Course. In: Writings 1878-1899. New York: The Library of America, 1992.         [ Links ]

______ . (1899). Talks to Teachers on Psychology and to Students on Some of Life's Ideals. In: Writings 1878-1899. New York: The Library of America, 1992.         [ Links ]

______ . (1907). Pragmatism: a new name for some old ways of thinking. In: Writings 1902-1910. New York: The Library of America, 1987.         [ Links ]

______ . (1911). Essays in Radical Empiricism. Winnipeg, Canadá: Bison Books, 1996.         [ Links ]

 

 

Versão inicial recebida em novembro de 2008
Versão aprovada para publicação em novembro de 2008

 

 

Guilherme Gutman
Psiquiatra e psicanalista; professor adjunto do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (Rio de Janeiro, RJ, Brasil)
Rua Visconde de Pirajá, 595/905 - Ipanema
22410-003 Rio de Janeiro, RJ.
Fone: (21) 3026-0064
e-mail: guilhermegutman@gmail.com

1. Para algumas informações gerais sobre William James (1842-1910), sugerimos a leitura de Gutman (2004, 2008).
2. Como exemplo de "emoções básicas", James menciona em um trecho anterior do mesmo texto as seguintes: "surpresa, curiosidade, enlevo, medo, raiva, lascívia e avidez".
3. É curioso o fato de que alguns neurocientistas reconheçam em James não um machado pronto a derrubar certezas epistemológicas, mas um tronco antigo que, nutrindo-se de um solo de experimentos, por via das raízes do empirismo clássico, teria dado galhos e frutos nos quais esses mesmos cientistas, satisfeitos, se reconhecem. Sobre esse tópico, ver Andrieu, 1994.
4. Há duas pequenas, mas talvez significativas diferenças nos trechos acima citados, quando se passa de "What is an emotion?" ao modo como estão presentes nos dois capítulos referidos: no primeiro texto, temos "emoções básicas", depois modificadas para "emoções brutas". Além disso, o que W. James chama "minha tese" no texto de 1884, torna-se "minha teoria" nos capítulos de 1890 e 1892.
5. Um artigo de 1904, presente em Essays in Radical Empiricism (1911).
6. O método pragmático é assim apresentado por James: "O método pragmático é primariamente um método de resolver disputas metafísicas que, de outro modo, poderiam ser intermináveis. O mundo é (...) material ou espiritual? (...) disputas em torno de noções como essa são sem fim. O método pragmático em tais casos corresponde à tentativa de interpretar cada uma dessas noções traçando as suas respectivas conseqüências práticas" (W. James, 1907, p. 506).