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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.11 no.4 suppl.0 São Paulo Dec. 2008

https://doi.org/10.1590/S1415-47142008000500003 

ARTIGOS

 

Escravidão e nostalgia no Brasil: o banzo

 

Esclavitud y nostalgia en Brasil: el banzo

 

Esclavage et nostalgie au Brésil: le banzo

 

Slavery and nostaglia in Brazil: the disease known as banzo

 

 

Ana Maria Galdini Raimundo Oda

 

 


RESUMO

Este artigo discute a nostalgia dos escravos, chamada banzo no Brasil. A história do banzo é um campo de pesquisa onde se cruzam a história do tráfico transatlântico de escravos, a história da psicopatologia e a história das doenças.

Palavras-chave: História da Saúde, Brasil, escravidão, psicopatologia, nostalgia


RESUMEN

Este artículo discute la nostalgia de los esclavos, llamada banzo en Brasil. La historia del banzo es un campo de investigación donde se entrecruzan la historia del tráfico de esclavos, la historia de la psicopatología y la historia de las enfermedades.

Palabras clave: Historia de la Salud - Brasil, esclavitud, psicopatología, nostalgia


RÉSUMÉ

Cet article porte sur la nostalgie des esclaves appelée banzo au Brésil. L'histoire du banzo est un champ de recherche dans lequel l'histoire de la traite des esclaves transatlantique, l'histoire de la psychopathologie et l'histoire des maladies se croisent.

Mots clés: Histoire de la santé - Brésil, esclavage, psychopathologie, nostalgie


ABSTRACT

This article discusses nostalgia, a disease among slaves and known in Brazil as banzo. The history of the malady is related to the history of the slave trade, the history of psychopathology, and the history of disease in general.

Key words: History of Health - Brazil, slavery, psychopathology, nostalgia


 

 

Os [negros] que desde novatos se meteram em alguma fazenda,
não é bem que se tirem dela contra sua vontade,
porque facilmente se amofinam, e morrem.
Cultura e opulência do Brasil
... (Antonil, 1711).

Ainda que negros, gente somos, e alma temos.
Adágios, provérbios, rifãos e anexins da língua portuguesa

(Rolland e Bluteau, 1780).

 

Do banzar português ao banzo africano

A palavra banzar é definida como a ação de "pasmar com pena", no primeiro dicionário da língua portuguesa, o Vocabulario Portuguez & Latino, aulico, anatomico, architectonico bellico, botanico etc., de autoria do padre Rafael Bluteau, publicado em Coimbra (1712-1728). Ali, explica-se também que banzeiro significa "inquieto, mal seguro", e um mar banzeiro estaria em estado de duvidosa tensão, assim: "nem quieto, nem tormentoso", ou, em latim, dubium mare (Bluteau, 1712, p. 37). Já em 1707, Miguel Dias Pimenta descrevera uma epidemia - o "achaque do bicho", ou febre amarela, que matou centenas de pessoas em Pernambuco, no ano de 1685 (quase todos homens brancos) - e mencionara que aqueles que chegavam a "banzar, ou ter pesar", mesmo sendo homens fortes, depressa sucumbiam à doença e rapidamente morriam (Pimenta, 1956, p. 511 [1707]).

O substantivo banzo parece ter sido incorporado ao léxico oficial apenas na segunda metade do século XIX; de acordo com Sattamini-Duarte (1951), ele surge nos dicionários de Eduardo Faria (de 1859) e de frei Domingos Vieira (de 1871), significando uma mortal nostalgia dos escravos africanos transportados ao Brasil.

Entretanto, o termo banzo já fora registrado, com este sentido, no ensaio de Luis Antonio de Oliveira Mendes, escrito em 1793 e publicado em 1812, e em pelo menos duas obras escritas em língua estrangeira, em alemão por von Martius e em francês por Sigaud, ambas editadas em 1844. Nas palavras de Oliveira Mendes, o banzo era uma das principais moléstias de que sofriam os escravos, uma "paixão da alma" a que se entregavam e que só se extinguia com a morte, um entranhado ressentimento causado por tudo o que os poderia melancolizar: "a saudade dos seus, e da sua pátria; o amor devido a alguém; a ingratidão e aleivosia que outro lhe fizera; a cogitação profunda sobre a perda da liberdade" (Oliveira Mendes, 2007, p. 370 [1812]) e o pesar pelos maustratos recebidos.

No decorrer do século XIX, as mencionadas obras científicas de Joseph François Sigaud e de Carl F. von Martius, bem como muitas crônicas de viajantes europeus, veicularam a idéia da fatal nostalgia dos escravos - chamando-a ou não de banzo. Nestes relatos, as mortes voluntárias dos cativos são reputadas muito freqüentes, e descritas no que seria uma forma passiva de suicídio - recusar todo alimento e deixar-se morrer de inanição e de tristeza - e também através de métodos universais, como enforcamento, afogamento, uso de armas brancas etc.1 Invariavelmente, os narradores atribuíam o desejo de morrer a uma enfermidade melancólica, relacionada a fatores indissociáveis da situação de cativeiro: o desgosto causado pelo afastamento violento da África, a revolta decorrente da perda da liberdade e as reações aos pesados e injustos castigos.

Circulando amplamente nos países de língua francesa, inglesa e alemã, esta variada literatura de viagem difundiu fórmulas literárias e iconográficas que se tornaram convencionais na descrição do que se chamava então de "desgostos do cativeiro", e também viajou de volta ao Brasil, pautando a escrita dos letrados locais.2 Citando apenas alguns estrangeiros que visitaram ou moraram no Brasil e que trataram da morte voluntária entre escravos, temos: Jean-Baptiste Debret, Henry Koster e Johann Moritz Rugendas (Oda, 2007); Thomas Ewbank, Robert Walsh, F. Dabadie e Freireyss (Karasch, 2001), além do romancista e médico brasileiro Joaquim Manuel de Macedo.

Nas décadas de 1930-40, os estudos afro-brasileiros recuperarão o interesse pelo significado do banzo; em análise sobre a influência africana no português do Brasil, ele tem sua etimologia ligada ao quimbundo mbanza, aldeia: "banzo, saudade da aldeia e, por extensão, da terra natal". A abonação do sentido vem de João Ribeiro, eminente gramático e historiador brasileiro: "Uma moléstia estranha, que é a saudade da pátria, uma espécie de loucura nostálgica, suicídio forçado, o banzo, dizima-os pela inanição e fastio, ou os torna apáticos e idiotas" (Mendonça, 1935, p.177, grifos no original).

Na mesma época, o banzo aparece nos parágrafos finais de uma obra cuja influência nos estudos socioantropológicos que lhe seguiram é desnecessário comentar. Nas duas páginas finais de Casa-grande & senzala (1933), Gilberto Freyre (1987) passa do louvor à "alegria africana" para as doenças dos negros escravos. Entre a descrição de sua proverbial alegria e a de suas terríveis enfermidades, com a qual encerra o livro, tece algumas considerações sobre o banzo, que merecem citação literal, tal sua pregnância na historiografia da segunda metade do século XX:

Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos ioôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. Obanzo - a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram: mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal - entregando-se a excessos, abusando da aguardente, da maconha, masturbando-se. (p. 464)

Atualmente, o banzo continua sendo uma entidade presente no imaginário brasileiro sobre os sofrimentos dos escravos (eu diria que ele é "paradigmático", se a palavra não fosse tão gasta). No Dicionário da língua portuguesa de A. Houaiss (2001) - a fonte citada é o dicionário de frei Domingos Vieira, de 1871 - o banzo é definido como:

... (substantivo masculino), processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado inicial de forte excitação, seguido de ímpetos de destruição e depois a uma nostalgia profunda, que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura e à morte. (p. 397)

Este dicionário informa que é duvidosa a sua etimologia, talvez derivada do quicongo mbanzo, pensamento, ou do quimbundo mbonzo, saudade, paixão - a origem africana da palavra, entretanto, parece muito incerta, não seria um artefato anacrônico? - ou que, provavelmente, banzo venha mesmo do português banzar.

Em obra especializada recentemente publicada, o Dicionário da escravidão negra no Brasil, de Clóvis Moura (2004), lê-se que banzo era o "estado de depressão psicológica que se apossava do africano logo após seu desembarque no Brasil. Geralmente os que caíam nessa situação de nostalgia profunda terminavam morrendo" (p. 63), sendo ali citado um longo trecho do ensaio de Luis Antonio de Oliveira Mendes, como espécie de prova documental.

Desta maneira, navegando pelo dubium mare da história - da pesarosa cisma do século XVIII à enfermidade nostálgica do XIX-XX e à depressão psicológica causada pela perda da identidade cultural do XXI - retornamos ao texto clássico de Oliveira Mendes, de onde o banzo parece pouco ter se afastado, em termos discursivos.

 

O banzo e os territórios da história

Na atual historiografia brasileira são raras as menções ao banzo; as poucas referências à nostalgia dos escravos, em geral, se limitam a reproduzir as narrativas do século XIX, sem muito esforço crítico. A morte voluntária - o banzo ou os suicídios - sói habitar, no máximo, as margens de alentados estudos sobre as manifestações de resistência, de conflito ou de negociação de que tem se ocupado a história social da escravidão nas últimas décadas. Sem embargo, a história do banzo pode ser um fértil território de investigação.

Primeiramente, consideremos que há uma longa história das teorias médicas sobre as relações entre as paixões tristes, a melancolia, o adoecimento e a morte. No caso do banzo, são claras suas conexões com o diagnóstico de nostalgia, entidade que era alojada entre as vesânias (ou doenças mentais em senso estrito) nas várias nosologias existentes em fins do século XVIII. A enfermidade nostálgica, na primeira metade do XIX, fixou-se nas classificações diagnósticas como um subtipo da melancolia (ou loucura parcial) de Pinel e, mais exatamente, da lipemania (ou monomania triste) de Esquirol, conceitos que exponho brevemente, pois são essas as principais referências dos autores que se ocuparam da nostalgia dos escravos no Brasil.

Em segundo lugar, sem muito esforço se constata que o banzo (ou, ao menos, sua descrição) é um estado mórbido intimamente ligado ao trato negreiro. Não é acidental que casos de banzo sejam narrados por ditas "testemunhas oculares" somente até perto de 1850, período que coincide com o encerramento docomércio escravo entre a África e o Brasil; e que ele vá desaparecendo dos registros coetâneos da escravidão, desde então.3 A dupla posição do banzo - que é, ao mesmo tempo, variação local de conhecida entidade nosológica e "enfermidade-argumento" contra o tráfico - é aqui indicada nos escritos de três médicos, os já citados Sigaud, von Martius e Macedo; ponto que deve incluir também os nexos estabelecidos entre ambiente, clima, patologias e raças.

Finalmente, menciono as (poucas) hipóteses construídas a partir de outra vertente que o banzo permite explorar, o âmbito da história das doenças, ou seja, sua relação com as hoje denominadas doenças infecciosas, parasitárias, nutricionais e mentais. O objetivo desta última seção é apenas apresentar as idéias de três autores pioneiros, os médicos brasileiros Pirajá da Silva (1939), Sattamini-Duarte (1951) e Rubim de Pinho (1982), cujos trabalhos restaram sem continuidade, mas que poderiam ser retomados à luz das atuais abordagens deste campo de pesquisa da história das ciências.

 

A nostalgia dos europeus

A história da enfermidade chamada de nostalgia é tão fascinante quanto extensa e labiríntica; por este motivo, seria temerário pretender alguma síntese; assim, aqui apenas aponto alguns aspectos que nos podem interessar nesta história do banzo.4

O ponto inicial dessa história é a dissertação do médico suíço Johannes Hofer (Basiléia, 1678), que chamou de nostalgia - palavra composta a partir dos radicais gregos nóstos (regresso) e álgos (dor física ou moral) - uma enfermidade a que os suíços seriam muito predispostos, lá conhecida como Heimweh, equivalente à maladie du pays na França. Hofer foi o primeiro a sistematizar tal condição em termos médicos, em sua pequena monografia escrita em latim, De Nostalgia. Ali, descreveu casos exemplares de suíços acometidos pela doença, tipicamente incidente em pessoas afastadas de sua terra natal: a indisposição ocasionada pela pena de ver-se ausente do lar tornava-se uma enfermidade mortal, quando todos os pensamentos e sentimentos fixavam-se no desejo de regresso, tornando o enfermo sombrio e indiferente ao mundo. As manifestações eram tristeza crescente e profunda, ansiedade, insônia, inapetência, alterações gastrintestinais, emagrecimento, debilidade, hidropisia, palpitações cardíacas e febre, caminhando em casos extremos para o estupor e a morte. Resumidamente, o autor declarava que a sede da doença era o cérebro e explicava a patogênese dos sintomas, basicamente, postulando que uma intensa alteração da imaginação era causadora do transtorno cerebral, exatamente no local onde habitavam as imagens das pessoas e paragens queridas; a fixação patológica dos "espíritos vitais" nesta rota cerebral desequilibraria todo o funcionamento corporal, em especial o sistema digestivo, a composição do sangue e as funções de assimilação, o que levaria à inanição (Rosen, 1975, p. 341-342).

No decorrer do século XVIII, a nostalgia tornou-se objeto de muitos trabalhos médicos, principalmente em língua francesa e alemã, sobretudo como tema das dissertações dos estudantes de medicina (Jaspers, 1977, p. 11), e o trabalho de Hofer continuaria uma referência freqüente. Obviamente, no decorrer do tempo, as hipóteses sobre sua etiologia e fisiopatologia transformaram-se, seguindo as teorias das escolas médicas a que se filiavam os autores, muitas vezes divergentes e concorrentes. De forma simplificada, pode-se dizer que se debatia se a etiologia estaria primariamente ligada a desarranjos orgânicos causados por fatores ambientais, como as variações da pressão atmosférica (como defendia o suíço Scheuchzer), ou a transtornos cerebrais advindos de excessos da imaginação e das paixões tristes, em pessoas predispostas (como queria Hofer). O caso de Scheuchzer mostra que a preferência por uma das teorias etiológicas disponíveis sempre era uma escolha científica vinculada a certas implicações políticas decorrentes.5

A melancolia helvética, desde meados do XVIII, vinha rapidamente tornando-se menos suíça: a elevada ocorrência nos exércitos de várias nações européias, sobretudo entre os soldados mais jovens e entre os recrutados forçadamente - que, aliás, constituíam a grande maioria das tropas -, tornara a patologia objeto de especial interesse dos médicos militares, que relatavam verdadeiras epidemias de nostalgia. O suíço J. G. Zimmerman publicou, em 1764, uma coleção de casos recolhidos entre soldados franceses, austríacos, escoceses, irlandeses etc., assinalando ainda que os brutais métodos de recrutamento da Marinha inglesa - muitas vezes, violentos raptos - muito contribuíam para o surgimento da nostalgia. Assim, passava-se a admitir que qualquer pessoa poderia ser atingida pela nostalgia, ainda que parecessem mais vulneráveis aquelas de vida mental restrita, excessivamente apegadas a um ambiente natal rústico e isolado das agitações urbanas, e subitamente lançadas ao turbilhão da vida citadina ou sob as penas da dura vida militar (Rosen, 1975).

Baseado em sua larga experiência como cirurgião militar nas campanhas napoleônicas, o francês J. D. Larrey publicou, em 1821, um ensaio em que destacava os efeitos dos grandes desastres (frio, fome, aprisionamento, epidemias) na produção de funestos casos de nostalgia entre as tropas; esta influente obra, traduzida para o inglês e para o alemão (Jaspers, 1977), difundiu hipóteses sobre a etiologia, a patogenia e a evolução clínica da moléstia nostálgica, como entidade independente ou associada a outras doenças reinantes como a disenteria, as febres, o escorbuto - certamente, os postulados de Larrey e de outros poderiam ser estendidos para os casos de nostalgia em geral, inclusive entre os africanos escravizados.

Nos quadros classificatórios, desde fins do século XVIII, a nostalgia vinha se estabelecendo como categoria específica. Lineu, em Genera morburum (1763), incluía a nostalgia como um gênero dentro da ordem pathetici da classe morbi mentales (Jaspers, 1977, p. 15). Em sua Nosologia methodica (1767), Boissier de Sauvages dividia a classe vesaniae em três ordens: delírios, erros do espírito e morosidades ou bizarrias; nesta última ordem estava a nostalgia, junto a outros hábitos extravagantes e excessivos6(Pessotti, 1994). Thomas Arnold - em Observations on the nature, kinds, causes and prevention of insanity... (1806) - listou a loucura patética (pathetic insanity), da qual uma variedade era a loucura nostálgica (Rosen, 1975, p. 346). Enfim, com poucas hesitações nosográficas, a nostalgia era alocada na classe das enfermidades mentais, e próxima da melancolia.

Desde sua origem, o conceito médico de nostalgia guardou íntima ligação com aquele que circulava na cultura popular e, a partir de meados do século XVIII, se intensificaria esse processo de mútua influência, na cultura literária do romantismo (Jaspers, 1977, p. 11). Assim sendo, no decorrer do século XIX, os médicos teriam que se empenhar muito na tarefa de diferenciar a enfermidade mental melancolia-nostalgia de sua acepção vulgar, corrente na linguagem comum e literária (Berrios, 1998, p. 293). Quanto à etiologia, em termos gerais, a nostalgia era associada à constituição melancólica, a perturbações humorais e a alterações físico-mentais devidas a causas morais. Não obstante os câmbios nas teorias sobre a sede, a etiologia e a patogênese da nostalgia, a descrição do quadro clínico parece não ter se distanciado muito dos moldes estabelecidos por Hofer.

As mais relevantes referências dos médicos que se ocuparam da nostalgia dos escravos no Brasil foram os franceses Pinel e Esquirol, cujas obras marcaram a configuração do campo da medicina mental, na primeira metade do século XIX. Nas duas edições (1800 e 1809) de seu Tratado médico-filosófico sobre a alienação mental, Philippe Pinel não incluía a nostalgia em sua (deliberadamente) econômica nosografia.7 Entretanto, escreveu a primeira parte do verbete Nostalgie da Encyclopédie méthodique (1821, p. 661-663), considerando-a uma enfermidade específica, no que, em geral, era seguido pelos contemporâneos.8 Pouco antes, no final do verbete Mélancolie (1816, p. 600) da mesma Encyclopédie, Pinel havia remetido seus leitores à consulta dos artigos vindouros: Melancolia Helvética enviava a Nostalgia; Melancolia que leva ao suicídio remetia aos artigos Spleen e Suicídio.

Iniciando o artigo Nostalgia, ponderava Pinel quanto ao desejo de rever a terra natal: "dos animais ao homem selvagem, do selvagem ao civilizado, todos os entes que respiram provam desta necessidade"9 (1821, p. 661). Prosseguia dizendo que:

A nostalgia, nomeada há longo tempo, e que muita gente chama ainda hoje de maladie du pays, é caracterizada pela necessidade imperiosa que provam aqueles por ela atingidos de retornar a seu país, de rever os lugares de sua infância; em uma palavra, pela necessidade premente de reencontrar sua primeira morada. Se isto lhes é recusado, ficam atormentados de aflição, com agripnia [insônia], anorexia e muitos outros sintomas graves. (p. 662-663)

A nostalgia, a seu ver, era uma doença espalhada por todas as latitudes, que ocorria em todas as estações do ano e atingia gentes de quaisquer temperamentos, idades e de ambos os sexos (1821, p. 662). O ilustre alienista postulava que o sentimento patriótico natural - durante o exílio em terras estrangeiras e sob condições adversas (perda de fortuna, ambições frustradas, desenganos amorosos, grandes incertezas quando ao futuro etc.) - poderia se exacerbar e se transformar em enfermidade:

Separado de tudo o que ama, todos os laços que o ligam à vida romperam-se, o mundo é apenas um vale deserto, tudo o entedia, tudo o atormenta, tudo o acabrunha. Um desânimo total o invade: em vão ele quer superá-lo; inúteis esforços! Ele se queda entregue, malgrado seu, continuadamente a um estado detristeza e de tédio que mina cada dia de sua existência. É este estado de tristeza profunda e dolorosa que fez dar a esta doença o nome de nostalgia, das palavras gregas nóstos, retornar e álgos, que significa dor, afecção dolorosa, doença, pesar. É chamada ainda de nostomania, filopatridomania, patopatrialgia, nostralgia. (p. 662-663)

Os principais sinais da doença - manifestações da influência deletéria das paixões opressivas sobre a economia animal, ou seja, o funcionamento corporal - consistiam em:

... ar triste, melancólico, olhar estúpido, olhos distantes, rosto inanimado, desgosto geral, indiferença a tudo, o pulso é fraco, lento, às vezes rápido mas apenas perceptível; sonolência constante: durante o sono se lhes escapam certas expressões com soluços e lágrimas; é quase impossível deixarem o leito; um silêncio obstinado; a recusa de bebidas e de alimentos, o emagrecimento, o marasmo e a morte. (p. 663)

Recordava que, como era de conhecimento geral, as tropas helvéticas tinham uma canção própria para lembrar as distantes delícias da Suíça, cuja audição podia fazer os soldados caírem doentes de nostalgia. Criticava o recrutamento militar à força, cujas terríveis conseqüências se mostrariam no adoecimento mental das tropas. Dizia também que, ainda que doença nostálgica não conduzisse sempre ao desenlace extremo, ela sempre seria funesta, de forma indireta favorecendo graves enfermidades (muito comuns em hospitais militares) tais como a disenteria, as febres etc. O tratamento, quando a nostalgia era "simples", deveria ser a aplicação de meios morais que despertassem a alegria, conforme sua lógica terapêutica de balancear as paixões humanas - tais como jogos, diversões, espetáculos, ocupações agradáveis e tudo mais que os doentes desejassem. Porém, aconselhava o médico, se a doença avançava e resistia a estes meios, o único remédio eficaz era devolver o soldado enfermo a seu anelado país.

Na seção final deste verbete da Encyclopédie, o médico militar François-Gabriel Boisseau escreveu sobre sua experiência no exército, aquilo que afirmava ter visto principalmente entre jovens soldados, numa espécie de complemento ao texto de Pinel. Ressaltou Boisseau (1821) que as causas da nostalgia não deveriam ser procuradas nas mudanças de ares ou de alimentação, mas na privação das doces sensações a que estavam os doentes habituados desde a infância; ser privado disto, disse ele, era quase o mesmo que ser privado de ar (p. 664). Assinalava ainda que a sede da nostalgia era o cérebro, sendo as alterações gástricas apenas acessórias.

Aluno e sucessor de Pinel, Jean-Étienne Esquirol construiu o conceito de monomanias, isto é, loucuras que incidiriam parcialmente sobre a inteligência, o afeto ou a vontade, sendo a razão relativamente preservada; resumidamente, as monomanias seriam decorrentes de idéias fixas causadas por paixões intensas. No livro Des Maladies mentales (1838), em que suas principais formulações teóricas estão sintetizadas, o autor considerou a nostalgia como uma das variedades da monomania triste ou lipemania,10 nome que julgava mais adequado para marcar a verdadeira conotação médica do termo, substituindo a velha e polissêmica melancolia. Apesar de sua pretendida maior precisão nosográfica, Esquirol (1838) não se afastou muito do mestre ao descrever a nostalgia, aí inclusa a recorrente citação da canção ranz de vaches - que também Pinel tomara do suíço Zwinger, autor de inícios do século XVIII -, acrescentando que a nostalgia levaria à morte não apenas por meios passivos, mas ainda por indubitáveis atos suicidas:

A nostalgia leva ao suicídio. O ranz de vaches, os sons da gaita de foles (cornemuse) provocam, pela influência que as sensações atuais têm sobre as idéias e as recordações, o pesar por não mais estar no país natal, o desgosto de estar afastado dos objetos de suas primeiras sensações, de onde se origina o desejo violento de rever o lugar onde se nasceu; o desespero de estarem separados desse lugar domina todas as afeições e os soldados suíços e escoceses se matam, se não podem desertar. (p. 546-547)

 

Escravidão, tráfico e nostalgia

Em fins do século XVIII, encontrava-se já bem estabelecida a associação entre escravidão e melancolia; o estado melancólico parecia exemplificar com perfeição o caráter passional dos africanos, sendo um tópico nas representações românticas destes como nobres selvagens de grande sensibilidade moral; essa eoutras visões dos filhos da África eram veiculadas por influentes pensadores europeus11 e, às vezes, criticamente transformadas por modestos autores coloniais (López Denis, 2005). Tais imagens transitavam entre as obras dos filósofos, naturalistas e médicos e, nas primeiras décadas do século XIX, estarão incorporadas às narrativas de viagem e aos compêndios de medicina tropical, tais como os de Sigaud e de Martius, ou inclusas em teses de jovens doutores europeus e americanos, como aquela do brasileiro Macedo.

No entanto, não está definido a partir de que matrizes, ou de que autores exatamente, o discurso sobre a enfermidade nostálgica teria deslizado dos oprimidos soldados europeus aos infelizes escravos africanos - este deslocamento é uma hipótese a investigar. E ainda, no caso particular que aqui nos interessa, é preciso localizar quando e como se passou das referências ao "banzar-saudades" dos colonos, marujos e soldados portugueses às narrativas do "banzo-nostalgia" dos africanos no Brasil.

Oliveira Mendes

Quando, em 1793, o ilustrado luso-brasileiro Luis Antonio de Oliveira Mendes (1750-1817?) escreveu sobre a enfermidade chamada de banzo, parecia estar falando de algo conhecido por seus leitores por este mesmo nome; e quando dizia que os africanos cativos sofriam de saudades dos seus e de sua pátria (Oliveira Mendes, 2007, p. 370 [1812]), associava os padecimentos dos negros a um vocábulo familiar à notória melancolia dos portugueses em terras d'além-mar. É seguro que o trabalho de Oliveira Mendes - considerado a primeira publicação em língua portuguesa a se ocupar exclusivamente do tema da saúde dos escravos - é a principal fonte para as descrições do banzo no século XIX.

Este homem de ciência produziu sua memória12 em resposta a uma proposição da Academia Real das Ciências de Lisboa, sábia agremiação que desejava ver esclarecidas as causas da grande mortalidade dos africanos transportados ao Brasil, bem como determinados os meios de prevenir tais males. A memória foi lida em sessão da Academia em 1793 e publicada em 1812, na famosa coleção das Memórias econômicas da Academia Real das Ciências de Lisboa (tomo IV), bem conhecida pelos que escreviam sobre o Brasil no século XIX. O ensaio foi também reproduzido por um periódico editado na Inglaterra, o Investigador Português, entre 1813-1814, "a pedido dos leitores" (Sacramento-Blake, 1899, p. 354-357) - o que provavelmente ampliou seu potencial público leitor.

Oliveira Mendes destacou a ligação entre as mortais enfermidades e o péssimo tratamento dado aos cativos em todas as etapas do comércio negreiro, bem como os efeitos nefastos dos castigos excessivos e das injustiças sobre sua saúde. Descreveu de forma muito positiva as características morais dos africanos (amor, ódio, constância, justiça, honra), suas instituições sociais (a família, o casamento) e suas formas de reagir às vicissitudes do cativeiro. Assinalava que, mesmo bárbaros, os africanos eram sinceros e constantes nos afetos, compassivos, crédulos e resolutos; ressaltava ainda sua capacidade de suportar a dor física e sua robustez inata. Como já mencionei, o banzo era apresentado como uma gravíssima enfermidade causada pela exacerbação do sentimento de saudades ou por outra paixão triste. Como não havia remédios para este mal, dizia ele que a única forma de tratamento seria distrair o escravo de seus funestos pensamentos e desviá-lo de suas justas paixões, tratá-lo com paternal benevolência e dar permissão para que se divertisse - honestamente, claro - com seus companheiros, pois a alegria dissiparia a tristeza. Como "meios de se acautelarem e de se curarem" as enfermidades, aconselhava:

Deviam ter como primeira regra, que os pretos perdendo a sua liberdade ficam desde logo apaixonados, e entregues a um indizível ressentimento, que é justo, e inseparável, e extensivo ao mesmo bárbaro; que também tem alma, e que também sente. Deviam por isso mesmo desde logo começar a tratá-los com toda a brandura, e agrado, para fazer o cativeiro menos sensível, desimaginá-los e desvanecer pouco a pouco o banzo, que os não desacompanha. (Oliveira Mendes, 2007, p. 372 [1812])

Ainda que as informações biográficas sobre o nosso autor sejam escassas, elas permitem dizer que ele fazia parte de um grupo de ilustrados luso-brasileiros muito ativos politicamente. Como indicou Maria Odila da Silva Dias (1968), esses estudiosos alinhavam-se às vertentes utilitaristas da Ilustração e estavam ligados a uma certa política ilustrada do Estado português. Assim, procuravam aplicar seus conhecimentos de maneira a responder aos interesses da Coroa, bem como às necessidades da metrópole lusitana e de sua vasta colônia americana. Esta autora apontou a marcada influência de Voltaire e dos enciclopedistas neste grupo; podemos supor que Oliveira Mendes tenha lido os autores canônicos,13 além de ter consultado trabalhos médicos europeus disponíveis em Lisboa e em Coimbra, onde se graduara em Leis - dizer isto, entretanto, é apenas um ponto de partida para investigações futuras. Militante da Ilustração, o advogado brasileiro retornou à terra natal, a Bahia, por volta de 1810, trazendo consigo um projeto ilustrado a concretizar: a criação da Sociedade Bahiense dos Homens de Letras, concebida nos moldes da Academia de Lisboa (Sociedade Bahiense, 1884).

Oliveira Mendes terminou seu ensaio sobre as enfermidades dos escravos propondo uma lei que criaria mecanismos para facilitar as manumissões e ainda para controlar os libertos para que trabalhassem, assim reduzindo o número de cativos sem que isso pudesse prejudicar a economia colonial; isto até que, clamava ele, com a graça de Deus desaparecesse "para sempre a escravidão dos pretos a todos odiosa" (2007, p. 375 [1812]). Aqui, as doenças dos escravos, em especial o banzo, podem ser lidas como argumentos contra a escravidão, ou ao menos contra o tráfico transatlântico. Além disso, ao lado da intenção explicitada de otimizar o comércio escravo - para o bem da Coroa Portuguesa etc. - permeia toda a narrativa uma peculiar perspectiva, extremamente compassiva, na descrição do pathos dos escravos, de seus sofrimentos e enfermidades.

De forma independente, um contemporâneo do autor luso-brasileiro, o espanhol Francisco Barrera y Domingo (1798[1953]), relacionaria nostalgia e escravidão; mais que isto, o experiente médico de escravos concluiu que todas as enfermidades dos negros eram causadas, ao fim e ao cabo, pela situação de cativeiro. Barrera produziu em Cuba, em 1798, um amplo tratado médico, as Reflexiones Historico Fisico Naturales Medico Quirurgicas... - que permaneceu desconhecido até o século XX -, em que a detalhada análise clínica da nostalgia dos escravos se reveste de indubitáveis conotações políticas: trechos deste precioso texto, temos a oportunidade de ler neste suplemento da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental.

Sigaud, Martius e Macedo

A vocação do banzo para ser um tipo de "enfermidade-argumento", mobilizado na luta discursiva contra os malefícios da escravidão, será mantida nos escritos da primeira metade do século XIX, porém com diferentes sentidos, segundo a posição de cada narrador. As três obras aqui destacadas - de Sigaud, Martius e Macedo - foram publicadas em 1844 e se referem a um período de grande conturbação política nacional, e em que o tráfico transatlântico, oficialmente ilegal, continuava aportando legiões de africanos às costas brasileiras.14

Os trechos sobre a nostalgia dos escravos aqui destacados se encontram inseridos em obras de diferentes dimensões e variados propósitos. No compêndio Du climat et des maladies du Brésil (Do clima e das doenças do Brasil), do médico francês Joseph François Xavier Sigaud, publicado em Paris; no livro do naturalista e médico bávaro Carl Friedrich Philipp von Martius, Das Naturell, die Krankheiten, das Arztthum und die Heilmittel der Uberwohner Brasiliens (Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros), publicado em Munique; e na tese Considerações sobre a nostalgia, apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro por Joaquim Manuel de Macedo. Desde logo, se observam as diferenças entre os autores e seus trabalhos: os dois primeiros são autoridades científicas reconhecidas nos dois continentes, e escrevem tratados médicos; o último é um jovem estudante de medicina que termina seu curso, para o que necessita apresentar uma monografia. Nesta seção, me ocuparei um pouco mais da monografia de Macedo, uma vez que os trabalhos de Martius e de Sigaud estão apresentados em outro artigo deste mesmo suplemento, a que remeto o leitor.15

Os dois doutores europeus não dissociam a investigação das enfermidades reinantes de aspectos ambientais, geográficos, sociais e políticos mais amplos, relativos ao futuro do nascente império do Brasil - em especial, da questão da formação étnica do (futuro) povo brasileiro. Em linhas gerais, Sigaud considerava o banzo (usou este nome) como uma enfermidade mental, uma variante da nostalgia-melancolia, desencadeada por causas morais, tais como as saudades da África ou o ressentimento por castigos injustos. Sua principal referência foi o ensaio de Luis Antonio de Oliveira Mendes, citado como testemunha ocular do banzo - na verdade, o médico francês reconheceu o ilustrado luso-brasileiro como importante fonte de informações sobre todas as doenças dos negros. Martius estava interessado em descrever as doenças dos silvícolas brasileiros, e fez um paralelo entre as diferentes manifestações do que chamava de "o conhecido banzo" entre indígenas escravizados e cativos negros. Ele considerou o banzo como um mortal quadro melancólico, decorrente da perda da liberdade; sobre o banzo, não mencionou referências escritas, mas invocou o testemunho de colonizadores e donos de escravos. Tanto Martius como Sigaud deixaram entrever que teriam diretamente observado casos de banzo, mas isto é mais sugerido do que afirmado explicitamente.

Vale lembrar que a acentuada tendência dos africanos para a morte voluntária pode ser encontrada em conhecidos tratados de medicina tropical da época, como o de Levacher (uma das referências de Sigaud), que, no capítulo denominado "Da resolução de morrer no negro", afirmava que: "As causas externas, tão possantes sobre o negro, agitam seus sentimentos e suas inclinações com um império e uma singularidade muito marcantes. Elas lhe ditam a vontade de morrer, ordem moral a que ele obedece religiosamente". E ainda, que "a resolução de morrer se observa mais freqüentemente entre os negros nascidos na África e deve ser considerada como atributo da raça negra mais bruta, aquela que devemos considerar como local e primitiva" (Levacher, 1840 apud Sattamini-Duarte, 1951, p. 68).16

Deve-se ter em mente a posição de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) como um dos fundadores do romantismo brasileiro, quando se lê sua monografia sobre a nostalgia, escrita no mesmo ano em que o estreante escritor fluminense publicara A moreninha, a primeira de várias obras de sucesso. Assim, não espanta que sua tese esteja repleta de citações literárias, mitológicas e históricas, fartamente distribuídas na obra de pouco mais de 50 páginas, e muitas vezes colocadas no mesmo patamar discursivo das referências médicas (Lopes e Polito, 2004, p. 111-112), com o mesmo peso de evidência ou de autoridade.

Macedo considerava a nostalgia como uma moléstia mental (uma variedade da lipemania de Esquirol, sua principal referência) originada das saudades da pátria, tendo como sede o cérebro. Dividiu sua monografia em curtos capítulos, em que tece considerações sobre as causas, sede, sintomas, prognóstico e tratamento da nostalgia. Explicitamente identificado com a classe senhorial, o escritor não demonstrava simpatia alguma pelos africanos e seus descendentes, mas pensava que a nostalgia dos negros mereceria ser estudada, pois a considerava como potencial ameaça à agricultura nacional, conforme indicou no seu prefácio:

Com efeito, na insuficiência de forças que dêem incremento e possam fazer abundar essa fonte de riqueza nacional [a agricultura], das terras da África nos têm vindo braços para o cultivo das nossas: aceitos pela necessidade (se real ou imaginária não nos cabe aqui ponderar), mas trazidos só pelo interesse, o sofrimento mais acerbo começa para muitos dos africanos desde o momento em que são arrancados a suas praias. Separados de famílias embora desamoráveis, sotopostos uns aos outros aos imundos porões de pequenos braços, mal nutridos e pior tratados, testemunhando os padecimentos e a morte de alguns de seus sócios de infortúnio e finalmente desembarcando para entrar na vida do cativeiro, que ainda mesmo quando temperada pela benevolência de um bom senhor é sempre a vida do cativeiro, como hesitar em crer que o tempo da liberdade e a terra da pátria devem estar presentes a seu espírito com todo o fogo das saudades, que lhes serão muitas vezes fatais?... Para negá-lo fora mister negar-lhes também uma alma, que sente e que lembra. (Macedo, 2004, p. 16-17 [1844])

Apesar desta declaração, no decorrer da tese poucas páginas serão dedicadas à nostalgia dos escravos no Brasil (o autor não usou a palavra banzo). Quando se ocupa da nostalgia dos escravos, inicia descrevendo a situação destes nas "colônias" (francesas?, inglesas?); ali, afirmava ele, o grande número de suicídios ("envenenando-se ou enforcando-se em ramos de árvores") seria explicado pelas saudades da África, exacerbadas diante das crueldades dos senhores, sendo que a fatal opção dos negros seria facilitada pela crença que tinham no renascimento futuro em sua pátria. Segue-se uma citação em francês, que descreve os escravos como hábeis envenenadores, que poderiam espalhar a morte ao seu redor, capazes de matar até mesmo seus entes queridos como vingança contra malvados senhores. Cita ainda uma prática que seria executada pelos "colonos", espantados com a "vulgaridade" do suicídio entre os escravos: o sepultamento dos suicidas com um membro do corpo deixado à vista, para que os outros "se convencessem pela evidência física de que vãmente contavam ressuscitar nas terras de África" (Macedo, 2004, p. 49 [1844]).

O jovem doutor se valeu de alguns expedientes de estudante: referiu certos autores como se os houvera lido, mas muitas vezes recorreu a enciclopédias médicas. Todo este trecho supracitado é uma tradução para o português de parte do verbete Nostalgie, do Dictionnaire des sciences médicales (1819, p. 269). Macedo não refere este dicionário médico, do qual várias passagens podem ser identificadas em sua monografia. O verbete é assinado pelos médicos militares Percy e Laurent, e inclui a tal citação conservada por Macedo em língua francesa, que no Dictionnaire é atribuída ao padre Raynal.17

Na seqüência, advertia Macedo que a triste situação das "colônias" não se aplicava ao Brasil, onde os senhores eram em geral muito "bons e humanos" e o trabalho era menos pesado do que aquele exigido dos homens livres pobres da Europa. Ainda assim, considerava que parte da "espantosa mortandade que entre nós se observa nos africanos, principalmente nos recém-chegados" (2004, p. 50 [1844]), se devia à nostalgia, e que os suicídios entre eles ocorreriam em número suficiente para merecerem cuidados. Aconselhava os agricultores brasileiros:

O africano recém-chegado de sua pátria deve conservar as lembranças dela ainda muito vivas, e por conseqüência muito susceptíveis de inflamar-se: e, demais, não afeito aos trabalhos da agricultura, não aclimatado ainda, e ainda ressentido dos sofrimentos de uma longa viagem em que tudo foi calculado pelas idéias do lucro, mais que nunca estará então predisposto a padecer de nostalgia. E pois, em circunstâncias tão excepcionais, é um erro, um erro de cálculo e de interesse, não tratá-lo com docilidade e favor, carregá-lo de trabalhos pesados e exercer sobre ele o mesmo rigor que convém nos antigos escravos. De tal erro poderá nascer uma comparação entre o tempo da liberdade e o do cativeiro, entre o passado da terra da pátria, o presente da terra estrangeira e o futuro sempre de escravidão, que, em não poucos casos, será fatal aos interesses do senhor e à vida do escravo. (Macedo, 2004, p. 51 [1844])

Observava também que a nostalgia, como se sabia, era uma doença que costumava complicar outras moléstias; assim, condenava o sistema de enfermarias coletivas nas fazendas, que poderia facilitar a disseminação dos casos de nostalgia "por imitação". Outra recomendação era que os castigos dados a escravos novos não se fizessem no isolamento "porque na solidão o homem naturalmente se deixa levar da melancolia, o que é perigoso neles" (idem, p.52). Finalizando seus conselhos, agora dirigidos aos legisladores, Macedo dava especial atenção ao fato de se separarem famílias escravas por venda, fato que lhe parece "horrível e escandaloso, [que] despedaça a sensibilidade, ofende a Deus e pode produzir funestos resultados, cuja extensão não é possível medir" (idem, p.53).

Defensor da classe de proprietários, Macedo atuava politicamente contra o tráfico negreiro atlântico: defendia a manutenção imediata da escravidão, mas acreditava que a importação de africanos deveria cessar. Por volta de 1850, o encontramos participando ativamente da Sociedade contra o Tráfico e Promotora da Colonização e Civilização dos Indígenas (Kodama, 2007), agremiação que visava formular propostas para substituir os escravos por mão-de-obra européia e, se possível, repatriar os indesejados africanos.18 A inserção do banzo em sua tese sobre a nostalgia deve ser compreendida a partir dessa perspectiva senhorial.19

 

Indagações médicas sobre a etiologia do banzo (século XX)

Depois de freqüentar assiduamente a literatura médica e a de viagens na primeira metade do século XIX, o banzo permanecerá quase adormecido até as primeiras do século XX, quando os estudos afro-brasileiros o recolocaram como potencial objeto de investigação.

Primeiramente, temos uma rápida colaboração do parasitologista Manoel Augusto Pirajá da Silva, tradutor e comentador de Martius. Em uma nota explicativa acrescida ao trecho em que o naturalista bávaro comenta o banzo, no livro Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros, dizia o parasitologista que muitos casos descritos como banzo seriam, na verdade, dedoença do sono - enfermidade endêmica na África, chamada hoje de tripanossomíase africana. Em sua opinião, os escravos viriam da África contaminados, mas a doença do sono não se teria propagado no Brasil por inexistirem aqui as moscas transmissoras da enfermidade (Pirajá da Silva, 1939, p. 31, nota 12).

O segundo trabalho é o mais detalhado, escrito pelo médico e historiador da medicina Orlando Sattamini-Duarte, "Contribuição ao estudo clínico-histórico do banzo", de 1951. De início, ele revisa as descrições do banzo, compulsando literatura de viagem e obras médicas da primeira metade do século XIX, com destaque para o trabalho de Oliveira Mendes (1812), que considera a observação princeps. Numa segunda seção do artigo, faz um "estudo clínico retrospectivo" (Sattamini-Duarte, 1951, p. 74), onde procura "estabelecer o diagnóstico diferencial com a tripanossomíase africana [doença do sono], com a psicose maníacodepressiva, com a depressão reativa, com a neurastenia, com o suicídio deliberado sine-moléstia e com a síndrome de Korsakoff, carencial ou alcoólica" (idem, p. 81). Conclui propondo a provável equivalência do banzo ao diagnóstico de esquizofrenia (simples, hebefrênica ou catatônica), desencadeada por fatores psicogênicos, relacionados à situação violenta do cativeiro. Observo que Sattamini-Duarte utiliza os critérios diagnósticos da época em que escreve, projetando para o passado uma enfermidade universal e atemporal, o que obviamente não se sustenta. O seu diagnóstico diferencial, quando exclui a "depressão reativa", a "neurastenia" e a "psicose maníaco-depressiva", baseia-se na crença de que estas seriam enfermidades próprias da vida civilizada e, portanto, não atingiriam os primitivos africanos - um paradigma que já se modificava, então.

Por fim, o psiquiatra Álvaro Rubim de Pinho (1982) revisará as hipóteses etiológicas de seus dois antecessores, sob a luz de seus conhecimentos etnopsiquiátricos, em Aspectos históricos da Psiquiatria Folclórica no Brasil, um trabalho apresentado à Academia de Medicina da Bahia (em versão resumida: Rubim de Pinho, 2003). Além do levantamento bibliográfico, o autor buscou informações na história oral, entrevistando o chefe de um tradicional terreiro de candomblé de Salvador, um discípulo do famoso babalaô Martiniano do Bonfim. Segundo o psiquiatra, sua fonte diferenciava o banzo - "estado de tristeza profunda, conduzindo os escravos, no curso da viagem marítima, ao mutismo, à imobilidade, à falta de iniciativa para comer, à completa decadência física e psíquica" (1982, p. 22) - de estados de loucura e de estados de possessão. Acrescenta que a condição não era sensível a tratamentos religiosos, que alguns negros logo que desembarcavam se curavam, e que não se tinha notícias de casos de banzo iniciados em terras brasileiras. Rubim de Pinho tem sua própria interpretação etiológica, aproximando o banzo do que se chamou de síndromes de campo de concentração, de repatriação ou de opressão. O seu modelo é multicausal: o banzo teria sido um quadro em que se superporiam o estado mental depressivo (característico de situações de súbito desenraizamento cultural, confinamento, terror, fome etc.) e variados sintomas decorrentes de acentuada carência nutricional, causadora de insuficiências de vitaminas e de proteínas e de maior vulnerabilidade a doenças graves.

Geofagia e melancolia

Existe ainda um tema correlacionado ao banzo que certamente necessita de recursos de vários campos da história para ser investigado. Trata-se da histórica associação entre geofagia (hábito de comer terra ou barro), melancolia e morte voluntária. Em obra escrita no século XVI, dizia-se dos índios brasileiros: se um deles desejava a morte, deliberadamente punha-se a comer terra, "cada dia uma pouca", definhava, inchava e morria, sem que ninguém pudesse demovê-lo de sua decisão (Sousa, 2000, p. 274 [1801]). Nos relatos do século XIX, a pica - alteração do hábito alimentar que incluía a ingestão de terra, barro, cal, madeira etc. - aparece considerada como uma decidida ação em direção à morte, um método de suicídio dos negros escravos, e associada a sinais clínicos tais como inapetência, emagrecimento, apatia, extrema palidez e grandes edemas (Koster, 1978, p. 399 [1816]; Debret, 1834, p. 148). A máscara de ferro que se lhes colocava no rosto era, segundo Debret, o sinistro indício da decisão de se deixarem morrer, comendo terra (idem). Para outros, seria um vício incurável e funesto, muitas vezes associado ao estado de nostalgia, sendo que muito escravo moço, "uma vez atacado do vício geofágico", dele não se afastava "nem pela admoestação, nem pelo castigo" (Martius, 1939, p. 110-112 [1844]). Sigaud dizia ter verificado que este gosto por comer terra existia entre negros e indígenas brasileiros - confirmando a observação de Humboldt: ser este um hábito comum dos habitantes das zonas tropicais. No caso dos negros, escreveu Sigaud, esse seria um hábito quetrariam da África, não necessariamente associado ao banzo, e que produziria uma caquexia que matava em pouco tempo (1844, p. 120 e 132).

Ainda hoje, vez ou outra se encontram referências à ingestão de terra como sendo um método (plausível) de suicídio, talvez ecos dos relatos dos viajantes ou de Gilberto Freyre (1987, p. 464) repetidos sem reflexão. Não obstante, a geofagia e a pica são conhecidas dos historiadores da escravidão; elas aparecem sistematicamente em tratados sobre as doenças dos escravos como causas de adoecimento e morte dos negros, no mundo atlântico dos séculos XVIII e XIX. O atual debate sobre seu significado patológico desperta controvérsias, e há três principais linhas explicativas para a etiologia da pica (que inclui a geofagia), um fenômeno que existe em várias partes do mundo contemporâneo. A primeira, mais antiga (e cada vez mais questionada em termos de validade estatística da relação causal), relaciona a alteração do apetite à presença de parasitoses intestinais, em especial da necatoriose; a segunda explicação é cultural, a ingestão de terra é umantigo hábito em muitas regiões da África; a terceira teoria inclui o componente cultural e postula que os principais fatores envolvidos na origem da pica são relacionados a deficiências nutricionais (Sheridan, 1985, p. 216-219).

A historiadora Mary Karasch (2001), em pesquisa sobre a vida dos escravos no Rio de Janeiro, considera difícil estabelecer claramente qual seria a ligação entre o ato de comer terra e o desejo de morrer, tal como foi descrita pelos viajantes. Pensa que a geofagia poderia ser um sintoma de desnutrição grave, e faz a hipótese de que os suicidas pudessem comer terra para "matar a dor da fome enquanto definhavam até a morte", especialmente os africanos (p. 417).

Com estas observações, apenas desejo indicar que, há algumas décadas, pesquisas vêm produzindo novos conhecimentos sobre as doenças dos escravos em perspectiva multidisciplinar: demográfica, clínica, epidemiológica, de paleopatologia etc. Tais estudos têm revisado as teorias sobre a migração de populações e de doenças, e as condições sanitárias e nutricionais dos escravos, em diferentes períodos e locais. No Brasil, os estudos sistemáticos sobre as enfermidades dos escravos apenas se iniciam, sendo ainda poucos aqueles em perspectiva médica;20 nesse sentido, as etiologias do que foi chamado de banzo, bem como as relações entre geofagia e melancolia, poderiam ser investigadas articulando-se os campos da história das ciências e da história cultural e social da escravidão.

 

À guisa de conclusão

Neste (quiçá demasiado) panorâmico ensaio, busquei indicar que na história do banzo se cruzam várias rotas da história, e apontar algumas de suas conexões nos âmbitos das - assim convencionalmente chamadas - histórias da psicopatologia, do tráfico transatlântico de escravos e das doenças. O banzo tem sempre uma dupla posição: ele é uma entidade clínica, uma variação da nostalgia nos trópicos, associada a outras enfermidades dos negros; entretanto, sua descrição não pode ser dissociada dos debates sobre o futuro de um país mestiço marcado pelo cativeiro negro, ou ainda pelas incertezas decorrentes da possibilidade de extinção do regime escravista em um vasto império agrícola.

Diz o Vocabulário de Bluteau que um jogo estava banzeiro quando nem uma nem outra parte ganhava - uma indefinição enervante. A história do banzo remete a um jogo assim, de escravos contra senhores, da vida contra a morte, em longa e tensa peleja.

 

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______ . Discurso acadêmico ao programa: Determinar com todos os seus symptomas as doenças agudas, e chronicas, que mais frequentemente accommettem os pretos recém tirados da África: examinando as causas da sua mortandade depois da sua chegada ao Brasil: se talvez a mudança do clima, se a vida mais laboriosa, ou se alguns outros motivos concorrem para tanto estrago: e finalmente indicar os methodos mais apropriados para evitalo, prevenindo-o, e curando-o: tudo isso deduzido da experiencia mais sizuda, e fiel. Memorias economicas da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1812. t. IV, p. 1-82. Disponível em: <http://books.google.com/books?id=0-QAAAAAYAAJ & printsec=frontcover & hl=pt-BR & source=gbs_book_other_versions_r & cad=3_0#PPP19,M1> Acesso em: 30 jul. 2008.         [ Links ]

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Versão inicial recebida em junho de 2008
Versão aprovada para publicação em dezembro de 2008

 

 

Ana Maria Galdini Raimundo Oda
Psiquiatra; doutora em Ciências Médicas (Universidade Estadual de Campinas - Unicamp; Campinas, SP, Brasil); pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp; editora associada da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental (seção História da Psiquiatria)
Caixa Postal 2135 13106-970
Campinas, SP, Brasil
e-mail: anaoda@uol.com.br

* Este artigo é uma versão ampliada da comunicação apresentada no Simpósio "Escravidão, tráfico, raça e pathos: novas perspectivas da história das moléstias dos negros cativos no Brasil", durante o III Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e IX Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental (Niterói, RJ, setembro de 2008).
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, processo 04/00442-4).
1 Sobre os suicídios de escravos, veja-se o artigo de Oliveira e Oda (2008) e a dissertação de mestrado de Saulo Veiga Oliveira (2007).
2 Para uma ampla análise das relações entre as obras dos viajantes e os intelectuais brasileiros, no processo de construção da identidade nacional, veja-se o ensaio de Wilma Peres Costa (2003).
3 Já os suicídios de escravos (pelos métodos clássicos) são referidos como muito freqüentes desde inícios do XIX, e assim permanecem até perto da Abolição, em 1888, não só nos livros mas também nos periódicos noticiosos. Em resumo, os suicídios tomam o lugar do banzo como manifestação psicopatológica típica dos escravos, depois de 1850. Em pesquisa sobre suicídios de escravos em São Paulo (1870-1888) observamos que estes eram, proporcionalmente, mais noticiados em jornais e registrados nas estatísticas policiais do que os de pessoas livres. Entretanto, não se pode afirmar que isto significa que os escravos matavam-se mais do que as pessoas livres, neste período e local (Oliveira e Oda, 2008).
4 Remeto a duas boas revisões históricas, a de Karl Jaspers, no início de sua dissertação inaugural Heimweh und Verbrechen (Nostalgia e delito, 1909), aqui usada em sua tradução espanhola de 1977, e ao artigo de George Rosen, "Nostalgia: a 'forgotten' psychological disorder" (1975).
5 Esta discussão está desenvolvida no artigo de Adrián López Denis, "Nostalgia y esclavitud en la era de las revoluciones" (neste suplemento), com relação à escolha etiológica do cirurgião Francisco Barrera y Domingo, em sua descrição da nostalgia dos escravos em Cuba.
6 Que eram: pica, bulimia, polydipsia, antipathia, satyriasis, ninfomania, tarantimus, hydrophobia e pantophobia (Pessotti, 1994, p. 134). Sauvages, embora considere a nostalgia uma moléstia mental, não a liga à melancholia, um dos cinco gêneros da ordem dos delírios.
7 Cujas espécies de alienação mental eram (na segunda edição, de 1809): melancolia ou delírio exclusivo; mania ou delírio geral; demência ou abolição do pensamento; idiotismo ou obliteração das faculdades intelectuais e afetivas. Para Pinel, haveria dois tipos de comportamentos na melancolia (loucura parcial), um manifestando orgulho e soberba, relacionado a delírios de grandeza e poder, e outro demonstrando consternação, tristeza profunda e desespero, ligado a idéias de morte, doença, culpa e destruição.
8 Com exceções, como Georget (1828, p. 135), autor do verbete Nostalgie no Dictionnaire de médecine de Adelon, onde é definido como dor, sofrimento, pesar ou desespero, não uma doença mas uma causa de afecções diversas, as quais podiam ser tratadas independentemente das circunstâncias que lhe davam origem. Entretanto, se este sofrimento moral causasse flegmasias ou neuroses (inflamações no cérebro), então era preciso agir sobre o moral dos doentes, animando-os.
9 As traduções dos trechos de Pinel e, adiante, de Esquirol são minhas.
10 German Berrios (1998) chama a lipemania de Esquirol de "categoria-ponte", pois nela se dá a passagem da idéia de melancolia como loucura parcial (onde o transtorno intelectual é primário) para um novo conceito em que o transtorno principal é na área dos afetos (p. 304).
11 Muitas destas imagens recorrentes originaram-se em certas passagens da Histoire naturelle de l'homme, parte da enciclopédia Histoire naturelle, générale et particulière, de Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (López Denis, 2005). Sobre um leitor crítico de Buffon, o médico Francisco Barrera y Domingo, veja-se o artigo de López Denis, neste suplemento.
12 Para mais detalhes sobre a memória de Oliveira Mendes, veja-se Oda, 2007. Sobre o psicopatológico na memória de Oliveira Mendes, veja-se a edição de junho de 2007 da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Para o seu texto integral, as republicações de 1977 e 1983, e o original digitalizado e disponível na Internet; as referências estão na bibliografia do presente artigo.
13 Como Buffon e o padre Raynal, autores muito apreciados em fins do século XVIII. Porém, a memória de Oliveira Mendes não tem citações ou referências explícitas a autores, assim, a identificação das suas prováveis fontes é um cuidadoso trabalho que necessita ainda ser feito.
14 No Brasil, o tráfico foi legalmente abolido em 1831, porém sua cessação definitiva só se deu em 1850. Segundo Alencastro (2001), entre 1841 e 1850, cerca de 335 mil africanos foram ilegalmente importados (p. 36).
15 Veja-se Da enfermidade chamada banzo: excertos de Sigaud e de von Martius (1844).
16 Segundo Sattamini-Duarte (1951), a passagem está em: Levacher, M. C. Guide médicale des Antilles et des regions intertropicales. 2. ed. Paris: Lib. Médicale de Just Rouvier, 1840. Os trechos citados por Sattamini-Duarte estão originalmente em francês, a presente tradução é minha.
17 Sobre o contexto original desta passagem atribuída ao padre Raynal, na Histoire des deux Indes (1774), veja-se o artigo de Adrián López Denis, neste suplemento.
18 Sobre a Sociedade contra o Tráfico, veja-se neste suplemento o artigo de Kaori Kodama: "O doutor Audouard em Barcelona (1821) e a repercussão de sua tese sobre a febre amarela no Brasil".
19 Um quarto de século depois (1869), Macedo publicaria uma obra composta por três novelas, intitulada As vítimas-algozes; seu tema central são os males físicos e morais e os perigos decorrentes da existência do cativeiro; ali intenciona demonstrar como a escravidão degrada os negros, que de vítimas da violência passam a potenciais carrascos de seus donos. Através destas novelas exemplares, o objetivo do autor era atacar a instituição escravista, defendendo a emancipação gradual e a plena indenização dos proprietários (Süssekind, 1991).
20 Veja-se o artigo de Ângela Porto, "Fontes e debates em torno da saúde do escravo no Brasil do século XIX", neste suplemento.

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