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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.11 no.4 suppl.0 São Paulo Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142008000500007 

ARTIGOS

 

O doutor Audouard em Barcelona (1821) e a repercussão de sua tese sobre a febre amarela no Brasil*

 

El doctor Audouard en Barcelona (1821) y la repercusión de su tesis sobre la fiebre amarilla en Brasil

 

Le docteur Audouard à Barcelone (1821) et la répercussion de sa thèse sur la fièvre jaune au Brésil

 

Dr. Audouard in Barcelona (1821) and the repercussion of his thesis on yellow fever in Brazil

 

 

Kaori Kodama

 

 


RESUMO

O artigo pretende analisar parte dos trabalhos do médico militar francês Mathieu François Maxime Audouard, que observara a epidemia de febre amarela em Barcelona em 1821. Audouard passaria a acusar o tráfico negreiro como principal causa da doença. Embora suas idéias fossem controversas e nem sempre aceitas pelos médicos de diferentes partes do mundo, elas apresentaram repercussão entre aqueles engajados no fim do tráfico e no movimento contra a escravidão da primeira metade do século XIX. Um caso de particular interesse para análise é a recepção de seus trabalhos no Brasil, frente ao momento de fim do tráfico negreiro no país, e a concomitância com a chegada da grande epidemia de febre amarela.

Palavras-chave: Febre amarela, tráfico de escravos, História da Medicina, Brasil-Império


RESUMEN

Este articulo pretende analizar parte de los trabajos del medico militar francés, Mathieu François Maxime Audouard, quien presenció la epidemia de fiebre amarilla en Barcelona en 1821. Audouard acusó al tráfico de esclavos como la principal causa de esta enfermedad. A pesar de que sus ideas eran controvertidas y no siempre aceptadas por los médicos de diferentes partes del mundo, tuvieron repercusión entre aquellos que se encontraban comprometidos con el fin del tráfico de humano y con el movimiento contra la esclavitud de la primera mitad del siglo XIX. Un caso particularmente interesante es la recepción que sus trabajos tuvieron en Brasil en el contexto del fin del tráfico de esclavos en el país, ocurrida concomitantemente con la llegada de la gran epidemia de fiebre amarilla.

Palabras clave: Fiebre amarilla, tráfico de esclavos, Historia de la Medicina, Brasil-Imperio


RÉSUMÉ

Cet article a pour objet l'analyse des travaux du médecin militaire français Maxime Mathieu François Audouard sur l'épidémie de fièvre jaune à Barcelone en 1821. Audouard accusait la traite négrière d'être une des principales causes de la maladie. Bien que ses idées étaient discutées et n'ont pas toujours été soutenues par les médecins de diverses parties du monde, elles ont été bien reçues par ceux qui s'engageaient pour la fin de la traite et par le mouvement anti-esclavagiste de la première moitié du XIXe siècle. La réception de ses travaux au Brésil au moment de la fin de la traite négrière et de l'irruption simultanée de la grande épidémie de fièvre jaune est un cas particulièrement intéressant pour notre analyse.

Mots clefs: Fièvre jaune, traite négrière, Histoire de la médicine, Brésil-Empire


ABSTRACT

This article consists of an analysis written by the French military physician Mathieu François Maxime Audouard, who witnessed the epidemic of yellow fever in Barcelona, in 1821. Audouard held that the slave trade was the main cause of this malady. Although his ideas were controversial and not always accepted by doctors in different parts of the world, they had repercussions on those who supported the end of the slave trade and the movement against slavery in the first half of the 19th century. One particular case for analysis is the reception of his works in Brazil when the international slave trade was abolished in the country, a fact that occurred concomitantly with the outbreak of the great yellow fever epidemic.

Key words: Yellow fever, slave trade, history of medicine, Brazil-empire


 

 

Durante a primeira metade do século XIX, toda vez que se aproximava a estação quente do ano, os moradores nos arredores dos portos das regiões tropicais e subtropicais pelo mundo já rezavam para que não fossem assolados pela chegada de uma nova epidemia pestilencial. Uma das mais temidas era a febre amarela. Em fins de julho e início de agosto de 1821, foi a vez de a capital da Catalunha ser atingida por uma mortífera epidemia de febre amarela, que chegou a matar ao menos 17.000 pessoas de uma população de 100.000.1 Ainda no início daquele século, a Espanha já havia conhecido a epidemia em Cádiz que tirara a vida de cerca de 20% de sua população, o que certamente deveria ampliar os temores dos habitantes catalãos.

De início, a moléstia atingiu a periferia e zonas pobres da cidade de Barcelona, e as autoridades demoraram para assumir que se tratava da febre amarela, e que esta seria contagiosa, procurando conter o pânico geral. Mesmo assim, as notícias de casos de doentes se espalharam rapidamente, causando a fuga em massa dos moradores da cidade, sobretudo dos mais abastados, que abandonaram suas casas. Quando a doença já avançava para as partes nobres de Barcelona, em setembro, um cordão de isolamento já se encontrava instalado na cidade e os portos na vizinha França foram fechados à entrada de navios provenientes da Catalunha. Apesar de a febre ter sido detectada no porto de Barceloneta - subúrbio da cidade de Barcelona - em fins de julho, somente em setembro tais medidas para isolar a cidade foram implementadas. Após as evidências de que a cidade encontrava-se cercada por um surto epidêmico, as fronteiras com a Espanha foram fechadas pelos Pirineus, e, em seguida, uma comissão de médicos franceses foi enviada para relatar ao governo francês a situação em Barcelona.

A doença parece ter chegado através da brigue Gran Turco que tinha vindo de Havana, um conhecido foco de febre amarela. Mas outros barcos que se encontravam naquele porto na mesma época também foram acusados de estarem infectados. Como nos casos mais comuns observados sobre a epidemia, a doença se propagou primeiramente através dos homens do mar. Os relatos sobre as primeiras mortes ocorridas no bairro de Barceloneta partiram das mortes de pessoas que visitaram o Gran Turco, a mulher do capitão do barco, seus filhos e a criada, assim como da morte de dois homens do navio de guerra napolitano. Logo depois, o próprio capitão viria a falecer. Um médico italiano, de nome Simonda, que anunciara o caráter contagioso da doença morrera em seguida (Hoffman, 1964, p. 4). A partir de então, diversos casos foram surgindo nas cidades vizinhas ao longo da costa. Um deles, em especial, suscitou os temores de que se tratava de uma epidemia de febre amarela, quando o doutor Pellicer fez a autópsia de um doente, o contra-mestre do navio La Joséphine que se encontrava em Barceloneta e cujo cadáver encontrava-se amarelado. Em 22 de agosto, entretanto, a Junta Sanitária Municipal negou a natureza contagiosa da enfermidade, apoiando-se no argumento da bonança e salubridade do clima local, acrescentando que seria temerário espalhar a notícia de tal peste, pondo em risco o comércio e a indústria da cidade, porto de entrada mercantil da península (apud Angolotti, 1980, p. 95). Em conjunto com o debate médico da Junta havia o risco de se isolar a cidade de sua principal atividade econômica. Os cordões sanitários, a criação dos lazaretos e as quarentenas, ao serem implementados, representavam uma ameaça ao comércio da cidade, que desde fins do século XVIII passara a ter seu porto aberto para os produtos americanos.

São bastante conhecidas as polêmicas médicas entre os defensores do contágio e da infecção sobre a febre amarela e de como tal debate se vinculava com as perspectivas políticas mais amplas de ambos os partidários, ligando-se a uma visão mais conservadora no caso dos contagionistas, e a práticas que defenderiam o liberalismo, no caso dos infeccionistas, ou anticontagionistas (v. Ackernecht, 1948; Bonastra, 2000). A tese contagionista vinha de uma tradição antiga, e a partir do século XVI, sobretudo com os trabalhos de Girolamo Fracastoro (Ackernecht, 1948, p. 565), cria-se por ela que haveria uma entidade morbífica que se alojava no corpo da pessoa e que era transmissível através do contato com o indivíduo doente ou com um objeto por ele contaminado. As medidas básicas sanitárias por essa perspectiva eram o emprego de quarentenas e o isolamento dos doentes. No século XIX, tal teoria teria como contraposição os defensores do anticontagionismo ou da teoria da infecção, que cria que a causa das doenças estava na criação de miasmas ou agentes morbíficos através do meio ambiente. Baseada no neo-hipocratismo, em que o homem era parte de um conjunto formado com o meio e a natureza, essa perspectiva defendia as práticas higienistas, de limpeza de locais paludosos e de materiais putrefatos das regiões consideradas como focos de infecção. Ao contrário dos contagionistas, os anticontagionistas não criam que as doenças eram passadas de pessoa a pessoa, e sim, que ela se propagava pelo meio infectado. Daí que se pode atribuir aos últimos o alinhamento com posições liberais no campo econômico, ao serem contrários às quarentenas, medida que trazia grandes prejuízos para o comércio.

A questão do caráter da enfermidade, se contagiosa ou não, bem como a preocupação com a proteção de suas fronteiras levaram à formação, pelo governo francês, de uma comissão médica para investigar a doença. Tanto as condições sanitárias, quanto o contexto político vivido pela Espanha, cujo monarca havia aceitado a nova constituição liberal, parecem ter incidido sobre a polêmica que mobilizou a comissão médica francesa para lá enviada. A França, então dominada pela Restauração bourbônica, procurou impedir o alastramento da onda liberal vinda do país vizinho, reinado por Fernando VII.

Em certo sentido, pode-se dizer que as teorias do contágio, das quais era defensora boa parcela dos médicos da comissão enviada, auxiliaram na criação de uma barreira de controle do fluxo entre os dois países. A comissão organizada pelo Ministério do Interior francês era composta pelos médicos Parizet, Mazet, Bally e François, havendo estes dois últimos observado a febre amarela em São Domingos. Todos representavam a corrente congationista, à exceção do médico Rouchoux, quinto membro que fora nomeado para lhes fazer oposição. O médico Mathieu François Maxime Audouard seria o sexto médico que de forma independente havia pedido sua integração ao grupo para analisar a febre em Barcelona. Porém, tendo sido obliterado pelo Ministério do Interior, pediu a nomeação pelo ministro da Guerra, como representante militar da comissão. Sobre a epidemia de Barcelona em 1821, Audouard escreveu a Relation historique de la fièvre jaune en Barcelone, que publicou no ano seguinte.

Audouard era militar, nascido em Castres, no Sul da França, e seguira a carreira médica formando-se em Montpellier em 1801. Serviu por vários anos na Itália, e lá escreveu diversos trabalhos sobre as febres intermitentes, tema de seu interesse. Sua posição em relação à febre amarela ficou conhecida entre os médicos do século XIX pela sua defesa de que ela se originaria do tráfico negreiro. Audouard era partidário da tese do contágio como forma de propagação da doença, crendo, no entanto, que os miasmas que causavam a doença eram produzidos não no ambiente das cidades e portos, mas nos porões dos navios que teriam tido envolvimento com o tráfico negreiro, através da madeira impregnada com as excreções corporais dos cativos. Entretanto, tais conclusões parecem ter sido formadas pelo médico somente tempos depois de sua observação em Barcelona, e dois anos depois em São Sebastião, ao norte da Espanha. A tese de que a febre amarela seria gerada por uma emanação miasmática dos navios negreiros passa a ser defendida por Audouard somente em 1824, quando escreve sua "Memória sobre a origem e causas da febre amarela".2 Quando realizara o relato sobre a febre amarela em 1821, sua defesa do contágio pouco se diferenciaria dos médicos da comissão, criticando o não-obedecimento de medidas para evitar a propagação da doença, como a imposição das quarentenas aos navios.

Particularmente, é interessante retomar o relato de Audouard sobre sua estada na cidade no momento de auge da epidemia, durante os meses de outubro e novembro de 1821. O médico relatou que, ao entrar na cidade, muitas famílias carregavam seus utensílios procurando fugir. Audouard achou o ar da vila particularmente impróprio e encontraria nas ruelas e no ambiente dos lazaretos o cheiro do "tifo". Notou também como em cada casa se procurava expulsar o mal fazendo queimar zimbro ou nitrato de potássio (pó de canhão). Queimavam-se em outras casas compostos aromáticos como vinagre, sálvia e incensos, ou ainda gás de ácido muriático (ácido clorídrico). A cidade encontrava-se desolada, e se conta que imagens de São Roque, protetor contra as pestes e padroeiro dos inválidos, eram vendidas nas esquinas das ruas, e que as igrejas, sempre cheias, realizavam procissões contra o mal (Chastel, 1999, p. 406, e Hoffman, 1964).

Embora Audouard compartilhasse a mesma posição da comissão médica formada por Bally, Parizet e François, aparentemente foi isolado do grupo e teve pouco reconhecimento pela realização de seus trabalhos. Audouard conta que o jovem médico Mazet havia morrido poucos dias antes de sua chegada a Barcelona e que o médico anticontagionista Rouchoux havia retornado à França, fosse por medo da doença, como os contagionistas pareciam insinuar, fosse por se encontrar sem apoio do restante dos médicos devido às suas posições contrárias a eles. Apesar da baixa desses médicos, juntamente com a dos doutores Bally e François, que teriam ficado doentes, Audouard continuou suas pesquisas. Cria que sua constituição física, de caráter sangüíneo, era propensa à doença, mas que fora poupado pelas precauções por ele tomadas na dieta e nos hábitos higiênicos e pelo fato de ter sido imunizado pelo tifo que havia contraído anos antes. Tais afirmações feitas pelo médico em sua relação histórica buscavam chamar a atenção para os trabalhos por ele feitos, realizando autópsia nos corpos dos mortos e ingerindo partes de matéria contaminada. Segundo Audouard, a comissão médica teria deixado de relatar nas publicações à imprensa que a abertura de cadáveres teria sido realizada por ele, que havia sido o único responsável por essa realização. Tendo percebido que se lhe impunham obstáculos para o reconhecimento de suas atividades, o médico passou a fazer seu próprio relatório. Pode-se assim supor que as dissensões dentro do grupo de médicos alimentou a busca de Audouard por realizar uma análise própria e original. Sua tese sobre a origem da doença gerada a partir de um foco infeccioso específico procurava agregar uma perspectiva infeccionista à defesa do caráter contagioso, aliando assim as medidas higiênicas necessárias como combate ao mal. Ao mesmo tempo, Audouard revela um antiescravismo manifesto em sua tese, que também se alimentava de uma clara concepção racialista. Segundo o médico, haveria diferenças intrínsecas entre negros e brancos, e por isso, os primeiros também seriam capazes de produzir doenças específicas que poderiam se transmitir de forma letal sobre o organismo dos últimos (Audouard, 1824, p. 380).

O médico cria que todos os navios que carregaram a febre para os portos espanhóis provinham de Havana, e nota, pela observação dos médicos espanhóis, que antes estiveram envolvidos no tráfico negreiro. Em sua "Mémoire sur l'origine et les causes de la Fièvre jaune", publicada em 1824, passa a defender que a chamada febre amarela seria uma espécie de "tifo náutico" cuja causa seria os dejetos dos negros que se impregnariam na madeira das estruturas dos navios. Para Audouard, o clima das localidades onde apareceria a febre amarela seria somente um fator secundário. O calor das regiões poderia ativar o miasma morbífico presente nos navios, mas jamais era considerado como causa isolada. Além disso, o médico acreditava que, embora os navios negreiros dessem origem à doença como um primeiro foco de infecção, focos secundários poderiam ser criados através da transmissão pelo ar, sendo assim propagada também de pessoa a pessoa. Com isso, não obstante defendesse um viés infeccionista, acabava se mantendo a favor da idéia do contágio, uma vez que a febre amarela seria a manifestação de uma epidemia, sempre importada para uma determinada região.

A tese de Audouard foi recebida com reservas pelos médicos no continente americano, os quais foram incentivados pelo francês a reportarem observações sobre as relações entre chegada de navios negreiros e o aparecimento de epidemias.

Suas idéias, entretanto, ganhariam uma nova dimensão na década de 1850 no Brasil, quando tanto a questão do tráfico quanto a chegada da epidemia de febre amarela seriam noticiadas no país. Em fins de 1849 e início de 1850, a questão do fim do tráfico estaria bastante presente nos jornais da corte. Um dos espaços de atuação antiescravista estava no jornal O Philantropo (1849-1852). O periódico se estabelecia no Rio de Janeiro como um órgão de propaganda contra o comércio negreiro e seus agentes, os traficantes de escravos. Formado por homens que se engajavam a favor da colonização para o Brasil, o corpo editorial marcadamente vinha ao encontro dos debates políticos sobre o fim do comércio transatlântico de escravos decorridos nos anos de 1850. Como diziam os editoriais do jornal, e a Sociedade contra o Tráfico e Promotora da Colonização e Civilização dos Indígenas que sustentaria o periódico, tinha como fins acessação do tráfico, a expatriação de africanos para a África, a formulação de meios para a chamada de mão-de-obra européia, uma política de "civilização dos índios" e a formação de escolas agrícolas.

Não obstante o grande número de sócios da agremiação e do caráter plural de seus membros, um aspecto que nos parece de grande interesse é o fato de o jornal ter tido como editores dois doutores pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. O primeiro editor foi Antonio José do Vale Caldre e Fião, que atuou no jornal de 1849 a 1851. O segundo editor, que se manteve à frente do jornal de 1851 a 1852, foi Saturnino de Souza e Oliveira, também doutor pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em O Philantropo, Souza e Oliveira publicou uma "Memoria sobre os meios de abolir a escravidão no Imperio do Brasil", na qual abordava questões para o projeto de extinção da escravidão no país. Além dos dois editores, é possível encontrar na lista de sócios outros nomes da categoria médica, como o de Francisco de Paula Cândido, Emílio Joaquim da Silva Maia, Manoel Maria de Moraes e Vale, Ezequiel Correia dos Santos e Joaquim Manuel de Macedo. Embora perspectivas distintas possam marcar esses nomes em suas práticas profissionais e públicas, não deixa de ser de interesse observar sua presença e apoio a um jornal propagandístico contra o tráfico. E tal presença torna-se ainda mais reveladora quando encontramos as críticas ao tráfico envolvendo diretamente questões de saúde pública. Como parte dos argumentos contra a escravidão e seu comércio, em alguns artigos eram apresentados os riscos trazidos à população por doenças de suposta origem africana.

Os anos em que o jornal era editado coincidiram com o registro da grande epidemia de febre amarela que atingiu diferentes pontos no Brasil, mormente na capital do Império. Cinco artigos são encontrados em referência à epidemia do Rio de Janeiro ao longo do ano de 1850 em O Philantropo. Os primeiros escritos já aparecem em março de 1850, no auge da epidemia e mês em que, segundo a avaliação de João Vicente Torres Homem, cerca de 80,9 pessoas eram acometidas pela febre por dia. A história oficial da epidemia no Rio identifica a chegada da doença vinda do porto de Salvador, em novembro de 1849, através de uma barca norte-americana chamada Navarre com uma tripulação de nove homens. Tal notícia foi retirada das informações registradas por Avé-Lallemant, que primeiramente detectou os primeiros casos de febre amarela na cidade. Entre estes, estavam justamente os homens que vieram naquela barca, e que se hospedaram na public-house de um americano chamado Frank. Em fevereiro de 1850, a Academia Imperial de Medicina reconhecia oficialmente a existência da doença na Corte. Em meio a estas discussões, o jornal O Philantropo deu início a uma série de publicações sobre a questão, em matérias como "A epidemia reinante" (15/3/1850) e "A epidemia reinante ou a febre africana" (22/3/1850), ressaltando a relação entre a "epidemia reinante" e o tráfico negreiro.

O artigo intitulado "Os contrabandistas de carne humana e a epidemia reinantes" de 29 de março de 1850 acusava o tráfico africano como causa principalda doença na cidade, moléstia que seria "uma febre da África, bem caracterizada pelos seus vômitos pretos". O artigo, assim como o outro precedente, insistiria em chamar a moléstia de "febre africana". Em outro texto, publicado em 31 de maio de 1850, o jornal adverte sobre o caso de um vapor de guerra inglês, que em 1846 teria sido infectado por uma febre "maligna e contagiosa" após ter estadona Costa da África, insinuando que tal enfermidade contagiosa seria a febre amarela. Assim como o vapor inglês que havia contraído febre, teriam sido infectados os navios do tráfico que aportaram na Bahia, em fins de 1849. De lá a doença levada por embarcações de escravos teria se espraiado para o Rio de Janeiro, que até então se mantivera imune a esse mal exógeno. Tal idéia insistia na vulgarização já corrente da representação benévola do clima do Brasil, além da culpabilização do tráfico pela epidemia.

No jornal, as causas da disseminação da doença no Rio ora aparecem ligadas à idéia de um "mal" interpretado como castigo divino pelo pecado cometido pelos "traficantes de carne humana", ora são tratadas a partir da reinterpretação de teses médicas que acusavam o tráfico de escravos como a causa da febre amarela.

Em 29 setembro de 1850, era publicada em O Philantropo a tradução de um texto do doutor Audouard, "O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela", no qual o autor defendia que a febre amarela teria se originado dos navios utilizados pelo tráfico negreiro. Segundo o doutor francês, a febre amarela não era derivada de um clima particular, embora ela pudesse ser potencializada pelo calor. Ao identificar os navios negreiros como o lugar de origem da doença, a questão do médico vinha ao encontro dos problemas debatidos amplamente em 1850, e certamente ajudaria como um argumento a mais a pressionar o término do tráfico.

Apesar dos embates constantes dos membros da Junta Central de Higiene sobre o modo de difusão da epidemia, se via infecção ou via contágio, a explicação contagionista parecia ser cada vez mais aceita naquele momento pela idéia de que a febre amarela havia sido contraída de fora (Chalhoub, 1996, p. 73). Apesar disso, até o momento em que assola a epidemia, a teoria da infecção era a mais aceita no Brasil. De fato, o controle do ambiente aparecia como a principal reivindicação dos médicos brasileiros de formação acadêmica, que desde a década de 1830 começavam a conformar uma tradição higienista no país (v. Ferreira, 1999).

Em verdade, como já havia salientado Chalhoub, o doutor francês já era conhecido entre os esculápios brasileiros, e já na década de 1830 suas teses eram refutadas pela comunidade médica no Brasil. Na Revista Médica Fluminense saíra uma apreciação sobre a enquete feita por Audouard que propunha investigar a correlação entre casos de febre amarela e o tráfico de escravos, pedindo a seus colegas de países do continente americano que relatassem o surgimento de casos da doença após a chegada de navios negreiros. O redator da Revista contestava em 1839 a perspectiva de Audouard, devido ao fato de não terem sido registrados casos da doença na costa brasileira, não obstante a chegada contínua de embarcações do tráfico.

Em 1850, no entanto, as circunstâncias mudaram, e não só o impacto da epidemia como o próprio contexto avesso aos traficantes de escravos e incriminador desta prática certamente faziam rever conceitos acertados anteriormente sobre a doença e suas formas de propagação. Sidney Chalhoub já havia tratado da recepção da tese do médico entre os brasileiros, e chegou a comentar as divergências da comunidade médica quanto à importação da doença pelo tráfico (Chalhoub, 1993 e 1996, p. 68-78). Mesmo entre os médicos que participavam da Sociedade contra o Tráfico, a teoria do médico francês não foranenhuma unanimidade. É certo que Francisco de Paula Cândido, assinante d'O Philantropo, chegaria a defender a ligação entre tráfico e epidemia no Parlamento quando fizera parte da Junta de Higiene. Porém, outros não a apoiariam, como no caso de Luiz Carlos Saules, jovem médico, membro da Sociedade contra o Tráfico e redator da Gazeta dos Hospitais. Baseado nos Ensaios sobre algumas enfermidades de Angola, trabalho do médico José Pinto de Azeredo, de 1799, Saules acreditava que a natureza das duas enfermidades, a febre que assolava a costa do Brasil e a febre renitente de Angola, era distinta, e que tudo o que então se sabia era que o mal havia chegado através de um navio, que atracara na Bahia (Gazeta dos Hospitaes, 15/6/1850). Tais considerações mostram que não haveria um senso comum sobre a opinião de Audouard, impedindo de crer que o argumento fosse determinante para o debate sobre o fim do tráfico.

Ainda que a tese do médico francês não fosse aceita por todos os médicos brasileiros, é importante ressaltar que em alguns pontos suas idéias tocavam em suas preocupações, tanto em relação à escravidão como em relação à imagem do país. Um dos argumentos do doutor Audouard que certamente ganharia adesão dos membros da Sociedade contra o Tráfico estava em sua afirmação de que a doença não teria se originado na América, porque ela só teria sido aqui registrada na Martinica, em 1694, sendo denominada de mal de Sião. Ao afirmar que a doença era originária do tráfico, por ela surgir dos navios designados como "focos de uma infecção especial", o autor francês endossava as proposições defendidas pelo Philantropo, quer fosse porque acusava o tráfico pela disseminação da doença, quer fosse porque preservava a imagem benigna do clima brasileiro. Tal questão tornava-se fundamental para a chamada de imigrantes e para restaurar a reputação muitas vezes nada favorável do país difundida no exterior pela imprensa e pelas companhias de imigração.

Embora não se possa afirmar terem sido decisivos para o fim do comércio negreiro os debates que relacionavam tráfico a doenças, houve, sem dúvida, um certo número de médicos brasileiros que passaria a levar em maior consideração a tese do médico francês quando da chegada da epidemia ao Brasil. E a publicação de trechos da memória do doutor Audouard no periódico O Philantropo demonstra bem tal repercussão.

Contudo o antiescravismo presente tanto no jornal como na tese sobre a febre amarela de Audouard possuiria também uma outra face, talvez até mais eloqüente do que a causa humanitária contra a escravidão defendida pelo Philantropo. Na idéia de que o tráfico e a escravidão representavam ameaças morais e físicas encontra-se claramente um viés racialista. A opinião de Audouard de que a febre amarela era causada porque a composição dos humores e o modo de funcionamento da natureza dos negros eram diferentes daqueles dos brancos era uma parte importante de seu argumento que também se queria antiescravista. Embora os redatores do jornal não tivessem enfatizado tal aspecto quando publicaram o artigo do médico francês, é possível crer que as diversas associações entre doenças e a escravidão defendidas por eles não eram isentas dessa conotação racial que buscava prevenir a boa sociedade sobre os males da presença dos escravos em seu seio.

 

Referências

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Versão inicial recebida em junho de 2008
Versão aprovada para publicação em outubro de 2008

 

 

Kaori Kodama
Doutora em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio (Rio de Janeiro, RJ, Brasil); pesquisadora visitante da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz (Rio de Janeiro, RJ, Brasil).
Av. Brasil, 4036/404
21040-361 Rio de Janeiro, RJ, Brasil
e-mail: kaori@coc.fiocruz.br

* O presente artigo corresponde a versão ampliada de trabalho apresentado no Simpósio "Escravidão, tráfico, raça e pathos: novas perspectivas da história das moléstias dos negros cativos no Brasil", durante o III Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental e IX Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental, ocorrido em Niterói, em setembro de 2008.
1. Os dados sobre o número de mortos variam. Audouard relata que morreram cerca de 17.000 pessoas no espaço de quatro meses. Enrique Angolotti (1980) cita apenas cerca de 6.000 mortos, enquanto Hoffmann (1964) e Chastel (1999) afirmam que foram 20.000.
2. Audouard afirma que quando escrevera sua Relation historique em 1822 teria negligenciado o fato de que os navios haviam estado envolvidos com o tráfico.

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