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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.12 no.1 São Paulo Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142009000100015 

MEDICINA DA ALMA
ENSAIO

 

As paixões em geral*: da sabedoria, livro I, capítulo 20

 

 

Pierre Charron

 

 

Paixão é um movimento violento da alma em sua parte sensitiva, o qual ocorre ou para seguir aquilo que a alma pensa ser bom ou para fugir daquilo que ela pensa ser nocivo. É importante saber como se formam esses movimentos, como eles nascem e se aquecem em nós. O que nós podemos representar por meio de diversos modos e comparações, primeiramente pela observação de sua emoção e impetuosidade.

A alma, que é única, possui várias e diversificadas potências, conforme o veículo ao qual ela está atrelada, os instrumentos de que ela se serve e os objetos que lhe são propostos. Quando as partes às quais ela está ligada não a oprimem e a ocupam dentro da proporção de sua capacidade e conforme o necessário para o seu bom uso, os efeitos são suaves, benignos e bem regrados. Por outro lado, quando as partes da alma movimentam-se e aquecem-se mais do que se deve, elas se alteram e se tornam prejudiciais; como os raios do sol que, vagando naturalmente livres, aquecem suavemente, mas, uma vez recolhidos e remetidos por um espelho, ardem, queimam e consomem aquilo que normalmente alimentaria e daria vida.

Além disso, as paixões têm diversos graus de força e emoção, e podem ser distinguidas conforme a intensidade: as medíocres se deixam degustar e digerir, elas exprimem-se por meio de palavras e de lágrimas. As grandes e extremas assombram a alma como um todo, a sobrecarregam e impedem a liberdade de suas ações.

Em segundo lugar, no que diz respeito ao vício, desregramento e injustiça que há nas paixões, nós podemos comparar o homem a uma república, e o estado da alma a um Estado real, no qual o soberano, para poder governar o povo, dispõe de magistrados, aos quais, para o exercício de suas responsabilidades, ele determina leis e regulamentos, reservando-se o conhecimento apenas dos maiores e mais importantes acidentes. Dessa ordem depende a paz e a prosperidade do Estado. Se, pelo contrário, os magistrados, essa espécie de intermediário entre o príncipe e o povo, deixam-se enganar facilmente, ou corromper por favores, e sem respeitar o soberano e as leis por ele estabelecidas, eles usam de sua autoridade para a execução dos negócios, eles causam a desordem e a confusão. Assim também é no homem: o entendimento é o soberano, que possui sob sua direção uma potência estimativa e imaginativa como um magistrado, para conhecer e julgar, por meio dos sentidos, todas as coisas que se apresentam e, assim, mover os afetos para a execução de seus julgamentos. Para a boa condução do exercício desta responsabilidade, a lei e a luz da natureza foram concedidas e, além disso, há sempre a possibilidade de recorrer ao conselho de seu superior e soberano, o entendimento.

Eis a ordem do ser feliz, mas a infelicidade é justamente que essa potência, sob o entendimento, e acima dos sentidos, à qual pertence o julgamento das coisas, deixa-se corromper ou enganar, na maior parte do tempo, o que a faz julgar mal e temerariamente: pois ela maneja e revolve nossos afetos de modo inadequado e nos lota de perturbação e de inquietude.

(...) Desses dois conselhos falsos, as imagens criadas por meio dos sentidos e as ideias do senso comum, formam-se na alma uma inconsiderada opinião sobre as coisas, se são boas ou ruins, úteis ou prejudiciais, dignas de serem procuradas ou evitadas, o que é certamente um perigoso guia, pois assim que ela é concebida, sem levar em consideração o logos e o entendimento, como dentro de uma cidadela, ela resiste fortemente contra a reta razão, e revolve os afetos, com movimentos violentos de esperança, de medo, de tristeza, de prazer. Em poucas palavras, essa opinião faz sublevar o solo da alma, que são as paixões.

(...) As primeiras paixões que se formam sobre o objeto aparentemente bom, nas quais entram em consideração os meios para adquiri-lo, excitam em nós ou a esperança ou a desesperança. Aquelas que se formam sobre um objeto mau iminente fazem nascer o medo ou a audácia; aquelas referentes ao objeto mau presente, a cólera e o furor, que são excepcionalmente violentos e atropelam completamente a razão, já estremecida. Eis os principais ventos de onde nascem as tempestades de nossa alma. A caverna de onde eles saem é a opinião sobre os objetos que se apresentam a nós como deleitáveis ou evitáveis. Opinião que é normalmente falsa, vaga, incerta e contra a natureza, a verdade, a razão e a certeza.

 

 

* Tradução de Paulo José Carvalho da Silva da edição do De la sagesse, Paris, Chaignieau, 1797. Disponível em: <http://gallica.bnf.fr>. Acesso em: 9 fev. 2009.

 

 

PIERRE CHARRON (1541-1603)
Estudou leis, mas se tornou teólogo, filósofo e pregador. Sua obra é frequentemente associada ao pensamento de seu célebre amigo Michel de Montaigne (1533-1592), ao neoestoicismo e ao ceticismo francês da primeira modernidade. O De la sagesse, apesar de controverso, recebeu várias reedições em sua época.