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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.13 no.4 São Paulo dez. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142010000400011 

RESENHAS DE LIVROS

 

Neurose e não neurose

 

 

Silvana Rea

 

 

Neurose e não neurose
Marion Minerbo
São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009, 470p.

Este livro, que se desenvolve em linguagem clara e didática, condensa o pensamento de Marion Minerbo, para o qual contribuem sua atuação como psicanalista e supervisora. Mas o ponto de partida se dá em sua experiência como docente da Sociedade Brasileira de Psicanálise, a partir da percepção de certos sintomas nos psicanalistas em formação.

Um deles é o estudo de autores específicos da literatura psicanalítica, o que resulta em uma apreensão fragmentada e sem uma visão de conjunto das formas de sofrimento contemporâneas. Outro, e este é o sintoma sobre o qual se debruça mais profundamente a autora, é a dissociação entre a clínica e a teoria metapsicológica e o seu inverso. Ou seja, Marion Minerbo nota não apenas a dificuldade de se pensar a clínica a partir das diferentes referências teóricas, mas também a dificuldade de reconhecer, no particular da clínica, o universal da teoria. Como é psicanalista, ela busca um sentido para o sintoma. E o encontra na ausência de uma noção de psicopatologia que funcione como mediadora entre clínica e metapsicologia.

Assim, a autora propõe recuperar para o pensamento clínico, a noção de psicopatologia, pois de seu ponto de vista a experiência clínica revela regularidades que "podem e devem" ser relacionadas às entidades nosológicas. Para ela, a noção de psicopatologia funciona como elemento organizador e de inteligibilidade da escuta, assim como descreve as formas de sofrimento psíquico relacionando-as com a metapsicologia. Ou seja, a noção de psicopatologia contribui para o processo psicanalítico ao fazer a mediação entre o singular e o universal, uma vez que tem uma face voltada para a clínica, isto é, para os aspectos do universo subjetivo do analisando e outra voltada para a metapsicologia, o que possibilita a compreensão de como esse psiquismo cria seu universo particular.

Nota-se que a autora tem como interesse a construção do pensamento do psicanalista na clínica, pois a psicopatologia, funcionando como guia para a atenção flutuante, torna a escuta mais sensível e discriminada, permitindo o reconhecimento dos fenômenos vividos no consultório com maior precisão. É pano de fundo para a escuta psicanalítica, orientando o seu recorte.

Ao desafio abraçado pela autora, de manter a noção de estrutura psicopatológica sem perder de vista a singularidade que é exigência da escuta psicanalítica, corresponde o desafio de inserir a psicopatologia na clínica psicanalítica contemporânea. Essa é a questão fundamental do livro, que se desenvolve como proposta de uma psicopatologia psicanalítica a partir das categorias neurose e não neurose.

Como lembra Marion, psicanálise não é psiquiatria, pois diferentemente do ponto de vista médico-psiquiátrico, no qual o termo refere-se às entidades nosológicas relativas ao psíquico, a visão psicanalítica foca seu interesse nas formas de subjetividade e seus aspectos de sofrimento. Subjetividade, portanto, é o termo que convém mais à psicanálise do que estrutura psíquica, porque traz abertura à singularidade do sujeito psíquico, faz referência a uma forma de ser que implica formas de pensar, sentir e agir e em modalidades de sofrimento produzidas por formas de apreender o mundo e a si mesmo, bem como maneiras de reagir a esta apreensão. Forma de ser que se configura ao longo do processo de subjetivação que, por sua vez, configura-se na e pela cultura. Entendida de forma ampla, a ideia de cultura engloba a dupla mãe-bebê, a família, do grupo e a civilização. Para a autora, neurose e não neurose são duas formas de subjetividade que organizam o campo da psicopatologia psicanalítica.

Neurose, portanto, refere-se a uma determinada forma de subjetividade, construída no e pelo simbólico a partir de certa matriz simbólica na qual predominam dificuldades no campo do desejo. Os seja, problemas nos eixos narcísico e objetal. Na não neurose predominam os distúrbios da constituição do narcisismo, tanto na representação de si mesmo quanto nas fronteiras e funções do ego. São quadros que têm como paradigma os fenômenos borderline, como as compulsões, adições, distúrbios alimentares, perversões, patologias do vazio, somatizações e outros. A sintomatologia, nota-se, é variada, mas do ponto de vista metapsicológico, o elemento é a fragilidade narcísica. A autora deixa fora desta discussão a psicose, por sua especificidade e por não ser de expressiva ocorrência na clínica de não especialistas.

São estas as questões trabalhadas na primeira e segunda parte do livro, dedicadas aos elementos clínicos e metapsicológicos das duas formas de subjetividade e seu sofrimento psíquico.

Na primeira, "Neurose e não neurose", busca uma diferenciação entre elas, a partir da estrutura psíquica, psicogênese, clínica e teoria. Considerando que a psicopatologia psicanalítica é consubstancial à cultura na qual se constitui, a autora introduz a intersubjetividade como campo onde se dá o adoecer e a cura. Ou seja, é na e pela relação intersubjetiva que se constrói uma relação patológica consigo e com o mundo. O sujeito doente, portanto, é o vínculo. Dessa maneira, é na e pela relação intersubjetiva - no caso, o campo transferencial e suas possibilidades contratransferenciais - que permite a ressignificação desta maneira de ser pela criação de novas matrizes relacionais. Assim, a ideia de uma psicopatologia em psicanálise é relativizada, pois se refere a certa configuração intersubjetiva restritiva e repetitiva, sobre a qual o analista, na medida em que não complementa a demanda do paciente, modifica.

Na segunda parte, "Não neurose: prospecções", Marion particulariza as questões da subjetividade não neurótica. Para tal, vale-se, à guisa de material clínico, dos filmes O império dos sentidos, de Nagisa Oshima e Flores partidas, de Jim Jarmush, para mostrar os desdobramentos do encontro com o objeto complementar e com o não complementar para a subjetividade não neurótica. Traz também fragmentos de um caso clínico propriamente dito, no qual a compulsão a comprar artigos de grifes funciona como objeto da necessidade para garantir o valor narcísico da paciente. Em seguida, dedica-se à metapsicologia dos afetos hostis, ódio e raiva, muitas vezes confundidos. Apresenta o filme de Luis Buñuel, Alucinado, para introduzir a metapsicologia da subjetividade paranoica, na qual o ódio é a matriz simbólica de apreensão da realidade. Assim como o ódio invejoso, cuja metapsicologia é entendida a partir do filme O que terá acontecido a Baby Jane?, de Robert Aldrich.

Na terceira parte, "A não neurose e o contemporâneo", artigos que fundamentam a tese da autora de que a não neurose, como uma forma de subjetividade, é uma maneira de adoecer da pós-modemidade, ligada à fragilidade do símbolo na cultura contemporânea. A body-art, os reality shows, certas formas de crimes familiares e o filme Laranja mecânica, de Kubrick, são vistos a partir da "relação entre a fragilidade do símbolo e a presença de lógicas híbridas, em que representação e realidade se superpõem" (p. 393).

Neste sentido, neurose e não neurose definem-se pelo tipo de sofrimento, sendo a primeira mais marcada nas questões do século XIX e a segunda mais característica da cultura contemporânea. Marion Minerbo estabelece a distinção entre a subjetividade moderna e a pós-moderna, de acordo com a relação com a função simbolizante. O sujeito moderno, afirma, constitui-se no bojo de instituições fortes e de símbolos duradouros. Sua forma de sofrimento psíquico é a neurose, produzido pela necessidade de se adequar aos modos de ser instituídos.

Cabe ao sujeito pós-moderno questionar as equivalências simbólicas estabelecidas pelas instituições modernas. Nesse relativismo, o afrouxamento do laço simbólico entre significante e significado leva ao risco da ausência de algum ponto para se fixar. O sujeito pós-moderno, então, precisa se constituir em meio a um estado de depleção simbólica. Retirado da medicina, o termo refere-se à redução de alguma substância no meio celular, com prejuízo para o seu funcionamento. A depleção simbólica, portanto, é a falta de sustentação interna para a identidade. É esta a metáfora que a autora utiliza para descrever uma situação na qual o sujeito, sem os elementos necessários para construir um sentido de si, de suas experiências e de mundo, vê-se lançado ao tédio e ao vazio existencial. São casos de comportamentos compulsivos com características aditivas, nos quais a internalização precária da função simbolizante leva o sujeito a depender da sustentação da realidade, em um movimento de fora para dentro, o que resulta na reificação da subjetividade.

Ao apresentar a psique como matriz simbólica integrante da ordem simbólica de uma determinada época e lugar, Marion alarga a ideia de psicanálise para além de uma compreensão estritamente clínica. Ela mostra a importância de se levar em conta, no consultório psicanalítico, um sistema simbólico de atribuição de significações que é da ordem cultural. Deste modo, a discussão proposta no livro não se restringe à neurose e não neurose como formas de subjetividade que organizam a psicopatologia psicanalítica. O que Marion Minerbo oferece ao psicanalista são elementos para a construção consistente de uma clínica psicanalítica contemporânea.

 

 

SILVANA REA
Mestre e Doutora em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo; membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise.
Av. São Gabriel, 149/1104 - Jd. Paulista
01435-001 São Paulo, SP
Fone: (11) 2872-6214
e-mail: silvanarea@uol.com.br

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