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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.15 no.1 São Paulo Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142012000100005 

ARTIGOS

 

Supereu e pulsão: noção de resíduo em "O problema econômico do masoquismo"

 

The superego and drives: the notion of residue in "The economic problem of masochism"

 

Le Surmoi et la Pulsion: La notion de résidu dans "Le Problème Économique du Masochisme"

 

Superyó y pulsión: noción de residuo en "El problema económico del masoquismo"

 

Das Über-Ich und Trieb: Auffassung von Rückstand in “Das ökonomische Problem des Masochismus”

 

 

Avilmar Rocha MaiaI; Angela VorcaroII

IPsiquiatra; psicanalista; mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG, Br), E-mail: avilmar.maia@bol.com.br
IIPsicanalista; Profa. dra. do Depto. de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, MG, Br),
E-mail: angelavorcaro@uol.com.br

 

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A pesquisa faz um retorno a Freud, através de uma leitura lacaniana, buscando evidenciar nos textos freudianos as duas vertentes do supereu: a moral e a pulsional. Verifica-se que a investigação, após percorrer os trabalhos de Freud para conceituar o supereu, desemboca em seu texto O problema econômico do masoquismo (1924). O resultado desse trabalho surge então nesse texto de 1924, em que aparece a articulação da vertente pulsional, sadiana, com a vertente moral, kantiana.

Palavras-chave: Supereu, Kant, Sade.


ABSTRACT

This article looks at Freud from a Lacanian point of view, in order to stress Freud’s writings in both the moral and the drive aspects of the uperego. The article starts off with Freud’s concept of the superego and then proceeds to The Economic Problem of Masochism (1924). The result can then be seen in the text of 1924, where Sade’s articulation of the drive is taken up in comparison with Kant’s moral perspective.

Keywords: Superego, Kant, Sade.


RÉSUMÉ

Notre recherche fait un retour à Freud à l’aide d’une lecture lacanienne visant mettre en évidence, dans les textes freudiens, les deux versants du surmoi: le moral et le pulsionnel. L’enquête, après avoir parcouru les oeuvres de Freud pour conceptualiser le surmoi, aboutit au texte Le Problème Économique du Masochisme (1924). Le résultat de ce travail se base sur ce texte de 1924 qui contient l’articulation entre le versant pulsionnel, sadien, et le versant moral, kantien.

Mots-clés: Surmoi, pulsion, moral, Kant, Sade.  


RESUMEN

La investigación regresa a Freud, a través de una lectura lacaniana, para buscar evidencias en los textos freudianos de las dos vertientes del superyó: la moral y la pulsional. Tras recurrir los trabajos de Freud para conceptuar el superyó, se verifica que la investigación desemboca en su texto El problema económico del masoquismo (1924). El resultado de este trabajo surge, pues, en este texto de 1924, en el que se entrecruzan la vertiente pulsional, sadiana, y la vertiente moral, kantiana.

Palabras clave: Superyó, Kant, Sade.


ZUSAMMENFASSUNG

Durch eine lacanianische Lektüre nimmt diese Untersuchung Freuds Reflexionen wieder auf und versucht, in seinen Texten beide Formen des Über-Ichs zu verdeutlichen: Der moralischen und der triebhaften. Es kann festgestellt werden, dass die Untersuchung, nachdem sie die Werke Freuds durchgeht, um das Über-ich zu definieren, in seiner Abhandlung Das ökonomische Problem des Masochismus (1924) endet. Das Ergebnis dieser Arbeit wird in diesem Text von 1924 präsentiert, in dem das sadische Triebprinzip und die moralischen Instanz, von Kant, im Vergleich dargestellt werden.

Schlüsselwörter: Über-Ich, Kant, Sade.


 

 

Introdução

Em Kant com Sade, Lacan nos convida a retomar a concepção freudiana de supereu segundo duas vertentes: a máxima kantiana e a máxima sadiana. A importância dessa retomada neste trabalho está justamente na possibilidade, aberta por Lacan, de ir ao encontro do que ficou de certa forma borrado na obra de Freud e que tem suas implicações na nossa clínica.

Mas, por que Lacan faz isso?

Nosso ponto de partida para responder a essa questão, situando-a no contexto com o qual Lacan se vê às voltas, é o próprio impasse dos pós-freudianos com o texto de Freud. Hartmann e Lowenstein (1962) baseiam-se em O Eu e o Isso (1923) para reformular a teoria de Freud, porém, o que se percebe nessa proposta é a ausência do supereu. Diante desse impasse, Lacan propõe um retorno a Freud.

Nesse retorno, o que fica evidente é que Freud, ao descobrir sua nova instância psíquica, continuava em sua pesquisa _ que o movia desde o início de sua clínica _ sobre o resíduo pulsional. Se os pós-freudianos deixaram de lado essa linha de investigação freudiana, baseando-se na Psicologia do Ego, Lacan não recua diante desse problema levantado por Freud. Para tratá-lo, aborda os imperativos kantianos e sadianos, articulando, por essa via, a vertente interditora do supereu com o resíduo pulsional freudiano _ ou seja, o resíduo é o próprio imperativo sadiano do supereu.

 

A vertente interditora do supereu

Em suas elaborações, para abordar a vertente interditora do supereu, Freud retoma, à sua maneira, o imperativo kantiano. As ideias de Kant chegaram a Freud indiretamente, seja pela influência da Escola Fisicalista, da qual faziam parte os mestres de Freud que admiravam esse filósofo, ou através do neo-kantismo de Schopenhauer (ROCHA, 2004, p.49).

Contudo, vale ressaltar aqui que, além de não ter citado diretamente a Crítica da razão prática em sua obra e de ter abordado o imperativo categórico de Kant a seu modo, Freud pouco se interessou pela filosofia moral. Se nada há de filosofia moral na psicanálise é porque a moralidade é tomada como objeto de estudo apenas na medida em que a considera um sintoma.

Será em O Eu e o Isso (1923) que, pesquisando essas duas instâncias, Freud acaba se deparando com o supereu, e apropria-se do imperativo categórico1 de Kant para construir esse conceito. Nesse trabalho, Freud descreve que o eu é formado a partir de identificações que tomam o lugar de catexias abandonadas pelo Isso. A primeira dessas identificações se mantém à parte, sob a forma de um supereu. Inicialmente, essa vertente da lei é retomada a partir do pai, que era tido como um obstáculo a uma realização de desejo edipiano; em seguida, ele articula essa vertente ao imperativo categórico de Kant: Tal como a criança esteve um dia sob a compulsão de obedecer aos pais, assim, o eu se submete ao imperativo categórico do seu supereu. (FREUD, 1996, V.XIX, p.61)

Dessa forma, a moral que interessa a Freud é vista nessa articulação da vertente interditora do supereu com o imperativo categórico de Kant, ou seja: durante o processo de formação, o supereu assume o lugar da instância parental (da lei, da censura, da moral), tornando-se seu herdeiro legítimo e exercendo, então, sua função proibidora e punitiva. É assim que Freud descreve este componente do supereu: o supereu não é simplesmente um resíduo das primitivas escolhas objetais do Isso, ele também representa uma formação reativa energética contra essas escolhas" (1996, v.XIX, p.47)

Seguindo suas elaborações, em A Dissecção da personalidade psíquica (Conferência XXXI, 1933), Freud trabalha o supereu a partir da psicose, trazendo, assim, novas contribuições para a neurose. A questão que se lança, de forma aparentemente especulativa, acaba por descortinar um novo caminho: como seria se os psicóticos estivessem certos, ou seja, se em cada um de nós existisse uma instância que tivesse a função de vigiar e que ameaça punir? (FREUD, 1996, v.XXII, 65).

A ideia de que a separação da instância observadora do restante do eu poderia ser um aspecto regular da estrutura do eu já vinha sendo elaborada há mais tempo, dez anos antes, como já mencionamos, em o Eu e o Isso (1923). Sendo assim, o conteúdo dos delírios de ser observado (eu) é apenas uma preparação para o ser julgado e punido (outra instância).

Em seguida, ainda nas Conferências de 1933, Freud falará do supereu a partir da melancolia. E assim nos lembra de como nesse quadro temos a vigência de uma intensa severidade, e até mesmo de crueldade, do supereu para com o eu. Durante os surtos, o supereu se torna supersevero, e desse modo humilha, maltrata, insulta, ameaça e condena o pobre eu. Assim, o supereu aplica o mais rígido padrão de moral ao eu, que fica à mercê das exigências da moralidade. Essa austeridade do supereu acontece justamente porque durante o seu processo de formação ocorre uma transformação, ou melhor, uma desfusão da pulsão, com a intensificação da pulsão de morte. Desse modo, a severidade e a exigência do supereu são aumentadas, como veremos a seguir.

 

O Supereu e a Pulsão

Em relação ao resíduo pulsional, podemos verificar que desde o início de sua clínica, em 1900, em uma carta endereçada a Fliess, Freud já se mostra preocupado com a natureza aparentemente interminável do tratamento que o seu paciente Herr E apresentava, na expectativa de que "esse resíduo não prejudique o sucesso terapêutico". (FREUD, 1996, v.XXIII, p.246)

As formulações sobre esse resíduo pulsional se manterão ao longo dos estudos psicanalíticos de Freud, até em seus últimos trabalhos: em Análise terminável e interminável (1937), ele mantém a sua hipótese de que, em detrimento da influência dos traumas e das alterações do eu, a pulsão é o principal fator limitador de uma análise.

Esse fator limitador que subsiste e impede o sucesso terapêutico vai ser trabalhado pelos pós-freudianos a partir do fortalecimento do ego _ um ego capaz de lidar com esse resíduo. Insistindo na hipótese freudiana, retomamos sua linha de pesquisa, pois, o que Freud estava investigando era algo mais complexo: o fato de esse resíduo estar associado ao supereu.

Em A Pulsão e seus destinos (1919), Freud, ao descrever o par de opostos sadismo-masoquismo, já traz algo, ainda que incipiente, da satisfação pulsional. Em O Eu e o Isso (1923) retoma esse par sadismo-masoquismo, mas articulando-o, dessa vez, com o supereu.

Em 1919, Freud anunciava, numa carta a Ferenczi, que estava escrevendo sobre o masoquismo _ ou melhor, sobre o componente masoquista da pulsão. Esse artigo de 1919, Bate-se numa criança, é tido como o paradigma freudiano da fantasia2. Freud admite que na segunda fase _ "eu sou espancado pelo meu pai" _ aparece a fantasia masoquista, ou melhor: indica-se "o retorno do desejo edipiano de ser objeto do desejo do pai, com o que isso comporta de culpa, exigindo então ser espancado" (LACAN, 1999, sem.5, p. 247).

Em 1920, em Além do princípio de prazer, Freud formula seu conceito de pulsão de morte. Esse novo conceito terá como uma de suas conseqüências principais a mudança da concepção de masoquismo secundário para masoquismo primordial (1924). Continua, porém, sua investigação e, em seguida, articula o conceito de pulsão de morte com o supereu, localizado em O Eu e o Isso (1923). Freud pôde dar musculatura a sua nova instância psíquica ao associá-la com a pulsão de morte, após a desfusão das pulsões. Assim, após a sublimação, o componente erótico não mais tem o poder de unir a totalidade que com ele se achava combinada, e esta é liberada sob a forma de agressividade (FREUD, 1996, v.XIX, p.67).

Freud descobre a relação existente entre a desfusão das pulsões com o supereu quando passamos para a última parte de O Eu e o Isso (1923), quando retoma a melancolia para falar sobre a pulsão de morte no supereu:

Seguindo nosso ponto de vista sobre o sadismo, diríamos que o componente destrutivo entrincheirou-se no supereu e voltou-se contra o eu. O que está influenciando agora o supereu é, por assim dizer, uma cultura pura da pulsão de morte e, de fato, ela com bastante freqüência obtém êxito em impulsionar o eu à morte, se aquele não afasta o seu tirano a tempo, através da mudança para a mania. (FREUD, 1996, v.XIX, p.65).

Passamos para Kant com Sade, porque nesse texto Lacan trata disso melhor, ou seja, do sadismo do supereu com o masoquismo do eu.

 

O imperativo categórico e a pulsão: Kant com Sade3

O Supereu é uma alcova

O texto Kant com Sade se inscreve na descoberta freudiana na medida em que é uma releitura de O Problema econômico do masoquismo (1924), em que Lacan se baseia na filosofia de Kant e na literatura de Sade para nos falar do problema do supereu sádico. (GRASSER, 2005, p.95)

Kant com Sade (1960-62) é um texto composto em três movimentos: a discussão da máxima kantiana, a da máxima sadiana e a da fantasia sadiana. A fantasia perversa, evocada por Lacan em Sade, vem justamente para elucidar a fantasia fundamental do neurótico (pois toda fantasia fundamental tem algo de perversão), assim como Freud a formulou em Bate-se numa criança (1919). Se o lugar reservado a Sade é a bastilha, na verdade, esse é também o lugar tão escondido quanto a fantasia fundamental do neurótico, visto que nessa há também algo de perverso, ou seja, é uma fantasia masoquista. A recusa às obras de Sade, principalmente no início de sua publicação, "é um bom exemplo da dificuldade de situarmos as fantasias na ordem social" (MILLER, 1997, p.154).

Recorremos à fantasia masoquista em Sade, sem nos determos especificamente na perversão, considerando o que nos interessa: a formulação da máxima sadiana a partir da posição de Sade em sua fantasia.

É em Filosofia na alcova (1795) que Sade descreve uma espécie de `romance educativo' em que aparecem três personagens: Eugénie, a jovem que se trata de educar no vício; Madame de Saint-Ange, que comanda esse empreendimento e Dolmancé, encarregado de executá-lo. E é nessa alcova, nesse boudoir, que irão aparecer as posturas eróticas (aplicadas a Eugénie) de torturas, de mutilações e dor, numa narração monótona e repetitiva (BASS, [s/d], p. 185).

O que predomina nessas sessões de erotismo e espancamentos é a máxima sadiana, ou seja: "cada um tem o direito de gozar do corpo do outro sem sua permissão" (MILLER,1996, p.173).

Podemos observar aqui que as duas máximas _ kantiana e sadiana _ têm algo em comum, ou seja: há algo de erotização na moral do supereu, pois, se a lei moral é absurda é porque se baseia em uma imposição incondicional: devemos segui-la sob qualquer condição, mesmo causando mal-estar (seguir a lei moral envolve inclusive o sacrifício). Seguir a lei moral não significa a felicidade, pode produzir mal-estar (MILLER, 1997, p.181). Devemos seguir unicamente a lei e fazer que mesmo nossa vontade alcance a boa vontade (livre de qualquer móbil sensível). Esse exercício deverá ser constante e infinito, uma vez que o homem não é só razão. Só assim o homem pode alcançar o Sumo-Bem _ a felicidade, moralmente condicionada (quando felicidade e moralidade se unem). Seguir o Bem4 não quer dizer que vamos estar bem. Trata-se de um além e, num certo sentido, há um além no próprio Kant. Essa lei moral de Kant, inatingível, é na verdade o próprio imperativo de gozo. Uma lei que ordena o gozo. Uma lei que coloca o sujeito numa posição masoquista, uma vez que envolve sacrifício. O supereu é uma lei absurda, que não é só moral (censura), e sim imperativa. Ela ordena: goze! Nesse sentido, o supereu é uma alcova sadiana; nesse sentido, há algo de erotizado na obra de Kant e, portanto,por trás da máxima kantiana encontramos o gozo sadiano.

É interessante observar também que antes da filosofia kantiana havia uma preocupação com a busca de um objeto ideal5. A filosofia de Kant põe fim às tradições filosóficas que identificavam a felicidade como objeto ideal. Lacan tenta ir ao encontro desse objeto ocultado em Kant. Não se trata de um objeto fenomênico. Miller alerta que é difícil saber que objeto Lacan descobre nesse texto (Kant com Sade). Qual é o objeto escondido da Ética de Kant?6 Por sua vez, Grasser (2005) afirma que, na obra de Sade, assiste-se a uma busca desenfreada pelo objeto ocultado por Kant.

Antes de Kant, todas as moralidades eram fundamentadas na idéia da harmonia entre o bem moral e o bem-estar, ou seja, se alguém seguia a regra de seu bem, teria seu bem-estar. Para Kant, seguir o Bem não significa que vamos estar bem. Assim, a tese que predominava antes de Freud era a de que cada um quer seu bem, enquanto a perversão de Sade é uma maneira de mostrar que alguém pode querer mais do que seu bem-estar.

O problema, como já foi apontado em Além do princípio de prazer (1920), é como alguém pode querer alguma coisa a mais do que seu bem-estar. A partir do conceito de pulsão de morte, não é mais lógico supor que o sujeito busque seu próprio bem.

Retomamos o objeto escondido da Ética. A Antiguidade fundou a ordem do mundo sobre o objeto bom para o homem. Em cada uma das Escolas, o Bem soberano que procuram é a Felicidade. A moral kantiana não se apóia em um objeto ideal (para Kant o objeto ideal apareceria quando o sujeito atingisse o Sumo Bem, enquanto, para Lacan, esse objeto apareceria na alcova de Sade), pois, a ação que a máxima de Kant propõe não é possível senão com uma ação escondida do objeto, ou melhor: a lei moral aponta para algo inatingível, ordena incondicionalmente segui-la. Uma lei que é um contra-senso, que não é uma lei comum, uma lei que é um imperativo de gozo.

O objeto da Ética de Kant é revelado na própria posição de gozo de Sade (objeto pequeno a7), ou melhor, através da fantasia sadiana podemos saber que há um objeto na Ética de Kant (um objeto que não é o da experiência): a posição masoquista de Sade que mantém sua vontade de gozo8, e esta aparece sob a forma de uma máxima.

Miller ainda diz que a máxima de Sade, como a fantasia sadiana, é mais honesta que a máxima de Kant, pois envolve o gozo. O gozo então aparece na máxima sadiana e não aparece na máxima kantiana, ou seja: em Kant temos um objeto que se furta e, na anulação desse objeto, surge o imperativo, a voz da consciência (a máxima de Kant é uma articulação de significante pura, e o objeto pequeno a aparece na máxima sadiana).

 

A posição masoquista e o supereu sádico

Se buscamos em Sade sua posição masoquista é justamente para fazer uma dramatização do supereu sádico, pois, em sua fantasia, o Outro vai castigá-lo. Em O Problema econômico do masoquismo (1924), Freud vai distinguir três formas: o masoquismo feminino (expressão da natureza feminina); o erógeno ou primordial (como condição imposta à excitação sexual), que jaz ao fundo das outra duas formas, e o moral (como norma de comportamento). Este, o mais importante dos três, aparece como necessidade de punição.

Freud descreve o masoquismo moral como um modo de satisfação de um sentimento de culpa inconsciente e conseqüente necessidade de punição: o sadismo e o masoquismo seriam então as duas formas de satisfazer a necessidade de punição e de sofrimento do eu. O supereu o exige, o masoquismo clama por ele. E ainda podemos ver que "o sadismo do supereu e o masoquismo do eu se suplementam mutuamente e se unem para produzir os mesmos efeitos" (FREUD, 1996, v.XIX p.187).

O componente masoquista da fantasia _ ser espancado, maltratado, rebaixado _ que se apresenta sob a forma de obediência incondicional e a humilhação do amor-próprio são muito precisamente os parâmetros essenciais do respeito à lei moral, segundo Kant (BASS, [s/d], p.196). Trata-se do masoquismo moral, ou melhor, revela-se aqui uma posição passiva, que Freud vai chamar de masoquismo feminino, associado à lei moral.

Passemos agora para a parte final do trabalho: se, por um lado, a pulsão só busca a satisfação, e por outro há uma reação tão enérgica contra essa satisfação (na verdade, acabam se atrelando uma a outra) qual é o fundamento dessas duas vertentes do supereu? Ou melhor: Por que uma reação tão enérgica do supereu?

Em Esboço de psicanálise, Freud confirma que a função principal do supereu permanece sendo a limitação das satisfações. O que a lei interditora visa é, então, a satisfação impensável do desejo incestuoso da criança. Esse mecanismo, porem, acaba se somando à própria satisfação pulsional (tanto a vertente moral como a pulsional são as duas faces da mesma figura superegóica). Essa reação tão enérgica do supereu seria mais bem explicada retomando a própria erotização na obra de Kant revelada através de Sade. A tese freudiana de uma sexualização edipiana da moral, presente em O Problema econômico do masoquismo (1924), responde então à nossa questão:

O desejo, tão freqüente nas fantasias, de ser espancado pelo pai é muito próximo deste outro desejo, de ter relações incestuosas com ele, o primeiro não sendo mais do que a deformação regressiva do segundo. Se inserimos essa explicação no conteúdo do masoquismo moral, seu sentido oculto se torna manifesto. A consciência e a moral advêm do fato de que o complexo de Édipo foi superado, dessexualizado; pelo masoquismo moral, a moral é ressexualizada. (FREUD, 1996, v.XIX, p.187)

Assim, o objeto escondido em Kant aparece em O Problema econômico do masoquismo (1924). É exatamente aí que Freud descreve a erotização do supereu. O objeto escondido em Kant é o supereu como imperativo de gozo.

 

CONCLUSÃO

O que aparece na própria máxima de Sade é sua posição de gozo em sua fantasia. Ao retomar esse ponto, podemos entender o que ocorre no supereu, pois o que retorna no imperativo sadiano, vertente pulsional do supereu, é algo da fantasia do sujeito. No neurótico, é através do supereu que se manifesta a posição masoquista do sujeito.

Pensamos que, retomando o supereu em Freud através de Kant com Sade podemos nos orientar na clínica psicanalítica, na medida em que Sade não se deixa enganar por sua fantasia. E isso é fundamental, pois o que se pode esperar de um analisante é que ele também faça esse percurso e que possa ser mais honesto com sua fantasia. A partir desse ponto, então, o supereu pode se tornar menos enérgico, já que o que nele retorna é exatamente essa posição do sujeito.

 

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Endereço

Avilmar Rocha Maia
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31030-030 Belo Horizonte, MG
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Recebido/Received: 26.3.2010 / 3.26.2010
Aceito/Accepted
: 20.5.2010 / 5.20.2010
Conflito de interesses/Conflict of interest: Os autores declaram que não há conflito de interesses/The authors declare that has no conflict of interest.

 

 

Editor do artigo/Editor: Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck
Copyright
: © 2009 Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental/University Association for Research in Fundamental Psychopathology. Este é um artigo de livre acesso, que permite uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o autor e a fonte sejam citados/This is an open-access article, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original author and source are credited.
Financiamento/Funding: Os autores declaram não ter sido financiados ou apoiados/The authors have no support or funding to report.
1. Esse imperativo é categórico por que ordena incondicionalmente, exprimindo assim uma universalidade absoluta: "Age de tal modo que a máxima de tua vontade possa sempre valer ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal" (Kant, 2002, p.51).
2. Kant com Sade é o paradigma da fantasia em Lacan. Enquanto Freud formula a fantasia a partir do relato de seus pacientes, Lacan retira-a da literatura de Sade.
3. Lacan usou a conjunção "com" e não "e", ou seja, ler Kant através de Sade: Sade revela o que está escondido em Kant.
4. As éticas, antes de Kant, baseavam no Wohl ("bem", referente ao "bem-estar") diferentemente de Güte (Bem, no sentido moral) (MILLER, 1997, p.181).
5. A Àgora de Sócrates veicula uma questão ética: "qual é o bom objeto para o homem?". Na Academia de Platão, o que é bom para o homem é a contemplação do Verdadeiro, do Belo. O Liceu de Aristóteles coloca a seguinte pergunta: "qual é o bom objeto para que eu seja feliz?". E após separar a felicidade inferior da felicidade superior, afirma que esta última visa à contemplação da Verdade _ que é seu objeto ideal.
6. Kant, quase no final da Crítica da razão prática, afirma que o objeto está no Sumo-Bem.
7. O objeto a seria aqui um excesso pulsional, o objeto mais de gozar.
8. Podemos entender a estática da fantasia a partir da obra de Sade. Trata-se de uma mesma situação que se repete: os personagens podem até mudar, mas a situação é a mesma. Há uma monotonia. Diferentemente do sintoma no desenvolvimento de uma análise, a fantasia fundamental não muda. Há na fantasia uma prevalência de problema econômico (MILLER, 1999, p.213).