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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.15 no.1 São Paulo Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142012000100007 

ARTIGOS

 

O sujeito adolescente e a ameaça de exclusão na contemporaneidade*

 

The adolescent subject and the threat of exclusion in contemporary society

 

Le sujet adolescent et la menace d'exclusion de la contemporanéité

 

El sujeto adolescente y la amenaza de exclusión en la contemporaneidad

 

Der Teenager als Subjekt und die Bedrohung des Ausschlusses in der Gegenwart

 

 

Tiago Corbisier Matheus

Psicanalista; doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo _ PUC-SP (São Paulo, SP, Br.); membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (São Paulo, SP, Br.), e exerce a atividade docente na Escola de Administração de Empresa da Fundação Getúlio Vargas _ EAESP/FGV (São Paulo, SP, Br.) e no Centro de Estudos Psicanalíticos _ CEP (São Paulo, SP, Br.),
E-mail: tmatheus@uol.com.br

 

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este trabalho aborda a função que o ideário da inclusão/exclusão conquistou entre adolescentes na cena contemporânea, no percurso de desprendimento que realizam das referências familiares até a participação em redes relacionais e institucionais mais amplas. A partir da escuta clínica, percebe-se que a fantasia de estar dentro ou fora de cada contexto específico tornou-se a referência preponderante no imaginário destes sujeitos, então subjugados a uma lógica dicotômica e tirânica que tende a restringir a plasticidade de seus recursos simbólicos.

Palavras-chave: Adolescência, psicanálise, exclusão, clínica


ABSTRACT

This paper discusses the role of ideas associated with the concepts of inclusion and exclusion plays among contemporary teenagers during the process of freeing themselves from family references and becoming part of more extensive institutional and relational networks. From listening to such teenagers in a clinical context, it becomes clear that the feeling of being inside or outside each specific context has become the dominant reference in their imagination and that they are therefore subject to a dichotomous and oppressive logic that tends to restrict the plasticity of their symbolic resources.

Key words: Adolescence, psychoanalisis, exclusion, clinic


RÉSUMÉ

Le sujet du présent travail porte sur la fonction que la question de l'inclusion/exclusion a conquis parmi les adolescents dans le scénario contemporain, dans leurs parcours de détachement des références familiales jusqu'à leur participation dans les réseaux relationnels et institutionnels plus étendus. À partir de l'écoute clinique, on s'aperçoit que la fantaisie d'être en dedans ou en dehors de chaque contexte spécifique est devenue une référence importante dans l'imaginaire de ces sujets, jusqu'à présent assujettie à une logique dichotomique et tyrannique qui a la tendance à restreindre la plasticité de leurs recours symboliques.

Mots clés: Adolescence, psychanalyse, exclusion, clinique


RESUMEN

El texto aborda la función que el ideario sobre inclusión/exclusión en la escena contemporánea ha conquistado entre los adolescentes en la trayectoria que hacen desde el desprendimiento de sus relaciones familiares hacia su participación en redes de relaciones e en instituciones más amplias. A partir de la escucha clínica, se percibe que la fantasía de estar dentro o fuera de un dado contexto específico se constituyó en la referencia preponderante en el imaginario de estos sujetos, consequentemente quedan subyugados a una lógica dicotómica y tiránica que tiende a limitar la plasticidad de sus recursos simbólicos.

Palabras clave: Adolescencia, psicoanálisis, exclusión, clínica


ZUSAMMENFASSUNG

Diese Abhandlung bespricht die Funktion, welche die Einschluss-/Ausschlussauffassung unter den heutigen Teenagern erreicht hat, in ihrem Loslösungsprozess von den familiären Bezugspunkten bis hin zur Teilnahme an Beziehungsnetzwerken und umfassenderen institutionellen Netzwerken. Ausgehend vom klinischen Zuhören, wird festgestellt, dass die Vorstellung, einem bestimmten Kontext anzugehören oder von ihm ausgeschlossen zu sein der vorrangige Anhaltspunkt des Einbildungsvermögens dieser Subjekte geworden ist. Diese unterliegen einer dichotomischen und tyrannischen Logik, welche dazu tendiert, die Plastizität ihrer symbolischen Mittel einzuschränken.

Schlüsselwörter: Teenageralter, Psychoanalyse, Ausschluss, Klinik


 

 

Uma cena: quando entrei no vagão, sua figura logo me chamou a atenção. Seria devido a seus cabelos, poucos e desarrumados, que combinavam com uma barba por fazer e um suéter desbotado e limpo, com resistentes marcas de tinta? Ou seria pela gravidade de seu olhar que, emoldurado num rosto que bem poderia ter seus cinquenta anos, vividos e trabalhados, seguia longe, anunciando alguma preocupação ou pesar? Por vezes este olhar interrompia sua distância e voltava-se para o lado, piscando lenta e pacientemente, como num assentimento aos movimentos caprichosos daquela que tomava seu braço como apoio e se encontrava a seu lado. Noto, neste instante, o foco de minha atenção: era aquele braço que, impassível e determinado, cumpria com zelo a função que assumira. Ela, por sua vez, parecia alheia aos demais, enquanto brincava com a própria imagem na janela adjacente, curvando-se em diferentes silhuetas e repuxando seu capuz negro, como se guardasse para si as surpresas do que via. A imagem mal refletida no vidro permitia àquele rosto resguardar-se da cena pública. Naquele instante, a singela irreverência da brincadeira parecia não ter pressa. De repente, o homem olha para o alto e pronuncia o nome de uma estação, rompendo o quadro. Levantam-se prontamente e saem do vagão, ele pouco adiante dela, que então faz notar seu corpo esguio e incerto, perseguido por um par de longas botas pretas e um jeans justo, tardiamente anunciado.

Qual o sentido daquele apoio? Os caprichos dela e a gravidade dele se faziam cúmplices num silêncio compartilhado, quando a distância e a proximidade de ambos se confundiam anonimamente. Ela ainda não chegou à adolescência, pensei, mas a presença de suas botas parecia anunciar o que estava por vir. Dali a pouco, aquele braço já não seria suficiente e ela não mais passaria ilesa pela cena pública. Seu privilégio, porém, permitia-lhe experimentar suas longas botas negras ainda enquanto dispunha de um apoio paciente e resoluto.

Na modernidade, a adolescência se impôs como um paradoxal ritual singular, no qual cada sujeito vive, a seu modo e com os recursos de que dispõe, um processo de subjetivação a fim de conquistar a condição de indivíduo, estruturada a partir deste significante privilegiado em torno do qual se orientam valores e condutas que fazem de cada um, um fim em si mesmo. O processo descreve o trabalho psíquico a ser realizado por todo sujeito que, ao desprender-se do véu protetor de suas figuras parentais, depara-se com questões que exigem dele um posicionamento próprio. São questões relativas a seu corpo, a sua posição na organização familiar, ou às contradições e incongruências que a realidade social lhe apresenta. Tal posicionamento o convoca a colocar em pauta o legado parental e, consequentemente, a promover a ressignificação das referências herdadas, seja para revalidá-las em novas roupagens, seja para nortear-se em oposição a elas (Matheus, 2002, cap. III; 2007).

Esta aventura da modernidade depende do sentido que cada corpo conquista para o sujeito que o habita, em meio à rede de relações nas quais cada qual busca ser reconhecido como semelhante (Aulagnier, 1988). Logo, não é propriamente a cronologia que marca o processo, mas sim a posição do sujeito em relação aos agentes capazes de legitimá-la, àqueles que ocupam posições de autoridade e que interferem na distribuição das modalidades de gozo (Matheus, 2008). O lugar de cada um gira em torno das imagens vividas, conforme o labirinto de espelhos estabelecido entre os olhares ambivalentes e desiguais dos personagens de cada cena; depende dos errantes e provocativos significados que são dados a um corpo estranho, adolescente, que se anuncia no tenso jogo de relações humanas. Portanto, é na cena social que o jogo se desenrola, conforme o posicionamento do sujeito em seu meio e as condições de gozo de que dispõe, seja a partir dos recursos singulares que sua narrativa histórica lhe trouxe, seja em função das ofertas que lhe são apresentadas pelos grupos e segmentos dos quais participa.

Nota-se o paradoxo que permeia o processo: por um lado, o ideal de ser um _ indivíduo indivisível e autodeterminado _ conforme preconiza o ideário da modernidade. Por outro, a necessidade de reconhecimento pelo tribunal das redes de relações que compõem cada contexto, o desejo de pertencer a um corpo social, a fim de conquistar um sentido para o próprio corpo, legitimado pelo olhar de vários outros. 1 A tensão daí resultante descreve o impasse experimentado pelo sujeito adolescente na contemporaneidade, o que não deixa de ser, em última instância, um conflito presente para todo ser humano que participa deste momento histórico. Reverberações deste conflito podem ser vistas, por exemplo, na ênfase dada, ultimamente, a temas como realização pessoal e inserção social no discurso de adolescentes e jovens. Os jovens, neste sentido, servem como indicadores de conflitos presentes no corpo social do qual participam (Matheus, 2002). Hoje, momento em que a cena social está pautada pelo chamado processo de globalização (tornar global, formando um mesmo universo) e quando tanto se fala em redes (sociais, eletrônicas), os significantes inclusão e exclusão tornaram-se referências privilegiadas no imaginário social de diversas culturas.

O processo de globalização eclode nas últimas décadas do século passado, ampliando e consolidando mecanismos e diretrizes vigentes no sistema socioeconômico que o impulsionou, aproximando culturas e organizações sociais espalhadas pelo globo. Com a aceleração dos processos produtivos e de consumo, um maior contingente populacional é envolvido nas redes de relações (econômicas, mas também sociais) estabelecidas em meio à complexa cadeia mercantil, mas não de modo homogêneo. Elas se estruturam, de modo geral, conforme determinam as leis do mercado, de modo que são as disputas econômicas (entre indivíduos e entre organizações) que dão os parâmetros às posições a serem ocupadas na hierarquia social, legitimando assim as desigualdades entre seus diferentes agentes.2 Aqueles que ficam nas bordas da cadeia estabelecida servem a ela indiretamente, como exemplo de precariedade e exclusão social; os que dela participam, por sua vez, são confrontados a uma escolha forçada (Zizek, 2008, p. 433-434), na qual a aparente liberdade de que desfrutam (de consumo, de participação) é contraposta a uma situação em que a própria condição de humanidade é posta em xeque. Hoje, é preciso participar do circuito de produção e consumo, apropriando-se de seus índices (produtos, tecnologias, qualificações) a fim de conquistar (e manter) o estatuto de cidadão (Hobsbawm, 1995, p. 262).

Neste cenário, a incerteza quanto ao reconhecimento de que cada sujeito desfruta junto a seus pares, nos diferentes grupos ou instituições dos quais participa, ganha peso e medida, provocando fantasias e pesadelos. Aqui, a experiência de grupo, descrita por Viñar, indica o mecanismo em questão: "... o grupo provém de um nó, designando um espaço interior discernível de um fora. O `entre nós' que define uma identidade compartilhada é uma operação que engendra e segrega um diferente, um alheio, um estranho..." (1998, p. 190). Desta perspectiva, estar de fora (das redes) é ocupar a posição de estrangeiro, ser o elemento estranho a uma suposta identidade compartilhada, referência identitária que sustenta cada coletividade e que, idealizada, impõe-se como padrão de uniformidade e coesão, a partir do qual o diferente é discriminado. Do ponto de vista da estrutura social estabelecida, poder falar em nome de um nós diz respeito à possibilidade de cada sujeito poder se colocar em posição privilegiada em relação ao outro, visto como menos favorecido.

No entanto, se do ponto de vista da hierarquia socioeconômica instaurada, as posições ocupadas oferecem oportunidades distintas para os sujeitos, do ponto de vista do simbólico, a experiência de coesão (da identidade) e de pertinência a um corpo social, são, a rigor, impossíveis. Isto porque nem os sujeitos portam uma identidade constante e homogênea como idealizam _ o sujeito é sempre cindido _, nem as diversas sociedades diretamente implicadas na ampla estrutura socioeconômica, estabelecida com a globalização, possuem, em suas diferenças, práticas sociais que promovam de modo contínuo e efetivo a diminuição da desigualdade social, permitindo assim que a ideia de coesão social seja tangível.3 As imagens de totalidade _ de identidade, de corpo social _ dizem respeito, portanto, a uma fantasia que busca negar as fissuras do próprio sujeito e de sua realidade social (ou, segundo Freud, numa visão mais ampla, o desamparo da condição humana _ 1930, p. 72), em função da vertigem que produzem para o sujeito que as experimenta.

O privilégio do sujeito infantil, por sua vez, é poder usufruir, conforme seu meio familiar (ou seu substituto), de um braço de apoio que o preserva das tensões e dissonâncias que vigoram no meio social (específico ou ampliado), permitindo-lhe a ilusão de um pertencimento incondicional. Esta ilusão é que lhe dá o tempo necessário para brincar com seu jogo especular e se preparar para o desafio que está por vir. Quando o sujeito se dá conta de que aquele braço não é mais suficiente ou que já não está disponível, depara-se, sem retorno, com a questão adolescente: há que buscar sentido para aquilo que não foi simbolizado, tanto no que diz respeito a seus antagonismos pulsionais quanto às incongruências e dissonâncias que, para ele, se colocam a partir do corpo social. A experiência clínica faz eco a estas turbulências.

Duas vinhetas clínicas. Lea tem 15 anos e buscou o atendimento "para se conhecer", pois "as pessoas dizem que é legal" e que iria gostar. Resolveu interromper seu curso de dança para fazer este exercício mais introspectivo.4 É filha única do primeiro casamento da mãe e há dois anos possui um irmão mais novo, fruto do segundo casamento desta. Conta que se dá bem tanto com o padrasto, quanto com o irmão, mas diz que a casa "está diferente" desde a chegada do bebê, pois "agora não há mais tranquilidade" e, por vezes, "o jeito é ficar no quarto". Diz que tem bom relacionamento com o pai, de quem gosta e sente falta, por ele morar em outra cidade, e com quem se encontra a cada 15 dias ou mensalmente, ficando os dois alguns dias juntos. Moraram alguns anos fora do país, quando Lea tinha entre cinco e dez anos, em função do trabalho do pai, tendo retornado a São Paulo com a mãe em função do contato com a família desta e de suas preocupações em relação ao ambiente cultural da filha (a mãe considerava a cidade anterior culturalmente "limitada", oferecendo uma formação "muito conservadora" para a filha). Está no primeiro ano do ensino médio, estudando "demais", segundo ela própria diz. Conta que passou a estudar muito este ano porque o colégio está mais exigente do que no ano anterior e em função do "evento de Ribeirão", ocorrido em julho: foi quando resolveu ir viajar com alguns colegas por incentivo dos pais; em grupo, foram para a casa de campo de uma colega "de família com dinheiro", e ficaram "bastante livres", até quando resolveram fazer uma festa entre eles, "com drinques, música e agito". No entanto, conta que acabaram bebendo demais, quebraram coisas da casa e os donos da casa, ao ficarem sabendo, repreenderam todos de modo "severo e hostil", o que antecipou o término da viagem. Conta que foi um choque o ocorrido, pois nunca fora "desqualificada" daquela forma; considera que apesar de não ter tomado iniciativa na "balada", deixou-se levar pelos demais, estranhando muito sua própria atitude; sente vergonha do ocorrido e constrangimento em relação aos pais. Relata que desde então resolveu "evitar farras e baladas", passando a se dedicar mais aos estudos. Atualmente está com dificuldade de ter vida social, mas tem tido pouco interesse por isso, pois aprendeu a "gostar de estudar" e que acaba preferindo ficar em casa. Após alguns encontros, na véspera das férias, comenta rapidamente que não sabe se continuará a análise ou se retomará o curso de dança que havia interrompido.

Lea viveu fora do país vários anos e quando retorna, aos 12, sente a hostilidade dos colegas, para quem ela era a estrangeira que trazia qualificações invejadas. Na busca de inserção na rede de colegas, negocia posições, sem abrir mão de seus qualificativos diferenciais _ falar francês fluentemente, ter vivido no Primeiro Mundo e conhecer seus códigos. Com algum custo, consegue estabelecer parcerias, mas sofre ao constatar que não é a melhor aluna da classe. Ao final do semestre, para não ficar distante das expectativas parentais _ seu reinado fora ameaçado, com a nova configuração familiar _, concorda com mais um investimento na rede social escolar: iria passar uma temporada com colegas de classe, numa bela casa da família de um deles. Lá, sem adultos por perto (estavam em casas separadas, com pouco contato), fazem uso da liberdade oferecida, testando seus limites. A resposta vem logo a seguir: os adultos voltam à cena, desqualificando os jovens por sua conduta e deportando-os de volta para suas respectivas famílias. A experiência de exclusão se repete. Expulsa da bela casa, Lea revive a condição de estrangeira, agora também frente aos próprios pais, que demonstram o estranhamento ante a atitude da filha. A repetição se mostra insuportável, produzindo alguma mudança de postura: frente à angústia da exclusão, é preciso incluir-se. Volta-se então para o recolhimento familiar e social, refugiando-se no quarto e nos estudos, caminho que lhe resta a fim de resguardar alguma pertinência, tanto na família quanto na escola, na qual busca resgatar a ascendência na rede de relações entre pares. Ela própria percebe a desproporção de seu recolhimento e a insuficiência de seu retorno, ensaiando um exercício de escuta do ruído que perdura, ao vir para a análise; este exercício, no entanto, parece fazer ecoar o incômodo da condição estrangeira.

A fantasia de exclusão a acompanha em todo o percurso. Num primeiro olhar, como ameaça, desde a experiência estrangeira (fora do país e em seu retorno, quando se tornou a menina francesa) até o olhar de estranhamento dos pais, passando pela divisão de seu reinado familiar com o irmão mais novo e pela desqualificação no evento de Ribeirão. Num segundo olhar, esta mesma fantasia funciona como diretriz organizadora, na medida em que ela assume como desafio o ideal de inserir-se na rede de relações que a circundam e conquistar destaque na mesma. Esta mudança em seu posicionamento ocorre a partir da vertigem que experimenta quando o gesto de exclusão dos (anônimos) adultos se soma ao olhar de seus pais (olhar outro, sem registro simbólico), quando retorna antecipadamente: não encontra mais seu braço de apoio. Ao viver o desamparo de sua condição, é convocada a elaborar, por sua própria conta, a falta de sentido que emerge de sua experiência. Esta é sua adolescência.

A hierarquia da estrutura social, por sua vez, se faz presente como pano de fundo em suas referências, a partir da qual as várias versões da fantasia de exclusão são construídas. É o que se nota, por exemplo, quando a mãe opta por voltar para a metrópole, menos limitada, a fim de garantir uma melhor formação para a filha: seria um modo de constituir um maior capital simbólico _ para usar o termo de Bourdieu5 _ a fim de ter melhores condições de enfrentar as disputas do campo social? Ou ainda, na tensão que se faz presente na relação entre Lea e seus colegas, em função de sua bagagem de Primeiro Mundo, ou pela maneira como a família bem-estabelecida de seu colega se dá a liberdade de desqualificar e expulsar os convidados impertinentes? Privilegiada ou desqualificada, Lea vive entre fantasias e pesadelos, turbulências em sua rede de relações que refletem e antecedem aquelas que estão por vir.

Caio tem trinta anos, o dobro de Lea. Há vários anos enfrenta os desafios do mercado de trabalho e as acirradas disputas profissionais do mundo organizacional, que possui um complexo e sutil código de condutas, com as particularidades de cada organização. Em função de sua idade, considera-se derrotado, pois não está "no mesmo nível" hierárquico que seus amigos em suas respectivas empresas, nem se vê "realizado profissionalmente". Chegou a se entusiasmar num período em que recebeu uma promoção e encontrou um chefe que o valorizava, mas este subiu na carreira e o deixou por sua conta, pois não encontrou mais quem lhe oferecesse apoio no trabalho. Irmão mais velho de três homens, também vivera a destituição de seu trono ante a chegada dos demais herdeiros, com o adendo de que estes formaram entre si uma parceria que tornou ainda maior seu desconforto. Desanimado, recorre a um profissional a fim de poder compartilhar suas inquietações, o que não deixa de ser um "sinal de fraqueza" que vem confirmar sua dificuldade de se entrosar com os colegas do trabalho. O pai não lhe serve como exemplo; ríspido e autoritário, "viveu numa realidade em que tal perfil de chefia ainda era possível", mas hoje "não consegue entender que a realidade mudou". A mãe é uma mulher que "tem suas próprias tristezas e frustrações"; ao ter se devotado à família, não enfrentou "os desafios do mundo corporativo" e, consequentemente, também não é capaz de "ajudar" o filho em seus conflitos. Caio se pergunta, histericamente, por que somente ele não consegue se entrosar? Por que sempre fica de fora das rodas e das promoções?

O mundo organizacional o ajuda em sua neurose, oferecendo um código de condutas no qual lamentos, pesares ou desabafos não são compatíveis com os modelos de bom desempenho preconizados. É preciso estar bem a todo o momento, ou ao menos transmitir tal impressão, a fim de não pôr em risco os resultados das avaliações periódicas. Caio não chega a se questionar, efetivamente, sobre a possibilidade de alguma mudança profissional, a não ser para alguma outra empresa daquele campo de atuação, pois lhe parece difícil acreditar que fora dali possa "ganhar dinheiro", como diz, meta igualmente inquestionável. A esposa, também do mundo corporativo, tornou-se mais uma competidora a martirizá-lo, pois seu sucesso não é sinal de segurança e conforto para o casal, mas, inversamente, de constrangimento e opressão, o que mostra o peso que o dinheiro tem em seu universo simbólico.

Inserir-se e destacar-se não é apenas uma meta ou projeto, mas sua condição de vida. É a máxima que rege seu mundo e da qual não vê como escapar, nem se distanciar, mesmo num espaço preservado para alguma escuta. Caio vive a condição estéril de sua existência: ao ser o fim ao qual se dedica, encerra em si os horizontes que o orientam. Se esta é uma prerrogativa da neurose, o mundo contemporâneo globalizado, em seu monetarismo funcional, colabora com o narcisismo de tais patologias e com a fragmentação social que elas representam. Sob a ilusão de que o mundo funcional é um todo coerente, conectado por todos os lados, cada sujeito vive o pesadelo intermitente da exclusão de seu universo de referência, como se fosse ele próprio, aliás, o responsável pela fissura da totalidade idealizada. Significantes privilegiados neste universo, como carreira e identidade profissional, portam igualmente esta imagem de completude e coerência, tornando-se fontes de opressão e angústia constantes, diante dos eventuais sinais de dissintonia (constatados ou fantasiados) que se anunciam para cada sujeito.

Caio, paradoxalmente, está mergulhado num universo do qual se vê excluído, de modo irremediável. Ao dedicar-se fiel e tenazmente à inserção nas rodas de conversas, bem como nos padrões de desempenho e conduta da organização na qual trabalha, não consegue dispor aquilo que somente o olhar estrangeiro lhe permite _ o distanciamento de sua realidade. É o que busca com a análise e que lhe é tão penoso: viver sua condição estrangeira, excluída, que se repete e se intensifica, de modo ensurdecedor, mas que é o caminho a partir do qual poderá vislumbrar que pertinência lhe é possível. Estrangeiro em sua própria família, reproduz sua exclusão no cenário profissional, na neurótica determinação de confirmar o lamento que cultiva e que o atormenta como sina.

A condição de desamparo, como diz Freud, acompanha o homem em sua existência e o mundo contemporâneo, em sua versão globalizada, virtual e midiática, instiga a fantasia de plenitude que segue viva, abafando aquilo que no sujeito e em sua realidade social não é harmônico e destoa das imagens de completude que em torno destes se produzem. Mas a dor do desamparo não tarda a retornar. A questão adolescente, para além da idade adolescente, é o trabalho psíquico que perdura, para cada sujeito, sobre sua condição estrangeira, errante, não integrada, quando não mais se dispõe de um braço de apoio para servir de anteparo. Assim como o infantil, a adolescência é o que perdura no adulto como busca de uma liberdade que não aquela da ausência de interdição ou da pretensa autodeterminação, mas a liberdade de dispor de sua condição estrangeira, a fim de buscar a autonomia que lhe cabe frente à herança recebida do legado parental e da cultura que o antecede; buscas sem conclusão, porém necessárias à realização da condição de sujeito que subsiste em cada indivíduo.

 

Referências

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Bourdieu, P. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Unesp, 2004.         [ Links ]

Freud, S. (1930). El malestar en la cultura. In: Obras completas. Trad. J. L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1993. V. 21.         [ Links ]

Hobsbawn, E. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.         [ Links ]

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Matheus, T.C. Ideais na adolescência: falta (d)e perspectivas na virada do século. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002.         [ Links ]

____ . Adolescência: história e política do conceito na psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.         [ Links ]

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Viñar, M. O reconhecimento do próximo. Notas para pensar o ódio ao estrangeiro. In: Koltai, C. (Org.) O estrangeiro. São Paulo: Escuta/Fapesp, 1998. p. 173-191.         [ Links ]

Zizek, S. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008.         [ Links ]

 

 

Endereço

Tiago Corbisier Matheus

Rua Fradique Coutinho, 1640/42
05416-002 São Paulo, SP, Br
Fone: (11) 3813-5923

Recebido/Received: 14.2.2010 / 2.14.2010
Aceito/Accepted
: 27.5.2010 / 5.27.2010
Conflito de interesses/Conflict of interest: O autor declara que não há conflito de interesses/The author declares that has no conflict of interest.

 

 

* Uma primeira versão deste trabalho foi apresentada no 1o Congresso Brasileiro de Psicologia e Adolescência, entre os dias 13 e 16 de outubro de 2010, em São Paulo.
Editor do artigo/Editor
: Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck
Copyright
: © 2009 Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental/University Association for Research in Fundamental Psychopathology. Este é um artigo de livre acesso, que permite uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o autor e a fonte sejam citados/This is an open-access article, which permits unrestricted use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original author and source are credited.
Financiamento/Funding: O autor declara não ter sido financiado ou apoiado/The author has no support or funding to report.
1 O que atualiza, na cena social, a dialética do desejo presente no estádio do espelho, descrita por Lacan (1985).
2 O capitalismo depende, por um lado, da democracia e da igualdade formais, mas, por outro, é a contradição de forças que o move (Zizek, 2008, p. 78 e 353).
3 Ver, por exemplo, a descrição de E. Hobsbawm sobre o aumento da desigualdade social e o desemprego estrutural que eclodiu na segunda metade do século XX, tanto nos países desenvolvidos quanto no Terceiro Mundo, como efeito inevitável do desenvolvimento capitalista (1995, p. 262 e 403).
4 Os fragmentos não são mais fictícios do que a realidade: dados foram modificados a fim de preservar o sigilo do caso.
5 Capital simbólico definido como "atos de conhecimento e reconhecimento" (2004, p. 26).