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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.15 no.1 São Paulo mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142012000100014 

ARTIGO

 

Trajetória de um psicanalista

 

 

Caterina Koltai

Socióloga; psicanalista e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo _ PUC-SP (São Paulo, SP, Br.); autora de O estrangeiro. Política e psicanálise (São Paulo: Escuta), E-mail: caty@osite.com.br

 

Endereço para correspondência

 

 

Elza Marques Lisboa de Freitas, Saul Fuks e Miguel Calmon du Pin e Almeida, três grandes amigos de Wilson de Lyra Chebabi, falecido em 2008, nos presenteiam aqui com esse livro que organizaram a partir de escritos, em grande parte inéditos, de Chebabi e que eles consideraram como sendo os que melhor expressavam o percurso do autor.

Dividido em três partes, cada uma delas se abre sobre um pequeno texto de apresentação escrito por um deles. A primeira parte, a maior, é introduzida por Fuks com um belo depoimento intitulado "Amigo de Infância", onde Chebabi nos aparece como o amigo certo das horas incertas, aquele amigo de infância, não por termos brincado com ele quando crianças, mas por ser aquele com o qual dividimos um mesmo clima, respiramos uma mesma atmosfera, e com o qual foi possível partilhar ilusões e desilusões, viver itinerários semelhantes e partilhar das mesmas dores. Nos textos reunidos nessa parte e que datam basicamente dos anos em que Chebabi se dedicou ao Centro de Estudo de Antropologia Clínica, de grande importância para ele e para o pensamento analítico da época, podemos acompanhá-lo em seu diálogo com a filosofia, antropologia, mas sempre do lugar daquele que ali está para acolher o sofrimento do outro, pois como ele próprio afirma "sem assumir essa disposição ao sofrimento, não é possível se engajar no verdadeiro encontro clínico".

A segunda parte que se abre sobre um comovente retrato de Chebabi traçado por Elza Marques Lisboa de Freitas e uma introdução de Miguel Calmon du Pin e Almeida, nos permite acompanhar por meio dos quatro artigos que a compõem sua visão da clínica e ética psicanalítica. Podemos, inclusive, no texto intitulado "Psicanálise, tecnologia e humanismo" acompanhar seus questionamentos clínicos suscitados por um caso, no qual ele expõe e se expõe no que diz respeito a sua clínica.

No retrato de Chebabi traçado por Elza, podemos ver o quanto ele se dedicou àqueles que o escolheram como analista, o quanto investiu em sua formação para poder ocupar e exercer esse ofício, o quanto leu, estudou e se analisou para tanto. E como nos relata Elza: "Pela e para a clínica, deitou-se tanto nos divãs de suas análises pessoais que ficou com uma marca, uma falha nos cabelos, ali onde apoiava a cabeça ao se deitar [...] esse registro no real do corpo foi como uma marca de coerência e compromisso frente à psicanálise".

Na terceira parte do livro, introduzida por Nádia Maria Sério e Fábio Lacombe, podemos acompanhar o posicionamento político de Chebabi tanto na pólis quanto nas associações psicanalíticas, visto que para ele não existia dissociação entre o psíquico e o político, sua atitude tendo sido a mesma nos dois casos. É, assim, que ao mesmo tempo em que se opunha à ditadura militar e lutava pela redemocratização do país, lutava concomitantemente para a democratização das instituições psicanalíticas. Entre as brigas que comprou institucionalmente merecem destaque sua militância em prol da análise leiga, contra a análise didática, a ponto de ter se recusado a se tornar um analista didata; quanto às posições que assumiu no affaire Amilcar Lobo, esse candidato postulante ao título de analista da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, filiada à IPA, que ao mesmo tempo em que fazia sua formação analítica, pertencia a um serviço das forças de repressão da ditadura brasileira, onde uma de suas tarefas era a tortura.

Nesse livro, difícil de resenhar, os retratos de Chebabi feitos por seus amigos me pareceram tão importantes quanto seus textos, uma vez que pela fala daqueles que conviveram com ele, surge uma pessoa que soube fazer e conservar amigos, soube dar valor à ética da amizade. E se chamo a atenção para isso, é porque a amizade, ainda que não seja, como bem lembrou Monique Schneider (2007), um tema que se ofereça de imediato à elaboração analítica, nem por isso ela deixou de ocupar um lugar fundador no nascimento dessa disciplina, a ponto de podermos afirmar que foi sua terra natal. E a amizade percorre, a meu ver, todo esse livro, pois ao lê-lo me senti acometida pelo mesmo clima que senti ao ler um número especial sobre a amizade do Libres Cahiers pour l'Analyse, também escrito em homenagem a uma amiga que os deixara e no qual as editoras puderam dizer que a perda da amiga os fez se juntar e escrever sobre esse sentimento forte que une seres engajados num trabalho de pensamento próximo, ainda que não necessariamente similar e que, em várias ocasiões, foi capaz de abrir um espaço psíquico do qual pôde nascer um pensamento, uma obra, ao mesmo tempo em que desempenhou um papel importante em suas vidas.

 

 

Endereço

Caterina Koltai

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