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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.15 no.1 São Paulo mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-47142012000100015 

MOVIMENTOS LITERÁRIOS

 

Fumar ou não fumar, eis... Zeno 

 

 

Fabiano Massarro Salvador

Psicólogo Clínico na Estância Morro Grande Clínica de Reabilitação Social (Ibiúna, SP, Br), E-mail: massarro@ig.com.br

 

Endereço para correspondência

 

 

O que nos for proibido É o que desejaremos. Geoffrey Chaucer, História da esposa de Bath.

É sempre bom desconfiar de textos iniciando com perguntas ao leitor. Pois este tem início não com uma, mas duas: por que as proibições impostas pela moral, pela ética, pela sociedade não são levadas a cabo em sua totalidade? O que haveria na proibição de tão tentador? Geoffrey Chaucer, o escritor inglês do medievo, contempla a resposta a essas questões e não foram poucos os autores que se debruçaram acerca da busca do prazer ou alívio de uma dor talvez primordial, em outras palavras de um homem atormentado por angústias e desejos.

Não é preciso ir muito longe para lembrarmo-nos das máximas de Charles Baudelaire, Oscar Wilde, autores que, como poucos, souberam expressar o caráter muitas vezes malévolo, puritano e frívolo da sociedade onde cada qual vivia.

A metapsicologia freudiana revelou, com bastante clareza, a natureza dualista das pulsões, o caráter insaciável em relação aos prazeres e a busca pelo apaziguamento de tensões somáticas desprazerosas.

As ideias destes autores sempre estiveram em consonância ou com o progresso do ethos no qual estavam inseridos ou com o declínio deste. O progresso traz em si uma série de objetos impossíveis de serem apreendidos em sua totalidade. Possivelmente tal característica suscite nos indivíduos, estranhos estados d'alma bem como patologias oriundas justamente de uma sociedade em franca ascensão no que tange a novos aparatos tecnológicos, mas em contrapartida em declínio naquilo que talvez os franceses iluministas do século XVIII tenham deixado como legado mais importante para a civilização ocidental: a liberdade.

A liberdade é um conceito ou até mesmo uma aphoria, dependendo de seu emprego e aplicabilidade como ideia pelos homens. Junto com a liberdade parece estar sempre a proibição, à espreita de um deslize. Observar, educar, cuidar, vigiar, coibir, punir. Estas palavras constituem a paidéia vigente, sobretudo impulsionada e difundida pela mídia. Afora as questões de controle, entra em cena uma espécie de higienismo. Não se trata aqui do higienismo praticado pelos colaboradores e ideólogos do Partido Nacional Socialista Alemão da Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um mais sutil, revestido de normalidade e também de saúde, mas que, no fim das contas, se revela controle. Tanto a filosofia quanto a psicanálise são responsáveis por isso denominado civilização em contraste com a barbárie. Tomemos um exemplo bastante atual: O tabaco.

Este produto tão antigo, inserido das mais variadas formas, praticamente no mundo todo, tem levantado uma séria questão envolvendo a liberdade. Atualmente está sendo empreendida uma verdadeira cruzada contra este pífio e fascinante objeto. Quando digo fascinante, digo-o na qualidade de não fumante, mas também por ver todos os dias homens e mulheres dando tragadas que proporcionam grande prazer.

Os malefícios do tabagismo são incontáveis, sabemos bem. Mas, não será na proibição que irá crepitar, inflamar-se o desejo? Freud dizia com propriedade: onde há proibição há desejo. Às voltas com tais perguntas e pensamentos, um livro interessantíssimo pôde ser lembrado.

Ele trata da história de um homem e sua luta (por vezes ridícula e certamente engraçada) para largar seu adorado cigarro. Zeno é seu nome, principal personagem do romance A consciência de Zeno (1923) do escritor italiano nascido em Trieste, Italo Svevo (pseudônimo de Ettore Schmitz). Tanto um quanto outro são interessantíssimos para a compreensão de uma época e sobre a disseminação das ideias psicanalíticas no universo austro-germânico. É bom lembrar: Italo Svevo foi o responsável pela tradução das obras de Freud para a língua italiana.

Mesmo assim as críticas à psicanálise não passaram incólumes por Svevo quando, em sua obra, constrói personagem bastante conflitante em relação ao desejo de parar de fumar, e, para isso, se submete ao tratamento analítico por três meses.

Em certa passagem de A consciência, o personagem relata recomendação do doutor que o trata: escrever sobre sua infância, sonhos e eventos remotos. Para tanto Svevo mune-se de um compêndio de psicanálise, de pronto começa a ler e relata essa experiência: "Li-o no intuito de facilitar-me a tarefa. Não o achei difícil de entender, embora bastante enfadonho". Que compêndio será esse?

Em suas incursões no mundo das abstrações e pensamentos acerca da infância, Zeno recorda-se do berço no qual dormia, dos seios de sua mãe, do respeito pelo pai; um caleidoscópio de imagens o invade, sente-se esgotado ao meditar sobre estes objetos, tanto que sua consciência literalmente o derruba, ou seja, sempre é vencido pelo sono. Zeno, extra consultório médico, empreende verdadeiros cruzeiros em sua imaginação, faz a seu modo uma autoanálise, revelando-se perturbadora.

A prosa de Italo Svevo, por vezes filosófica, profunda, é também zombeteira ao narrar as desventuras de Zeno durante o tratamento analítico e, sobretudo, consigo mesmo.

Outra sugestão médica era a de que Zeno escrevesse suas impressões em relação a sua predisposição a fumar, analisando as circunstâncias, motivações internas, onde o desejo de fumar ficasse mais evidente. Seu estranhamento é o de recordar o cigarro fumado em sua adolescência. É claro: ele já não existe. Era comprado na Áustria e tinha em sua caixa o logotipo da águia bicéfala. Não lembrava exatamente quando isso se deu, mas lembrava da águia e da pequena caixinha de papelão.

O signo da dualidade do Império Austro-húngaro, não se limitava à esfera das políticas públicas e privadas, na arte e na ciência, mas respingava até mesmo nos objetos de consumo cotidiano dos cidadãos do Império.

O interessante na obra de Svevo é perceber como uma obra literária consegue descrever um personagem em busca pela compreensão de seus desejos e de como estes, no decurso da trama, se metamorfoseiam em outros por meio de sublimações por vezes bem-sucedidas.

Outro, porém, é o ponto de vista de Serge Moscovici em seu livro A máquina de fazer deuses. Comentando o livro de Svevo, ele escreve o seguinte: "A vida social, assim como a vida, simplesmente parece um pouco com a doença: ela também atua através de crises e depressões".

Zeno queixa-se de que antes de ter se submetido ao tratamento analítico era mais feliz, pois apesar de seu médico ter-lhe dito que estava curado sente-se pior do que antes. Atribuía aos encontros psicanalíticos "emoções interessantes" não mais do que isso, uma vez que tal doença segundo ele suscitada pela psicanálise o inscrevia numa categoria de doentes nobres com raízes remontando a tempos mitológicos.

As crises de Zeno, relatadas no romance de Svevo, são em sua maioria crises de consciência, crises de um eu alvejado constantemente por imperativos superegoicos e por desejos incessantes. Zeno, na ânsia de se ver livre de uma consciência hipervigilante recorre a artifícios à sua disposição, sejam eles prazeres substitutivos, pensamentos mágicos, repetições, estados de ausência, atos falhos, falas e risos chistosos, ou seja, uma plêiade de sintomas psicopatológicos. E Zeno, parou de fumar? Curou-se? A psicanálise teve sua eficácia?

As respostas a tais perguntas estão presentes nos sonhos, condensados e deslocados na obra de Italo Svevo.

São muitas as obras onde é possível esmiuçar um personagem, sobretudo os que figuram nos grandes clássicos. O diferencial desta obra, assim como sua riqueza, é o de mostrar, com muita elegância e estilo, uma narrativa não só acerca da psicanálise e sua tentativa em ganhar seu solo, mas também, como o homem, seja ele um burguês per se como Zeno ou qualquer outro, é fruto de uma sociedade onde reinam a incerteza, solidão e um certo niilismo.

Apropriar-se de A consciência de Zeno é ter experiência única, onde estão os elementos para entendermos um pouco como a psicanálise surgiu, seus pacientes, resistências e métodos nada ortodoxos.

Zeno como cidadão de Trieste (norte da Itália, fronteira com a Áustria) sofre as agruras de um mundo dividido entre as animosidades em relação ao velho e o entusiasmo com o novo mundo, começando a se delinear.

Será neste ambiente inquietante que muitos, como Italo Svevo, deixarão sua marca calcada na melhor tradição das belles lettres e também na influência do complexo e estimulante pensamento germânico da época.

 

 

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Fabiano Massarro Salvador

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