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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.17 no.3 supl.1 São Paulo set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2014v17n3-Suppl.p593.2 

Artigos

O discurso perverso*1

Le discours pervers

Le discours pervers

El discurso perverso

Der perverse Diskurs

Edilene Freire de Queiroz *2  

*2Universidade Católica de Pernambuco - Unicap (Recife, PE, Br)

RESUMO

É consenso que o laço social, hoje, se organiza em uma montagem perversa. Não temos mais um mestre que governe as ações, as organizações familiares não se organizam em torno do poder paterno, vivemos um tempo da feminilização da cultura e numa lógica capitalista. O discurso capitalista não exige a renúncia pulsional, ao contrário, ele instiga o usufruto do gozo e o outro é reduzido a objeto. Isso determinou uma mudança na economia pulsional, na forma de cada um lidar com a realidade externa, que passou a ser mutante, e na fenomenologia discursiva. O gozo na linguagem está em mostrar com a palavra, em produzir um discurso imagético.

Palavras-Chave: Discurso; perversão; economia pulsional; capitalismo; gozo

ABSTRACT

There is consensus on the opinion that social bonds today are organized in a perverse way. We no longer have a master who governs our actions, and family organizations are not organized around the father's power. We live in times of feminization of culture and in a capitalist logic. The capitalist discourse demands no renunciation of drives. On the contrary, it calls for satisfaction of pleasure as the other is reduced to an object. This has led to a change in the economy of the drives and in the way each one deals with external reality, which has become changeable, and in the phenomenology of discourse. The jouissance of language is in showing with words and in producing imagery of discourse.

Key words: Speech; perversion; drive economy; capitalism; jouissance

ABSTRACT

Le lien social, à nos jours, s'organise selon un montage pervers. Nous n'avons plus de maître qui gouverne nos actions, les rapports familiaux ne s'organisent plus autour du pouvoir paternel, on vit la féminisation de la culture selon la logique capitaliste. Le discours capitaliste n'exige pas le renoncement pulsionnel, au contraire, il incite la jouissance et l'autre est réduit à son objet. Cela a provoqué des changements dans l'économie pulsionnelle, dans la perception individuelle de la réalité extérieure, dorénavant mutante, ainsi que dans la phénoménologie discursive. La jouissance dans le langage se produit précisément dans l'acte de montrer par la parole, en produisant un discours imagé.

Key words: Discours; perversion; économie pulsionnelle; capitalisme; juissance

RESUMEN

Es consenso es que el lazo social hoy se organiza en un montaje perverso. Ya no tenemos un maestro que rige los actos, las organizaciones familiares no son organizados en torno al poder paterno, son tiempos de la feminización de la cultura y de la lógica capitalista. El discurso capitalista no requiere la renuncia a los instintos, por el contrario, fomenta el disfrute del goce y reduce el otro a objeto. Esto llevó a un cambio en la economía pulsional, en el trato de cada uno con la realidad externa, que se convirtió en mutante, y en la fenomenología discursiva. El goce del lenguaje es mostrar con la palabra y producir un discurso en imagen.

Palabras-clave: Discurso; perversión; economía instintiva; capitalismo; goce

ABSTRACT

Es ist allgemeiner Konsens, dass die soziale Bindung heute durch einen perversen Organisationsprozess erzielt wird. Es gibt keinen Meister mehr, der die Handlungen regiert; die Familieneinrichtungen drehen sich nicht mehr um paternalistische Bestimmungen. Wir leben in einer Zeit der kulturellen Verweiblichung und der kapitalistischen Logik. Der kapitalistische Diskurs fordert nicht den Triebverzicht, ganz im Gegenteil, er regt zum Genießen und zur Reduzierung des Anderen zum Objekt an. Dies hat eine Wandlung der triebhaften Wirtschaft, der diskursiven Phänomenologie und in der Art und Weise wie jeder mit der sich nun mutierenden äußeren Realität umgeht bewirkt. Im Bereich der Sprache bezieht sich Genuss auf die Tatsache, etwas durch das Wort zu zeigen, einen bildhaften Diskurs zu produzieren.

Key words: Diskurs; Perversion; triebhafte Wirtschaft; Kapitalismus; Genuss

É consenso que o laço social, hoje, se organiza em uma montagem perversa. A literatura psicanalítica tem apontado pelo menos quatro razões que, a meu ver, se recobrem.

  • 1) Não temos mais um mestre, um senhor que governe e norteie nossas ações. "O senhor não é apenas aquele que é o mais forte" (Lacan, 1969-1970/1992, p. 144). Ele faz surgir um significante mestre que ordena toda a cadeia discursiva, origem de todo o saber: saber de si, saber fazer. A evolução deste discurso gerou o discurso filosófico subtraído do saber do escravo e, por um desvio, ele se transformou no discurso capitalista no qual o senhor passa ser o capitalista.

  • 2) Porque não temos mais um senhor as relações familiares não se organizam em torno do poder paterno; estamos em tempos de falência paterna e prevalência do regime materno. As relações se dão no plano horizontal, nivelando as hierarquias que vigiam nas sociedades patriarcais.

  • 3) Estamos vivendo uma feminilização da cultura. Se a mulher é não toda submetida à castração, a feminilização da cultura significou certo afrouxamento dos interditos. Ela conduz ao mais-de-gozar, um gozo real mais-além-do-fálico, mais-além-do-dizer. O gozo fálico, correlativo da falta-a-gozar, imposta pela castração, é universal, porém o gozo mais-além-do-gozo-fálico não está regulado pelo significante e sim pela dimensão sensitiva, do experimentar.

  • 4) Na lógica capitalista todos estão a seu serviço. Há, por conseguinte, certo apagamento do sujeito desejante. Na versão mais atual desse discurso - o discurso dos mercados -, o sujeito é excluído; são os pequenos objetos que agenciam as ações. Fica-se submetido ao imperativo do mercado.

Alguns pensadores perguntam sobre o que foi feito da condição humana em um mundo em que se reverencia a mercadoria e o consumo. Hanna Arendt (2001), por exemplo, já indicava que nós não seríamos capazes de compreender e exprimir as coisas que, no entanto, seríamos capazes de fazer. Segundo ela "tudo se passaria como se nosso cérebro, que constitui a condição material, física, de nossos pensamentos, não pudesse mais acompanhar o que fazemos (...)" (p. 138). O savoir-faire (saber fazer) do escravo, na dialética do senhor e do escravo, perde-se quando o mestre é o capital. Este saber não conta mais, pois o que conta é o discurso da ciência que, segundo Lacan (1969-1970/1992), copula com o discurso capitalista. A ciência governa os pequenos objetos (latusas) proliferados e disponibilizados pelo capitalista para causar o desejo. Associados, eles produzem uma espiral incessante de artefatos para consumo que assujeitam os indivíduos ao gozo. O discurso da ciência não deixa para o homem, lugar nenhum (p. 138), pois o saber científico ocupou o lugar da verdade. O proletário como o consumidor são explorados e convocados a agir e não a pensar.

Ora, quando a ação prevalece em detrimento do entendimento e do simbólico, o atributo toma o lugar da existência e a defesa possível é a perversa, na qual afirmar ou negar um atributo particular é circunstancial.

Aprendemos com Freud (1930-1929/1985) que o laço do homem com outros homens causa sofrimento e mal-estar. Isso porque o processo civilizatório interfere na economia pulsional. No tempo de Freud, a civilização impunha renúncia à tendência pulsional de tratar o outro como um objeto; na contemporaneidade é a posição de sujeito que está comprometida. Portanto, não se trata de valorizar essa ou aquela configuração social, mas de entendê-la, sabendo que isso tem efeito nas formas de subjetivação.

Para Lacan (1973/2003) esse mal-estar é formulado em termos de discursos, pois os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem. Ao formular os quatro discursos - o do mestre, o da histérica, o do analista e o universitário -, ele indicou que todo laço social implica um enquadramento da pulsão, resultando em uma perda real de gozo. O saber faz limite ao gozo.

Por uma modificação no lugar do saber produz-se o discurso capitalista. Ele não exige a renúncia pulsional, ao contrário, ele instiga o usufruto do gozo e o outro é reduzido a objeto de gozo. Quando o saber ocupa o lugar de verdade universal ocorre uma exclusão da castração e um apagamento do singular e das diferenças, provocando um empuxo contínuo ao gozo sem limite. A tendência à universalização reduz todos os indivíduos a uma mesma categoria: todos têm o direito à satisfação imediata (sem barra) e a indenizações de supostos prejuízos (pela máquina da judicialização).

Isso determinou uma mudança na economia pulsional, na percepção da realidade externa e na fenomenologia discursiva. Três aspectos essenciais quando se trata de defesa perversa.

Mudança na economia pulsional

O mal-estar na modernidade é governado por esse discurso, no qual o capital é o mestre que governa as ações, fazendo os outros trabalharem a seu serviço, uma espécie de máquina de lucro e de gozo. Nesse contexto, a posição de sujeito desejante fica comprometida, pois ele passa a querer o que o capitalista quer que ele queira. Trata-se de um discurso objetalizado pelo capitalismo científico-tecnológico que tiraniza o saber e que também põe todos a seu serviço. Tal como as mercadorias, os saberes são substituídos continuamente. Na psiquiatria, por exemplo, não temos mais tipos clínicos clássicos. Ao substituir os quadros clínicos clássicos por transtornos optou-se pela descrição e pela comunicação dos fenômenos e não pelo seu entendimento. O médico não precisa entender o paciente, precisa identificar sintomas e prescrever medicamentos. O discurso atual da sociedade de consumo e o discurso da ciência convidam o sujeito a pensar que tudo pode. Animados pelo desejo de imortalidade, de dominar o universo, o homem descobre o código da vida - o código genético - e ao manipulá-lo crê que tudo pode ser mutável, basta conhecer o código. E assim, ele desmente toda a limitação de sua existência.

A vida psíquica dos sujeitos, nos tempos atuais, não conta com a força repressiva do outro que ajudava a manter recalcado o desejo onipotente de gozar plenamente, sem restrição. Em um mundo onde o "impossível" e o "contraditório" é sempre transitório; o trabalho de renúncia é dificultado, reinando a defesa perversa cuja característica é aceitar e recusar, dizer sim e não ao mesmo tempo.

Da mesma forma, a deslegitimação do pai, que fez ascender e realçar o regime materno, pôs em tensão esses dois regimes. Como articulá-los - o primeiro em falência e o outro em prevalência - senão pela via do desmentido?

Aliás, o desmentido - a Verleugnung -, é um mecanismo arcaico, próprio do sistema perceptivo no qual as associações se dão por simultaneidade, e defendo a tese de que ele está presente nas relações primitivas da mãe com o seu bebê. Ela desmente o que vê porque tende a interpretar os sinais do bebê conforme suas fantasias. O bebê, por sua vez, engendra-se no fantasma materno, tornando-se seu fetiche. Se não há um Outro que a interdite, perdurará o jogo dos engodos e enganos. Assim o primeiro modo de funcionamento relacional da criança se dá pelo desmentido e permanece nele como um perverso polimorfo.

O imperativo do discurso capitalista faz operar um gozo que não cessa de se inscrever com a promessa de que ele é alcançável pelo consumo de produtos ofertados e fetichizados pela propaganda. De certo modo, estimula que continuemos a funcionar nos moldes da criança perverso polimorfo, no mundo dos pequenos objetos. Nesse funcionamento a perversão é perfeitamente comum, pois o mecanismo da Verleugnung permite que a criança enfrente a descoberta da castração e a do limite ao materno, ou seja, viva a tensão dos dois regimes (materno e paterno). Dominada pelo narcisismo a criança recusa e desmente qualquer realidade que se oponha ao seu desejo onipotente, e assim ela não se deixa proibir. É preciso, então, a ação do terceiro para auxiliá-la na operação de renúncia ao gozo pleno pela via do recalque do desejo onipotente; se ele não vem não há renúncia ao gozo.

Se, como nos ensina Lacan (1953-1954/1979), "a perversão é (...) a exploração privilegiada de uma possibilidade existencial da natureza humana" (p. 249), é pertinente falar de discurso perverso, não só porque esta é a possibilidade que se apresenta hoje, mas também por ela ser causa de mal-estar, não pela repressão e renúncia pulsional e sim pelo seu excesso.

Ao refletirmos sobre os usos sociais da perversão, queremos dizer que o usufruto do gozo está autorizado e instigado pelo Outro. Estamos num modo de funcionamento perverso, num modo particular de relação com o gozo, partilhado pela humanidade e sustentado por um discurso científico e econômico nos quais não há limite para o saber, para o consumo, para o gozo. Mas, nos mantemos junto com o outro, diferente do que acontece com os perversos propriamente ditos (ou perversos de estrutura), onde ocorre uma negação radical da alteridade do outro. Valemo-nos sim da defesa perversa, porém ela não é prerrogativa exclusiva do perverso, tanto que Freud toma a Verleugnung como condição para clivagem do eu.

Mudança da realidade externa

A lógica capitalista de substituição contínua de um produto por outro gera excessos e uma realidade inconstante, mutável e instável. Regida pelo imperativo do sempre mais, ela está a nos mostrar o terreno das possibilidades, não o do limite.

A mudança de um estado de coisas para outro, sem que dele consigamos esboçar o real configurado em seu todo (Silva, 2008) se, por um lado, leva o homem a admitir que tudo é possível, por outro, leva-o a conjecturar que nada é verdadeiro. É o fim das certezas, dos "sims" e dos "nãos". A realidade é posta em suspeição permanente. Ela sofre uma espécie de desvalorização, justamente por ser efêmera e mutante; com isso, o homem tende a refugiar-se na imaginação (Muller, apud Silva, 2008), ou seja, a criar um mundo virtual. Tal como o pequeno perverso polimorfo - que vê o real da castração do corpo do outro, mas desmente, criando um phallus imaginário, criando um objeto fetiche -, o homem contemporâneo cindiu a realidade em dois mundos: o real e o virtual, que coexistem. A síndrome de Hikimori é uma prova contundente de que essa recusa da realidade pode levar o sujeito a refugiar-se na realidade virtual e quando ocorre uma cisão radical arrasta-o para a morte.

Logo, o que está posto em questão é a própria realidade externa. A Verleugnung, diz respeito, justamente, à recusa em aceitá-la, desmentindo-a. Trata-se de uma negativa na qual o sujeito recusa reconhecer a realidade de uma percepção. Há dois aspectos a considerar: o registro da percepção (traços perceptivos inscritos no sistema perceptivo) e sua negação (apelo a uma realidade ilusória); a coexistência dessas duas realidades, a real e a ilusória, só pode ser dissipada pela intervenção de um terceiro. Observa Lebrun (2008) que pelo fato desse mecanismo se referir à realidade é preciso a presença do outro que reprima a onipotência fálica. Quando, ao contrário, também esse outro funciona a reboque de uma realidade mutante, incerta, ele só faz autorizar e reforçar a via ilusória. Ambos se enredam na incerteza e na dificuldade em reconhecer a realidade, tornando-se cúmplices no desmentido. Esse cenário contemporâneo é terreno fértil para o prolongamento de uma defesa infantil que como tal é normal, mas ao prolongar-se cria "comunidades de renegações" (expressão de Lebrum, 2008), ou seja, o laço social comum é a perversão. Consoante Lacan (1953-1954/1979), a perversão

(...) não é simplesmente aberrância em relação a critérios sociais, anomalia contrária aos bons modos, embora esse registro não esteja ausente, ou atipia em relação a critérios naturais, a saber, que ela derroga mais ou menos à finalidade reprodutora da conjunção sexual. Ela é outra coisa em sua própria estrutura. (...) Com efeito, a perversão se situa no limite do registro do reconhecimento, e é o que a fixa, a estigmatiza como tal. Estruturalmente, a perversão tal como a delineei no plano imaginário, só pode se sustentar num estatuto precário que, a todo instante, do interior, é contestado pelo sujeito. Ela sempre é frágil, à mercê de uma inversão, de uma subversão, (...) (p. 249)

Por conseguinte, há uma incerteza fundamental na perversão, por isso o sujeito não consegue se estabelecer, satisfatoriamente, em nenhuma relação. Podemos dizer que a condição humana, hoje, é perversa, não porque cada um de nós esteja organizado numa estrutura perversa, mas sim porque a realidade é mutante, e a todo instante nos coloca num estatuto precário, sem garantias, nem certezas.

A ação de desmentir é sempre convocada quando a realidade é difícil de ser admitida, ou porque contraria o desejo, ou porque não é compreensível. Poder dizer "sim" e "não" sem contradição impede a produção do entendimento. Diferente da forclusão, que faz uma recusa definitiva da realidade, o desmentido faz uma clivagem no psiquismo; assim, de um lado, reconhece a realidade, de outro, não a reconhece. Isso significa que o significante fálico está instalado no sujeito, mas tudo se passa como se não se dispusesse dele, ou seja, o pai está lá, porém demitido de sua função de interditor (Xavier, 2011) ao contrário do que faz o neurótico.

Mudança na fenomenologia discursiva

Essa montagem perversa se reflete também na fenomenologia discursiva. Testemunhamos, na clínica, um discurso no qual a palavra se apresenta limitada na sua função de representar e simbolizar. Os discursos são mais imagéticos e denotativos; também há uma presença maciça de sintomas corporais como recursos para apresentar e mostrar, pouco para representar. Isso coloca uma questão para a clínica pautada por uma teoria que via no recalque o mecanismo estruturante do sujeito. Se sem recalque não há discurso - pois a linguagem requer uma barra entre o objeto e sua representação -, o discurso decorrente do laço social perverso coloca cada um mais perto das representações imagéticas, em uma relação mais de continuidade e similaridade do que de substituição com o objeto, justamente porque está falhada a operação metafórica.

Freud (1892-1899/1985) nos ensinou que, no caminho para a constituição de uma Vorstellungrepresentanz, está presente uma sequência de representações (Vorstellung) que vão compor o campo do psiquismo. Em um primeiro estágio, regido pelo processo primário, elas se caracterizam por representações de imagens - acústica, visual, cinestésica -, elementos que já entram na formação do significante, mas que ainda não configuram uma representação de palavra. Quando intervém a Verdrängung, desencadeia o processo de representação por substituição, por delegação ou procuração; a Vorstellung passa a ser regida pelo processo secundário e se configura em pensamento. Na justaposição das palavras de um discurso, estanca-se a palavra seguinte até que a imagem acústica ou a representação verbal e motora da palavra precedente seja encontrada. Esse movimento de progressão e regressão controla a cadeia associativa, evitando um deslizamento sem fim. Entretanto, a montagem do discurso perverso revela alterações na articulação dos elementos acima citados, acusando o aparecimento de significantes que mais denotam do que conotam, mais apresentam do que representam. Pode-se dizer que ele veicula o primeiro significado derivado do relacionamento entre o signo e seu objeto. O resultado é um discurso subordinado aos fatos e às circunstâncias.

A manutenção da imagem acústica no polo sensorial da consciência torna-se indispensável à livre circulação da energia libidinal no seio do aparelho psíquico e à organização de um sistema articulado de representações: só ela se apresenta apta a religar as representações de palavra às representações de coisa. Quando a função simbólica que comanda todo esse processo de transcrição se encontra falhada, a imagem acústica deixa de exercer seu papel de mediação, produzindo uma ruptura nas ligações de representações e a imagem visual torna-se prevalente. Na figuração imaginária, a representação torna-se mais dependente de uma colocação em imagem, tendendo a reproduzir a percepção.

O perverso dá a ver quando deveria dá a entender. Não fazendo o perverso o luto da castração, ele não produz um entendimento sobre ela, pois não faz o julgamento da existência da falta,1 logo o atributo toma o lugar da existência. O imaginário se encarrega de tomar o poder, reaviva, pela presença de um objeto imaginário - o objeto fetiche -, o atributo universal do pênis, e não a existência do phallus (significante da falta). Isso se manifesta no discurso, sob a forma de "palavra mostração". Major (1972) comenta que o discurso passa a ser eco dos objetos fetiches e, por conseguinte, se desenrola por meio de "frases fetiches" (Lacan, 1964/1979, p. 564)

Considerações finais

Finalizando, a palavra adquire, então, valor de mostração; ela revela a primeira operação do signo que é a de notação ou denotação. A predominância do olhar e da imagem visual faz par com a focalização (fixação) do objeto parcial renegado e se constitui como defesa contra a possibilidade do vazio da castração.

É certo que há gozo na linguagem, mas no caso do perverso o gozo está justamente em mostrar com a palavra. O discurso é o espelho das ações, o resultado é um discurso imagético, cujo propósito é ver e mostrar por meio das palavras. As palavras, no discurso perverso, têm menos função de representação e mais de "mostração", de apresentação. Os sujeitos encenam pelas palavras, que deslizam metonimicamente sem barras, assim como os objetos de gozo e os gadgets. Não há ponto de ancoragem em uma significação, a linguagem parece ser meramente denotativa.

Cremos que os três aspectos aqui abordados: a mudança na economia pulsional, a mudança na percepção da realidade externa e a mudança na fenomenologia discursiva, não só configuram o cenário contemporâneo, como justificam a montagem perversa. Os usos sociais da perversão se apresentaram neste Colóquio em diferentes contextos (clínicos, sociais e culturais) e penso que, de forma direta ou indireta, cada intervenção tratou de um ou mais desses aspectos aqui refletido e continuará tratando quando nos reunirmos novamente em maio do próximo ano, em Angers, para a realização da segunda parte deste Colóquio.

Muito obrigada.

REFERÊNCIAS

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Citação/Citation: Queiroz, E. F. de (2014, setembro). O discurso perverso. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 17(3-Suppl.), 593-603.

Editor do artigo/Editor: Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck

*1 Trabalho apresentado no Colóquio Internacional sobre Metapsicologia da Perversão. Usos Sociais da Perversão, realizado no período de 26 a 28 de agosto de 2013, na Universidade Católica da Pernambuco, em parceria com a Université Catholique de l'Ouest, Angers, França.

1 A ausência do juízo de atribuição, segundo Lacan (1964/1979, p. 564), é provocada por uma outra negativa, a Verwerfung que ele traduziu por forclusão.

2 Ibid, p. 114.

Financiamento/Funding: A autora declara não ter sido financiada ou apoiada / The author has no support or funding to report.

Recebido: 15 de Março de 2014; Aceito: 10 de Maio de 2014

Conflito de interesses/Conflict of interest: A autora declara que não há conflito de interesses / The author has no conflict of interest to declare.

Edilene Freire de Queiroz Psicanalista; Doutora em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP (São Paulo, SP, Br); Pós-doutora pelo Laboratoire de Psychopathologie Clinique, Université de Aix-Marseille I (Aix Marseille, Fr); Professora Titular e membro do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da Universidade Católica de Pernambuco - Unicap (Recife, PE, Br); Coordenadora do Laboratório de Psicopathologia Fundamental e Psicanálise e Coordenadora Geral de Pesquisa da Unicap; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (São Paulo, SP, Br); Membro do Grupo de Pesquisa do CNPq: Psicologia Clínica/Unicap; Pesquisadora P-2 do CNPq (Brasília, DF, Br).. Praça de Casa Forte, 354/1402 - Casa Forte 52061-420 Recife, PE, Br e-mails: equeiroz@unicap.br e edilenefreiredequeiroz@gmail.com

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