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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.17 no.3 supl.1 São Paulo set. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2014v17n3-Suppl.p775.17 

Artigos

Da prática (privada) da perversão*1

The (private) practice of perversion

De l'usage (privé) de la perversion

Sobre la práctica (privada) de la perversión

Das (eigene) perverse Handeln

Mathilde Saïet *2  

*2Université Catholique de l'Ouest - UCO (Angers, France)

RESUMO

Elas têm vinte, trinta, quarenta ou setenta anos, e possuem a particularidade de terem conservado um objeto transicional, um "doudou", pequeno pedaço de tecido ou pelúcia surrada remontando à primeira infância, que lhes proporcionam uma sensação "única", convocando um sentimento de quietude e de alegria, dos quais elas não podem - nem querem - se abster. Essa persistência do "objeto transicional" abre uma dupla interrogação sobre, de um lado, a natureza e o estatuto desse objeto e, de outro lado, a existência de um fetichismo específico, próprio ao sexo feminino, convocando, desse modo, um erotismo singular.

Palavras-Chave: Objeto transicional; fetiche; feminilidade; perversão

ABSTRACT

They are 20, 30, 40 or even 70 year-old women and they all have the distinctive feature of having held on to a transitional object, such as a blanket, some piece of cloth or a worn-out cuddly toy that dates back to their early childhood. This object provides them with a "unique" sensation that gives them peace of mind and bliss they cannot - and even do not want to - do without. Keeping this "transitional object" raises a dual question as to the nature and status of the object on the one hand and, on the other, the existence of a fetishism typical of women, therefore associated with a specific erotic dimension.

Key words: Transitional object; fetishism; femininity; perversion

Key words: Transitionelles Objekt; Fetisch; Weiblichkeit; Perversion

ABSTRACT

Elles ont 20, 30, 40 ou 70 ans, et ont la particularité d'avoir conservé un objet transitionnel, un "doudou", petit bout de tissu ou de peluche élimé remontant à la petite enfance, qui leur procure une sensation "unique", convoquant un sentiment de quiétude et de béatitude, dont elles ne peuvent - ni ne veulent - se passer. Cette persistance de "l'objet transitionnel" ouvre une double interrogation sur, d'une part, la nature et le statut de cet objet et, d'autre part, sur l'existence d'un fétichisme spécifique, propre au sexe féminin, et convoquant, de ce fait, une érotique singulière.

Key words: Objet transitionnel; fétiche; féminité; perversion

RESUMEN

Ellas tienen veinte, treinta, cuarenta o setenta años y tienen todas una misma particularidad: han conservado un objeto transicional, un muñeco, un trapo, un peluche muy usado que remonta a su niñez y que les da una sensación "única", un sentimiento de beatitud y alegría al que no pueden - o no quieren - renunciar. Tal persistencia del "objeto transicional" plantea un doble interrogante: el de la naturaleza y estatus de ese objeto y el de la existencia de un fetichismo específico, propio del sexo femenino, con su erótica singular.

Palabras-clave: Objeto transicional; fetiche; feminidad; perversión

ABSTRACT

Sie sind 20, 30, 40 oder auch 70 Jahre alt und weisen die besondere Eigenart auf, einen transitionellen Gegenstand, ein Kuscheltier, ein Stückchen Stoff oder ein ausrangiertes Plüschtier aufbewahrt zu haben, das an die frühe Kindheit erinnert und ihnen ein "unvergleichliches" Gefühl von Ruhe und Seligkeit gibt. Ein Gegenstand, von dem sie sich nicht lösen können und es auch nicht wollen. Dieses Beibehalten des "transitionellen Gegenstandes" wirft eine doppelte Frage auf: einerseits nach der Art und dem Status dieses Objektes und, andererseits, nach der Existenz eines spezifischen, den Frauen eigenen Fetischismus, was wiederum eine eigentümliche Erotik auf den Plan ruft.

Key words: Transitional object; fetishism; femininity; perversion

Key words: Transitionelles Objekt; Fetisch; Weiblichkeit; Perversion

O amor do pervertido é uma peça de teatro na qual um simples figurante avança em direção à cena e toma o lugar do primeiro personagem. (Binet, 1887 , p. 127)

Queria evocar neste texto uma singular prática da perversão. Singular no sentido de estranha, insólita, mas também pessoal, individual e íntima. Esta prática, bastante generalizada mas passando geralmente despercebida, concerne uma pequena comunidade, tão confidencial que feminina, que possui a particularidade de ter conservado o que chamamos em francês de "doudou", ou seja um "objeto transicional" cuja presença é essencial para adormecer-se.1 Seguindo as modalidades de um pequeno cerimonial, a cena é organizada como um ritual: todas as noites, a mulher do doudou pega o que geralmente não é mais do que um pedaço de tecido informe, acaricia, toca, roça, cheira, fá-lo deslizar nos seus dedos, na sua barriga e, especialmente, entre a boca e o nariz. Os sentidos solicitados, muitas vezes associados a uma atividade de sugação da língua, procuram "uma sensação de doçura absoluta", "um apaziguamento único", "indescritível". A sensualidade do contato do pano informe e mole com a pele isola a mulher do resto do mundo, provocando uma sensação inexprimível, "única", inacessível de outra forma, de "bem-estar absoluto", uma aquietação imediata que favorece o sono e, obviamente, um prazer autoerótico gerado pelo contato e o cheiro que emana do pedaço de tecido. Fonte de uma satisfação à qual estas mulheres não têm a menor intenção de renunciar, o doudou não é somente uma relíquia, ele é um objeto realmente utilizado. Aparentemente, sua existência não constitui nenhum problema nem na vida delas, nem na dos seus parceiros. Ao contrário, todas tecem elogios ao doudou, felicitando-se por tê-lo, indo às vezes até aconselhá-lo aos seus amigos para aliviar os problemas de insônia!

Modo de gozo privado, espécie de pequeno remédio "achado-criado", forma de "miragem" sensorial, o fenômeno, embora não dissimulado, é pouco conhecido. Portanto, basta interessar-se pelo assunto para descobrir que muitas mulheres têm conservado as suas "primeiras possessões". Estranhamente, quando interrogada sobre o assunto, a mulher do doudou fica até surpresa com as perguntas, como se ela tomasse de repente consciência da sua existência e não entendesse este súbito interesse por um gesto cotidiano, mecânico.

Que seja considerado como uma pequena "anomalia" cotidiana ou uma loucura leve, a conservação do doudou na vida adulta suscita várias interrogações. Qual é o estatuto deste objeto habitualmente transitório, que se tornou imutável, inalterável? E por que, enquanto a prática da primeira possessão é comum aos dois sexos, somente as mulheres continuam a usá-la na vida adulta? O doudou revela-se de fato uma "história de mulheres"; atributo feminino, será que este simples pedaço de pano talvez contenha insidiosamente a fórmula de uma especifidade feminina?

Um objeto fetiche?

Devemos ver no doudou um antigo objeto transicional, "reconvertido" através de uma mutação de valores? Será que o doudou pode ser considerado um objeto revelando uma disposição perversa? À primeira vista, o doudou não tem nada a ver com a perversão, sendo esta geralmente ligada a uma atitude de dominação, de manipulação ou de desumanização. "Consciente de ter escolhido o mal" (Aulagnier, 1967, p. 15), o perverso procura atingir a falha, a aflição do outro, sua divisão. Para resumir, a perversão "sempre é uma história em que alguém machuca alguém" (Stoller, 1975, p. 76), incluída no fetichismo, embora neste a relação de ódio seja mais difícíl de identificar: "os fetichistas não esfaqueiam, não mordem, não envenenam, não sufocam, não esmagam nem destroem. Contudo, escondidos nesses símbolos há cenários onde figuram atos hostis. O fato de os fetichistas não fazerem mal a ninguém não quer dizer que o seu comportamento não esconde, entre outros, a dinâmica da hostilidade" (p. 90). Esta hostilidade se manifesta em particular por meio do fetiche, um objeto que é sempre atacado, sujado, rasgado ou lacerado, ou seja, o suporte de fantasmas sádicos à temática oral e anal.2

Embora as manifestações de destrutividade não sejam totalmente ausentes do comportamento da mulher do doudou, pois o objeto é deteriorado pelas manipulações e pelo atrito das mãos, "atacado" pela saliva e, às vezes, pela urina (Na maior parte dos casos, o doudou nunca foi lavado), a relação de um "vínculo de ódio" (Stoller, 1975, p. 77) ao outro não parece neste caso se manifestar: não há nem os desafios e as outragens (Aulagnier, 1967), próprios à perversão, nem as tentativas de desumanização. Com o doudou, a alteridade desvanece dando lugar ao isolamento narcísico, uma relação única "entre si e si", um refúgio sensorial e autoerótico. Isso é a perversão mínima, descrita na polimorfia infantil, ou então é uma perversão radical tendo como único alvo, a apologia de Narcisso?

Inúmeros autores têm notado que o fetichista opera uma total elisão do outro, o ódio manifestando-se com uma desvitalização ou uma indiferença absoluta - o amor dirigido exclusivamente a uma botina sublinha perfeitamente a ausência de conteúdo -, com a criação de uma mulher em negativo. De certa forma, "não existe ninguém no mundo mais infeliz do que um fetichista que deseja uma botina e tem que satisfazer-se com uma mulher inteira" (Krauss, citado por Szasz, 1985, p. 13). A distinção entre "pequeno" e "grande" fetichismo, definida por Binet e implicitamente adotada por Freud,3 constituiria assim uma espécie de graduação entre um fetichismo "amoroso", no qual o culto é dirigido a uma emanação da pessoa e conserva uma referência ao outro numa relação de substituição, e um fetichismo "verdadeiro" ou "patológico", em que o objeto adquire uma forma de independência e é idolatrado não pela pessoa que evoca, mas por si mesmo. O fetichismo absoluto aconteceria então quando o laço com o objeto sexual se desfaz e a realização fetichista acontece na maior solidão. Joyce McDougall (2007) descreve o destino tragicômico de um fetichista que, depois de ter criado uma peça de teatro lacunar, escreve as regras do jogo e representa a sua peça sozinho. Freud analisou esta versão da perversão em "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade" e nos seus textos anteriores a 1927. É a versão de um sujeito que teria "parado no meio do caminho", cristalizado numa sexualidade partial, preliminar,4 fugindo a confrontação com a genitalidade e o encontro com o outro que isso envolve. Verdadeira solução neossexual (McDougall, 2007), contrafóbica, a perversão seria a permanência de uma prática narcísica, autoerótica, bem separada da sexualidade aloerótica. O doudou, como fóssil de uma sexualidade infantil, parece de diferentes maneiras caraterístico da experiência de perversão fetichista.

Segundo Freud, os fetichistas estão bastante satisfeitos com a facilidade da sua vida amorosa, porque "contrariamente aos outros homens, eles não precisam cansar-se a fazer rodeios para cortejar uma mulher". Por conseguinte, é difícil receber fetichistas em análise, pois a presença do fetiche não é sentida como um sintoma doloroso, mas apenas como uma pequena anomalia. "O fetiche tem a função de descoberta anexa" (Freud, 1927/1997, p. 133). Da mesma maneira, mesmo tendo consciência da natureza insólita do seu doudou, a mulher não iria consultar para o que ela considera não como um problema, mas como uma fonte de profunda satisfação. A perversão não é uma questão, é uma resposta (Castanet, 1999), uma invenção que "varre qualquer certeza sobre o corpo sexuado e os objetos ou atos considerados como causa de desejo" (McDougall, 1998, p. 281). Convencidos que detêm o verdadeiro segredo do gozo sexual, os fetichistas regozijam-se com "essa miraculosa descoberta erótica" (Castanet, 1999, p. 274), e não entendem por que os outros não os invejam por terem achado esta solução tanto prática como confortável e divertida. O perverso é um ser feliz, satisfeito, porque ele sabe o que deseja e soube dar-se os meios de atingir as suas ambições. Do português "feitiço", que significa tanto "artificial" como "feérico", o fetiche é um objeto fabricado, mágico e também factício, um artifício (um Kniffige, segundo a expressão freudiana), uma pequena astúcia sem importância. Com esta relação com um objeto inanimado, dotado de propriedades tão mágicas como alucinatórias, a mulher do doudou parece ter identificado, ou seja "achado-criado" uma solução que permite-lhe, sob o pretexto de favorecer o adormecimento, exumar todas as noites, sem ninguém saber, os vestígios da sua erótica infantil.

Um fetiche feminino?

Segundo os textos posteriores aos "Três ensaios...", o fetichismo tornou-se incompatível com a mulher, pelo menos o fetichismo idêntico ou simétrico. Como ersatz fálico, o fetiche implica de fato um laço íntimo com o complexo de castração, uma particularidade que deveria excluir de imediato a mulher do fetichismo. A sua posição sobre a castração não lhe permite ter a mesma sobre o objeto fálico: a mulher, que "sempre soube que ela não tem e quer tê-lo" (Freud, 1925/1997, p. 127), não tem nada a perder. Fora alguns raros casos relatados na literatura psicoanálitica,5 o fetichismo feminino parece não ter existência, pelo menos como prática sexual perversa. "O sexo masculino é o sexo frágil no tocante à perversão" (Lacan, 1966 , p. 823). Só pode existir fetichismo se tiver ou uma função fálica ou um outro dispositivo fálico, como por exemplo a maternidade Granoff & Perrier, 1964).

Uma outra análise é todavia possível. Gratien de Clérambault, em Paixão erótica pelos tecidos na mulher, descreve uma forma original e feminina de fetichismo: o da seda. O sintoma, chamado "hyphéphilie" (ufé: tecido) ou "aptophilie" (aptô: tato), se manifesta sempre do mesmo jeito: a mulher vê um retalho de seda numa loja, rouba-o - o que já é uma fonte de excitação -, toca-o, amassa-o, cheira-o, usa-o para se masturbar e joga-o fora. Estas mulheres falam da seda como de uma fonte de gozo impossível a atingir de outra maneira, simplesmente obtido pelo contato com o pano e seu cheiro. Estas palavras são muito semelhantes às da mulher do doudou, quando ela descreve uma sensação única, indescritível, que não tem igual. G. de Clérambault (1908) faz-se a seguinte pergunta: dado que, na sexualidade normal, "os contatos macios e os cheiros suaves não são erógenos por si mesmos, mas servem de auxiliares da excitação, estes dois fatores reunidos não deveriam, num sujeito normal, aguçar as sensações voluptuosas até o orgasmo"? (p. 66). As características do "fetichismo feminino" relatadas por G. de Clérambault parecem de fato evidenciar uma forma específica deste fetichismo que questiona o "mistério feminino":

No contato com a seda, elas são passivas; a sua personalidade é fechada ao mundo exterior; sem visão nem desejo; o sexo oposto não existe mais; o seu gozo é genital, mas ela é tão autossuficiente que parece assexuada (...) A perversão do fetichista é uma homenagem ao sexo oposto, (...) nossas três pacientes não têm nada disso; elas se masturbam com a seda, com tão pouco entusiasmo quanto um gourmet solitário saboreando um vinho gostoso. (p.72)

Poderia existir uma maneira feminina de encarnar e de reinterpretar o fetichismo? O laço estreito entre feminilidade e tecido6 parece conduzir a um modelo de fetichismo diferente; a busca de uma sensação tátil com a seda, a utilização erotizada do pano no corpo inteiro, não só no sexo, assim como a ausência do sexo oposto, todos pontos de divergência com o fetichismo masculino, fazem de Clérambault interrogar-se, levando-o até a considerar a existência de um fetichismo "assexuado", exclusivamente feminino. A publicação do testemunho de uma mulher jovem que não abandonou a atividade de sugação que ela chama "lutscherli",7 citado por Freud em "Três ensaios...", é a este respeito muito interessante. Freud descreve a sensação como semelhante a uma satisfação sexual:

Os outros beijos não são como um "lutscherli"; não, não, longe disso! Ninguém pode descrever o tamanho do bem-estar que a sugação procura a seu corpo; você fica totalmente ausente do mundo, inteiramente satisfeito, num estado de felicidade tal que o desejo desvanece. É um sentimento maravilhoso; você só aspira à quietude, uma quietude que nada deve interromper. É simplesmente duma inexprimível beleza, você não sente mais nem aflição nem sofrimento e é transportado num outro mundo. (Freud, 1905/1987, p. 104).

A mulher do doudou, a mulher da seda, a mulher do lutscherli, os três casos parecem indicar a existência de uma outra erótica, mais radical, no mesmo tempo inexprimível e beirando um Absoluto, quase "fora do sexo", que lembra o "gozo Outro" evocado por Lacan (1972-1973) falando das mulheres, um gozo fora do significante, que "não se pode exprimir mas que se sente sem nós sabermos e sem podermos falar nada" (p. 69). Agindo além do gozo fálico, este gozo "doido", desenfreado, sem limites nem suporte de qualquer objeto,8 seria ligado ao corpo não "phallicisé" - e como tal, teria finalmente pouco a ver com o sexo. É de fato notável que o prazer evocado pela mulher do doudou, tão intenso, tão miraculoso - embora sem ligação aparente com um prazer orgástico -, não tenha outro fim que entrar no sono, e só parece esgotar-se com o adormecimento.9 Este gozo ilimitado, reproduzido à vontade, evoca o do bebê que adormece satisfeito no peito: "a sugação voluptuosa acompanha-se de uma distração total da atenção, conduzindo ao adormecimento ou até mesmo a uma reação motora parecida com o orgasmo. Aqui se desvela uma coisa que vale para o resto da existência: que a satisfação sexual é o melhor dos soníferos" (Freud, 1905/1987, p. 103). De fato, o próprio da sexualidade infantil é de não ter fim.10

As observações clínicas da mulher do doudou nos mostram que este "gozo Outro" contém uma tonalidade primitiva. Relevando uma sexualidade infantil oral, as sensações ressentidas parecem reproduzir concretamente a experiência do seio, seu cheiro, sua doçura, seu calor, sua erótica; aplicado no rosto ou entre a boca e o nariz, o doudou dá até a impressão de imitar o esmagamento do seio e os movimentos rítmicos dos dedos durante a amamentação.11 Pedaço primitivo encistado, que seria mantido idêntico ao longo dos tempos sob a forma de uma corrente independente,12 espécie de homenagem ao infantilismo da sexualidade, o doudou, objeto idolatrado, dotado de propriedades divinas, reproduz "a orgia da mamada" (Winnicott), assemelhando a mulher do doudou a uma mística venerando um Peito magnificado, mestre do jogo em matéria de gozo extático.13

O doudou encarna um objeto que, fundamentalmente, nunca foi perdido. Tendo à disposição a permanência de um objeto concreto, com o risco constante de que "o recurso ao fetiche extenue-se, enfraqueça-se ou mesmo esquive-se" (Lacan, 1956-1957, p. 160), a dica é geralmente uma substituição do objeto, proporcionando assim a possibilidade de um uso infinito; é assim possível ter um doudou sobressalente, proveniente da mesma matriz, ou então trocar o velho tecido por um novo quando o desgaste torna necessário a sua substituiçãõ.14 É bem isso a propriedade do fetiche, criação erótica face à percepção da falta, representando um pênis "fiel" porque pode faltar, uma presença num contexto de ausência. O doudou consiste na instauração de um seio fictício, na "présentification" do objeto, verdadeira ilusão no sentido de prestidigitação, uma aparição num contexto de disparição. Como ersatz, o fetiche feminino teria como alvo dar para a mãe um seio "perfeito-inteiro" (Klein, 1978), falo indestrutível que abrange o objeto primário da falta. O uso do doudou, no sentido de "utilização do objeto" dado por Winnicott, permitiria assim uma reconstrução, uma reinvenção do corpo materno, ou seja, sua re-tecelagem.

Porque é sempre a imago maternal que é subjacente, como uma imagem subliminar, imago representativa da alteridade mínima, a da identificação primária que permite um corpo materno fusionado, reino da feminidade arcaica, mino-miceniana segundo a expressão freudiana (Freud, 1931/1997), onde dominam os fantasmas testemunhos da adesividade primária ao corpo da mãe, espécie de matriz inerente ao psiquismo feminino (Godfrind, 2001). Um exemplo de fetiche feminino fornecido por M. Sperling pode ilustrar este fantasma de "colagem adesiva"; trata-se de uma mulher que dormia com um pequeno travesseiro que sua mãe lhe tinha dado antigamente. Nos grandes períodos de insônia, ela vestia a camisola da sua mãe em lugar de usar o travesseiro, uma roupa que vai envolver totalmente o corpo, como para "vestir" a mulher da pele materna (Sperling, citado por Greenacre, 1970/1978). A mulher do doudou teria também removido fantasmaticamente um pedaço da pele da sua mãe, promessa de uma presença maternal sempre disponível e de uma aliança que, mesmo sendo "branqueada pelos anos" (Freud, 1931/1997, p. 140), se teria conservada por intermédio do doudou? O doudou tem a função de colmatar a perda original do objeto - do qual reproduz todas as modalidades - e parece permitir um regresso ao Heimlich, a terra natal. Seria talvez neste ponto de mutação que o objeto, transicional no início, tornou-se doudou: sem negar a marca e a natureza autoerótica do primeiro, é ao segundo que se deve atribuir o verdadeiro projeto fetichista. Na minha opinião, o que sobressai desta enigma é que essa erótica arcaica não é, como tal, submetida ao interdito. Então por que os homens não a usam como as mulheres? Pelo menos, o doudou poderia ser uma pequena contribuição à tentativa de exploração da vida sexual da "mulher (que), em parte por causa da atrofia cultural, em parte por sua discrição e insinceridade convencionais, permanece envolta numa obscuridade ainda impenetrável" (Freud, 1905/1987, p. 59).

REFERÊNCIAS

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Citação/Citation: Saïet, M. (2014, setembro). Da prática (privada) da perversão. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 17(3-Suppl.), 775-786.

Editor do artigo/Editor: Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck

*1 Trabalho apresentado no Colóquio Internacional sobre a Metapsicologia da Perversão, Laços Sociais da Perversão, realizado em Recife, PE nos dias 26, 27 e 28 de agosto de 2013.

1 Veja Mathilde Saïet, Femmes et doudou, l'objet de l'endormissement.

2 Sobre isso, veja os casos clínicos de Stoller (1975), Binet (1888), assim como os estudos de Freud (1927/1997) sobre o fetichista cortador de tranças.

3 "O caso patológico apresenta-se somente quando a aspiração à possessão do fetiche vai além desta condição (normal) e substitui-se ao alvo sexual normal, ou então quando o fetiche desliga-se de uma pessoa determinada para tornar-se o único objeto sexual" (Freud, 1905/1987, p. 63).

4 A perversão é "a tendência a deter-se nos preliminares e a transformá-los em novos alvos sexuais que se substituem aos alvos normais" (Freud, 1905/1987, p. 66).

5 Nancy Spiegel (1967) faz uma descrição detalhada de uma mulher de 19 anos, cujo objeto fetiche é um atacador de sapato. Krafft-Ebing (1886-1925) descreve um fetichismo feminino ligado à utilização do pé, da boca e da farda do homem, considerados como objetos fetiche. A psicanalista Hug-Hellmuth menciona a natureza simbólica do pé para a mulher fetichista, este sendo um substituto do órgão idealizado da mãe, o falo pré-genital (Hug-Hellmuth citado por Spiegel, 1967).

6 Veja Freud, "A experiência cotidiana nos mostra todos os dias que a metade da humanidade pode ser classificada como fetichista das roupas" (Freud, 1909/1989, p. 430).

7 Um termo que vem da palavra alemã "lutschen": sugação.

8 Em "Para introduzir o narcisismo" (1914/1997), Freud nota que o fetichismo feminino seria mais uma narcisização do corpo, como um todo, que um investimento libidinal com um objeto qualquer.

9 Veja A Bela Adormecida, Branca de Neve e Psyche, "belas ao sexo adormecido", mergulhadas num longo sono thalassal do qual ninguém sabe se sairá um dia - só que elas serão reanimadas pelo belo amante, aquele que tem o poder de acordar o corpo adormecido.

10 "Ao contrário do prazer sexual genital, o prazer (autoerótico) não é a origem do ato. No autoerotismo da sexualidade infantil, o prazer seria inicial e não terminal. A excitação da zona erógena esgota-se com o tempo em vez de se descarregar" (Widlöcher, 2000, p. 35).

11 Em "A cavidade oral primitiva", R. Spitz (1965/2002).

12 O sexual do doudou não faz parte da sexualidade genital, portanto, não pode ser considerado como uma das formas preliminares de perversão polimórfica que reintegra a sexualidade adulta em qualidade de sexualidade preliminar.

13 Em referência à definição do fetiche de Charles de Brosses: "forma de religião na qual os objetos do culto são animais ou seres inanimados divinizados e assim transformados em coisas dotadas de uma virtude divina" (De Brosse, 1970, p. 131).

14 O novo doudou é todavia concebido como sendo o doudou original. A preparação à mudança pode ser feita por contiguidade, amarrando os dois juntos, como se a promiscuidade das matérias permitisse que o antigo doudou transmita a sua experiência ao novo, pelo contato.

Financiamento/Funding: A autora declara não ter sido financiada ou apoiada / The author have no support or funding to report.

Recebido: 15 de Março de 2014; Aceito: 15 de Abril de 2014

Conflito de interesses/Conflict of interest: A autora declara que não há conflito de interesses / The author has no conflict of interest to declare.

Mathilde Saïet Maître de conférences en Psychopathologie, LUNAM Université, Université catholique de l'Ouest - UCO - Institut de psychologie et sociologie appliquées (IPSA); Laboratoire multi-site E.A. 4050: "Recherches en psychopathologie: nouveaux symptômes et lien social". 3 place André Leroy, BP 10808, 49008 Angers Cedex 01 France. e-mail: mathildesaiet@uco.fr

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