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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

versão impressa ISSN 1415-4714versão On-line ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.18 no.3 São Paulo jul./set. 2015

https://doi.org/10.1590/1415-4714.2015v18n3p490.6 

Conferência

Filhos de decasséguis: desafios e dificuldades no retorno ao Brasil

Dekasegi children: challenges and difficulties upon returning to Brazil

Enfants de dekasegi: les défis et les difficultés du retour au Brésil

Hijos de dekasegi: los desafíos y dificultades para regresar a Brasil

Kinder von Dekasegi: Herausforderungen und Schwierigkeiten bei der Rückkehr nach Brasilien

Dekassegui(日本后裔)儿童:回到巴西的挑战和困难

Cizina Célia F.P. Resstel *1  

José Sterza Justo *2  

Mary Yoko Okamoto *3  

*1 *2 *3Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências e Letras, Campus de Assis (Assis, SP, BR).


RESUMO

O movimento decasségui ficou conhecido na década de 1980, no Brasil e na América Latina, pelos descendentes de japoneses que emigraram para trabalhar no Japão. Atualmente, muitas famílias vêm retornando para o Brasil, acompanhadas de seus filhos. O objetivo da pesquisa foi investigar as dificuldades de adaptação ou readaptação à cultura brasileira, sobretudo, no ambiente escolar, pelo método clínico de investigação e entrevistas com os pais e seus filhos. Os resultados apontam os fatores que contribuem para acentuar ou agravar as dificuldades de adaptação do infante ao novo entorno.

Palavras-Chave: Filhos de decasséguis; imigração; educação; psicanálise

ABSTRACT

The Dekasegi phenomenon started in Brazil and Latin America in the 1980s and refers to Japanese descendants who migrated to Japan in search of employment. Recently, many families have returned to Brazil, along with their children. This research aimed to investigate the difficulties of those people in adapting or readapting to the Brazilian culture, particularly in the school environment. A clinical investigation method and interviews with parents and their children were used to that end. The findings show factors that contribute to worsen the difficulties of children in adapting to their new environment.

Key words: Dekasegi children; immigration; education; psychoanalysis

ABSTRACT

Le phénomène dekasegi surgit pendant les années 1980 au Brésil et en Amérique latine et est composé de descendants de Japonais qui émigraient au Japon à la recherche d’emplois. Actuellement, de nombreuses familles retournent au Brésil en compagnie de leurs enfants. Cette recherche porte sur les difficultés d’adaptation à la culture brésilienne, en particulier dans le milieu scolaire, en utilisant une méthode clinique de recherche et des entrevues avec les parents et leurs enfants. Les résultats indiquent les facteurs qui contribuent à accentuer ou aggraver les difficultés d’adaptation des enfants au nouveau milieu.

Key words: Enfants de dekasegi; immigration; éducation; psychanalyse

RESUMEN

El movimiento dekasegi ha sido conocido desde la década 1980 en Brasil y América Latina por los descendientes de japoneses que han emigrado para trabajar en Japón. Actualmente, varias familias han regresado a Brasil junto a sus hijos. El objetivo del estudio fue analizar las dificultades de adaptación y readaptación a la cultura brasileña, sobre todo en el ámbito escolar, a través del método de la investigación clínica y encuestas con los padres y sus hijos. Los resultados indican los factores que contribuyen a mejorar o agravar las dificultades de adaptación de los niños al nuevo espacio.

Palabras-clave: Hijos de dekasegi; inmigración; educación; psicoanálisis

ABSTRACT

Die Dekasegi Bewegung entstand in den 80er Jahren in Brasilien und in Lateinamerika. Es handelt sich dabei um Nachkommen japanischer Einwanderer, die nach Japan auswanderten um dort zu arbeiten. Heute kommen viele Familien in Begleitung ihrer Kinder nach Brasilien zurück. Unsere Untersuchung hatte zum Ziel, die (Wieder-)Anpassungsschwierigkeiten an die brasilianische Kultur zu analysieren, vor allem im schulischen Bereich. Wir benutzten eine klinische Untersuchungsmethode und Interviews mit den Eltern und Kindern. Die Ergebnisse zeigen Faktoren auf, die dazu beitragen, die Anpassungsschwierigkeiten der Kinder an die neue Umgebung zu verstärken oder zu verschlimmern.

Key words: Kinder von Dekasegi; Einwanderung; Erziehung; Psychoanalyse

ABSTRACT

该Dekassegui(日本后裔)运动是早在80年代巴西及拉美国家的日本后裔回到日本工作。目前,许多家庭回巴西,伴随着他们的孩子。这项研究的目的是通过与父母和孩子的面谈探讨回到巴西时的文化适应或再适应,特别是在学校环境中。结果表明,婴儿到新环境中加强和加重困难的因素。

Introdução

Os movimentos migratórios representam, hoje, uma boa parte da experiência transumante do homem e, com eles, surgem desafios vários no plano da subjetividade e situações de sofrimento intenso, tal como no caso dos decasséguis, como são chamados os descendentes de japoneses nascidos no Brasil (nikkeis) que emigram temporariamente para o Japão em busca de melhores oportunidades de trabalho e salários (Debiaggi, 2008).

A despeito da atração por bons salários e da facilidade em emigrar sob o beneplácito do governo japonês (Oliveira, 2008), osdecasséguis enfrentaram muitos problemas e desafios, tais como as longas jornadas de trabalho, as acentuadas diferenças culturais, mudanças no relacionamento familiar e na educação dos filhos (Kawamura, 2003), problemas esses que se colocam novamente, para muitos, no retorno ao Brasil.

Tal retorno — sempre presente no imaginário e no projeto do imigrante (Sayad, 2000) — nesse caso, acompanhava recessões cíclicas da economia japonesa e foi intensificado com a crise econômica mundial de 2008, deflagrada no epicentro do capitalismo e, ainda, pelos maremotos e o acidente nuclear, de grandes proporções, em 2011, decorrente de abalos sísmicos, que deixaram os imigrantes mais inseguros e temerosos.

O retorno não é menos problemático do que a ida para o Japão. Surgem sentimentos de estranhamento, incerteza e insegurança (Sasaki, 2004); de desorganização familiar (Oliveira, 2008); diferenças em relação a valores, hábitos familiares, de organização e disciplina, agravados naqueles casos em que a ida para o Japão foi fortemente impulsionada por desentendimentos com a família (Higa, 2003); e em situações mais graves como naqueles nos quais ultrapassam o chamado “limiar nikkei de tolerância” e desenvolvem sintomas que exigem atendimentos psicoterápico e/ou psiquiátrico, tais como o uso abusivo de drogas e álcool, transtornos de humor, insônia, depressão, isolamento, agressividade e delírios persecutórios (Galimbertti, 2002).

Se, para os adultos, o enfrentamento de experiências de hibridismo cultural amalgamados numa subjetividade duplamente social produz dificuldades e conflitos, para as crianças a situação também não é simples, mesmo com o entorno protetor dos pais (Grinberg & Grinberg, 1984). Enquanto para os pais, o trabalho é o principal palco de desafios, para os filhos esse palco será a escola.

Com relação aos filhos, Nakagawa (2010) aponta que a readaptação ao Brasil, depende de diversos fatores relacionados com a qualidade de vida e a estrutura de recepção aos estrangeiros existentes no Japão, tais como a existência de escolas brasileiras, a linha pedagógica e condutas da direção e de professores da escola japonesa com as quais a criança manteve contato e principalmente, a dinâmica familiar, ou seja, a jornada de trabalho dos pais e o nível de atenção e tipo de cuidados que dispensam aos filhos no cotidiano. Além disso, pesa muito a idade que a criança migrou, a maneira como os pais a prepararam para o retorno e a prioridade que deram à educação dos filhos com os consequentes investimentos financeiros, no projeto familiar de poupar e capitalizar o máximo possível para o retorno, que é marcante nos decasséguis.

Enquanto permanecem no Japão, muitas crianças brasileiras ingressam nas escolas japonesas e se defrontam com uma língua e um cotidiano escolar muito diferente daqueles aos quais estavam habituadas no Brasil (Tanaka, 2009; Amaral et al. 2010;Tongu, 2010). As dificuldades e os problemas são tamanhos que muitos pais matriculam seus filhos em escolas brasileiras o que, no entanto, pode gerar outro tipo de problema, a saber, a guetificação e distanciamento da cultura japonesa, muito comuns em imigrantes que se isolam em redes de relacionamentos endógenos e procuram manter e viver a cultura do país natal (Tongu, 2010).

A escola e a língua são catalisadores dos problemas de adaptação enfrentados por tais crianças, tanto quando emigram quanto no retorno ao Brasil. Diante do sistema escolar japonês, enfrentam situações de discriminação e dificuldades na adaptação, principalmente devido à língua e ao fato de serem consideradas, pejorativamente, como estrangeiras. Ao retornarem para o Brasil, novamente se deparam com problemas de “readaptação psicológica, emocional, somada à nova adaptação curricular” (Asari & Tomita, 2000, p. 55). Segundo essas autoras, “as experiências mais amargas têm ocorrido com os filhos que acompanharam os pais e tiveram que frequentar as escolas em dois países” (p. 54).

Tais experiências escolares remetem a uma experiência psicológica fundamental que é a do estranhamento, do estrangeiro; do não reconhecimento de si, do outro, do lugar e da paisagem; experiência essa que inaugura a vida e que a acompanha em tantas ocasiões de encontro ou confronto com o estranho, comuns no cotidiano. Os filhos dos decasséguis que emigraram com seus pais ainda bem pequenos ou que nasceram lá e permaneceram por um bom tempo, quando desembarcam no Brasil, estão diante do desconhecido, tal como um estrangeiro ou imigrante.

São exatamente as dificuldades, desafios e problemas que emergem na experiência de retorno dos filhos de decasséguis ao Brasil que focalizaremos neste artigo, fruto de uma pesquisa de mestrado.

Método

A pesquisa foi realizada mediante estudo de caso, com abordagem clínica, durante os anos de 2012 e 2013, com três filhos de decasséguis, entre nove e 13 anos, que haviam retornado recentemente para uma cidade de médio porte do oeste paulista, de onde haviam partido. No recorte deste artigo, escolhemos um menino, Goro, de nove anos, que retornou com a mãe, seus dois irmãos com quatro e dois anos de idade e os avós maternos, em meados de 2012. O padrasto permaneceu no Japão para continuar trabalhando por mais algum tempo.

A pesquisa foi aprovada no Comitê de Ética em Pesquisa (Registro 045/2011, processo 1512/201) e todos os cuidados éticos foram respeitados. Os nomes utilizados são fictícios.

Preliminarmente, os pais foram esclarecidos sobre os objetivos da pesquisa e deixados à vontade para que pudessem decidir participar ou não. Os filhos foram contatados após a anuência dos pais e informados sobre a natureza e o objetivo da pesquisa e deixadas à livre escolha quanto à participação.

Como desenho geral da pesquisa, foram realizadas entrevistas com os pais, voltadas especificamente para o levantamento de dificuldades que perceberam na adaptação escolar de seu filho.

Com Goro, utilizamos entrevistas e desenhos projetivos, na busca em compreender as dificuldades que enfrentava no ambiente escolar, na chegada ao Brasil. As sessões de entrevistas, com duração de uma hora, foram realizadas entre julho/2012 e junho/2013, iniciadas após um mês da chegada da família de Goro ao Brasil. No total, foram realizadas 11 entrevistas que dispararam diálogos e expressões gráficas, nos quais emergiram ideias, sentimentos e afetos relacionados à vida no Japão e no Brasil.

O caso Goro

Goro nasceu na cidade de Bastos, estado de São Paulo. Haru, mãe de Goro, tem trinta anos de idade, é sansei1 e tem o ensino superior incompleto. Tinha 23 anos quando foi para o Japão, em 2005, para trabalhar e formar uma poupança, juntamente com seus pais e seu filho de aproximadamente dois anos de idade. No Brasil havia se separado do seu marido (afro-descendente), pai de Goro, porque vivia um relacionamento conturbado. No Japão, trabalhou em uma fábrica de cartuchos para impressora, como chefe de equipe de produção e intérprete (bilíngue) para os brasileiros e japoneses. Lá conheceu seu atual companheiro (nikkei) com quem teve mais dois filhos. O retorno de Haru para o Brasil ocorreu em meados de 2012, com seus pais e os três filhos, deixando para trás seu companheiro que precisaria ficar para trabalhar por mais um ano.

Haru e as crianças sentiram-se inseguras com os abalos sísmicos ocorridos no Japão e com a tragédia da morte de milhares de pessoas provocada pelo vazamento de material radioativo da usina nuclear de Fukushima, em março/2011. Além do mais, a crise econômica continuava gerando altas taxas de desemprego no país. Esses fatores motivaram a decisão de Haru de retornar ao Brasil, após sete anos de vida no Japão.

Goro é um mestiço nipo-brasileiro. Seus cabelos são encaracolados e os olhos amendoados, o que acentua sua diferença física do japonês nativo. Haru fala que Goro se sentia “complexado” no Japão por ser fisicamente diferente dos japoneses. Queria ser como os japoneses e se via como uma criança feia.

Goro não tem contato com o pai biológico, apenas com o padrasto. A mãe dizia que, no Japão, ele ficava triste no dia dos pais. A professora pedia para fazer um desenho e ele desenhava a figura da mãe ou da avó no lugar do pai. Portanto, preenchia essa falta com figuras femininas.

No Brasil, frequentou durante sete meses a escola Kumon2para aprender o português e matemática. Como chegou ao Brasil em meados de 2012, sua mãe optou por matriculá-lo inicialmente nessa escola. Em 2013 ingressou no 4º ano de uma escola particular. A mãe pediu à direção para colocá-lo nessa série pelo fato de o currículo escolar do Japão ser diferente do brasileiro. Portanto, ficou um ano escolar atrasado em relação à sua idade cronológica. Goro apresenta dificuldades nas disciplinas de Português, Ciências e História, mas tem conseguido atingir as notas médias nas avaliações. Após o ingresso na escola regular deixou de frequentar oKumon, como medida de contenção de despesas.

Apesar de não se perceber e não ser percebido como inteiramente japonês, tem uma forte ligação com a cultura japonesa. Tinha apenas dois anos quando emigrou e, no Japão, frequentou a escola e convivia com crianças japonesas. Em casa, a comunicação era no idioma japonês. A língua portuguesa e cultura letrada brasileira permaneceram muito distantes, praticamente ausentes de seu universo, a não ser quando os pais ou avós mencionavam algo de suas experiências no Brasil. No Japão, Haru argumenta que ensinou os filhos a falar o idioma japonês. Além disso, devido ao ritmo de trabalho intenso, e longas jornadas de trabalho com horas extras, os decasséguis dispõem de pouco tempo para a convivência com os filhos, quando a língua materna poderia ser praticada. O fato é que a língua portuguesa foi sendo abandonada e, quando voltou ao Brasil, Goro não falava português.

Goro tinha nove anos quando nos encontramos para a primeira entrevista. No primeiro contato, parecia retraído, com comportamento de esquiva; estava num ambiente desconhecido e não falava o português, apresentando certa resistência em se vincular e se dirigir à pesquisadora, embora estivesse acompanhado da mãe.

Com um conhecimento básico da língua japonesa, passamos a fazer uso desse idioma e ao indagar se ele estava bem, demonstrava surpresa ao notar que falávamos a mesma língua. Com isso, utilizamos o japonês em nossos contatos. Só conseguiu dizer o seu nome quando perguntado nesse idioma e citou seu segundo nome, o japonês. É comum entre os nikkeis o uso de nomes compostos, sendo o primeiro um nome brasileiro e o segundo, japonês.

Na terceira entrevista, solicitamos a intermediação da mãe nos diálogos, pois o pequeno domínio que tínhamos da língua japonesa dificultava o relacionamento e a comunicação.

Pesquisadora (P): Você está tendo dificuldades aqui no Brasil?

Goro (G) (tradução Haru): Não tenho nenhuma dificuldade. Só o idioma. Falar.

P: Quais as dificuldades na língua portuguesa?

G: Dificuldade para formar as frases.

O diálogo entre Goro e sua mãe em japonês funcionou, na entrevista, como uma ponte de ligação, uma travessia que ele podia fazer entre a cultura e a língua nipônica e a brasileira, e essa ponte diminuía sua insegurança e ansiedade, afinal, a mãe representava a língua materna, ou seja, o continente no qual se reconhecia. Na transferência estabelecida conosco, ao longo das entrevistas, foi possível perceber que também funcionamos como uma ponte entre o Japão e o Brasil, na qual ele podia transitar com mais facilidade, ou seja, como uma ligação identitária entre dois territórios, o japonês e o brasileiro. Nosso domínio da língua japonesa devido ao fato de termos residido no Japão por oito anos, também como decasségui, favorecia a transferência e a identificação.

P: Na sua casa, qual o idioma que conversa com a sua mãe?

G: Japonês e o português.

P: Qual a língua que sua mãe usa para conversar com você?

G: Japonês e o português.“Oobasan” (avó) e “Ojichan” (avô) também. O irmão só português.

Em sua família, utilizam o idioma japonês. Disse que seus irmãos aprendiam o português na escola e ele aproveitava para exercitar a língua com eles; afinal, todos enfrentavam os mesmos problemas.

Disse que sua maior dificuldade foi o idioma e que inicialmente desconhecia completamente o português, depois comentou que sabia falar “um pouquinho errado o português”.

P: Quando chegou ao Brasil, qual era a sua dificuldade?

G: De falar. É ruim um pouquinho. Complicado para mim. Difícil de aprender.

P: Como fazia para falar?

G: Falar com cuidado, pra não errar.

As dificuldades com a aquisição da nova língua apontam que para Goro, a língua de referência era a japonesa, afinal, era o idioma utilizado em casa e na escola, ou seja, nos contextos aos quais pertencia socialmente. A língua materna exerce a importante função de representação do sujeito, constituindo tanto o sujeito como suas relações com o mundo, afinal, cada língua tem um modo particular de decifrar o mundo e seus enigmas, constituindo um laço identificatório entre aqueles que a compartilham (Koltai, 2013).

Apesar dos progressos, a língua portuguesa continuava difícil, sobretudo, para a compreensão dos sentidos conotativos da linguagem. Nas disciplinas com o uso de uma linguagem objetiva, como a matemática, a dificuldade era menor.

P: Como está na escola?

G: Mais ou menos. Por que não entendo o português.

P: Quando não entende o português, o que faz?

G: Tenta falar, mas não consegue. Sou bom de matemática.

Aprender história e geografia, que têm conteúdos ligados à cultura do lugar, é um desafio, pois é justamente a experiência de deslocamento espaço-temporal que esses filhos de imigrantes recém-chegados vivem.

Haru: Ciências não consegue entender. O inglês está aprendendo rápido. História e geografia estão com dificuldades. O português estava indo, agora com os verbos fica perdido justamente com o passado, presente e futuro que mexe com ele. Ele pergunta por que o português tem tantos verbos. (...) No japonês ele consegue pôr os verbos no tempo. A professora japonesa dizia que faltava leitura. Ele procurava livros com imagens no Japão. Fala que vai demorar de ler. O português fala que não sabe escrever e que prefere falar.

Com o passar do tempo e a apropriação da língua, os silêncios nos diálogos foram substituídos por uma comunicação mais fluente e significativa, entremeando as duas línguas. No início de 2013, após o recesso escolar e com sete meses de aprendizagem do português, mostrava que sabia pronunciar algumas pequenas frases nessa língua. Ele já não era totalmente dependente da mãe para se comunicar, demonstrando mais autonomia, segurança e desinibição. Quando era totalmente dependente, às vezes usava uma linguagem regredida e balbuciava como um bebê. Nesse retorno, não se mostrou incomodado ao entrar em nosso consultório, sem a presença da mãe. Logo que o cumprimentamos, em japonês, ele respondeu prontamente e aceitou ficar a sós, e todas as entrevistas foram realizadas sem a presença da mãe e com uso mais frequente do português. Era mais uma oportunidade para que ele pudesse exercitar a língua numa situação segura e na qual podia fazer pontes entre as duas línguas e transitar pelo seu hibridismo cultural. O domínio da língua portuguesa lhe dava maior acesso ao simbólico, autonomia, segurança e gradativamente tornava-se mais independente da mãe para enfrentar os desafios do novo lugar e criar laços de identificação, ainda que tênues, com a cultura brasileira.

Ao mencionar a língua que aparecia em seus sonhos não teve dúvida e afirmou que sonhava em japonês.

(G) (tradução Haru): Falo a língua japonesa no sonho. Nunca sonhei com nada daqui.

Haru: No Japão, Goro dormindo chorava muito à noite. Aqui no Brasil, ele sempre está mais alegre.

Novamente percebemos a referência à língua adotada como materna, aquela dos afetos e dos prazeres, sendo implícita e íntima, e que não desaparece, mesmo que se queria e deixa marcas que se manifestam pela entonação da voz, do ritmo da fala, dos lapsos e vestígios (Koltai, 2013).

O sentimento de alegria, percebido pela mãe, pode sinalizar seu desejo de que gradativamente o filho se adapta ao Brasil, reconhecendo-se nesse país ao mesmo tempo em que acessa a nova língua, afinal, no Japão Goro habitava um corpo mestiço que considerava feio, fruto da união de um brasileiro afro-descendente com umanikkei. No Japão, sua situação não diferia daquela de muitos filhos de decasséguis que, mesmo tendo um fenótipo japonês e falando perfeitamente a língua japonesa, ainda assim, são considerados estrangeiros e ficam expostos à prática do “ijime” (humilhação, maus-tratos oubullying) por parte das crianças japonesas, na escola (Tanaka, 2009).

O choque cultural e a sensação de estranhamento, gerados pelo deslocamento no tempo e no espaço são muito acentuados na experiência de retorno dos filhos dos decasséguis que viveram boa parte ou a quase totalidade da infância no Japão. Apesar de a família funcionar como uma “capa protetora” (Grinberg & Grinberg, 1984), isso não é suficiente para evitar que elas sejam penetradas ou que aflorem sentimentos de insegurança, desamparo, inadequação, e tantos outros suscitados pela experiência de estranhamento de si e do mundo à sua volta, ao se depararem abruptamente com um mundo totalmente diferente daquele que habitavam.

É inevitável, nesses casos, sentimentos de solidão e medo diante desse mundo estranho, sobretudo em situações como na escola, quando se está distante da proteção e dos cuidados dos familiares, e quando se está diante de desafios básicos e fundantes do sujeito e da humanidade que dizem respeito a enigmas capitais cuja decifração depende da linguagem.

Ter acesso ao idioma português é ter acesso a todo universo cultural brasileiro e ao mesmo tempo ao traço identificatório com esse si mesmo brasileiro, igualmente desconhecido e estranho pela fantasmática figura paterna, esvaecida em suas referências biológicas inscritas em seu corpo, pelos traços herdados da sua descendência africana. Essas marcas fenotípicas cravadas em seu corpo são os principais sinais de sua brasilidade, tão enigmática e desconhecida quanto ele mesmo, afinal, o pouco acesso às referências simbólicas e à sua raiz brasileira provinha de sua mãe, descendente direta de japoneses.

Goro circula por uma rede intricada de filiação simbólica: o pai biológico brasileiro afro-descendente, a mãe e o padrasto brasileiros descendentes de japoneses. Os irmãos, pela linhagem materna, possuem fenótipo marcadamente diferente do seu por serem filhos de pais nikkeis, diferentemente dele que é mestiço.

Os problemas e desafios que eclodem na escola não são apenas de ordem prática, de uma aprendizagem instrumental dos conteúdos escolares, incluindo a aprendizagem do idioma português. São enfrentamentos deveras problemáticos e básicos que dizem respeito a uma busca de saber sobre si mesmo.

Pela trajetória de Goro nessa busca pela aquisição de uma nova língua e da apropriação do novo espaço desconhecido, mas presente em seus traços fenotípicos e de origem, percebemos a situação vivida pelos inúmeros migrantes que, em contato com uma nova realidade, se veem, de acordo com Koltai (2013),

(...) na obrigação de criar, inventar, descobrir uma nova língua, muitas vezes fruto de uma heteróclita mistura de fragmentos das originais, uma vez que, em seu incessante vai e vem entre as línguas, o migrante reproduz em seu psiquismo o vai e vem da migração, no intuito de encontrar o tom que melhor se afina com sua própria experiência migratória e que lhe permita relacionar antigo e longínquo, presente e futuro, tecendo para si uma nova “identidade”, com toda a ambiguidade do termo e que uso aqui no sentido de ter, habitar um lugar, entendido como um lugar psíquico que permite relacionar através das palavras o vivido, o sentido e o percebido. (p. 135)

Portanto, cabe apontar que a diversidade cultural experienciada por tais crianças poderia proporcionar-lhes a capacidade de aquisição e de trânsito pelas diferentes culturas e mundos (Nakagawa, 2010) e não resultar em sentimentos de perdas e estranhamentos tão radicais, como o de não pertencer a nenhum lugar, conforme foi percebido nesse caso. Até a manutenção da língua japonesa resulta em sofrimentos e perdas, justamente pela ausência de recursos e falhas na recepção de tais crianças ao Brasil, afinal, as famílias e as instituições envolvidas não estão preparadas para acolher tais situações com a atenção necessária.

A resposta bastante positiva e a apropriação dos encontros para a realização da pesquisa, da parte de Goro, podem ser indicadores da necessidade de crianças que vivem contextos migratórios disporem de um lugar que possa funcionar como amparo psíquico, no qual podem ser acolhidas e compreendidas em sua diversidade, minimizando o sentimento de desamparo de não pertencimento ao novo lugar e que favoreça, ao mesmo tempo, vinculações identitárias à nova e desconhecida terra.

Referências

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Citação/Citation: Resstel, C.C.F.P., Justo, J.S., Okamoto, M.Y. (2015, setembro). Filhos de decasséguis: desafios e dificuldades no retorno ao Brasil. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental,18(3), 490-503.

Financiamento/Funding: Esta pesquisa foi financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq / The research was funded by the Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

Recebido: 14 de Maio de 2014; Aceito: 18 de Julho de 2014

Editores do artigo/Editors: Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck e Profa. Dra. Sonia Leite

Conflito de interesses/Conflict of interest: Os autores declaram que não há conflito de interesses / The authors have no conflict of interest to declare.

CIZINA CÉLIA F. P. RESSTEL: Psicóloga clínica; Mestre em Psicologia e Sociedade pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Assis (Assis, SP, Br); Membro do grupo de pesquisa Figuras e Modos de Subjetivação no Contemporâneo. Av. Santo Antônio, 3914 17510-220 Marília, SP, Br e-mail:ciressfer@yahoo.com.br

JOSÉ STERZA JUSTO:Professor Livre-docente da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Assis (Assis, SP, Br); Coordenador do grupo de pesquisa Figuras e Modos de Subjetivação no Contemporâneo. Av. Dom Antônio, 2100 19806-900 Assis, SP, Br e-mail: sterzajusto@yahoo.com.br

MARY YOKO OKAMOTO: Professora Assistente-Doutora da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Faculdade de Ciências e Letras – Campus de Assis (Assis, SP, Br); Coordenadora do Programa de desenvolvimento de apoio psicológico no Estado de São Paulo voltado aos decasséguis e seus descendentes que retornam ao Brasil (Acordo de Cooperação – UNESP, Japan International Cooperation Agency – JICA, Conselho de Promoção para Convivência Multicultural – Japão). Av. Dom Antônio, 2100 19806-900 Assis, SP, Br e-mail: mary.ok@uol.com.br

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