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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.21 no.2 São Paulo Apr./June 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2018v21n2p269.4 

Artigos

Do frio ao tórrido: escutas de silêncio e fúria

From cold to hot: listening to silence and fury

Du froid au torride: écouter le silence et la fureur

De lo frío a lo tórrido: escuchas de silencio y de furia

Von kalt bis heiß: der Stille und Wut zuhören

Fátima Flórido Cesar de Alencastro Graça1 

Luís Claudio Mendonça Figueiredo2 

12*, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP (São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

O presente artigo constitui o relato do atendimento clínico, por Fátima Flórido, de um paciente com queixas de vazio e apatia, sendo que, no decorrer do processo, configurou-se uma transferência negativa sob a forma de ataques raivosos. A partir de leituras sobre as escutas em psicanálise e as modalidades de adoecimento psíquico e do exame de sua contratransferência; a autora propôs uma reflexão sobre o manejo clínico necessário, a violência apresentada e a alternância entre estados de silêncio e fúria.

Palavras-Chave: Transferência; contratransferência; escuta; destrutividade

ABSTRACT

This paper reports the clinical treatment of a patient suffering from symptoms of emptiness and apathy. During his treatment, a negative transference came up in the form of anger and accesses of fury. Based on references from the field of psychoanalysis and the modalities of psychic illnesses, as well as by analyzing an occurred countertransference, the author proposes a reflection on how to clinically deal with such cases, on the encountered violence and on the alternation between states of silence and fury.

Key words: Transference; countertransference; listening; destructiveness

ABSTRACT

Cet article rapporte le cas clinique d’un patient qui présente des symptômes de vide intérieur et d’apathie et qui, au cours du processus, a manifesté un transfert négatif sous forme d’attaques de colère. À partir de références sur l’écoute en psychanalyse et des modalités de la maladie psychique, ainsi que d’une analyse de son propre contre-transfert, l’auteur propose une réflexion sur la façon nécessaire de gérer la pratique clinique, sur la violence qui s’est présentée et sur l’alternance entre les états de silence et de fureur.

Key words: Transfert; contrat-transfert; écoute; destructivité

RESUMEN

Este artículo constituye la historia de la consulta clínica de un paciente con quejas de vacío y apatía, siendo que, en el transcurso del proceso, se configuró una transferencia negativa en forma de ataques violentos y furiosos. A partir de lecturas sobre escuchas, en el psicoanálisis, y sobre las modalidades de la enfermedad psíquica y el examen de su contratransferencia, el autor propuso una reflexión sobre la gestión clínica necesaria, la violencia presentada y la alternancia entre estados de silencio y furia.

Palabras-clave: Transferencia; contratransferencia; escucha; destructividad

ABSTRACT

Der vorliegende Artikel stellt den Fall eines Patienten dar, der an Symptomen von Sinnlosigkeit und Apathie leidet, wobei sich im Verlauf des Behandlungsversuchs eine negative Übertragung in Form von Wutanfällen manifestierte. Anhand der Fachliteratur über das Zuhören in der Psychoanalyse und über die verschiedenen Modalitäten psychischer Erkrankungen, sowie der Analyse ihrer eigenen Gegenübertragung, stellt die Autorin abschließend Betrachtungen an über den notwendigen Umgang mit solchen Situationen in der klinischen Praxis, der manifestierten Gewalt und den Wechselzuständen zwischen Stille und Wut.

Key words: Übertragung; Gegenübertragung; Zuhören; Destruktivität

Conhecendo Mateus

Mateus chegou sem fazer barulho: 34 anos, sua queixa principal se referia a um desânimo generalizado, apatia, “falta de entusiasmo”. No ano anterior, caíra e machucara o pé; uma dor crônica o deixara em repouso na casa dos pais, sem trabalhar por quase um ano. Quando iniciou a terapia, o pé ainda doía, o que o perturbava bastante, limitando-o, principalmente, na prática de esportes. Talvez não por acaso tenha procurado análise quando ainda se encontrava em restabelecimento: o que teria significado para Mateus retornar a uma relação de dependência?

Mas não era apenas o pé que o fazia buscar ajuda. Apresentava também uma perplexidade sem dor quando descrevia sua anestesia frente ao sofrimento humano. Para exemplificar seu distanciamento afetivo, relatou a história do atropelamento de um cachorro, que o fez chorar, em contrapartida à insensibilidade diante de seus pacientes. Trabalhando como intensivista em vários hospitais da cidade, relatou que se dedicava com competência, porém, com o mínimo de envolvimento afetivo. Perguntei acerca de seu interesse pelo trabalho em UTI — também com poucas palavras, respondeu: “fiz um estágio, gostei, mas nunca me interessei por outra área”. Mateus parecia então se recusar a refletir acerca dos caminhos que o conduziram a cuidar de pacientes em situação de risco. Ficava a pensar que não sem razão alguém faz essa opção: talvez a proximidade da morte buscada como ressonância de aspectos mortíferos, estes que o habitavam, colocando-o numa forma de existir tão desvitalizada. Paradoxalmente, se a quase morte ganha um lugar circunscrito, suponho que uma procura do vivo se insinuava: “morto e vivo entrelaçados”, fazendo aqui uso do título do belíssimo texto de Pontalis (1999, p. 243). Será que faltava a Mateus sentir? Será essa uma de sua(s) busca(s): perante o desconforto da anestesia, que viesse o sentimento de compaixão?

O que aqui chamamos de compaixão talvez se referisse ao que Mateus chamava de caridade, sentimento que, diferentemente de seus pais e irmão, lhe faltava — eles sim eram caridosos, altruístas, ao contrário dele mesmo, tão egoísta. Também os envolvimentos amorosos traziam a marca da distância: iniciavam com paixão, para depois acontecer um crescente desinvestimento. Assim, “empurrava” um namoro de dois anos com uma moça “muito boa”, “dócil”, “dedicada” e que não merecia sua falta de comprometimento.

Também se queixava de “não conseguir urinar fora de casa”, mas também nesse aspecto não fazia associações. Sem compreender essa limi-tação, seguia esperando surgir algo que nos trouxesse alguma luz...

Nesse início, acreditava estar diante de uma psicopatologia do vazio e do silêncio, o que requereria de mim uma escuta do inaudível e do inanimado. Parecia-me que navegávamos em mares gelados, o frio dominando a cena analítica, o enunciar do mortífero comparecendo em cada sessão.

A constituição da situação analisante

Quando nos chega um paciente, penso ser necessário que identifiquemos diante de qual adoecimento psíquico estamos. Também buscamos desenvolver, como veremos adiante, um pensamento sobre dispositivos analíticos que aqui enunciamos: escuta, transferência, contratransferência e diagnóstico, os quais constituem instrumentos para o entendimento da dinâmica do caso, das forças e dos afetos envolvidos e da técnica requerida. Sendo assim, fazemos uma pausa no relato dos encontros com Mateus, tendo como intuito apresentar as bases teóricas e técnicas que capacitam a escutar o campo analisante que vai se desenhando e a cuidar do que emerge por parte do paciente em busca de socorro e cuidado.

Nessa perspectiva, tem sido de grande uso pensar a interrupção nos processos de saúde seguindo o que Figueiredo e Coelho Jr. (no prelo) vêm designando como matrizes do pensamento psicanalítico acerca das modalidades do adoecimento psíquico: a freudo-kleiniana, em que estão Freud, Klein e seus seguidores; e a ferencziana, com Ferenczi, seu discípulo Balint, Winnicott e Kohut. Uma terceira matriz, a transmatricial, correspondente à psicanálise contemporânea, que busca articular a ambas. A cada uma delas corresponderá uma determinada estratégia de cura.

Na primeira tradição, ressalta-se que, por mais sérios o trauma e o estado de desamparo, por mais primitivas as angústias, sempre haverá recursos defensivos, ou seja, uma resposta ativa. Os adoecimentos decorrem, então, não das falhas das defesas, mas de seu “sucesso”, o que não impede que intensas e variadas angústias sejam geradas, assim como a compulsão à repetição, configurando uma determinada forma de interrupção nos processos de saúde (Figueiredo & Coelho Júnior, no prelo).

Assim sendo, será imprescindível analisar os processos de formação das angústias e suas configurações, bem como os mecanismos de defesa contra elas acionados. A estratégia terapêutica centrar-se-á no enfrentamento das resistências: não que elas ocupem um lugar central, demandando, necessariamente, uma análise; mas deve sempre acontecer a fim de que se efetive uma desconstrução das defesas contra a angústia. Também as experiências angustiantes deverão ser “cuidadas” para que não precisem ser evitadas de forma radical por um lado e, por outro, para que não sejam exacerbadas de modo a produzir estados de fragmentação e outras interrupções nos processos de saúde.

Ainda na perspectiva de Figueiredo e Coelho Jr. (no prelo), a matriz ferencziana surge não como central (exceto em alguns casos), mas suplementar à freudo-kleiniana. Entretanto, ela será fundamental para pensarmos determinadas modalidades de adoecimento, que não são adequadamente entendidas pela primeira matriz. Aqui, as cisões são mais radicais e graves que aquelas descritas, por exemplo, por Klein (1946/1991). De fato, Ferenczi (1931/1990) afirma que a reação imediata ao trauma é uma “agonia psíquica e física que acarreta uma dor incompreensível e insuportável” (p. 79). O autor se refere a “choque”, identificando-o à aniquilação do sentimento de si.

O traumático será da ordem do irrepresentável, do que é impossível de se inscrever — uma ordem distinta do recalcamento. Além de mais graves, os traumatismos nessa matriz se dão mais precocemente e, na clivagem narcísica, uma parte morre ou deixa-se morrer para que outra sobreviva — trata-se de estratégia para apartar-se da vivência traumática e, assim, conter uma dor insuportável. Figueiredo (2001) sugere que ressaltemos a ideia de autotomia desenvolvida por Ferenczi (1924). Designado como um “modelo biológico do recalcamento”, corresponde a um fenômeno que ocorre nas formas elementares de vida: uma parte lesada se desprende do resto, para que o organismo sobreviva. A autotomia deve ser pensada como uma forma radical de dissociação. De acordo com Figueiredo (2001), “a autotomia é uma função defensiva clara. Mesmo que não ocorra o desligamento total, mesmo quando ocorre apenas a morte (necrose) ou amortecimento anestesiante de uma forma injuriada, já aí é nítida a operação de clivagem” (p. 221).

A morte aqui se apresenta duplamente: de um lado, a parte ferida fica silenciosa e encolhida — um verdadeiro self protegido, mas também mortificado. De outro, o falso self, que muito diligente, em casos extremos, funciona quase como um autômato: sua pseudomaturidade é também pseudovitalidade, decorrendo daí a sensação de não vida, de irrealidade, de vazio a que se refere Winnicott (1963/1989). Paradoxalmente, para manter a vida, retorna-se à quase morte, seja pela identificação com o agressor, pela autotomia, pela autoanestesia.

Um processo de passivação emerge em decorrência do trauma precoce, determinando uma condição de passividade, anestesia, de retorno ao inerte que não pode ser compreendida em termos de defesa. Na verdade, o trauma severo, a cisão radical conduz sim a uma condição de desamparo e de indefensabilidade.

Assim, no contexto da matriz ferencziana, no lugar de angústias caberá falar em agonia (Winnicott, 1963/1989) que se apresenta mais adequada para descrever a vivência do que antecede a experiência de morte do moribundo. E mais: as angústias podem ser pensadas como fenômenos da vida agitada pelas pulsões e afetos e pelos sofrimentos intensos; a agonia é, por sua vez, um fenômeno da morte.

Entretanto, um tanto de sobrevida advém desses estados de quase morte. A clivagem pós-traumática busca algum apaziguamento diante de uma dor insuportável, de um desespero existencial. Para evadir-se do estado de aflição, nomeadamente da “agonia”, o indivíduo deixa de sentir: eis um coração gelado, um núcleo frio que leva a uma evitação dos investimentos de objeto. Mas se há tal sobrevida, com a agonia prevalecendo sobre as angústias-sinal e as angústias automáticas, como se conduzirá o trabalho psíquico? Não se trata de moderar angústias, tampouco enfrentar defesas e resistências. Aqui não cabe a clínica do confronto nem do silêncio, pois ausência e silêncio poderiam atualizar a experiência da morte. Requer-se uma clínica da “revitalização”: seguindo uma estratégia de reanimação psíquica, suplementar à da desativação.

Modalidades de escuta

Para complementar o estudo das modalidades de adoecimento psíquico, prosseguimos propondo uma reflexão acerca das várias formas da escuta na clínica, de modo a detalhar os desdobramentos presentes na história com Mateus.

Em nosso fazer clínico, somos conduzidos e conduzimos o processo, e a forma como transferência e contratransferência se entrelaçam dependerá de certa afinação da escuta. No caso de Mateus, surpreendeu a emergência de novas configurações do campo analisante, remetendo às questões: até que ponto se deu uma mudança significativa na cena analítica? Estaríamos escutando equivocadamente, distante do que meu paciente pretendia comunicar?

São impasses que enfrentamos ao receber aquele que chega pedindo ajuda, sempre em busca de adequar nossa escuta à modalidade de adoecimento psíquico que se apresenta na cena analítica. Para refletir sobre eles, seguimos com Figueiredo (2014). No texto “Escutas em análise: escutas poéticas”, o autor apresenta as várias modalidades de escuta das várias dimensões do inconsciente, destacando cinco momentos e mais um, dos dias atuais: desde a escuta do inconsciente recalcado nos adoecimentos neuróticos, até a escuta de outras dimensões inconscientes do psiquismo decisivas nos padecimentos psicóticos e narcísico-identitários, quando as palavras são silenciadas em função de condições traumáticas relevantes.

Na concepção desse autor, a escuta em atenção flutuante é tão necessária quanto insuficiente: tal disposição da mente deve-se manter, mas no decorrer da história da psicanálise, as estratégias de escuta foram se tornando mais complexas. Afinal, se a psicanálise é uma terapia pela fala, mais fundamentalmente é uma terapia pela escuta: é pela escuta analítica que se instala a situação analisante. Importante ressaltar ainda a articulação entre a diversidade de procedimentos de escuta e as novas questões psicopatológicas com novas compreensões de casos clínicos. Desse modo, Figueiredo (2014) diz que enquanto a disposição de mente, a posição do analista, sua ética deve continuar orientando sua prática, o procedimento padrão da escuta foi se ampliando, dando espaço para novas modalidades técnicas; “a posição ética é condição do procedimento, e este é a realização da ética” (p. 124).

Num primeiro momento, denominado por Figueiredo (2014) “O momento freudiano da criação: a atenção livremente flutuante” (p. 124), esta designava tanto um procedimento quanto uma disposição da mente:

O procedimento era o acompanhamento paciente e meticuloso (mas não obsessivo) das trilhas associativas da fala em associação livre, o que devia ser feito com o mínimo de interferências, interrupções e/ou induções, e com uma sensibilidade aguda às irregularidades, aos detalhes, às lacunas e aos fragmentos. A posição do analista (sua ética) para propiciar tal procedimento implicava o chamado “encontro entre inconscientes” — manter-se em reserva e deixar-se entregue ao próprio trabalho inconsciente para sustentar essa sensibilidade especial aos efeitos do inconsciente recalcado na fala do paciente em associação livre. (p. 124)

O segundo momento da história das escutas em psicanálise começa ainda com Freud, quando outras dimensões do inconsciente recalcado são consideradas. Aqui o que se destaca é o enfrentamento de resistências maiores ligadas à reação terapêutica negativa que tornam a análise mais difícil, quando não inviabilizada. Como então proceder à escuta nesses casos?

De fato, a escuta se torna mais complexa, sendo necessário escutar tam- bém os aspectos inconscientes ligados ao isso, ao eu e ao supereu. Figueiredo (2014) denomina essa escuta de escuta gestáltica dos sistemas resistenciais, e afirma que:

Formas, estilos, modo de funcionamento, atmosferas relacionais tornam-se os objetos de suas considerações, caracterizando o que pode ser denominado de “escuta estética ou empática”. O que se capta aqui é a totalidade, e não os fragmentos, as lacunas ou sequências: “capta-se um estilo, um modo de funcionar, um sistema resistencial”. (p. 126)

O terceiro momento é o kleiniano, que se manifesta de forma decisiva a partir do conceito de identificação projetiva, em 1946. Nova questão se coloca: como escutar as identificações projetivas? Sendo a identificação projetiva uma fantasia com efeitos reais (Klein, 1946 citado por Figueiredo, 2014), aqui a escuta se dará pela mediação desses efeitos que exerce sobre o analista. Inicia-se, pois, a escuta da contratransferência, quando sentimos nossa mente sendo “colonizada” e “agida” por uma espécie de corpo estranho. O analista sofre então uma perda de liberdade, um ataque à neutralidade e à disposição de mente analítica, conduzindo a impasses que demandam um novo tipo de escuta (Figueiredo, 2014).

O momento bioniano compõe o quarto momento, quando algo se constitui para além das reações contratransferenciais frente às transferências do paciente: é o que Figueiredo (2014) denomina escuta imaginativa no sonho/rêverie. Mas o analista precisa ultrapassar o aprisionamento do campo transferencial-contratransferencial, libertando-se das identificações projetivas, e isso dependerá da retomada da problemática ética de Freud (1912/1969). No dizer de Figueiredo (2014):

O lema “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia” nos parece uma explicitação da atenção flutuante em sua dimensão ética, tornada mais difícil, complexa, arriscada e necessária diante das identificações projetivas e da clínica com pacientes psicóticos, onde a escuta kleiniana corria o risco da saturação. (p. 127)

O quinto momento é identificado como escuta empática — aqui, o analista tentará escutar o inaudível, o sofrimento emudecido. Nessa vertente, Winnicott (1956 citado por Figueiredo, 2014), a partir dos conceitos de preocupação materna primária e da mutualidade mãe-bebê e Kohut (1959) ressaltando a empatia como central em todo o campo das práticas psicanalíticas. Ambos destacam que devemos, então, escutar o não acontecido, as falhas derivadas do não atendimento sistemático às necessidades do eu pelos objetos primários, as quais tendem a se retrair, mantendo-se silenciosas e clivadas. Como ressalta Figueiredo (2014), o sofrimento se mantém inaudível não apenas quando o retraimento e o silêncio predominam, mas também quando emerge algum barulho, seja nos casos dos “narcisistas furiosos descritos por Kohut (1959), seja nos pacientes falso-self descritos por Winnicott — fazendo-se necessária a escuta do sofrimento silenciado tanto pela hiperadaptação como pela ‘dramatização histeriforme’” (p. 127).

Assim, a escuta empática de aspectos silenciosos do eu (e aqui ressaltamos o emudecido/o silêncio encoberto por estados furiosos ou negativistas) foi ganhando cada vez maior importância diante de psicopatologias que requerem atenção aos processos inconscientes não decorrentes do retorno do recalcado e das identificações projetivas. Mas Figueiredo (2014) adverte acerca do perigo de ocorrer, nas clínicas winnicottiana e kohutiana, uma confusão entre empatia e as projeções do analista, principalmente as projeções de seus pressupostos teóricos. É necessário, então, articular a atenção livremente flutuante de inspiração bioniana com a escuta empática.

O sexto momento que contemplará a complexidade da escuta na psicanálise contemporânea poderá nos ajudar a colocar a questão ética no contexto da “empatia” dos estados silenciosos do self. Devemos então considerar a importância de todas as estratégias de escuta, enfatizando tanto o primeiro momento freudiano quanto o bioniano, já que ambos nos possibilitam um abrir-se para o inesperado, como afirma Figueiredo (2014): “sem memória, sem desejo e sem compreensão prévia serão sempre o melhor dos antídotos contra a saturação da escuta analítica” (p. 127).

A escuta de Mateus, ou o degelar dos vulcões

Ser

Da neve no fogo um só ardor.

(Eugênio de Andrade)

Retomo então minha história com Mateus, sempre me perguntando sobre os caminhos tanto de diagnóstico como de escuta: embates, encontros e desencontros, busca do que se oculta, do que se esconde por trás do manifesto.

Anteriormente, falei do frio, da névoa e do silêncio, pois a queixa principal de falta de entusiasmo me levava a pensar que a matriz ferencziana poderia ser mais adequada para a compreensão do caso. Mas como vimos, uma matriz é suplementar à outra: o emudecido convivendo com furores, o inanimado se alternando com tremores de terra. Começou a dar-se a aparição, no subterrâneo da queixa de apatia, de uma agitação mal disfarçada que me conduzia para um lugar ora de confusão, ora de passividade. O núcleo frio convivia gradativamente com ventos abafados, o que me fazia perder o rumo. Via-me sem bússola, sem leme — na verdade, é assim que deve prosseguir a séria aventura analítica, o que não nos impede, entretanto, de interrogar, ansiando por ganhar algum prumo: como escutar?

O clima começou a esquentar: Mateus tão educado, tão polido, um verdadeiro cavalheiro, começara a reclamar que nenhuma melhora via em relação ao tédio e à inércia. Reclamações que se apresentavam ainda sem muita intensidade, mas suficientes para me inquietar. Mateus começava a “me chamar para a briga”.

De onde vinham essas forças/afetos transferenciais que investiam maciçamente sobre meu eu/corpo, eu já dominada, perdendo a liberdade e em vias de perder também a neutralidade? Faço minha a questão de Pontalis (1990): “a transferência é algo novo, é algo velho ou algo novo feito com algo velho? Prosa laboriosa do que foi ou poesia do que advém?” (p. 81). Se identificações projetivas lançadas dentro e sobre mim vêm com tamanha força, faz-se necessária uma escuta a partir da contratransferência, do quanto sou atravessados pelo outrora gelo que se transfigurava em chamas. Mas a disposição de mente necessária para a instalação da situação analisante foi quase soterrada no “campo de batalha” em que enactments e contraenactments se intercruzavam.

A essa altura, deixava de escutar Mateus seguindo a matriz ferencziana: sons e fúria me levavam a pensar na matriz freudo-kleiniana. A queixa que se apresentava como principal (tédio e apatia) arrefeceu. No lugar dela, Mateus começou a reclamar de seu “egoísmo” e novas facetas se revelaram. Era explosivo, irritava-se se contrariado e feria “pessoas boas”, como sua mãe ou a namorada. Propus que entendêssemos o que ele chamava de egoísmo. Mostrei-me disponível para acolher aspectos que eram repudiados. Tiro no pé: “eu parecia sua mãe passando a mão na sua cabeça” — recrutou com a raiva que não mais disfarçava. Queria então me chamar para um embate? Precisava da minha agressividade? Reconheci o risco apontado por Figueiredo (2014) de, na escuta empática, se confundir empatia com as projeções do analista. Lembrei-me também de Winnicott (1947/1978) advertindo de que atitude da mãe não pode ser sentimental, negando o ódio e a irritação, pois, dessa forma, a criança terá dificuldades, ao amadurecer, de “tolerar toda a extensão de seu ódio” — a criança “precisa de ódio para poder odiar” (p. 353).

Meu ódio era convocado: não sob a forma de retaliação, mas de tônus — precisava sobreviver, mas sobreviver não se resume a não revidar — inclui força e vigor. Há muito as montanhas cobertas de neve degelaram, revelando vulcões furiosos. O inanimado deu lugar às paixões. De qualquer modo, dois extremos de afetos brutos: o frio e o quente, o silêncio e o barulho sem possibilidade de mediação simbólica para fora do agir.

No campo transferencial-contratransferencial, Mateus me atingia em carne morta. Pontalis (1990) relaciona a transferência com a paixão e a repetição: “Em vez de rememorar, elaborar, ou seja, de fazer o que se espera deles, eles repetem, repetem incansavelmente. Em vez de dizer e simbolizar agem, pois a repetição, mesmo que utilize a via das palavras, é um ‘agir’” (p. 82).

Para que tudo seja o mesmo: Mateus recusava-se a mudar, a perder o passado, paradoxalmente, era ao presente que visava suas paixões-repetições. Impiedoso, Mateus vinha com seu ódio, seu desprezo por minhas intervenções (por mim também?) — e haverá nós mais estreitos? Quando o amor toma a fisionomia do ódio, o ódio sela um pacto de fidelidade eterna ao objeto primário. Pelo ódio, o vínculo se mantém sólido, indestrutível, eterno.

O alvo é minha própria carne: a ela se dirigem as palavras — paixões inflexíveis. Aqui a transferência é completamente situada no agieren. Deixa de ser metáfora para constituir a relação com o objeto na qual o sujeito investe toda a sua energia psíquica (lógica do desespero). Tudo extremo, tenso, a ponto de se romper: não há tédio de minha parte, mas sofrimento. Também, portanto, a contratransferência se situa sob a forma de agieren: apenas o corpo do analista se exprime numa imobilização física acompanhada de uma paralisia do curso de pensamento. Segundo Pontalis (1988), a atenção não flutua, mas se focaliza — “controle e vigilância recíprocos — pulsão de dominação” (p. 63).

As explosões das quais tanto se queixava passaram a ganhar nova direção, concentrando-se na cena analítica. Algo que se movimenta para dentro da relação é possibilidade-promessa do fortalecimento dos laços, nunca frouxos. Mas em minhas tentativas de comunicar a migração da irritação, a resposta vinha com maior violência: “você entende as coisas para o lado pessoal”.

Oferecendo intervenções com o propósito de comunicar a violência na minha direção, corri o risco de me aproximar de uma escuta kleiniana com suas interpretações saturadas. Além disso, Mateus se comprazia de negar os ataques tão visíveis. Continuei tateando, mas percebi que não era esse o caminho. A imagem que me surge: eu refém, amarrada numa cadeira, cordas vigorosas me aprisionando. Um misto de “passividade” (sobre a qual discorro adiante) com a linguagem da ternura de Ferenczi (1932/1992) (que se condensa com o sentimentalismo já referido) impossibilita que a força, o tônus necessário, seja apropriado por mim. Aqui também Pontalis (1990) nos auxilia:

Concebe-se que, quando a análise acaba falando assim a linguagem da paixão [...], o analista, numa situação inversa à de Ferenczi evocando a confusão das línguas entre a criança e o adulto, fique tentado a se proteger pela linguagem da ternura. (p. 89)

Não somente nesse momento, mas desde as primeiras falas me mostrei implicada “até o pescoço”, portanto, a contratransferência apresentava-se em suas múltiplas facetas. Pontalis (1990) adverte que se a transferência é realmente aquilo através do qual se exprime o essencial, também a contratransferência precisa ser considerada. Identifica então quatro palavras por trás de contratransferência, sendo a quarta denominada dominação, relacionada a certos pacientes que — independente da entidade nosográfica — exercem uma violência particular. É então suscitada no analista uma paralisia do pensamento, da psique e até do corpo: “Nada se move, nada tem mais o direito de mover-se, tudo está sob interdição: ausência de pensamentos, de representações, constrição corporal. Dessa vez, eu diria que se é atingido não em carne viva, mas morta” (p. 103).

Não encontro descrição mais apropriada do que acontecia entre Mateus e eu: apassivada, imobilizada e novamente minha imagem amarrada na cadeira, entretanto fazendo movimentos — e para isso servem a teoria e minha autoanálise ou análise e, de modo especial, aqui utilizei — à semelhança de restos diurnos — o estudo das modalidades de adoecimentos psíquicos e das escutas em psicanálise e a incessante busca de discriminar o que é na contratransferência aspectos da minha equação pessoal do que é próprio da relação. Escrever este texto também me ajuda a me desamarrar, desfazer-me de mim, para, a partir da disposição de mente, ocupando tanto uma posição técnica quanto ética, tornar a análise de Mateus operante.

Continuo com Pontalis (1990): contratransferência constitui a “transferência para nós do estranho — do que é mais estranho ao paciente” (p. 110). E o que seria mais estranho a Mateus que precisava em desespero transferir para mim?

Circunscrever o que é transferido é perder em abertura para o que pode advir, fechar a questão, saturar os sentidos. Aqui tudo é plural. Assim como eram inúmeros os “ataques” de Mateus, sempre em torno da não mudança quanto ao seu “egoísmo”. Interrogava-me hostilmente: “quero saber a verdade ou vou passar mais um ano sendo ludibriado — vou mudar ou não?”.

Também me colocava no rol das pessoas (mulheres?) mansas como sua mãe. Falei do tédio que o “manso” poderia gerar e ele concordou. Mas se com as namoradas mansas a paixão se desfazia, a convivência ganhando uma conotação claustrofóbica, com as explosivas como ele a relação “desandava”. Desse modo, não havia abertura para entrar numa experiência de intimidade: Mateus não tolerava “perder a liberdade”, não tinha vontade de casar ou ter filhos. Rompera com a namorada “doce” e se mostrava satisfeito com a vida de solteiro. Também comigo se debatia, numa recusa obstinada de receber o que oferecia, impossibilitando qualquer tipo de troca. Recusava afagos em preferência a fogo e insultos? Repudiava a possibilidade da experiência de formar uma dupla comigo e de receber cuidados. Parece-me que o sentir-se vivo estava restrito aos estados excitados: assim, revirava os mares de nossos encontros, provocando mais que marolas-tsunamis; embolávamos em “caixotes”, ondas gigantescas nos derrubando até o “morrer na praia”. Reterá a urina numa tentativa de conter o venenoso e destruidor?

Mas se continuava, apesar do negativismo radical e das reivindicações violentas, é porque algo fazia sentido: a busca de cuidado, embora como um bebê que se debate no colo, a cena analítica como arena, concentrando suas tendências destrutivas e, como ele dizia: “porque você é persistente”. Persistente por que a “boba”, “café com leite” de seu jogo imobilizador e/ou por que sobrevivia?

Deu-se então um movimento duplo e paradoxal: se, por um lado, aprisionava-me na passividade; por outro, convocava-me para ser ativa. Sendo “derrubada”, também ganhava tônus — atenta, dava respostas ativas, colocando-me com vigor.

Sua violência e o esforço permanente em colocar-me numa posição de passividade me alertavam sobre a necessidade de transferir para dentro de mim seus aspectos apassivados/mortos (“o morrer na praia”). Assim, comecei a pensar segundo a matriz transmatricial: o silêncio/o inanimado e o barulho ensurdecedor se misturando. Não apenas gritos precisavam ser ouvidos, também o emudecido buscava uma escuta empática.

Não foi à toa que me recordei de outra paciente: psicótica, com núcleos saudáveis preservados, criativa e sagaz, que fez uma comunicação eloquente sobre seu estado de ser. Relatou-me que, ao saber da história de uma mãe que jogou num rio seu bebê, não se compadeceu em relação a este, mas sim em relação à mãe, por causa do terror que devia estar experimentando para chegar a fazer isso. Penso em Mateus: também o terror poderia estar oculto sob as camadas de destrutividade. Falei sobre quão difícil deveria ser conviver com a dúvida sobre sua própria bondade — uma das poucas intervenções minhas que aceitou, parecendo experimentar alguma tranquilização.

Mateus sabia que precisava de análise: embora disfarçada, mantinha-se à procura obstinada de um espaço para o terror que o habitava. O texto de Roussillon (2015), a função do objeto na ligação e desligamento das pulsões, me auxiliou no direcionamento de uma escuta capaz de ampliar o entendimento da destrutividade e da violência a partir de uma análise de seu significado não em sentido absoluto, mas a partir do que significa para determinado indivíduo. A lembrança da fala de minha outra paciente, assinalando o terror por trás do ato desumano, articula-se com as proposições de Roussillon (2015). Segundo esse autor, a violência não deve ser encarada como expressão de uma “pulsão destrutiva”: outros fatores inconscientes podem estar relacionados — ansiedade, desamparo, sofrimento etc. E mais: é preciso considerar como a destrutividade se articula com a outra força “com a qual precisa entrar em acordo — a criatividade e o amor que está por trás dela” (p. 96).

Roussillon (2015) destaca três formas que tal articulação pode apresentar. O primeiro nível é o de “ligação” — o que ele chama de “amálgama primário das pulsões”. A “pulsão de morte” seria uma indicação da falência de tal ligação — o que leva ao desligamento. O segundo se refere à forma como o conflito de ambivalência se estrutura: implica a diferenciação de amor e ódio, ternura de violência e criatividade de destrutividade. O terceiro nível corresponde à predominância de amor ou de criatividade. Em relação a Mateus, podemos pensar em como o desligamento dominava seu funcionamento psíquico, tanto na apresentação de muitos momentos de “destruição pura” como na dificuldade enunciada sob a queixa de “egoísmo”, direcionando-nos para o reconhecimento de uma dificuldade de ligação com o objeto.

Acompanhemos a distinção feita por Roussillon (2015) entre conflito e paradoxalidade. Conflito tem a ver com pulsões no contexto de relações objetais; conflito de ambivalência requer uma estrutura psíquica regida pelo princípio de prazer-desprazer, com o indivíduo sendo capaz de discriminar “bom” do “mau”, experiências de prazer de experiências de desprazer. O paradoxo se refere a questões narcísicas: alguns tipos de paradoxalidade impossibilitam essas diferenciações, ocasionando uma confusão entre prazer e desprazer.

À medida que o tratamento analítico foi avançando, produziu-se uma situação limítrofe ou extrema, dando origem a reações terapêuticas negativas. Reconheci em Mateus o recrudescimento de processos de reação terapêutica negativa caminhando pari passu a explosões de destrutividade e negativismo. Tal resistência maciça se configurava na forma de uma série de “nãos”, relacionados a negativismos: “não” ao desejo do outro pelo terror de ser capturado, “não” à análise e ao analista, “não” à própria cura, “não” como recusa a perder o objeto e ser perdedor, “não à separação”. Portanto, o reconhecimento da reação terapêutica, neste caso, ganhou relevância.

A recusa se dirigia também a receber: apresentava-se, como afirma Roussillon (2015), uma espécie de autoprocriação — “uma rejeição de qualquer tipo de dependência” (p. 99). Sendo assim, a negatividade acirrada de Mateus dirigida a mim revelava repúdio a entrar numa relação de dependência. Há tempos seu pé deixara de doer; até que ponto precisara adoecer para entrar numa condição de dependência — momento em que necessitara viver no corpo o que era repudiado?

Marx (s/d citado por Roussillon, 2015) humorista estadunidense, para exemplificar o funcionamento de uma paciente que se autodesqualificava, atribuindo o bom somente ao outro: “não quero ser sócio de um clube que aceita como membro pessoas como eu”. Isso se aproxima do que Mateus enunciava: “Tudo o que me toca se torna ruim, porque eu sou o mau” — e eu também me tornava má, “desprezada”, já que o aceitava como sócio, fracassando em libertá-lo de seu mal-estar interno.

O autor assinala que o indivíduo se coloca numa posição de recusa existencial. É tarde demais para receber; assim, nada se pode esperar da análise — a transferência e a necessária ilusão a ela relacionada se paralisam porque o que deveria ter ocorrido na infância não ocorreu. É importante destacar aqui que Mateus falava pouco dos pais, possivelmente para preservá-los, e também insistia no contraste entre a caridade deles e seu egoísmo.

Ainda segundo Roussillon (2015), o fato de não receber o que precisava quando criança significa, para o indivíduo, que a culpa é dele, ele é o mau. Protege-se, assim, de experimentar afetos violentos em relação aos objetos primários; consequentemente, esses afetos se voltam contra o self, protegendo do desamparo infantil proveniente do confronto com as falhas. Como diz o título do artigo, o objeto tem função fundamental tanto na ligação quanto no desligamento das pulsões, quando as experiências são traumáticas. Vimos como o passado não é relatado por Mateus; paradoxalmente, assim como ele “age suas paixões”, também “age seu passado”. É o presente que é visado, mas o passado comparece, embora não possamos discriminar que tipo de experiência primária se vincula à configuração clínica que presenciamos.

Suponho que, por trás das explosões de Mateus, ocultava-se o terror de ser desintegrado, de explodir — o outro constituindo uma ameaça de ataque. Mais que uma ação, seguindo essa hipótese, constitui-se uma reação: “reajo, logo existo”. O “re-agir” seria resposta a um “agir” anterior — um par de termos muito estreitamente ligados, não opostos; mas que obedecem à mesma lógica. Aqui podemos fazer uma articulação com a Reação Terapêutica Negativa. Em trabalho anterior, afirmei: “uma defesa desesperada, em que prevalece o par ação-reação, obriga-nos a pensar sobre a questão da agressividade e do pedido de sobrevivência do objeto, ou seja, que este saia dessa lógica, desse território de guerra e caça” (2009, p. 65). Precisava sobreviver às agressões de Mateus, mas não sabia quanto tempo de sobrevivência seria necessário para que vislumbrasse resultados positivos, para que um vínculo de confiança se estabelecesse de maneira tal que ele não se sentisse ameaçado pela experiência de dependência.

Pensar na condição psicológica de Mateus como situação-limite, me conduz a destacar a necessidade de oferecimento de continência: uma escuta que facilitasse a integração das partes dissociadas e fragmentadas.

Outro padrão clínico se relaciona a bebês e crianças que sofreram um tipo de rejeição, especialmente físico-corporal, levando ao desenvolvimento de uma autorrepresentação como “lixo”; nesses casos, a violência se desenvolve como reação. O senso do self não se constrói em torno de “eu sou o seio”, mas sim em torno de “eu sou o mal”. Roussillon (2015) se refere ainda a uma culpa primária e a sentimentos inconscientes de culpa. No caso de Mateus, para a compreensão de sua posição subjetiva, é relevante considerar que, independentemente de como se deram suas experiências iniciais, estava presente o reconhecimento de uma culpa primária, ou, também, uma atuação da violência (tais como os “criminosos por sentimento de culpa”) com o objetivo de localizar os sentimentos inconscientes de culpa impossíveis de conter. Além disso, o “eu sou egoísta” equivalia a “eu sou o mal”, podendo então ser entendido no sentido de um desligamento do objeto em função de estar repleto de conteúdos maus perigosos.

Falhas na satisfação primária constituem um terceiro padrão clínico que se referem não apenas à satisfação das necessidades, mas também à presença afetiva do objeto e à sua função de espelho dos sentimentos da criança. A satisfação do objeto ao cuidar da criança é fundamental para que esta se aproprie de seu próprio prazer. Como consequência, vemos pessoas que, embora experimentem prazer, não têm conhecimento algum de satisfação.

Novamente, penso em Mateus, em sua radical insatisfação a mim dirigida, além do negativismo predominante frente aos meus movimentos e intervenções.

Roussillon (2015) traz ainda uma situação clínica relacionada à história passada do indivíduo, referindo-se ao fracasso que Winnicott (1969/1975) denominou sobrevivência do objeto, necessária para a capacidade de fazer uso do objeto. Ressalta, então, a necessidade de o objeto “sobreviver” à intensidade das pulsões, ao amor primitivo e às primeiras manifestações de destrutividade, sem retaliar, de modo a possibilitar que o indivíduo distinga objeto interno de objeto externo, segundo Roussillon (2015): “o objeto interno é o que está ‘destruído’ pela força das moções; ele se retira ou recebe represálias. O objeto externo é o que ‘sobrevive’, mantendo-se suficientemente firme em sua condição emocional” (p. 108). A possibilidade de destruir o objeto em fantasia contribui tanto para a pacificação da destrutividade quanto para conquistar meios não destrutivos de expressão. A destrutividade tanto se agrava quando fracassa em destruir na fantasia, quanto quando se confunde com a destruição real. E eis a afirmação fundamental de Roussillon (2015): “não conseguir criar uma fantasia destrutiva é incitação à destruição real” (p. 108).

Pela sobrevivência do objeto será possível a passagem da “relação do objeto” para o “uso do objeto”, em que o objeto é visto objetivamente, de modo a poder ser colocado em uso como objeto externo, distinto do interno, o das pulsões. Quando o objeto sobrevive: — “objeto, eu te amo porque você sobrevive” e “e eu o destruo na minha fantasia inconsciente” — possibilita a criação de um conflito de ambivalência, o qual, como já vimos anteriormente, constitui para Roussillon (2015) a principal barreira contra a violência.

De fato, minha “sobrevivência” é central na relação com Mateus, sendo condição para que ele alcance uma posição subjetiva diversa da que vem ocupando. Se eu “sobrevivo”, a autorrepresentação “eu sou egoísta/eu sou o mau”, os negativismos, as manifestações agressivas, as explosões como recurso defensivo para ele próprio não se fragmentar e a culpa primária podem vir a arrefecer. Espera-se ainda o resgate da confiança extraviada ou nunca experimentada de modo a se sentir seguro (sustentado) para comunicar aspectos não revelados de seu passado.

Mas será que venho sobrevivendo? Quando ele diz que sou “persistente” ou quando não retalio (não fico irritada, “não compro briga” etc.), parece que sim. É verdade que testa incansavelmente minha sobrevivência à sua destrutividade, movimentando-se na sessão de modo tirânico e sádico. Por outro lado, reconheço-me submetida ao que Pontalis (1999) designou como preensão contratransferencial: o morto e o vivo entrelaçados; afetado tanto no corpo quanto no funcionamento mental, o analista experimenta uma “mortificação”, como efeito do impacto das partes mortas do paciente. Preciso criar condições para conter e transformar tanto os aspectos mortos de Mateus como aqueles concernentes à minha própria vida fantasmática e a aspectos dominados por sua patologia. Até que ponto me mantenho viva e criativa de modo a transmitir-lhe que sobrevivo? Até que ponto seus ataques incessantes, deixando-me ora acuada, ora escutando o terror oculto subjacente à sua violência, não conduzem ao recrudescimento de seus sentimentos de culpa inconscientes? Porque é isso que se dá: um oscilar entre uma passividade e uma escuta empática atenta (livremente) ao inanimado, ao que não se deixa falar.

Pontalis (1999) também afirma que o funcionamento mental do analista fica ameaçado, embora falar de pensamento seja inadequado, porque este “encontra-se enquistado num corpo inerte” (p. 248). A nossa saída será, segundo o autor, imputar ao paciente a origem de nosso mal-estar: ele diz “tocado ao morto”, o que indica a morte da realidade psíquica, e é pelo contato com a morte da realidade psíquica que ocorre o que denomina de “preensão” da contratransferência. O analista se sente um depósito, como se fosse “nada”, mas o depósito também é um receptáculo, “um continente onde o sujeito deposita em segurança os seus próprios desperdícios rejeitados” (p. 249).

Um paradoxo: sou depósito, mas também receptáculo de Mateus, e se me ofereço como continente, se contenho o “mau”, abre-se caminho tanto para o reconhecimento de que minha criatividade não foi destruída, como para a ocupação de outra posição subjetiva que não seja “eu sou egoísta/eu sou o mau”. Além disso, preciso não desconsiderar ou minimizar a gravidade do que busca me transmitir, reconhecendo no referido “egoísmo” uma comunicação desesperada de seu isolamento e desligamento do objeto, de sua vivência de “falta de humanidade” e compaixão.

Mateus relata que o que lhe provoca irritação é o fato de as pessoas não funcionarem do jeito “que ele acha certo”, como se tivesse uma régua querendo que tudo funcionasse de acordo com suas convicções. Vejo aqui uma dificuldade em reconhecer a alteridade e também a necessidade de uma experiência de fusão, de indiferenciação. “Que o outro pense como eu” não seria equivalente à necessidade de o objeto ir ao seu encontro de modo fusionado? Chama-me a atenção seu pedido/ordem para que eu caminhe à sua frente quando entramos no consultório: acato sem interpretações retaliativas. Penso na oferta de um “meio maleável”, conceito de Milner (1955/1991) relacionado à necessidade de um tipo de experiência de fusão, que considera como uma necessidade primordial do ser humano. Isso é possível pela experiência de entorno pelo outro, de modo que um tipo de envolvimento possibilite um encontro como se fosse uma continuidade de si.

Últimas palavras

Palavra prima

Uma palavra só, a crua palavra

Que quer dizer

Tudo

Anterior ao entendimento, palavra

(Chico Buarque)

Caminho junto a Mateus em meio a afetos brutos, oscilando entre o que se deixa muito silenciosamente apresentar, manifestando-se anteriormente ao entendimento, e gritos lancinantes. Tanto o que se apresenta mudo quanto o que é voz são igualmente crus; entretanto, arrastam ânsias de ganhar forma e eloquência — pedido desesperado de deciframento sem que ocorra um desmascaramento.

Os textos e autores que me acompanham são restos diurnos, forração--solo, para que eu possa sonhar modos de cuidado, escuta e compreensão. Escutar superficialmente é disponibilizar-se em desapego de sentidos prévios: espera, que o sentido vem! Ou melhor, mantenha-se distraído, que algo do que não se deixa ver fará sua aparição: “sem memória e sem desejo”. Porque é lamento e também grito de ave de rapina, sagaz, faminta, impiedosa. Assim, ouso concluir que uma escuta complexa, polifônica se impõe — aquela que se dirige às múltiplas vozes (por mais paradoxais que sejam) e às várias formas de silêncio, desde lamentos quase inaudíveis até gritos selvagens.

Também a matriz transmatricial parece ser a mais adequada para o entendimento tanto das superfícies quanto da queda em lodo sem fim: da imobilidade circunscrita a quarto sem porta ou janela, à agitação do condenado, que não se cansa de debater, amaldiçoado, carregando um mal sem contornos. Acompanhando Mateus, vi-me convocada a ser guiada por um e, no lugar do ou: se, no início, a passividade, o mortífero ocultava a vida, no decorrer de nossos encontros, a pseudovitalidade ocultava o morto. Do frio ao tórrido, o pathos sempre presente em ardências, mesmo no gelo inicial (pois o gelo também queima): ele e eu queimados ora em carne-viva, ora em carne-morta. Porque Mateus anuncia que, mais ferido que o outro (e cá estou eu também alvo de sua ira), ele é o que pouco se levanta das dores autoinfligidas, das dores que decorrem dos ataques dirigidos ao outro. Mateus enuncia: “eu sou o que mais sofre”. Entretanto, impiedoso, pede que eu testemunhe tanto sua crueldade quanto seu desamparo. Desamparo gerado no território das origens? Por ora, reconheço o desamparo proveniente do estar à mercê de sua própria violência. Sou tanto depósito de sua urina, seus dejetos malditos, quanto receptáculo de sua inocência soterrada, encoberta por inúmeras camadas de destrutividade (A urina retida será em demasia temida devido ao risco que corre de descarregar, espalhar em fragmentos sua raiva, derramando sobre o corpo alheio lavas e restos venenosos de seu corpo indigno?).

Não posso ser nem inocente nem sentimental: meu ódio comparece com a face da vitalidade, e minha função maior deve ser a de sobreviver. Escutar os gritos de agonia que se misturam aos de fúria e guerra. Nem retaliar nem esmorecer. Imagino-o num poço ermo e profundo, enfurecido, impotente: fora esquecido ou escolhera abandonar seu lugar no asilo dos existentes? Fora ele quem se isolara, numa espécie de retraimento raivoso, barulhento, incendiário, desprezando o diferente, o que não atende aos seus desmandos e expectativas? Porque, se pensamos em retraimento como um afastar-se em reclusão do mundo, figura de desfalecimentos e sombra, também gestos descontrolados por revolta perpétua, ao romperem laços, ao darem as costas à humanidade, podem, caso desfeitas as máscaras do falso vivente, revelar igualmente isolamento e desligamento.

De novo, o vejo no poço abandonado, a imagem revelando seu semblante ora passivo: “vai me tirar daqui? Ou vai me deixar à mercê de meus impulsos desumanos?”. Lanço uma longa corda, até o fundo; mas também ele precisa com vigor responder ao meu chamado, segurando com tônus a corda salvadora. De que se salva Mateus? Ele que tanto fala, que é tão ativo, que tem tantos amigos, mas que guarda em segredo reclusão e isolamento. Entre chamas, se esconde, é sem dúvida um incendiário; no entanto, que desastre será não ser encontrado, resgatado do incêndio que queima seus recursos de ligação, sua necessidade de cuidado e dependência?

Ao falar de nãos e recusas, recordo-me do personagem Bartleby, em Melville (1986) o escriturário que, frente a indagações ora feitas com doçura, ora frente a enérgicas intervenções de seu chefe perplexo perante aquele homem enigmático, apenas enuncia: “Prefiro não fazer”. Em seu texto “L’affirmation negative”, Pontalis (2000) reconhece na imobilidade do escriturário a revelação não de uma resistência passiva, mas radical e imperativa: vê em sua repetida fórmula uma afirmativa. Também Mateus se afirma através de renitentes nãos. Mas, diferentemente de Bartleby (1986), com sua loucura doce, meu paciente se assemelha ao personagem Michael Kolhas, herói de Heinrich von Kleist, também lembrado por Pontalis (2000). Kolhas agita-se sem relaxar; com violência, tenta se fazer ouvir e, despossuído de seus bens, incendeia vilas e povoados. Tal como Mateus, incendiário, e ao mundo contra o qual rebela-se, devota e dedica chamas. Eles não preferem, querem absolutamente, obstinados em destruir. Como Bartleby (1986), Mateus diz não; como Michael Kolhas, ele atua através de sua agitação violenta.

Pontalis (2000) coloca Bartleby e Kolhas lado a lado, um em radical inquietação, outro em imóvel-fúria e silêncio. E repete: os intratáveis. Acrescento Mateus ao lado desses caros humanos, que através de nãos ocultam seu desalento. Exercem em nós a fascinação de tratar sua loucura — doce ou furiosa. Com seus frágeis meios, tentam curar uma angústia sem nome a fim de extrair de sua solidão e loucura alguma possibilidade de cuidado e humanização. Uma escuta se impõe por trás de tantos nãos, de paisagens glaciais e inacessíveis, de destroços e incêndios, uma afirmação imperiosa: um pedido de cura e de pertencimento à família humana, quando se julga insensível, sem caridade, com nenhum objeto fora de si mesmo, quando quer ardentemente libertar-se da maldição de seu egoísmo.

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Financiamento/Funding: Os autores declaram não terem sido financiados ou apoiados / The authors have no support or funding to report.

Recebido: 8 de Janeiro de 2018; Aceito: 5 de Maio de 2018

Editores do artigo/Editors: Profa. Dra. Ana Maria Rudge e Profa. Dra. Sonia Leite.

Conflito de interesses/Conflict of interest: Os autores declaram que não há conflito de interesses / The authors have no conflict of interest to declare.

Fátima Flórido Cesar De Alencastro Graça

Doutora em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –PUC-SP (São Paulo, SP, Br); Pós-doutoranda pela mesma Universidade. Autora dos livros: Dos que moram em móvel-mar e Asas presas no sótão: psicanálise dos casos intratáveis. Rua Carlos Sattelmayer, 23, 12242-450 São José dos Campos, SP, Brasil. fatacesar@gmail.com.

Luís Claudio Mendonça Figueiredo

Psicanalista; Professor aposentado da Universidade de São Paulo – USP (São Paulo, SP, Br); Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –PUC-SP (São Paulo, SP, Br). Rua Alcides Pertiga, 65, 05413-100 São Paulo, SP, Brasil

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