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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.22 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2019  Epub Jan 17, 2020

https://doi.org/10.1590/1415-4714.2019v22n4p782-8 

Artigos

A extimidade do supereu e um sujeito melancolizado

The extimity of the Superego and a melancholized subject

L'extimité du surmoi et un sujet mélancolisé

La extimidad del superyó y un sujeto melancolizado

Die Extimität des Über-Ichs und ein melancholisiertes Subjekt

*1Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Brasil).

*2Doutorando da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Brasil).

*3Doutoranda da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Brasil).


RESUMO

Na história da psicanálise, o conceito de supereu é objeto de inúmeros estudos por introduzir questões teóricas que exigem precisões sempre maiores. Uma delas diz respeito à articulação com alguns aspectos do conceito de Outro, em Lacan. Pretendemos contribuir ao debate, com a clínica da melancolia, seguindo à risca as orientações de Freud, inclusive em nossa leitura de Lacan, para o que nos servimos também de alguns outros autores. Chamamos a atenção para a tradução do verbo eintauchen, com o qual Freud identifica o mecanismo que relaciona o supereu com o isso. Um caso clínico ilustra de que modo o supereu imerge no isso para então, servindo-nos dos desenvolvimentos topológicos de Lacan, verificarmos de que maneira o toro do Outro pode imergir no interior do envelope das demandas, imergindo no isso, como dizia Freud, reservatório da pulsão que é, fundamentalmente, pulsão de morte.

Palavras-chave: Supereu; isso; Outro; melancolia

ABSTRACT

In the history of psychoanalysis, the concept of superego is the object of countless studies for introducing theoretical questions that require increasingly greater precisions. One of them concerns the articulation with some aspects of the concept of the Other in Lacan. We intend to contribute to the debate, with the clinic of melancholy, following the guidelines of Freud, even in our reading of Lacan, to which we also make use of some contributions from other authors. We call the attention to the translation of the verb eintauchen, with which Freud identifies the mechanism that relates the superego to the it (id). A clinical case illustrates how the superego immerses in the it, and then, using the topological developments of Lacan, we try to see how the torus of the Other can immerse itself within the envelope of demands, immersing in the it, as Freud used to say, the reservoir of the drive that is fundamentally the death drive.

Key words: Superego; it; Other; melancholia

ABSTRACT

Dans l’histoire de la psychanalyse, le concept du surmoi fait l’objet d’innombrables études car il introduit des questions théoriques nécessitant des précisions toujours plus grandes. L’une d’elles concerne l’articulation avec certains aspects du concept de l’Autre de la théorie de Lacan. Nous essayons de contribuer au débat, à la clinique de la mélancolie, en suivant rigoureusement les directives de Freud, y compris dans notre lecture de Lacan, et également d’autres auteurs. Nous attirons l’attention sur la traduction du verbe « eintauchen », par lequel Freud identifie le mécanisme reliant le surmoi et la « chose ». Un cas clinique illustre la manière dont le surmoi s’immerge dans la chose. En utilisant les développements topologiques de Lacan, nous vérifions comment le tore de l’Autre peut s’immerger dans l’enveloppe des demandes en s’immergeant, comme disait Freud, dans le réservoir de la pulsion qui est, fondamentalement, pulsion de mort.

Mots clés: Surmoi; ça; Autre; mélancolie

RESUMEN

En la historia del psicoanálisis, el concepto del superyó ha sido objeto de innumerables estudios, ya que introduce cuestiones teóricas que siempre requieren mayores precisiones. Una de ellas se refiere a la articulación con algunos aspectos del concepto de Otro, en Lacan. Se pretende contribuir al debate con la clínica de la melancolía, siguiendo al pie de la letra las orientaciones de Freud, incluso en nuestra lectura de Lacan, para lo cual también consultamos a otros autores. Llamamos la atención sobre la traducción del verbo eintauchen, con el que Freud identifica el mecanismo que relaciona al superyó con el ello. Un caso clínico ilustra de qué manera el superyó se sumerge en el ello para entonces, sirviéndonos de los desarrollos topológicos de Lacan, verificar de qué manera el toro del Otro puede sumergirse en el interior del sobre de las demandas, sumergiéndose en el ello, como decía Freud, reservorio de la pulsión que es fundamentalmente pulsión de muerte.

Palabras clave: Superyó; ello; Otro; melancolia

ABSTRACT

In der Geschichte der Psychoanalyse ist das Konzept des Über-Ichs bis heute Gegenstand zahlloser Studien, da es theoretische Fragen aufwirft, die zunehmend präzisere Antworten erfordern. Eine dieser Fragen betrifft den Zusammenhang mit einigen Aspekten des Konzepts des Anderen von Lacan. Dieser Artikel untersucht die Klinik der Melancholie gemäß Freuds Richtlinien, sogar in unserer Lektüre von Lacan, zu der wir auch einige Beiträge anderer Autoren zu Hilfe nehmen. Wir weisen auf die Übersetzung des Verbes eintauchen hin, mit dem Freud den Mechanismus identifiziert, der das Über-Ich mit dem Es in Beziehung setzt. Anhand eines klinischen Falles zeigen wir auf, wie das Über-Ich in das Es eintaucht und untersuchen dann - anhand der topologischen Entwicklungen von Lacan - wie der Torus des Anderen in die Hülle der Forderungen eintauchen kann, eintauchend, wie Freud sagte, in das Reservoir des Triebes, der im Grunde der Todesantrieb ist.

Schlüssel Worter: Über-Ich; Es; Andere; Melancholie

Introdução

Neologismo criado por Lacan (1959-1960/1986) para representar a invaginação do exterior que faz o dentro ficar fora e o fora ficar dentro, como mais tarde o retomou (Lacan, 1976-1977) na construção topológica do entrelaçamento dos dois toros, o do Outro e o do sujeito que surge do furo central daquele - como Lacan já o havia construído em seu seminário sobre a Identificação (1961-1962) -, a extimidade localiza o intangível objeto lá mesmo onde ele é intangível, mas de onde move (causa) o sujeito.

Um sujeito melancolizado retoma o tema debatido por Diana Rabinovich (1984) em “Uma histeria ‘desmelancolizada’”, texto no qual a autora apresenta o caso de uma mulher histérica que, com o trabalho de análise, “desmelancoliza”. A depressão que a atingia velava sua histeria, o que, por algum tempo, levou-nos a acreditar que o caso Suzane pudesse compartilhar a mesma vicissitude.

O texto que segue, retomando algumas das muitas contribuições ao conceito de supereu ao longo da história da psicanálise, parte da seguinte questão: na medida em que Freud (1923/1992d) deriva o conceito de supereu de seu anterior conceito de Ideal do eu - estabelecido nove anos antes, em “Introdução ao narcisismo” (Freud, 1914/1992a) -, por muitos anos leitores de Lacan aprofundaram a pesquisa sobre o supereu em articulação com o conceito de grande Outro, tomado como aquele que, preexistindo ao sujeito, impõe a este uma estrita moral, a ponto de o “eu só se apresentar e se sustentar, como problemático, a partir do olhar do grande Outro” (Lacan, 1960--1961/1992, p. 342). Mas, como chamam também a atenção Freitas & Rudge (2011), ao assim interpretá-lo, esquecemo-nos de toda uma outra vertente que esse conceito freudiano tardio também comporta sob a própria pena de Freud, quando este o articula com gozo (Genuss, Freud, 1917[1915]/1992b, p. 249), com o humor (Freud, 1927/1992f) e com a pulsão de morte (Freud, 1920/1992c), a que Lacan não deixou de chamar nossa atenção, na tentativa de nos fazer compreender que o supereu se fortalece bem mais com as fontes que emanam do próprio isso, muito mais do que de simples preceitos morais. É essa vertente do supereu que nos dita sua “herança pulsional [...] ao associar ao masoquismo do eu o sadismo do supereu com estas exigências desmedidas” (Freitas & Rudge, 2011, p. 260).

A esse respeito, observamos, com Rivera (2012), que “O triunfo maníaco tem, assim como a apatia melancólica, algo de mortífero e intratável. Ambos deixam a porta aberta ao gozo, tão bem expresso por Freud ao falar do ‘autotormento indubitavelmente deleitável’ da melancolia (p. 236). Em sua interpretação de “Luto e melancolia” de Freud (1917[1915]/1992b), Marilene Carone que traduz o texto para o português buscando fazer maior justiça ao autor diante do que, o marido dela, Modesto Carone (2013, s/p), identificou como a “irresponsabilidade propriamente selvagem das traduções aqui perpetradas”, retoma o termo Genuss, de Freud, como “algo que está além - ou aquém - da distinção entre prazer e desprazer, algo que, sendo um sofrimento, é ao mesmo tempo um deleite” (Rivera, 2012, p. 236). É o que dá esteira a Lacan de retomá-lo em seu conceito de gozo, e que, conforme Rivera (2012), se perde nas novas traduções de Paulo César de Souza (pela Companhia das Letras) e da equipe de Luiz Hanns (pela Imago) quando “optam por ‘prazeroso’ e com isso perdem a oportunidade de distinguir o termo de Lust, muito mais frequente no texto freudiano e claramente referenciado a Lustprinzip (princípio de prazer)” (Rivera, 2012, p. 236). A preocupação sobre a qual Tania Rivera insiste e sobre a qual Marilene Carone já se voltara em sua tradução, está inequivocamente traduzida na versão da obra de Freud em espanhol, publicada pela Amorrortu: “Ese automartirio de la melancolía, inequívocamente gozoso, importa, en un todo como el fenómeno paralelo de la neurosis obsesiva, la satisfacción de tendencias sádicas y de tendencias al ódio” (1917[1915]/1992b, p. 249; grifo nosso). Depois de trabalhar anos o conceito de supereu em Freud, Gerez-Ambertín (2007) ainda pode observar: “el superyó es el resultado de las paradojas de la ley del padre, el saldo desregulante de tal ley que incita a gozar: ir más allá del principio del placer. En ese imperativo de goce se pierde la subjetividad y lo que de ella permite el lazo social” (Gerez-Ambertín, 2009, p. 1095).

É então para retomá-lo conceitualmente que construimos este texto e, para verificar nossa construção, apresentamos um caso clínico em que um sujeito melancolizado permite, talvez, que nossos leitores nos acompanhem num pequeno avanço da teoria.

Metodologicamente, procedemos assim: inicialmente, uma revisão bi- bliográfica na história do conceito permite sublinhar, no texto freudiano, não apenas as bases, mas também as faces do supereu. Dessa revisão também ressalta o fato de que é ao tratar da melancolia que Freud mais se aprofunda na conceituação do supereu, em especial no que tange ao sentimento de culpa o qual, definitivamente em 1930, Freud identifica com aquele que se alimenta de si mesmo, quando escreve que é ao se sentir culpado pelo que não fez, por ter cedido a seu desejo diante das exigências do supereu, que o sujeito mais se culpa. E não ao contrário, como poderia imaginar uma psicologia rasa que, em se deparando com a culpa de um sujeito a identificaria como resultado de uma ação de malfeito. É, na realidade, a não ação que leva à culpa que, em última instância, é a cobrança subjetiva de fazer o que se quer sem que o sujeito se encoraje para isso. Examinaremos então o caso Suzane e o discutiremos. Finalmente e a partir do caso, retomamos algumas orientações para o desenvolvimento de trabalhos futuros, não sem levantarmos uma hipótese teórica.

O supereu em Freud

A primeira vez que Freud formalizou o conceito de supereu foi no texto “O eu e o isso”, de 1923, e o que ali conceitua já se delineava em “Luto e melancolia”, de 1917. Na melancolia ocorre um intenso sofrimento a partir do momento em que “um objeto perdido volta a erigir-se no eu, vale dizer, quando um investimento de objeto é intensificado por uma identificação” (Freud, 1923/1992d, p. 30). No ano de 1923, Freud reconhece que não conhecia a importância do processo que envolve a formação do supereu e nem dimensionava “quão frequente e típico ele é” (idem).

O supereu é uma instância profundamente ligada à identificação, na verdade resulta desse processo. A princípio, na fase que Freud chama de “primitiva oral, é completamente impossível estabelecer uma distinção entre investimento de objeto e identificação” (Freud, 1923/1992d, p. 31). O próprio eu se mostra objeto de investimento libidinal, o que Freud pode construir a partir de 1914, em seu texto “Para introduzir o narcisismo”. Quando há possibilidade de, num momento posterior, distinguir o outro do eu e investir o outro libidinalmente, é também preciso estar preparado para a possibilidade da perda dele, quando é necessário renunciar ao objeto perdido. O texto “Luto e melancolia” trata exatamente do trabalho que o eu precisa fazer para essa renúncia, trabalho durante o qual o objeto perdido é reerguido no interior do eu, a partir dos investimentos libidinais que antes o investiam fora. Assim, em 1923, Freud observa que quando o sujeito é levado a renunciar ao objeto sexual, “seja porque assim deve ser ou porque não há outro remédio, não é raro que, em troca, sobrevenha a alteração do eu que é preciso descrever como um erguimento do objeto no eu” (Freud, 1923/1992d, p. 31).

Primitivamente a identificação ocorre com relação às figuras parentais, tendo em especial importância o pai. Dois anos antes, justamente em um capítulo sobre a Identificação, Freud observara que “a psicanálise concebe a identificação como a mais precoce exteriorização de uma ligação afetiva com outra pessoa” (Freud, 1921/1991a, p. 99). Em 1923, a partir do processo de identificação, Freud (1923/1992d) então aborda as diferentes configurações que o complexo de Édipo pode apresentar, levando-se em conta as diferentes escolhas objetais que são particulares a cada sujeito. Nesse momento, tece as consequências do processo de introjeção do objeto sexual em decorrência das renúncias pulsionais a serem realizadas pelo sujeito em seu complexo de Édipo. O resultado desse processo, supõe Freud, “é uma sedimentação no eu, que consiste dessas identificações, unificadas de alguma maneira entre si. Essa alteração do eu recebe sua posição especial: se opõe ao outro conteúdo do eu como ideal do eu ou supereu” (Freud, 1923/1992d, pp. 35-36).

Eis, portanto, o por quê de, por tanto tempo, psicanalistas identificarem o supereu com a instância moral do ideal do eu, introjetada a partir da elaboração do complexo de Édipo da qual Freud (1923/1992d), explicitamente diz que ele é herdeiro. No entanto, já está claro nesse texto em que Freud introduz o conceito, que há uma relação intrínseca entre o supereu e o isso, na medida em que o supereu é fruto dos investimentos libidinais - sempre advindos do isso, pois o isso é o reservatório da libido (Freud, 1923/1992d, p. 32).

Na 31ª conferência. A Decomposição da personalidade psíquica, de 1933 - na qual Freud aprofundou boa parte dos conteúdos abordados no texto “O eu e o isso”, que vimos trabalhando até aqui - essa relação entre o supereu e o isso é salientada. Nela, Freud (1933/1991b) retoma e aperfeiçoa o grafo do texto de 1923, segundo ele modesto, em que são apresentadas “as relações estruturais da personalidade anímica” (p. 73).1

Figura 1 “O supereu emerge no isso” (Freud, 1933/1991b,p. 7), poderíamos redesenhá-lo assim 

Esse grafo evidencia que: “o supereu imerge no isso; de fato, como herdeiro do complexo de Édipo mantém íntimas conexões com ele; está mais afastado que o eu do sistema de percepção” (p. 732; grifo nosso).

As funções do supereu

Se o supereu mantém intensas relações com o isso, não é de se espantar que os caminhos traçados por Freud até elaborar esse conceito tenham partido do estudo das psicoses, mais precisamente, da observação das reações patológicas com relação à perda de objeto na melancolia. Diante da renúncia em relação ao objeto perdido, o melancólico, tal como a criança em fase primitiva, o internaliza (Freud, 1923/1992d). Mas ao contrário do que acontece no luto, no qual, como vimos, o eu se enriquece com o objeto que incorpora, na melancolia não só não há esse enriquecimento como, além disso, o objeto perdido faz sombra ao eu, poderíamos dizer, sangrando-o, em associação com a metáfora da qual Freud já lançara mão em suas cartas a Fliess nas quais observara que na melancolia a libido sangra, “escorre pelo ralo” (Freud, 1895/1992, p. 245). Esse eu, muito mais próximo do sistema de percepção do que o isso, como dito por Freud, entra em conflito com o mundo externo na psicose (Freud, 1924/1992e), despedaçando-se como um cristal.

A analogia entre o cristal quebrado (Souza, 1999) e o desencadeamento da psicose foi elaborada por Freud em “Decomposição da personalidade psíquica”.Segundo ele:

Si arrojamos un cristal al suelo se hace añicos, pero no caprichosa-mente, sino que se fragmenta siguiendo líneas de escisión cuyo des- linde, aunque invisible, estaba coman-dado ya por la estructura del cristal. Unas tales estructuras desgarradas y hechas añicos son también los enfermos mentales. (Freud, 1933/1991b, pp. 54-55)

Pela observação dos cortes e cacos de um cristal quebrado é possível apreender algo a respeito da forma como esses cacos se articulavam previamente. E não há clínica que melhor o demonstre do que a própria psicose, no que o próprio Freud aposta: “eles se afastaram da realidade exterior, mas justamente por isso sabem mais a respeito da realidade interior, psíquica, e podem revelar-nos muitas coisas que de outra forma nos seriam inacessíveis” (Idem).

Freud dá razão aos loucos, ou seja, aposta que a sua patologia possa nos ensinar algo a respeito do anímico e, de fato, foi a partir do delírio de ser observado que ele chega à formulação do supereu: “e se os loucos tiverem razão?” Ou seja, e se realmente houver dentro de nós uma instância que nos “observa e ameaça com castigos”? (Idem, p. 55).

De um lado, Freud, ao descrever o supereu, o aproxima de nossa consciência moral: “sinto a inclinação de fazer algo que me daria prazer, o evito com o fundamento de que minha consciência moral não permite” (Idem). O supereu, no entanto, é uma “constelação estrutural” que não abarca apenas a consciência moral. No texto de 1933, Freud aponta três funções que concernem ao supereu: 1) a consciência moral, que poderia se aproximar do que comumente chamamos de voz da consciência; 2) ser portador do Ideal do eu: com relação a esse ideal o eu se mede, aspirando alcançá-lo. Freud aproxima o Ideal do eu da “velha representação dos progenitores” (Freud, 1933/1991b, p. 60). É nesse texto que ele diferencia mais claramente o Ideal do eu do supereu, termos que tratou como sinônimos no texto de 1923. O Ideal do eu encontra-se profundamente relacionado à identificação, e sua formação está no campo do simbólico. Outra função do supereu é 3) a observação de si: “indispensável como premissa da atividade crítica da consciência moral” (p. 56). Afinal, a observação de si permite ao supereu estabelecer uma comparação entre o eu e o Ideal do eu, para que então a consciência moral possa dar o seu veredito. Freud salienta em “O eu e o isso”:

o ideal do eu3 tem, em consequência de sua história de formação (de cultura), o mais vasto enlace com a aquisição filogenética, essa herança arcaica do indivíduo. O que na vida anímica individual pertenceu ao mais profundo, se torna, pela formação de ideal, o mais elevado da alma humana no sentido de nossa escala de valores. (Freud, 1923/1992d, p. 38)

Por outro lado, como veremos adiante, o supereu pode castigar excessivamente o eu, e não é apenas na melancolia que isso acontece.

O sentimento de culpa

Na 31ª Conferência, Freud (1933) destaca os casos em que o supereu pode se converter em um tenaz perseguidor para o eu, ao tornar-se excessivamente rígido. Nesses casos verifica-se uma tensão constante entre o eu e o supereu e que é expressa pelo “sentimento de culpa moral” (Freud, 1933/1991b, p. 56). Em “O mal-estar na cultura”, Freud (1930/1986) aponta duas origens para o sentimento de culpa:

  1. Angústia diante da autoridade paterna: diante dessa angústia o sujeito é compelido a renunciar à satisfação pulsional. Diante dessa renúncia, que nada mais é do que o recalque da representação a que estava relacionado o objeto investido, espera-se que o sentimento de culpa seja suplantado. Há casos, no entanto, em que essa renúncia não basta para aplacar a angústia. E daí a origem do sentimento de culpa não mais ocorre em relação à autoridade externa (p. 123). Trata-se de uma:

  2. Angústia diante do supereu: nesse caso, a abstenção pulsional já não garante ao sujeito a segurança do amor (idem). A ameaça que antes era efetivamente realizada por uma autoridade externa “é trocada por uma infelicidade interior permanente, a tensão da consciência de culpa” (idem). Agora é a “autoridade interna” que conduz à renúncia pulsional.

Eis como a angústia diante da autoridade externa conduz à formação da consciência moral (função do supereu), e a cada renúncia pulsional diante dessa autoridade interna, a severidade e a intolerância são aumentadas (idem, p. 124). Assim, Freud chega à seguinte “tese paradoxal”: “a renúncia pulsional (que nos é imposta externamente) cria a consciência moral, que depois reivindica mais e mais renúncias” (idem).

O sentimento de culpa, em suas fases mais tardias, coincide com a angústia diante do supereu e se exterioriza como “necessidade inconsciente de castigo” (idem, p. 131). Trata-se de uma exteriorização pulsional do eu que “tornou-se masoquista sob o influxo do supereu sádico” (idem, p. 132).

Esse sadismo está relacionado a um fragmento de pulsão de morte que é incorporado ao eu através do supereu (idem). Trata-se de pulsão de morte que não chega a exteriorizar-se como pulsão de destruição. O fato de não exteriorizar-se, como podemos ver, não a torna menos mortífera, afinal, ela se volta contra o próprio sujeito.

Temos mostras desse processo mortífero por meio de um caso clínico.

Caso Suzane

Em 2010 Suzane iniciou o tratamento em um Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) de um curso de Psicologia. Os atendimentos continuaram até 2019, o que nos faz atestar a existência e persistência de uma relação transferencial com aquela que, no início de seu tratamento, era apenas uma estudante de graduação.

A paciente relatou que seu pai, sírio, foi criado na cultura árabe. Veio para o Brasil ainda criança. Sua mãe pertencia à mesma cultura - era prima de segundo grau dele -, mas já nascera no Brasil. Quando se conheceram no Rio de Janeiro, a família queria que o pai de Suzane se casasse com uma moça que, na realidade, era irmã mais velha daquela que finalmente aceitou casar-se com ele - a mãe de Suzane. A irmã mais velha da mãe de Suzane não aceitou o pedido de casamento e foi sua irmã mais nova, ao participar da situação, quem disse a ele, com seus então apenas dez anos de idade: “Volte quando eu estiver mais velha, e eu me caso contigo” (sic). Dez anos depois, ele estava lá. E se casaram, indo morar em São Paulo.

Suzane nasceu em São Paulo e, para a decepção do pai que, conforme a cultura de origem apregoava a importância de o primeiro filho ser um varão, foi a primogênita. Seu pai dizia que a filha parecia um homem, pois teria um rosto embrutecido.

Não só ao longo de sua infância, mas sobretudo na adolescência, Suzane sofreu diversos episódios de agressões físicas do pai, que ocorriam não sem que sua mãe, de alguma forma, os propiciasse: fazendo de conta de acobertar a filha em saídas de casa, nas quais a adolescente gozava de toda liberdade porque ninguém tomava conhecimento do que ela fazia, a mãe, na realidade, depois contava ao pai a respeito do que a filha havia feito, o que o deixava furioso. Impossibilitada de assumir seus relacionamentos fora de casa, entre várias outras coisas, Suzane submeteu-se a nada menos do que seis abortos. Foi a mentira que distanciava a filha do pai a partir dos falsos acobertamentos da mãe. E isso acabou por manter Suzane encurralada numa posição de filha, abrindo mão de viver com os namorados que teve. Segundo a paciente, todos os abortos foram sugeridos pela mãe, que atemorizava a filha dizendo que seu pai ficaria furioso caso soubesse das gravidezes. Temendo a reação do pai, Suzane, a contragosto, realizava os abortos, o que lhe causa muito arrependimento ainda hoje, culpada.

Suzane chegou a morar com um de seus namorados, mas apenas se estabilizou com o homem que conheceu por intermédio de seu pai. Seu nome era Jorge e ele realizava serviços de obra no apartamento em que Suzane morava com os pais, além de fazer bicos como segurança da rua. O pai de Suzane se afeiçoou muito ao rapaz e não demonstrou resistências ao seu namoro com a filha. Mesmo após a morte da mãe, tal como madame Bovary - capaz de corromper o marido do “além-túmulo” - a mãe fez um pedido que manteve Suzane submetida a seu desejo mortífero: disse aos dois outros filhos - irmãos mais novos de Suzane e que já eram casados - que cuidassem da irmã mais velha, ajudando-a financeiramente inclusive, pois, segundo a mãe, Suzane era incapaz, a mais frágil dos três. Outro fato que manteve Suzane ligada ao desejo materno - o de que ela não tivesse filhos - era a infertilidade de Jorge.

Suzane se sustenta financeiramente com a herança deixada pelo pai - e que inclui alguns imóveis hoje alugados. O valor do aluguel é dividido entre os três irmãos e Suzane é a única que depende apenas da herança, já que não trabalha. Ela vive em um dos imóveis do pai e, para sustentar as contas do apartamento, se afunda em dívidas. Além disso, vive com Jorge que realiza trabalhos apenas esporádicos. Suzane lhe empresta dinheiro para sustentar o vício dele em bebida e cigarro - o que o faz estar recorrentemente em dívida em relação a ela. Ela, por sua vez, mantém-se endividada com o banco. Parceiro que Suzane herdara do pai, já que teria sido este o único homem contra o qual o pai nada tinha a opor, Jorge garantia sua posição de endividada, e ela reproduzia, com ele, uma vida que se espelha no Ideal do eu representado pela figura da mãe, em que Suzane se vê refém das exigências de seu implacável credor: o supereu. É em relação a este que ela se encontra primariamente endividada, sendo a dívida com o elemento externo, o banco, mera consequência da dívida interna e primordial com o supereu.

Queixava-se pelo fato de sua família estar diminuindo cada vez mais: faleceram os pais, uma prima, uma tia, o único sobrinho, filho de seu irmão, o único dos três que tivera filhos - já que sua irmã, assim como Suzane (ambas, hoje, com cerca de sessenta anos), não deixa descendentes. Esse irmão, além do rapaz falecido, tivera um filho que sofria de retardo mental e uma filha que, aos 16 anos, fugiu de casa e anos depois teve um filho, a única criança que faz parte da família hoje, família cada vez mais reduzida. É interessante notar que, quanto ao luto de todas essas perdas, Suzane só viria a falar dele quando ocorreu a morte do ator José Wilker, em 2014. Foi apenas nessa data que Suzane falou com um grande amigo a respeito da tristeza que sentia pela morte do ator e, em associação, a de seus familiares. Esse amigo, então, lhe disse: “Suzane, o seu luto não é mais pelos outros, mas por você” (sic).

A perspicácia da intervenção do amigo corrobora as observações que pudemos fazer quanto ao amálgama totalizador que operava no seio de Suzane, levando à hipótese de uma negativação do sujeito, mortificado pela sombra do objeto que caía sobre ele (Freud, 1917]19151992b). Através desse caso, testemunha-se, mais uma vez, como a rigidez do supereu parece estar atrelada à presença de um Ideal do eu excessivamente intocável. Suzane se refere à presença, dentro de si, de um ideal inatingível, representado pela sua mãe: “Eu me achava uma criança que era o patinho feio, achando que igual à minha mãe não tinha, porque ela era linda, e meu pai não gostava de mim” (sic). A representação que se precipitou em seu Ideal do eu, dessa mãe “que igual não tinha” parece ilustrar a definição de Freud: “não há dúvida de que esse Ideal do eu é o precipitado da velha representação dos progenitores, expressa a admiração por aquela perfeição que a criança lhes atribuía nesse tempo” (Freud, 1933/1991b, p. 60). Para alcançar esse Ideal, Suzane procura reviver, ao lado de Jorge, o relacionamento outrora estabelecido entre seus pais. Sua mãe, conforme ela própria lhe dizia, sofria ao lado do marido. E Suzane dispensa uma enorme quantidade de energia psíquica para viver o mesmo padrão de relacionamento estabelecido entre os pais, queixando-se, tal como a mãe, dos abusos e da agressividade de seu companheiro.

O Ideal do eu

Diferentemente do eu ideal, imagem herdeira da ilusão narcísica infantil de ser amado (Freud, 1914/1992a, p. 92), o ideal do eu é o ponto no Outro do significante a partir do qual o sujeito se vê como suscetível de ser amado, mas que ele, como sujeito, jamais alcança. Na verdade, o ideal do eu é o Ideal do Outro, por isso Lacan o escreve com o matema I(A). É o lugar do qual o sujeito aguarda, anseia um olhar de amor, de reconhecimento de seu valor. Lacan (1964/1990), no Seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, cita uma singela anedota que ilustra a questão: Uma menininha lhe dizia gentilmente que já era hora de alguém se ocupar dela para que ela parecesse amável a si mesma.

Portanto, é “no Outro que o sujeito busca sua imagem ideal, fazendo dele um espelho da maravilha que ele é, para, então, encontrar seu lugar de majestade no desejo do Outro” (Quinet, 2012, p. 118). His majesty the baby (Freud, 1914/1992a, p. 88) destronado almeja retomar seu cetro, o sujeito não cessa de demandar amor. No afã de angariar amparo e acalanto do Outro, o sujeito impõe-se pesadas restrições e renúncias para acomodar-se ao que a mirada do ideal tenciona. A formação do ideal, nos diz Freud, aumenta as exigências do eu e é “o mais forte favorecedor do recalque” (Freud, 1914/1992a, p. 92). Tal como no mito do leito de Procusto, o eu, para moldar-se ao ideal, “mutila-se” e uma parte de si próprio sucumbe ao recalcamento. “Estica-se” para atingir os mais altos padrões éticos à custa de uma pesada limitação pulsional. “O sujeito”, nos diz Quinet, “está sempre aquém das contas que tem que prestar aos olhos do Ideal - e o credor é o supereu” (Quinet, 2009, p. 176). Credor que não raras vezes se apresenta como um agiota “fora-da-lei”.

Lá onde o sujeito busca um olhar de amor e de admiração, poderá se deparar com o olho mortífero do supereu, objeto olhar em sua vertente tirânica. Isso por causa da idealização do Outro na psicose melancólica, que lhe atribui uma consistência por não ser barrado, levando o sujeito a apenas resignar-se e encarnar o objeto do Outro gozador, fazer-se objeto da violência do Outro (Hamon & Trichet, 2017). O lugar em que Suzane seria admirada, se aproximaria do ideal representado por sua mãe. Mas, por mais que se esforce em alcançá-lo, Suzane continua, aos olhos do Outro, sendo o “patinho feio”, um rebotalho, um dejeto, indigna de amor por estar muito aquém do que o seu ideal lhe impõe. Assume então tal responsabilidade por isso que, a própria culpa que se impõe pode ser uma tábua de salvação sem a qual “o sujeito pode encontrar-se diante de um deixar cair: ele é largado por um Outro massivamente repelido pelo objeto dejeto que ele encarna” (idem, p. 532). Almejar equiparar-se à perfeição imposta pelo ideal é uma empreitada tantálica na perspectiva freudiana: O “eu obediente e austero não goza da confiança de seu mentor e, ao que parece, se esforça em vão para adquiri-la” (Freud, 1930/1986, p. 122). Cada renúncia pulsional aumenta a intolerância do supereu e o faz reclamar mais e mais renúncias. Assim sendo, o sentimento de culpa cresce exponencialmente, para desespero do pobre eu.

Essa paciente nos traz a dimensão da severidade com que a consciência moral, também presente no supereu, castiga o eu: “tem um lado dentro de mim, um lado doente eu acho, emocional, doentio… e esse lado que eu tenho dentro de mim é que ficou preso ao meu pai pela rejeição, meu pai me rejeitava muito, e minha mãe um pouco” (sic).

A postulação do supereu descreve uma “constelação estrutural” (Freud, 1933/1991b, p. 60) que não se limita ao patológico; muito pelo contrário, estende-se até à normalidade mais ordinária. O doente, nos diz Freud, “somente erra quando translada para fora este poder incômodo, como algo que lhe seria alheio” (Freud, 1917[1916-1917]/1991,p. 390). Esse “lado dentro de mim” é concebido por Lacan como uma instância êxtima, pois nada é tão íntimo e tão exterior, tão alheio quanto o incômodo e poderoso supereu que não cessa de devassar e criticar o sujeito. Deparamo-nos com as duas funções principais do supereu: vigilância e crítica, estas correspondem a dois objetos pulsionais, a saber, o olhar e a voz.

Não somente Suzane, mas todos nós somos primordialmente seres olhados e falados. Esse fator estrutural engendra o supereu, esse “lado dentro de mim” que não cessa de perscrutar e julgar, vigiar e punir. Instância cuja gula é insaciável, que impõe renúncias e castigos que podem levar o sujeito até mesmo à morte. Mas afinal, o que se pode diante d’isso? Eis uma questão fundamental para a clínica psicanalítica que merece ser retomada em outros trabalhos, para o que propomos, então, uma hipótese.

A construção de uma hipótese

Suzane, literalmente, “ficou para titia”, o que não é sem relação com a própria história do casal parental, pois a mãe de Suzane não fora o objeto de desejo de seu pai que queria se casar com a tia desta, mas que não o aceitou, e ele teve que esperar dez anos para casar com a irmã mais nova. Irmã mais velha, Suzane carregava em seu seio a tia de quem a mãe roubou o marido aos dez anos de idade. Suzane vivia para essa família de origem, melancolizada com as perdas que necessariamente começaram a acontecer com os anos, vivendo, ao mesmo tempo, esse lugar de filha-tia que topologicamente se presentificava como mordendo-se a si mesma. Essa imagem, de morder-se a si mesma, nos lembra a passagem no seminário sobre a Identificação, em que Lacan introduz os círculos da demanda na topologia do toro.

Lacan desenvolve a proposta de que os círculos da demanda tanto do sujeito quanto do Outro constróem toros e, ao assim fazer, são como uma bobina que, dando voltas e mais voltas, os círculos acabam por encontrar-se, como uma cobra que morde seu próprio rabo. “O que acontece no final do circuito? Isso se fecha”. Eis, diz ele, “a série de voltas que se dão na repetição unária, e o que retorna é o que caracteriza o sujeito primário em sua relação significante de automatismo de repetição” (lição de 7/3/1962).

Ora, sabemos com Freud (1920/1992c) que o automatismo (compulsão) de repetição é efeito da pulsão de morte, emanando, portanto, do isso. Esse isso no qual o supereu imerge, como diz Freud em 1933, enquanto toro das demandas do Outro para com o sujeito, como toro que se invagina a si mesmo, faz com que, como diria Lacan (1976-1977) muito mais tarde, que o fora (o que está na superfície do aparelho psíquico) fica dentro (o inconsciente e, portanto, todo o isso) e vice-versa.

Em 1923, quando Freud faz o grafo que depois aperfeiçoa em 1933 - acima retomado -, ele colocara o supereu como uma “concha acústica” - Höhrkappe, como um head-phone, porque höhren é escutar, em alemão, e Kappe é capuz -, no aparelho psíquico. Naquela época, havia identificado o supereu como herdeiro do complexo de Édipo, memória viva do que a criança ouvia dos próprios pais que, em seus afãs de educarem o filho, lhe dirigiam palavras vigilantes e, às vezes, tonitruantes. Como é tonitruante o Shofar a que Lacan dedica-se em seu seminário sobre a Angústia. Esse Shofar, é claramente - e nada além disso nos diz Reik - a voz de Deus, de Yahwé, entendamos, a voz de Deus ele mesmo “porque também é posto em equivalência àquilo que, em outras passagens do texto bíblico, é chamado de rugido de Deus” (Lacan, 1963-1964/2004, p. 289). Tubo no qual se assopra em rituais judeus, o som do Shofar nos leva aqui a uma associação com o tubo da bobina das demandas, esse toro que imerge no isso, levando o que estava fora - a percepção da voz dos pais - para o interior do isso, fazendo com que ressoe no interior do sujeito o objeto voz, êxtimo, interno e externo ao mesmo tempo. Tal como dois toros entrelaçados, o do sujeito e o do Outro, essa metáfora conceitual é novamente desenvolvida por Lacan em 1976-1977, nas primeiras lições de seu Seminário 24, quando propõe que se faça um furo na borda do primeiro toro, através do qual se puxa o seu interior para fora, o que, aos poucos, vai levar a que esse não apenas se envelope a si mesmo como também, ao assim envelopar-se, traz consigo o outro toro com ele entrelaçado. Assim, o toro do Outro, por isso mesmo, imerge no interior desse envelope, como dizia Freud, imerge no isso, reservatório da pulsão que é, fundamentalmente, pulsão de morte. Talvez isso permita visualisar o que ... puderam expressar quando diziam que a melancolia é uma tentativa que “permite pensar o impensado” (Klein & Herzog, 2018). É assim que morde e é mordido pela pulsão de morte. Lembremo-nos que Freud já sabia que o próprio suicídio tem sua vertente de agressividade contra o objeto (Freud, 1917[1915]/1992b e Massa & França, 2016).

Ora, na psicose a metáfora paterna não se inscreve por causa da foraclusão do Nome-do-Pai, e no tipo clínico da paranoia o sujeito permanece suspenso ao desejo da mãe que identifica seu filho no lugar de seu ideal do eu - a incógnita que Lacan (1958/1998, p. 563) identifica com um x na primeira operação prévia à metaforização (cf. Soler, 2002, pp. 61-63). É ao não ter recurso a dialetizar tal identificação - recurso que ser-lhe-ia dado pela referência à castração promovida pela barra que a incidência do Nome-do-Pai promoveria no desejo da mãe -, que o sujeito se atém à ilusão do Todo sem dar-se conta de que é apenas mais um traço.

Quanto à melancolia - se estivermos de acordo de que esta é um tipo clínico da psicose do modo como o queriam tantos clássicos da psiquiatria (cf. Quinet, 1999) -, por que não levantar a hipótese de que, ao avesso da paranoia, é a negativação desse ideal do eu materno que, como sombra do objeto, mortifica o sujeito? A foraclusão do Nome-do-Pai tem por uma de suas consequências o fato de, na psicose, o objeto a não cair do Outro (Alberti & Ribeiro, 2012, p. 198) e o inconsciente ficar a céu aberto. Objeto a de si mesmo, a partir do automatismo de repetição das cadeias significantes que compõem as demandas do Outro, esse supereu-Shofar é o protótipo conceitual que levará Lacan, anos depois do seu Seminário sobre a Angústia a identificar o Outro com o a do qual emana o Genuss - o supereu como meio de gozo - a que Freud já se referia no contexto da melancolia. Freud (1917[1915]/1992b) sabia o quanto a melancolia traz em si de verdade e se perguntava por que era preciso ficar tão doente para deparar-se com ela...

Financiamento/Funding: Este trabalho tem apoio da Capes - Coordenação de Aperfeiçoa-mento de Pessoal de Nivel Superior e do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Brasilia, DF, Br) / This work is supported by Capes - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nivel Superior e do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Brasilia, DF, Br).

1Imagem retirada da 31ª conferência. A decomposição da personalidade psíquica (Freud, 1933/1991b, p. 73). http://www.psychanalyse.lu/Freud/FreudNeueVorlesungen.pdf

2“das Über-Ich taucht in das Es ein; als Erbe des Ödipuskomplexes hat es ja intime Zusammenhänge mit ihm; es liegt weiter ab vom Wahrnehmungssystem als das Ich”. Substituímos a palavra “submerge”, utilizada na tradução (em espanhol, sumerge), por “imerge”, que é mais fiel ao termo em alemão eintauchen, na frase de Freud: “das Über-Ich taucht in das Es ein” (Freud, 1933/1991b, p. 43 do original http://www.psychanalyse.lu/Freud/FreudNeueVorlesungen.pdf) e bem mais propícia para o que gostaríamos de ressaltar neste nosso trabalho.

3Nesse momento Freud ainda não havia realizado a separação conceitual entre ideal do eu e supereu; portanto, ele parece usar indiscriminadamente esses dois termos ao longo do texto.

Agradecimentos

Agradecimentos: À Capes e ao CNPq pelo apoio à pesquisa que se realiza no Programa de Pós-graduação e Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob a orientação da Professora Sonia Alberti. O artigo é produto parcial das Teses de Doutorado de Cezar Santos e Irene Beteille, ainda em elaboração.

Referências

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Recebido: 26 de Março de 2019; Aceito: 21 de Maio de 2019

Editora/Editor: Profa. Dra. Sonia Leite

Conflito de interesses/Conflict of interest: Os autores declaram que não há conflito de interesses. / The authors declare that there is no conflict of interest.

Sonia Alberti

Professora Associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Br); Procientista da UERJ e Pesquisadora do CNPq (Brasília, DF, Br); Psicanalista; Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (Rio de Janeiro,RJ, Br).

Rua João Afonso, 60 casa 22

22261-040 Rio de Janeiro, RJ, Br

sonialberti@gmail.com

https://orcid.org.0000-0002-5120-5247

Cezar Santos

Doutorando do Programa de Pós-graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Br); Psicólogo da Marinha do Brasil; Participante da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (Rio de Janeiro, RJ, Br).

Avenida Ataúlfo de Paiva, 566/1006

22440-033. Rio de Janeiro, RJ, Br

cezaraugustolima@gmail.com

https://orcid.org.0000-0003-3213-5551

Irene Beteille

Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicanálise da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ (Rio de Janeiro, RJ, Br).

Rua Isidro de Figueiredo, 24/201

20271-100. Rio de Janeiro, RJ, Br

irenebeteille@hotmail.com

https://orcid.org/0000-0003-4160-3273

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