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Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

Print version ISSN 1415-4714On-line version ISSN 1984-0381

Rev. latinoam. psicopatol. fundam. vol.22 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2019  Epub Jan 17, 2020

https://doi.org/10.1590/1415-4714.2019v22n4p803.9 

Artigos

A noção de Semblante em Jacques Lacan: contribuição às identidades contemporâneas

The notion of Countenance in Jacques Lacan: contribution to contemporary identities

La notion de Semblant chez Jacques Lacan: contribution aux identités contemporaines

La noción de Semblante en Jacques Lacan: aporte a las identidades contemporáneas

Der Begriff des Semblant in Jacques Lacan: ein Beitrag zu zeitgenössischen Identitäten

*1, 2, 3Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (Porto Alegre, RS, Brasil).


RESUMO

Pretendemos trabalhar a noção de semblante em sua inserção no ensino e campo lacanianos. Sob essa consigna, procuramos compor um balanceamento crítico do conceito - procurando estruturá-lo nem como puro imaginário nem enquanto termo acessório na composição das fórmulas da sexuação. Para tanto, adentramos em debates contemporâneos sobre as identidades, evidenciados desde a teoria de gênero, propondo uma aproximação entre o semblante e o conceito de performatividade de Judith Butler.

Palavras-chave: imaginário; identidade; performatividade

ABSTRACT

We aim to address the notion of countenance based on its insertion in Lacanian teaching and fields. Thus, the goal was to compose a critical balance of the concept - trying not to structure it as pure imaginary nor as accessory term in the composition of sexuation formulas. Accordingly, we refer to contemporary discussions about identities highlighted since the theory of gender, proposing an approximation between countenance and the concept of performativity by Judith Butler.

Key words: Countenance; imaginary; identity; performativity

ABSTRACT

Cette étude aborde la notion de semblant telle quelle se présente dans l’enseignement et dans le domaine lacanien. Selon cette proposition, les auteurs cherchent à établir un équilibre de critique du concept en cherchant à le structurer, ni en tant que pur imaginaire, ni en tant que terme accessoire des formules de la sexuation. Ainsi, le texte aborde les débats contemporains sur les identités de genre, mis en évidence depuis la théorie du genre, en proposant une approche entre le semblant, de Lacan, et le concept de performativité, de Judith Butler.

Mots clés: imaginaire; identité; performativité

RESUMEN

Pretendemos trabajar la noción de semblante en su inserción en la enseñanza y campo lacanianos. Bajo esta consigna, buscamos componer un equilibrio crítico del concepto; buscando estructurarlo no como puro imaginario ni como término accesorio en la composición de las fórmulas de la sexuación. Para ello, nos adentramos en debates contemporáneos sobre las identidades, evidenciados a desde la teoría de género, proponiendo un acercamiento entre el Semblante y el concepto de performatividad de Judith Butler.

Palabras-clave: Semblante; imaginario; identidad; performatividad

ABSTRACT

Dieser Artikel untersucht den Begriff des Semblant im Unterricht und im Lacanschen Feld. Unsere kritische Erwägung versucht ihn, weder als reines Imaginäres, noch als Nebenbegriff in der Komposition der Sexuationsformeln zu klassifizieren. Wir basieren uns dabei auf aktuelle Debatten über Identitäten und Gendertheorie und schlagen einen Zusammenhang zwischen Semblant und Judith Butlers Begriff der Performativität vor.

Schlüsselwörter: Semblant; Imaginäre; Identität; Performativität

Introdução

No seminárioDe um discurso que não fosse semblante, de 1971, Jacques Lacan introduz e ensaia algumas formalizações do conceito de Semblante. Embora a dimensão do Semblante já possa ser apontada em seminários anteriores, e mesmo que a própria palavra tenha feito algumas aparições, é no seminário de 1971 que ele lhe confere estatuto conceitual. De acordo com o site Staferla, a palavra Semblant aparece uma vez nos seminários XV e XVI, e quatro vezes no seminário XVII, sendo que em todas elas está vinculada à expressão idiomática do francês faire semblant, cuja tradução possível é fingir. Lembramos algumas definições lexicais do semblante presentes em qualquer dicionário, consistindo justamente em sua significação enquanto rosto, fisionomia, aparência, aspecto exterior, entre outros. Tais definições remetem a um desfile de palavras que imediatamente se conjugam no plano semântico, mas que, ao mesmo tempo, guardam, cada uma, a capacidade de desdobrar discussões em sentidos por vezes heterogêneos.

“Semblant etimologicamente vem de similus, semelhante, similitude, simulacro, é aquilo que se assemelha a algo”, lembra-nos Quinet (2018, p. 391). É nesse parentesco sígnico do semblante em relação a tudo que é da ordem do parecer que fez com que na França - onde há um uso corriqueiro de expressões do tipo faire semblant - a palavra ficasse associada pejorativamente ao fingimento, à falsidade, à mentira e ao radicalmente oposto do que é verdadeiro.

Contrariamente aos ditos populares, e mesmo a uma parte significativa da tradição do pensamento ocidental que desvaloriza o campo do sensível em prol de uma essência, supostamente velada das coisas, Lacan transformou o semblante “num conceito que indica aparência, representação e parecer, porém não se opõe ao verdadeiro” (Quinet, 2018, p. 392). É nestas condições que objetivamos articular um pensamento dos fenômenos identitários de um modo mais complexo e afinado às últimas considerações de Lacan sobre o imaginário e o nó entre os registros.

Tomamos como um importante disparador a discussão sobre diferença sexual na teoria psicanalítica e suas relações com as teorias de gênero. Ressalta-se que esses dois campos teóricos possuem representantes que, ao se endereçarem mútuas críticas, acabam por tamponar possibilidades de conversa ou de articulação conceitual - por vezes sendo a mais breve interlocução objeto de suspeita ou rechaço (Ambra, 2018). Mesmo assim, lembramos ser quase inevitável que o conceito de semblante esteja acompanhado das discussões sobre gênero. Isso se articula à menção, logo após sua introdução, a Robert Stoller (Lacan, 1971-1972/2009, ver p. 30), psiquiatra e psicanalista criador do conceito de identidade de gênero.

Considerando esse panorama, concordamos com autores que fazem o esforço de atualizar a psicanálise diante de novas questões que se apresentam. Tomando como exemplo Cossi e Dunker (2017a), celebramos o movimento de permitir que Lacan converse com as produções de uma das mais relevantes figuras da teoria de gênero: Judith Butler. Ao mesmo tempo, verificamos que os autores adotam uma postura ambígua. Apesar de acatarem a crítica butleriana, esta passa a ser amortecida principalmente pelo que referem ser o desconhecimento da autora frente aos últimos desenvolvimentos de Lacan -reconhecido pela inserção da lógica-matemática e a consequente reformulação do conceito de real.

De fato, a autora debate sobre o momento lacaniano mais fortemente influenciado pela antropologia estrutural (Butler, 1990/2003; 2014), situando sua interlocução com o pensamento psicanalítico em forte diálogo com as teorias de Lévi-Strauss, nos anos 1950. Porém, pensamos ser possível desdobrar tal crítica para além do seu alvo privilegiado, de maneira a levantar questão frente a alguns desenvolvimentos posteriores de Lacan a respeito do que se denomina de “homem” e “mulher”. Sustentamos esse movimento ao apostar no conceito de semblante como um embaixador da psicanálise desejosa de confrontar-se com o contemporâneo.

Nossa proposta é tentar compor um balanceamento crítico e atual do conceito de semblante para melhor adentrarmos nos debates referentes às questões identitárias, bem como às discussões de gênero que lhe acompanham. Pretendemos apontar, a partir desse conceito, algumas implicações de peso, e, para tanto, compomos o seguinte quadro de trabalho:

  1. Não tomar o semblante apressadamente como relegado a um puro imaginário, ressaltando sua fundamental inscrição simbólica.

  2. Não concebê-lo unicamente como termo acessório ou intermediário às fórmulas da sexuação, mas como articulador essencial da psicanálise com os debates contemporâneos.

  3. Propor um diálogo de aproximação entre o semblante e o conceito de performatividade em Judith Butler.

Retomando o imaginário

Como bem referencia Christian Dunker, é no seminárioDe um discurso que não fosse semblante que “o ensino lacaniano reconcilia-se com a dimensão da aparência” (2018, pp. 55-56). Talvez esse comentário remeta aos primeiros esforços da teoria citada, marcados por um extenso debate de confrontação com as vertentes americanas e anglo-saxônicas da psicanálise. A atualização da teoria freudiana empreendida por Lacan divergiu radicalmente dos desenvolvimentos das escolas de língua inglesa ao apontar suas restrições quanto à compreensão da dimensão simbólica do inconsciente e suas consequências à concepção de intersubjetividade.

Portanto, devido à sua associação direta com esses outros campos severamente criticados, o registro do imaginário sofreu um rechaço imediato desde os princípios da formação da comunidade lacaniana - compondo a dupla Eu/Imaginário. Ao retomar o semblante, não procuramos propor o resgate de algumas premissas teórico-clínicas há muito criticadas, mas antes livrar o imaginário de certas pré-conceituações a ele arraigadas. Com isso, objetivamos traçar alguns momentos em que o imaginário é ressignificado, rearticulado ou mesmo conjugado aos outros registros, no intuito de construir sua pertinência e não tomá-lo como inconsistente de antemão.

É em seu trabalho inaugural sobre o Estádio do espelho que podemos reconhecer algumas das bases conceituais do imaginário em Lacan, e também apontar o que dele privilegiou-se em detrimento de enunciados pouco desenvolvidos. Há de se compreender o estádio do espelho “como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem” (1938/1998b, p. 97). Nesse momento, evidenciamos que Lacan ainda não tinha em plenos motores a teoria significante, mas ressaltamos já nesse início que o autor considerava o simbólico como axioma privilegiado de trabalho, para que então não nos passe despercebida a expressão que pensa o sujeito transformado quando assume uma imagem.

Nesse espírito, recortamos outro momento do texto quando o célebre fenômeno da assunção jubilatória em relação à própria imagem nos parece manifestar “a matriz simbólica em que o [eu] se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito” (1938/1998b, p. 97). Nada se entende do Estádio do espelho sem esses apontamentos fundamentais, fatores que dizem da articulação inextrincável entre simbólico e imaginário.

O que se faz interessante formalizar já neste momento são dois fatores que se destacam no escopo deste trabalho, a saber: 1) existem funções mutuamente articuladas entre o registro do simbólico e do imaginário, levando a que 2) a imagem assumida pelo sujeito sempre conserva certo distanciamento, tal como nos brinda a citação de Lacan (1938/1998b):

Mas o ponto importante é que essa forma situa a instância do eu, desde antes de sua determinação social, numa linha de ficção, para sempre irredutível para o indivíduo isolado - ou melhor, que só se unirá assintoticamente ao devir do sujeito, qualquer que seja o sucesso das sínteses dialéticas pelas quais ele tenha que resolver, na condição de [eu], sua discordância de sua própria realidade (p. 97; grifo nosso)

Fenomenologia psicanalítica

O trabalho com o campo da fenomenologia é cedo dispensado pela revisão clínica lacaniana, já que identificado ao exercício diagnóstico médico, no sentido deste último constituir sua investigação em cima da perceptibilidade dos fenômenos fisiológicos. Porém, mesmo que o diagnóstico passe do fenomenológico para o estrutural, isto não exime que a teoria psicanalítica dê conta desse outro campo à sua maneira, e que tal exercício carregue consigo alguns ecos clínicos.

Começamos com algumas colocações de Lacan (1938/1998b): “Em matéria de óptica, temos muitas ocasiões para nos exercer em certas distinções que lhes mostram o quanto a dimensão simbólica conta na manifestação de um fenômeno” (pp. 105-106). Também citamos, a respeito do estofamento da percepção, o seminário sobre O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise: “É aí que intervém a relação simbólica. O poder de nomear os objetos estrutura a própria percepção. O percipi do homem só pode manter-se dentro de uma zona de nominação” (1954-1955/1985a, p. 215).

Aqui podemos lembrar a construção lacaniana acerca da realidade, conceito que no contexto desses primeiros seminários fica indistinguível com o registro do real, mas que ao longo da obra toma forma através da fantasia, primeiro, e das implicações do discurso, em um momento mais avançado. No ensino lacaniano, podemos verificar que o que funda a realidade são, antes, as relações que enredam o sujeito nas malhas do simbólico, que refere a uma ordem topológica que localiza o sujeito, ou, então, em “outros termos, é a relação simbólica que define a posição do sujeito como aquele que vê” (1953--1954/1986, p. 187). Assim, no esquema óptico lacaniano, o que determina todo o jogo fenomenológico será necessariamente o posicionamento do sujeito, representado pelo olho que orbita em seu canto superior esquerdo. Para além da Urbild formada pelo espelho côncavo, imagem-estádio presentificada pelo vaso, e do buquê de flores que localiza os “objetos do desejo que passeiam” (1953-1954/1986, p. 110) - talvez mais uma expressão para falar do mundo-realidade -, devemos apontar a função literalmente central do espelho plano neste esquema.

O espelho central possibilita a relação simbólica entre o olho que vê - chamado neste momento de sujeito - e a imagem que lhe compete, formada no plano virtual como que interior ao espelho. Lacan vai tecer uma série de comentários quanto à influência fundamental nesse jogo de imagens que provém do outro (1953-54/1986, p. 187), aqui concebido como o agente que põe em marcha a mediação simbólica entre falantes. A esse outro, protótipo do então chamado grande Outro, compete variar a inclinação desse espelho de modo a produzir alterações não só na organização dos objetos por ele enquadrados, mas igualmente nas formas que o sujeito pode vir a assumir. Será no seminário sobre A angústia que o espelho plano marcadamente assume a denominação de “Outro” (1962--1963/2005, p. 54), de forma a reiterar os apontamentos germinais que lhe são antecedentes.

Mais ainda, ressaltando o nó inextricável entre os registros, Umberto Eco no ensaio Sobre os espelhos, lança esforços para dar prosseguimento à questão especular, não mais buscando levantar hipóteses sobre o momento inaugural da especularidade, mas pensando sua lógica nos falantes que “já produzem signos e se sentem como indivíduos, e que, sobretudo, já têm familiaridade com as imagens especulares” (1989, p. 13). Este outro nivelamento da imagem fica posto desde o seguinte exemplo fílmico:

Do mesmo modo, pode-se provocar enganos apresentando como espelhos o que não são espelhos. Num filme dos irmãos Marx, há uma cena em que Groucho se olha no espelho; mas o espelho não é um espelho, e sim uma moldura vazia, atrás da qual Harpo tenta desajeitadamente (e com efeitos cômicos) imitar os gestos de Groucho. Este fenômeno de mentira sobre os espelhos ou a respeito dos espelhos, naturalmente nada tem a ver com a imagem especular. A representação que o enganador desempenha é certamente algo que tem a ver com a ficção, com a significação, com a mentira através de signos, mas nada disso diz respeito à natureza da imagem especular. (Eco, 1989, p. 19)

Surpreendentemente, o autor parece indicar certa imprecisão em referir a imagem do outro ao imediato especular, cogitando se o padrão estático de uma imagem congelada poderia operar, mesmo enquanto metáfora, no caso das relações intersubjetivas. Para isso, servindo-nos do cômico exemplo dos irmãos Marx, coloca-se a questão: não estaríamos tratando a imagem viciadamente através do espelho, e a moldura talvez nunca o tenha carregado de fato, e a moldura talvez sempre estivesse vazia - tal como sinaliza o exemplo do filme lembrado por Eco.

Isso encontra respaldo dentro do colóquio lacaniano localizado na moldura sem espelho da fantasia, chamada de janela, no sentido de indicar o tipo de relação que mantemos com o mundo, seus fenômenos e o outro. Desde o enunciado freudiano de não acreditar mais em sua neurótica, a fantasia opera como um pilar da psicanálise que denuncia a verdade em sua estrutura de ficção. Tal enunciado está explícito desde o seminário A relação de objeto (1956-1957/1995, ver p. 259), mas encontra múltiplos desdobramentos ao longo do ensino lacaniano.

Além da moldura sem espelho, e do fato de ela ser a moldura de uma janela, o que acabamos por ver, indica Lacan, é a pintura que cobre uma suposta paisagem - pintura ao mesmo tempo imajada e significante. Esse cenário denuncia a impossibilidade de se ter acesso ao real, na medida em que posiciona um objeto que é construído parcialmente pelo sujeito e parcialmente pelo Outro, que é um pouco verdadeiro e um pouco mentiroso, que sabemos ser demovível ao mesmo tempo que não ousamos mexer em seu cavalete. Aqui colhemos alguns elementos para aproximarmos esse quadro que se pinta do outro que se refere coloquialmente como identidade - e atentamos para o fato de que esse fenômeno não esgota seu sentido e funcionamento na imagem estática, como quer o espelho.

Podemos encontrar eco e acomodar o conjunto de perspectivas acima trazidas desde alguns vieses da obra lacaniana, mas aqui, já adentrando especificamente no conceito-chave desse escrito, defendemos que o principal deles seria o de semblante em sua dimensão de parecer (1971-1972/2009, p. 31). Para tanto, não podemos ficar alheios à contribuição diretamente anterior, presente no seminário do O avesso da psicanálise. É nesse período que Lacan, na formulação de seus matemas discursivos, localiza o agente situado acima e a verdade abaixo em relação à barra. Esse é o respaldo para futuramente, quando o agente for não substituído, mas englobado pelo semblante, as relações entre este último e a verdade estejam mais explicitadas.

agenteverdadeoutroprodução

Ao tentarmos criar uma definição ou mesmo um estofo para essa relação, pinçamos no mesmo seminário o apontamento que tal dimensão de sustentação do semblante é composta por uma diz-mansão - dimensão - ou seja, no original “dit-mansion”. Essa é uma expressão por meio da qual Lacan joga com a homofonia, em francês, entre “dimensão” e “diz-mansão”, ou mesmo “mansão do dito”. Cabe mencionar que a diz-mansão condensa um conjunto de asserções presentes no seminário do De um discurso que não fosse semblante, em que Lacan é categórico em tomar o conceito-título em franca articulação com a verdade, como já posto pelo matema do discurso. Sendo assim, esse neologismo surge enquanto sustenta que a verdade não se opõe e tampouco é contrária ao semblante, antes apontando que a “diz-mansão da verdade sustenta a do semblante” (1971-1972/2009, p. 26).

Como podemos apontar, o fato da verdade localizar-se abaixo da barra não quer levar ao entendimento de que ela se encontra recalcada ou suprimida por uma aparência, por um mero semblante. A própria ideia de sustentação nos retira da retórica platônica que um regime de verdade subjaz às falsas aparências. Portanto, há nisso um apontamento precioso para pensar o semblante, cuja diz-mansão nos leva a outra maneira de compreender o parecer mais próximo ao intrincamento do simbólico com o imaginário.

Contrapondo-se radicalmente à lógica conceitual purista, Lacan insiste no décimo oitavo seminário que o semblante, nada mais nada menos, é equacionado, ele mesmo, ao próprio significante: o significante enquanto “semblante por excelência” (1971-1972/2009, p. 114). Isso pode nos colocar em melhor perspectiva ao funcionamento da identificação, na medida em que essa nunca ocorre puramente com uma imagem, mas forçosamente articulada a significantes (1961-1962/2003, ver p. 25). Ressignificando esse postulado do seminário da A identificação, podemos colocar ao lado da imagem o fenômeno especular, enquanto, ao lado do significante, o semblante.

Cabe a Jacques-Alain Miller uma postura radicalmente diferente em relação ao semblante, envolvendo-o em suas elucubrações reconhecidas por se basearem em uma concepção hierarquizada dos registros, primando o real na teoria e na clínica. A título de comparação, captamos um produto de seu pensamento, quando o autor estabelece uma cronologia entre gozo e significante: “E, ao mesmo tempo que reduz o significante a semblante, o caráter real do gozo se afirma. Portanto, o simbólico encontra-se como que rebaixado ao nível do imaginário. [...] a estrutura do discurso encontra-se reduzida ao semblante” (Miller, 2005, p. 125; grifos nossos).

Apontamos que a teoria milleriana advoga e mesmo representa toda uma série de pressupostos com os quais tentamos problematizar ao longo desta primeira seção - tal como a lógica de desmascaramento do real por trás da aparência e a desvalorização do imaginário. Afora isso, concordamos unicamente quando indica que ao longo do ensino lacaniano houve uma aproximação cada vez mais candente entre os registros do simbólico e do imaginário, principalmente desde o advento da teoria dos discursos.

De modo a condensar uma crítica e já fazer uma possível ponte para a sessão seguinte, postulamos que não estaria somente a cargo de algumas leituras do real apoiar-se na noção de substância, mas também que os próprios discursos fixam identidades, no sentido daquilo que se acredita permanente, indivisível e constante. Precisamente porque o discurso não deve ser confun-dido com a linguagem ela mesma, que a partir dele são produzidos modos de inteligibilidade cuja reiteração leva à fundamentação das lógicas identitárias. Nesse ponto, a trama entre os pressupostos de Lacan e de Butler fornece alguns importantes elementos de leitura, na medida em que neles iremos melhor estofar o conceito de semblante duplamente, partindo da questão do “homem”, da “mulher” e do performativo.

Semblante de gênero?

A empreitada teórica lacaniana foi responsável por distanciar a psicanálise de quaisquer referenciais estritamente biológicos ou organicistas na concepção e constituição do sujeito. Se transitarmos no conjunto de inspirações que Lacan utilizou ao relançar a psicanálise, em especial a linguística saussuriana, verificamos sua edificação calcada pela morte do referente. Como nos lembra Milmann (2014), o advento linguístico implica que o “referente é inapreensível, as palavras não representam as coisas, e não chegamos ao real a não ser pelas bordas do simbólico” (p. 207), ou mesmo, adicionaríamos, em sua insuficiência. Ainda assim, uma importante premissa da psicanálise lacaniana é a indicação da impossibilidade, e mesmo da irrelevância, de operar com uma suposta objetividade dos fatos, concretude da natureza, ou seja, “em não recorrer jamais a nenhuma substância, em não se referir jamais a nenhum ser” (Lacan, 1972-1973/ 1985b, p. 18).

A filósofa Judith Butler (1990/2003), mesmo não se valendo das mesmas categorias trabalhadas em psicanálise, parte de princípios afins quando pensa nos problemas de gênero. O conceito de gênero, por si só, já problematiza a colagem do sexo ao paradigma biológico. Em relação à lógica identitária, Cossi e Dunker (2017a) comentam que há “algo de indiscernível, inerente ao conceito de gênero, que corrompe o fundamento identitarista das relações sociais” (p. 2). Sendo assim, os estudos de gênero favorecem o estabelecimento de um campo crítico por onde apreendemos uma perspectiva histórico-cultural da construção e reiteração de algumas das identidades, em especial às de gênero. Defendemos que esse tipo de análise opera um distanciamento em relação à identidade que se afina ao funcionamento do semblante.

Seguindo nesse sentido, Butler desubstancializa as categorias de gênero organizadas de forma binária em feminino e masculino, propondo que analisássemos suas matrizes de produção e sustentação antes de sair a procura de uma origem cuja causa fosse dada pela natureza ou por uma transcendência qualquer. Desse modo, faz-se mais relevante ao platô de discussões e revisões teóricas em que a psicanálise se encontra, apontar que a fixidez das identidades, própria à retórica naturalista, também acaba se estabelecendo por determinada conceituação do simbólico que o toma enquanto estrutura imutável.

Sendo essa crítica bem exposta por Cossi e Dunker (2017a), os autores concordam sobre a existência da pretensão em fazer do simbólico um esquema transcendental, fornecendo diretrizes de sentido e coordenadas sociais atemporais. Inclusive, expondo a delimitação paradoxal de uma natureza-simbólica, chegam a traçar o seguinte alerta: “Categorias psica- nalíticas como ordem simbólica e diferença sexual impõem regras de inteli-gibilidade cultural que são tomadas como se fossem transcendentais e imunes a transformações sociais” (p. 3).

Butler (2014) localiza essa tendência à inspiração da antropologia estrutural levistraussiana, que, como bem se sabe, Lacan serviu-se em sua retomada dos princípios freudianos. É desde aí que é colocado em questão alguns dos preceitos estruturalistas que advogam pelo reconhecimento de posições simbólicas que funcionam à maneira de uma constante, ou seja, que nada teriam a ver com posições configuradas e reiteradas no campo societário. Colocando-se fora de tais processos sociais, essas posições simbólicas permaneceriam em sua mesmidade identitária, agindo como uma superestrutura sobreposta às inteligibilidades sociais, ao mesmo tempo em que proporia refleti-las. Ilustra Butler:

Os lacanianos quase sempre insistem que uma posição simbólica não é o mesmo que uma posição social, e que seria um erro tomar a posição simbólica do pai, por exemplo, que é, afinal, a posição simbólica paradigmática, confundindo-a com uma posição socialmente constituída e mutável que os pais assumiram ao longo do tempo. (p. 257)

Quando confrontada às reconfigurações políticas do contemporâneo, é a estabilidade do simbólico que entra em xeque. Arriscando uma aproximação entre constelações conceituais distintas, podemos inferir que o que Butler referencia pelo termo cultura (2014) aproxima-se do que Lacan vai constituindo de modo mais notório pela via conceitual dos discursos, e que aqui chamamos de compêndio simbólico-imaginário. É nesse debate que podemos atestar uma aproximação entre os registros, principalmente no que concerne à constituição da realidade como um efeito de discurso. Referendamos essa ideia em constatações do discurso enquanto “liame social [lien social], fundado sobre a linguagem” (1972-1973/1985b, p. 24), ou mesmo na citação seguinte - ambas presentes no seminário Mais, ainda:

Não há a mínima realidade pré-discursiva, pela simples razão de o que faz coletividade, e de que chamei os homens, as mulheres e as crianças, isto não quer dizer nada como realidade pré-discursiva. Os homens, as mulheres e as crianças não são mais do que significantes. (p. 38)

Contudo, existe no ensino lacaniano vários desvios, questões e complexificações quanto ao enunciado de que homens e mulheres não são mais do que significantes. Pensando nisso, procuramos algumas utilizações contemporâneas do semblante articuladas a pontos da teoria de Butler.

Cossi e Dunker (2017a), traçam um compilado de contribuições da autora no estabelecimento de uma crítica contundente à identidade apontando que “a filósofa denuncia a instabilidade e a a-naturalidade das identidades” (p. 2). Mais ainda, antecipando algumas críticas, a teoria butleriananão se restringe somente a uma análise desconstrutivista das identidades e dos dispositivos hétero-compulsórios, mas propõe uma categoria conceitual que permite melhor apreender aquilo que podemos associar à “crença” identitária - como explicitada no seminário das A identificação (1961-1962/2003, p. 51). Encontramos uma definição desse conceito na denúncia da matriz identitária que se crê natural e fomenta esta ilusão a um só tempo, a saber, o conceito de performatividade: “Atos repetidos de uma forma estilizada produzem efeito de ontologizar os gêneros autojustificando a crença na existência de o homem ou a mulher. É assim que corpos, em si infinitamente diferentes, adquirem aparência de gêneros fixos e idênticos” (Cossi e Dunker, 2017a, p. 3).

A ideia de performatividade já se encontra em um artigo prévio ao canônico Gender Trouble, onde também se acha conectado junto às temáticas do feminismo e da subversão da identidade. Nesse momento anterior, Butler (1988) reitera a dimensão de crença que opera o performativo - “of belief” (p. 520) -, estruturada por um contínuo de repetições sistematicamente sancionado. A título de complemento, Pedro Ambra (2018) lembra que a obra butleriana não atenta ao conceito de grande Outro. Em sua envergadura teórica, o Outro implica que o estabelecimento de regimes performativos também respondem a uma alteridade radical, “posto que não há teatro sem público” (p. 48).

Tendo isso em mente, trazemos a aposta contraintuitiva da filósofa, cuja sugestão estratégica para subverter-se à lógica identitária é a de utilizarmos os mesmos mecanismos que lhe estabeleceu, a saber, o performativo - na medida em que o insight mesmo da performatividade ressalta a dimensão arbitrária de seu estabelecimento. Em suas palavras: “as possibilidades de transformações do gênero são encontradas na relação arbitrária entre tais atos, na possibilidade de um tipo diferente de repetição, na quebra ou repetição subversiva daquele estilo” (1988, p. 520; tradução nossa).

Não à toa, a arbitrariedade é um conceito saussuriano caro à psicanálise justamente por fundamentar todo o projeto antinaturalista da linguagem. Em suma, ela vai indicar que o amálgama entre significante e significado, componentes do signo linguístico, não encontra justificativa de ser que não em uma junção arbitrária (Saussure, 2012, ver p. 108). Lacan vai retomar com frequência tal conceito no seminário Mais, ainda ao embasar o argumento da impossibilidade do ser, nesse momento deslocando-o para a ideia de contingência (1972-1973/1985b, ver p. 46). A partir disso, pensamos que uma operação possível de aproximação da psicanálise à teoria butleriana seria a subversão do “homem” e da “mulher” se tomados como signos sociais (Butler, 1988, ver p. 522). Sistematizando como que em um jargão combinado entre Lacan e Butler, essa tarefa pode ser dita realizada nas seguintes passagens: 1) expressão de uma verdade interna ao performativo; 2) do signo ao significante; e 3) da identidade ao semblante.

Retornando então o seminário do De um discurso que não fosse semblante, tendo antes referido que “o que Freud revelou do funcionamento do inconsciente nada tem de biológico” (1971-1972/2009, p. 29), Lacan é categórico em sua distância em relação ao natural, afirmando, em sua leitura de Stoller, que a identidade de gênero seria análoga ao que toma pelos termos de “homem” e “mulher”. Afinando-se antecipadamente a essa linha de pensamento com a qual identificamos a performatividade, seu argumento prossegue referindo que o que define o homem é pura e simplesmente a sua relação com a mulher, e vice-versa:

É à luz disso que constitui uma relação fundamental, que cabe interrogar tudo o que, no comportamento infantil, pode ser interpretado como orientando-se para esse parecer-homem. Desse parecer-homem, um dos correlatos essenciais é dar sinal à menina de que se o é. Em síntese, vemo-nos imediatamente colocados na dimensão do semblante. (p. 31)

Indo além, Lacan (1971-1972/2009) renova as diferenças entre a se- xualidade humana em relação à animal, mencionando que a “única coisa que o diferencia dela é que esse semblante seja veiculado num discurso” (p. 31). Porém, em nenhum momento é citado um parecer-mulher da maneira como é nomeado o parecer-homem. Isso localizaria a relação ambígua que a mulher tem em relação ao discurso na teoria lacaniana, e também indicaria que o semblante não funcionaria da mesma maneira para ambos os sexos. Perdemos nessa divergência a noção da arbitrariedade, da contingência.

Pensamos que isso não é suficientemente reconhecido por autores como Teixeira, Dunker e Cossi quando evocam o semblante em seus argumentos. Em seus esforços, parecem muito rapidamente identificar os gêneros ao funcionamento do semblante. Lembramos aqui que nesse seminário é nominal a equação entre identidade de gênero e homem e mulher, mas que esses votos não são renovados no desenvolvimento do parecer e das especificidades que surgem em relação à mulher.

Por exemplo, os autores referem sem ressalvas que “Lacan passa a designar o homem e a mulher como semblantes” (Cossi & Dunker, 2017a, p. 5) ou, então, que os “semblantes imaginários ou dêixicos performativos, situados no primeiro andar das fórmulas da sexuação como ‘homem’ e ‘mulher’, aproximam-se da concepção de gênero em Butler, que os define como performativo” (Cossi & Dunker, 2017b, p. 2). Claramente concordamos em casar as perspectivas do semblante com a de performatividade, mas nisso não podemos perder de vista o esforço aqui empreendido em descolar o semblante do puro imaginário. Tentamos mostrar em seções anteriores deste trabalho o quanto a premissa de um simbólico livre de cristalizações, necessariamente fluido e plural, só se sustenta quando pensado radicalmente alheio ao registro do imaginário, o que nos parece ser um engodo purista. Mostraremos que tomar essa via provoca incidências impertinentes na leitura das fórmulas da sexuação - a serem expostas adiante.

Teixeira (2017a), faz articulações parecidas nesse sentido, porém diverge da postura de autores como Dunker e Cossi na medida em que não se coloca disposto a conversar com teorias exógenas à psicanálise, supondo que o exercício traria efeitos “de empobrecimento do empreendimento teórico de Lacan e da própria transmissão da psicanálise” (p. 13). Pensamos ser este um tipo de postura que não contribui para o alargamento da potência da psicanálise no conjunto de debates contemporâneos.

Salientamos que o mesmo seminário que consagrou ao semblante a diz-mansão e o parecer, foi também o que lhe obrigou a assumir uma forma específica a cada sexo. Mais ainda, o mesmo seminário que brinca com a ideia de que não precisamos esperar Édipo ou a fase fálica para distinguir o menino da menina (1971-1972/2009, ver p. 30) - já que se encontram tão logo embebidos no discurso -, é o que vai posicionar a mulher como aquela que desmascara o homem, tal “como suporte dessa verdade, suporte do que existe de semblante na relação do homem com a mulher” (p. 33).

No argumento lacaniano, isto volta a girar em torno do falo, que passa à definição de “gozo sexual como coordenado com um semblante, como solidário a um semblante” (pp. 32-33). Especificamente, a mulher consegue denunciar o disjuntivo entre gozo e semblante, além de possuir uma “enorme liberdade com o semblante” (p. 34), conseguindo “dar peso até a um homem que não tem nenhum” (p. 34). Podemos supor nesses comentários uma estranha mistura não anunciada entre histeria e mascarada, além da ideia que nos remeteria à mulher por trás do homem, fundando um par discutivelmente complementar entre semblante-homem e mulher-verdade.

Nesse assunto, faz-se importante verificarmos o posicionamento butleriano acerca das relações entre “homem” e “mulher. Ao contrário do entendimento apressado de certas leituras, o argumento butleriano não gira em torno de que a reificação de um simbólico organizado em privilégios masculinos necessariamente vão ter os homens como responsáveis, nem mesmo um discurso dito masculino. Nesse ponto, o embasamento da autora diverge de outras teóricas do feminismo, representantes, em sua maioria, de produções anteriores aos seus desenvolvimentos. A filósofa menciona, distanciada e criticamente, que grande “parte da teoria e da literatura feministas supõe, todavia, a existência de um ‘fazedor’ por trás da obra” (Butler, 1990/2003, p. 56).

Entendemos, junto com a crítica da autora, que essa linha de pensamento teria como consequência a ideia de uma economia significante masculina recobrindo de sentido a mulher, e isso traria consigo uma dupla consequência. Não só estaríamos interpretando a mulher análoga a uma boa selvagem cuja natureza é velada ou corrompida pelo masculino, mas também se abre, em outro polo, espaço para que advenham concepções como a do continente obscuro freudiano. Em alguns momentos Lacan (1969-1970/1992) vacila em direção a essa lógica:

O homem, o macho, o viril, tal como o conhecemos, é uma criação de discurso - nada, pelo menos, do que dele se analise pode ser definido de outra maneira. Não se pode dizer o mesmo da mulher. Contudo, nenhum diálogo é possível se não se situar no nível do discurso. (p. 57)

É ilustrativo que, logo apenas um par de parágrafos após essa citação, Lacan comece a discursar sobre a figura da histérica, sua implicação no discurso e sua relação com a verdade (ver p. 57). Ficamos com a pergunta se caso não estaria nessa associação uma mulher excessivamente formalizada, e ainda por cima aos modos da figura da histérica.

Ainda que alguns posicionamentos de Teixeira possam ser criticados, o autor parece manter-se estritamente em cima dos ditos lacanianos. Como exemplo, enquanto Cossi e Dunker afirmam serem semblantes o “homem” e a “mulher” de modo a constituir um andar estritamente imaginário das fórmulas da sexuação, Teixeira (2017a) lembra, de modo a concordar com o desenvolvimento acima disposto, as “inúmeras passagens dos seminários onde Lacan se refere a ‘homens’ e ‘mulheres’ deixando claro que não se trata de meros semblantes” (p. 9). Estaria todo esse emaranhado conceitual concordando com o seguinte argumento lacaniano?

O desejo do homem, como acabo de dizer, está ligado muitas vezes, ele se origina no campo de onde tudo parte, todo efeito de linguagem: no desejo do Outro, portanto. A mulher, no caso, percebe-se que ela é que é o Outro. Só que ela é o Outro de uma alçada inteiramente diferente, de um registro totalmente diferente de seu saber, seja ele qual for. (Lacan, 1971-1972/2009, p. 66)

Evidentemente, não estamos alheios que, nesse momento de sua obra, Lacan ensaia o que posteriormente tomará corpo nas fórmulas da sexuação, onde no lado homem se lê a formação de um conjunto todo-fálico sustentado por ao menos um [ahomenosum] que funciona como exceção à função fálica, ao passo que no lado mulher se lê que não há nenhuma que escape à função fálica, ao mesmo tempo em que ela é não-toda [pas-toute] nessa mesma função (Lacan, 1972-1973/1985b). Salientamos que temos em mente o compêndio de autores que fazem uma leitura rigorosa das fórmulas da sexuação, como La Tessa (2017) e Dunker (2017). Contudo, nosso exercício aqui segue sendo duplo: 1) destacar o conceito de semblante, o que implica para o colóquio lacaniano deslocá-lo do lugar de puro ou estrito imaginário; e, de quebra, 2) não tomá-lo como termo acessório das fórmulas da sexuação, mostrando que sua construção não está imune a críticas e leituras generificadas só porque escudada em sua logicidade.

Para prosseguirmos, podemos retomar a formalização da relação ambígua da mulher com o discurso, como constatamos presente já no seminário do De um discurso que não fosse semblante, na medida em que ela é não-toda na função fálica - conceito onde Lacan novamente confere outra roupagem ao falo, dessa vez vinculando-o ao significante-semblante-discurso. Joel Birman, (2016) que em seu livro Gramáticas do erotismo reconstrói uma genealogia do feminino indo dos gregos à racionalidade freudiana, reitera como em diferentes regimes discursivos à mulher coube o lugar de ser explicada a partir do homem, desde a sua figura ou anatomia - sendo sempre relacionada, contudo, a uma zona incognoscível, uma parte demoníaca, ou, se assim quisermos, a um continente obscuro que não bem cabe no mundo.

Uma troca de paradigma surge a partir do ideário igualitário proveniente da revolução francesa, momento em que a diferença entre homem e mulher teria que alojar-se em outro regime discursivo, caso contrário o status quo e a rede de privilégios masculina se encontraria em ameaça. Consequentemente, uma infinidade de enunciados fundamentados no fato biológico posicionou a mulher no locus doméstico, privado, privilegiando nela o empuxo a ser mãe e cuidar da prole. Ao passo que o homem teria livre passagem no registro do público, do prestígio e da política, além de regular sua estabilidade marital ao frequentar cabarés e prostíbulos. Dessa maneira, vale depreender dessa fenomenologia a estrutura e ontologia de fundo que não cessa de se escrever nas mais variadas discursividades. Encontramos tal estrutura mínima e repetitiva em Birman (2016):

Enfim, entre os polos do sentimento e da razão, ou então entre natureza e civilização, esboçou-se, no imaginário coletivo, a cartografia moral da diferença sexual, que seria sempre a consequência direta da natureza biológica diferenciada entre o ser do homem e o ser da mulher. (p. 56)

Não à toa, nos reportamos ao psicanalista Ricardo Rodulfo (2001), que se ocupa de uma crítica da universalização e da utilização irrefletida do complexo de Édipo nos mais variados frontes da compreensão psicanalítica. O autor mostra que a mesmíssima polaridade entre cultura e natureza, chamado de “el mito anterior” (p. 229), sustenta igualmente o mito edípico: a mãe natureza-irracional deve ser barrada pelo pai da cultura. Tendo isso em mente, seguimos pensando em algumas consequências e desenvolvimentos dessa estrutura mítica.

Construção basal da racionalidade freudiana, o complexo de Édipo faria um curioso retorno ao monismo sexual dos antigos, ainda que em coexistência ao paradigma da diferença sexual. Isso se daria devido ao primado do pênis e do complexo de castração em seu decurso, que, a um só tempo, cria uma hierarquia entre os sexos (penisneid) assim como coloca ambos referendados ao mesmo elemento no desenvolvimento psicossexual, a saber, o pênis como signo da anatomia masculina. É exemplar seguirmos os destinos da feminilidade proposto por Freud, com especial destaque aos diretamente relacionados ao falicismo, dados na virilidade ou na geração de um filho homem. Assim podemos apontar: “que a teoria freudiana da diferença sexual e da sexualidade feminina chega finalmente a um impasse e a um paradoxo, como indiquei acima, pois não consegue sair da circularidade do registro fálico. O monismo fálico estaria, pois, sempre presente” (Birman, 2016, p. 218; grifos do autor).

Esta retomada de alguns fundamentos freudianos é importante na medida em que as fórmulas da sexuação podem ser criticadas desde um viés inesperado, levando em consideração o postulado do não há relação sexual. Resguardando tal aforismo de Lacan, cuja importância não se restringe à sexuação, questionamos se as fórmulas em si não remeteriam a algo de uma relação possível, já que, como na referência em Freud, ambos os lados “homem” e “mulher” encontram sua equação em relação a um mesmo e só elemento, Φx, a função fálica. A título de nota, foge ao espaço deste escrito referendar a pluralidade de conceituações do falo no ensino lacaniano, porém dedicamos um breve lembrete de como esse conceito vacila por entrever-se em referências assaz freudianas, especialmente em A significação do falo (1958/1998a, ver p. 699 em diante).

Ora, Cossi e Dunker (2017b) apontam que não se pode presumir que as fórmulas da sexuação operam “sem nenhuma antropologia de base, sem nenhuma tradução aos usos locais da língua, sem nenhuma paridade com o plano dos discursos (onde nasce o conceito de semblante)” (p. 3). No que os autores reivindicam como antropologia poderíamos igualmente chamar de mítica. No lado “homem”, o que constatamos, vale dizer, em sintonia com os autores supracitados (2017a, ver p. 6)? Vemos Totem e tabu, mito responsável por fundamentar filogeneticamente o complexo de Édipo sob o ponto de vista masculino. E no lado “mulher”? Lembramos que acima pontuamos, junto a Birman, uma consistente mítica em torno da mulher que estaria sempre correlacionada ao obscuro, ao inefável, ao irrepresentável, ao negativo, ao irracional. Desde aí questionamos caso não estaria aproximado dessa mesma mítica o não-todo da mulher em sua relação ao significante e ao discurso.

Prosseguimos com uma das últimas contribuições de Dunker (2017) em relação a esse assunto. Nesse trabalho o autor propõe o que seria uma transleitura das fórmulas da sexuação, afirmando que a grande questão do lacanismo estaria em divisá-las segundo dois paradigmas de leitura, o cis e o trans. Como ele mesmo aponta, haveria nos ditos e escritos lacanianos cinco apresentações distintas das fórmulas da sexuação (ver p. 117).

Assim, pensa nas fórmulas da sexuação referentes ao gozo somente como um dos eixos horizontais de um prédio mais amplo, composto também pelo eixo do semblante (“homem” e “mulher”) e da fantasia (contendo a gramática das relações do sujeito, objeto e Outro). Dessa maneira, a leitura cis indicaria a colagem do “homem” junto à modalidade de gozo Totem e tabu, cuja fantasia seria tomar-se como sujeito diante do objeto. Propondo uma leitura trans, Dunker (2017) expõe uma combinatória muito além de uma visada binária da sexuação, já que nenhum andar guardaria uma relação necessária em relação aos outros, como vemos na leitura cis (ver p. 121). É sustentando esta independência dos quadrantes assim destacados e recombinados, que ao autor é permitido comentar sobre um dos eixos horizontais: “É preciso dizer que, nesse caso, ‘homem’ e ‘mulher’ não são referências a semblantes, nem a modalidades de gozo, mas a fantasias” (p. 120).

Aqui, encontramos brecha para lançar um questionamento. Quando é sugerido que os eixos do prédio da sexuação (semblante, gozo e fantasia), com suas particularidades verticais (“homem” e “mulher”, no caso do semblante), estariam trans-desimplicados um em relação aos outros, parece que esquecemos a dedução de que a escrita correspondente às fórmulas do gozo estaria calcada em uma mítica discutivelmente de matriz cis-heteronormativa. Seria como se adentrássemos nesse complexo, elencássemos alguns de seus elementos mínimos de funcionamento e propuséssemos embaralhá-los - mas os elementos ainda seriam os mesmos. Tal feito poderia oferecer uma leitura por demais afastada da visada pragmática que traz o semblante em sua dimensão [dit-mansion] performativa, na medida em que sua instalação ocorre através de mitos cuja forte genealogia não deixa de se impor.

Onde chegamos

Nosso caminho até então foi realizar um descolamento do semblante como puro imaginário, tanto na fronte teórica interior ao colóquio lacaniano como abrindo espaço para algumas de suas incidências tendo em vista as várias leituras do que é “homem” e “mulher”, especialmente no percurso que desemboca nas fórmulas da sexuação. Reiteramos a distinção entre esses dois em relação ao semblante, e que isso que é textual em Lacan não é considerado pelos comentadores. Para tanto, quisemos tomar por guia a querela dos autores supracitados por representar um diálogo contemporâneo, tendo alguns dos elementos centrais de disputa o semblante, a performatividade e a lógica identitária.

Em um nível mais imediato, a articulação desses três fatores conceituais favorece uma leitura clínica distante das amarras do que é estabelecido inteligível socialmente - principalmente em se tratando das expectativas consagradas dentro do paradigma binário feminino e masculino, ou como devem ser um “homem” e uma “mulher”. Nessa seara, pensamos que o fator de anterioridade conceitual do semblante em relação às posteriores fórmulas da sexuação permite fazer ler por quais caminhos esta última acaba por reiterar velhos mitos em se tratando do sexual. Pensamos que isso é da maior importância tendo em vista a escuta dos nossos tempos, no que constituiu uma época de tantas reivindicações e sustentações da diversidade dos meios de se relacionar com o outro e com uma imagem sexuada de si.

Não só restrito às relações de gênero, a consideração clínica do semblante alça tanto as identificações quanto as formas de se apresentar para o Outro a sua devida condição de contingência radical - assim reatualizando o projeto lacaniano de uma escuta não pautada pelo natural ou pelo substancial. Mais ainda, distanciar criticamente a noção de semblante do ideário de um “puro imaginário”, significa autorizar o trabalho analítico com o parecer [parêtre ] também pela via do simbólico.

Por último, pensamos ser pertinente alertar quanto à manobra disso que Butler critica como estabilidade do simbólico agora para o registro do real, num certo afã de tornar as fórmulas da sexuação irrefutáveis tanto pelo que alude por substância gozante ou pela sua logicidade proposicional. Dessa maneira, reafirmamos a proposição deste trabalho de pensar o semblante na conjunção imaginário-simbólico, sem desconsiderar tanto o que o conceito traz de uma contundente crítica à noção de identidade, bem como de sua potência em articular o sujeito a determinados contextos culturais, . Lembramos de uma passagem que condensa essa última perspectiva da noção de semblante:

Ao considerar a dimensão da sexuação no estádio do espelho e a importância do corpo dos outros na constituição do eu, o semblante ganha outro estatuto: tornar-se homem ou mulher seria um processo inteiramente permeado pela relação que se tem com o semelhante, e, principalmente, pelo lugar que esse semelhante tem no discurso do Outro, posto que a constituição do eu ideal se dá mediada pelo Outro que o nomeia já como sexuado; e que, portanto, qualquer apreensão da diferença e da semelhança dos pequenos outros vai se dar já marcada por essa dimensão que [...] é cultural. Na medida em que há a inclusão social da diferença sexual no processo de constituição subjetiva, há semelhantes mais semelhantes que outros. (Ambra, 2017, p. 270)

Por outro lado, mesmo que critiquemos a noção de real desde o ponto de vista substancial - como aquilo anterior à linguagem que regularia o ser sexuado -, junto a Alain Badiou não podemos furtar o pensamento de que o real frustra a representação; que o real assombra o semblante (2017, ver pp. 22-23). Dessa forma, sem retornar à ideia de que teria uma verdade que subjaz às aparências, temos no real o fator próprio que possibilita desmontar um semblante e, quem sabe, poder aí substituí-lo por algum outro mais afeito ao desejo do sujeito.

Financiamento/Funding: Este trabalho não recebeu apoio / This work received no funding.

Referências

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Recebido: 20 de Dezembro de 2018; Aceito: 17 de Outubro de 2019

Editora/Editor: Profa. Dra. Sonia Leite

Conflito de interesses/Conflict of interest: Os autores declaram que não há conflito de interesses. / The authors declare that there is no conflict of interest.

Sthefan Krinski

Mestrando do PPG Psicanálise Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (Porto Alegre, RS, Br).

sthefan2001@gmail.com

https://orcid.org/:0000-0002-3320-8647

Manoel Madeira

Professor do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do PPG Psicanálise Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (Porto Alegre, RS, Br).

mlucemadeira@gmail.com

https://orcid.org/:0000-0002-6986-3918

Simone Moschen

Professor do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do PPG Psicanálise Clínica e Cultura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (Porto Alegre, RS, Br).

simoschen@gmail.com

https://orcid.org/:0000-0003-3776-8737

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