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Revista de Nutrição

versão impressa ISSN 1415-5273versão On-line ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. v.15 n.2 Campinas maio/ago. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732002000200009 

ORIGINAL | ORIGINAL

 

Fontes de informação sobre nutrição e saúde utilizadas por estudantes de uma universidade privada de São Paulo1

Information sources on nutrition and health used by students from a private university in the city of São Paulo, Brazil

 

Karina Maria Olbrich dos SANTOS2
Antônio de Azevedo BARROS FILHO3

 

 

RESUMO

O interesse público no tema nutrição e saúde reflete-se em sua cobertura pela mídia e é por ela estimulado. Para identificar as fontes de informação sobre esse assunto utilizadas pelos estudantes ingressantes de uma universidade privada e avaliar sua credibilidade, foi realizado um levantamento por amostragem (894 indivíduos). Foram abordadas a freqüência de uso e a credibilidade de diferentes fontes e identificadas as principais. Destacaram-se pelo uso freqüente: familiares (27,6%), rótulos de alimentos/suplementos (27,6%) e médicos (26,5%). Médicos e nutricionistas destacaram-se pela confiabilidade: 80,1% e 77,0% dos respondentes, respectivamente, indicaram confiar neles. Foram consideradas como fontes principais: revistas (73,5%), médicos (42,1%) e programas de televisão (33,9%). Os dados apontam a importância das revistas: são freqüentemente utilizadas, citadas entre as principais pela maioria e consideradas confiáveis por parcela relevante da amostra. Com menor credibilidade, programas de televisão e rótulos também são importantes na difusão de informações em nutrição e saúde, dada a freqüência de uso.

Termos de indexação: nutrição, informação, meios de comunicação.

 

ABSTRACT

The public interest in the issue of nutrition and health is reflected in its coverage by the media and it is stimulated by this reporting. To identify the information sources on this subject and to evaluate their credibility, a survey was conducted in a sample of 894 university students. Questions about the frequency of use and the credibility of a number of sources were included, the most important ones were identified. Three of them are regularly used: family (27.6%), food and supplements labels (27.6%), and medical doctors (26.5%). Doctors and nutritionists are trusted by the majority: 80.1% and 77.0%, respectively. The sources considered the most important were magazines (73.5%), doctors (42.1%) and television programs (33.9%). The findings indicate the importance of the magazines: they are frequently used, relatively trusted and considered the main vehicle by the majority. Although presenting lower credibility, television programs and food and supplements labels also constitute influential sources, as they are frequently used.

Index terms: nutrition, information, communications media.

 

 

INTRODUÇÃO

A relação entre alimentação e saúde tem se destacado como objeto de pesquisa e debate em áreas ligadas à ciência da nutrição. Riscos à saúde associados ao colesterol e às gorduras saturadas e benefícios atribuídos às vitaminas antioxidantes, a determinados ácidos graxos e aos carotenóides, entre diversos outros constituintes dos alimentos, vêm sendo investigados em ritmo crescente. Entretanto, a complexidade do vínculo entre nutrição e saúde tem alimentado discussões e controvérsias entre os membros da comunidade científica (Clydesdale, 1996; Byers, 1999).

O interesse público inerente a essa área de pesquisa, cujos resultados podem contribuir para a redução do risco de doenças tão temidas como as cardiovasculares e o câncer, tem se refletido na cobertura do tema nutrição e saúde pelos meios de comunicação. Reportagens sobre alimentação e saúde, relatos de pesquisas e recomendações nutricionais de diversos profissionais da área da saúde têm estado freqüentemente presentes em periódicos de grande circulação e na TV. No mesmo sentido, campanhas publicitárias e rótulos de alimentos e de suplementos nutricionais muitas vezes remetem a estudos científicos e a recomendações de especialistas. O conhecimento científico (mesmo incompleto) sobre a relação entre nutrição e saúde tornou-se parte importante das estratégias de marketing das indústrias alimentícias (Lambert & Rose, 1996), induzindo o crescente lançamento de alimentos funcionais - produtos enriquecidos com substâncias consideradas benéficas e/ou com teor reduzido de nutrientes associados ao aumento do risco de doenças.

Ao mesmo tempo, o interesse da população leiga por informações científicas sobre nutrição e saúde vem sendo estimulado por essa circulação de informações e tem sido considerado crescente em diversos países, como Estados Unidos (American Dietetic..., 1997), Canadá (Barton et al., 1997) e Inglaterra (Buttriss, 1997). Nesse contexto, diversas pesquisas têm procurado identificar quais são as fontes de informação nessa área utilizadas por diferentes segmentos populacionais, e algumas também têm avaliado o impacto da exposição a elas sobre as concepções populares a esse respeito (Chew et al., 1995; Abbott, 1997; Buttriss, 1997). De acordo com os resultados, os meios de comunicação de massa constituem uma das principais fontes utilizadas pela população para informar-se sobre esse tema, assim como, com menor freqüência, os profissionais da área de saúde - particularmente os médicos. A família e os amigos e colegas também têm sido identificados como fontes importantes, evidenciando que a interação social contribui para a circulação desse tipo de conhecimento.

Na Inglaterra Goode et al. (1995) constataram que a mídia impressa (jornais e revistas) e a eletrônica (televisão) estavam entre as cinco fontes de informação sobre alimentação saudável mais utilizadas pela população. No Canadá, segundo Barton et al. (1997), diversas pesquisas têm mostrado serem os meios de comunicação de massa as principais fontes de informação nutricional da maioria das pessoas, sendo os jornais diários o veículo mais freqüentemente consultado. Nos Estados Unidos, Chew et al. (1995) observaram que as fontes mediadas (televisão, rádio, jornais, livros e revistas) têm sido mais constantemente usadas para obter conhecimentos sobre saúde do que as interpessoais, no caso, o contato direto com profissionais de saúde. Para esses pesquisadores a importância da televisão é crescente, pois, de acordo com a comparação entre dados de 1969 e do início da década de 90, ela tem substituído a mídia impressa como a fonte sobre saúde mais citada. Entre universitários, a família foi o meio mais utilizado para informação nutricional, segundo pesquisa realizada por Eldridge & Sheehan (1994) nos Estados Unidos (Iowa), seguida por jornais e revistas, livros e amigos. Familiares e amigos também estiveram entre os recursos para informar-se sobre alimentação saudável mais usados por universitários e graduados na Ucrânia, citados por 65% dos entrevistados (Biloukha & Utermohlen, 2001).

Alguns estudos investigaram também a credibilidade atribuída às fontes de informação sobre nutrição e saúde, pois esta é uma das condições para um meio ser efetivamente utilizado (Abbott, 1997) e pode influir no julgamento da utilidade dos dados em questão (Buttriss, 1997). Segundo essas pesquisas, a credibilidade dos profissionais da área de saúde sempre tende a ser maior que a dos meios de comunicação de massa. Em uma série de levantamentos realizados no Reino Unido por Buttriss, por exemplo, estes especialistas foram menos citados como fontes de informação que os veículos de comunicação de massa, mas seus conselhos foram considerados úteis e confiáveis por uma maior parcela dos entrevistados. O mesmo foi constatado na Ucrânia por Biloukha & Utermohlen (2001): embora menos citados que os meios de comunicação, os profissionais de saúde foram considerados fontes confiáveis por 92% da amostra. Nos Estados Unidos, a American Dietetic... (1997) chegou a conclusões semelhantes: médicos e nutricionistas são os meios mais valorizados de informação nutricional, embora menos utilizados que os veículos de comunicação de massa. Em Adelaide, na Austrália, Worsley (1987) também havia verificado que os médicos eram considerados como fonte confiável de informação por quase a totalidade da amostra (97%), enquanto os artigos de revistas e jornais tinham a confiabilidade de 14% e 13% dos respondentes, respectivamente.

No Brasil, a julgar pela cobertura da mídia, pelos programas de televisão e pelas publicações contemplando o tema, o interesse por informações científicas sobre a relação entre alimentação e saúde também parece crescente, embora não existam dados publicados a esse respeito. Surge, então, a questão de quais veículos são usados pelas pessoas como fontes de informação em nutrição e saúde. Conhecer os recursos efetivamente utilizados pelo público leigo para se inteirar sobre esse assunto pode fornecer subsídios ao planejamento de programas de educação nessa área. O presente trabalho pretende representar uma contribuição nesse sentido, apresentando e discutindo os resultados de uma pesquisa realizada com o objetivo de identificar as fontes mais freqüentemente utilizadas por uma população de universitários para se informar sobre nutrição e saúde, avaliar a credibilidade atribuída a elas e verificar quais são consideradas como as principais. Este levantamento fez parte de um estudo mais amplo que abrangeu também as crenças sobre as vitaminas e as práticas de consumo de produtos vitamínicos.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

A pesquisa consistiu em um levantamento por amostragem da população de estudantes de 1o ano dos cursos das áreas de Ciências Humanas, Exatas e Biológicas de uma universidade privada localizada no Município de São Paulo. A escolha dos indivíduos baseou-se nos seguintes pressupostos: sua exposição a uma variedade de meios de comunicação, portanto a diversas fontes de informação, e a capacidade de compreender as informações assim veiculadas. O fator operacional também contribuiu para essa seleção: a possibilidade de coletar os dados através da auto-aplicação de um questionário nas salas de aula. O tamanho da amostra foi calculado com base no número total de alunos matriculados em cada uma das três áreas, considerando-se um erro amostral máximo de 5%. A amostra foi selecionada por sorteio de conglomerados, constituídos pelas diversas turmas dos cursos de cada área.

Os dados foram coletados por intermédio de um questionário estruturado, elaborado de acordo com as recomendações de Foddy (1993), previamente testado entre estudantes da mesma universidade. A seção referente às fontes de informação em nutrição e saúde foi composta por questões sobre a freqüência de uso de diferentes fontes "sempre", "às vezes" ou "nunca", sobre o grau de confiança em cada uma delas "confio", "confio com ressalvas" e "não confio" e sobre aquelas consideradas como as principais. As perguntas sobre a freqüência de uso e o grau de confiança apresentaram uma lista de 22 possíveis fontes de informação, além da alternativa "outras", na qual solicitou-se a indicação de fontes utilizadas e não incluídas na relação. Esta lista foi elaborada com base em estudos publicados na literatura (Chew et al.1995; Goode et al., 1995; Abbott, 1997; Buttriss, 1997) e procurou incluir meios de comunicação de massa, profissionais da saúde, formas de interação social e recursos relacionados à universidade, como os professores. No caso das revistas, optou-se por dividi-las em quatro grupos para possibilitar a distinção na análise: femininas, de atualidades, de saúde e fitness e sobre ciência - cada grupo apresentado com exemplos de títulos de grande circulação para facilitar sua identificação pelos estudantes. Da mesma forma, os livros foram classificados em três categorias: sobre alimentação e nutrição, sobre dieta de emagrecimento e de culinária. A questão sobre as fontes principais foi aberta - o respondente deveria listar até três. Outra seção foi direcionada ao levantamento de informações sociodemográficas.

O levantamento dos dados foi realizado em abril de 1999. Os questionários foram auto-administrados, aplicados às turmas nas próprias salas de aula, mediante a autorização dos professores. A participação dos alunos foi voluntária e anônima e a aplicação das questões foi precedida de breve explanação sobre os objetivos da pesquisa e a importância da sinceridade nas respostas. Poucos estudantes não se dispuseram a participar: menos de 2%. Nem todos os alunos matriculados em uma turma estavam presentes na sala de aula no momento da coleta dos dados. Ao todo, 894 questionários foram considerados suficientemente respondidos.

A análise estatística, conduzida por intermédio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) (Statistical Package..., 1997) e do Statistical Analysis System (SAS) (Statistical..., 1997), foi essencialmente descritiva. A existência de associação entre o uso de cada fonte de informação em nutrição e saúde e a variável gênero foi verificada por meio de teste de qui-quadrado. O nível mínimo de significância foi definido como 5%.

 

RESULTADOS

Os sujeitos da pesquisa concentram-se na faixa etária dos 17 aos 24 anos (85,0%), residem no Município ou na Região Metropolitana de São Paulo (99,6%) e são, em geral, solteiros (90,4%). A distribuição entre os gêneros é relativamente equilibrada no total da amostra, com predominância do sexo masculino (55,8%). No entanto, a proporção de estudantes do sexo masculino (79,3%) é bem maior que a do sexo feminino entre os alunos da área de Ciências Exatas e o inverso ocorre na área de Ciências Biológicas: 62,4% são do sexo feminino. A diferença na distribuição dos gêneros nas três áreas de concentração é estatisticamente significante, de acordo com o teste de qui-quadrado (p<0,001). A maioria dos estudantes (59,8%) trabalha além de estudar. O hábito de fumar é pouco freqüente (15,3%) e não difere para as três áreas de concentração.

Três fontes destacam-se pelo uso freqüente ("sempre") para informação em nutrição e saúde, indicadas por mais de um quarto dos respondentes: os familiares (27,6%, IC 95% 24,6-30,6), os rótulos de alimentos e suplementos nutricionais (27,6%, IC 95% 24,6-30,6) e os médicos (26,5%, IC 95% 23,5-29,4). A proporção de não-resposta variou entre 2,6% no caso dos programas de televisão e 5,1% no caso das revistas femininas (Figura 1).

Com relação à credibilidade, destacam-se os médicos e nutricionistas: 80,1% (IC 95% 77,4-82,9) e 77,0% (IC 95% 74,1-79,9) dos respondentes indicaram confiar neles como fonte de informação, respectivamente. Também de acordo com a freqüência de respostas "confio", pode-se dizer que os livros sobre alimentação e nutrição e as revistas de atualidades e as direcionadas à saúde e à divulgação científica são considerados meios confiáveis por parcela importante dos estudantes. A proporção de não-resposta à avaliação da credibilidade foi alta e variou bastante de acordo com a fonte em questão: a perda foi de 8,5% no caso dos programas de televisão e chegou a 37% no caso dos massagistas/acupunturistas. Os estudantes que disseram nunca utilizar uma determinada fonte tenderam a não responder a questão referente à credibilidade (Figura 2).

O uso da maioria dos recursos foi mais freqüente entre as mulheres (maior proporção dos que usam "sempre"), de acordo com o teste de qui-quadrado, com exceção dos jornais, revistas de atualidades e de divulgação científica e rádio. Foi encontrada diferença significante entre os gêneros na confiança atribuída à maioria das fontes, com maior proporção de "confio" entre as mulheres (Tabela 1).

Os estudantes indicaram suas três principais fontes de informação sobre nutrição e saúde. A Tabela 2 apresenta a freqüência (%) de citação delas entre as três consideradas mais importantes. As revistas aparecem agrupadas, pois diversos respondentes não especificaram o tipo ao citá-las.

 

 

Quando analisada apenas a primeira fonte citada como principal - supostamente a considerada mais importante - as revistas (em geral) permanecem como a mais mencionada (33,0%), seguidas pelos médicos (18,4%). Em terceiro lugar, por ordem da freqüência de citação, aparecem os jornais diários (13,4%), seguidos pelos programas de televisão (9,9%) e pelos familiares (7,2%).

 

DISCUSSÃO

Dada a inexistência de publicações sobre as fontes de informação em nutrição e saúde no Brasil, a análise dos dados obtidos assumiu um caráter descritivo e exploratório. Os resultados devem ser interpretados a partir de algumas considerações. Com relação à amostragem, é importante notar que o total foi constituído pela soma das amostras das três áreas de concentração dos cursos e não foi observada a proporcionalidade - o grupo de Humanas está sub-representado em relação aos outros dois. Entretanto, os valores referentes à freqüência de uso e à confiança em diferentes fontes obtidos mediante ponderação das três áreas estão dentro do intervalo de confiança (95%) calculado sem a ponderação. Assim, por simplicidade, foram mantidos os resultados sem a ponderação.

O fato de o levantamento ter sido realizado por intermédio de um questionário auto-administrado de forma coletiva condiciona os dados obtidos à interpretação das questões e das alternativas de resposta pelos estudantes. É preciso considerar, por exemplo, que o significado das alternativas propostas para a freqüência de uso ("sempre", "às vezes" e "nunca") é subjetivo, podendo variar de um indivíduo para outro. Também é importante observar que esse significado deve ter variado de acordo com o tipo de fonte: usar "sempre" médicos como recurso para informar-se é diferente de utilizar "sempre" jornais diários. No mesmo sentido, os dados sobre as "principais" fontes de informação em nutrição e saúde referem-se ao julgamento dos próprios estudantes. Com relação ao grau de confiança, os resultados foram considerados como indicadores da credibilidade atribuída às informações veiculadas pelas fontes; no entanto, isso não significa que as informações recebidas de um meio no qual o respondente indicou confiar sejam aceitas e/ou incorporadas, e vice-versa.

Em seu conjunto, os resultados do levantamento apontam para a importância da imprensa periódica - principalmente as revistas - como fonte de informação em nutrição e saúde para a população estudada. Além de freqüentemente utilizadas e citadas como um dos principais recursos pela maioria dos universitários, as informações circuladas por intermédio desses meios de comunicação são consideradas confiáveis por uma parcela importante deles. O mesmo pode ser concluído, como seria esperado, a respeito dos médicos e nutricionistas, identificados como fonte interpessoal e também como fonte mediada de conhecimentos sobre o assunto. Por outro lado, embora com menor credibilidade, os programas de televisão, as propagandas e os rótulos de alimentos e suplementos nutricionais também podem ser considerados como veículos importantes de difusão de informações entre os estudantes avaliados, pela freqüência com que são utilizados.

Os familiares aparecem como uma das fontes de informação sobre nutrição e saúde mais freqüentemente utilizadas pelos indivíduos pesquisados - resultado também encontrado por Eldridge & Sheehan (1994) entre universitários norte-americanos e por Biloukha & Utermohlen (2001) entre universitários e graduados na Ucrânia - juntamente com os rótulos de alimentos e suplementos nutricionais e os médicos. As mídias impressa e eletrônica - no caso, especificamente as revistas de atualidades e sobre ciência, os programas de televisão e as propagandas - constituíram um segundo grupo de fontes constantemente usadas, evidenciando a importância desses veículos na circulação e difusão do tipo de assunto considerado. O uso freqüente da mídia para informação sobre saúde e/ou nutrição pela população em geral também foi constatado por Barton et al. (1997) no Canadá, por Chew et al. (1995) nos Estados Unidos e por Goode et al. (1995) na Inglaterra. A pesquisa de Eldridge & Sheehan (1994) destacou o uso das revistas entre os universitários estudados: elas estiveram entre as cinco fontes mais citadas.

Quando solicitados a indicar suas três principais fontes de informação em nutrição e saúde, os estudantes citaram com maior freqüência as revistas em geral (73,5%), seguidas pelos médicos (42,1%) e pelos programas de televisão (33,9%). Esses resultados sugerem que, embora os familiares, os rótulos e as propagandas sejam utilizados constantemente, não são considerados importantes, ou seja, o uso freqüente pode estar associado à sua disponibilidade. Por outro lado, como médicos e nutricionistas têm sido consultados, entrevistados e/ou citados em reportagens e artigos os quais circulam através de diversos meios de comunicação, seu papel como fonte de informação deve também estar sendo intermediado por esses veículos.

Na avaliação dos universitários considerados no presente trabalho, os médicos e nutricionistas são as fontes mais confiáveis de informação sobre nutrição e saúde - 80,1% e 77,0% dos que responderam à questão disseram confiar neles, respectivamente. A credibilidade atribuída a esses profissionais é significativamente maior que a atribuída aos jornais (24,7% disseram confiar) e programas de televisão (14,2%), no tocante a esse assunto. A maior credibilidade de profissionais da saúde em comparação com a dos meios de comunicação, apesar da menor freqüência de uso como fonte de informação, também foi relatada em outros estudos direcionados para essa questão, como os de Buttriss (1997) no Reino Unido, da American Dietetic... (1997) nos Estados Unidos e de Worsley (1987) na Austrália.

É interessante notar que, em relação a todas as fontes cuja freqüência de uso diferiu entre os sexos, uma maior proporção de estudantes do sexo feminino disse utilizá-las "sempre". Esse dado pode indicar a existência, entre os indivíduos estudados, de um interesse maior das mulheres por questões relativas à nutrição e saúde. O estudo de Smith et al. (2000) com universitários canadenses sobre a utilização dos rótulos de alimentos como fonte de informação também constatou maior freqüência de utilização entre estudantes do sexo feminino, comparativamente. Além disso, comparando-se a avaliação da credibilidade das fontes, em todos os casos nos quais foi encontrada diferença, as estudantes mostraram-se mais propensas a confiar nas informações a que são expostas do que seus colegas do sexo masculino.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral os dados obtidos no levantamento indicam que a mídia vem exercendo papel importante na circulação e difusão de informações sobre nutrição e saúde. No entanto, a avaliação de seu impacto como fonte de informação é complexa, pois, como observa Abbott (1997), é difícil separar a influência da mídia de outros fatores. As pessoas tendem a mesclar as informações obtidas a partir de diversos veículos, não só as oriundas dos médicos e artigos de jornais e revistas como também as das conversas com amigos (Turney, 1996). Por outro lado, de acordo com Chew et al. (1995), os níveis de conhecimento sobre saúde dependem da fonte de informação utilizada e, segundo Richardson et al. (1994), a confiança em fontes específicas pode influir sobre esse conhecimento.

É relevante considerar também o fato de muitas informações sobre os alimentos e sobre nutrição serem recolhidas pela população a partir da publicidade de produtos; entretanto, esses dados podem ser contraditórios, incompletos e tendenciosos (Abbott, 1997). Nos Estados Unidos, a American Dietetic... (1995) afirma que o material promocional de suplementos nutricionais (entre outros produtos) constitui uma das fontes importantes na difusão de informações incorretas sobre nutrição. Essas considerações não se limitam aos informes veiculados por intermédio da publicidade de produtos. Angell & Kassirer (1994) comentam, em editorial do New England Journal of Medicine, que o interesse da população norte-americana pelos resultados de pesquisas sobre a relação entre dieta e prevenção de doenças e a aparente contradição entre resultados e conselhos publicados na imprensa têm sido causa de confusão e desconfiança para o público.

Embora sejam restritos ao grupo de universitários estudados e não contemplem a questão do impacto dessas informações sobre as concepções acerca do tema, os dados do presente levantamento remetem à necessidade de avaliar a qualidade das informações que chegam à população - as quais podem ter influência sobre o conhecimento nutricional e, indiretamente, sobre o comportamento alimentar e a saúde. Como ressalta a American Dietetic... (1995), pesquisadores e meios de comunicação devem compartilhar a responsabilidade de oferecer informação adequada ao público leigo. Em um contexto de debate e controvérsia na ciência da nutrição sobre a importância e as implicações para a saúde de diversos alimentos e substâncias neles presentes, a preocupação com a qualidade das informações deve incluir não apenas a fidedignidade aos trabalhos científicos que as originam, mas também a explicitação de suas limitações e do conjunto de dados no qual estão inseridas.

 

AGRADECIMENTOS

Aos estatísticos da Comissão de Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, Andréa Ferreira Semolini e Helymar da Costa Machado, pelo suporte na condução e discussão da análise estatística.

 

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Recebido para publicação em 13 de março e aceito em 4 de setembro de 2001.

 

 

1 Trabalho elaborado a partir da tese de doutorado em Ciência da Nutrição de K.M.O. SANTOS. "Conhecimento e crenças sobre as vitaminas e consumo de produtos vitamínicos". Departamento de Planejamento Alimentar e Nutrição, Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas, 2000. Apoio CNPq (processo nº 143691/94-5).
2 Departamento de Planejamento Alimentar e Nutrição, Faculdade de Engenharia de Alimentos, Universidade Estadual de Campinas. Caixa Postal 6121, 13083-970, Campinas, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: K.M.O. SANTOS. E-mail: kolbrich@uol.com.br
3 Departamento de Pediatria, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. E-mail: abarros@fcm.unicamp.br

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