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Revista de Nutrição

Print version ISSN 1415-5273On-line version ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.17 no.1 Campinas Jan./Mar. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732004000100006 

ORIGINAL ORIGINAL

 

Fenólicos totais e atividade antioxidante do extrato aquoso de broto de feijão-mungo (Vigna radiata L.)

 

Total phenolics and antioxidant activity of the aqueous extract of mung bean sprout (Vigna radiata L.)

 

 

Vera Lúcia Arroxelas Galvão de LimaI; Enayde de Almeida MéloI; Maria Inês Sucupira MacielII; Geane Soares Beltrão SilvaII; Daisyvângela Eucrêmia da Silva LimaII

IDepartamento Ciências Domésticas, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Av. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, 52171-900, Recife, PE, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: V.L.A.G. LIMA. E-mail: veraarroxelas@hotmail.com
IIAcadêmicas, Curso de Economia Doméstica, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Considerando a importância dos compostos fenólicos em alimentos e que o broto de feijão-mungo vem sendo incluído na culinária brasileira, este estudo teve como objetivo quantificar o teor de fenólicos totais deste vegetal e avaliar a ação antioxidante do seu extrato aquoso.
MÉTODOS: Os compostos fenólicos foram extraídos por quatro sistemas de solventes e dois métodos de extração, os quais foram diferenciados no tempo (2 e 1h) e número de extrações (2 e 3 extrações). Os fenólicos totais dos extratos foram quantificados por método espectrofotométrico.
RESULTADOS: Os extratos obtidos com água à temperatura ambiente (28ºC), nos dois métodos de extração, foram os que apresentaram maior quantidade de fenólicos totais, sem contudo apresentar diferença significativa entre eles. O método II, que consistiu de três extrações em 1h, pode ser considerado o melhor por ter utilizado menor tempo de extração. O extrato aquoso em sistema modelo b-caroteno/ácido linoléico exibiu ação antioxidante (48,07% de inibição da oxidação), entretanto foi inferior ao padrão BHT.
CONCLUSÃO: O broto de feijão-mungo possui considerável quantidade de fenólicos totais, compostos responsáveis por sua ação antioxidante, cujo consumo pode proporcionar efeitos benéficos à saúde.

Termos de indexação: alimentos, compostos fenólicos, broto de feijão-mungo, antioxidantes.


ABSTRACT

OBJECTIVE: Considering the importance of phenolic compounds in foods and the increasing consumption of mung bean sprouts in Brazil, this study had the objective of quantifying the total phenolic content in this vegetable and to assess the antioxidant activity of its aqueous extract.
METHODS: The phenolic compounds were extracted by four solvent systems and two extraction methods, which were different in time (2 and 1h) and in number of extractions (2 and 3 extractions). The total phenolic content of the extracts were quantified by the spectrophotometric method.
RESULTS: The extracts obtained with water at room temperature (28ºC) in both extraction methods showed a higher content of phenolic compounds; however, no statistical difference was evidenced between the two methods. Method II, consisting of 3 extractions in 1 hour period, can be considered the best because the extraction time was shorter. The aqueous extract in a b-carotene-linoleic acid model system presented antioxidant activity (48.07% oxidation inhibition), which was nevertheless lower than BHT levels.
CONCLUSION: Mung bean sprouts have a considerable amount of total phenolic compounds, responsible for their antioxidant activity, and their intake may be beneficial to the consumers' health.

Index terms: foods, phenolic compounds, mung bean sprout, antioxidants.


 

 

INTRODUÇÃO

O consumo de vegetais tem sido associado a uma dieta saudável. Além do seu potencial nutritivo, estes alimentos contêm diferentes fitoquímicos, muitos dos quais desempenham funções biológicas, com destaque para aqueles com ação antioxidante. Estudos têm demonstrado que além de b-caroteno, vitamina C e vitamina E, os compostos fenólicos também estão relacionados à capacidade antioxidante de vários vegetais1-3.

Nos últimos anos os países ocidentais têm incluído o broto de feijão-mungo, não somente em pratos tradicionalmente chineses, mas em várias outras preparações. O aumento do consumo desse vegetal é decorrente da procura por alimentos naturais e do seu valor nutritivo, pois além de conter certas vitaminas e minerais, apresenta baixo valor energético em função do reduzido teor de lipídios e alto conteúdo de água4,5. Além do aspecto nutricional, foi evidenciado que este vegetal apresenta propriedade antioxidante em função da presença de compostos fenólicos6.

A eficiência da extração destes constituintes está diretamente relacionada às características químicas das moléculas e aos procedimentos de extração7. Keinänen8 evidenciou que solventes aquosos (MeOH 80% e EtOH 80%) foram mais eficazes na extração de fenólicos. Kalt et al.9 verificaram que esses compostos foram melhor extraídos em água a 60ºC. Com o tempo de 20 minutos para cada etapa de extração, Maillard et al.10 obtiveram um teor quatro vezes maior de fenólicos totais. Por outro lado, um dos métodos de extração testado por Kähkönen et al.11 que foi considerado eficiente, consistiu de três extrações de 45, 45 e 20 minutos.

Assim, considerando que o broto de feijão-mungo vem sendo incluído na culinária brasileira e que ainda são escassas as pesquisas sobre este vegetal, este trabalho teve como propósito testar procedimentos de extração de fenólicos e avaliar a ação antioxidante do extrato de broto de feijão-mungo com teor mais elevado destes constituintes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados brotos de feijão-mungo de cultivo desenvolvido em Gravatá, PE, que foram colhidos e imediatamente transportados ao Laboratório de Análises Físico-químicas e Sensorial de Alimentos do Departamento de Ciências Domésticas da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde foi desenvolvido o experimento.

Inicialmente, os brotos de feijão-mungo foram branqueados, desidratados em estufa com circulação de ar a 50ºC ± 2ºC, triturados e mantidos sob congelamento (-18ºC) até o momento das análises. Para a obtenção dos extratos foram utilizados dois métodos de extração (I e II) e os seguintes solventes: água fervente, água à temperatura ambiente (28º C), metanol (MeOH 80%) e etanol (EtOH 80%).

Para a utilização do Método I, amostras (1g) do material desidratado, foram adicionadas em 50mL de cada solvente e mantidas sob agitação constante durante 1 hora. Em seguida, foram filtradas e os resíduos resubmetidos ao processo de extração acima explicitado, totalizando 2h de extração. Posteriormente, os filtrados foram combinados e o volume aferido para 100mL com o solvente correspondente.

No método II, amostras (1g) do material desidratado foram submetidas a 3 etapas de extração. Na primeira etapa, as amostras foram mantidas sob agitação constante durante 20 minutos em 40mL de cada solvente e, em seguida foram filtradas. Na segunda e terceira etapas, os resíduos foram homogeneizados em 30mL de cada solvente por mais 20 minutos. Os filtrados das três etapas de extração foram combinados e o volume aferido para 100mL, com cada solvente correspondente, totalizando um tempo de extração de 1 hora.

O teor de fenólicos totais dos extratos foi determinado por espectrofotometria, utilizando o reagente de Folin-Ciocalteu de acordo com a metodologia descrita por Tsimidou et al.12 e curva padrão de catequina. Os resultados foram expressos em mg de equivalente de catequina.100g-1 da amostra desidratada.

A atividade antioxidante foi determinada pela oxidação acoplada do b-caroteno e ácido linoléico de acordo com a metodologia descrita por Marco13 e modificada por Hammerschmidt & Pratt14. A atividade antioxidante foi expressa como percentual de inibição da oxidação e calculada usando a seguinte expressão: % de inibição = (A-B / A) x 100

Sendo, A = absorbância inicial - absorbância final do controle

B = absorbância inicial - absorbância final da amostra

O controle foi preparado sem adição de antioxidante (sem amostra ou solução de Butilhidroxitolueno (BHT)). A ação antioxidante da amostra foi comparada a do BHT, que foi determinada nas mesmas condições acima descritas.

As determinações foram efetuadas em triplicata e os dados submetidos à análise de variância e as médias comparadas pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade. Para comparação da eficiência dos métodos de extração, os teores de fenólicos totais dos extratos obtidos, com o mesmo solvente, foram submetidos à análise estatística com teste ''t'' de Student ao nível de 5% de probabilidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No Método I, o extrato obtido com água à temperatura ambiente apresentou teor desses fitoquímicos significativamente superior ao do extrato obtido com água fervente; entretanto foi semelhante aos teores extraídos com MeOH (80%) e EtOH (80%). Quanto ao Método II, observa-se que com os quatro sistemas de solventes utilizados, os teores de fenólicos totais extraídos foram semelhantes, não apresentando diferença significativa entre eles. Evidencia-se, portanto, que dentre os sistemas de solventes utilizados, independente do método de extração, a água à temperatura ambiente (28º C) foi mais eficaz para extração dos fenólicos do broto de feijão-mungo (Tabela 1).

 

 

Ao comparar a eficiência dos métodos de extração, utilizando o mesmo solvente, foi constatado que não houve diferença estatisticamente significativa no teor de fenólicos dos extratos. Entretanto, com o Método II pode-se reduzir o tempo de extração desses fitoquímicos.

Compostos fenólicos têm sido identificados em grão e broto de feijão-mungo. Sawa et al.6 detectaram a presença de flavonóides cujo teor aumenta 2,5 a 10 vezes durante o desenvolvimento do broto. Miean & Mohamed15 fazem referência a 26,8mg.100g-1 de flavonóides totais em broto desse vegetal. Dentre os constituintes do aroma deste feijão, presentes em extrato aquoso, Lee & Shibamoto16 evidenciaram a presença do eugenol.

Os teores de fenólicos totais determinados neste estudo foram superiores aos encontrados em outros vegetais, a exemplo da cebola, cenoura, tomate e ervilha, cujos valores em equivalente de ácido gálico.100g-1 de matéria seca, foram de 250mg, 60mg, 200mg e 160mg, respectivamente11. Em extrato aquoso de cereais (aveia, trigo, centeio, cevada), estes constituintes encontravam-se na faixa de 147mg a 1130mg em equivalente de catequina.100g-1 de matéria seca17.

O extrato aquoso do broto de feijão obtido através do Método I, com maior concentração de fenólicos, foi usado para a determinação da atividade antioxidante. No sistema modelo b-caroteno/ácido linoléico este extrato apresentou atividade antioxidante (48,07% de inibição da oxidação) inferior ao padrão BHT. Outros vegetais que apresentam compostos fenólicos em sua constituição também têm apresentado ação antioxidante em sistema modelo b-caroteno/ácido linoléico, a exemplo de pimenta de várias cultivares com 50,1% a 81,5%18, extrato aquoso de canela com 68%19, germe de trigo e ginseng com 64,9% e 69,1% de inibição da oxidação, respectivamente1.

Sawa et al.6 fazem referência à capacidade do extrato aquoso do broto de feijão-mungo em seqüestrar radicais livres, que aumentou em função do teor de flavonóides, demonstrando existir uma correlação positiva entre estes dois fatores. Outros autores também evidenciaram que a ação antioxidante de vegetais está relacionada ao teor de compostos fenólicos1,11.

 

CONCLUSÃO

Os resultados permitem concluir que o broto de feijão-mungo possui considerável quantidade de fenólicos totais, cuja extração foi mais eficiente com o uso de água à temperatura ambiente. O extrato aquoso desse vegetal, com maior teor de fenólicos totais, exibiu ação antioxidante. Sendo assim, o consumo do broto de feijão-mungo poderá proporcionar efeitos benéficos à saúde.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação em 10 de julho de 2002 e aceito em 5 de maio de 2003.

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