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Revista de Nutrição

Print version ISSN 1415-5273On-line version ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.21  suppl.0 Campinas July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732008000700006 

ORIGINAL ORIGINAL

 

Percepção e compreensão dos conceitos contidos na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, em comunidades indígenas no estado do Amazonas, Brasil1

 

Perception and comprehension of concepts of the Brazilian Food Insecurity Scale in indigenous communities in the state of Amazonas, Brazil

 

 

Lucia Kiyoko Ozaki YuyamaI; Victor Py-DanielII; Noemia Kazue IshikawaIII; Jansen Fernandes MedeirosI; Anne Walleser KeppleIV; Ana Maria Segall-CorrêaIV

IInstituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Coordenação de Pesquisas em Ciências da Saúde. Av. André Araújo, 2936, 69060-001, Manaus, AM, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: L.K.O. YUYAMA. E-mail: <yuyama@inpa.gov.br>
IIInstituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Núcleo de Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. Manaus, AM, Brasil
IIIInstituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Coordenação de Pesquisas em Tecnologia de Alimentos. Manaus, AM, Brasil
IVUniversidade Estadual de Campinas, Faculdade de Ciências Médicas, Departamento de Medicina Preventiva e Social. Campinas, SP, Brasil

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Este estudo teve como objetivo avaliar a percepção e a compreensão de conceitos e terminologia da segurança e insegurança alimentar, especialmente os que compõem a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, no contexto da realidade sócio-cultural indígena.
MÉTODOS: Foram utilizados recursos de pesquisa qualitativa para a abordagem das comunidades indígenas Cacau, Flexeira e Mamori, situadas na bacia hidrográfica do Médio Juruá, nos municípios de Envira e Eirunepé (AM), baseando-se em metodologia já previamente utilizada no Brasil e adaptada ao presente contexto, em uma reunião com especialistas da área. Em seguida foram organizados grupos focais, com 18 participantes das três comunidades indígenas.
RESULTADOS: A fome apareceu como situação vivenciada por muitos dos participantes dos grupos focais das três comunidades estudadas. Os conceitos e as terminologias como segurança alimentar, fome e comida boa foram bem compreendidos, no entanto, comida variada, comida suficiente e estratégia para evitar problemas com comida foram conceitos não compreendidos por eles. A rotina de vida desses povos baseia-se nas relações familiares que permitem trocas, diferindo de outros grupos focais da área urbana e rural, conduzidos como parte da validação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, nos quais a dificuldade de acesso aos alimentos era conseqüência da falta de recursos financeiros.
CONCLUSÃO: São necessários novos e aprofundados estudos, qualitativos e quantitativos, para o desenvolvimento de um instrumento de mensuração de insegurança alimentar que reflita a realidade desses povos, ao mesmo tempo em que busquem fornecer resultados comparáveis com aqueles de outros povos indígenas e mesmo os obtidos pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar em outras populações. Será necessário um instrumento que contemple a questão da troca, o aspecto coletivo, a importância e o uso do ambiente nas experiências de segurança ou insegurança alimentar. Sugere-se ainda que, para estudos quantitativos, o questionário deva ser mais resumido e simples.

Termos de indexação: Insegurança alimentar. População indígena. Segurança alimentar e nutricional.


ABSTRACT

OBJECTIVE: The objective was to evaluate the perception and comprehension of concepts and terminology related to food security and insecurity, especially those that comprise the Brazilian Food Insecurity Scale, in the context of indigenous socio-cultural reality.
METHODS: Qualitative research techniques were used in Cacau, Flexeira and Mamori indigenous communities located in the Médio Juruá watershed, in the municipalities of Envira and Eirunepé (AM). The methods were based on a methodology used previously in Brazil and adapted to the present context in a meeting of specialists familiar with these indigenous communities. Next, focus groups were organized in each one of the three communities, with a total of 18 participants.
RESULTS: Hunger appeared as a phenomenon experienced frequently by the participants. Many of the concepts and terms, such as "food security", "hunger", and "good food", were well-understood, but others, such as "varied food", "sufficient food" "strategies to avoid problems with food" were not. Everyday life depends on family relations that allow exchanges, which differs from studies conducted previously in urban and rural areas, where difficulties related to access to food were due to lack of financial resources. The subject of trading, or exchanges, appeared often during the focus groups, as well as a collective aspect of the experience of food security that had not emerged previously in focus groups conducted as part of the Brazilian Food Insecurity Scale validation.
CONCLUSION: More in-depth qualitative and quantitative studies are needed to develop a food security measurement instrument that reflects the reality of these indigenous communities while, at the same time, provides results that are comparable to other indigenous communities as well as to results obtained using the Brazilian Food Insecurity Scale in other populations. To apprehend the situation of food security in these grups is necessary an instrument that takes into consideration the question of trading/exchange, the collective aspect, and the importance of the environment in their experiences related to food security and insecurity. It is recommended that, if questionnaires are to be used, that they should be kept as short and simple as possible.

Indexing terms: Food insecurity. Indigenous population. Food security.


 

 

INTRODUÇÃO

A segurança alimentar se define como o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. As políticas e ações de garantia desse direito deverão respeitar as dimensões ambientais, culturais, regionais e sociais1. Sendo o direito à alimentação parte dos direitos civis básicos da população e um meio de alcançar a cidadania plena, de acordo com o Instituto Cidadania2, impõe-se a necessidade de ações que permitam um recurso adequado para acompanhamento e avaliação das políticas nacionais de combate à fome.

Entre 2003 e 2004, em virtude do compromisso do Estado Brasileiro de priorizar políticas de combate à fome no País, foi realizado estudo multicêntrico para adaptação e validação de escala de medida de insegurança alimentar, com participação de pesquisadores de cinco instituições, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Universidade Brasília (UnB). Buscava-se, naquela ocasião, responder à necessidade de identificar, no País, as populações de risco para insegurança alimentar e fome, além de fornecer instrumentos nacionais para o acompanhamento e a avaliação do impacto das políticas públicas pertinentes3,4.

A adaptação e a validação desse instrumento partiram de escala desenvolvida pelo United States Department of Agriculture (USDA)5, e aplicada em inquéritos populacionais naquele país desde 1995, além de em outros países desenvolvidos e subdesenvolvidos6-10. Nos últimos anos, escalas psicométricas da percepção de insegurança alimentar nos domicílios têm alcançado reconhecimento como ferramentas importantes para a avaliação da insegurança alimentar, na sua dimensão de acesso aos alimentos, aliadas aos métodos mais tradicionais baseados na análise de renda ou de consumo alimentar11,12.

A validação da escala no Brasil foi realizada em comunidades urbanas de Campinas, João Pessoa, Brasília e Manaus3 e em populações rurais13 dos estados correspondentes, acrescidos de Mato Grosso, buscando, dessa forma, captar as diversidades sociais e culturais do Brasil. Entretanto, mesmo tendo em conta as modificações e os esforços na adequação dos questionários para a população de áreas rurais, foi considerado ainda necessário reproduzir o mesmo processo em comunidades indígenas, cujas particularidades e diversidades são bem conhecidas.

Algumas questões nortearam o estudo. Qual a compreensão sobre segurança alimentar para os povos das Terras Indígenas Kulina do Médio Juruá, Kulina do Cacau do Tarauacá, Kanamari do Médio Juruá e Mawetek, e para os pesquisadores familiarizados com essas populações? Pensa-se que seja, sobretudo, a garantia da terra que lhes provê os alimentos por meio da caça, pesca e roçados14,15.

Este estudo visa a contribuir com novos conhecimentos a respeito da percepção e da compreensão de conceitos relativos à segurança alimentar contidos na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), em comunidades indígenas, por meio de grupos focais conduzidos com membros dessas comunidades. Este esforço poderá resultar, juntamente com outros estudos, na elaboração de um instrumento de medida de fácil aplicação e útil para o aprimoramento das políticas públicas de combate à fome nas populações indígenas, procurando sempre contemplar as especificidades de cada etnia.

 

MÉTODOS

O presente estudo teve aprovação do Comitê de Ética do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Registro 019/2004).

O procedimento metodológico utilizado para avaliar a compreensão dos conceitos e das terminologias contidos no instrumento de medição da segurança e insegurança alimentar, nas comunidades indígenas, foi viabilizado a partir de recursos de pesquisa qualitativa, tendo como referência experiências prévias dos trabalhos de Corrêa et al.13, e iniciado com um painel de especialistas que antecedeu os grupos focais nas aldeias.

Painel de especialistas

O painel de especialistas foi composto por pesquisadores e docentes que atuam em terras indígenas envolvendo as etnias Terena, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Comunidades Yanomami, Kulina e Kanamari e outras etnias, INPA, assim como a Unicamp. Foram discutidos e adaptados conceitos contidos em questionário utilizado por Corrêa et al.13 em áreas urbanas e rurais, com o objetivo de analisar sua pertinência para o diagnóstico da situação de insegurança alimentar em populações indígenas.

Os especialistas sugeriram, com base nas suas convivências com os povos indígenas, algumas modificações nos termos usados no questionário de referência, como as que seguem: alimentação saudável (por comida boa); alimento suficiente (por comida suficiente); qualidade dos alimentos (por comida de qualidade); alimentação variada (por comida variada); fome e segurança alimentar. Durante a discussão foram inseridos outros conceitos tais como alguns dos trabalhados para a área rural: condição para ter alimento suficiente (por condição para ter comida suficiente); troca de alimento (por troca de comida); produção de alimentos para consumo/autoconsumo; compra de alimentos (por compra de comida); ficar sem nenhum dinheiro; estratégias rurais para evitar problemas com alimentação (para estratégias para evitar problemas com comida); poucos alimentos; dinheiro suficiente; alimento nutritivo; comida forte; comida fraca.

Uma vez que, nos hábitos de algumas comunidades indígenas, os adultos se alimentam primeiro, assim como a alimentação é diferenciada de acordo com as atividades de cada membro, foi incluída a pergunta: na hora de servir o prato, quem come primeiro?

Grupos focais

Com o intuito de viabilizar um estudo exploratório com algumas comunidades indígenas, dois grupos étnicos, os Kulina (autodenominados Madijá), lingüisticamente pertencentes à família Arawá, e os Kanamari (autodenominados Tûkûna), lingüisticamente classificados na família Katukina, foram convidados a participar do presente estudo. No Brasil os Kulina são encontrados em rios da bacia hidrográfica do Purus, em rios da Bacia hidrográfica do Juruá e na Terra Indígena do Javari; enquanto os Kanamari são encontrados no Juruá, no Japurá, no Jutaí e na Terra Indígena do Javari. Segundo a Operação Amazônia Nativa (OPAN)16, a população total dessas duas áreas somava 1.661 pessoas. Algumas comunidades de ambas as etnias que estão mais próximas dos centros urbanos apresentam mudanças na sua estrutura sociocultural, sobretudo no que se refere aos seus padrões alimentares. Atualmente preferem fazer suas compras nas cidades, incorporando produtos industrializados como açúcar, sal, café, macarrão, bolachas e arroz e até o consumo de bebidas alcoólicas, em vez de basicamente utilizarem produtos de seus roçados14,15.

Os grupos focais foram organizados em três comunidades localizadas nas terras indígenas da Bacia Hidrográfica do Médio Juruá, no Sudoeste do estado do Amazonas. Foram elas as comunidades: 1) Cacau (etnia Kulina), localizada na Terra Indígena Cacau do Tarauacá, no Município de Envira, distando 1.200km em linha reta de Manaus; 2) Flexeira e 3) Mamori (ambos da etnia Kanamari), localizadas na Terra Indígena Kanamari do Médio Juruá, no Município de Eirunepé, distando 1.160km em linha reta de Manaus.

Os conteúdos propostos nos painéis dos especialistas foram explorados nas dinâmicas dos grupos focais. Participaram dessas atividades sete membros da comunidade Cacau, sendo quatro mulheres e três homens; cinco membros em Flexeira, três mulheres e dois homens e seis membros em Mamori, dos quais cinco eram mulheres e um homem. Os participantes dos grupos focais eram todos voluntários indicados pelas lideranças da comunidade: Cacique/Capitão, professores ou agentes de saúde.

Os conceitos e os temas eram expostos pelo entrevistador em voz alta, de maneira pausada, sendo sua forma de apresentação repetida ou modificada, quando isso era necessário.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As comunidades estão localizadas em áreas de difícil acesso, necessitando transporte aéreo entre Manaus e as sedes dos Municípios e, posteriormente, deslocamento das sedes às comunidades, utilizando tratores ou o transporte fluvial denominado "voadeiras" (embarcações pequenas de alumínio motorizadas), seguido por caminhadas de várias horas pela floresta.

Os dois grupos étnicos (Kulina e Kanamari), anteriormente seminômades, lingüisticamente preservados, ainda conservam sua cultura, no entanto suas moradias já estão caracterizadas como a dos ribeirinhos (casas palafitas, predominantemente de palmeiras paxiúba (Socratea exorhiza (mart.) H. Wendland). Seus hábitos alimentares ainda têm como base principal a caça e o cultivo de roçados familiares ou comunitários.

A Comunidade Cacau (na Terra Indígena Kulina do Cacau do Tarauacá), localizada a uma distância reduzida da cidade de Envira, é uma das que apresentam maior deterioração ambiental, tanto em seu espaço como no da vizinhança. Uma das conseqüências é o uso de produtos alimentares estragados, como fonte de alimentação, obtidos em um lixão a céu aberto ao longo da estrada percorrida pelos indígenas.

A Comunidade Mamori (na Terra Indígena Kanamari do Médio Juruá), por sua proximidade à cidade de Eirunepé, apresenta um fluxo inter-cultural permanente, além de possuir em seu núcleo habitacional uma Missão Evangélica das Novas Tribos do Brasil.

A Comunidade Flecheira (na Terra Indígena Kanamari do Médio Juruá), entre as três estudadas, é a que apresenta certo isolamento em relação às cidades; no entanto, confronta permanentemente a ocupação da margem esquerda do igarapé Itucumã, com assentamentos não indígenas.

Essas comunidades recebem o apoio direto da Organização Não-Governamental (ONG) Operação Amazônia Nativa (OPAN), com sede em Cuiabá e do Núcleo da OPAN em Eirunepé (AM).

Percepções sobre insegurança alimentar

A insegurança alimentar é uma realidade diária para milhões de pessoas em todo o mundo, e tem constituído tema de pesquisa a busca de um instrumento de medida direta dessa condição que assegure comparações entre países, ou entre comunidades com contextos, costumes, valores e conhecimentos extremamente variados culturalmente. Pesquisas e revisões recentes apontam para essa possibilidade a partir da identificação de aspectos da experiência da insegurança alimentar e da fome considerados universais17.

Do mesmo modo que em outras publicações4,13, a insegurança alimentar e a fome apareceram como situação vivenciada, freqüentemente, por muitos dos participantes dos grupos focais: "Dói a barriga", "Quando não tem comida para passar a fome", "Quando não tem o que comer eu choro", "Não ter rancho e morre de fome", "Quando não tem dinheiro, passa assim mesmo, sem comer".

A rotina de vida dos indígenas das comunidades estudadas independe de valores econômicos, por mais que eles tenham de se adequar aos limites financeiros. Estes indígenas estão inseridos em um contexto sócio-histórico comum e, em alguma medida, sem excluir os conflitos, partilham de valores, linguagem e práticas sociais que permitem trocas. A economia interna da aldeia e o suprimento de suas necessidades mais fundamentais são baseadas em relações familiares que permitem trocas, diferindo, portanto, das populações urbanas3 e rurais13, nas quais a dificuldade de acesso aos alimentos era conseqüência da falta de recursos financeiros. A questão da troca apareceu com freqüência nas falas durante os grupos focais: "Entregar comida para a vizinha parenta e ganha dela também", "Troca macaxeira com bolacha", "O marido traz carne de caça, vai para a cidade e troca por peixe", "Um dia dá o peixe e no outro dia ganha carne", "Se a gente tem um tipo de comida, dá para a outra pessoa, aí ela dá outra comida diferente", "Troca peixe por anzol, sal, açúcar, linha para pescar".

Foi possível perceber, também, um aspecto coletivo importante da experiência de segurança alimentar que não surgiu em outros grupos focais conduzidos com populações não indígenas, como parte da validação da EBIA3,13. "Comida de qualidade é quando a gente rala banana grande verde, mistura com carne cozida e chama todos da comunidade para comer", "[Pouca comida é quando] não dá para os outros, só dá para a família", "[Pouca comida é] quando não dá para dividir", "A roça da comunidade é uma só".

Esse aspecto coletivo da segurança alimentar merece atenção especial na elaboração de instrumento para medir segurança alimentar dos povos indígenas brasileiros.

Segurança alimentar para as comunidades indígenas está mais centrada nas possibilidades diárias, e não nas possíveis perspectivas a longo prazo, pois os itens alimentares, nas comunidades, são fornecidos por meio de sazonalidade (disponibilidade de frutos oriundos da floresta ou os cultivados em quintais) e encontros casuais (em relação às fontes protéicas, à caça e à pesca). Segurança alimentar para as etnias Kulina e Kanamari é, sobretudo, garantia da terra (para caça, pesca e roçados) como se percebe nas seguintes falas:

- "Quando tem muita pupunha para comer e para vender",

- "Não se preocupar com comida nas épocas de safra porque podem comer e vender",

- "Roçado bom e grande com muita planta é segurança alimentar",

- "Segurança também é material para fazer o roçado como: machado, terçado, enxada, plantadeira de arroz e milho, faca...",

"Pesca no igarapé",

"Pesca de canoa: pacú, surubim, curumatã, piau",

"Planta mamão, abacaxi, pupunha, biriba... macaxeira, banana",

"Cria galinha, porco e boi",

"Tem que ter roça grande com milho, mamão, abacaxi, batata doce, caju, macaxeira, banana, cará, manga, ária (um tipo de batata), taioba".

Portanto, é notória a diferença encontrada em relação à compreensão desses participantes, sobre os conceitos relacionados à (in) segurança alimentar contidos na EBIA, e daqueles dos municípios dos estados de São Paulo, Goiás, Paraíba, Amazonas e Mato Grosso, envolvendo populações urbanas e rurais13. Essas diferenças estão muito presentes nas questões relativas ao acesso aos alimentos. Nas referidas áreas urbanas e rurais, os resultados revelam que a dificuldade de acesso aos alimentos eram decorrentes da falta de recursos financeiros3,13. Além disso, o conceito "segurança alimentar" para os participantes desses grupos focais estava diretamente relacionado com o "acesso às condições de trabalho, saúde, educação, habitação e renda", bem como com "Direito à alimentação". Também estabeleceram associações em relação à "quantidade adequada" da alimentação, mencionando a importância dos aspectos da "qualidade"; ou seja, "condições de acesso diário e com qualidade" e a "produção de alimentos com qualidade", livres de agrotóxicos e higienicamente seguros, na área rural4,5.

Como existem diferenças nos aspectos dos cuidados com as crianças entre as etnias Kulina e Kanamari, não podem ser generalizadas as interpretações relacionadas com segurança alimentar e insegurança alimentar a elas referidas, apesar de se observar que a necessidade de disponibilidade alimentar para as crianças é percebida como semelhante nesses grupos.

O Quadro 1 apresenta uma síntese descritiva dos resultados dos grupos focais, mostrando semelhanças e diferenças de compreensão entre os temas propostos e entre as diferentes etnias.

Alguns conceitos sugeridos, pelo grupo de especialistas, sobre o instrumento de coleta de dados, foram adaptados no momento da discussão com os participantes dos grupos focais, tais como: comida variada por bastante tipo de comida, ou ainda trabalhar o conceito vários tipos de comida por comidas diferentes; alimento nutritivo por comida que deixa forte e comida que deixa fraco; e consumo/autoconsumo por de onde vem o alimento que chega a sua casa e o que é produzido na roça.

Como não houve compreensão do termo estratégia para evitar problemas com alimentação, foi necessário trabalhar no grupo com a pergunta: o que vocês fazem para não faltar e para não ter problemas com comida? Constata-se que a percepção do grupo focal em relação à frase faltar comida está mais relacionada à segurança alimentar por meio do uso da terra, envolvendo o plantio e a criação de animais de pequeno porte, de acordo com as falas: planta macaxeira, banana e pupunha para não passar fome; cria galinha e pato, enquanto que o ter problemas com comida está associado ao conceito de alimento seguro (higiene, qualidade), conforme as falas:

- "Não criam porcos, porque dá doença, o porco defeca no terreiro, a criança senta e pega doença.",

- "Lava bem o peixe para não pegar doença",

- "Esquentar bem a comida",

- "Não comer comida velha",

- "Se não fizer estas coisas dá dor de barriga diarréia e fica magro".

Os participantes não compreenderam as palavras: suficiente e evitar. Suas percepções em relação aos conceitos trabalhados é que eles são muito repetitivos, deixando-os, às vezes, muito irritados. Todas essas observações apontam para a importância de procurar trabalhar esses conceitos de outra forma, talvez sem se limitar a frases preestabelecidas, para deixar os termos e significados surgirem das falas, de forma mais natural.

Outro aspecto observado foi de que o homem e a mulher das etnias Kulina e Kanamari possuem visões distintas em função das atividades e responsabilidades exercidas por eles.

Esforços do governo nas áreas indígenas estão focados, principalmente, na demarcação de terras e ações de saúde, estas últimas contemplando o processo de implantação de Distritos Sanitários. Entretanto, os diversos projetos de saúde implantados não chegam a formular consenso mínimo de como os serviços de saúde seriam melhor organizados18,19. Reconhece-se que tanto a problemática da demarcação das terras quanto a da saúde indígena estão fortemente relacionadas com os hábitos e as necessidades alimentares, tornando a disponibilidade de uma metodologia para coleta de informações sobre segurança e insegurança alimentar de fundamental importância.

Este trabalho mostrou, ainda, a necessidade de reformular o questionário de maneira a obter um formato mais resumido e simples, permitindo a sua adaptação às rotinas de trabalho de campo. Isso porque não se pode deixar de considerar a dificuldade de acesso às comunidades, os altos custos de recursos humanos e logísticos de trabalho nessas áreas, os altos índices de analfabetismo nas comunidades e, sobretudo, as dificuldades de compreensão da língua falada.

Athias & Machado18 relatam a necessidade, por ser facilitador, do trabalho em conjunto entre os agentes de saúde e os antropólogos, neste caso específico, em relação às ações de saúde indígena. O presente estudo fortalece a visão da existência de carência de espaços de discussões entre profissionais de diferentes áreas, especialmente para a abordagem dos temas sobre a segurança e insegurança alimentar envolvendo as diferentes etnias, de forma a contribuir nas ações das políticas públicas do governo.

 

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo demonstraram que há necessidade de ser desenvolvida metodologia de abordagem e um instrumento de coleta de informação sobre segurança e insegurança alimentar adequados à realidade social, ambiental, cultural e de gênero, das populações indígenas brasileiras. As adequações no formato de perguntas e na linguagem dos conteúdos do questionário original, validado para populações urbanas e rurais, feitas a partir das análises no grupo de especialistas sobre o instrumento de coleta de dados, e depois nas discussões dos grupos focais, mostraram-se pertinentes, porém ainda insuficientes. É necessário re-estudar o conhecimento dessas comunidades sobre segurança e insegurança alimentar, principalmente com as suas interações ambientais, pois isso fornecerá o substitutivo do aspecto financeiro. Ou seja, deve-se buscar um instrumento de medida adequado às etnias Kulina e Kanamari, explorando a importância e o uso do ambiente nas suas experiências de segurança ou insegurança alimentar e contemplando alterações nos itens que poderiam refletir esse aspecto.

Estudos futuros devem procurar elaborar formas alternativas de abordar os temas de interesse da segurança alimentar, sem limitar a discussão estritamente aos conceitos e termos preestabelecidos, como são aqueles contidos na EBIA. Dessa forma, poderão emergir das falas dos participantes indígenas outros conceitos, referências e significados que melhor refletirão a realidade dos povos indígenas.

Conclui-se que este foi um passo importante de pesquisa sobre segurança e insegurança alimentar entre povos indígenas, que mostrou a existência de várias dimensões da experiência de insegurança alimentar entre eles, já contidas na EBIA. Entretanto, reconhece-se que são necessários novos e aprofundados estudos, qualitativos e quantitativos, para o desenvolvimento de um questionário adequado, curto, de linguagem simples. Seus conteúdos devem refletir a realidade dos Kulina e Kanamari, ao mesmo tempo em que contemplem a possibilidade de fornecer resultados comparáveis com aqueles de outros povos indígenas, e mesmo com os obtidos pela EBIA em outras populações.

 

COLABORADORES

L.K.O. YUYAMA participou do estudo multi-cêntrico idealizado por Ana Maria Segall-Corrêa et al. e coordenou o projeto aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico que redundou na redação deste trabalho. V. PY-DANIEL responsável e um dos executores dos levantamentos de campo nas áreas indígenas; contribuiu com a interpretação da percepção indígena em relação à insegurança alimentar. N.K. ISHIKAWA participou da elaboração e aplicação dos questionários nas áreas indígenas; colaborou na análise dos dados e na redação do artigo. J.F. MEDEIROS contribuiu com as atividades de campo nas áreas indígenas e com a interpretação dos dados. A.W. KEPPLE contribuiu com a interpretação dos dados qualitativos e com a redação do artigo. A.M. SEGALL-CORRÊA participou da discussão do conteúdo da investigação que deu origem ao artigo. Contribuiu com a revisão de conteúdo e com a redação do artigo.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 24/4/2007
Versão final reapresentada em: 3/11/2007
Aprovado em: 8/5/2008

 

 

1 O artigo é oriundo do projeto de pesquisa: "Segurança e Insegurança alimentar em Manaus: I. Avaliação epidemiológica; II. Validação de instrumento de coleta de informação em algumas comunidades indígenas. III. Uso da floresta na promoção de hábitos alimentares saudáveis. Apoio financeiro: Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a partir do Edital MCT/MESA/CNPq/CT-Agronegócio 01/2003 (processo CNPq nº 503431/2003-6)

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