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Revista de Nutrição

Print version ISSN 1415-5273

Rev. Nutr. vol.24 no.1 Campinas Jan./Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732011000100013 

ORIGINAL

 

Efeito da linhaça (Linum usitatissimum L.) sob diferentes formas de preparo na resposta biológica em ratos1

 

Effect of flaxseed (Linum usitatissimum L.) prepared by different methods on the biological response of rats

 

 

Anne y Castro Marques; Tiffany Prokopp Hautrive; Guilherme Barcellos de Moura; Maria da Graça Kolinski Callegaro; Luisa Helena Rychecki Hecktheuer

Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Rurais, Departamento de Tecnologia e Ciências dos Alimentos. Av. Roraima, 1000, Prédio 42, Sala 3135A, Cidade Universitária, Camobi, 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: A.C. MARQUES. E-mail: <annezita@fea.unicamp.br>

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar as possíveis atividades biológicas causadas pelo consumo diário de linhaça em diferentes condições de preparo, em ratos Wistar machos recém-desmamados.
MÉTODOS: Os ratos recém-desmamados (n=32) foram divididos em 4 grupos de 8 animais: ração padrão; ração com 16% de grão de linhaça cru; ração com 16% de grão de linhaça assado; e ração com 7% de óleo de linhaça. Os animais foram pesados a cada três dias e, após 23 dias de período experimental, foram sacrificados por punção cardíaca, sendo os órgãos imediatamente pesados e o sangue coletado e armazenado a -18ºC para realização das análises (glicose, colesterol total, lipoproteína de alta densidade - colesterol, triglicerídios e proteínas totais). As fezes foram coletadas para a determinação de umidade, lipídeo excretado e lipídeo absorvido.
RESULTADOS: Não houve diferença entre os grupos quanto ao ganho de peso total, consumo diário, coeficiente de eficácia alimentar e peso dos órgãos. A excreção diária, o teor de umidade das fezes e a quantidade de lipídeo fecal foram maiores nos grupos linhaça cru e linhaça assada em comparação aos grupos padrão e óleo de linhaça. Com exceção do lipoproteína de alta densidade-colesterol, todos os demais parâmetros bioquímicos avaliados apresentaram diferenças estatísticas entre os tratamentos.
CONCLUSÃO: O consumo de linhaça, seja como grão cru, assado ou óleo, possui atividade biológica em ratos, destacando-se por reduzir os níveis de glicose, triglicerídios e colesterol. Além disso, o consumo do grão de linhaça aumentou significativamente o volume do bolo fecal e a excreção de lipídeos nas fezes.

Termos de indexação: Ácido alfa-linolênico. Linho. Ratos.


ABSTRACT

OBJECTIVE: The objective of this investigation was to evaluate the effects of flaxseed (Linum usitatissimum L.) prepared by different methods on the biological response of rats.
METHODS: Weaned rats (n=32) were divided into 4 groups of 8 animals each: standard feed, standard feed with 16% raw flaxseed, standard feed with 16% roasted flaxseed and standard feed with 7% flaxseed oil. The animals were weighted at every 3 days and after 23 days, rats were killed by heart puncture. The organs were immediately weighed and the blood was collected and stored at -18ºC for biochemical assays (blood glucose, total cholesterol, High density lipoprotein-cholesterol, triglyceride and total protein). The feces were collected for analysis of moisture, excreted lipids and absorbed lipids.
RESULTS: The groups did not differ with respect to weight gain, daily food intake, food efficiency ratio and organ weight. Daily excretion, feces moisture and fecal lipid content were greater in the groups fed raw and roasted flaxseed than in the groups fed standard feed and flaxseed oil. Except for high density lipoprotein-cholesterol, all other biochemical parameters presented statistical differences between treatments.
CONCLUSION: Raw or roasted flaxseed or flaxseed oil has biological activity in rats: it reduces blood glucose, triglyceride and cholesterol levels. Furthermore, rats fed raw and roasted flaxseed presented a significantly greater fecal volume and fecal lipid content.

Indexing terms: Alpha-linolenic acid. Flax. Rats.


 

 

INTRODUÇÃO

Linum usitatissimum L., popularmente conhecida como linhaça ou linho, é uma planta pertencente à família das Lináceas originária da Ásia1. Da casca da planta é retirada a fibra do linho, matéria-prima para a fabricação de tecidos, e da cápsula se obtém a semente. Apesar de usada há milênios na alimentação humana, a maior parte de seu cultivo é destinada às indústrias de óleo para tintura e para ração animal2,3.

O grão de linhaça é rico em ácidos graxos poli-insaturados α-linolênico (ALA, 18:3n-3) e, em menor quantidade, linoleico (AL, 18:2n-6)4. O ALA e o AL, depois de ingeridos, podem ser transformados em prostaglandinas e leucotrienos com atividades imunomoduladoras. Além disso, o ALA constitui fonte energética e matéria-prima do tecido nervoso, bem como de substâncias que regulam a pressão arterial/frequência cardíaca, a coagulação, a dilatação vascular e a lipólise5-7. Além de ser composto por aproximadamente 40% de lipídeos, o grão também contém aminoácidos essenciais (destacando-se metionina e cisteína), lignanas, fibras alimentares solúveis e insolúveis, goma, ácidos fenólicos, flavonoides, ácido fítico, vitaminas (B1, B2, C, E, caroteno) e minerais (ferro, zinco, potássio, magnésio, fósforo, cálcio), os quais também são responsáveis pelos efeitos benéficos à saúde, reforçando as propriedades funcionais da linhaça2,8-10.

Segundo a United States Departament of Agriculture (USDA)4, 1% a 12% de linhaça pode ser usada como ingrediente na alimentação, sem riscos à saúde. O grão pode ser consumido in natura, inteiro ou moído, acrescentado diretamente sobre alimentos tais como as frutas, o leite ou o iogurte, ou pode também ser utilizado como ingrediente na preparação de pães, biscoitos, sobremesas, feijão e produtos cárneos2,11. Há ainda o óleo de linhaça, rico em ácido α-linolênico12, ao contrário da maioria dos óleos vegetais, que são boas fontes de AL. No entanto, apesar de presente em grande quantidade, o ALA do grão e do óleo é sensível à luz, ao aquecimento e à presença de oxigênio, o que causa deterioração desencadeada pelo processo oxidativo e consequente perda de qualidade13,14. Tendo em vista as propriedades funcionais da linhaça e as modificações que podem ocorrer em seus constituintes durante o processamento, este trabalho teve como objetivo verificar as possíveis atividades biológicas, em ratos recém-desmamados, causadas pelo consumo diário de linhaça em diferentes condições de preparo.

 

MÉTODOS

O grão e o óleo de linhaça foram fornecidos pela empresa Cisbra Alimentos, de Panambi (RS), sendo ambos pertencentes a lotes únicos. O óleo extraído a frio foi embalado e armazenado em frascos plásticos próprios para óleos vegetais. A linhaça em grãos foi utilizada triturada, tanto crua quanto assada, sendo que esta sofreu tratamento térmico em forno elétrico a 180ºC, por 40 minutos (em forno pré-aquecido por 5 minutos a 180°C), antes da moagem.

As análises de umidade, cinzas, proteína bruta e fibra alimentar do grão cru foram realizadas de acordo com as técnicas descritas pela Association of Official Analytical Chemists (AOAC)15. O teor lipídico foi obtido a partir do método de Soxhlet, usando-se éter de petróleo16. O teor de carboidratos, por sua vez, foi determinado por diferença. Já o teor de lipídeos do óleo foi obtido por diferença do conteúdo de umidade após 12 horas em estufa a 105ºC. As análises foram realizadas em triplicata, nos laboratórios do Departamento de Tecnologia e Ciência de Alimentos (DTCA) e no Núcleo Integrado de Desenvolvimento em Análises Laboratoriais (NIDAL), ambos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Tratamentos

Além da ração padrão elaborada conforme as recomendações do American Institute of Nutrition (AIN)17, foram produzidas outras três dietas com substituição parcial dos ingredientes óleo de soja, celulose microcristalina e caseína por grão e/ou óleo de linhaça, equilibrando os macro-nutrientes e o valor energético em todos os tratamentos (Tabela 1). Ajustou-se o conteúdo energético das dietas pela variação da quantidade de amido de milho18. Os tratamentos foram divididos em: ração padrão (P); ração com linhaça crua (16%) e óleo de linhaça (LC); ração com linhaça assada (16%) e óleo de linhaça (LA); e ração com óleo de linhaça (OL). A quantidade de linhaça utilizada foi de 16% para não extrapolar as quantidades de fibras e proteínas das dietas suplementadas com o grão, e o óleo de linhaça foi adicionado para se alcançar o equilíbrio lipídico (7% em relação ao peso das dietas) entre os tratamentos.

Os ingredientes da ração foram peneirados três vezes para que as dietas ficassem homogêneas e com a mesma granulometria. Apesar de conterem antioxidante (TBHQ), as rações foram preparadas semanalmente, divididas em pacotes de 1kg e conservadas sob refrigeração, com o intuito de minimizar a oxidação lipídica dos ácidos graxos poli-insaturados.

Animais e protocolo experimental

O experimento foi aprovado pelo Comitê de Ética e Bem-Estar Animal da UFSM, sob o Processo nº 23081.000890/2008-68, em 17 de março de 2008. Os grupos foram compostos por 8 ratos machos da linhagem Wistar, totalizando 32 animais, recém-desmamados (21 dias de idade), com peso médio de 67,75 Desvio-Padrão (DP) 4,93g, procedentes do Biotério da UFSM, distribuídos aleatoriamente. Os animais foram alojados em gaiolas metabólicas individuais, equipadas com bebedouro, comedouro e bandeja para coleta de fezes, em sala climatizada (Média - M=20, DP=2ºC) e ciclos de 12h luz/12h escuridão.

O experimento teve duração total de 28 dias, sendo os cinco primeiros de adaptação às dietas. No período experimental (23 dias), os ratos receberam ração e água ab libitum. Do 6º ao 28º dia, foram determinadas a quantidade de ração consumida (diferença entre o ofertado e as sobras) e a quantidade de fezes excretadas. Estas foram coletadas a fim de determinar fezes úmidas totais (EFU), fezes secas totais (EFS), umidade (UF) e o teor de lipídeo fecal (TLF). O peso corporal dos animais foi registrado no início do experimento e a cada 3 dias, até o sacrifício.

Ao final do experimento, os animais ficaram 12 horas em jejum, sendo pesados, anestesiados com éter etílico e sacrificados por punção cardíaca. O sangue foi coletado em tubos de ensaio e centrifugado, de modo que o soro foi separado e armazenado a -18ºC para realização posterior das análises. O sangue para a análise da glicemia foi colocado em tubo de ensaio contendo anticoagulante glicose, e, depois de centrifugado, teve o plasma coletado em eppendorf e refrigerado. Os rins, o fígado e a gordura epididimal foram retirados e pesados.

As fezes foram secas em estufa com circulação de ar a 65°C, por 48h, e posteriormente resfriadas, pesadas e trituradas. A determinação da excreção lipídica foi realizada pelo método de Soxhlet, nas fezes secas19. O lipídeo absorvido foi calculado descontando-se, do total de lipídeos ingeridos pela dieta, os lipídeos excretados pelas fezes. Tanto os lipídeos excretados quanto os absorvidos foram expressos em percentual em relação ao total de lipídeos ingeridos. Já o Coeficiente de Eficácia Alimentar (CEA) foi obtido a partir da relação entre ganho de peso total do animal (g) e consumo total de ração (g)20.

Os níveis de Colesterol Total (CT), Lipoproteína de alta densidade colesterol (HDLc), Triglicerídios (TG) e Proteínas Totais (PTN totais) foram determinados no soro, e a glicemia em jejum foi quantificada no plasma. Foram usados métodos enzimático-colorimétricos, via emprego de kits Doles® e posterior leitura em espectrofotômetro.

Para a análise dos dados foi utilizado o programa estatístico Statistical Analyses System (SAS) 9.1.3. 21. Os resultados foram submetidos à Análise de Variância (ANOVA) e as médias dos tratamentos foram comparadas, quando apropriado, pelo teste de Duncan, para alfa igual a 0,0522. Os resultados são apresentados como média e desvio-padrão.

 

RESULTADOS

A partir da análise química, determinaram-se os teores de umidade, cinzas, proteína bruta, lipídeos, fibra alimentar total e carboidratos presentes no grão de linhaça in natura, assim como o teor de umidade e quantidade de lipídeos no óleo (Tabela 2). Os valores encontrados serviram de base para o cálculo e formulação das rações. É possível observar que a composição centesimal da linhaça usada neste estudo é semelhante aos valores encontrados por outros autores, principalmente quando equiparada à composição da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO)23. O valor de carboidrato, que inclui a fibra alimentar total, foi o que apresentou maior discrepância.

Não houve diferença entre os grupos quanto ao ganho de peso total, o consumo diário e o CEA. A excreção fecal diária, no entanto, foi significativamente (p=0,001) maior nos ratos que consumiram as rações com o grão de linhaça (LC e LA) em comparação aos grupos P e OL (Tabela 3). É importante ressaltar que todos receberam a mesma quantidade de fibras alimentares e água ab libitum. Os grupos foram semelhantes estatisticamente em relação ao peso (em g de órgão/100g de peso corporal) do fígado, dos rins e da gordura epididimal, com p=0,1204, p=0,3607 e p=0,1810, respectivamente (Tabela 3).

Os dados referentes à excreção fecal podem ser observados na Tabela 4. Os grupos LC e LA, ambos recebendo a linhaça em grão, foram semelhantes estatisticamente e diferiram dos grupos P e OL (também semelhantes entre si), quando avaliados: excreção de fezes úmidas totais, teor de umidade das fezes, quantidade de lipídeo fecal e quantidade de lipídeo absorvido. A excreção fecal nos grupos LC e LA foi visivelmente maior que nos demais, sendo as fezes compostas por maiores quantidades de água e de lipídeo. A absorção de lipídeos, consequentemente, foi maior nos tratamentos sem o grão de linhaça (P e OL). A excreção de fezes secas totais no grupo OL mostrou-se semelhante ao controle (P) e ao LC, enquanto os tratamentos P, LA e LC tiveram diferenças significativas entre si (p=0,0001).

Quanto aos parâmetros bioquímicos avaliados, glicemia, TG, CT, HDLc e proteínas totais, observa-se na Tabela 5 que os mesmos apresentaram diferenças estatísticas entre os grupos, com exceção do HDLc. A glicemia em jejum dos animais foi maior no grupo P e menor no grupo LC. Os valores de TG dos grupos LC e OL foram menores quando comparados aos grupos LA e P. Já o CT e as proteínas totais foram menores em todos os tratamentos em relação ao controle (com p=0,041 e p=0,0183, respectivamente).

 

DISCUSSÃO

O ganho de peso, o consumo diário e o CEA dos ratos que receberam linhaça em grão ou em óleo foram semelhantes aos do grupo padrão. Esses resultados foram similares aos encontrados por Cintra et al.19, em ratos Wistar machos que receberam dietas com aproximadamente 25% de linhaça em grão. Contudo, é importante salientar que diferenças como a idade, a composição das dietas, as condições experimentais e principalmente a espécie podem ocasionar resultados diferenciados.

A excreção diária de fezes foi superior nos ratos que consumiram o grão de linhaça (LC e LA). A diferença nas fezes foi perceptível visualmente, tanto em relação ao volume excretado quanto à coloração: os animais que receberam ração com a linhaça em grão apresentavam fezes maiores e verde-escuras, enquanto os ratos dos tratamentos P e OL tinham fezes menores e marrom-claras. A quantidade de lipídeo excretado, também significativamente maior nos grupos LC e LA, pode ser a causa para as diferentes colorações, já que o lipídeo presente na linhaça é pigmentado12. Cintra et al.19, comparando uma dieta que contém linhaça com dietas compostas de outras fontes lipídicas, observaram alta excreção fecal de lipídeo nos ratos alimentados com o grão, em relação aos demais tratamentos. A maior excreção lipídica nos grupos que consumiram o grão pode ser justificada pela menor disponibilidade dos lipídeos, já que na linhaça, mesmo moída, parte do óleo provavelmente está preso em estruturas teciduais8, não sendo liberado para digestão e absorção.

A linhaça em grão mostrou-se mais eficaz na retenção hídrica, resultando em maior peso úmido e maior teor de umidade nas fezes. Tanto a linhaça como a celulose microcristalina possuem capacidade de reter água e, com isso, de aumentar o volume fecal24. O grão de linhaça contém fibra insolúvel e solúvel. A fibra insolúvel aumenta o volume das fezes pela sua própria massa e também pela água que mantém ligada ou adsorvida, sendo benéfica no tratamento da constipação, da síndrome do intestino irritável e da doença diverticular25. Por outro lado, sabe-se que as fibras solúveis são em parte fermentadas pelas bactérias do cólon. Quando a fibra é degradada por fermentação, diminui sua quantidade e, consequentemente, diminui o volume das fezes26,27. Embora não tenham sido encontrados dados na literatura sobre a intensidade de fermentação da fibra da linhaça, os resultados deste trabalho indicam que, mesmo que uma parte da fibra da linhaça tenha sido fermentada, uma porção significativa resta íntegra e não é degradada. Isso faz aumentar o peso e a umidade das fezes dos grupos LC e LA em relação às dos grupos P e OL, nos quais a única fibra encontrada foi a celulose. A quantidade de lipídeo excretado, significativamente maior nos grupos LC e LA, também contribui para o maior peso das fezes.

Quanto à excreção de fezes secas totais, os grupos P e OL, que receberam o mesmo tipo de fibra na dieta, apresentaram pesos semelhantes. Os grupos que receberam linhaça em grão apresentaram maior peso seco em relação ao controle, mas, descontando-se os lipídeos, o peso seco das fezes no grupo LC é menor que nos grupos P e OL. Esses dados indicam que houve degradação de parte da fibra solúvel da linhaça, diminuindo o peso seco das fezes, sendo o lipídeo não digerido a causa do maior peso das fezes dos grupos LC e LA. Em contrapartida, o grupo LA apresentou um maior peso seco das fezes do que LC, mesmo descontando os lipídeos. Isso provavelmente ocorreu porque o forneamento produziu reações que diminuíram a digestibilidade da linhaça, tais como a reação de Maillard, formando compostos indigeríveis de proteína e carboidratos14.

O peso do fígado, dos rins e da gordura epididimal (g de órgão/100g de peso corporal), assim como o peso corpóreo, não diferiram estatisticamente entre os tratamentos. Vijaimohan et al.28 observaram que ratos que receberam óleo de linhaça via oral (1g/kg peso) por 60 dias não apresentaram alterações histológicas no tecido hepático, com reduzida deposição de gordura nos hepatócitos. Collins et al.10 verificaram diminuição na relação fígado/peso corporal em ratas recém-desmamadas e alimentadas com linhaça. O ALA aumenta a secreção de colesterol na bile, conduzindo à depleção do pool intra-hepático de colesterol, consequentemente aumentando a síntese e o turnover de colesterol29. Além disso, o ALA reduz o acúmulo hepático de lipídeos por estimular a β-oxidação, inibindo a síntese de ácidos graxos e de triglicerídios19,30. No entanto tais efeitos do ALA, se ocorreram em nosso estudo, não chegaram a afetar o peso relativo do fígado.

A glicemia em jejum foi numericamente menor em todos os grupos que receberam linhaça, seja como grão cru, grão assado ou óleo. No entanto, somente o grupo LC apresentou glicemia estatisticamente inferior ao grupo controle (sem linhaça). Infere-se que essa redução na glicemia se deva principalmente à fibra solúvel da linhaça crua, pois se sabe que a mucilagem (fibra solúvel) da linhaça retarda o esvaziamento gástrico, promove o controle glicêmico e reduz o colesterol25. Mulheres na menopausa que consumiram 40g/dia de linhaça triturada, por exemplo, tiveram um decréscimo médio de 5,3% na glicose sanguínea31. É possível que o aquecimento sob temperatura elevada, mesmo no grão intacto, tenha causado alterações na fibra alimentar solúvel, diminuindo o controle glicêmico da linhaça assada (grupo LA).

Bhathena et al.32 avaliaram o consumo de farinha de linhaça e proteína de soja em ratos obesos, constatando maior redução de triglicerídios séricos nos animais alimentados com a linhaça em relação aos que receberam soja. No presente estudo, os valores de triglicerídios dos grupos alimentados com linhaça crua e óleo de linhaça foram menores quando comparados aos grupos LA e P, embora a diferença só tenha sido estatisticamente significante em relação ao grupo P. Portanto, observa-se que em todos os grupos que receberam linhaça houve uma tendência de redução do triglicerídio sérico. Pode-se inferir que tal efeito deveu-se ao ALA, tendo em vista que esse ácido graxo pode inibir a síntese hepática de triglicerídios30. Presume-se também que o efeito hipotrigliceridêmico do ALA, em comparação ao grupo padrão, foi significativo somente nos grupos LA e OL, pelo fato de que este ácido graxo está presente em maiores quantidades na linhaça crua e no óleo de linhaça e que a temperatura de 180ºC por 40 minutos alterou o perfil de ácidos graxos na linhaça assada, tendo como consequência uma diminuição de ALA nesse produto. Esse argumento é reforçado pelo fato de a linhaça crua e o óleo de linhaça terem apresentado resultados semelhantes. Como o óleo contém basicamente lipídeos, é possível afirmar que o caráter hipotrigliceridêmico dessa oleaginosa está no conteúdo de ALA e, nesse caso, não parece ser influenciada pelo teor de fibra alimentar, lignana ou outro composto.

Estudos para determinar os efeitos do colesterol no sangue datam de 1950 e já mostravam que dietas com diferentes teores e fontes lipídicas podem modular os níveis plasmáticos de colesterol, dependendo da composição dos ácidos graxos ingeridos33. O colesterol total foi menor em todos os tratamentos com linhaça em relação ao controle. O decréscimo do colesterol plasmático pela administração do óleo de linhaça é relacionado com a diminuição do colesterol livre e do esterificado, e também com a n-6:n-332. O efeito hipocolesterolêmico da linhaça tem importantes implicações terapêuticas em pacientes dislipidêmicos, sendo que estudos em humanos têm mostrado que o consumo de 40 a 50g/dia reduz o colesterol sérico entre 5% e 9%32,34. Sabe-se também que outros constituintes da linhaça, como lignanas, fibras e proteínas, também podem desempenhar um papel importante na redução do colesterol sérico, em animais e/ou humanos, e, além disso, alguns deles também podem atuar diretamente sobre as paredes de vasos e artérias, prevenindo a aterosclerose18-19.

Os valores de HDLc, por sua vez, não tiveram diferença significativa entre os tratamentos, o que está de acordo com os resultados encontrados por outros pesquisadores7,25,35. Vale ressaltar que o rato, por ter o metabolismo lipídico diferente dos humanos, pode não ser o modelo experimental ideal para estudos relacionados às alterações séricas de colesterol36. As alterações no metabolismo dos lipídeos ocasionadas pelo consumo de alimentos ou substâncias podem, portanto, ser observadas em humanos e não ser detectadas em ratos, e vice-versa.

As proteínas séricas totais foram menores em todos os tratamentos em relação ao grupo padrão. Wiesenfeld et al.18 encontraram resultado semelhante em ratas grávidas suplementadas com diferentes quantidades de linhaça e de farinha de linhaça desengordurada. Bhathena et al.32 também verificaram valores de proteínas totais menores em animais alimentados com linhaça. A diminuição da proteína sérica pode ser indicativo de desnutrição proteico-energética, hiperidratação, catabolismo, entre outros37; entretanto, os demais parâmetros avaliados, assim como o peso corporal e a gordura epididimal dos animais, não ratificam nenhum dos quadros citados anteriormente. Essa diminuição na proteína sérica não foi esclarecida, assim como nenhum dos outros autores citados detectou prejuízo à saúde dos animais relacionado a menor proteína total. Além disso, Mitruka & Rawnsley38 trazem como valor padrão para proteínas totais uma faixa entre 4,7 e 8,15g/dl. Baseando-se nessa referência, pode-se concluir que todos os animais deste estudo apresentaram níveis de proteínas totais normais.

Com base nos resultados encontrados no presente estudo e em trabalhos científicos disponíveis na literatura, considera-se relevante reforçar que, apesar de o ALA ser um constituinte importante da linhaça, outras substâncias presentes no grão, tais como lignanas e fibras, atuam em sinergia19, acarretando alterações benéficas para o organismo animal.

 

CONCLUSÃO

O consumo de linhaça, seja como grão cru, grão assado ou óleo, possui atividade biológica em ratos, destacando-se por reduzir a glicemia e os níveis séricos de triglicerídios e colesterol. Além disso, o consumo do grão de linhaça aumentou significativamente o volume do bolo fecal e a excreção de lipídeos nas fezes. A ingestão da linhaça processada (grão assado ou fração lipídica do grão cru) resultou em alterações menos expressivas nos parâmetros avaliados quando comparada àquelas causadas pela ingestão do grão in natura. No entanto, alguns dos potenciais benefícios à saúde dos animais foram observados mesmo com o consumo da linhaça assada e do óleo de linhaça.

 

AGRADECIMENTOS

À Cisbra Alimentos, pela doação do grão e do óleo de linhaça; à Doles®, pela doação dos kits enzimáticos para análise sanguínea; ao CNPq (processo nº 134601/2007-6) e à Capes, pelo auxílio financeiro.

 

COLABORADORES

A.C. Marques participou da elaboração do projeto de pesquisa referente a sua dissertação de mestrado, da coleta de referencial teórico, da coleta e da análise de dados e da elaboração do artigo. T.P. HAUTRIVE participou da coleta de referencial teórico e de dados e da elaboração do artigo. G.B. MOURA participou da coleta de dados. L.H. HECKTHEUER orientou a elaboração do projeto de pesquisa, a análise dos dados e a elaboração do artigo. M.G.K. CALLEGARO participou da elaboração do projeto de pesquisa, da coleta de referencial teórico, da análise dos dados e da elaboração do artigo.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 28/4/2009
Versão final reapresentada em: 24/2/2010
Aprovado em: 12/5/2010

 

 

1 Artigo elaborado a partir da dissertação de A.C. MARQUES, intitulada "Propriedades funcionais da linhaça (Linum usitatissimum L.) em diferentes condições de preparo e de uso em alimentos". Universidade Federal de Santa Maria; 2008.

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