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Revista de Nutrição

On-line version ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.24 no.2 Campinas Mar./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732011000200015 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Ortorexia nervosa: reflexões sobre um novo conceito

 

Orthorexia nervosa: reflections about a new concept

 

 

Márcia Cristina Teixeira MartinsI; Marle dos Santos AlvarengaII; Sílvia Viviane Alves VargasI; Karen Sayuri Cabral de Jesus SatoI; Fernanda Baeza ScagliusiIII

ICentro Universitário Adventista de São Paulo, Faculdade de Nutrição. Estrada de Itapecerica, 5859, 05858-001, São Paulo, SP, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: M.C.T. MARTINS. E-mail: <marciactm@yahoo.com.br>
IIUniversidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, Departamento de Nutrição. São Paulo, SP, Brasil
IIIUniversidade Federal de São Paulo, Departamento de Ciências da Saúde, Campus Baixada Santista. Santos, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Ortorexia nervosa é o termo descrito para o comportamento obsessivo patológico caracterizado pela fixação por saúde alimentar. O quadro ainda não foi oficialmente reconhecido como um transtorno alimentar, mas discute-se o conceito, suas características, interações e sintomas. No presente trabalho foi realizada uma revisão dos vinte e um artigos publicados desde 1997, quando o comportamento da ortorexia nervosa foi inicialmente descrito. Foram apontadas semelhanças e diferenças entre o comportamento alimentar observado na ortorexia nervosa e nos transtornos alimentares mais frequentes (anorexia e bulimia nervosa). Um instrumento foi desen-volvido e validado para detecção do quadro ortoréxico. Os estudos apontam alguns grupos vulneráveis à orto-rexia nervosa: estudantes de medicina, médicos, nutricionistas, pessoas com sintomas de ansiedade, obsessivo-compulsivos e aqueles que supervalorizam o corpo perfeito. A ortorexia nervosa é situada a partir de uma análise dos conceitos de atitude alimentar e alimentação saudável, procurando um foco biopsicossocial para a alimentação adequada e não apenas um foco fisiológico. Não existem estudos investigativos sobre a ortorexia nervosa no Brasil, mas o tema deve ser discutido para alertar os profissionais da área da saúde sobre a existência desse comportamento inadequado e suas possíveis consequências não só para a saúde física e emocional, mas também para a visão de alimentação saudável.

Termos de indexação: Comportamento alimentar. Hábitos alimentares. Nutrição humana. Ortorexia nervosa. Transtornos da alimentação.


ABSTRACT

Orthorexia nervosa is a new term described as an obsessive pathological behavior characterized by fixation on healthy eating. It has not yet been officially recognized as an eating disorder, but its concept, characteristics, interactions and symptoms have been discussed. This work presents a review of the articles published on the theme since 1997, when orthorexic behavior was first described. Similarities and differences between orthorexic behavior and the more common eating disorders, such as anorexia nervosa and bulimia nervosa, are discussed. To date, one instrument was developed and validated to detect orthorexic behavior. Studies indicate that some groups are more vulnerable to orthorexia nervosa: medical students, physicians, dietitians, individuals with anxiety symptoms, obsessive-compulsive individuals and those who overvalue a perfect body. The discussion on orthorexia nervosa is based on analyzing the concepts of eating attitude and healthy eating, and seeks a biopsychosocial focus for proper eating in addition to a physiological focus. To date, there are no studies about orthorexia nervosa in Brazil. Nevertheless, this subject is worthy of discussion since health professionals should be made aware of the existence of this deviant behavior and its possible consequences, not only for someone's physical and emotional health, but also for the understanding of healthy eating.

Indexing terms: Feeding. Food habits. Human nutrition. Orthorexia nervosa. Eating disorders.


 

 

INTRODUÇÃO

A crescente preocupação com uma vida mais saudável, aliada ao conhecimento dos muitos fatores que afetam a saúde humana (genéticos, ambientais, comportamentais, culturais, dietéti-cos, entre outros), tem gerado também maior in-teresse pelo alcance de uma alimentação saudá-vel1. A ideia de que a dieta exerce um importante papel na promoção da saúde e prevenção de doenças está cada vez mais presente na cons-ciência coletiva2. No entanto, o foco de discussão sobre a "alimentação saudável" é usualmente apenas o biológico, e a alimentação adequada é pensada em função de uma dieta que atenda às recomendações nutricionais. Deve-se considerar que um foco apenas biológico pode ser per-feccionista e, consequentemente, não realista3. A alimentação saudável não deve envolver restri-ções. Não se recomenda a classificação dos ali-mentos em "bons" e "ruins" ou em "saudáveis" e "não saudáveis". Uma visão biopsicossocial sobre a alimentação saudável implica também que o julgamento sobre o que é saudável ou não de-pende de muitos fatores, tais como: história indivi-dual e familiar, cultura, religião, aspectos econô-micos, experiência pessoal, preferências e aver-sões, conhecimentos e crenças, entre outros4,5.

Os Transtornos Alimentares (TA) são graves distúrbios psiquiátricos considerados importantes problemas de saúde. Os quadros clássicos têm seus critérios diagnósticos definidos pela Organi-zação Mundial de Saúde (OMS) ou Associação Americana de Psiquiatria (APA), enquanto outros quadros considerados não oficiais têm sido suge-ridos nos últimos anos, denominados muitas vezes de comer transtornada (do inglês, disordered eating)6. Um quadro recentemente apresentado é denominado pelo neologismo (do grego, orthos significa correto e orexis, apetite) Ortorexia Ner-vosa (ON). Descrita como um comportamento obsessivo patológico, a ortorexia nervosa caracte-riza-se pela fixação por saúde alimentar, qualidade dos alimentos e pureza da dieta. Tal comporta-mento alimentar é ainda pouco explorado na literatura científica por diversas razões. É possível que, por não ser um TA oficialmente reconhe-cido7, a ortorexia nervosa tenha número limitado de trabalhos publicados. Há que se considerar, ainda, a delicadeza desse assunto claramente paradoxal, por focalizar o lado insalubre de um comportamento alimentar "obsessivamente saudável". A compreensão e a abordagem equili-brada desse tema podem ser particularmente difí-ceis e até mesmo de menor interesse para pro-fissionais da área de alimentação e saúde, cons-tantemente centrados em propagar a adoção de hábitos alimentares saudáveis, principalmente do ponto de vista biológico.

A temática da ortorexia nervosa ainda não foi explorada na literatura científica nacional. Para suprir essa lacuna, o presente trabalho teve como objetivo descrever o comportamento ortoréxico a partir das discussões fenomenológicas e dos dados epidemiológicos disponíveis nos trabalhos publicados até o momento. O comportamento ortoréxico foi comparado aos comportamentos alimentares característicos dos TA mais frequen-tes - Anorexia Nervosa (AN) e Bulimia Nervosa (BN) - e ao conceito de alimentação saudável, numa abordagem biopsicosocial.

 

MÉTODOS

A fim de realizar uma revisão da literatura, procedeu-se à pesquisa da totalidade de artigos científicos, publicados desde 1997, nos bancos de dados MedLine, PubMed, Lilacs e SciELO. A palavra-chave selecionada para a pesquisa foi "orthorexia nervosa" e a busca foi realizada nos seguintes campos: título, resumo e descritores. As listas de referências de cada artigo foram ana-lisadas para encontrar publicações adicionais. Todas as referências encontradas foram utilizadas (exceto dois artigos suecos e um artigo alemão com texto e resumo indisponíveis).

A partir dos artigos selecionados, o com-portamento alimentar ortoréxico foi descrito e comparado com os comportamentos típicos dos transtornos alimentares. Os estudos sobre orto-rexia nervosa foram apresentados numa aborda-gem descritiva. Os grupos ou populações vulnerá-veis ao desenvolvimento de ortorexia nervosa apontados pelos estudos foram identificados com vistas a informar os profissionais da área da saúde, em especial nutricionistas, sobre a necessidade de rever o conceito de alimentação saudável e alertá-los acerca da existência desse comporta-mento e suas possíveis consequências indesejáveis sobre a saúde. Para tanto, o conceito de alimen-tação saudável foi revisto à luz de questionamen-tos levantados pelas características do comporta-mento ortoréxico.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Conforme se pode observar na Tabela 1, os estudos sobre ortorexia nervosa são escassos até o momento, possivelmente, pelo menos em parte, pelo fato de tal comportamento alimentar ter sido descrito há pouco mais de dez anos8e somente começou a ser investigado de forma sis-temática há seis anos, quando foi publicado o primeiro artigo original9. Até o momento, são en-contradas vinte e uma publicações, sendo apenas nove artigos originais de pesquisa9-17. Os demais trabalhos consistem de: três artigos sobre a des-crição e caracterização da ortorexia nervosa18-20, dois estudos de casos clínicos21,22e duas cartas ao editor23,24. Cinco trabalhos estão publicados em periódicos de difícil acesso25-29, o que inviabi-lizou a apreciação dos mesmos. Todos os artigos originais sobre ortorexia nervosa foram realizados na Europa, sendo quatro destes na Turquia12,14-16, dois na Itália9,11, um na Áustria10, um na Suécia13e um na Alemanha17.

Ortorexia nervosa: características gerais

O termo ortorexia nervosa foi criado por Steven Bratman, médico americano, que sugeriu esse quadro ou condição como um novo com-portamento alimentar transtornado8. A ortorexia nervosa não se encontra definida no manual de diagnósticos de TA da APA, DSM-IV7, ou mesmo no manual de diagnósticos da OMS, CID-1030. Tampouco há um consenso sobre a ortorexia ner-vosa poder vir a ser considerada um novo TA23,24.

Bratman8,31descreveu a ortorexia nervosa como uma fixação pela saúde alimentar caracte-rizada por uma obsessão doentia com o alimento biologicamente puro, acarretando restrições ali-mentares significativas. Trata-se de indivíduos com escolhas alimentares acompanhadas de uma preocupação exagerada com a qualidade dos ali-mentos, a pureza da dieta (livre de herbicidas, pesticidas e outras substâncias artificiais) e o uso exclusivo de "alimentos politicamente corretos e saudáveis"8,10,11,18.

Para Bratman31, o objetivo dos indivíduos com comportamento ortoréxico é ingerir alimen-tos que contribuam para o bom funcionamento do organismo e "libertem o corpo e a mente de impurezas" a fim de alcançarem um corpo saudá-vel e maior qualidade de vida. O autor também associou esse comportamento com o desprezo pelos que não seguem os mesmos "padrões ele-vados" de alimentação, a obsessão, a solidão, o evitar a prática social das refeições, a insatisfação com a própria condição e a autoimposição para tentar esclarecer outros acerca dos alimentos "saudáveis".

Ao propor, nomear e caracterizar a orto-rexia nervosa, Bratman31também levou em conta a avaliação de si próprio quando, em certa fase da vida, apresentava-se excessivamente preocu-pado com certos aspectos alimentares: a qualida-de e o frescor dos vegetais, a ponto de cultivá-los para uso próprio; a contagem da mastigação a cada colherada de alimento; o local de alimen-tação e a quantidade de comida. De acordo com seu testemunho pessoal:

Era um vegetariano, comia legumes fres-cos e de qualidade plantados por mim, mastigava cada colherada mais de 50 vezes, comia sempre sozinho, em local sossegado, e deixava o meu estômago parcialmente vazio, no final de cada re-feição. Tornei-me um presunçoso que desdenhava qualquer fruto colhido da árvore há mais de quinze minutos. Duran-te um ano fiz esta dieta, senti-me forte e saudável. Observava com desprezo àque-les que comiam batatas fritas e chocolates como meros animais reduzidos à satis-fação dos seus desejos. Mas não estava satisfeito com a minha virtude e sentia--me sozinho e obcecado. Evitava a prática social das refeições e obrigava-me a escla-recer familiares e amigos acerca dos ali-mentos.

Recentemente, Bartrina19complementou a caracterização da ortorexia nervosa, propondo outros sintomas, tais como: evitação extrema de corantes, aromatizantes, conservantes, pesticidas, alimentos geneticamente modificados, alimentos com muito sal ou muito açúcar e até usar utensí-lios de cozinha de modo ritualístico (p.ex.: somen-te cerâmica ou madeira). Além disso, a autora descreve o perfil dos indivíduos vulneráveis à ortorexia nervosa: "pessoas meticulosas, orga-nizadas e com exacerbada necessidade de auto-cuidado ou proteção". Esse grupo inclui mulheres, adolescentes, pessoas adeptas de modismos alimentares e de hábitos alimentares alternativos, como vegetarianismo e dieta macrobiótica e tam-bém atletas que se dedicam a esportes como fisi-culturismo e atletismo.

Segundo Donini et al.11, a ortorexia nervo-sa se aproximaria de um distúrbio de persona-lidade ou de comportamento (do ponto de vista psiquiátrico), podendo ter relações com as crenças ou as atitudes ligadas a costumes religiosos ou filosóficos, já que muitas religiões valorizam prá-ticas alimentares ascéticas32. O comportamento ortoréxico também poderia começar de modo inocente, com o desejo de curar ou prevenir doen-ças crônicas e melhorar o estado de saúde. O com-portamento requer considerável autodisciplina e autocontrole para seguir a dieta, que difere radi-calmente dos hábitos alimentares adquiridos na infância, do estilo de vida da sociedade e da cultu-ra que o rodeia. A ideologia seguida faz com que, na procura por um corpo saudável, elimine-se tudo o que é "nefasto" ou "artificial", e a alimen-tação passe a ser a preocupação central do dia a dia31.

A presença de um componente econômico é apontada como um fator limitante do quadro ortoréxico. Assim, um indivíduo que não tem po-der aquisitivo não poderia condescender com uma obsessão por alimentos onerosos como muitos dos que seriam classificados como saudáveis (ex.: alimentos orgânicos)18.

Na busca da "pureza alimentar", os indiví-duos com comportamento ortoréxico podem tornar-se muito seletivos em relação aos alimentos que escolhem. Dessa forma, acabam optando por condutas alimentares cada vez mais restritivas que podem levar à carência de determinados nutrien-tes, colocando em risco a própria saúde. Com o tempo, passam a dedicar cada vez mais tempo para planejar, comprar, preparar e confeccionar os alimentos que vão consumir. Desse modo, des-pendem muito tempo e esforço em torno do ato de comer (conhecido como a "espiritualidade da cozinha")31.

Outra consequência seria o afastamento da sociedade, porque os indivíduos com ortorexia nervosa se sentem na obrigação de esclarecer, elucidar e convencer familiares e amigos acerca dos prejuízos à saúde que, sob sua perspectiva, seriam causados pelos produtos processados, pesticidas e fertilizantes artificiais. Esse compor-tamento pode gerar conflitos e dificuldades de relacionamento, de modo a levar o indivíduo ao isolamento social na sua luta por uma condição alimentar perfeccionista31. Alguns autores12,16discutem ainda se a mídia e a propaganda exer-cem alguma influência na etiologia da ortorexia nervosa e na promoção do comportamento orto-réxico.

O Quadro 1 resume as principais caracte-rísticas da ortorexia nervosa a partir das descrições e discussões levantadas nos artigos revisados. En-tretanto, vale ressaltar que o próprio conceito de ortorexia nervosa tem sido alvo de discussão nos meios científicos23,24, o que impossibilita o detalha-mento do quadro de modo completamente claro e objetivo.

Ortorexia nervosa e transtornos alimentares: uma análise comparativa

O comportamento ortoréxico apresenta similaridades e diferenças quando comparado com os comportamentos alimentares caracte-rísticos dos TA. À semelhança das pessoas com TA, aquelas com ortorexia nervosa também de-monstram sentimentos, crenças, pensamentos e comportamentos para com os alimentos que po-dem ser considerados obsessivos, extremistas e restritivos. Entre eles estão: ansiedade, necessi-dade de controle e de seguir regras rígidas, desejo de sentir-se puro e tendência ao perfeccionismo transferidos para o ato de comer33. Sobre a ques-tão da pureza e ascetismo, é interessante observar historicamente os relatos de santas e beatas da igreja católica descritas como as antigas "anoré-xicas" - anorexia santa -, que eram motivadas pela pureza de espírito e caráter, abnegação e negação dos prazeres terrenos e carnais34. Tanto os TA quan-to a ortorexia nervosa parecem ser impulsionados por pressões sociais, sendo o primeiro grupo afe-tado pelos padrões estéticos de beleza e pelo culto ao corpo, enquanto o segundo grupo seria in-fluenciado pela ênfase no viver saudável - nova-mente em seu foco biológico18.

Fazendo uma analogia entre a ortorexia nervosa e os TA, pode-se dizer que a visão sobre alimentação saudável entre os pacientes com TA tende a ser ortoréxica, uma vez que apresentam uma concepção perfeccionista do que seja alimen-tação saudável, com uma série de crenças e mitos sobre nutrição e alimentação35. As crenças podem tornar-se normas rígidas e obrigações íntimas. Essas regras ou crenças contêm em sua formula-ção expressões como "deve-se", "tem-se que", isto é, imposições que limitam ou impedem a pessoa de quebrá-las. A pessoa sujeita a crenças tão rígidas perde o poder de escolha, torna-se cronicamente ansiosa, frustrada e desapontada consigo, uma vez que não consegue cumprir to-das as normas impostas para atingir o ideal alcançado.

Algumas características ideológicas e com-portamentais, no entanto, distinguem os pacien-tes com TA dos indivíduos com ortorexia nervosa. Pacientes com AN e BN estão motivados pela perda de peso33, enquanto indivíduos com orto-rexia nervosa são orientados pelo objetivo de alcançar a "dieta saudável perfeita". Ademais, os primeiros raramente formam comunidades (com a exceção dos controversos web sites pró AN e pró BN), enquanto os indivíduos obcecados por uma dieta perfeita procuram formar grupos com a mesma ideologia19.

Outro aspecto distintivo pode ser a recepti-vidade dos indivíduos ao tratamento. Sugere-se que a resistência ao tratamento possa ser menor entre os indivíduos com ortorexia nervosa em rela-ção aos indivíduos com TA, uma vez que os pri-meiros estão preocupados com a própria saúde18, enquanto os pacientes com TA tendem à negação do distúrbio ou da gravidade de seus quadros33. No entanto, uma dificuldade pode ser convencer os indivíduos com ortorexia nervosa de que seu comportamento é inadequado ou mesmo insalu-bre, já que eles se consideram saudáveis e disci-plinados e podem não imaginar nenhum tipo de consequência adversa de seu comportamento alimentar. O tratamento da ortorexia nervosa parece requerer conduta semelhante à adotada para os TA no que diz respeito à necessidade de uma abordagem interdisciplinar que envolva mé-dicos, psicólogos ou psicoterapeutas e nutri-cionistas19.

Estudos sobre ortorexia nervosa

A compreensão do comportamento orto-réxico e a identificação dos grupos vulneráveis à ortorexia nervosa têm sido dificultadas por diver-sos fatores. O número de estudos realizados até o momento ainda é pequeno, sendo a totalidade deles do tipo transversal. Os trabalhos existentes foram realizados em localidades diversificadas (Alemanha, Áustria, Itália, Suécia e Turquia), de modo que sua tradução para outros contextos socioculturais fica limitada, impossibilitando a universalização dos resultados. Também não há uniformidade dos instrumentos ou dos critérios de classificação empregados para identificação da ortorexia nervosa, e os instrumentos ainda care-cem de melhor validação. Além disso, não se pode descartar a interferência de variações decorrentes dos métodos de tradução dos instrumentos, que nem sempre são descritos ou utilizam técnicas apropriadas.

Apesar das limitações dos estudos sobre a ortorexia nervosa, os trabalhos trazem informa-ções que podem ser consideradas relevantes como ponto de partida para entendimento do compor-tamento ortoréxico. A seguir, os estudos são apre-sentados numa análise descritiva, partindo dos instrumentos desenvolvidos em direção aos gru-pos vulneráveis apontados na literatura científica.

Ao descrever inicialmente o comporta-mento ortoréxico, Bratman8desenvolveu um tes-te, envolvendo atitudes em relação aos alimentos (BOT ou Bratman's orthorexia test), com dez afirmativas que permitem respostas dicotômicas: "sim" ou "não". Por exemplo: "Sinto-me culpado se me desvio de meus hábitos dietéticos", com um escore de 0-10, com cada "sim" correspon-dendo a um ponto. Até o momento, três trabalhos empregaram o BOT, no entanto não houve unifor-midade entre eles quanto ao critério de classifi-cação para identificação do quadro ortoxé-xico10,12. Kinzl et al.10consideraram escores entre 2 e 3 indicativos de sinais de ortorexia e a partir de 4 como ortorexia nervosa. Empregando uma versão do BOT traduzida para o sueco por Rössner27. Eriksson et al.13consideraram que se o respondente somasse menos que 5 pontos, sua atitude em relação aos alimentos era considerada saudável; entre 5 e 9, sua atitude alimentar era considerada "fanática por saúde", e somando 10 pontos (ao responder "sim" a todas as questões), seu relacionamento com os alimentos era consi-derado obsessivo, caracterizando a ortorexia ner-vosa. Korinth et al.17utilizaram a versão alemã do BOT proposta por Kinzl et al.29e computaram o escore obtido pela somatória das respostas posi-tivas para as dez questões. Os autores compara-ram estatisticamente os escores médios obtidos entre os grupos estudados, mas não calcularam a frequência da ortorexia nervosa. Até o momento o BOT não foi submetido à avaliação psicométrica.

Pesquisadores italianos publicaram o pri-meiro estudo preliminar para identificação da ortorexia nervosa e tentativa de mensuração da sua dimensão após a observação das caracterís-ticas comportamentais de 28 pessoas que exi-biam sintomas do quadro, segundo os autores9. O mesmo grupo desenvolveu e validou um instru-mento para diagnóstico da ortorexia nervosa, denominado ORTO-1511, contendo 15 questões de múltipla escolha (sempre, frequentemente, às vezes e nunca) que inclui alguns dos itens do BOT e agrega outros criados. As questões do ORTO-15 abordam atitudes obsessivas dos indiví-duos com ortorexia nervosa quanto à escolha, compra, preparo e consumo de alimentos conside-rados saudáveis. O teste mostrou boa capacidade preditiva em um ponto de corte de 40 (com 73,8% de eficácia, 55,6% de sensibilidade e 75,8% de especificidade), verificados com uma amostra-controle. Entretanto, os próprios autores ressaltam que o teste não identifica comporta-mentos obsessivo-compulsivos e recomendam que novas questões deveriam ser acrescentadas e novas avaliações do instrumento realizadas.

O ORTO-15 foi traduzido para o turco e empregado para estudar a prevalência da orto-rexia nervosa em médicos residentes12e em artis-tas15turcos. Outro grupo de pesquisadores tur-cos14avaliou as propriedades psicométricas da versão turca do ORTO-15, encontrando uma baixa consistência interna (Alpha de Cronbach = 0,44). Esses autores modificaram o instrumento pela remoção de quatro questões cujos pesos eram menores do que 0,50, chegando a uma nova ver-são denominada ORTO-11, que obteve Alpha de Cronbach de 0,62 e que já foi empregada em dois trabalhos: um deles investigou a relação entre ortorexia nervosa, algumas variáveis demográficas e sintomas de atitude alimentar e de transtorno obsessivo compulsivo14; o outro empregou o ORTO-11 para estudar a prevalência de ortorexia nervosa entre estudantes de medicina turcos16.

Na tentativa de identificar grupos vulnerá-veis à ortorexia nervosa, três estudos sugerem que estudantes e profissionais da área de saúde, tais como estudantes de medicina16, nutricionistas10e médicos1, podem ter maior predisposição a com-portamentos ortoréxicos. Em contrapartida, um estudo recente questiona essa proposição17em relação aos estudantes de nutrição.

No trabalho de Kinzl et al.10, realizado com 283 nutricionistas austríacas do sexo feminino, sugeriu-se que a ortorexia nervosa avaliada pelo BOT parece ser um comportamento frequente nessas profissionais, uma vez que 34,9% das parti-cipantes do estudo apresentaram algum compor-tamento ortoréxico e 12,8% apresentaram orto-rexia nervosa. O comportamento ortoréxico das nutricionistas foi assim caracterizado: ganho de autoestima ao comer alimentos saudáveis (8,8%), sensação de culpa por desviar-se da dieta (4,6%), evitação de comer fora de casa por temer uma alimentação não saudável (2,5%), evitação de comer com outras pessoas (2,5%), e levar os próprios alimentos quando tiver que comer fora de casa (1,1%). Usando o mesmo instrumento no mesmo idioma (alemão), recentemente Karinth et al.17avaliaram a tendência para ortorexia ner-vosa em estudantes de nutrição de universidades alemãs. Foram comparados alunos do primeiro ano do curso (n=123) e dos semestres mais avan-çados (n=96) com um grupo-controle de estu-dantes de outros cursos (n=68 e n=46), respecti-vamente. Embora os estudantes de nutrição apre-sentassem maiores níveis de restrições dietéticas, eles não demonstraram maior tendência para ortorexia nervosa, já que não houve diferença entre os escores do BOT obtidos pelos alunos de nutrição em relação ao grupo-controle. Além dis-so, a tendência para ortorexia nervosa foi decres-cente entre os estudantes de nutrição mais avan-çados, que também apresentaram escolhas ali-mentares mais saudáveis. É importante salientar, entretanto, que as limitações desse trabalho impe-dem que suas observações sejam generalizadas para diferentes países e contextos culturais, por tratar-se de um estudo transversal realizado com uma pequena amostra exclusivamente de estu-dantes alemães.

Dois trabalhos realizados na Turquia suge-rem que médicos residentes e estudantes de medi-cina podem constituir grupos com comporta-mento altamente sensível em relação à ortorexia nervosa. No estudo de Bagci Bosi et al.12, realizado com um grupo de 318 médicos de ambos os gê-neros (169 homens e 149 mulheres), residentes na faculdade de medicina de Ancara, o comporta-mento ortoréxico avaliado pelo ORTO-15 foi observado em 45,5% dos participantes. Mais re-centemente, num outro estudo transversal, utili-zando o instrumento ORTO-11 entre 878 estudan-tes de medicina turcos de ambos os sexos (464 homens e 359 mulheres)16, também se encontrou uma alta ocorrência de ortorexia nervosa (43,6%). A tendência foi significativamente mais alta entre estudantes do sexo masculino. Fidan et al.16obser-varam ainda maior ocorrência para ortorexia ner-vosa entre estudantes mais jovens do sexo mascu-lino. No mesmo estudo, baseado nos escores do EAT-40 (Eating Attitude Test), os estudantes com comportamento de risco para TA também apre-sentaram tendência para ortorexia nervosa.

Outros três estudos foram realizados em grupos distintos e trazem informações sobre o perfil dos indivíduos com tendência ao desen-volvimento do comportamento ortoréxico (pes-soas com sintomas de ansiedade, obsessivo-com-pulsivas e aquelas que supervalorizam o corpo perfeito).

Eriksson et al.13 utilizaram o BOT em 251 praticantes de atividade física suecos de ambos os gêneros (85 homens e 166 mulheres) para ava-liar o impacto de dois fatores sobre o teste de ortorexia nervosa: (a) ansiedade psicossocial e (b) atitudes socioculturais relacionadas com a aparên-cia física. Os participantes que obtiveram maiores escores no questionário de atitudes socioculturais relacionadas com a aparência física (SATAQ) no subdomínio internalização também tiveram altos escores no BOT. A internalização indica a adoção e/ou aceitação dos ideais sociais de magreza (para as mulheres) e de muscularidade (para os ho-mens). Observou-se também que as mulheres com maior frequência de exercícios físicos e com maiores escores na escala de ansiedade psicosso-cial (SPAS) apresentaram escores mais altos no BOT. Esse trabalho evidencia que as crenças e comportamentos ortoréxicos também podem estar relacionados com a supervalorização e a busca do corpo perfeito presente na sociedade moderna. De fato, Mathiew18 e Bratman31e ante-riormente sugeriram que adolescentes esportistas do sexo feminino dedicadas ao fisiculturismo e atletismo seriam possíveis grupos vulneráveis à ortorexia nervosa.

No maior estudo realizado até o momento sobre a ortorexia nervosa, Arusoglu et al.14inves-tigaram 994 voluntários da área acadêmica e administrativa da Universidade de Hacettepe, Turquia, com idade entre 19 e 66 anos. Empre-gando o instrumento ORTO-11, encontraram uma relação positiva entre comportamento de risco pa-ra TA (avaliado pelo EAT-40), sintomas obsessivo- -compulsivos e os sintomas de ortorexia nervo-sa. Nesse estudo, as mulheres exibiram mais sinto-mas ortoréxicos do que os homens.

Ainda identificando ortorexia nervosa em outros grupos, Aksoydan & Camci15avaliaram 94 artistas turcos de ambos os gêneros (39 homens e 55 mulheres) com idade média de 33 anos e encontraram uma ocorrência de 56,45% dos indivíduos com sintomas de ortorexia nervosa, sendo esses valores significativamente diferentes entre cantores de ópera (81,8%), músicos da or-questra (36,4%) e dançarinos de balé (32,1%). Não houve correlação entre os escores do ORTO-15 e características como gênero, idade, escola-ridade, experiência de trabalho, índice de massa corpórea, tabagismo ou consumo de álcool. O grupo estudado possui grau de escolaridade e nível socioeconômico superiores aos encontrados na população turca em geral. Os autores discutem que, além disso, naquele país, os artistas são consi-derados modelos de aparência física e de estilo de vida, o que seriam possíveis fatores contribuin-tes para a alta ocorrência de ortorexia nervosa nessa população.

Ortorexia nervosa: uma oportunidade para repensar o conceito de alimentação saudável

A discussão sobre ortorexia nervosa é interessante para se pensar sobre o conceito de alimentação saudável com um enfoque biopsi-cossocial.

Tradicionalmente, o conceito de "alimen-tação saudável" tem sido relacionado apenas com o foco biológico e na adequação nutricional resul-tante de uma alimentação variada. Para Fisberg et al.36, "mediante uma alimentação variada em quantidades adequadas, pode-se obter uma dieta equilibrada, ou seja, a que proporciona os nutrien-tes necessários para atender às necessidades do organismo".

O ser humano, no entanto, não tem ne-cessidades apenas biológicas, por isso é preciso que se amplie a definição de alimentação saudável além do biológico. Dessa forma, o comportamen-to alimentar deve envolver todas as formas de convívio com o alimento. Entendido como um pro-cesso, o comportamento alimentar constitui um conjunto de ações realizadas com relação ao alimento, que têm início no momento da decisão e envolvem a disponibilidade, o modo de preparar, os utensílios usados, as características, os horários e a divisão da alimentação nas refeições do dia, as preferências e aversões alimentares e final-mente encerra com o alimento sendo ingerido37.

O comportamento está inserido em uma definição ainda mais complexa, que é a atitude alimentar. Alvarenga et al.38definiram atitude ali-mentar como crenças, pensamentos, sentimen-tos, comportamentos e relacionamento para com os alimentos. Esta visão engloba, portanto, as cognições e os conhecimentos que o indivíduo tem sobre alimentação e a carga afetiva em rela-ção aos alimentos. Estes fatores predispõem a determinadas ações que marcam o relaciona-mento de uma pessoa com sua alimentação.

Obviamente a atitude alimentar não é defi-nida por parâmetros biológicos e o ambiente so-cioemocional de um indivíduo tem papel funda-mental em relação a suas atitudes. É possível ima-ginar a existência de múltiplos padrões de atitude alimentar com variáveis graus de distanciamento (ou aproximação) de uma situação saudável. Uma atitude alimentar saudável em relação ao alimento envolveria, portanto, um entendimento do seu papel fisiológico, emocional e social, e não apenas a ausência de comportamentos alimentares inade-quados (como os presentes nos TA).

Quando as atitudes alimentares são leva-das em consideração, o alimento deixa de fazer parte apenas da esfera fisiológica, e as pessoas não baseiam suas escolhas alimentares somente no valor nutricional ou na contribuição energética dos alimentos. Assim, uma pessoa cujo consumo alimentar alcance todas as suas necessidades nutricionais pode não ter uma atitude alimentar adequada - caso da ortorexia nervosa -, e essa alimentação não poderia ser então considerada verdadeiramente saudável.

Tais considerações levantam alguns ques-tionamentos acerca da visão do nutricionista sobre alimentação saudável, fruto de uma formação acadêmica excessiva e/ou até mesmo exclusiva-mente baseada na qualidade nutritiva da dieta. Esse tipo de visão poderia gerar crenças e compor-tamentos ortoréxicos, que por sua vez seriam transmitidos aos seus pacientes e clientes, em um efeito do tipo dominó.

Beumont et al.3ressaltam que "o comer adequadamente não está relacionado apenas com a manutenção da saúde, mas também com um comportamento socialmente aceitável, flexibili-dade e satisfação". Assim, entende-se que o con-ceito de alimentação saudável deva ser explorado em toda sua amplitude.

As necessidades e os recursos que envol-vem a alimentação englobam todo o campo culi-nário e gastronômico, inclusive as culturas popu-lares, as influências religiosas, a biologia e a me-dicina. Também afetam e são afetados por oscila-ções econômicas, acontecimentos políticos, ten-sões sociais, condições meteorológicas, medidas fiscais e fenômenos sanitários. Por esse motivo, sabe-se que dentre outros assuntos relacionados a uma vida saudável, talvez o mais complexo de definir, nas atuais circunstâncias, seja de fato a alimentação. Desse modo, o conceito de alimen-tação saudável pode diferir quando se consideram culturas diferentes, ainda que seja construído com os mesmos princípios básicos. Por esse motivo, é importante conhecer os fatores geográficos, eco-nômicos, sociais e psicológicos que juntos deter-minarão as escolhas alimentares em grupos dis-tintos e específicos37.

Num exercício de assumir a alimentação como o resultado de múltiplas interações entre o biológico e o sociocultural, buscando também a humanização da abordagem sobre alimentação saudável, alguns autores têm alertado sobre o perigo de que os profissionais de saúde enxer-guem o corpo apenas como "domicílio dos nu-trientes" que "dão sentido à orientação sobre uma alimentação saudável" e refutem outras dimensões, "coibindo valores simbólicos inscritos na alimentação cotidiana"39. Os autores enten-dem que "as condições alimentares são decorren-tes de um sistema complexo das relações sociais e que os fatores biológicos estão incessantemente comungados aos efeitos das produções da reali-dade social". Poulain & Proença40propõem o con-ceito de "espaço social alimentar" como "um ins-trumento de estudo dos modelos alimentares, assinalando a conexão bioantropológica de um grupamento humano ao seu meio. Neste conceito destacam-se seis dimensões principais que foca-lizam espaços e sistemas diversos: o comestível, a produção alimentar, o culinário, os hábitos de consumo alimentar, a temporalidade e as diferen-ciações sociais". Assim, Poulain & Proença40consi-deram um modelo alimentar como sendo "a configuração particular do espaço social alimen-tar".

Ao percorrer o trilho dessa discussão sobre alimentação saudável, observa-se uma linha multi-facetária que engloba aspectos culturais, sociais, econômicos, nutricionais, psicológicos, ambien-tais, religiosos e tecnológicos entre outros. Dessa forma, parece evidente que os comportamentos alimentares saudáveis devem apresentar certo equilíbrio harmônico entre os diversos aspectos envolvidos com a alimentação humana.

 

CONCLUSÃO

Ainda há um longo caminho de investi-gação científica a ser percorrido para que a orto-rexia nervosa seja amplamente conhecida e com-preendida. São necessários mais estudos para descrever de modo mais completo o comporta-mento ortoréxico, sua etiologia, possível diagnós-tico, tratamento, grupos e/ou populações vulne-ráveis. Embora a ortorexia nervosa ainda não seja oficialmente reconhecida como um TA, estudos sobre esse comportamento alimentar poderão embasar o seu possível futuro reconhecimento. Ademais, trabalhos sobre esse tema poderão fornecer aos profissionais da área de saúde infor-mações necessárias para que possam identificar o indivíduo com comportamento ortoréxico e encaminhá-lo ou tratá-lo adequadamente.

O desenvolvimento do presente trabalho levantou uma temática nova e pouco discutida em nutrição. Destaca-se a importância de que pro-fissionais da área da saúde estejam atentos e atualizados sobre o ato de comer e suas implica-ções. O conceito e a adoção de hábitos saudáveis e seguros na alimentação devem estar afastados de atitudes e práticas obsessivas e perfeccionistas, ainda que elas sejam motivadas por um desejo de alcançar a pureza da dieta a qualquer custo.

A prevalência da ortorexia nervosa ainda é desconhecida em nossa sociedade. Os trabalhos disponíveis até o momento foram realizados em lugares muito diversos (Alemanha, Áustria, Itália, Suécia e Turquia), em amostras pequenas e espe-cíficas, de modo que a tradução para nossa reali-dade deve ser feita de forma muito cuidadosa, visto não ser possível uma universalização dos resultados. Entretanto, apesar das possíveis limi-tações metodológicas e da necessidade de maior definição conceitual presente nos poucos estudos realizados até o momento sobre a ortorexia ner-vosa, os resultados apontam para algumas ten-dências em certos grupos, como profissionais da área de saúde - por exemplo, médicos e nutri-cionistas. Assim, talvez seja apropriado iniciar estu-dos em nosso meio, fazendo um levantamento desse comportamento alimentar alterado em po-pulações aparentemente mais vulneráveis. A in-vestigação da prevalência da ortorexia nervosa em tais populações, acompanhada de esclare-cimentos e orientações adequadas, pode ser ins-trumento útil para que esses profissionais en-contrem o devido equilíbrio em suas práticas ali-mentares pessoais e evitem disseminar orienta-ções rígidas sobre alimentação saudável em sua prática profissional.

COLABORADORES

M.C.T. MARTINS concebeu e desenvolveu a ideia básica para o presente estudo, conduziu a elabo-ração do projeto de pesquisa, efetuou a busca bi-bliográfica, participou da discussão e da interpretação dos resultados e preparou a redação final do artigo. M.S. ALVARENGA e F.B. SCAGLIUSI participaram da elaboração do projeto de pesquisa, da busca bibliográ-fica, da discussão e interpretação dos resultados e da elaboração do artigo final. S.V.A. VARGAS e K.S.C.J. SATO participaram da elaboração do projeto de pes-quisa, da busca bibliográfica e da redação inicial do artigo.

 

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Recebido em: 6/11/2009
Versão final reapresentada em: 26/5/2010
Aprovado em: 3/11/2010

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