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Revista de Nutrição

Print version ISSN 1415-5273

Rev. Nutr. vol.24 no.5 Campinas Sept./Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732011000500004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Padrões alimentares de adolescentes na cidade de São Paulo1

 

Eating patterns of eutrophic and overweight adolescents in the city of São Paulo, Brazil

 

 

Aline Giacomelli SalvattiII ; Maria Arlete Meil Schimith EscrivãoII; José Augusto de Aguiar Carrazedo TaddeiII ; Mario Maia BraccoIII

IArtigo elaborado a partir da dissertação de mestrado de A. G. Salvatii, intitulada "Comparação dos padrões de consumo alimentar entre adolescentes eutróficos e com excesso de peso". Universidade Federal de São Paulo; 2010. Apoio: o presente estudo faz parte de um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), protocolo nº 03/00415-4.
IIUniversidade Federal de São Paulo, Departamento de Pediatria. R. Loefgreen, 1647, 04040-032, São Paulo, Brasil. SP. Correspondência para/Correspondence to: J.A.A.C. TADDEI.
IIICentro Assistencial Cruz de Malta. São Paulo, SP, Brasil.
taddei.dped@epm.br; nutsec@yahoo.com.br.

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Identificar os padrões alimentares de adolescentes eutróficos e com excesso de peso.

MÉTODOS: Estudo transversal envolvendo 239 adolescentes de ambos os sexos, na faixa etária de 14 a 19 anos, alunos de uma escola pública da cidade de São Paulo, Brasil. Foram coletados dados antropométricos e registro alimentar de 4 dias. O estado nutricional foi avaliado pelo índice de massa corporal de acordo com os critérios de Must et al., e foi aplicada análise fatorial para a identificação dos padrões alimentares.

RESULTADOS: Foram identificados quatro padrões alimentares: tradicional, urbano, saudável e junk food. O estado nutricional de eutrofia teve associação positiva com os padrões tradicional e urbano, o sobrepeso com os padrões saudável e junk food, e a obesidade associou-se negativamente com os padrões urbano, saudável e junk food.

CONCLUSÃO: O padrão saudável foi encontrado entre os adolescentes com sobrepeso, evidenciando preocupação com o controle do peso e tentativa de mudança do hábito alimentar. Entre os obesos, a ocorrência do sub-relato provavelmente tenha influenciado o resultado das associações.

Termos de indexação: Adolescente. Análise fatorial. Comportamento alimentar. Estado nutricional.


ABSTRACT

OBJECTIVE: This study identified the dietary patterns of normal weight and overweight adolescents.

METHODS: This was a cross-sectional study of 239 adolescents from a public school in São Paulo, Brazil; of both sexes, aged 14 to 19 years. Anthropometric data and 4-day dietary records were collected. Nutritional status was assessed by body mass index, according to the criteria established by Must et al. Factor analysis was used to identify dietary patterns.

RESULTS: This assessment resulted in the identification of four dietary patterns: Traditional, Urban, Healthy, and Junk Food. Normal weight was positively associated with the Traditional and Urban patterns, and overweight was positively associated with the Healthy and Junk Food patterns. Lastly, obesity was negatively associated with the Urban, Healthy and Junk Food patterns.

CONCLUSION: The Healthy pattern was found among overweight adolescents who were concerned with weight control and trying to change eating habits. Among the obese, the occurrence of underreporting probably influenced the outcome of the associations.

Indexing terms:Adolescent. Factor analysis, statistical. Feeding behavior. Nutritional status.


 

 

INTRODUÇÃO

Sobrepeso e obesidade na infância e na adolescência são importantes problemas de saúde pública, com aumento crescente da incidência e da prevalência em todo o mundo. Dados da Orga-nização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, na população mundial, 10,0% das crianças e dos adolescentes entre cinco e 17 anos apresentam excesso de peso1. Entre os adolescentes brasileiros de 10 a 19 anos, 19,4% das meninas e 21,7% dos meninos encontram-se nessas mesmas con-dições2.

A obesidade iniciada na infância e na ado-lescência pode permanecer na fase adulta e levar ao desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis, como o diabetes tipo 2 e as doen-ças cardiovasculares, reduzindo a qualidade e a expectativa de vida1,3. As doenças crônicas não transmissíveis são as principais causas de morte em todo o mundo, inclusive nos países de baixa e média renda, ultrapassando em mortalidade as doenças infecciosas4.

As crianças e os adolescentes já podem apresentar as consequências da obesidade, como problemas osteoarticulares, apneia do sono, disli-pidemias, hipertensão arterial, alterações do me-tabolismo da glicose, além dos prejuízos psicos-sociais provocados pelo estigma dessa doença1,3,4.

O aumento da prevalência de obesidade na infância e na adolescência é influenciado por mudanças no estilo de vida e nos hábitos alimen-tares. Entre as mudanças ocorridas na alimentação da população brasileira, destaca-se o aumento do consumo de alimentos e bebidas industriali-zados, ricos em açúcar e gorduras, que apresen-tam, em geral, alto teor energético. Paralelamente ao aumento do consumo desses alimentos, observa-se a diminuição da ingestão de frutas, verduras e legumes5. O tamanho das porções dos alimentos industrializados também tem aumen-tado de maneira expressiva ao longo do tempo6.

Estudos realizados com a população bra-sileira revelam mudanças nos hábitos alimen-tares7,8. Entre os adolescentes, vem ocorrendo substituição de alimentos tradicionais, como o arroz e o feijão, por alimentos de baixo conteúdo nutricional e alta concentração energética, como os fast foods e as guloseimas6.

Sanchez-Villegas et al.9, analisando pa-drões alimentares em população espanhola, verificaram que adolescentes mais velhos apre-sentam uma maior tendência de adotar o padrão de consumo junk food. Isso pode ser atribuído ao fato de o adolescente estar em fase de contes-tação e busca por independência, o que propicia o rompimento com os hábitos alimentares tradi-cionais da família. O maior número de compro-missos e a necessidade de identificação com seus pares também costumam afetar a escolha alimen-tar do adolescente10.

O hábito alimentar é determinado pela acessibilidade e pela disponibilidade dos alimen-tos, pelo nível socioeconômico, entre outros fato-res10. Dificilmente variáveis associadas apenas ao indivíduo explicam as escolhas alimentares8.

Os hábitos alimentares inadequados, adquiridos na infância e na adolescência, podem exercer grande influência no desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis11, mas a rela-ção entre dieta e doença nem sempre é detectada nos estudos epidemiológicos devido às dificul-dades de se avaliar com precisão a ingestão ali-mentar6.

As avaliações do consumo alimentar ge-ralmente são baseadas no cálculo da ingestão energética total, dos macro e micronutrientes, ou na análise de um único nutriente12. Porém, os indi-víduos não consomem nutrientes isoladamente e sim refeições compostas por grande variedade de nutrientes, que sofrem interações - facilitando ou dificultando sua absorção - que dificultam a de-tecção dos efeitos de cada nutriente separada-mente. As preparações e o cozimento também influenciam o valor nutricional dos alimentos. So-mando-se a isso, existe a dificuldade de se men-surar a dieta habitual de forma acurada e precisa, devido às limitações dos instrumentos disponíveis e ao viés do informante6,13.

O estudo de conjuntos ou grupos de ali-mentos tem a vantagem de superar parte dessas limitações e expressar melhor a dieta consumida por uma dada população6. A identificação desses conjuntos ou grupos de alimentos é feita por meio de métodos estatísticos de redução e/ou agrega-ção de componentes, formando os padrões ali-mentares14. Os padrões alimentares podem ser detectados pela análise fatorial, que utiliza as cor-relações entre os vários alimentos consumidos para descrever o padrão alimentar geral6. Essa análise costuma ser realizada para avaliar o efeito positivo ou negativo de múltiplos fatores alimen-tares na saúde dos indivíduos15.

Um dos primeiros estudos que trabalharam com padrões alimentares foi o de Schwerin et al.16, que avaliou a ingestão alimentar da população americana, usando a análise fatorial para conver-ter o consumo alimentar em algo mais significativo do que componentes isolados da dieta. A partir daí, outros estudos associaram padrões alimen-tares com fatores de risco à saúde15,17-19.

A OMS recomenda o estudo de grupos de alimentos ao invés de nutrientes isoladamen-te20. A avaliação de padrões de consumo alimen-tar, mais do que a ausência ou a presença espe-cífica de nutrientes, indica a capacidade da dieta em promover saúde ou desenvolver doenças na população estudada15, podendo gerar conheci-mentos para subsidiar o planejamento de medidas de promoção da saúde21. O estudo dos padrões de consumo alimentar também permite avaliar a disponibilidade de alimentos e a inserção da popu-lação nos diferentes cenários socioeconômicos8.

Considerando as modificações dos hábitos alimentares das últimas décadas, a dificuldade de se analisarem nutrientes isoladamente e a es-cassez de estudos na literatura relacionando pa-drões de consumo alimentar e estado nutricional em adolescentes, o presente estudo teve como objetivos identificar os padrões de consumo ali-mentar de uma população de adolescentes e veri-ficar possíveis associações com o estado nutri-cional.

 

MÉTODOS

Este estudo faz parte do Projeto Estudos Clínicos sobre Crescimento, Comportamento, Hipertensão Arterial, Obesidade e Saúde Bucal (ECCCHOS)13, que teve como objetivo detectar fatores de risco e morbidades associados ao excesso de peso em adolescentes matriculados em uma escola pública, na cidade de São Paulo, por meio de avaliações clínicas, antropométricas, laboratoriais, de hábitos alimentares e de estilo de vida. O delineamento do Projeto ECCCHOS foi do tipo caso-controle, em que os casos foram representados pelos adolescentes com sobrepeso ou obesidade, e os controles, pelos adolescentes eutróficos. Para cálculo da amostra, considerou-se a prevalência de obesidade familiar entre os controles de 25%. Assumindo poder de 80% e erro tipo 1 de 5%, a amostra resultou em 65 casos e 65 controles, com acréscimos de 10% para as eventuais perdas e 10% para a análise estrati-ficada, chegando-se ao total de 78 casos e 78 controles.

Foram pesados e medidos 1.420 adolescentes (98,68% do total de alunos) de uma escola pública. A seleção dos adolescentes para o estudo seguiu a ordem da lista de chamada. Adolescentes gestantes e lactantes não foram incluídas na amostra. Os eutróficos foram escolhidos a partir da seleção de obesos ou sobrepesos para o pa-reamento, segundo sexo, idade e série, e consti-tuíram o grupo-controle. Foram elegíveis para o estudo 340 adolescentes; destes, 77 se recusaram a participar. Dos 263 adolescentes que aceitaram participar do projeto, 13 foram excluídos por apre-sentarem doenças agudas ou outras doenças crônicas além da obesidade, totalizando 250.

No presente estudo, 11 adolescentes foram excluídos por não terem preenchido o registro alimentar de quatro dias corretamente. Dessa forma, foram analisados os dados antropométricos e nutricionais de 239 adolescentes de 14 a 19 anos, sendo 128 meninas (53,56%) e 111 meninos (46,44%), em estágio de desenvolvimento puberal 4 ou 5, segundo os critérios de Tanner22. A amostra foi dividida em 3 grupos de acordo com o estado nutricional: eutróficos, com sobrepeso e obesos. Para determinação do peso corporal, foi utilizada uma balança eletrônica tipo plataforma, da marca Kratos®, modelo "Linea", com capacidade mínima de 1,25kg e máxima de 150kg, e com precisão de 50 gramas, disposta em superfície firme e plana. A balança era aferida antes de cada pesagem. Os adolescentes foram pesados descalços e trajando roupas leves. Na determinação da estatura foi utilizado um estadiômetro portátil da marca Alturexata®, com escala em milímetros, fixado em superfície perpendicular ao solo. Os adolescentes ficavam descalços, com os pés unidos, joelhos esticados, cabeça orientada no plano horizontal de Frankfurt, sendo as medidas realizadas duas vezes, utilizando-se a média como valor final. Os valores do peso corporal foram expressos em quilogramas e os da altura em metros, e utilizados para calcular o Índice de Massa Corporal (IMC) = peso, em quilos, dividido pela estatura, em metros, ao quadrado. Para a classificação do estado nutricional dos adolescentes, foram utilizados os critérios de Must et al.23, considerando como eutrofia, os valores> de IMC acima do percentil 5 e abaixo do percentil 85; como sobrepeso, os valores de IMC entre os percentis 85 e abaixo de 95, e como obesidade, os valores a partir do percentil 9523. O consumo alimentar foi estimado por meio do registro alimentar de 4 dias, sendo 3 dias durante a semana e um no final de semana. A avaliação do consumo energético (em quilocalorias) e a distribuição dos macronutrientes (em gramas) foram obtidas utilizando-se o Nutwin (Programa de Apoio à Nutrição, versão 1.5, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo; 2002). Foram inseridos os alimentos que não apresentavam informações nutricionais registradas no programa, utilizando-se tabelas de composição centesimal que contemplavam seus nutrientes; para os alimentos industrializados, foram utilizadas as informações nutricionais contidas em seus rótulos. Para a análise dos padrões de consumo alimentar, os itens encontrados nos registros foram agrupados de acordo com a semelhança do conteúdo nutritivo ou composição botânica14, resultando em 30 grupos de alimentos (Tabela 1). As análises foram focadas no consumo dos alimentos relatados e na sua identificação nos grupos de alimentos.

Para a denominação dos padrões foi utilizada nomenclatura idêntica ou semelhante à de outros estudos realizados, com a mesma metodologia, na população brasileira17,19.

Análise estatística

Os questionários foram previamente avaliados quanto à sua consistência, e as questões abertas foram codificadas e posteriormente os dados foram digitados no software "Epi Info" (Epi Info, versão 6.0, Centers for Disease Control and Prevention, Atlanta, GA, USA;1994). Os dados foram duplamente digitados e validados com vistas à correção de eventuais erros. Os padrões alimentares foram identificados pela Análise Fatorial por Componentes Principais (ACP), utilizando-se o programa Statistical Package for the Social Science (SPSS, versão 13.0, Chicago, IL, USA; 1999). Essa técnica foi utilizada com o objetivo de identificar padrões alimentares a partir de medidas-resumo (grupos de alimentos apresentados na Tabela 1), considerando-se a média da quantidade consumida nos 4 dias de cada alimento/preparação. A ingestão alimentar foi ajustada pelo consumo total de energia, usando-se o método residual24. Esta análise foi dividida em etapas: preparação da matriz de correlação, extração de um conjunto de fatores da matriz de correlação, deterdeterminação do número de fatores e a rotação dos fatores para aumentar sua interpretabilidade14. As combinações de variáveis observadas em cada fator, em especial os itens que apresentavam carga fatorial maior, foram importantes para a interpretação e denominação dos fatores. O primeiro passo da análise foi verificar se as variáveis eram métricas e se o tamanho da amostra era igual ou maior do que 15012,14. Para cada variável estudada, deve-se ter, no mínimo, 5 indivíduos14. No presente estudo, o número total da amostra foi de 239 indivíduos, com 30 variáveis (grupos de alimentos); portanto, a razão encontrada entre o número de casos e o número da amostra foi igual a 7,96, excedendo o número mínimo requerido. A matriz de correlação de variáveis deve conter duas ou mais correlações iguais ou maiores do que 0,3. Nesse estudo, 25 variáveis apresentaram correlação acima desse valor.

A adequação dos dados para a análise fatorial foi confirmada pelos testes Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling Adequacy (KMO) e Bartlett Test of Sphericity (BTS)12,14. O valor encontrado para o KMO foi de 0,703, indicando bom ajuste da análise fatorial; a significância para o BTS foi menor que 0,001, permitindo novamente confir-mar a possibilidade e a adequação do método de análise fatorial para o tratamento dos dados.

Também foi verificada a adequação de cada variável à análise fatorial, utilizando-se a matriz de correlação anti-imagem, em cuja diagonal as medidas de adequação das variáveis são alo-cadas. A medida de adequação deve ser maior do que 0,50 para cada variável do estudo.

Após essas verificações, foi selecionada a rotação Varimax para a obtenção de fatores não correlacionados entre si. O número de fatores a serem extraídos na análise foi definido pelo mé-todo de análise paralela, com o objetivo de se obter um número de fatores que possibilitasse a identificação de padrões interpretáveis25. Utili-zando-se a matriz fatorial rotacionada, foram ge-rados 4 fatores (padrões alimentares), represen-tando o consumo alimentar da população em estudo (Tabela 2).

A última etapa consistiu no cálculo dos escores fatoriais para cada indivíduo, possibi-litando que cada um tivesse um escore fatorial em todos os padrões identificados e posicionando—o segundo o grau de participação em cada pa-drão12,14. As associações entre os escores fatoriais dos diferentes padrões alimentares e as três con-dições nutricionais (eutrofia, sobrepeso e obesi-dade) foram avaliadas pela análise de variância, sem estratificação por sexo, adotando-se o nível de significância de 5%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo - processo número 0028/10, e todos os participantes assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido antes de sua inclusão na amostra.

 

RESULTADOS

Características gerais da amostra

A Tabela 3 descreve características da amostra - idade, dados antropométricos e consu-mo alimentar - de acordo com a condição nutri-cional. O consumo energético foi semelhante nos três grupos (eutróficos, sobrepesos e obesos). O consumo de carboidratos e lipídeos foi significan-temente menor nos dois grupos com excesso de peso e o de proteínas foi maior no grupo de obe-sos (Tabela 3).

Padrões alimentares da amostra estudada

Foram identificados quatro padrões ali-mentares, representando o consumo da população em estudo, explicando 33,56% da variabili-dade total dos dados.

As características de cada fator, como a denominação, a variância total correspondente e os alimentos que contribuíram de forma mais rele-vante, estão descritas abaixo:

Padrão 1 (tradicional): explicou 10,95% da variância total. Nesse fator, os alimentos que contribuíram de forma significativa foram: arroz, feijão e outras leguminosas, farinhas, carne bovina e óleos.

Padrão 2 (urbano): correspondeu a 9,11% da variância total. Os alimentos incorporados a esse fator foram: tubérculos, leite (integral e semi-desnatado) e derivados, pães, bolachas, bolos e tortas doces, embutidos, manteiga e margarina, achocolatados, condimentos e macarrão instan-tâneo.

Padrão 3 (saudável): representou 8,02% da variância total. Os alimentos que mais contri-buíram para esse fator foram: leite e iogurte des-natados, verduras, legumes, frutas, sucos naturais, carnes de aves e peixes.

Padrão 4 (junk food): representou 5,51% da variância total. Os alimentos que compõem esse fator são: refrigerantes, açúcar, bebida al-coólica, sobremesa láctea, cafés, doces, sorvete, chocolate, picolé de frutas e frituras.

Padrões alimentares e estado nutricional

Verificou-se que os adolescentes com esta-do nutricional de eutrofia apresentavam as-sociação significante e positiva com os padrões tradicional e urbano, e negativa com os padrões saudável e junk food. Os adolescentes com sobre-peso tiveram associação significante e positiva com os padrões saudável e junk food; os obesos, associação positiva apenas com o padrão tradi-cional e inversa com os outros padrões (Figura 1).

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo permitiu caracterizar quatro padrões alimentares, que representam o consumo da população em análise e explicam 33,56% da variabilidade total dos dados, o que corrobora outros estudos encontrados na litera-tura com o mesmo número de padrões15,26.

O padrão tradicional,caracterizado por ali-mentos presentes na alimentação dos brasileiros, como arroz, feijão, carne e farinha, apresenta se-melhanças com o padrão de nomenclatura idên-tica de outros estudos8,15,17. O grupo que apresen-tou maior aderência a esse padrão foi o de eutró-ficos, e a menor aderência foi verificada entre os adolescentes com sobrepeso. Estudos semelhan-tes realizados com adultos revelaram que a dieta tradicional brasileira, baseada em arroz e feijão, protege contra o excesso de peso8,19,27.

O padrão urbano foi constituído por leite e derivados, pães, embutidos, bolachas, achocola-tados, macarrão instantâneo, que são alimentos de fácil preparo e bastante consumidos pelos ado-lescentes em substituição aos alimentos presentes no padrão tradicional. Esse padrão também obte-ve média de escores fatoriais individuais maiores no grupo de adolescentes eutróficos. Nos grupos com sobrepeso e obesidade, o padrão urbano apresentou baixa aderência, talvez pela omissão do consumo dos alimentos desse padrão pelos adolescentes com excesso de peso. Resultado di-ferente foi encontrado por Shin et al.28, que veri-ficaram que o alto consumo de macarrão instan-tâneo e embutidos era determinante para o excesso de peso em crianças coreanas.

O padrão alimentar saudável recebeu essa denominação por ser composto por alimentos ri-cos em vitaminas, minerais, fibras, gorduras mono e poli-insaturadas e com baixos teores de açúca-res, gorduras trans e saturadas. O padrão saudável foi mais consumido pelo grupo que apresentava sobrepeso. Uma hipótese para explicar esse acha-do seria a tentativa de controle do peso corporal pela mudança do hábito alimentar com o consu-mo de alimentos saudáveis.

Okubo et al.29, estudando padrões alimen-tares de mulheres japonesas de 18 a 20 anos, en-contraram correlações positivas entre padrão saudável e maiores consumos de vitamina C, po-tássio, magnésio, cálcio e fibra dietética, e correla-ções negativas com carga e índice glicêmicos.

O padrão denominado junk food foi ca-racterizado pela alta ingestão de guloseimas como chocolates, sorvetes, açúcar de adição, frituras (batata frita, hambúrguer, empanados, pipoca, bacon), refrigerantes e bebidas alcoólicas. Esse padrão foi menos consumido pelos adolescentes eutróficos e mais por aqueles que apresentavam sobrepeso. Os alimentos desse padrão têm alta densidade energética, são ricos em açúcares, gor-duras saturadas e trans e sódio e são considera-dos de risco para o desenvolvimento das doenças crônicas não transmissíveis, como o diabetes tipo 2 e as doenças cardiovasculares17.

Um estudo semelhante realizado com crianças e adolescentes coreanos encontrou as-sociação entre o padrão "pizza e drinks" e maior percentual de gordura corporal entre as meni-nas26. O padrão junk food pode estar relacionado à alimentação fora de casa e às outras caracte-rísticas da escolha alimentar do adolescente, como boa palatabilidade, aceitação, status e praticidade na preparação, além da influência da mídia, que anuncia mais as guloseimas e os alimentos e be-bidas presentes nos restaurantes do tipo fast—food17,30.

O grupo de indivíduos obesos apresentou pouca aderência a todos os padrões identificados. Foi observada associação positiva apenas com o padrão tradicional, embora com menor média de escore fatorial em comparação com o grupo de eutróficos. Isso pode ser explicado pelo sub-relato, que é o não relato de alimentos de fato consu-midos no registro alimentar, ou pela redução e/ou modificação do consumo habitual nos dias da coleta de dados, comportamentos frequente-mente observados entre obesos.

A relação entre consumo alimentar e obe-sidade nem sempre é evidenciada em estudos transversais. Alguns autores verificaram que indi-víduos obesos consumiam quantidades iguais ou menores do que as consumidas pelos eutróficos, revelando tendência dos obesos ao sub-relato8,31. No presente estudo, também não foram observa-das diferenças no consumo energético entre os três estados nutricionais, e o consumo de car-boidratos e lipídeos foi menor nos grupos com excesso de peso. Summerbell et al.32 analisaram a relação entre estado nutricional e padrões de consumo alimentar, observando subestimação do consumo de lanches e da ingestão calórica total no grupo de adolescentes obesos, principalmente entre as meninas. Da mesma forma, Craig et al.33 observaram, em crianças escocesas, menor consu-mo dos alimentos do padrão snacks, que equivale ao padrão junk food encontrado neste estudo entre os meninos obesos.

Uma limitação do estudo, comum a todos que avaliam consumo alimentar, foi a utilização de inquéritos dietéticos, considerados de baixa acurácia. Entretanto, tais instrumentos são habi-tualmente utilizados em estudos populacionais. Uma alternativa seria o uso de marcadores bioquí-micos, porém as técnicas são extremamente dis-pendiosas e avaliam um nutriente de cada vez34. Considerando que não existe um método ideal para avaliação do consumo alimentar, neste tipo de estudo, o registro alimentar foi escolhido por não recorrer à memória do indivíduo e ser um formulário aberto, que acomoda número ilimitado de alimentos12. O registro alimentar pode ser feito em período de 1 a 7 dias, mas recomenda-se não ultrapassar 3 a 4 dias para evitar a fadiga do entrevistado35. Além disso, há evidências de que exista menor sub-relato no registro alimentar quando comparado ao questionário de frequência alimentar, que avalia o consumo retrospectivo36.

 

CONCLUSÃO

Entre os adolescentes eutróficos foi encon-trado maior consumo de alimentos tradicionais da alimentação brasileira e menor ingestão de guloseimas e bebidas industrializadas, eviden-ciando que esse hábito alimentar pode ser prote-tor contra o excesso de peso.

Nos indivíduos com sobrepeso, apesar do consumo de alimentos do padrão junk food, houve predomínio de ingestão dos alimentos do padrão saudável, sugerindo preocupação com o controle de peso e tentativa de mudança do hábi-to alimentar nesse grupo.

Nos adolescentes obesos, a presença do sub-relato provavelmente tenha influenciado as associações entre os padrões alimentares e o esta-do nutricional.

 

COLABORADORES

A.G. SALVATTI participou da concepção do tra-balho, da coleta, da análise e da interpretação dos resultados e da redação do artigo. M.A.M.S. ESCRIVÃO participou da concepção do trabalho, da interpretação dos resultados e da redação do artigo. J.A.A.C. TADDEI participou da concepção do trabalho, interpretação dos resultados e revisão crítica do artigo. M.M. BRACCO participou da revisão crítica do artigo.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em: 3/8/2010 versão final reapresentada em: 10/11/2010 Aprovado em: 31/5/2011